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O DESCANSADOURO DA ESCADA MAR

Quinta-feira, 23.01.14

Em área, o Descansadouro da Escada Mar, era, sem sombra de dúvida, o maior de quantos descansadouros existiam na Fajã Grande, ultrapassando de longe os maiores, como o do Alagoeiro ou o do Pico Agudo.

Assim, ocupando uma extensa área, mesmo ali quase de debaixo da Rocha, um pouco a seguir ao Cabeço da Silveirinha, o Descansadouro da Escada Mar integrava e situava-se, praticamente, a meio do longo caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros, precisamente no cruzamento que dava para o Pocestinho. Este Descansadouro servia para pausa e repouso aos homens que vinham carregados com molhos, cestos ou sacos, transportando, às costas, incensos, lenha, inhames, maçãs, erva-santa, fetos e muitos outros produtos dos lugares do Curralinho, Lavadouros, Alagoinha, Mateus Pires, Pico Agudo, Paus Brancos, do Pocestinho e de toda a zona da Rocha, desde a Silveirinha até aos Lavadouros. Por isso eram muitos os habitantes da Fajã que, exaustos e cansados, no regresso destas paragens, ali interrompiam a sua caminhada, fazendo uma pausa. Fumava-se (trocando-se lume e cigarros), conversava-se, faziam-se contractos e acordos e, sobretudo, descansava-se porque as distâncias eram longas, o piso do caminho e, sobretudo, o das canadas contíguas era muito íngreme e sinuoso, e as cargas eram pesadíssimas.

O facto de este Descansadouro ser muito espaçoso e ter uma posição estratégica relativamente aos caminhos que servia, permitia que ele fosse também utilizado para descanso dos animais quando puxavam o corsão ou o carro. Poucos dos outros descansadouros da freguesia se podiam vangloriar do mesmo, sobretudo devido à descomunal exiguidade de que eram detentores e que não permitia o estacionamento daqueles meios de transporte e carregamentos.

No Descansadouro da Escada Mar ou Escada do Amaro, como se chamava nos tempos primitivos, as paredes destinadas a colocar as cargas estavam dos lados norte e leste, neste caso ficando de costas para a rocha. Uma e outra destas paredes, de tão altas que eram, protegiam os que ali se acaçapavam ou se encostavam, evitando os ventos mais fortes e a chuva. Além disso, junto à parede norte havia uma tosca bancada de pedra onde os homens se sentavam e abrigavam.

Situado no interior de um pequeno planalto, que abrangia quase todo o lugar da Escada Mar, este Descansadouro, no entanto, não beneficiava de nenhuma vista agradável e bela, nem de fornecimento de água, pois por ali não havia nenhuma nascente. No entanto, situado na proximidade da rocha, que o cercava e protegia parcialmente, esta concedia-lhe uma impressionante imponência, uma enorme monumentalidade e uma graciosidade única e inexaurível. Dominava-o um enorme e transcendente silêncio, envolvia-o uma solene e estranha magnanimidade, cercava-o um perfume de frescura e povoava-o, nos momentos de ausência humana, uma espécie de paz contemplativa, serena e inebriante.

Meu pai, tinha ali mesmo em frente uma relva, pouco fértil e produtivamente muito debilitada, a ponto que dali nada se tirava a não ser fetos secos, após a ceifa do verão. Mas mesmo assim a safra era muito limitada. Por isso, era quando vinha, acompanhado de meu pai, do Pocestinho ou do Pico Agudo, lugares onde tínhamos terras de mato, carregadíssimos com molhos de lenha, erva-santa, cana roca, incensos ou cama para o gado que o repouso no Descansadouro da Escada Mar me sabia como mel na sopa.

Descansadouro da Escada Mar um testemunho idílico num passado austero e rígido, mas intransigente e dignificante, uma quimera desfeita a perder-se sobre memórias soltas, dispersas e esbatidas.

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publicado por picodavigia2 às 17:48

BONABOIÃO

Quinta-feira, 23.01.14

Enquanto o fronteiro, D. Paio de Farroncóbias, embainhava a espada, Pedro Fogaça aproveitava para se ir informando sobre as intenções de el-rei de Leão, D. Afonso VII, relativamente a uma possível aceitação da independência do Condado. O fronteiro esclareceu:

- D. Afonso VII está preocupado com as ataques do rei de Navarra e com a necessidade de os travar e impedir, por isso, não pode, pelo menos nos próximos tempos, atacar-nos. Foi essa a razão por que D. Afonso Henriques lhe prestou vassalagem e assinou com ele a paz, em Tui. Sabe muito bem o Príncipe que el-rei de Leão, nestes últimos tempos, não o atacará e, por isso mesmo, pôde voltar-se para sul, com o intuito de afastar os infiéis sarracenos e alargar as fronteiras do nosso Condado. E em boa hora o fez, pois com esta retumbante vitória, decerto que os sarracenos irão cessar, pelo menos durante algum tempo, os seus combates e o primo há-de temê-lo cada vez mais. A assinatura com D. Afonso VII de um Tratado de Paz e a vassalagem que lhe prestou, foram apenas estratégias, reveladoras da grande perspicácia do Príncipe, para conseguir obter uma paz periódica que permita uma investida a sul. Tratou-se de um tratado de interesses, ilustre Pero Fogaça, senhor de Lubisonda - e batia-lhe com a palma da mão nas costas, – de um verdadeiro tratado de interesses, ao qual de facto D. Afonso Henriques não se submeteu nem se submeterá jamais. Por isso, não desistimos, nem nunca desistiremos da independência deste Condado. Viva Portugal! Viva El-rei D. Afonso Henriques! Além disso, várias mesnadas de muitos ricos-homens se têm levantado contra os galegos. Há dois dias que me separei de sua Alteza, porque ele pretende voltar à Galiza, para exigir de Afonso VII a independência. Eu, amanhã, seguirei para a minha querida cidade Trancoso, a fim de impedir quaisquer levantamentos que por ali se façam.

Pernoitou D. Paio de Farroncóbias na humilde mas abastada casa do honrado Pêro Fogaça. O alcaide de Trancoso, ao entrar, foi recebido pelo filho de Pedro Fogaça, o jovem Banaboião que não cabia em si de contentamento, pois pela primeira vez via o temível fronteiro, esposo de Iluminata, que ostentava no rosto várias das vinte cicatrizes que lhe cobriam o corpo de guerreiro valoroso. Acolheram-no também a mulher de Pedro Fogaça, Aldonça e seu tio Gonçalo Guterres, vigário da Vacariça. Ao ser-lhe apresentado o clérigo, perguntou-lhe D. Paio se, por ter o mesmo nome, descendia da nobre e ilustre família de D. Hermínio Guterres que outrora fora adaião da Sé de Braga, seu confessor quando criança e que fora ele quem, ao lado do Arcebispo Primaz, D. Germano de Santamaria, o baptizara, na mesma Sé de Braga. Ao que o vigário Gonçalo Guterres respondeu afirmativamente, informando-o de que D. Hermínio Guterres, seu tio, morrera, aos noventa e cinco anos, com fama de virtude e santidade. O fronteiro vangloriou-se por estar na presença de uma família tão cristã e com tão grande luzimento de virtudes teologais.

Pero Fogaça, embevecido por tão sublimes elogios, retorquiu que fora já no pendor da vida tão repleto de bens que não os media nem os merecia, que nem conhecia ou sabia o que tinha de seu, mas que, durante muitos anos, grande desventura caíra sobre si e sobre sua esposa, a virtuosa D. Aldonça. Queixara-se, anos a fio, da esterilidade de sua esposa o que lhe pesava como praga ou castigo divino. Mas que enfim, Deus Nosso Senhor e Pai Omnipotente, não tanto em seu merecimento mas antes em sua misericórdia infinita e suprema bondade, se apiedara deles e que, tal e qual fizera outrora a Zacarias e Isabel que na sua velhice haviam concebido, gerado e criado o precursor messiânico - S. João Baptista, - também a ele e a sua esposa, a humilde e virtuosa D. Aldonça, fora dada a graça, não tanto por seus méritos e virtudes, mas por intercessão junto de Deus Padre Nosso Senhor e do seu muito virtuoso tio D. Hermínio Guterres, a graça de na sua velhice terem um filho varão, aquele jovem que ali estava, na presença do mui nobre cavaleiro - Banaboião. Deus amerceara-se deles e com alguma razão o fizera, pois servos de Deus mais submissos e obedientes ao Criador não os havia por Lubisonda e arredores. Davam esmolas aos pobres, cumpriam os mandamentos da Santa Lei de Deus e as determinações da Santa Igreja de Roma. A sua generosidade era tanta que poucos por ali não eram seus afilhados, repartindo com todos os seus bens e haveres

Banaboião ajoelhou-se diante do nobre cavaleiro e este colocando-lhe a mão de guerreiro experiente sobre o ombro interrogou-o de seus intentos bélicos e a vontade de o seguir na sua mesnada.

Pêro Fogaça logo se antecipou, informando-o de que sua estimada e casta esposa Aldonça em seu desespero de esterilidade prometera vezes sem conta a Deus, à Virgem e aos Santos de suas devoções, que a ter um filho varão ele havia de consagrar-se ao Altíssimo e subir o altar para celebrar os santos mistérios. Mais acrescentava o generoso e honesto mercador que sempre se opusera a tal sacrossanta intenção, sabendo mesmo que poderia ofender a Deus Nosso Senhor e que por sua vontade Banaboião havia de seguir era a carreira de mercador, dando continuidade aos seus negócios como ele dera aos de seu pai e este aos de seu avô, sempre com honra, dignidade e a mais nobre solicitude. Um filho que Deus lhe desse, haveria de continuar-lhe os negócios. Porém se a promessa de Aldonça se concretizasse e Banaboião subisse ao altar teria na mesma a sua bênção. Aldonça rogara-lhe pela sagrada paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo que não afastasse o filho do regaço materno, não o deixasse seguir para Salamanca, nem sequer o mandasse tirar graus com os Cónegos de Santa Cruz, nem muito menos o iniciasse nas lides comerciais, apagando-lhe os fulgores da vocação religiosa. Por isso o afastava de todo o convívio com o sexo feminino, exceptuando-se sua mãe e a jovem Ximena, casta e pura como cecém.

Banaboião corou.

Fonte de Inspiração – Aquilino Ribeiro São Bonaboião Anacoreta e Mártir

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publicado por picodavigia2 às 16:27

HERMENEGILDA LACERDA

Quinta-feira, 23.01.14

Hermenegilda Teles de Lacerda nasceu na Horta, em 30 de Junho de1841, tendo falecido na mesma cidade, em 1895. Escritora de valor e de fecundidade pouco vulgar,  cultivou a poesia, que trabalhou à maneira romântica da época, a ficção em prosa, a crítica literária e artística e a crónica de costumes, deixando numerosos artigos sobre as mais diversas matérias, dispersos nas páginas dos jornais açorianos e de alguns jornais e revistas do continente e do Brasil. Foi também presença considerada de talento incontestável nas palestras do Gremio Litterario Fayalense. Era bisneta de Manuel Inácio de Sousa e neta de Francisca Cordélia de Sousa.

Da sua vasta obra literária, destacam-se: Teatro - Entre dois deveres, A verdadeira nobreza, O apóstolo; Deus existe e Heroismo de mulher. Romance: A mariquinhas da gruta; O eremita da ilha do Faial; Uma narrativa ao ar livre, Uma recordação dos 14 anos, Da fatalidade à felicidade, A voz da natureza, Faze bem não olhes a quem e O valle da feiticeira. No Brasil publicou a colectânea de poesia: Horas crepusculares.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 09:47

AS FURNAS

Quinta-feira, 23.01.14

As Furnas eram incontestavelmente, na década de cinquenta, de entre os lugares despovoados da Fajã Grande, um dos mais importantes. Esta relevância vinha-lhe, sobretudo, do facto de as Furnas serem, juntamente com o Porto, uma espécie de “celeiro da freguesia”. Na realidade o lugar das Furnas, para além de extenso em área, possuía terrenos muito férteis e produtivos. Era ali e também no Porto que se situavam os maiores, mais férteis e mais produtivos cerrados da Fajã Grande. Com uma área muito extensa e localizado junto à orla marítima, o que de alguma forma prejudicava, por vezes, as colheitas, o lugar das Furnas tinha a norte o interessante, quanto ao nome, lugar do Rolinho das Ovelhas e a sul o ainda mais extenso lugar do Areal, sendo que a própria fronteira entre estes dois lugares era de difícil definição, cuidando-se que as Furnas abrangeriam todo o espaço que ia desde o Rolinho das Ovelhas até à zona do Redondo e o Areal, a partir daí até à rocha do Pico do Areal. A leste, as Furnas faziam fronteira com a Rua Nova e as Courelas e a oeste com o Oceano Atlântico, em cuja orla marítima se situavam os lugares do Respingadouro, do Caneiro das Furnas, da Ponta do Baixio, da Coallheira, da Retorta e do Redondo.

O acesso às Furnas fazia-se por um caminho de carros que partia da Rua Nova e das Courelas e se cruzava mesmo no início deste lugar, atravessando-o de leste a oeste, permitindo, assim, o acesso não apenas à maioria das propriedades que ali abundavam, mas também ao campo de futebol, ali localizado, e ao mar. Através deste caminho, no entanto, não se tinha acesso a muitas das propriedades. Para aceder a estas circulava-se através de algumas canadas, algumas autênticos maroiços. Dentro das Furnas, para além do caminho principal, apenas havia um outro, curto, estreito e sinuoso, bem no centro do lugar e que dava acesso ao cerrado do Guarda-Furtado. Muitas terras, no entanto ficavam mais distantes e o acesso, impossível mesmo pelas canadas existentes, era assegurado pela cedência dos terrenos situados entre elas e o caminho. Embora sem ser acessível a carro de bois, também se podia chegar às Furnas por uma canada que existia junto ao mar, que ligava o Porto ao Areal e que se destinava, sobretudo, aos pescadores e aos apanhadores de lapas. Para além de produzirem, milho, batatas brancas e doces, couves, abóboras e feijão, nas Furnas, junto a muitas terras, havia maroiços e noutras, currais anexos, onde se produzia uvas e figos, umas e outros de excelente qualidade.

Mas a importância das Furnas também lhe advinha por ser lá, junto ao mar, entre o Respingadouro e o Caneiro das Furnas que se localizava o campo de Futebol da Fajã Grande. O chamado “campo maior”, onde se realizavam, nas tardes de domingo, os jogos de futebol e um pequeno, na parte norte, destinado às crianças. Este campo sucedeu a um primeiro que existiu na freguesia, no lugar do Estaleiro, entre o Porto e o Calhau Miúdo, mas que teve duração efémera. Inaugurado na década de trinta, o campo do Estaleiro foi palco do primeiro jogo de futebol na Fajã Grande. No entanto, alguns anos depois deu origem a um cerrado num serrado que posteriormente foi dividido por “malhões” dado que pertencia a três donos: ao Laureano Cardoso, ao António Barbeiro e ao Chileno. Mas a 8 de Setembro de 1940, festa da Senhora da Saúde foi inaugurado, em sua substituição, o campo das Furnas, onde nos anos seguintes se realizaram diversíssimos jogos. O apogeu da prática futebolística na Fajã Grande, com o epicentro nas Furnas, foi durante os anos cinquenta, onde a equipa local, o Atlético disputou variadíssimos jogos com o Sporting e a União de Santa Cruz, o Rádio Naval das Lajes e a académica da Fazenda.

O lugar das Furnas ainda se celebrizou porquanto nele se localizava a maior lixeira a céu aberto, da freguesia. Situava-se precisamente, por cima da Furna das Mexideiras, ali bem perto do Caneiro das Furnas e para lá era despejado quase todo o lixo da freguesia: camas velhas, portas desfeitas, utensílios de cozinha inutilizados, colchões esfrangalhados, garrafas partidas, caldeirões esburacados, grelhas carcomidas pela ferrugem, latas furadas, enfim tudo aquilo que devido ao seu estado de envelhecimento e degradação já não servia rigorosamente para nada. Era também na orla costeira das Furnas que se situavam alguns dos melhores pesqueiros da Fajã, nomeadamente o Respingadouro, a Retorta e sobretudo o Caneiro das Furnas., sendo que a Retorta serviu muitos anos de zona balnear das mulheres a quem, na altura, era praticamente interdito tomar banho quer no Porto Velho, quer no Cais, zonas destinadas aos homens.

Dada a sua localização relativamente próxima das casas e da igreja, as procissões das Rogações, realizadas nas têmporas de Setembro e destinadas a implorar a chuva para os campos, passavam no caminho circundante ao lugar das Furnas.

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publicado por picodavigia2 às 09:16

O TERÇO

Quinta-feira, 23.01.14

Todas as noites, mal terminava a ceia, minha avó, sentada em cima duma caixa verde que ficava enfiada num dos cantos do quarto de jantar, entre o armário onde se guardava a loiça e o tabique da cozinha, benzendo-se e persignando-se, iniciava as rezas:

- In nome du Pai, du Filhe e du Sprite Sante.

- Amen! – Respondíamos nós, em uníssono, ao mesmo tempo que, seguindo o seu exemplo, também nos benzíamos com a mão direita, persignando-nos, de seguida, desenhando com a ponta do polegar três cruzes: uma na testa, outra na boca e uma terceira no peito.

O pequeno quarto de jantar, agora transformado em santuário, com uma janela de vidro no tabique, ficava lado a lado com a cozinha, com a qual parecia geminado. Preso na janela estava um candeeiro a petróleo, de tal forma encastoado que a única e débil luz que emitia, iluminava, simultaneamente e num perfeito e delineado esquema de rentabilização de recursos e de poupança, aquelas duas divisões da casa.

Depois da morte do meu avô, coube à minha avó o direito e a responsabilidade de presidir às rezas nocturnas, ou seja, ao Terço, lá em casa. Segundas e quintas, mistérios gozosos, terças e sextas os dolorosos e, finalmente, às quartas e aos sábados os gloriosos. Aos domingos era dia de folga - o terço era rezado na igreja, antes da missa.

O quarto enchia-se de gente. Meus tios e tias, obrigados a permanecer em casa durante a reza, eram muitos e, além disso, vínhamos nós, que também não éramos poucos e, por vezes, uma ou outra vizinha, acompanhado da família, que ali vinham fazer serão. Uns sentavam-se à volta da mesa, outros nalguma cadeira que por ali rareava ou no banco de lavar os pés e, a maioria, no chão.

- Primeire mistérie – clamava minha avó, rápida e dolente – Agonia de Nosse Sinhô no Horte das Aliveiras. - E sem hesitar ou fazer qualquer prosa ou comentário, atirava de rajada: - Padre Nosso quastás no Céu, santeficade seju vosse nome….

O quarto, de imediato, parecia não caber em si de êxtase com a resposta pronta, volumosa e abruta de todos os presentes que, em uníssono rezavam:

- “O Pan’osso de cada dia nos dai ehoje….”.

Da cozinha, chegava como em eco a voz lenta, grossa, pausada e rouca dos homens que ali haviam ficado, uns por serem menos afectos a rezas, outros por não caberem no quarto.

… E a oração continuava, monótona e sincronizada. Alternavam-se, à vez, as Ave-Marias com as Santa Marias, até ao Glória, depois do qual tudo voltava ao início, com uma pequena diferença: o Padre Nosso assim como a Ave Maria, agora, eram pertença do coro dos circundantes. À minha avó sobravam o “Pão Nosso” e a “Santa Maria”…

A reza era prolongada, lenta, morna, martelada e, além disso, iluminada por uma luz frouxa e titubeante, onde os vultos se distinguiam mais pelas vozes do que pelas feições. A oração, à medida que avançava, ia-se tornando cada vez mais diluída, lânguida e como que desvanecida. Alem disso, depois de um dia de trabalhos exaustivos e de canseiras prolongadas e excessivas, a monotonia do Terço convidava ao sono, ao tédio, ao enfado e ao aborrecimento. Por isso ainda nem ia a meio e já alguns dormitavam, intermitentemente, outros bocejavam e a maioria distraía-se, debulhando as contas maquinalmente. Um ou outro mais folgazão, interrompia a reza com graçolas mais impróprias do momento do que ofensivas de quem quer que fosse, muito menos de Deus ou da Virgem. Mas minha avó não contemporizava. Brincar com as coisas de Deus é que nunca. De imediato, interrompia a reza para enxotar o “Eira-Má”, o “Coiso-Mau”, o “Demónio” que, na opinião dela, era o responsável por aquele descalabro, por aquela pouca vergonha, metendo-se no corpo do provocador. Depois exorcizava, com convicção:

- Sume-te daqui, excomungado e vai-te pru quintu dus infernos, quei nam quer cair em tantaçães. - E voltava a benzer-se vezes sem conta, como se iniciasse, novamente, a reza, para, de seguida, voltar a esconjurar. – Eu me benzo do Coiso-Mau! Reda vaz, Satanaz! Eu tí’sconjuro, Cão-da-Meia Noite!

Perante as ameaças de que a reza ficaria por ali, lá se calavam os incautos provocadores, permitindo que o Terço continuasse e chegasse, pelo menos, ao “Nosse Sinhô cruade despinhos”.

 - Tal qual a image do Sinhô dos Passes que temes na noss’igreja, - comentava, em voz baixa, cheia de fervor e crença, tia Graça, muito afeita e conhecedora de todas as celebrações e novenas que se faziam na igreja da freguesia.

…E após muitas Ave Marias e alguns Padre Nossos, lá chegava minha avó ao Calvário, à “crucefixão e morte de Nosse Sinhô” e por fim à “Salve Rainha”, sinal de que o longo e monótono Terço tinha ali o seu fim. Mas minha avó não ia nos ajustes. Depois da Ladainha, rezada num latim típico e invulgar, o fundador e pregador do Santo Rosário – São Domingos – merecia, todas as noites uma oração especial, a que se seguia uma série infindável de “Padre Nossos”, quase tantos como os do Terço, por alma de pai, d’avô, d’avó, de Pai Cristiano, de José do Céu, d’Angelina, “por todes os nosses parentes, amigues e benfeitores e p’las do Purgatórie, especialmente, p’las que mais precisarim”. Depois, uma segunda série, a comtemplar as intenções deste e daquele, a saúde de todos, sobretudo, a dos que haviam partido para longe – para a América.

A noite, apesar de longa, já ia avançada. Mas os homens, ainda, acendiam um cigarro e formavam círculo à volta da mesa, para a sueca. As mulheres, aproximavam-se mais da lamparina, agora com o pavio alevantado, e pegavam nas cardas, no fuso ou nas agulhas e nós, as crianças, sentavamo-nos, à volta da minha avó, ávidas de ouvir mais um conto:

- “Era uma vez uma princesa que numa noite foi três vezes ao Inferno…”

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publicado por picodavigia2 às 08:45

ACHADOS

Quinta-feira, 23.01.14

Na Fajã Grande, nos anos cinquenta havia a convicção de que o mar era “muito rico”, chegando mesmo a considerar-se que seria “mais rico do que a terra”. E o povo tinha razão, apesar de, neste seu juízo de valor, não aludir à importante fonte alimentar que o mar continha - o peixe. Referia-se, pelo contrário, a riquezas materiais, a tesouros e outros bens de valor que estariam algures, nas profundezas dos oceanos e que, de um dia para o outro, poderiam muito bem serem trazidos pelas ondas, sobretudo quando bravas, fortes e altivas, despejando-os na orla marítima, vulgarmente chamada “costa”. Era esta ideia que levava muitos homens, na altura, sobretudo em dias de mar bravo, a “correr a costa”, isto é, a percorrer toda a zona marítima desde o Canto do Areal até ao Rolo, na mira de encontrar tudo aquilo que o mar possuía e agarrar no que muito bem encontrassem e conseguissem arrastar para terra.

E não se enganavam estes aventureiros da busca de tesouros marítimos. Na realidade muitos eram os homens e até algumas mulheres, que nos dias de mau tempo, se dirigiam para junto da orla marítima, equipados com grandes e potentes “pexeiros”, vasculhando tudo o que fosse poça, caneiro, enseada ou baía. E verdade é que muita coisa era encontrada, pescada para terra e trazida para casa, sendo tudo o que o mar dava, praticamente aproveitado. Eram os célebres e tão desejados “achados”.

Os achados mais frequentes eram garrafas e frascos. As primeiras, sobretudo as de litro, eram muito apreciadas, assim como os garrafões que, com menos frequência apareciam. Depois de lavadas eram usadas para o vinho ou para o petróleo ou para a creolina e as mais pequenas para biberons de bebe ou para colocar o azeite doce, a tintura ou álcool. Os frascos serviam para guardar o doce. Outros achados, muito frequentes, eram as bóias de ferro ou de alumínio. De forma geralmente redonda, com capacidade entre 2/3 litros, depois de furadas junto à asa e bem lavadas por fora e por dentro, eram usadas para o transporte de água, uma vez que a conservavam muito fresca, para os homens beberem enquanto trabalhavam nos campos ou ainda para o transporte para as galinhas ou para outro uso qualquer. Também se encontravam tábuas, barris, lâmpadas usadas, latas, caixas e muitas outras bugigangas. Mas os achados mais desejados, porque muito valiosos, eram os fardos de borracha. Tratava-se de cubos de borracha maciça, alguns bastante grandes e que depois de secos e limpos poderiam ser vendidos e dar bom dinheiro. Na Fajã Grande era a Senhora Dias que os comercializava. No entanto, a pessoa que encontrava o fardo não chegava a receber o dinheiro, uma vez que a Senhora Dias tinha uma mercearia e entregava o valor estimativo do fardo de borracha em géneros e depois, ela própria os vendia ou exportava para o continente. No entanto este negócio, nos anos cinquenta, trouxe-lhe alguns dissabores, por quanto a lei não permitia que se comercializassem produtos encontrados no mar. A Senhora Dias acabou por ter que responder em tribunal, o que veio a prejudicar, sensivelmente, o negócio, tornando-se a procura dos fardos menos incentivada.

Entre as garrafas, as mais procuradas eram as fechadas, por quanto se cuidava que poderiam trazer dentro alguma mensagem, e entre estas, alguma que pudesse mudar a vida de quem a encontrasse. No entanto, as mensagens destinavam-se sobretudo aos estudos das correntes marítimas ou eram meras brincadeiras.

Outros objectos procurados eram os provenientes dos destroços dos navios naufragados: madeira, objectos de ferro, talheres, bidões, latas, etc. Havia também, nalgumas casas da Fajã Grande, camas, portas, candeeiros e louças encontrados nos destroços da Bidart, do Slavónia e de muitas outras embarcações. Muito interessantes, também, eram as bolas de vidro, brancas, azuis, verdes e castanhas que serviam para ornamentar as salas das habitações. Havia homens que se atiravam ao mar, mesmo quando bravo, simplesmente para agarrar uma garrafa ou uma bola de vidro.

A maioria dos achados, devido à sua longa permanência no mar, geralmente, na parte que flutuava debaixo de água, estavam cheios de minúsculos percebes, pelo que, depois de retirados do mar, sobretudo fardos e garrafas tinham que ser muito bem limpos e postos ao Sol, a secarem.

A procura de “achados” caracterizou a ligação ao mar durante muitos anos uma população, que exceptuando a caça a baleia, pouco se interessava pela exploração do mesmo mar.

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publicado por picodavigia2 às 07:45

A MARQUINHAS NASCIMENTO

Quarta-feira, 22.01.14

Nos anos cinquenta, vivia na Fajã Grande, na rua Direita, no cruzamento com a rua Nova, em casa de um irmão - o José Nascimento - uma mulher invulgar e típica, já de alguma idade, talvez mesmo a rondar os sessenta anos, de nome Maria, mas vulgarmente conhecida por Marquinhas do Nascimento. Uma das suas características físicas que mais atraía a atenção era o facto de possuir um acentuado defeito labial que não só lhe dificultava o falar como também impedia que fosse claramente entendida pelos seus interlocutores. Tinha os lábios extremamente salientes de tal modo que não se fechavam quando falava, pelo que os sons emitidos eram muito limitados e quase todos iguais. Talvez, por isso mesmo, nunca se casou, vivendo sempre em casa do irmão. No entanto esse grave e acentuado defeito físico, nunca a inibiu do que que quer que fosse. Pelo contrário era uma pessoa descontraída, desembaraçada, incrivelmente jovial, muito meiga e amiga de todos e, sobretudo, muito simpática, especialmente para com as crianças, Por isso todos a respeitavam, não manifestando nenhuma espécie de apoucamento, desdém ou desprezo. Pelo contrário, toda a freguesia a admirava, respeitava e ela tinha muitas amigas, pois, gostava muito de conversar, à sua maneira, e de conviver. Além disso era muito dedicada não apenas ao serviço doméstico mas também aos trabalhos agrícolas. Semeava milho atrás do arado, plantava batata-doce, acarretava molhos e cestos à cabeça e até levava os gados ao pasto, fazendo todas as tarefas com acentuado cuidado e singelo empenho.

Era uma senhora que, apesar da dificuldade que tinha em falar e do defeito físico que ostentava, granjeara a amizade, o respeito e a simpatia de toda a população da freguesia.

Na sua companhia vivia uma irmã, chamada Teresa, que durante muitos anos e desde muito nova se recolheu em casa, não saindo nunca à rua e não sendo vista por ninguém, a não ser pelos familiares. Cuidava-se que teria sido vítima de algum grave problema sentimental ou de algum desgosto. Nos anos sessenta, porém, rompeu esse tabu, começando a sair de casa e convivendo com todas as pessoas da freguesia que ela, apesar daqueles anos de retiro, conhecia perfeitamente, uma vez que da janela do quarto onde se enclausurar e por de trás dos cortinados, as via passar no caminho. Para além de muito bonita era também uma senhora muito afável, simpática e acolhedora, pelo que nunca ninguém a desprezou pela sua opção.

A Maria e a Teresa Nascimento, duas irmãs que, embora de forma diferente, ajudaram e contribuíram para a caracterização de uma população que, na década de cinquenta, qualificou, definiu e emoldurou uma freguesia – a Fajã Grande das Flores.

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publicado por picodavigia2 às 20:28

O PASSARINHO ENCANTADO

Quarta-feira, 22.01.14

(CONTO TRADICIONL)

 

Era uma vez um homem que tinha uma filha. Como enviuvasse, casou, em segundas núpcias, com uma mulher, também ela viúva e que, por coincidência, também tinha uma filha. As duas meninas davam-se muito bem mas a madrasta tratava a enteada muito mal.

Um dia a menina, triste e aborrecida com as ameaças e vexames por parte da madrasta, saiu de casa e fugiu para a floresta, que ficava ali ao lado. Sozinha e abandonada, começou a chorar. Pouco depois, porém, viu um belo passarinho vir ao seu encontro, dizendo-lhe:

- Por favor, arranja-me uma bacia com água, outra com leite e um laço de fita.

A menina ficou muito espantada, mas, apesar do passarinho fugir, fez o que ele lhe pedira. Algum tempo depois, o passarinho voltou, caiu no laço, banhou-se na bacia de água, depois na de leite e transformou-se num belo jovem, que lhe disse

- Eu sou um Príncipe. Até hoje estive encantado. Foste tu, bela jovem, que me quebraste o encanto. Mas se alguma vez alguém souber o meu segredo, voltarei a ficar encantado, só voltando a quebrar o encanto quando alguém me encontrar, depois de romper três pares de sapatos: um par de vidro, outro de madeira e outro de ferro.

A madrasta que andava por ali perto, ouviu vozes, espreitou e viu o passarinho banhar-se na água e no leite e transformar-se num Príncipe. Ficou cheia de inveja, mas o Príncipe, descoberto o seu segredo, pouco depois, transformou-se, novamente, num passarinho. A madrasta, no entanto, deitou-lhe um vidro partido na água sem que a menina desse por isso. Quando o passarinho se foi banhar, de novo, ficou muito ferido e fugiu. Mas a menina lembrou-se do que ele lhe tinha dito e mandou fazer os três os pares de sapatos. No dia seguinte, caminhou à sua procura.

Não precisou de andar muito para logo partir o par de sapatos de vidro. Avistando uma casinha, foi bater à porta. Apareceu-lhe uma velhinha, a quem perguntou:

- A senhora sabe dizer-me onde mora o passarinho encantado?

- Eu cá não sei, mas a minha filha, que é a Lua, há-de saber. – Respondeu a velha. - Esconda-se aí, para ela não a ver, pois tem muito mau génio.

Escondeu-se a menina, e dali a pouco chegou a Lua e disse, muito zangada:

- Cheira-me aqui a fôlego vivo.

- Ó filha, foi uma menina que me veio perguntar se eu sabia onde morava passarinho encantado.

- Eu só ando de noite, à hora em que toda a gente dorme com as portas e as janelas bem fechadas. O vento é quem há-de saber.

Ao outro dia a velhinha deu à menina o recado da Lua e entregou-lhe uma bolota, com a recomendação de só a abrir quando precisasse muito.

Pôs-se a menina outra vez a caminho, andando bastante mais e, passado algum tempo, os sapatos de madeira romperam-se e a menina avistou outra casinha. Bateu à porta e uma velhinha veio abrir. A menina perguntou-lhe:

- A senhora sabe dizer-me onde mora o passarinho encantado?

- Eu cá não sei, mas o meu filho, o Vento que anda por todo o mundo, há-de saber. Mas esconda-se porque ele tem muito mau génio.

A menina escondeu-se e dali a pouco chegou o Vento a soprar, dizendo:

- Cheira-me aqui a fôlego vivo.

- Ó filho, foi uma menina que me veio perguntar se eu sabia onde morava o passarinho encantado.

- Quando eu apareço, todos fecham as portas e as janelas de modo que não sei onde está. Quem deve saber é o Sol.

No dia seguinte a velhinha deu à menina o recado do seu filho Vento e entregou-lhe uma noz, com a recomendação de só a abrir quando precisasse muito.

A menina recomeçou a caminhar e andou, andou tanto, tanto que acabou por romper os robustos sapatos de ferro e viu, ao longe, outra casinha. Bateu à porta e uma velhinha veio ver quem era.

- A senhora sabe dizer-me onde mora o passarinho encantado?

- Eu cá não sei, mas o meu filho que é o Sol há-de saber. Mas esconda-se até que ele chegue.

A menina fez o que a velhinha lhe disse e dali a pouco chegou o Sol.

- Cheira-me aqui a fôlego vivo.

- Ó filho, foi uma menina que me veio perguntar se eu sabia onde morava passarinho encantado.

- O passarinho mora muito longe daqui, no palácio real, mas está em perigo de vida. Ninguém sabe curar a sua doença.

A velhinha transmitiu à menina as notícias que o seu filho Sol lhe tinha dado e entregou-lhe uma castanha com a recomendação de não a abrir senão quando muito precisasse.

E a menina pôs-se outra vez a caminhar, na direcção do palácio real. Quando anoiteceu, deitou-se debaixo de uma árvore onde umas rolas faziam ninho e, antes de adormecer, ouviu as rolinhas falarem, dizendo

- Então que notícias há do passarinho encantado?

- O passarinho encantado pode curar-se. Basta que alguém junte algumas das nossas penas, as queime e com as cinzas polvilhe as suas feridas, durante três noites a fio.

Foi o que a menina quis ouvir. Logo que as rolas adormeceram, apanhou as penas caídas no chão e fez como as rolas tinham dito. De manhã pôs-se a caminho da cidade. Quando chegou diante do palácio real, sentou-se no chão e abriu a bolota. Apareceu uma dobadoira de prata com meadas de oiro, a prenda mais rica que se podia imaginar. A menina pôs-se a dobar.

A rainha-mãe chegou à janela e vendo aquela dobadoira tão bonita, mandou um criado perguntar à menina se a queria vender.

- Dar sim, vender não; mas sua Majestade há-de deixar-me ficar esta noite ao pé do passarinho encantado, que está pousado dentro do palácio real.

A rainha aceitou e a menina, de noite, polvilhou as feridas do passarinho com as cinzas.

No dia seguinte foi sentar-se outra vez diante do palácio e abriu a noz.

Saiu dela uma roca de oiro cravejada de brilhantes, com um fuso de prata e a menina pôs-se a fiar.

Veio a rainha à janela e vendo a roca, mandou o criado saber se ela a queria vender.

- Dar sim, vender não; mas sua Majestade há-de consentir que fique outra noite ao pé do passarinho.

A rainha disse que sim e a menina, sem ninguém ver, polvilhou as feridas do passarinho com as cinzas que levava.

Pela terceira vez se sentou em frente do palácio e abriu a castanha, donde saiu uma galinha de oiro com pintainhos de prata.

Quando a rainha a viu, quis logo que a menina lha vendesse, mas ela respondeu:

- Dar sim, vender não; mas sua Majestade há-de deixar que eu fique mais esta noite ao pé do príncipe.

Pela terceira vez a menina deitou o resto das cinzas sobre as feridas do passarinho, que abrindo os olhos, logo se transformou no príncipe que reconheceu a sua salvadora.

A menina contou-lhe tudo quanto tinha acontecido o Príncipe casou com ela e foram muito felizes para sempre.

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publicado por picodavigia2 às 18:59

DIVINAL

Quarta-feira, 22.01.14

MENU 24 – “DIVINAL”

 

 

 ENTRADA

 

Pipetes, acamados sobre tiras de alface, recheados com creme de queijo fresco e tiras pimentos coloridos.

Canapés de tostas encharcadas e forradas com fiambre, com pimentos sobrepostos e salpicados de queijo ralado.

 

 

PRATO

 

Cenouras recheadas com picado de fiambre, peito de peru, cebola e cenoura, perfumado com alho e alecrim e sumo de lima, acamadas em fios de alface, salpicadas com azeite e vinagre balsâmico.

 

 

SOBREMESA

 

Pera natural e Gelatina de ananás.

 

 

******

 

Preparação da Entrada: Cozer a massa, deixá-la arrefecer. Recheá-la com o creme de queijo fresco, espetando-lhe numa das extremidades, uma tirinha de pimento. Colocá-las ao redor do prato sobre pequenas farripas de alface. Molhar as tostas em caldo de cozer carne e/ou legumes e coloca-las no meio das pipetes. Colocar-lhe uma fatiazinha de fiambre e por cima 3 ou 4 tirinhas de pimentos de cores diferentes, salpicando-as com um pouco de queijo ralado.   

 

Preparação do Prato – Cozer as cenouras, preferencialmente grandes, juntamente com a carne do peito de peru, temperada com alho e alecrim. Escavar as cenouras, formando uma espécie de barco. Juntar a carne cozida com a parte extraída das cenouras e triturar. Refogar uma cebola em azeite e alho e juntar o preparado. Rechear a cenoura, regando-a com o sumo de lima e queijo ralado. Gratinar. Colocar no prato sobre uma camada de alface picada e levemente regada com azeite e vinagre balsâmico.

 

Preparação das Sobremesas - Confecção tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:55

PALAVRAS, DITOS E EXPRESSÕES UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (X)

Quarta-feira, 22.01.14

Á – Ó, interjeição para chamar alguém.

Abalado – Comovido, chocado.

Achado – Objecto encontrado no mar.

Diabo-que-te-carregue – Expressão usada para indicar o desprezo que se tem por outra pessoa.– Expressão usada para indicar o desprezo que se tem por outra pessoa.

É Canja – É fácil.

Encher o pandulho – Comer em demasia.

Ensarilhada – Grande dificuldade.

Enxógalhar – Agitar, mexer,

Esbagoar        - Passar as contas do terço ou dizer muitas orações. Possivelmente por assimilação com o verdadeiro significado - tirar os bagos a.

Escarrapachar – Sentar com uma perna para cada lado

Esganado – Inquieto, com vontade de fazer algo, especialmente comer.

Estar descadeirado – Ter dores nas costas ou nos rins.

Estar somenos ou estar mum somenos – Estar muito mal.

Esterloucado – Mal da cabeça.

Fagulhas – Faúlhas

Fazer diligência – Esforçar-se.

Ficar com as calças na mão – Ser apanhado desprevenido.

Fonte – Fontanário.

Forreta – Avarento, agarrado

Forro – Sótão

Grotão            - Grandes vales que existem nos matos.

Home - Homem.

Incardido – Sujo

Increnca – Situação muito má.

Ingives – Gengivas

Inxugar – Secar.

Lambão - Pessoa que come muito.

Lambareiro – Que gosta muito de doces

Lonjura – Grande distância

Manápula – Mão.

Mancheia - Pequeno monte de qualquer produto ceifado mais ou menos da espessura de uma mão e que o ceifeiro vai colocando atrás de si e que depois é amarrado para mais facilmente ser transportado..

Marmelo - Diz-se de algo grande ou descomunal, incluindo pessoas.

Mosca-morta – Pessoa sonsa.

Mum perfeitinho – Criança bonita e saudável.

Não são contas do teu rosário – Não te diz respeito

Não vais lá das canetas – Não consegues.

Papa-sorda –  Pessoa sem desembaraço

Pimpolho - Criança

Pinguinha - Uma pequena quantidade de qualquer coisa.

Ponteiras – Argolas de metal, com rosca interior, que se aparafusavam nas pontas dos cornos dos bovinos.

Puxar pelo focinho – Desafiar, espicaçar alguém.

.Sarão – Serão

Tender – Dar forma ao pão

Tuta e meia – Barato.

Vardascar – Bater com uma vara.

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publicado por picodavigia2 às 14:10

MONSENHORES vs BONSENHORES

Quarta-feira, 22.01.14

Monsenhor é um título eclesiástico de honra conferido aos sacerdotes da Igreja Católica pelo Papa, como recompensa por méritos alcançados ao serviço da sua missão sacerdotal. No entanto, o Papa não confere os títulos de monsenhor, ao desbarato. Fá-lo a pedido do bispo diocesano, por meio da Nunciatura Apostólica. Mas os bispos também não podem exagerar nos pedidos, uma vez que existe uma norma canónica que define que o número máximo de monsenhores de uma diocese não pode ultrapassar 10% do total dos sacerdotes da mesma. Sendo apenas um atributo titular, os monsenhores, por o serem, não têm nenhuma autoridade ou poder canónico superior ao de qualquer padre, distinguindo-se destes, apenas pelo título honorífico e pelas vestes. Aparentemente, alguns bispos são mais comedidos do que outros nos seus pedidos ou propostas, sendo que, se uns colocam a fasquia dos seus pedidos no patamar mais alto, outros deixam-na bem mais cá por baixo.

Na década de sessenta e creio que durante o episcopado de D. Manuel Afonso Carvalho, na diocese de Angra, para além do simpático Monsenhor Medeiros da Horta, já velhinho e reformado, existiam apenas três monsenhores, no activo, na diocese: Mons José Gomes, reitor do Santuário de Santo Cristo, Mons Machado Lourenço, professor no Seminário de Angra e Monsenhor Pereira da Silva, Vigário Geral da Diocese. Ao contrário o número de cónegos era bem maior e aumentava, praticamente, de ano para ano. Parecia que o bispo se “vingava” no cabido do que rareava nas prelaturas.

Hoje consultando o site da diocese, para além de alguns recentemente falecidos, existem na diocese açoriana dez monsenhores: Júlio da Rosa, Caetano Tomás, Gil Mendonça, José de Lima, Agostinho Tavares, Weber Machado, António da Luz Silva, Augusto Cabral, José Nunes e Gregório Rocha, sendo que o número de padres nos Açores é bem menor, actualmente, do que nas décadas de 50/60.

A maioria destes monsenhores foram professores no Seminário Diocesano e, muitos deles, meus professores. Assim como todos os outros, são sacerdotes de grande mérito e nobre acção pastoral e, portanto, não está de forma nenhum questionada a justificação do título que lhes foi conferido pela Santa Sé e que, naturalmente, todos muito bem merecem.

Apenas tão elevado número, no que a professores do Seminário diz respeito, faz-me lembrar alguns outros professores por quem mantive e continuo a manter um respeito e um carinho muito especiais e uma grande admiração pela sua competência, dignidade, sabedoria e ainda pela amizade, dedicação, consideração e estima que dedicaram aos que foram seus alunos e, nos quais, eu obviamente me incluo: António Rogério Andrade Gomes, Artur Cunha de Oliveira, Artur Goulart de Melo Borges, Edmundo Machado de Oliveira, Francisco Carmo, Jaime Luís da Silveira, José Enes Pereira Cardoso, Manuel António Pimentel, Manuel Coelho de Sousa e muitos outros.

Uma vez que nenhum deles, por uma razão ou por outra, jamais poderá receber tal distinção, da minha parte, nomeio-os, simplesmente, “Bons Senhores”, prestando-lhes assim a minha mais singela e simples, mas sincera homenagem a estes e a quantos juntamente com eles durante doze anos, no Seminário de Angra e nesta altura em que celebra os seus 150 anos de existência, colaboraram na minha formação e na de centenas e centenas de jovens oriundos de todas as ilhas açorianas.

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publicado por picodavigia2 às 11:06

A LENDA DA ANTIGA PONTE DA RIBEIRA GRANDE

Quarta-feira, 22.01.14

Contava-se, noutros tempos, uma lenda que, de tão antiga, na década de cinquenta, quer na Fajã Grande quer na Fajazinha, já quase ninguém se lembrava dela. Dizia-se que uma ponte que terá existido, antigamente, sobre a Ribeira Grande, foi construída pelo diabo e, apenas, durante uma noite.

Segundo a lenda um rapaz da Fajã, chamado Inácio, ao atravessara Ribeira Grande, numa noite de grande tempestade, quase se afogou, quando levado pelo forte caudal da ribeira teve que se atirar à água e tentar passar a nado para a outra margem. Pretendia ele ir visitar a sua namorada que vivia na Fajãzinha, mas como não havia nenhuma ponte que unisse as duas margens e permitisse que os transeuntes atravessassem a ribeira em segurança, sobretudo em dias de forte caudal, teve que a atravessar a pé e a nado. A rapariga chamava-se Marília e era filha do capitão Gervásio de Fraga e de sua mulher Jesuína de Jesus e era muito bonita e inteligente. Como a casa do capitão ficava do lado norte da Fajãzinha, perto da Ribeira Grande e como a moça já estava à janela de vigia, à espera de Inácio, assustada com aquele temporal, ao ouvir gritos de agonia, percebeu logo que eram do seu bem-amado e, dando-se conta de que havia acontecido alguma desgraça, instintivamente, prometeu a sua alma ao diabo em troca dele construir, de imediato, uma ponte para ela poder atravessar a ribeira, salvar o seu namorado ou, pelo menos, ver o seu corpo, mesmo que estivesse já morto.

E eis senão, quando Lúcifer lhe apareceu e confirmou, conforme o pedido, que o faria a ponte, mas em troca da sua alma. Marília, agora já arrependida do que prometera e muito apavorada com o que lhe poderia acontecer, enchendo-se de coragem, enfrentou-o e pôs-lhe uma condição, que o diabo, temendo perder aquela alma, aceitou de bom grado: que a ponte teria que estar concluída antes do cantar o galo no curral do vizinho, pois não queria que as pessoas conhecessem a verdade e soubessem que fizera um pacto com Satanás. O diabo começou, de imediato, a construção da ponte mas quando o galo cantou ainda faltava construir um pequeno pedaço, do lado da Fajã, mas isso não impediu que Marília pudesse atravessar para a outra margem da ribeira e salvar o seu amado. Mas porque não cumpriu exactamente o combinado, o demónio não pode possuir a alma dela, e assim a rapariga não só fugiu às garras de Satanás, como também salvou o seu namorado, com quem casou, algum tempo depois e, como reza a lenda, viveram muito felizes para sempre.

Quanto à ponte, consta que uma enorme enxurrada, pouco dias depois, a derrubou, desfazendo-a para sempre, pois era “obra do diabo”.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:14

TERCEIRO

Quarta-feira, 22.01.14

(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Estas casas, onde a sabedoria dos arquitectos nada fez

 e os caminhos de corção nos quais as pedras

 são, mais que pedras, a força

 de as ter trazido e plantado

 sob os passos futuros;

 

e estas paredes dividindo,

contendo,

sobre o corpo do chão,

cerrados e courelas

e belgas trepando

- duras cordas de cinza -

 pelos flancos dos outeiros até onde

 permite o vento uma qualquer

utilidade vegetal;

 

estas terras

revolvidas,

minadas,

com maroiços nas margens e moledos esparsos;

estas árvores,

mais velhas que a memória

dos mais velhos dos velhos:

laranjeiras disformes,

figueiras torcidas

alastrando, subindo;

 

e os poços,

as levadas,

as pontes,

 

ISTO TUDO!

flores de diligência e força

com raízes de tino,

 

ei-la, é a nossa

história.

 

Que não foi escrita

- nomes de heróis -

nos compêndios.

 

Grande de mais para palavras mortas.

 

Pedro da Silveira in Sinais de Oeste 1962

 

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publicado por picodavigia2 às 07:48

SABER NADAR

Quarta-feira, 22.01.14

“Quem não sabe adanar não se chegue ao pé do mar.”

Antes que mais importa esclarecer que, neste interessante adágio fajãgrandense, “adanar” é uma forma popular, utilizada na ilha das Flores, da palavra “nadar”. Assim mais correctamente devia dizer-se “Quem não sabe nadar não se chegue ao pé do mar.”

Sendo assim o provérbio utilizava-se, na Fajã Grande, na década de cinquenta, no sentido real, mas, sobretudo, no sentido figurado. No primeiro caso era por mais evidente o que se pretendia aconselhar com o uso do provérbio. Realmente quem não soubesse nadar deveria ter muito cuidado ou até evitar aproximar-se do mar, sobretudo, na apanha de lapas, no caso das mulheres ou na pesca, em se tratando dos homens.

Mas o grande interesse deste adágio era o seu uso no sentido figurado. Com ele pretendia-se simplesmente avisar as pessoas de que deviam estar sempre preparadas para abraçar uma dificuldade ou para evitar que qualquer problema grave lhe causasse prejuízos. Quem não tivesse a capacidade necessária ou quem não estivesse devidamente preparado não devia aventurar-se em tarefas ou cometimentos sobretudo mais difíceis ou mais perigosos. Para a realização eficiente e produtiva de qualquer actividade ou tarefa era necessário ter a preparação adequada.  

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publicado por picodavigia2 às 06:27

MIRANDELA

Quarta-feira, 22.01.14

O Tua

espelha-te

e transforma em ondas,

suaves e doces,

a serenidade das tuas ruas,

o resplendor dos teus solares,

a tranquilidade das tuas casas.

 

E até

a pulcritude dos teus jardins,

os murmúrios das tuas fontes

e a serenidade dos montes

e dos vales que te rodeiam,

emergem

na torrente límpida e pura,

desse rio,

que corre,

jovial,

ao teu lado.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:16

A REVOLTA DOS INHAMES

Terça-feira, 21.01.14

O inhame chegou aos Açores no século XVII, protagonizando, algum tempo depois, uma das maiores e mais importantes revoltas internas açorianas, com o epicentro na ilha de São Jorge, onde cultivado junto de fontes e rochas, locais pouco propícios a outras culturas, passou, rapidamente, a ter um papel importantíssimo na alimentação e na economia jorgense. O mesmo aconteceu nas outras ilhas e, assim, a produção do inhame nos Açores despertou, de imediato, o interesse dos cobradores de impostos. Mas o povo não aceitou de bom grado o ter que pagar impostos sobre o cultivo dos inhames, com a agravante de os impostos serem, obrigatoriamente, cobrados na terra do cultivador, que assim ficava obrigado a transportá-los, sobretudo no caso de São Jorge, por veredas e rochas íngremes e inacessíveis, até ao local destinado à cobrança do imposto e a entrega aos cobradores.

Descontente, o povo, o povo daquela ilha, com apoio de algumas autoridades locais, manifestou-se revoltosamente, ficando esta rebelião conhecida pela “Revolta dos Inhames”. A sublevação, que teve lugar no largo da igreja do Norte Pequeno, e que está gravada com duas folhas de inhame no brasão da vila da Calheta, no entanto, nada trouxe de benéfico para o povo que acabou por ter que acatar, à força e contra a sua vontade, a imposição dos cobradores de impostos.

Portugal, no século XVII vivia os dissabores da guerra da Restauração, cujas despesas eram enormes e não podiam ser somente cobertas com a simples arrecadação dos impostos, até então, existentes, essencialmente centrados nos produtos de maior valor comercial, como os cereais e as carnes. Face ao aperto das finanças reais, foi preciso reforçar os mecanismos de geração de receita fiscal e taxar novas produções, alargando assim a base tributária. Estas medidas também chegaram à parcela mais ocidental do país. O inhame florescente e fortemente cultivado nos Açores e com grande peso económico das ilhas – São Jorge era o protótipo – manifestava-se como uma fonte de receita, aparentemente, proveitosa para o reino

Assim e com o nome de “dízimo das miunças e ervagens” foi criado um novo imposto sobre todas as produções de hortícolas, erva para os gados (incluindo neste caso o próprio gado) e outras pequenas produções agrícolas (daí a designação de miunças). Este dízimo, perdurou nos Açores até à implantação do regime liberal e a sua cobrança gerou profundo repúdio, tanto mais que os cobradores eram, em geral, capitalistas lisboetas que enviavam agentes às ilhas, os quais extorquiam, sem dó nem piedade, o que era devido e o mais que podiam, aos pobres habitantes das ilhas. A este descontentamento, somava-se o desfazer dos sonhos de uma vida melhor, prometida pela Restauração e, além disso, os antigos capitães-do-donatário de outrora haviam possuído, nas ilhas, grandes latifúndios, que agora estavam nas mãos da alta aristocracia de Lisboa, e reduziam a maioria dos lavradores açorianos à mísera condição de foreiros, sujeitos a pesadas rendas e impostos. Nalgumas freguesias de São Jorge, os poucos terrenos disponíveis para os seus naturais cultivarem eram apenas as rochas e as fajãs onde floresciam os inhames.

Tudo isto fez com que o descontentamento da população aumentasse e se criassem condições propícias para eclodirem vários movimentos de contestação.

A Revolta dos Inhames despoletou em 1694, quando foi solicitado o pagamento coercivo da dízimo, com a agravante de que deveriam ser os agricultores a proceder ao transporte dos inhames desde os campos até ao local de recolha. O descontentamento foi geral, sobretudo em São Jorge. Carregar às costas inhames, desde as Fajãs até ao povoado, ou arriscar a vida a transportar inhames ao longo de falésias, por carreiros mais adequados a cabras do que a pessoas, para depois os entregar como dízimo parecia desumano. Tanto mais que o dízimo do trigo era cobrado na eira, o do milho era cobrado ao portal da terra e o do vinho à bica do lagar. Pretendiam os revoltosos, sobretudo, que se cobrasse o imposto no local de cultivo e não tivessem que subir as encostas íngremes e abruptas com os inhames às costas, destinados aos cobradores. Para São Jorge foram enviados militares da Terceira sendo muitos habitantes da ilha sujeitos a interrogatórios, havendo também muitas prisões. Foi levado a cabo um rigoroso inquérito aos incidentes ocorridos, o qual culpabilizou os amotinados e ainda as autoridades da Calheta que os tinham apoiado e defendido. Igualmente foram julgados culpados os juízes e vereadores da Câmara da Calheta, que no entanto fugiram, escapulindo à prisão. No entanto, procedeu-se ao arresto dos seus bens e haveres, a fim de pagar os dízimos em atraso e os juros que eram acrescidas, as soldadas e demais despesas do corregedor, dos soldados, dos juízes, incluindo as viagens e a alimentação.

Muitos dos culpados ficaram, definitivamente, arruinados, tendo de vender tudo o que possuíam para pagar as quantias em que foram condenados. Outros foram conduzidos sob prisão ao Castelo de São João Baptista, à cadeia de Angra e ainda à cadeia da Horta. Sabe-se que muitos por lá morreram de doença, fome e desgosto. É verdade que a revolta dos inhames foi um ponto alto na vida comunitária da população de São Jorge e de união e luta das suas gentes, em prol dos seus interesses, mas muitos dos seus habitantes foram injustiçados e a ilha ficou mais pobre, porquanto muitos moradores arruinados pelas quantias a pagar mergulharam numa enorme miséria, que os forçou a sair da ilha e a emigrar para o Brasil e, mais tarde, para a América.

Curiosamente noutras ilhas tudo foi mais calmo, como no caso do Corvo e Flores, em que os habitantes, ardilosamente, construíram grutas e aproveitaram outras naturais, para esconder os inhames e fugir, assim, aos malditos impostos e à sádica ganância dos cobradores.

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publicado por picodavigia2 às 22:45

A ARCADA

Terça-feira, 21.01.14

Naquele ano, meu avô fora comprar um bacorinho ao Mosteiro. Raça boa, promessa de fartura em carnes e toucinho, o bicho, chegando à Fajã miúdo mas gordinho e rechonchudo, lá foi crescendo a olhos vistos, com baldes e baldes de lavagens enriquecidas com farelo, com cestos de batatas-doces e, de vez em quando, com umas maçarocas de milho. Enfim, um cardápio de se lhe tirar o chapéu. Deitou, pois, um corpanzil, o danado do porco e tornou-se num belo animal, admirado e louvado por quantos, passando ao lado da casa do meu avô, com laivos de inveja, metiam o nariz no curral, simplesmente para bisbilhotar.

Mas não se contentava o suíno com gamela farta e cheia. Passava os dias a roncar que parecia louco, a empinar-se contra as paredes da cerca, como se quisesse saltar cá para fora e, pior do que isso, havia de se atirar ao chão do curral, num contínuo e permanente fossar, revirando-o de uma ponta à outra. Parecia um cerrado de covas e regos abertos, à espera da sementeira para o batatal. Meu avô é que não se empolgou com o vício do porco e não lhe foi na cantiga. Ao princípio, ao ver aquela “porquinheira” abominável, desinteressante e incomodativa, apenas lhe dava uma paulada agora, outra logo, a ver se o bicho se acomodava. Mas o maldito é que não se corrigia, antes, de dia para dia, mais fossava, mais remexia, mais revirava e mais esburacava e destruía o curral. E tanto fossou e chafurdou, tanto esburacou e escavou, que meu avô não esteve com meias medidas, decidindo-se por espetar-lhe uma arcada no focinho.

Com a ajuda de meus tios e do vizinho Bizarro, meu avô armou-se de um bom bocado de arame, bem limado e afiado numa das pontas, duma turquesa, de um alicate e de uma valente corda. Quando o porco menos esperava, saltaram todos, de rompante, para a cerca, atirando-se ao bicho como Santiago aos Mouros. Antes porém taparam, com uma tábua, a porta do chiqueiro para que o malvado, adivinhando o ardil, lá não se escondesse, protegendo-se e, assim, conseguindo fugir à trágica e eminente “cravadela” que sobre si próprio se pairava abater.

O porco ao princípio estarreceu, parado que nem uma estátua, como se tivesse sido apanhado de surpresa. Mas como os homens se aproximassem dele, percebeu, de imediato, que havia de ser agarrado e amarrado o que, decerto, não seria para coisa boa. Por isso, começou aos saltos, a correr de um lado para o outro e a grunhir muito aflito e desconfiado. Preso por um pé, depois pelas orelhas, finalmente, os homens paralisaram-no por completo, amarrando-o e prendendo-lhe uma alça da corda, no queixo superior e de seguida, enrolando-a de modo a apertar-lhe a boca, de maneira que não pudesse morder. O porco em alta gritaria, grunhia, gingava e impulsionava o corpo, para trás, para diante e para os lados, em convulsões contínuas a fim de se libertar das garras dos domadores. Mas nada. Os homens, depois de o agarrarem, nunca mais o largaram, por mais que ele grunhisse, escorropichasse, esperneasse e tentasse a fuga. Após alguns minutos de luta renhida, o porco, percebendo que a força dos humanos o superava, acalmou-se, iniciando um grunhir mais grosso, mas pachorrento e sossegado, até que se aquietou por completo, cessando os seus movimentos de revolta e contestação. Não imaginava era o que havia de seguir-se… O vizinho João Bizarro, pegou no arame que meu avô lhe alcançara e enfiou-lhe, no focinho e de cima para baixo, a ponta afiada. O porco gritava como se estivessem a matá-lo, ao mesmo tempo que dava enormes solavancos iniciando um grunhir agudo e persistente que se prolongaria durante toda a operação. Meu avô e meus tios cada vez o agarravam com mais força, imobilizando-o por completo, de maneira a que o vizinho Bizarro, com toda a calma, depois de retorcer o arame, lho voltasse a enfiar no focinho, agora de baixo para cima. De seguida torceu-o e voltou a enfiá-lo mais duas/três vezes no focinho do porco, acabando por cortá-lo nas extremidades, enrolando as pontas, uma na outra com o alicate, fazendo assim uma espécie de argolas que, para sempre, presas no focinho do cevado, haviam de o impedir de fossar. Depois, retirando-lhe a corda da boca e do queixo, soltaram-no. O porco, porém, mais receoso do que dorido, apanhando-se solto, refugiou-se no chiqueiro, onde, desconfiado, permaneceu durante horas, a grunhir com voz lânguida e dolente.

É verdade que nos dias seguintes mal comia, pois a arcada, colocada de modo a lhe doer, ao mínimo contacto com uma superfície dura, impedia-o de enfiar o focinho na gamela, feita de pedra rija. Segunda a douta opinião da minha avó, o porco até emagreceu bastante e perdeu peso, chegando mesmo a definhar. Com o tempo, porém, mesmo com a arcada no focinho, cheio de apetite, recuperou o hábito de limpar a gamela por completo e, dentro em breve, adquiriu o peso desejado, mas nunca mais fossou no chão do curral.

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publicado por picodavigia2 às 21:20

A LENDA DAS AMENDOEIRAS EM FLOR

Terça-feira, 21.01.14

Conta-se que há muitos séculos, antes de Portugal ter nascido, no tempo em que o Al-Gharb (Algarve) ainda pertencia aos Árabes ou Mouros, reinava naquele território um jovem e audaz monarca de nome Ibne-Almundim, o famoso valido de Allah, porque nunca perdera uma batalha ou, sequer, sofrera uma derrota e era o mais temido dos reis mouros do seu tempo.

Ora num dia, após mais uma das suas retumbantes vitórias sobre os reis cristãos do norte da Península, aconteceu que o facínora vislumbrou uma linda princesa muito loura, de olhos azuis e de porte altivo, filha de um rei que havia sido derrotado por ele próprio. Gilda era o nome desta menina de rutilante beleza e que, de imediato, prendeu a atenção daquele rei árabe. Gilda era princesa num reino do Norte e filha de rei cristão. Após a batalha, Ibne-Almundim raptou-a, levando-a consigo para o seu longínquo reino do Al-Gharb. Não obstante, a sua beleza fulgurante, Gilda tinha uma personalidade forte e bem marcada e não se mostrava com medo e, por isso, procedeu, no seu relacionamento com ele, não como esposa mas sim com uma aguda consciência de que era sua prisioneira ou escrava, embora nunca se esquecendo da sua condição de princesa. Obedecia ao rei mouro, frisando sempre a relação de obediência e escravidão que a unia a ele, uma vez que ele próprio a raptara e fizera prisoneira.

Cansado de possuir a sua amada desta forma tão pouco natural e desejando-a, antes, como esposa de verdade, lbne-Almundim, finalmente, um dia, soltou-a e deu-lhe liberdade para ela ir onde quisesse e fazer tudo quanto lhe apetecesse. Um sorriso de gratidão, simpatia e confiança foi a resposta de Gilda, ao seu desejo mais íntimo. Todavia, a reacção da bela princesa a este acto inesperado, foi bem contrária à vontade e intenção do rei mouro que, de governante alegre, poderoso e invencível, passou a andar sombrio, sorumbático e com demoradas e excessivas crises de mau humor. Havia um sentimento que não só limitava a sua força e espírito de herói mas que também o sufocava e oprimia: era o desejo e a necessidade de voltar a ver Gilda, de lhe falar, de a ouvir, de a ter como verdadeira esposa. Deixando-se vencer pela paixão, Ibne-Almundim foi ter com Gilda e revelou-se-lhe como ninguém o conhecia, despido da fama, do dinheiro, do respeito, do espírito bélico e envolvido num tom de voz amiga, doce e meiga. Perante o pedido do rei árabe para ela ser sua mulher, Gilda rendeu-se às suas palavras e a festa da boda, de grande aparato e sumptuosidade, logo ocorreu, com gente de todos os reinos, carregados de preciosas oferendas, trovadores e músicos de terra distantes, bailarinas de corpos ondulantes que espalhavam magia pelo ar. No último dia da festa, lbne-Almuindim deu pela falta de Gilda e sem hesitar foi procurá-la, mas encontrou-a doente, quase morta, ainda mais branca do que habitualmente e inundada em lágrimas. Tentando responder às perguntas do seu amado e sossegar o seu espírito, Gilda não conseguiu levantar-se. Custava-lhe a falar, sentia que ia morrer e não percebia, agora que estava livre, por que ficara assim mergulhada numa prostração, deixando de ouvir as palavras, súplicas ou lágrimas de lbne-Almundim.

Em pânico e completamente desorientado, o jovem rei árabe reuniu no palácio todos os sábios e curandeiros do reino, mas nenhum lhe disse o que os seus ouvidos queriam ouvir. Vencido pela primeira vez na vida, e já sem esperança, o rei recebeu a visita de um velho prisioneiro também das terras do norte, antigo súbdito do pai de Gilda que lhe queria falar. Este homem velho não era um sábio, mas era um poeta e afirmou que lhe ia revelar a causa da doença da jovem e bela princesa, não porque ele merecesse, mas por causa de Gilda. Depois de ver o velho, os olhos de Gilda sorriram e ela voltou a falar. O velho animou-a e disse-lhe que se havia de curar. Ouvindo a conversa de ambos, Ibne-Almundim conduziu o velho até ao terraço e este confessou-lhe que a doença de Gilda era a nostalgia, ou seja, a bela princesa, simplesmente, tinha saudades da neve do seu país distante e longínquo e que naquela altura do ano se cobria de neve e enfeitava de branco os campos assim como as terras até onde os olhos conseguiam alcançar. Estupefacto, mas já alimentado de esperança, o rei sarraceno não hesitou quando o velho poeta lhe disse que ele só precisava de fazer uma coisa para curar Gilda: mandar plantar, em todo o seu reino, e muito especialmente ali diante do seu palácio muitas amendoeiras porque estas, ao florirem, com as suas belas flores brancas, dariam a ideia de neve, aos olhos saudosos da princesa e ela curar-se-ia. Assim foi feito e assim aconteceu, pelo que a alegria da princesa voltou a inundar o palácio e a beleza das amendoeiras começou a enfeitar as terras do Algarve.

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publicado por picodavigia2 às 17:24

A ÁGUA DA FAZENDA (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Terça-feira, 21.01.14

“Meu pai contava que quando era pequeno ouvia contar que há muitos, muitos anos o povo da Fazenda Vila, andava muito entusiasmado porque estava finalmente a realizar um sonho já velho: construir a sua igreja, dedicada a Nossa Senhora de Lourdes. Tinham escolhido um lugar alto e vistoso, de onde se podia avistar não só quase todas as casas do lugar mas também os terrenos verdes salpicados do azul das hortênsias, na Primavera e Verão ou ainda de onde podiam ver e observar o mar até ao horizonte.

Aquela gente andava muito contente mas também muito cansada porque tinha de fazer os seus trabalhos nas terras e não eram poucos mas tinham também que ajudar nas obras da sua igreja. Mas o pior é que não havia água nas redondezas, tinham que a ir buscar muito longe, o que dificultava ainda mais os seus trabalhos. Enquanto os homens iam levantando as paredes com os mestres, as mulheres e as crianças caminhavam de latas e baldes de madeira à cabeça para a Ribeira de Além, buscar água. De lá traziam, com grande esforço sacrifício, a água que os homens precisavam para ir fazendo a argamassa. Várias vezes, durante a viagem, debaixo de um calor intenso, as mulheres pediram a Nossa Senhora de Lourdes que lhes deparasse uma coisinha de água, ali mais perto. E não +e que Nossa Senhora fez o milagre…

 Uma certa noite, enquanto todos dormiam profundamente e descansavam de um dia de muito trabalho, a água nasceu na rocha e começou a correr com abundância ao pé do lugar onde estavam a levantar as paredes da igreja. De manhã, ao chegarem, os trabalhadores ficaram muito admirados com toda aquela força de água. Então as pessoas da Fazenda, animados na sua fé, trabalharam ainda com mais vontade, até acabar a construção da sua igreja.

 Mas a água continuou a correr numa fonte debaixo da sacristia da igreja de Nossa Senhora de Lourdes. Os florenses, em geral e os fazendenses em particular,  começaram a sentir uma veneração muito especial por esta água fresca que, para além de os ajudar na construção da igreja, curou muitas doenças às pessoas, algumas vindas de freguesias distantes só para beber a milagrosa água de Nossa Senhora de Lourdes.

Passaram-se muitos anos. A igreja precisava de ser pintada. Pois o povo daquele lugar, ensaiou umas belas músicas e percorreu a ilha toda a pedir ajuda para conseguirem o dinheiro para comprar as tintas. Também vieram aqui à Fajã. Pernoitavam em casas de pessoas amigas e cantavam assim pelas portas de todas as casas:

Nossa Senhora de Lourdes,

É que vos há-de abençoar,

Se derdes a vossa esmola

P´ra pintar o seu altar.”

Correram a ilha inteira e pediram em todas as casas. Cada um dava como podia e, assim, conseguiram, restaurar a sua igreja,”

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publicado por picodavigia2 às 14:45

RABO-DE-PALHA

Terça-feira, 21.01.14

“Quem tem rabo-de-palha, julga que tudo o que vem atrás é lume.”

Este é, na realidade, um outro dos mais interessantes, sábios e doutos adágios, ainda, utilizado na Fajã Grande, na década de cinquenta. Usado sempre no sentido figurado, com ele pretendia-se alertar as outras pessoas para os riscos que correm os medrosos, os hesitantes e os pouco destemidos. Na realidade cuidava-se que teriam rabo-de-palha as pessoas fracas, indecisas, que vacilavam perante as soluções dos problemas, obstaculizadas em contornar as dificuldades e resolver as situações de embaraço em que muitas vezes, involuntariamente, se envolviam. Inerente a essas atitudes era o medo, de fracassar, de se auto destruir e de perder tudo. O medroso, outrora, como ainda hoje, cuidava que pouco poderia conseguir, ao indeciso tudo metia medo, o hesitante julgava que tudo o impedia de agir, o fraco pensava que em tudo havia de fracassar e os vacilantes cuidavam que não seriam capazes de se tornarem fortes. Por isso, tudo o que os rodeasse, rotulado de algum aventureirismo havia de os amedrontar e assustar ainda mais.

Este provérbio era uma forma de alertar, de incentivar e acicatar todos e cada um, para com força e dignidade resolver os seus problemas,

Cuida-se, no entanto, que o adágio teria também uma outra conotação. Já que ter rabo-de-palha significava ter cometido alguma coisa comprometedora ou menos conseguida ou digna. Assim por tudo e por nada cuidavam os prevaricadores que seriam descobertos, sentenciados e condenados. Tal assombro desembocava, necessariamente, num constante e premente medo de ser apanhado ou descoberto, por isso tudo o que fosse indício ou se assemelhasse a prova denunciadora parecia lume.

Quem de uma forma ou de outra estivesse comprometido, pela negativa, com algo ou com alguém, havia de viver sob o flagelo permanente do medo de ser descoberto e, consequentemente, condenado.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:18

SABORES E DISSABORES DO PICO

Segunda-feira, 20.01.14

Quem visita o Pico no inverno não deixa de ter um ou outro dissabor. No entanto, como são tantos e tão sublimes os sabores que se nos deparam, nos circundam, em que, necessariamente, nos envolvemos e que, na ilha montanha, nos são, diariamente disponibilizados, os primeiros quase se esquecem ou, pelo menos, sublimam-se com relativa facilidade.

A ilha, flagelada por desleixos, incompetências, conflitualidades ou esquecimentos, na realidade, ainda não possui estruturas de acesso que, definitivamente, se oponham a intempéries, chuvas torrenciais, ventos, tempestades e outros reveses climáticos e enigmáticos. Causam transtornos inevitáveis, geram situações incomodativas e inculcam desesperos angustiantes. No entanto, o estigma provocado pelas más condições climatéricas, sobretudo pelo quase constante vento ciclónico com que a ilha é assolada, com alguma frequência, nesta altura do ano, nunca será curado, por mais vontade, competência e capacidade que se tenha. Pode sim, menorizar-se, aliviar-se, talvez mesmo combatê-lo com alternativas viáveis. As ligações aéreas com as restantes ilhas escasseiam no inverno e os aviões “grandes”, para o continente, fogem do Pico como o diabo da cruz. Para se viajar do Pico para o Porto e vice-versa, ou se faz uma escala por Lisboa e pelo Faial ou se pernoita em São Miguel. Além disso os preços são elevados e não há alternativas viáveis. Das ligações marítimas, limitadas, por natureza no inverno, também chegam ecos de viagens, por vezes incompreensivelmente, canceladas, portos encerrados, alternativas bloqueadas. A ferocidade do tempo (e não só) não se compadece com necessidades ou exigências e condiciona, a todos os níveis, não apenas o demandar, mas sobretudo, o viver nas ilhas, especialmente no inverno.

Mas o Pico, mesmo em pleno inverno, na sua excelência endémica, natural e pura, atrai, purifica, eleva e transcende. O chão mantem o bafo da lava e é da lava que emerge o sabor do pão. As vinhas nascem e florescem no rastro dos vulcões e o vinho tem o perfume e o paladar do enxofre vulcânico. O Pico ainda não se perdeu, por completo, no burburinho estonteante da modernidade, nem se desvaneceu na onda atraente e avassaladora do consumismo. Talvez se enfeitiçou por uma e por outro, mas cedo percebeu e recuou. Voltou a perfumar-se com os sabores das marés e os acres respingos da maresia e abrigar o seu destino na íngreme sinuosidade das veredas e maroiços, no aconchego acolhedor das casas e adegas, feitas de basalto puro.

No Pico, os homens ainda atravessam veredas íngremes, subjugados ao peso abrupto dos cestos de batatas ou dos molhos de couves, ainda atiram, com destreza, o alvião à terra e foicinho aos silvados. No Pico ainda se seca milho no forno, se pescam sargos no reboliço das marés e ainda se passa o vinho nas adegas. Há batata-doce a secar ao Sol, milheirais ressequidos, laranjais pejados de citrinos e nos pastos saltam bovinos à porfia. O bolo mantém o sabor adocicado da farinha e o bafo quente do tijolo, as postas de peixe enchem terrinas, ornadas de salsa e o caldo, suculento, fumega nas tigelas, mesmo envelhecidas e de rebordos lascados. As adegas mantêm as portas escancaradas, encenam descansos e emoções, purificam trabalhos e canseiras, envolvem sonhos e esperanças e permanecem como reservas naturais da alegria e do enfeitiçamento, como verdadeiros santuários, onde o vinho é deus e o bagaço e a angelica as primícias originais da sua criação.

O Pico é aquela montanha de lava, atirada pelos deuses sobre o oceano, onde cantam loas as gaivotas, onde a terra se mistura com o mar e onde o Sol ilumina as manhãs com uma luz estranha e enigmática.

O Pico de outrora renasceu, trazendo o doce perfume de sabores ancestrais sem regressar a um passado que, na sua história, nunca se perdeu. A memória nunca se apaga por completo, apenas se renova, genuína, perene e repleta de emoções.

PS – Acrescente-se ainda o “dissabor” da Internet. As “pens” pagas ao minuto, “gamam-nos” euros que nem máquinas de jogos. Demoram uma eternidade a abrir e fraquejam durante o percurso. Na freguesia onde vivo, São Caetano, há um café “O Cantinho” com “sinal” aberto, mas nem sempre acessível. O ciclone, pelos vistos, deixou mossas nas antenas. A Biblioteca Municipal da Madalena, ainda é o melhor local, mas implica uma deslocação à vila.

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publicado por picodavigia2 às 21:52

MANUEL GREAVES

Segunda-feira, 20.01.14

O escritor e jornalista Manuel da Silva Greaves nasceu na cidade da Horta, em 8 de Janeiro de 1878, tendo falecido em Fevereiro de 1956. Iniciou-se no jornalismo, ainda estudante do Liceu da Horta, colaborando em publicações da altura. Foi redactor de O Ocidente dos Açores, do O Atlântico e do Jornal Açoreano. Também colaborou com outros jornais do arquipélago, do continente, dos Estados Unidos da América e do Brasil. Os seus artigos de política partidária caracterizam-se pela sátira e pela ironia com que visava os adversários.

Como escritor regionalista, deixou vários livros de temática açoriana, onde o mar e os baleeiros têm lugar de realce. Deixou também alguns versos do género simbolista, dispersos pelos jornais, subscritos com o pseudónimo Narciso Rosado, que foram reunidos pela família e publicados postumamente.

Entre as suas obras, destacam-se: Notas de Arte, Vigílias, De Bond, O Meu Tempo, Histórias que me contaram, Aventuras de Baleeiros e Outras Histórias que ouvi

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 20:11

AS BOCAS DO MUNDO

Segunda-feira, 20.01.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez um velho que vivia com o seu neto e tinham um burro. Certo dia resolveu o velho ir a uma feira. Como não queria deixar o neto sozinho em casa, decidiu levá-lo consigo, juntamente com o burro. O burro seguia à frente o velho e o neto, caminhavam a pé, atrás do burro. Passaram por um lugar onde havia muitas pessoas. Estas, ao vê-los a caminhar a pé, atrás do burro, e este sem ninguém em cima, começaram logo a murmurar e criticá-los:

Que idiotas! Porque não vão montados no burro, seus patetas?

Então o velho pegou no menino e sentou-o em cima do burro, continuando ele a caminhar, atrás, a pé. Passaram num outro lugar onde também estavam muitas pessoas que voltaram a murmurar e a criticá-los:

 - Olhem para o velho que não tem vergonha. Ele que é mais velho, vai a pé e o atrevido e preguiçoso do rapaz, todo pimpão, refastelado em cima do burro.

Então o velho trocou com o neto. Montou ele o jumento e o rapaz seguia atrás a pé. Passaram noutra aldeia e as pessoas de novo murmuram e criticaram o velho por ser um ingrato e sem consciência, montando, muito bem instalado, o burro e a pobre criança, desolada, a pé.

Então o velho, pegando no neto, sentou-o, juntamente consigo, em cima do burro. De novo passaram noutra aldeia e as pessoas de novo murmuraram e criticaram, dizendo que o velho não tinha consciência, nem pena do pobre do burro. Iam os dois ingratos montados em cima do desgraçado do burro.

Então o velho disse ao neto:

É para que saibas como são as bocas do mundo que nunca se conseguem calar. Quer vá a pé, quer em cima do burro, quer com ele às costas, sempre hão-de murmurar, criticar e, até, condenar.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:42

VULCÕES DE MÚSICA

Segunda-feira, 20.01.14

A ilha do Pico, celebrou de forma peculiar e intensa, o dia da mártir Santa Cecília. Demudado, por razões mais que óbvias, da sua data litúrgica - 22 de Novembro - para o domingo anterior, o dia da padroeira dos músicos, havia de galvanizá-los, na ilha montanha, em desfiles musicais, em eventos, deslumbrantemente, harmoniosos e em manifestações, delirantemente, melodiosas, aspergindo a sua música aos quatro ventos. O concelho da Madalena, como aliás toda a ilha do Pico, um “viveiro natural” de aprendizes da arte de bem cantar e tocar, uma espécie de “santuário protegido” de músicos e maestros, uma “reserva preservada” de melodias, instrumentos e cânticos populares, assumiu como sua, a manhã de domingo – 18 de Novembro – e congregou nas ruas da vila, sede de concelho e junto à igreja matriz, as três filarmónicas do concelho – Sete Cidades, União e Progresso Madalenense e Lira de São Mateus - os grupos corais ou capelas de todas as freguesias da chamada zola pastoral da Madalena - Bandeiras, Madalena, Criação Velha, Candelária, São Mateus e São Caetano - assim como os ranchos folclóricos (também um existente em cada freguesia do concelho) e ainda o Coral da Madalena e a Tuna da Candelária. Por estimativa, cuida-se que terão participado activamente nesta tradicional e sumptuosa celebração vivencial da música, cerca de quatrocentas pessoas, pese embora algumas delas pertençam a mais do que um agrupamento musical. Momentos houve em que, aparentemente, parecia que o número de participantes era superior ao número de elementos do público presente. Se tivermos em conta que a população do concelho da Madalena do Pico, actualmente, é de cerca de quatro mil habitantes, poder-se-á concluir que cerca de dez por cento dos mesmos, pertence a um agrupamento musical radicado no concelho, dedicando os seus tempos livres ao ensaio, ao estudo e à prática musical. Isto significa que o concelho Madalena, decerto, ocupará lugar de relevo no top da liderança nacional, como o concelho do país com mais músicos e também com mais ranchos folclóricos por metro quadrado.

Após o desfile, as portas abriram-se e a Matriz engoliu, na totalidade, aquele acervo de músicos, cantores, tocadores e bailadores, sem distinção de vozes ou de tipo de instrumentos, para uma celebração eucarística que apenas teve um senão – ser extremamente demorada. Mas o magnífico e histórico templo madalenense, dotado de excelentes condições acústicas e com os seus altares a abarrotar de talha dourada, explodiu, impiedosamente, como se dele se soltassem labaredas de som, chamas vulcânicas, não de lava, como durante crises sísmicas sucessivas que em tempos remotos assolaram a ilha, mas sim chamas de solenes e suaves melodias musicais. Era como se ali, bem no coração da terra picoense, tivessem rebentado vulcões que em vez de lava expelissem a excelência dos acordes musicais, a polifonia das vozes, a harmonia dos instrumentos e o encanto, embevecido, das melodias – verdadeiros vulcões de música.

De tarde o epicentro desta intensa actividade musical transferiu-se para as Lajes, vila histórica e baleeira, que também havia de reunir, na sua imponente matriz, ornada de traços a simularem o gótico, a expelir suaves melodias, grande parte dos músicos que também proliferam neste concelho. Se o número de ranchos folclóricos é bem menor do que o do concelho da Madalena, o mesmo não acontece com as bandas musicais. São seis as existentes no concelho das Lajes, embora apenas uma tenha actuado durante a celebração eucarística, na homenagem prestada a Santa Cecília. O protagonismo, porém, na Matriz da vila baleeira centrou-se na actuação dos grupos corais das seis paróquias do concelho e ainda no Grupo Coral das Lajes do Pico.

As celebrações em homenagem à padroeira dos músicos continuarão noutras localidades do Pico, nomeadamente, no Santuário do Senhor Bom Jesus, no próximo dia vinte e dois.

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publicado por picodavigia2 às 15:50

O BOICEIRO (VERSÃO REDUZIDA)

Segunda-feira, 20.01.14

Quando eu era criança, por tudo e por nada, lá vinha a temível ameaça do “Boiceiro”- um horrendo instrumento de tortura e punição - excessivamente doloroso e destinado a punir as crianças que não cumpriam quer os mandamentos da Lei de Deus quer os preceitos da Santa Madre Igreja. Assim, perante qualquer pensamento mau, palavra obscena, desobediência ou acto indigno, vinha a decisão terrível, apavorante e aterradora:

- Para a próxima, vais sentar-te no “Boiceiro”.

Sabia-se, apenas, que o excêntrico instrumento de tortura tinha a forma de uma cadeira, com uma diferença - e que diferença, meu Deus  - o assento. Este estava cravejado de pregos enormes e aguçados, com a ponta virada para cima, com a denodada intenção de penetrar, sanguínea e dolorosamente, no rabiosque do infractor, castigando-o pelas faltas praticadas ou pelos delitos cometidos.

Mas o estranho é que o “Boiceiro”não se via e, consequentemente, o que mais atormentava os prevaricadores, era a sua ameaça permanente. Sabia-se apenas que estava algures, na igreja, atrás do altar-mor, sempre disponível para castigar os jovens e inexperientes pecadores.

Eu, como todos os outros da minha idade, pelava-me de medo com a contínua intimidação de tão pavoroso suplício. Admirava-me, no entanto, que a estroinice de que era acusado, nunca tivesse sido devidamente castigada naquele inferno terreno e, por isso, sentia, cada vez mais, uma enorme vontade de desvendar e conhecer o heteróclito mistério em que estava envolta tão abominável e execranda herança inquisitorial. 

Certa tarde, as tias Graça e Luzia, escalonadas para enfeitar a igreja, decidiram que eu as acompanharia em tão sacrossanta tarefa. Enchi-me de alegria e contentamento. Mais feliz fiquei, quando, ao chegar à igreja, percebi que as tias iriam abrir a porta que estava atrás do altar-mor para ir buscar baldes, vassouras e outros apetrechos necessários à limpeza do templo. De imediato, me concentrei na forma de, sem elas darem conta, tentar explorar as traseiras da capela-mor, na tentativa de ver de perto, talvez mesmo tocar no tão famigerado “Boiceiro”, desvendando assim o enigmático mistério da sua existência.

Esperei que as tias se ausentassem. Aguçava-se-me o desejo de ver a tão torturante e punitiva cadeira. Não tinha ainda acabado de substituir o pavio da lâmpada do Santíssimo e de a abastecer de azeite, quando as tias decidem sair para sacudir as carpetes da capela e apanhar mais algumas flores, deixando-me ali, sozinho, com a obrigação de não mexer ou tocar em coisa nenhuma e com o único objectivo de informar, fosse quem fosse, da sua ausência. Transformado em verdadeiro guardião do templo, esperei um pouco e, de imediato, fui espreitar, sorrateiramente, por trás do altar-mor. A porta estava semiaberta.

Estarreci de emoção hesitante. Por um lado pesava sobre mim uma excessiva curiosidade, mas por outro assustava-me não apenas o espectro do enigmático grilhão mas também a entrada em tão desconhecido recinto e ainda a hipótese, quase certa, de ser apanhado com a boca na botija. Dizia-se que, para além do altar-mor, existia uma espécie de “Sancta-Sanctorum, que só os “eleitos” podiam transpor.

As tias demoravam e isso trouxe-me um medo enorme mas aguçou-me a curiosidade. Era agora ou nunca. Olhei timidamente para o Sacrário, diante do qual fiz uma genuflexão e, pé ante pé, ultrapassei o altar, penetrei no vão que o separava do retábulo doirado da capela-mor, onde estava encravado o camarim. Empurrei a porta semiaberta. Esta rangeu, abriu-se lentamente e eu entrei.

No minúsculo e apertado cubículo pairava um silêncio sepulcral, apenas entrecortado, levemente, pelo tiquetaque do relógio. Lívido, olhei ao redor, sem ver nada ou coisa nenhuma. O temor, no entanto, foi-se desanuviando à medida que os meus olhos se iam habituando à tenebrosidade da betesga. De um lado prateleiras com garrafas de vinho de missa, latas de azeite para o Santíssimo, caixas com moedas do tempo dos afonsinos e andores encavalitados em cima uns dos outros. Do outro, caixotes cheios de maços de velas de estearina, as lâmpadas que acompanhavam as procissões, muitas cruzes e uma data de guiões. Num canto, debaixo das escadas que davam para o piso superior, a imagem do Senhor dos Passos. Uma dor de alma! Jesus num dos mais dolentes momentos de tortura e sofrimento da Sua Paixão. Sentado numa pedra, quase nu, mãos atadas por um cordão amarelado, segurando uma cana a fazer de ceptro e com uma enorme coroa de espinhos cravada na cabeça, lá estava o “Ecce Homo”. Do crânio, perfurado pelos espinhos, saíam-Lhe gotas de sangue que corriam pelo rosto e se perdiam nas barbas ou Lhe salpicavam o tronco e os joelhos. Os ombros avermelhados e o tronco despedaçado faziam entender que havia sido fortemente chicoteado. O seu rosto apresentava-se, simultaneamente, sofredor e angustiado mas confiante e meigo. Fixei-o e senti uma enorme compaixão. Bem me apetecia libertá-Lo totalmente daquele suplício que me fazia lembrar ao que ali viera, com a insignificante diferença de que as picadelas de Jesus eram na cabeça e as minhas haviam de ser no rabo. Ao lado, uma portinhola, com quatro vidros pequenos e toscos a encimá-la, por onde entrava uma claridade pouco clarificante, permitia-me observar melhor a imagem dolente. Espreitei pelos vidros e o meu temor aumentou significativamente. A porta comunicava com o cemitério, onde se visionava uma enorme quantidade de campas, vários jazigos e algumas sepulturas recentes, todas encimadas por cruzes e sobre as quais pairava um silêncio ainda mais assustador. Apesar de aterrorizado, continuei a procurar o “Boiceiro”. Mas nada. Apeteceu-me sair. E se as tias já tivessem chegado? E se aparecesse alguém? Voltei a hesitar por momentos. Mas tinha chegado até ali, continuaria a pesquisa. Decidi subir as velhas e frágeis escadas que permitiam o acesso ao piso superior. Galguei-as a medo, à medida que tentava descortinar o que existia naquele recanto ainda mais enigmático, mais escuro e mais tenebroso do que inferior. Apenas uma fresta, no alto da parede, permitia uma luminosidade mínima, necessária para se identificar o que ali estava. Logo à entrada o esquife em que nas endoenças era transportado o Senhor morto, deposto da cruz. A seguir o S. Miguel, de botas altas, calções e traje nobre, com uma balança na mão direita e uma espada na esquerda. O Arcanjo aguardava serenamente o juízo final, para pesar o bem e o mal praticado pela humanidade. Mais além pendurada na parede a matraca substituta dos sinos na Parasceve e, ao lado, a Senhora da Soledade, totalmente nua, mas com os seios atrofiados e sem parrameiro. Ao fundo do cubículo a essa!

Estarreci por completo. Cheio de medo, dei um enorme grito ao ver aquele horrível catafalco donde via emergir o velho “Laranjinho” – o enigmático representante de todos os finados da freguesia - lembrado no dia dois de Novembro. Totalmente apavorado, desci as escadas em lances de três e quatro degraus, saí pela porta de trás do altar-mor e, esbaforido, corri desalmadamente até à rua, jurando nunca mais ali voltar.

Quanto ao “Boiceiro”havia de permanecer ainda por mais alguns anos, na minha mente, como ameaça mítica, punitiva           e assustadora.

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publicado por picodavigia2 às 14:43

O ROCHÃO TAMUSGO

Segunda-feira, 20.01.14

O chamado “Rochão Tamusgo” era um lugar situado nos matos da Fajã Grande e que hoje, muito provavelmente, será de acesso muito difícil e de lembrança quase indecifrável, talvez mesmo esquecido por completo. Este lugar, com tão estranho e enigmático nome, situava-se por cima da Rocha dos Paus Brancos, a qual possuía uma estreita e sinuosa vereda que dava acesso aquele lugar. No entanto, o caminho vulgarmente utilizado por homens e animais que para lá necessitavam de se dirigir, era o da Rocha, finda a qual, viravam a sul, seguindo pelos atalhos que davam para o Rochão do Junco e Curral das Ovelhas. Embora mais longe e também de mais difícil acesso, tornava-se uma melhor opção relativamente à quase intransponível subida da Rocha dos Paus Brancos, dotada de um piso sinuoso e escorregadio, a abarrotar de água, de densa vegetação e de silvados por tudo o que era sítio.

O lugar do “Rochão Tamusgo” era todo ele ocupado por algumas pastagens pertencentes a particulares. No entanto a dificuldade do seu acesso aliada à fraca qualidade das suas pastagens faziam com que apenas ali colocassem gado alfeiro. A sua proximidade da borda da Rocha era tal que, por vezes, cá de baixo, era possível verem-se muitos dos animais que ali pastavam.

A sul, o “Rochão Tamusgo” era ladeado pela Burrinha, a este pelo Rochão do Junco e a oeste pela Rocha dos Paus Brancos. A norte, porém, o “Rochão Tanusgo” como que se afunilava, encravando-se entre as relvas do Cimo da Rocha.

A origem deste topónimo, no que à estranha palavra “Tamusgo” diz respeito, dado que a mesma não existe na língua portuguesa, nem como substantivo próprio ou comum, revela-se um pouco ambígua e intrigante. Por um lado o nome poderá ser uma deturpação da palavra de “tamujo” ou “tamuje” atribuído a um arbusto existente nas ilhas açorianas. Neste caso, do topónimo “Rojão Tamujo” inicial, poder-se-ia ter derivado e chegado a “Rochão Tamusgo”, o que parece pouco provável. Na língua portuguesa, porém, existe o verbo “tamuscar” com o significado de “dormitar”. Para que esse verbo estivesse na origem daquele topónimo teria, obviamente, que ser utilizado na primeira pessoa do singular do presente do indicativo, “tamusco”, deturpando-se, sob a forma de “tamusgo”. Mas muito estranho seria que alguém “dormitasse” por ali com alguma frequência a tal ponto de dar conhecimento público desse facto, usando a forma verbal “eu tamusco” – “Rochão onde eu tamusco” e “Rochão Tamusgo”.

Sendo assim, a explicação, em minha opinião poderá ser outra. A apanha do musgo nos matos, para encher colchões e almofadas foi sempre prática muito habitual na Fajã Grande, por parte das mulheres. Um dos locais muito procurados para a apanha do dito cujo era toda aquela zona, desde o Cimo da Rocha até à Burrinha. Aquele local, assim como o Rochão do Junco, eram os privilegiados para apanha do musgo, portanto, ali seria um local onde há musgo, “está musgo” ou “tamusgo”. Como era uma enorme zona inclinada sobre a Rocha, era um “Rochão” que para se identificar e distinguir do seu vizinho “Rochão do Junco” se passou a chamar “Rochão Tamusgo”.

Assim e muito provavelmente se terá formado este interessante e bonito nome de um lugar da Fajã Grande que fez parte da sua história, que teve um papel interessante e de alguma forma significativo na sua economia e nos seus costumes e que hoje se perdeu quase por completo.

Curiosamente topónimos semelhantes existem noutras ilhas açorianas, nomeadamente, no Pico, mais concretamente na Candelária, onde existe “O Cabeço do Tamusgo” uma elevação que faz parte do alinhamento vulcano-tectónico do Cabeço Bravo e do cabeço do Pé do Monte, este junto ao lugar do Monte.

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publicado por picodavigia2 às 12:08

O CAMINHO DO CIMO DA FONTINHA AO ALAGOEIRO

Segunda-feira, 20.01.14

Em plena década de cinquenta, podia dizer-se, em boa verdade, que a rua da Fontinha, inserida no lugar com o mesmo nome, terminava junto à casa de Tio José de Teodósio. A partir daí iniciavam-se outros lugares. Em primeiro o Tanque, embora encafuado um pouco mais para os lados do Outeiro e da Bandeja, depois o Cruzeiro e, finalmente o Alagoeiro. Todos estes lugares eram despovoados, excepto o Alagoeiro, mas neste, os habitantes eram poucos, uma vez que ali morava apenas uma família. No entanto, no que a edifícios dizia respeito, já não era bem assim. É verdade que o Tanque não possuía nenhum tipo de construção, mas no Cruzeiro existiam três e o Alagoeiro, para além da casa de habitação referida, dispunha de mais três edifícios, um dos quais era a Casa da Água, esta já na fronteira com a Fontecima.

Este caminho que ligava o Cimo da Fontinha ao Alagoeiro, era curto mas largo, perfeitamente acessível a carro de bois e era como que uma continuidade do arruamento da Fontinha. O piso era de pedra fixa, do tipo calçada romana, com uma pedra maior no centro, designada por “pedra-mestra”, fixando-se as outras, mais pequenas, ao seu redor. As paredes que o ladeavam, sobretudo as do lado sul, eram bastante altas, circundando e separando os terrenos agrícolas que por ali proliferavam. Logo a seguir à casa de Tio José Teodósio, o caminho fazia uma enorme e suave curva, que só terminava no fim do do Tanque, precisamente no local, onde o caminho se bifurcava, porque aí e na direcção sul, havia uma vereda que dava acesso, precisamente às terras do Tanque e que depois seguia para a Bandeja. Quase no mesmo local, mas na direcção oposta, iniciava-se uma outra pequena vereda que ligava este caminho à canada do Mimoio Tratava-se, neste caso, de um atalho muito curto e de difícil circulação, construído quase todo ele sobre maroiços e inacessível a animais, servindo apenas de cesso a uma ou outra propriedade e, no caso do Mimoio, sendo utilizado apenas como forma de “encurtar” o caminho para aquele sítio.

Voltando ao caminho entre a Fontinha e o Alagoeiro, após este cruzamento, o dito caminho formava uma pequena recta, finda a qual estávamos no lugar do Cruzeiro. Era aí, bem no centro, num pequeno largo, onde se iniciava, a sul, a subida para a Bandeja e Queimadas que existia uma espécie de “zona industrial” da Fajã Grande. Na verdade ali haviam sido construídos três edifícios de tamanhos e com funções diferentes. Era no primeiro e o maior que se fabricava a manteiga da Cooperativa, enquanto o segundo, um pouco mais pequeno e de feito de pedra solta, era destinado ao fabrico das caixas de madeira, onde as latas eram encaixotadas para exportação e o terceiro, um minúsculo cubículo, servia de arrecadação.

De seguida e após mais uma pequena recta estávamos no Alagoeiro, onde existia um grande largo e, onde para além de uma casa de habitação onde morava o Luís Fraga, havia um palheiro, uma casa velha e a Casa da Água. O Alagoeiro constituía o maior, o mais importante e o mais emblemático Descansadouro de quantos existiam na Fajã Grande.

Este caminho era um dos mais movimentados da Fajã Grande, uma vez que por ele transitavam, não só as pessoas que pretendiam deslocar-se àqueles três lugares e aos circundantes mas também as que demandavam a Ribeira, as Águas, a Figueira, os Matos e todos os lugares que iam do Batel ao Curralinho, situados nas abas da Rocha e que não eram poucos. Da mesma forma, muito gado por ali transitava, uma vez que para todas aquelas zonas havia muitas pastagens.

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publicado por picodavigia2 às 11:14

O JOGO DAS PEDRINHAS

Segunda-feira, 20.01.14

Um dos jogos mais populares entre a criançada, na Fajã Grande, nas décadas de quarenta e cinquenta, era o Jogo das Pedrinhas. Embora comum a ambos os sexos, o Jogo das Pedrinhas, talvez porque os espaços em que se realizava circundavam, geralmente, as proximidades das habitações, era praticado, sobretudo, pelas meninas, que para tal se muniam, de cinco pequenas pedras, preferencialmente, lisas e arredondadas. As pedrinhas, geralmente, eram adquiridas na altura do jogo, mas havia jogadoras mais exímias, qualificadas e experientes que possuíam conjuntos de pedrinhas, que guardavam bem guardados, mantendo, assim, as mesmas pedras sempre que jogavam, cuidando que se habituavam melhor e se adaptavam mais facilmente ao jogo, o que lhes traria maior qualidade, mais rigor e competência, obtendo assim, melhores performances e resultados de excelência. Muitas raparigas havia que, até se davam ao luxo, de treinarem sozinhas para depois se desforrarem nas adversárias.

A segunda tarefa consistia na escolha do local do jogo, que necessariamente devia ser uma superfície lisa, que podia ser o chão de casa, um pátio ou balcão, por vezes até um simples degrau de escada cimentado ou a soleira duma porta.

De seguida iniciava-se o jogo, começando este por um etapa inicial que tinha como objectivo sortear a ordem de saída de cada jogador ou jogadora. Para tal, cada participante, à vez, colocava as suas cinco pedras na palma da mão e, dando uma volta com a mesma, tentava apanhar o maior número possível de pedras com as costas da mão, fazendo o gesto contrário para ver quantas pedras, finalmente, conseguia apanhar com a mão depois da segunda volta, terminando assim a sua jogada. Caso houvesse empate, relativamente ao número de pedras conseguido, o jogo continuava até que um jogador conseguisse apanhar o maior número. Depois iniciava-se, propriamente, o jogo, em que normalmente não participavam mais de três jogadores. O jogador que vencera a etapa inicial juntava as suas pedras e as dos restantes jogadores, atirava-as todas ao ar, num gesto igual ao rito inicial, tentando apanhar o maior número possível, depois de as virar sobre as costas da mão. No entanto, neste revirar das costas da mão, o jogador tentava apanhar o número de pedras que mais lhe conviesse, naquele momento do jogo. Assim se apanhasse três pedras perdia a jogada, se apanhasse um número ímpar de pedras retirava apenas uma, mas se conseguisse capturar um número par, ganhava metade desse número. Todas as pedras ganhas eram retiradas, imediatamente, do jogo, sendo guardadas pelo jogador que as ganhava. Essas pedras chamavam-se “bezerras”. Caso o jogador apanhasse do chão qualquer número ímpar de pedras (excepto três) ganhava apenas uma “bezerra”. Continuando o jogo, o jogador vitorioso, atirando uma pedra ao ar de cada vez, ia aos poucos juntando do chão todas as que lá estavam, uma por uma, ou um número par de cada vez, sendo que nunca podia nem apanhar três ao mesmo tempo, nem deixar três ou uma na mesa. Se deste modo conseguisse apanhar todas as pedras do chão, ganhava uma “bezerra” e por cada número par que juntasse ganhava metade desse número em “bezerras”. Sempre que falhasse ou simplesmente se ao juntar uma pedra tocasse noutra, perdia o direito de continuar a jogar. Por isso, de seguida, o jogador que ficara em segundo lugar na fase inicial, adquiria o direito de jogar, utilizando todas as pedras ainda em jogo, procedendo de forma idêntica, seguindo as mesmas regras e tentando conquistar o maior número possível de “bezerras”. O mesmo faria, quando perdesse, o terceiro jogador e, mais tarde, o quarto, se o houvesse. Se no final desta espécie de primeira volta ainda sobrassem pedras não “bezerras”, o jogo continuava numa segunda ou mais voltas, até que os jogadores conseguissem transformar toadas as pedras em “bezerras”. Para se ganhar “bezerra” uma das duas últimas pedras, deviam atirar-se ao ar, rodar e apanhar, simultaneamente, as duas. A conquista da última pedra era a consagração final: atirava-se a pedra e antes de a apanhar o jogador vencedor, beijava as pontas dos dedos, como que a agradecer o sublime e agradável sabor da vitória.

O vencedor do jogo era, obviamente, o jogador que no final do jogo conseguisse maior número de “bezerras”. Seguiam-se outros jogos, sempre com as mesmas regras, escrupulosamente cumpridas, apurando-se no fim um vencedor absoluto.

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publicado por picodavigia2 às 10:31

O PRINCÍPIO

Segunda-feira, 20.01.14

Quando o Belarmino terminou o curso, na escola do Magistério Primário da Horta, respirou de alívio. Para trás ficavam as inúmeras dificuldades que havia sentido ao longo do percurso que agora terminava e que, a muito custo, se orgulhava de ter ultrapassado.

Por vontade dos pais ter-se-ia ficado pela 4ª classe. Impunha-se-lhe, como a outros da sua idade, o destino de ficar ali, na ilha, vergado ao peso da enxada, acartando molhos de lenha e cestos de inhames, condenado aos trabalhos inerentes a uma mísera agricultura de subsistência.

Cedo, porém, tentou libertar-se. Mas não foi fácil. Eram os entraves paternos, afirmando que trabalho digno de tal nome só o agrícola e eram os irmãos, acomodados às lides dos campos, que teimavam em contrariar adegeneração do último rebento.

Foi a D. Ilda, que o acompanhara desde a primeira classe e que não cessava de louvar a inteligência do garoto, que demoveu o pai da sua persistente teimosia. Era o Bernardino  a caminho do Externato de Santa Cruz, que Liceu nas Flores não havia, e os irmãos de enxada às costas e foice na mão, a percorrer os íngremes caminhos da Eira-daQuada e dos Lavadouros.

 Terminado o 5º ano, seguiu para o Faial, com destino à Escola do Magistério, enquanto os outros ainda mais se agarravam à rabiça do arado e às enxadas, que agora não era só o sustento da casa... Não era bem aquilo que o Bernardino queria mas Universidade nos Açores era um mito...Quem optasse por estudar tinha apenas duas alternativas: o Magistério ou o Seminário. A escolha, para o Belarmino, foi inequívoca.

Os dois anos que passou na Horta não foram fáceis. Dinheiro apenas para a pensão... Livros emprestados... Gastos supérfluos, nem pensar... Além disso, pesavam  constantemente, as ameaças  paternas:

- Olha lá se me reprovas! Acaba-se tudo!... Há muitos fetos e cana roca para ceifar no Pocestinho e nos Paus Brancos!...

Nas férias, matava-se a trabalhar. Os outros atiravam-lhe para o lombo os molhos mais pesados e os cestos mais cheios, ripostando:

- Tens que trabalhar agora, para compensar a boa vida que levas durante o inverno.

Chegou o fim e com ele o concurso. Como lhe segredassem que as vagas nos Açores eram poucas e, porque há muito sonhara abandonar as ilhas, até porque a família também o faria, partindo, em breve para a América, resolveu concorrer para o Continente. A Graça, a colega de curso que por ele se havia perdido de amores desde há algum tempo, bem o tentava demover, assustando-o com Trás-os-Montes e com  o Alentejo, locais onde, na opinião da apaixonada, proliferavam aldeias mais miseráveis  e mais isoladas do que o Corvo ou as Fajãs de S. Jorge...

A decisão, porém, estava tomada e nada ou nenhum argumento o demoveu.

Seguiram-se dias de ansiedade, até que as listas saíssem. Saíram... No átrio da Delegação Escolar da Horta, os recém-formados acotovelavam-se, na ânsia da certeza duma colocação. Como era impossível ver fosse o que fosse, o Gregório ia apregoando:

- Judite Maria Ferreira Borges – Barro Branco, Graciosa.

- Manuel Belarmino Rodrigues - Sazes de Lorvão.

O Belarmino ficou branco e mudo.

- Marão?! Isso é em Trás-os-Montes, eu bem te dizia... – balbuciou a Graça

- Não é Marão, é Lorvão, Sazes de Lorvão, Penacova – esclareceu o Gregório, perante a indignação dos que ainda não tinham ouvido o seu nome.

À volta ninguém sabia onde ficava.

- Lá sítio bom, não deve ser - comentava uma outra colega. – Pelo nome... Antes a Fajã da Sanguinha em S. Jorge ou a Ponta da Achada em S Miguel...

Foi o Guedes, que pondo-lhe o braço sobre o ombro, aconselhou:

- Calma Bernardino! Olha que não deve ser tão mau como isso... Acho que Penacova fica perto de Coimbra. Mas quem te pode informar melhor é o professor de Didáctica, o Dr San-Bento. Ele é de Coimbra.

E foi o Dr San-Bento que o esclareceu e acalmou. Que sim senhor, que tinha tido uma grande sorte. Penacova era uma terra linda e maravilhosa, pertinho de Coimbra, aí a uns 20 quilómetros...  Que era uma terra de sonho, de encanto paisagístico e de história, sobretudo de história, o que era mais importante do que a beleza paisagística. Era lá que ficava o mosteiro de Lorvão. Além disso, afirmava o Dr San-Bento que o povo era extraordinário e hospitaleiro. Que ele ia adorar. Depois interrogava:

- Foste colocado mesmo em Lorvão?

- Em  Sazes de Lorvão...

- É lá perto – acrescentava o Dr San-Bento. – Sazes de Lorvão fica a uns dez quilómetros de Penacova. Também é uma terra muito bonita, embora não tenha uma história tão viva como Lorvão. Mas terás muitas oportunidades de vir a Lorvão e ver o admirável monumento que é o mosteiro de Santa Maria, um convento de grandes tradições históricas, de grandes lendas, fundado muito antes da nacionalidade, mas que teve, também, um papel importante na consolidação desta. Depois há pormenores interessantíssimo, que não podes esquecer quando lá fores. No sec. XII, os frades foram expulsos e  o mosteiro foi ocupado por monjas, sob as ordens da Infanta D. Teresa, filha do nosso rei D. Sancho I. Ora existe lá um pluvial ou capa de asperges, daquelas que os só os padres e os bispos usam, que é a única que existe no mundo usada, oficialmente, por uma mulher, a abadessa do mosteiro. Usava-a por privilégio especial, concedido pelo papa, ao mosteiro. Outro pormenor interessante é o coro, separado da igreja por uma formosa grade de ferro, e que possui um magnífico cadeiral, constituído por cem cadeiras, o que também é recorde nacional. É um monumento fabuloso.

O Dr. San-Bento ainda acrescentou que se tratava dum concelho rural, mas muito desenvolvido e de grande atracção turística, com muito artesanato, com destaque para os palitos de Lorvão e que o concelho constituía um polo de interesse paisagístico muito interessante. Era atravessado pelo rio Mondego, predominando as culturas da vinha, do milho e da batata e a criação de gado suíno.  E que ele iria encontrar crianças muito dóceis e amáveis. E, despedindo-se, concluiu:

- Terás óptimas condições para iniciar o exercício do magistério da melhor forma. Vais ter um princípio ideal. E é isso que te desejo.

A pedido do Dr. San-Bento, o Rodrigo, amigo do filho, veio receber o Bernardino a Coimbra e levou-o a Penacova, com a recomendação de, o mais cedo possível, realizar um périplo que o levasse à descoberta do concelho. Fê-lo no próprio dia.

Partiram de Coimbra, entrando em Penacova pelo Caneiro. O Rodrigo cedo se mostrou um excelente cicerone:

- O concelho de Penacova, começa aqui. Esta aldeia pertence a Lorvão – e acrescentava – Mas vamos primeiro dar uma volta pela vila, até Oliveira ou Friúmes e depois, então, vamos para a freguesia, onde vais principiar a trabalhar.

Aos olhos do Bernardino, porém, apresentava-se uma paisagem deslumbrante e bela. Serpeando um profundo vale, ladeado pela serras da Aveleira e de Gavinhos, entre um verde muito verde, salpicado de manchas brancas aqui e além, descia calmo, sereno e esverdeado, o Mondego. Nas encostas mais baixas campos cultivados, entrelaçados com pequenas habitações, protegidos por enormes pinhais perdendo-se e confundindo-se com o azul do firmamento. Depois os penhascos desérticos, sem o branco dos casarios, mas com um verde quase mítico. Mais além, casas isoladas, como que perdidas no verde da floresta. Seguindo sempre ao lado do rio, cedo apareceu Rebordosa, com as suas casas espalhadas por uma encosta verdejante, como que a empurrar o Mondego, obrigando a mais uma curva, a proporcionar aos campos de milho e às vides que se alargassem e estendessem mais facilmente pelo vale.

- Esta estrada dá para Lorvão – explicou o Rodrigo. – É perto. E dá para Sazes, mas a estrada por Penacova é melhor e passamos junto aos célebres moinhos de Gavinhos.

Penacova não tardou a aparecer, enquanto o Mondego, lá no fundo do vale, persistia em acompanhá-los. O casario agora concentrava-se mais, sobretudo na margem direita do rio.

 O Rodrigo, vendo-o cada vez mais entusiasmado, à medida que ia apreciando as belezas maravilhosas da paisagem que surgiam em cada curva da estrada, explicava:

- Penacova, como o nome indica, é uma terra de contrastes e contradições. Porque é ao mesmo tempo altura e cova. Vista daqui de baixo é altura, nos penhascos e montes que a rodeiam enquanto vista de lá de cima é uma cova.

E a viagem continuou pelos miradouros de Emídio da Silva e do Penedo do Castro. Aí o Bernardino exclamou:

- Deslumbrante, meu amigo! Se a beleza suprema existe, ela está aqui!

- Bom - comentava o Rodrigo – isto dito por um açoriano é digno de crédito...

Depois do passeio a pé por algumas ruas típicas de Penacova, deixando o Mondego por algum tempo, dirigiram-se para Riba de Baixo, Miró, Vale Maior e depois para  Friúmes,  junto ao rio Alva. De regresso a Penacova, o Rodrigo ia explicando que mais a norte ficavam outras freguesias também de muito interesse: São Pedro de Alva, a terra onde nasceu o Presidente da República Dr. António José de Almeida, Paradela, Travanca, S. Pedro de Alva, S. Paio e Oliveira. E acrescentava:

- Antigamente, estas duas freguesias chamavam-se Oliveira de Farinha Podre e S. Paio de Farinha Podre. Mas o povo não gostava de tais nomes e conseguiu que o governo os mudasse. Parece que antigamente havia aqui um concelho com esse nome. Em Oliveira fica a barragem de Raiva. Antigamente havia lá um porto, quando rio era navegável. Mais acima, já fora do concelho, fica outra barragem, a da Aguieira.

O Sol começava a descer e a tarde aproximava-se do fim. Regressando a Penacova o Rodrigo propôs:

- O melhor é irmos até Sazes. Hoje não temos tempo para mais. Terás muitos dias para descobrires e conheceres o resto do concelho.

E meteram pela estrada do Buçaco. Pouco depois Midões. Viraram à esquerda. Surpreendentemente surgiu Sazes de Lorvão. O Bernardino exclamou, emocionado:

- Por mais terras que conheça, por mais escolas onde trabalhe, nunca esquecerei este dia em que cheguei àquela terra que marcará, para sempre, o princípio da minha vida profissional – Sazes de Lorvão!

À sua frente surgia-lhe uma aguarela maravilhosa: o verde das hortas e dos campos entrelaçado com as casas brancas, verdes, azuladas, separadas por ruelas e caminhos, à volta da pequena igreja de Santo André, que se impunha silenciosamente, com a sua torre sineira. Depois a ribeira de Sazes, mais campos, mais hortas, mais vides e sobretudo mais verde. Finalmente ao fundo, ainda mais verde, a imensa floresta, anunciando a serra do Buçaco.

O Rodrigo já lhe havia garantido alojamento. Mas foi depois de se despedirem, quando ficou só, que o Bernardino entendeu verdadeiramente que começara ali o princípio da nova etapa da sua nova vida, como professor.

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SONETO DE IDENTIDADE

Domingo, 19.01.14

(PEDRO DA SILVEIRA)



"Chamo-me Pedro, sou Silveira e sou
também Mendonça: um tanto duro, como
Pedro é pedra; picante agudo assomo
de silva dos silvedos — não me dou

Raiz flamenga, já se sabe; e um gomo,

no fruto, castelhano. E assim bem pou-
co, pois, que doce me passara à ou-
tra pátria (língua?) que me coube e tomo.

Ainda Henriques (alemão? polaco?)
e outros cognomes mais: espelho opaco

de errâncias várias, que mal sei (desfaço,

talvez por isso, no que faço.) Ilhéu
da casca até ao cerne — e lá vou eu,
sem ambição maior que o livre espaço".

Pedro da Silveira, em Poemas ausentes, O Mirante, 1999: 14

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