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QUEIJO DE CROSTES

Domingo, 09.02.14

Colostro é uma forma de leite de baixo volume segregado pela maioria das fêmeas dos mamíferos nos primeiros dias de amamentação pós-parto. Composto de vários factores para o desenvolvimento e protecção do recém-nascido, como água, leucócitos, proteínas e outros. O colostro vai se transformando gradativamente em leite maduro nos primeiros quinze dias pós-parto.

Dizem os livros que o colostro tem uma importante função na imunidade passiva de algumas espécies de animais, pois nele existe uma grande quantidade de imunoglobulinas, que em determinadas espécies não conseguem passar pela placenta, ficando a cargo total do colostro transferir da mãe para o filho. Além da quantidade de imunoglobulinas, o colostro distingue e diferencia-se do leite normal pela quantidade de sólidos totais. Com o tempo, essas diferenças vão diminuindo e essa secreção vai se transformando em leite absolutamente normal

O colostro é também a única substância capaz de eliminar todos os resíduos de mecónio do trato gastrointestinal da cria recém-nascida, ajudando o intestino a amadurecer e a funcionar de maneira eficiente, além de prevenir o aparecimento de alergias, infecções e diarreia, pelo adequado controle e equilíbrio das bactérias que se desenvolvem no seu intestino. No dia do parto o colostro apresenta-se ainda mais rico, daí se considerar que, para qualquer recém-nascido, as primeiras horas de vida serem chamadas por especialistas de "golden hours".

Como o colostro é rico em células imunologicamente activas, em anticorpos e proteínas protectoras, funciona como uma espécie de primeira vacina, protegendo p bebé contra várias possíveis infecções. O colostro ajuda a regular o próprio sistema imunológico em desenvolvimento, ajuda a proteger os olhos e a reduzir as infecções, a estimular os movimentos intestinais e ajuda na prevenção da icterícia.

No caso das vacas o colostro apresenta-se como um líquido fino, amarelo , semelhante à água-de-coco e tem um sabor adocicado.

Na Fajã Grande, antigamente, ao colostro, ou seja, ao leite dado pelas vacas depois de parir, chamava-se crostes. Acontecia que, depois de dar a cria, a maioria das vacas dava muito leite, pois eram muito bem tratadas, antes do próprio parte nos dias que se lhe seguiam. Alem disso, muitos vitelos nem bebiam o leite todo e, na maioria dos casos não bebiam nenhum, uma vez que naqueles tempos, não era hábito comer a carne dos vitelos, estes eram pura e simplesmente abatidos e enterrados logo após o parto. Apenas um ou outro se criava para fazer dele uma futura vaca ou um gueixo de engorda.

No entanto era necessário retirar o colostro ou os crostes da vaca nos dias que se seguiam ao parto. Mas como este não servia para desnatar ficava em casa, sendo uma parte dele utilizada na alimentação dos humanos e o restante deitado aos porcos. Assim uma parte dos “crostes” era consumida à ceia, em vez do leite tradicionalmente utilizado naquela refeição e comido com pão, bolo ou papas, no caso do pão e bolo sobre a forma de sopas. Outras vezes era, simplesmente, bebido sem nada, mas sempre depois de fervido. Mas ainda sobrava muito que era utilizada para fazer queijos – os tradicionais e célebres “queijos de crostes”. Estes queijos eram fabricados em grande quantidade pelo processo tradicional do fabrico do queijo com o leite normal, amornando um pouco os crostes e juntando-lhes de seguida o coalho líquido, comprado nas lojas e que na Fajã Grande existia em todas as casas. Depois de coalhado o colostro era colocado nas formas de lata, furadas nos lados e em cima duma tabuinha, suspensa numa celha, como se fazia com qualquer queijo.

Os queijos de crostes comiam-se frescos. Mas como se faziam em grande quantidade, sobravam alguns que punham a curar ao sol durante vários dias, ao mesmo tempo que se ia escoando o soro. O queijo ficava mais duro e adquiria a cor amarelada. Quero os frescos quer os curados eram excelentes e tinham um sabor adorável.

 

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publicado por picodavigia2 às 22:16

O JOSÉ DIAS

Domingo, 09.02.14

O José Dias era o filho mais novo de Ti Manuel Luís e da Senhora Dias que moravam na Tronqueira. Faleceu na Fajã Grande, em 1993, com 70 anos. Desde jovem que se se revelou um rapaz simples e trabalhador, habituado ao amanho da terra, a tratar das vacas, a ajudar o pai nos moinhos que possuía na Ribeira das Casas. Namorou e casou com a Maria de Lurdes, filha da Senhora Estulana, que morava na última casa do Cimo da Assomada, no começo do Caminho da Missa.

Ao ser chamado às sortes, ficou apurado e, como a maioria dos jovens, na altura, foi incorporado no Exército, pelo que viajou para a ilha Terceira, onde fez a recruta e onde foi instruído no manejo das armas para, mais tarde, jurar bandeira. Após a recruta, jurou bandeira numa festa solene como era usual fazer-se nesses tempos. Jurou com o coração, dar a vida, se tal fosse necessário, pela Pátria, de braço direito esticado em direcção à bandeira de Portugal.

Tão bem cumpria as suas obrigações de militar e tão diligente se mostrou que, na primeira escola de cabos que houve no Quartel de Angra, foi nomeado para a frequentar e acabou sendo promovido a cabo, exercendo o cargo de quarteleiro chefe da sua unidade. Cumprido o serviço militar, regressou à Fajã Grande disposto a juntar dinheiro para construir uma casa e contrair matrimónio.

Na verdade, passado algum tempo, construiu uma casa no Cimo da Assomada, em frente ao chafariz de Cima e casou com a Maria de Lurdes. Criou o seu próprio negócio de mercearias e artigos variados, estabelecendo-o na Ponta. Nasceram dois filhos e face aos encargos era, então, necessário pensar num outro rumo para a vida, pois o negócio rendia pouco e o rendimento das terras não chegava para o sustento condigno da família. Como a mulher havia nascido nos Estados Unidos da América e tinha papeles, decidiram emigrar para os Estados Unidos. Primeiro partiu a Lurdes, para a Califórnia, onde começou a trabalhar, fazendo, logo que a lei lho permitiu, a carta de chamada ao mardo e aos filhos, juntando assim toda a família no novo país. Ao chegar à América, como muitos outros açorianos, o José Dias começou a trabalhar num rancho, cuidando de vacas, enquanto à noite frequentava a escola, a fim de aprender o inglês suficiente não só para ganhar o pão de cada dia como, também, poder naturalizar-se cidadão americano, até porque era casado com uma americana.

Uma vez aprovado na escola havia que passar à formalização da cidadania. Com os papéis tratados e em ordem foi-lhe marcado o dia para fazer o juramento de bandeira numa cerimónia simples, mas carregada de significado, pois era levada a cabo diante de um juiz, devidamente empossado para esse efeito. Prestadas as primeiras provas, demonstrado que falava, lia e escrevia com alguma fluência na língua inglesa, interrogado sobre a Constituição Política dos EUA, foi convidado a, frente à bandeira, a estender o braço e fazer o juramento. Muito comovido o José Dias não conteve as lágrimas e, entre soluços profundos, disse as palavras que o obrigavam a honrar nova a pátria de adopção.

Admirado o juiz perguntou-lhe qual o motivo das suas lágrimas e da dificuldade de dizer a fórmula de juramento. Na sua simplicidade o José Dias disse:

- Chorei, pois Deus sabe como me senti, porque há anos jurei dar a vida pela minha Pátria, Portugal, e agora estou a fazer um novo juramento semelhante! Sinto-me um traidor!

Retorquiu o juiz, com a sabedoria de muita experiência, de muita diplomacia aprendida e com o sentimento da verdade: —

- Fique sabendo que de muitos homens como o senhor precisam os EUA, porque esses sabem o valor de um juramento!

 

NB - Alguns dados deste texto foram retirados do blog «Fio de Prumo», de Manuel Luís de Fraga, filho do irmão mais velho do José Dias                                 

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publicado por picodavigia2 às 10:32

DESCUBRO

Domingo, 09.02.14

“Eu não procuro, descubro.”

Pablo Neruda

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publicado por picodavigia2 às 09:48

A PRIMEIRA CARTA DAS FLORES

Domingo, 09.02.14

Um mês depois da minha chegada ao Seminário Menor, o Carvalho proveniente das “ilhas debaixo”, incluindo as Flores e o Corvo, voltou a escalar Ponta Delgada. Na tarde do dia seguinte, um dos perfeitos circulando por entre as carteiras do salão de estudo, ia distribuindo a correspondência. Num misto de ansiedade e inquietação, aguardava que o prefeito parasse junto à minha carteira… E parou, atirando para cima do tampo envernizado, não uma, mas duas cartas. Uma da minha irmã e outra da minha avó. Para além do remetente, que trazia o nome de meu pai e não o dela, reconheci, num dos envelopes, a caligrafia da minha irmã, muito redondinha, muito benfeita e sem erros, ao contrário do outro sobrescrito, que apresentava o nome da minha avó no remetente, mas escrito com a desajeitada e quase imperceptível caligrafia da minha tia.

Abri, de imediato, a carta da minha irmã li-a e reli-a três vezes, antes de ler a da minha avó:

Meu caro irmão:

Espero que estejas de boa saúde e que tenhas feito uma boa viagem e que estejas a gostar de estar no Seminário. Sentimos muito a tua falta desde que embarcaste, mas agora não há nada a fazer. Oxalá que o ano passe depressa para vires de férias,

Por aqui estamos todos bem. O António e o José lá se vão amanhando sem ti e andam sempre a trabalhar e têm que atender a tudo e o Francisco ainda é muito pequeno e pouco os pode ajudar e para o ano já entra para a escola. A Toucada já deu uma bezerrinha e pai diz que a vai criar para fazer vaca. O José cortou-se num dedo com a foice, enquanto ceifava erva nas Covas. Deitou muito sangue e foi a Senhora Mariquinhas do Carmo que lhe fez o curativo. Os milhos já estão todos desfolhados e já apanhámos o das Furnas e o do Porto. O tio Luís veio ajudar-nos a apanhar o do Porto que este ano deu cinco carradas. Prá semana, se Deus quiser, vamos apanhar o do Mimoio mas este vai dar muito mais trabalho, pois como o corsão não chega à terra, tem que ser acarretado às costas ou à cabeça, até ao caminho. Pai já disse que este ano vamos acarretá-lo para o Calhau Miúdo, porque é mais perto, mas eu não concordei. É que a canada do Calhau Miúdo é muito perigosa, ao descer todos aqueles degraus, carregando os cestos à cabeça ou mesmo às costas. Mas se ele quer assim, há-de se lhe fazer a vontade. Ele depois de tu te ires embora parece que tem andado mais triste e mais preocupado. Temos que lhe fazer as vontades para ele não se arreliar.

Muita gente tem perguntado por ti, por isso espero que este barco traga notícias tuas. Quem vem cá perguntar por ti quase todos os dias é o Jaime do primo Antonino. Também não é de admirar pois vocês andavam sempre juntos. A vizinha São João e a vizinha Rosário e a vizinha Floripes e muitas outras pessoas mandam-te muitos abraços.

Recebe também um grande abraço de todos nós.

Tua irmã.

PS – Esqueci-me de te dizer que até a tua ovelha parece que ficou triste com a tua partida. O Francisco, agora, é que trata dela, mas podes estar descansado que ele trata-a muito bem.

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publicado por picodavigia2 às 09:32





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