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AS FEITICEIRAS (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Domingo, 02.02.14

Meu pai contava que quando era criança, aqui na Fajã Grande as pessoas mais idosas diziam que no seu tempo havia muitas feiticeiras, as quais só saíam de casa entre a meia-noite e a uma da madrugada. Dizia-se que quando chovia e fazia sol ao mesmo tempo, era para as feiticeiras se casarem. Também se dizia que elas se encontravam umas com as outras junto das fontes e nos cruzamentos dos caminhos onde dançavam nuas, mas ninguém asvia, pois eram invisíveis e nem sequer se conheciam, umas às outras. Se batesse a pancada da uma hora num relógio e elas não tivessem recolhido a casa, já não podiam mais entrar e tinham que ficar na rua para sempre e eram estas, pelos vistos, que depois andavam por aqui e por ali a fazer das suas. Como elas não sabiam que não podiam ser vistas mesmo de dia, escondiam-se em furnas e buracos aí para cima, na rocha e nos matos ou então no baixio, junto do mar.

Meu pai também contava que uma vez houve uma feiticeira que se descuidou e deixou que batesse a uma hora da manhã sem ir para casa. A pobre desgraçada foi apanhada por um homem, toda nua, que a reconheceu e viu que era sua própria mulher. Desesperada, a maldita fugiu e atirou.se ao mar e nunca mais apareceu. Também contava meu pai que outra vez uma mulher, numa noite, estando na cama, de repente, começou a sentir uma coisa muito pesada em cima de si. Ficou muito agoniada e aflita mas não conseguiu gritar nem sequer falar. Apenas conseguiu dizer baixinho a palavra “credo”. Nesse momento começou a sentir o peso a diminuir e a ficar menos agoniada. De seguida, benzeu-se três vezes, uma em nome do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo e meteu-se debaixo dos cobertores, com a cabeça coberta e nunca mais voltou a ser importunada por nada semelhante. Outra vez, contava ainda meu pai, um homem saiu de casa à meia-noite e encontrou uma galinha preta. Começou a enxotá-la mas a galinha cada vez mais se aproximava dele. Então o homem começou a dar-lhe pontapés e a cada pancada que se lhe dava, a galinha cantava. Foi então que ele viu que era uma feiticeira que estava metida no corpo da galinha. Meu pai contava muitas mais estórias de feiticeiras, que aconteceram, antigamente, aqui na Fajã Grande. Ainda me lembro de outra. Contava ele que há já muitos anos uma mulher que foi cozer o seu pão a casa de uma amiga, que lhe emprestara o seu forno, pois dizem que antigamente havia poucos fornos e era luxo que os pobres não podiam ter. Mas como a amiga precisava do forno, a mulher só pode cozer o pão de noite. Quando se veio embora para a sua casa com o cesto do pão à cabeça, faltavam cinco minutos para a uma hora da madrugada. A mulher seguia o seu caminho quando, de repente, viu um cavalo a correr atrás de si e muito aflita fugiu para um balcão de pedra de uma casa que ali se encontrava. O cavalo foi atrás dela mas assim que soou a badalada da uma da manhã, o cavalo desapareceu misteriosamente. A mulher nunca mais o viu e lá seguiu, cheia de medo, para a sua casa, mas nunca mais saiu de casa sozinha nem para cozer pão nem para nenhuma outra coisa.

Era assim antigamente! Estórias e mais estórias de feiticeiras não faltavam, aqui na Fajã Grande!”

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publicado por picodavigia2 às 22:39

A CASA DO CABRAL

Domingo, 02.02.14

A casa do Cabral, na Assomada era outro das mais imponentes construções da Fajã Grande e o mais emblemático daquela rua, na década de cinquenta. Tratava-se de uma casa de habitação de planta em forma de "L", como a maioria dos edifícios mais majestosos da freguesia e tinha dois pisos. Implantada na frente de rua, com a frente voltada a este, estava, na altura, divida em duas moradias. A norte morava o Cabral e a sul o Francisco Inácio.

Caiada de branco com barras cinza, a fachada principal era delimitada por uma faixa que simulava o soco, pelos cunhais e pela cornija. Tinha três portas no piso térreo, com um óculo oval entre as duas portas do lado esquerdo. Sobre cada porta existia um vão ao nível do piso superior, sendo o central uma janela de sacada com varanda e guarda em ferro fundido e os outros, duas janelas simples e de peito. Na vertical do óculo havia uma faixa estreita, de aspecto mais recente que divide os dois fogos, mas sinal de que em tempos idos, o edifício seria habitado só por uma família.

A fachada lateral norte correspondia ao braço do "L" e tinha, no piso superior, uma porta de acesso à primitiva cozinha e duas janelas de peito. No topo deste braço do "L", a encimar a cozinha, havia uma chaminé de grandes dimensões. Havia também uma escada exterior, adossada à fachada lateral esquerda, que liga esta esta porta do piso superior e a outra, situada ao nível do piso térreo, que fica semienterrada. Ao lado um balcão, de baixo do qual existia uma cisterna de água, recurso muito já muito pouco frequente na Fajã Grande, na época de cinquenta, uma vez que a greguesia fora abastecida de água nos finais da década de quarenta.

Actualmente o edifício ainda está em óptimas condições, tendo-se procedido, frequentemente à sua manutenção. É construído em alvenaria de pedra rebocada e pintada de branco, excepto o soco, a faixa divisória e a cornija que são pintados de cinzento e os cunhais, a consola da varanda e as molduras dos vãos que são em cantaria à vista. A cobertura é de quatro e duas águas em telha de meia-cana tradicional com beiral duplo e telhão de cimento pintado de branco na cumeeira.

Identificado como a “Casa do Cabral” este edifício faz parte integrante daquilo de que mais importante o simples e pobre património arquitectónico da Fajã Grande e constitui um dos seus elementos mais importantes e de maior significado.

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publicado por picodavigia2 às 12:58

BATATA-DOCE

Domingo, 02.02.14

O Sol emerge benevolente e acariciador. Os seus raios cálidos e desenfreados hão-de proteger a safra. A batata-doce quer-se plantada no crescente e apanhada no vazante lunar e com um Sol quentinho e enternecedor, ao qual deve fica            exposta, como que enternecendo-se, adocicando-se e, sobretudo, secando.

Hoje como ontem, a batata-doce tem a sua génese na rama do canteiro. Meu pai fazia-o, com requinte e excelência, junto de casa, a fim de que pudesse ir acompanhando o crescimento da rama que exigia, nos dias em que a chuva teimava em cair, uma rega abundante. Meu pai cavava no local escolhido da “terra da porta” um enorme e profundo fosso, geralmente de forma quadrangular e cujo fundo era bem forrado com milheiros, formando uma espécie de gradeamento ou rede para que a água da chuva ao cair sobre o canteiro, penetrando a terra, não enxurrasse mas antes escorresse a fim de que as batatas não apodrecessem. Depois cobria a camada de milheiros com erva que lhe tapasse as ranhuras, sobre a qual deitava pás e pás de terra e sobre esta, uma boa quantidade de esterco de vaca, que era coberta também com uma outra camada de terra sobre a qual, então, se colocavam as batatas-doces deitadas, muito direitas e juntinhas, sendo por fim todas muito bem cobertas com uma grande camada de terra muito bem alisada na superfície superior, para que a rama nascesse fofa e direitinha. Ao redor do canteiro era aberto um rego mais profundo do que a camada dos milheiros para que assim toda a água coada por aqueles escorresse para fora do canteiro. Finalmente e a toda a volta, mas do lado de fora do rego, semeava-se um carreiro de milho, o mais basto possível, o qual tinha uma dupla finalidade: ser o bardo protector da “planta” que o canteiro havia de produzir e dar maçarocas para se assarem ou cozerem, uma vez que o milho dos campos tinha outro destino. Passada uma ou duas semanas começava a rama da batata a nascer e a crescer muito verde e basta. Ao fim de três ou quatro semanas estava pronta a ser cortada e levada para os campos.

Nas terras do Porto, das Furnas e do Areal, porque mais férteis e bafejadas pelos ventos marítimos (embora por vezes estigmatizadas pela salmoura) a rama da batata-doce era plantada entre o milho, depois de este ser semeado ou quando começava a nascer. Às mulheres e, por vezes, à criançada competia a tarefa de ir à frente, “espalhando” a rama sobre a terra. A distância entre cada planta deveria ser de um palmo se a mão fosse grande ou de dois para as mãos das crianças. Assim tarefa dos homens, de ir atrás com uma enxada enfiando a planta na terra, tornava-se mais fácil, rápida e eficiente. É que, definido e delineado o local da plantação de cada pé, pelos que iam à frente a “espalhar”, aos homens competia apenas a tarefa de dar uma cavadela com a enxada de “plantar batata-doce” – um enxada mais pequena e de cabo mais curto. Depois a rama crescia viçosa e ramalhuda, enquanto debaixo da terra, miraculosamente, iam-se desenvolvendo e tomando forma enormes batatas. Nas terras mais secas e áridas da Bandeja, das Queimadas, do Mimoio, da Ladeira e do Outeiro tudo era diferente. A batata-doce era plantada de “latada”, isto é, isolada e não em conjunto com qualquer outra cultura. Enquanto as batatas das terras junto do mar cresciam por si e abruptamente ente o milho, as das terras interiores tinham que ser sachadas, mondadas, devendo-lhe ainda ser revirada a rama de forma a lhes arrancar as diversas raízes apócrifas, localizadas ao longo do caule e que se iam fixando no terreno, exigindo um desnecessário esforço e consequente desperdício de energia da planta, impedindo ou dificultando o desenvolvimento da batata.

Chegava a altura da apanha. As batatas das terras do litoral, graúdas e rechonchudas mas muito aguadas e pouco saborosas, eram destinadas à alimentação dos porcos, enquanto a rama, mesmo crivada de bichos horrorosos, constituía um excelente alimento para os animais bovinos. As batatas das terras do interior eram, por sua vez, muto rochas, secas, adocicadas e brancas por dentro, a abarrotar de “carnegão” e que umas vezes eram cozidas outras assadas no forno e constituíam um excelente alimento com que se acompanhava o conduto, naqueles tempos, pouco abundante. Por isso é que muitas vezes as batatas-doces comiam-se sem nada, sobretudo as assadas. Eram excelentes!

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publicado por picodavigia2 às 09:26

FLOR DO GIZ

Domingo, 02.02.14

A flor do giz é branca,

Branca como a esperança,

Mascarada de neve,

Coberta de merengue.

 

Engano!?

O giz não tem flor,

Tem apenas cor,

Que desenhada em verso,

É tão bela como uma flor.

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publicado por picodavigia2 às 00:45





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