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ESPÍRITO SANTO DA CAVEIRA

Quinta-feira, 20.02.14

“Viva o Senhor Espírito Santo da Caveira que não tem pau nem bandeira.”

Estranho adágio ou dito popular, este, apesar de muito frequente na Fajã Grande, nos anos cinquenta e que era utilizado em momentos de desânimo, em que algo não estava a correr bem, mas sem que isso fosse prejudicial ou tivesse consequências malévolas. Usava-se, pois, este adágio, como uma espécie de dito depreciativo ou de indignação benevolente, de desconforto compassivo, de incapacidade tolerante, de minimização plausível. Assim a ideia de uma irmandade de Espírito Santo que não tivesse as insígnias próprias, nem sequer as mais simples, as mais baratas e as mais fáceis de adquirir, aquelas que, na Fajã Grande, até as crianças possuíam para colocar nos pátios de suas casas, nos dias de festa ou quando a coroa passava por ali, como eram a bandeira e o pau onde ela era dependurada, parece ligar-se perfeitamente este sentimento de desânimo complacente, de arrelia compensatória, de insucesso benfazejo, de aniquilação amiga, de algo que, apesar de conjugado com uma grande dose de insucesso, quase nada prejudicava. O estranho deste dito está em saber porque se referia à irmandade da freguesia da Caveira, dado que nas Flores provavelmente houvesse outras irmandades mais pobres porque de menores dimensões: Cuada e Ponta, ambas ali bem perto da Fajã, e ainda a Ponta Ruiva e a Costa do Lajedo, entre outras. Em primeiro lugar, a Caveira poderá aparecer aqui pura e simplesmente por uma razão literária, pois era o único lugar, de entre os mais pequenos, que rimava com bandeira, dando assim mais força rítmica e poética ao adágio, assim como mais facilidade em decorá-lo. Por outro lado e na sua qualidade de freguesia, a Caveira era a freguesia mais pequena da ilha, não tanto em população, que o Mosteiro ainda era menor, mas em território e além disso tinha um nome muito estranho, esquisito, a fazer lembrar medos, receios, lendas e enigmas. Por tudo isso um pouco, talvez aquela freguesia esteja mais facilmente ligada à ideia acima referida e que o provérbio consubstancia.  

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publicado por picodavigia2 às 16:35

O REBOLIÇO DAS SEXTAS-FEIRAS

Quinta-feira, 20.02.14

Sexta-feira era o dia de cozer o pão, em minha casa. Um reboliço dos diabos! Uma azáfama tão desmesurada que parecia que a casa se revirava do avesso, pois tudo era desordem, confusão e desarrumo. Meu pai e meus irmãos mais velhos piravam-se para os campos, na faina diária de sachar, lavrar e tratar do gado. Minha mãe, eu e os mais novos, ficávamos em casa a tratar de tudo. De manhã, no cepo da lenha, minha mãe serrava, cortava, rachava, fendia e picava a lenha, atirada e armazenada ali, durante semanas. Nós num corrupio frenético entre o cepo e a cozinha, carregando as achas e os garranchos às gavelas e empilhando-os, desajeitadamente, junto à boca do forno.

A tarde iniciava-se com o amassar. Primeiro a farinha era peneirada, caindo fina e branca no fundo do velho alguidar de barro, de bordos já estilhaçados, formando um montículo alto e aguçado. Uma montanha coberta de neve. Com o lenço de clafate, a proteger-lhe os cabelos e as mangas arregaçadas, minha mãe pegava na chaleira de ferro, negra de tisna, cheia de água a ferver e a fumar pelo bico. Atirava a água para cima da farinha para a “escaldar” – “Fujam para longe, senão escaldo-vos a vocês”. A farinha logo que sentia aquele inesperado choque térmico, acaçapava-se e diminuía para, dentro em breve, se transformar numa enorme bola branca, a que minha mãe juntava um punhado de sal e o fermento guardada da semana anterior. Depois com uma enorme pá de madeira revirava, retorcia, levantava, enroscava e batia toda aquela papa, transformando-a num enorme amontoado de massa branca. Só depois começava a amassá-la. Ajeitava uma ou outra madeixa de cabelo saída debaixo do lenço, arregaçava ainda mais as mangas e virava-se aos socos na massa como se lhe estivesse a dar uma enorme tareia. Parecia doida! Nós ao lado a segurar o alguidar para que não “zangaliasse” e aquilo viesse tudo escarrapachar-se no chão. De vez em quando, apesar dos protestos da minha mãe, cravávamos um dedo na massa e deliciávamo-nos com aquele sabor adocicado da farinha ainda crua, mas morna e escaldada. Já exausta, limpando o suor do rosto com a bordada do avental, minha mãe enrolava a massa e dava-lhe a forma de uma grande bola branca. Depois, com a mão direita virada com o polegar para cima desenhava-lhe uma cruz, ao mesmo tempo que proferia, em voz alta e solene: “Sã Joã t’afermente e Sant’Antonho t’acrescente”. E ali ficava a massa, horas seguidas, a fermentar, coberta com grossos panos e cobertores.

De seguida vinha a tarefa mais difícil e talvez mesmo a mais arriscada – largar lume ao forno. Atulhava-o minha mãe de achas de faia bem grossas e secas e cobria-as de garranchos de incenso bem secos e estaladiços, enchendo-o quase até ao tecto. Atirava-lhe lá para dentro uns respingos de petróleo e atiçava-lhe uma mecha. Em breve a lenha transformava-se em enormes labaredas. Algumas, mais atrevidas saíam, ameaçadoras, pela porta do forno parecendo galgar e queimar a cozinha. Minha mãe puxava-nos para bem longe dali… Depois, aos poucos, as labaredas destruíam aquele ar ameaçador inicial, desfaleciam, murchavam e ardiam numa lentidão sonolenta, acabando por transformar as grossas achas de faia em brasas vermelhas e incandescentes.

Minha mãe – sempre ela a trabalhar e a fazer tudo – pegava nos ramos verdes de faia do norte e amarrava-os na ponta de um pau, construindo, assim, o varredouro com que havia de varrer o forno, juntando as brasas, evitando que caíssem sobre o soalho, mantendo-as armazenadas, protegidas com um aro de ferro, num pequeno átrio que existia do lado de fora da porta do forno.

No entanto, a grande bola de massa era talhada em muitas outras bolas mais pequenas que agora se dispunham ordenadas sobre a mesa. Uma a uma, minha mãe colocava-as sobre a pá de madeira, salpicada de farinha, e, com mestria, distribuía-as, o mais organizadamente possível, dentro do forno, o qual era tapado com uma enorme e pesada porta de latão.

Minha mãe, de vez enquanto, espreitava lá para dentro. Hora e meia depois o pão estava cozido e a cozinha cada vez mais desarrumada, mais tisnada e borrifada de branco… Novamente com a pá, minha mãe retirava do forno, um a um, os pães já cozidos, quentes, a fumegar, colocava-os sobre a mesa e cobria-os com cobertores.

À noite chegavam meu pai e meus irmãos com as latas a abarrotar de leite ainda quentinho tirado, momentos antes, do mojo das vacas. Depois de escovado e arrumado o pão, um deles (e se necessário dois) era cortado em grossas fatias que cada um migava numa tigela cheiinha de leite.

Era a mais deliciosa ceia do mundo, a das sextas-feiras, em minha casa!

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publicado por picodavigia2 às 00:03





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