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ANTÓNIO CORTE-REAL

Sexta-feira, 21.02.14

António Moniz Barreto Corte-Real, nasceu em Angra em1804, tendo falecido na mesma cidade em 1888. Foi pedagogo, escritor, árbitro de elegâncias literárias e uma das mais interessantes e celebradas figuras da intelectualidade açoriana da primeira metade do século XIX. Bacharel em Cânones pela Universidade de Coimbra, em 1831, nesse mesmo ano e na cidade do Mondego, publicou a sua mais célebre obra literária, Belezas de Coimbra, um livro de prosa romântica de descrição de monumentos e paisagens da urbe do Mondego. Manteve-se sempre na literatura como um conservador, mas um apaixonado pela língua portuguesa, que estudou e defendeu denodadamente.

Foi professor, por concurso, na cidade de Évora, regressando, mais tarde, a Angra como advogado, sendo nomeado director e revisor da imprensa da prefeitura e redactor da Crónica Constitucional de Angra. Dirigiu com Jerónimo Emiliano de Andrade, o Anunciador da Terceira, onde publicou um estudo sobre as festas do Espírito Santo que fez dele o precursor da etnografia açoriana. Foi colaborador e redactor em vários jornais, quase todos de cariz literário, como o Pregoeiro, o Terceirense e o Lyceo fundado por ele próprio e onde publicou boa parte da sua obra de pedagogo.

Em 1847 foi nomeado professor do liceu de Angra, tendo exercido uma notável missão de pedagogo, com os compêndios, gramática e orientações aos professores de Português e Latim. Nestas áreas era um erudito, como latinista e helenista. Como cidadão, exerceu cargos na administração, sendo juiz de Direito substituto, vereador da Câmara, membro da Junta Geral e do Conselho de Distrito.

Obras principais: Bellezas de Coimbra, Uma festa do Espírito Santo, Cartilha para uso das escolas do distrito de Angra do Heroísmo. Selecta em verso, Epítome de Gramática Portuguesa, Selecta Clássica acomodada ao uso das escolas do Distrito de Angra do Heroísmo, Circular aos professores sobre o ensino do português e latim, Proposta de reforma ortográfica submetida à Academia Real das Ciências de Lisboa, etc.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 15:29

BURRICE

Sexta-feira, 21.02.14

“Simular burrice na hora certa é alta sabedoria."

Erasmo de Rotterdam

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publicado por picodavigia2 às 14:51

MEMÓRIA DO PEDRO

Sexta-feira, 21.02.14

(TEXTO DE GABRIELA SILVA)

Acordei esta madrugada a pensar no Pedro. Era um velhinho querido.

Quem o visse com o bordão apoiado, o tronco levemente inclinado, diria que se tratava de um velho lavrador florentino cansado da enxada, a cair de cansaço.

 Quem se sentasse ao seu lado por uns minutos percebia que o Pedro era um admirável contador de histórias inventadas para divertir rodas de amigos.

Tinha um bigode pequenino, um rosto liso, limpo e uma careca branquinha, quase rosa, uma pele delicada como a de um bébé e um sorriso muito, muito maroto, qual rapaz de escola que esconde o ninho que roubou na curva da estrada.

Contava as histórias apoiado no bordão, raramente olhando os interlocutores (não por medo porque se alguém morreu sem medos foi o Pedro) mas porque a inclinação da coluna já não lhe permitia uma “actuação” mais erecta do corpo. Nem havia necessidade porque a sua verticalidade sempre foi uma atitude interior e não uma mera postura de manequim sem massa encefálica.

 Quem ficasse mais um pouco percebia que o Pedro sabia tudo e só falava do que sabia. Conhecia as famílias da sua terra como ninguém até à quinta geração, com defeitos e qualidades que não ocultava.Pelo contrário. A coisa que mais fascinava esta criança grande era escalpelizar até ao fim os defeitos de duas gerações de uma família qualquer. Mas sempre achei que o fazia sem má intenção. Eram essas as histórias que lhe vinham à memória.

Ele era um pouco o registo oral de coisas que nunca se escreveram e os encontros com ele eram uma tertúlia de gargalhadas e de prazer. E ninguém queria saber se a tia Maria, grávida do Padre “de não sei” abortara espontaneamente, a pedido de sua reverência ou de motu próprio com vergonha das más-línguas ou tivera um filho para ser registado com a paternidade singular de um inocente da paróquia e ser o afilhado mais querido do senhor Padre até à morte.

Para o Pedro tudo tinha um nome e ele dava-o sem medo. Mas limitava-se muito ao registo técnico e cultural dos acontecimentos. A história tinha sempre principio e fim mas o sumo, quem o quisesse que o procurasse. E ele sabia que ninguém teria paciência para ir aos arquivos de onde quer que fosse, à procura de um padre morto, cuja única glória fora engravidar a “beata” mais recatada de uma paróquia.

Referia-se à homossexualidade como um vício de charme e referia, num tom cheio de graça, que o neto de fulano ou o filho de sicrano era um “paneleiro” desajeitado, sem chegar a pensar, julgo, se as criaturas em apreço haviam chegado a materializar em prazeres da carne esse falhanço hormonal

 O Pedro tinha quase os mesmos inimigos que amigos. Por ser como era. Mas ninguém duvidava, ainda em vida, que, com a sua morte, se perdia uma das cabecinhas doutas nascida nas fragas da Fajã Grande com aquela dose de loucura acima do qb que tempera as emoções florentinas de quem sabe que o mundo não acaba ali.

 Pedro da Silveira morreu. Mas deixa uma longa história de vida. Para mim, enquanto chorava o poeta e amigo, apenas pensei no que o Pedro não disse nunca, nas coisas que não contou, e não falo das piadas porque piadas todas contam quando querem omitir os desgostos e as humilhações.O que estaria por detrás de algum sarcasmo algumas vezes? Dor? Os biógrafos do poeta hão-de estudar estas coisas.

 Pedro: deixaste vazio na minha alma e na nossa terra. Eu sei que tu amavas as Flores e que, tal como eu, partiste, não para as Califórnias de abundância que tão bem pincelaste, mas para algum lugar onde fosse possível fazeres e vida sem dares nas vistas a quem não querias.

 A nossa terra Pedro, não é mãe que se queira nem madrasta que se ajeite aos nossos temperamentos. Tu eras corrosivo demais para viver entre eles. O teu brilho mexia com a paz das estrelas dos nossos curtíssimos metros quadrados de verde. Tu tocavas na nevralgia em ferida de muitas ganhoas sem asas. Tu mandavas arpões como quem brinca na estrada a marinheiros de mar e bote, tu que nunca foste à baleia. Ninguém gosta de se ver retratado, sem estar em pose, bem vestido e de sorriso afivelado para a câmara.

Tu és um pintor. Na tua paleta de cores, a ilha teve sempre um lugar muito especial. Pegaram no teu poema e usaram-no de mil maneiras porque era sempre bonito. Usei-o também, muitas vezes, para pintar trabalhos meus. E quando me mandaste os teus “Poemas ausentes” passei a ter-te à cabeceira para te ler. Tu dizias tudo o que eu sinto. E dito por ti era tudo tão lindo.

 Uns anos atrás, em Tulare, deste tanto prazer a tanta gente. Sempre pensei que o Álamo, o Diniz e o Onésimo acabassem contigo com tanta história que te encomendavam. Mas tu mudavas de história, de árvore genealógica e de sobrenomes sem nunca te enganares. Feliz o momento em que o Diniz te levou lá, porque assim pude privar contigo e com a tua encantadora esposa numa intimidade ilhoa muito bonita.

Não posso falar mais de ti Pedro. Porque não sei coisas muito científicas a teu respeito e tu ainda entornavas as cinzas se eu citasse como tuas, coisas que não disseste.

 Gosto muito da tua memória, Pedro.

 Na minha banca de cabeceira, escrito à mão, está o teu poema, o poema universal, o nosso poema, o Poema com que nossa ilha te rende homenagem

 

ILHA

 O CÉU FECHADO

 ..........................................

 OLHOS DE FOME A ADIVINHAR-LHE Á PROA

 CALIFÓRNIAS PERDIDAS DE ABUNDÃNCIA

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publicado por picodavigia2 às 11:52

O GRACIOSA

Sexta-feira, 21.02.14

O Graciosa era um dos mais interessantes e típicos restaurantes da cidade da Horta. Situada nas traseiras do largo do Infante, o acesso às suas instalações fazia-se através de uma espécie de arco, situada no primeiro piso de uma habitação que, aparentemente havia sido transformado numa espécie de pequeno beco. O restaurante, que herdara o nome do seu proprietário, por ser oriundo da ilha Graciosa, para além da cozinha, tinha duas enormes salas, onde se serviam as mais variadas vitualhas, a maioria delas, comum aos tradicionais pratos açorianos, sobretudo, das ilhas do grupo central. Era lá que as pessoas vindas das Flores iam almoçar sempre que o Carvalho, nas suas idas e vindas entre as ilhas, ancorava na doca ou até quando vinham ao Faial e ali ficavam a acompanhar algum familiar doente, a consultar médico ou a fazer algum tratamento impossível de realizar-se nas Flores.

Foi na minha primeira viagem entre as Flores e São Miguel, acompanhado pelo Senhor Aurélio, que demandei pela primeira vez as instalações do Graciosa. Depois de deambular pela cidade, propôs o meu paraninfo que fossemos, ali almoçar. Manifestei uma reservada recusa em acompanhá-lo. Cuidava eu que almoçar num restaurante ficaria muito caro e corria o risco de gastar ali todo o dinheiro que levava, ou pior, nem sequer ter dinheiro para pagar a despesa. A minha intenção era entrar num café e comprar um pão com queijo e uma laranjada. Ele, porém, apercebendo-se da razão porque me esquivava, encorajou-me:

- Anda lá. Não vais ficar aqui, sozinho, na cidade. Sei que tens pouco dinheiro. Mas podes vir à vontade. O Graciosa enche muito os pratos. Hei-de repartir alguma coisa contigo.

O Graciosa estava repleto. Soldados, estudantes, seminaristas, padres, professores, homens e mulheres, muitos dos quais se haviam cruzado comigo a bordo. Outros, envergando fatos de cotim, chapéus de aba virada e calçando albarcas, não escondiam a sua origem de picarotos. Havia também senhores de fato e gravata, homens de negócio, funcionários do estado e um ou outro marinheiro. Como era dia em que o Carvalho chegava das Flores, a ementa era variadíssima, dado que a clientela estava assegurada, sobretudo, por se tratar duma viagem no mês de Setembro, quando muitas pessoas regressavam de férias. O prato principal e o mais solicitado era feijão assado, mas havia também molha de carne com inhames, torresmos de porco com batata-doce e veja frita com bolo do Pico. Homens, mulheres, soldados, estudantes e seminaristas de toda a ilha das Flores demandavam e enchiam aquele prodígio pantagruélico da gastronomia faialense ou para se desaforarem dos miseráveis cardápios que lhes proporcionava a Insulana, a bordo do Carvalho ou para se prevenirem da fome que haveriam de passar nos dias seguintes.

Sentei-me à mesa com o Senhor Aurélio que optou pelo feijão assado. O empregado ou porque fosse muito generoso nas doses que servia ou porque o Senhor Aurélio lho pedisse sem eu me aperceber, exagerou-lhe na dose, servindo-lhe um prato bem acuculado de feijão. Ele, pedindo um prato vazio, repartiu-o, gratuitamente, comigo. Apenas paguei um pão e uma laranjada.

Saímos do Graciosa ainda era muito cedo. Demos uns passeios pela cidade e sentámo-nos nos bancos do Largo do Infante, a acompanhar o movimento da cidade, a ver os automóveis que circulavam pelas ruas em grande número e a contemplar a mansidão do mar, os navios e os iates ancorados na doca, os respectivos desenhos dos que por ali haviam passado, as pequenas embarcações que entravam e saíam da doca e a imponência da montanha do Pico que, erguida mesmo em frente, começava a lançar uma ténue neblina sobre o Oceano.

O Carvalho desatracou da doca da Horta, com rumo ao Cais do Pico, já passava das cinco. Assim que regressei de terra, subi ao convés da primeira e deparei com uma espreguiçadeira vazia. Estava exausto, cheio de sono e com a barriguinha cheia. Encostei-me o mais comodamente possível. Foi tiro e queda…

Quando acordei o Carvalho balouçava ancorado fora do Cais do Pico. A noite já ia alta e a faina habitual das lanchas entre o navio e o porto do Cais, como que se resumia a uma pequena lancha que de meia em meia hora ia a terra e voltava pouco tempo depois ao navio, arrastando os pesados barcos que transportavam carga diversa e mercadoria. O número de passageiros que embarcava no Pico era muito reduzido. A maior parte, sobretudo os da parte Sul da ilha e da Madalena, preferiam atravessar o canal nas lanchas e embarcar na Horta, por isso, os poucos que entravam no Cais já haviam embarcado todos e o paquete aguardava a madrugada a fim de rumar às Velas. A noite estava muito escura e o céu pejado de estrelas. A sombra da montanha confundia-se com a escuridão e penetrava no universo celeste, parecendo aproximar-se das próprias estrelas. Apenas na faixa costeira da ilha quer a leste quer a oeste do Cais do Pico e de São Roque, tremelicavam aqui e além algumas luzes cravadas na massa basáltica da montanha, por trás da qual, para o lado das Bandeiras, parecia emanar uma espécie de claridade a anunciar que dentro em breve a Lua, havia de aparecer e iluminar a ilha e o Oceano.

Percorri novamente o barco de lés-a-lés e voltei à terceira classe, onde nunca mais entrara desde a tarde do dia anterior, quando o Senhor Artur exarara a sentença que me condenava a passar três noites e três dias ao relento. Pensava eu que, tendo desembarcado, no Faial, muitos passageiros oriundos das Flores, os camarotes e beliches ocupados por eles estariam agora livres. Assim, ia solicitar-lhe um beliche para as duas noites seguintes. Mas o que eu não sabia, ou não queria saber, na opinião do Senhor Artur, é que no Faial tinham embarcado ainda mais passageiros do que os que tinham desembarcado vindos das Flores e que até muitos deles, como eu, também viajavam sem acomodação. Saí muito triste, com os olhos rasos de lágrimas, mas resignado com a suprema certeza de que não havia mais nada a fazer. Estava definitivamente determinado que eu havia de passar mais duas noites ao relento, sem ter cama onde me deitar.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02

ESPÍRITO SANTO DA CAVEIRA

Quinta-feira, 20.02.14

“Viva o Senhor Espírito Santo da Caveira que não tem pau nem bandeira.”

Estranho adágio ou dito popular, este, apesar de muito frequente na Fajã Grande, nos anos cinquenta e que era utilizado em momentos de desânimo, em que algo não estava a correr bem, mas sem que isso fosse prejudicial ou tivesse consequências malévolas. Usava-se, pois, este adágio, como uma espécie de dito depreciativo ou de indignação benevolente, de desconforto compassivo, de incapacidade tolerante, de minimização plausível. Assim a ideia de uma irmandade de Espírito Santo que não tivesse as insígnias próprias, nem sequer as mais simples, as mais baratas e as mais fáceis de adquirir, aquelas que, na Fajã Grande, até as crianças possuíam para colocar nos pátios de suas casas, nos dias de festa ou quando a coroa passava por ali, como eram a bandeira e o pau onde ela era dependurada, parece ligar-se perfeitamente este sentimento de desânimo complacente, de arrelia compensatória, de insucesso benfazejo, de aniquilação amiga, de algo que, apesar de conjugado com uma grande dose de insucesso, quase nada prejudicava. O estranho deste dito está em saber porque se referia à irmandade da freguesia da Caveira, dado que nas Flores provavelmente houvesse outras irmandades mais pobres porque de menores dimensões: Cuada e Ponta, ambas ali bem perto da Fajã, e ainda a Ponta Ruiva e a Costa do Lajedo, entre outras. Em primeiro lugar, a Caveira poderá aparecer aqui pura e simplesmente por uma razão literária, pois era o único lugar, de entre os mais pequenos, que rimava com bandeira, dando assim mais força rítmica e poética ao adágio, assim como mais facilidade em decorá-lo. Por outro lado e na sua qualidade de freguesia, a Caveira era a freguesia mais pequena da ilha, não tanto em população, que o Mosteiro ainda era menor, mas em território e além disso tinha um nome muito estranho, esquisito, a fazer lembrar medos, receios, lendas e enigmas. Por tudo isso um pouco, talvez aquela freguesia esteja mais facilmente ligada à ideia acima referida e que o provérbio consubstancia.  

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publicado por picodavigia2 às 16:35

O REBOLIÇO DAS SEXTAS-FEIRAS

Quinta-feira, 20.02.14

Sexta-feira era o dia de cozer o pão, em minha casa. Um reboliço dos diabos! Uma azáfama tão desmesurada que parecia que a casa se revirava do avesso, pois tudo era desordem, confusão e desarrumo. Meu pai e meus irmãos mais velhos piravam-se para os campos, na faina diária de sachar, lavrar e tratar do gado. Minha mãe, eu e os mais novos, ficávamos em casa a tratar de tudo. De manhã, no cepo da lenha, minha mãe serrava, cortava, rachava, fendia e picava a lenha, atirada e armazenada ali, durante semanas. Nós num corrupio frenético entre o cepo e a cozinha, carregando as achas e os garranchos às gavelas e empilhando-os, desajeitadamente, junto à boca do forno.

A tarde iniciava-se com o amassar. Primeiro a farinha era peneirada, caindo fina e branca no fundo do velho alguidar de barro, de bordos já estilhaçados, formando um montículo alto e aguçado. Uma montanha coberta de neve. Com o lenço de clafate, a proteger-lhe os cabelos e as mangas arregaçadas, minha mãe pegava na chaleira de ferro, negra de tisna, cheia de água a ferver e a fumar pelo bico. Atirava a água para cima da farinha para a “escaldar” – “Fujam para longe, senão escaldo-vos a vocês”. A farinha logo que sentia aquele inesperado choque térmico, acaçapava-se e diminuía para, dentro em breve, se transformar numa enorme bola branca, a que minha mãe juntava um punhado de sal e o fermento guardada da semana anterior. Depois com uma enorme pá de madeira revirava, retorcia, levantava, enroscava e batia toda aquela papa, transformando-a num enorme amontoado de massa branca. Só depois começava a amassá-la. Ajeitava uma ou outra madeixa de cabelo saída debaixo do lenço, arregaçava ainda mais as mangas e virava-se aos socos na massa como se lhe estivesse a dar uma enorme tareia. Parecia doida! Nós ao lado a segurar o alguidar para que não “zangaliasse” e aquilo viesse tudo escarrapachar-se no chão. De vez em quando, apesar dos protestos da minha mãe, cravávamos um dedo na massa e deliciávamo-nos com aquele sabor adocicado da farinha ainda crua, mas morna e escaldada. Já exausta, limpando o suor do rosto com a bordada do avental, minha mãe enrolava a massa e dava-lhe a forma de uma grande bola branca. Depois, com a mão direita virada com o polegar para cima desenhava-lhe uma cruz, ao mesmo tempo que proferia, em voz alta e solene: “Sã Joã t’afermente e Sant’Antonho t’acrescente”. E ali ficava a massa, horas seguidas, a fermentar, coberta com grossos panos e cobertores.

De seguida vinha a tarefa mais difícil e talvez mesmo a mais arriscada – largar lume ao forno. Atulhava-o minha mãe de achas de faia bem grossas e secas e cobria-as de garranchos de incenso bem secos e estaladiços, enchendo-o quase até ao tecto. Atirava-lhe lá para dentro uns respingos de petróleo e atiçava-lhe uma mecha. Em breve a lenha transformava-se em enormes labaredas. Algumas, mais atrevidas saíam, ameaçadoras, pela porta do forno parecendo galgar e queimar a cozinha. Minha mãe puxava-nos para bem longe dali… Depois, aos poucos, as labaredas destruíam aquele ar ameaçador inicial, desfaleciam, murchavam e ardiam numa lentidão sonolenta, acabando por transformar as grossas achas de faia em brasas vermelhas e incandescentes.

Minha mãe – sempre ela a trabalhar e a fazer tudo – pegava nos ramos verdes de faia do norte e amarrava-os na ponta de um pau, construindo, assim, o varredouro com que havia de varrer o forno, juntando as brasas, evitando que caíssem sobre o soalho, mantendo-as armazenadas, protegidas com um aro de ferro, num pequeno átrio que existia do lado de fora da porta do forno.

No entanto, a grande bola de massa era talhada em muitas outras bolas mais pequenas que agora se dispunham ordenadas sobre a mesa. Uma a uma, minha mãe colocava-as sobre a pá de madeira, salpicada de farinha, e, com mestria, distribuía-as, o mais organizadamente possível, dentro do forno, o qual era tapado com uma enorme e pesada porta de latão.

Minha mãe, de vez enquanto, espreitava lá para dentro. Hora e meia depois o pão estava cozido e a cozinha cada vez mais desarrumada, mais tisnada e borrifada de branco… Novamente com a pá, minha mãe retirava do forno, um a um, os pães já cozidos, quentes, a fumegar, colocava-os sobre a mesa e cobria-os com cobertores.

À noite chegavam meu pai e meus irmãos com as latas a abarrotar de leite ainda quentinho tirado, momentos antes, do mojo das vacas. Depois de escovado e arrumado o pão, um deles (e se necessário dois) era cortado em grossas fatias que cada um migava numa tigela cheiinha de leite.

Era a mais deliciosa ceia do mundo, a das sextas-feiras, em minha casa!

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publicado por picodavigia2 às 00:03

O PICO OU A VERDADEIRA ILHA DE BRUMA

Quarta-feira, 19.02.14

Mesmo que já tenhamos aportado inúmeras vezes à maior ilha do grupo central açoriano, quando, novamente, o fazemos não nos limitamos, apenas, a sentir os pés no terreiro, onde os nossos avós bailaram o pezinho ou a chamarrita. Na realidade e sempre que de novo e mais uma vez se arriba ao Pico, para além dos ecos de um passado egrégio e progénie, emergimos num universo a abarrotar de um sem fim de sensações envolventes e dinâmicas, que nos enlevam em encanto e nos sublimam em deslumbramento. Calcorreiam-se atalhos e veredas atapetados de musgo, balizados por bardos de incenso e faia, caminhos ornados de madressilva e poejo, uns e outros construídos nas encostas pedregosas da ilha, muitos deles, quiçá, nos primórdios do seu povoamento. Depois, envolvidos por um silêncio perturbador, penetramos entre o verde das pequenas florestas, a abarrotar de faias, sanguinhos, paus brancos, folhados e uva do mato. Do chão térreo, anos a fio domesticado por alviões manejados sabiamente pelos nossos avós, emerge um perfume a enxofre e a lava e do mar, onde ainda são visíveis as rilheiras dos botes baleeiros e das traineiras, aflora um sabor a uma maresia destemida e deslumbrante. Por entre as brumas e os nevoeiros matinais, ergue-se um cântico de dolência adormecida. É no Pico, talvez por ser a mais jovem ilha açoriana, que sentimos, mais do que em nenhuma outra, correr-nos, nas veias, um basalto negro, ainda vivo, uma seiva, um suco, um mosto, disfarçado de espuma, umas vezes sublime e delicioso, outras angustiante e perturbador, mas sempre dulcificado e apetecível, personificado naquele torrão pétreo onde o florido das orquídeas e das azáleas se mistura com o desabrochar dos primeiros rebentos das figueiras e das vides. É também este basalto negro, como que ensanguentado, que nos trás à memória a labuta de um povo de pastores e baleiros que escreveu a sua história com cajados e remos, gravando-a, para sempre, nas pedras basálticas das encostas e nos rochedos dos baixios e escolhos da beira-mar. É este gigante adormecido, de magma e enxofre que nos traz à lembrança, cada vez que olhamos os socalcos e andurriais da montanha que o personifica, os fantasmas das sombras enigmáticas da lava dos vulcões e os ecos roufenhos do rugido de abalos e terramotos. É esta tremenda e invulgar força telúrica, adormecida no seu seio e armazenada no seu interior, é esta estranha e paradigmática sensação de se ter a alma presa a um alvoroço extrusivo, profundo e místico, que nos deslumbra e faz sonhar, ao mesmo tempo que nos emaranha nos meandros de uma natureza pura e virgem, donde brotam vinhedos fecundos e de sabor adocicado, ladeados por muros singelos de lava carcomida, encostas recheadas de um bruto esplendor, maroiços a abarrotar de pedregulhos saltitantes, paisagens transparentes de uma pureza diáfana, veredas marcadas com o marulhar contínuo das albarcas e dos pés descalços, campos fecundos, ornados de uma vegetação atrevida, metamorfoseada num verde luxuriante que ora povoa os pastos repletos de manadas, ora cobre as encostas de arvoredos e arbustos ou reveste as pequenas courelas de legumes e cereais.

O Pico é assim, como uma princesa revestida de bruma, que as gaivotas beijam e enternecem com mimos e carinho. Sempre que o revistamos de lés-a-lés, encontramos a dolência embevecida das ondas, o eco oscilante das marés ou, até, a braveza incontrolável do oceano e encantamo-nos, deliciosamente, com a inebriante doçura das lagoas e deslumbramo-nos, em excelência, com a ternura sorridente das hortênsias. E como se isso não bastasse, ainda nos fica, no peito, o estigma da ardência das caldeiras e das fumarolas dos vulcões. Por tudo isso é que o Pico é a primeira entre as verdadeiras ilhas de bruma, porque revestida com o negro do basalto, com o verde da esperança e envolta com o azul do mar e o branco baço dos nevoeiros.

Razão tinha o poeta Manuel Alegre, quando, demandando o Pico, procurava uma ilha de bruma, “… uma ilha sobre o vento e a espuma/Agora tenho-a à minha frente/ilha de bruma./Buscava um lugar santo um canto um cântico/um triângulo mágico uma palavra um fim./E vejo um grande pico sobre o atlântico/e uma ilha a nascer dentro de mim”.

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publicado por picodavigia2 às 16:50

PÃO ADUBADO

Quarta-feira, 19.02.14

Na Fajã Grande, antigamente, chamava-se “Pão Adubado” à tradicional Massa Sovada, comum a todas as ilhas açorianas e intimamente liga às festas d Apenas o nome variava. De resto, no que à sua confecção dizia respeito, tudo era muito semelhante ao que se fazia nas outras ilhas.

Assim os ingredientes necessários eram, para além da farinha de trigo, fermento e água, o açúcar, a manteiga, a raspa de limão, um pouco de vinho abafado, noz-moscada, sal, leite e ovos. Estes, juntamente, com o leite e o açúcar constituíam o tal adubo que tornava este pão tão especial, saboroso e diferente quer do pão de trigo, cozido apenas pelas festas, quer do de milho dos dias habituais.

Para preparar este verdeiro luxo que, nas casas mais pobres, apenas se usava pela festa do Espírito Santo, nos casamentos e para fazer os bonecos de Santo Amaro, batiam-se os ovos com o açúcar muito bem batidos, misturava-se o fermento que era feito de véspera, a casca dos limões raspada, a noz-moscada, também raspada, o vinho abafado, o sal, a manteiga amolecida, o leite e, por fim, a farinha. Amassa-se tudo muito bem amassado, de modo a dar uma espécie de sova na massa com as costas da mão e deixava-se a levedar, tapando o alguidar com um cobertor grosso. Depois tendia-se o pão, formando bolas redondas, que se douravam com gema de ovo. Finalmente, iam a cozer no forno bem aquecido com lenha e bem varrido com o varredouro de ramos verdes.

Por alturas da Páscoa também se cozia um pão semelhante a este, chamado folar e que levava no cimo um ovo ou um toro de linguiça. Pelo Carnaval era também com esta massa que se faziam as filhós.

Pão Adubado, assim chamávamos manjar celeste que tão raramente saboreávamos.

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publicado por picodavigia2 às 11:56

A MORTE DE PIO XII E A ELEIÇÃO DO NOVO PAPA

Terça-feira, 18.02.14

Num dos primeiros dias do mês de Outubro, meu Deus, jã vão tantos anos e era eu ainda uma criança, os céus da cidade de Ponta Delgada, na ilha de São Miguel foram atordoados com o constante e permanente dobrar a finados, dos sinos de todas as igrejas, conventos ermidas e capelas da cidade. Um espectáculo de som dolente, aflitivo, sombrio, mas solene e, para mim, habituado ao singelo badalar dos dois pequenos sinos da torre da igrejinha da Fajã Grande, inesquecível e inolvidável. Horas antes havia-nos sido anunciado no Salão de Estudo do Seminário, de que sua Santidade o Papa Pio XII havia falecido. De seu nome de baptismo Eugénio Maria Giuseppe Giovanni Pacelli, Pio XII nascera em Roma, no longínquo ano de 1876, tendo sido eleito Papa no dia 2 de Março de 1939. A cidade de Ponta Delgada celebrou a morte do Sumo Pontífice com três dias de luto, durante os quais os sinos dobravam de manhã e à tardinha. Na igreja Matriz foram celebradas exéquias solenes, presididas por monsenhor José Gomes, a mais alta figura da igreja açoriana na ilha de São Miguel e nas quais participou todo o clero da cidade, incluindo os professores do Seminário, os seminaristas e muitas autoridades. Pela primeira vez entrei na vetusta mas deslumbrante igreja de São Sebastião que, apesar de ensombrada numa penumbra anunciadora do luto, do pranto e da morte de Sua Santidade, se me deparou duma grandiosidade inexaurível, duma beleza extraordinária e duma imponência monumental, sobretudo se comparada com a pequenina e simples igreja da minha freguesia.

Cerca de duas semanas e meia depois tudo mudou. Os sinos voltaram a anunciar, mas agora em solenes e alegres repiques, a eleição do novo Papa. As notícias sobre o Conclave e os nomes papáveis, assim como todo o cerimonial que acompanhava a eleição do Sumo Pontífice, tinham-nos sido dadas e explicadas pelos perfeitos que as ouviam nos rádios que tinham nos seus quartos. O Conclave foi realizado entre os dias 25 e 28 de Outubro e após onze votações, os cardeais-eleitores, sob a inspiração do Espírito Santo, elegeram como sucessor de Pedro, o cardeal Ângelo Roncalli, arcebispo de Veneza. Era, segundo diziam as notícias, um homem já de avançada de idade, muito gordo, mas muito bondoso, muito amável e simpático para com todos e que adoptou o nome papal de João XXIII.

No dia seguinte voltamos à Matriz, acompanhados dos professores, desta feita para participar num “Te Deum” de acção de graças e regozijo pele eleição do novo Papa.

Habituado às simples e parcas celebrações litúrgicas na igrejinha da Fajã, sob a orientação de um único sacerdote, deslumbrei-me por completo com a mística, a grandiosidade e a sumptuosidade de uma e outra destas celebrações, com a beleza dos paramentos e das alfaias litúrgicas, com a monumentalidade da igreja matriz e sobretudo pelo grande número de sacerdotes e de fiéis presentes.

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publicado por picodavigia2 às 17:39

CAMINHA

Terça-feira, 18.02.14

Chegaste,

numa manhã ungida

com o perfume da ternura.

 

Trouxeste,

uma onda gigante,

destemida e brava,

a abarrotar de felicidade…

 

Encheste de alegria

e de encanto

palácios frios, desertos, inóspitos.

 

O teu destino,

agora,

é caminhar,

percorrer uma estrada ampla e longa:

- onde as árvores se hão-de revestir de encanto,

- onde os pássaros hão-de alvoroçar de esplendor,

- onde o mundo se transformará num eirado de trigo,

- onde os homens hão-de saborear a amizade,

- onde o Sol, resplandecerá, desfazendo penumbras e enigmas!

 

E,

se algum dia,

o fulgor das estrelas afrouxar,

ou quando as manhãs se transformarem em mordaças,

… abre uma janela e aceita qualquer raio de luz,

mesmo que seja débil

ou te pareça supérfluo.

 

Ao João

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publicado por picodavigia2 às 12:53

MALDIÇÃO SOBRE A ETERNIDADE

Terça-feira, 18.02.14

A António Osório

 

(Pedro da Silveira)

 

Das árvores que plantei

nenhuma já me pertence

e de quase todas nem comi

ou sequer vi os frutos.

Sempre soube que devemos morrer

E penso que é melhor

não se saber quando nem como.

E quanto ao que deixámos,

não se recorde de quem foi.

Que só assim somos eternos.

 

Pedro da Silveira,  Poemas Ausentes,

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publicado por picodavigia2 às 09:23

O DIABO E A ESCURIDÃO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Segunda-feira, 17.02.14

Quando eu era criança meu avô contava uma outra estória que muito me assustava. Aos anos que isto foi…Era mais ou menos assim:

“Era uma vez uma ilha onde não existiam nem estrelas nem lua e, por isso, todas as noites eram tão escuras, tão escuras que todos os habitantes da ilha, durante a noite, se fechavam a sete chaves dentro de suas casas, com medo da escuridão que se fazia cá fora.

Mas vivia naquela ilha, retirada e longe das outras casas, uma mulher que não tinha medo da noite sem estrelas e sem lua, pois não temia a escuridão que ali reinava, todas as noites. Era uma mulher jovem, bela e muito bonita, mas era diferente de todas as outras mulheres da ilha. E por ser diferente, e por não ter medo de andar sozinha de noite, no escuro, nenhum habitante da ilha a queria tomar por esposa, e as outras mulheres recusavam-se a conversar com ela. Cuidavam as pessoas que a escuridão era obra do Diabo e, assim, quem andasse no escuro, caminhava sob a protecção do mafarrico. Sentindo-se só, a jovem, porque não tinha medo da escuridão, começou, cada vez mais, a sair de casa e deambular sozinha pelas noites escuras.

Mas, naquela ilha, havia uma outra mulher, muito feia e má, que, olhando para a beleza e audácia daquela jovem, ficou cheia de raiva e de inveja, decidindo que a havia de a castigar. Para o fazer, decidiu também sair de casa numa noite escura como todas as outras. Mas enquanto caminhava, como não estava habituada à escuridão, tropeçou numas pedras e caiu, ficando assustada, sobretudo muito barulho que lhe parecia ouvir à sua volta.

Cheia de medo e de raiva, chamou pelo Demónio, dono e senhor da escuridão, das trevas e da noite e pediu-lhe que transformasse a jovem tal jovem, a culpada da sua desgraça, na mulher mais feia e detestável daquela ilha e que ninguém mais gostasse dela, lhe desse ouvidos ou a ajudasse. Foi o que o Diabo quis ouvir, ele que está sempre pronto, à espera de fazer mal a uns e a outros. Por isso, de imediato, pôs-se, muito atento, à espera que a jovem saísse de casa, em mais uma noite de escuridão.

Na noite seguinte, logo após bater a última pancada da meia-noite, a jovem bela e bondosa, saiu de casa. Só que trazia sempre consigo, preso ao peito com um cordão de ouro, um cruxifixo, que, antes de sair de casa, beijava com fé, pedindo a Deus que nunca a abandonasse, sobretudo, nos momentos de perigo. Por isso quando o Diabo se cruzou com ela para a agarrar, sentiu a força da cruz, sendo assim, através desta, impedido de o fazer. O Diabo tem medo da cruz e quando vê uma foge a sete pés para bem longe.

A mulher invejosa ficou furibunda mas mais nada pode fazer do que correr para junto do mar e atirar-se lá para o fundo dos infernos, onde mora o Diabo. Antes porém contou a uma vizinha o que se passara e a estória correu por toda a ilha. Então o povo, sabendo o que se passara arrependeu-se da sua atitude, pois sabendo que aquela jovem era crente e temente a Deus e que a força e coragem que possuía vinha de Deus, nunca mais a desprezou. Dizem que, a partir desse dia, começou a haver estrelas no céu e a lua começou a iluminar a noite.

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publicado por picodavigia2 às 14:08

EVITAR MALES

Segunda-feira, 17.02.14

“Antes que o mal cresça corta-se-lhe a cabeça.”

Este é mais um interessantíssimo e douto adágio fajangrandense, muito utilizado na década de cinquenta e com o qual se pretendia que as pessoas evitassem sofrer ou serem vítimas do mal, tentando sobretudo evitá-lo. Com este provérbio queria significar-se que cada um de nós ao aperceber-se de que algo de mal poderia acontecer, devíamos evitá-lo, cortando-lhe a cabeça, isto é a sua razão de ser, aquilo que o provocava. Aplicava-se, sobretudo, quando alguém se aproximava e tornava amigo de alguém que o poderia prejudicar, urgia evitar essa pessoa. Utilizava-se também em situação de perigo eminente e de prevenção contra o que quer que fosse. A intenção era sempre a de evitar males.

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publicado por picodavigia2 às 12:00

ELEGIA, QUASE

Segunda-feira, 17.02.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Defronte da minha janela

o vento agora embala

as flores lilases das jacarandás.

 

A tarde cai, cansada

e não sei porquê

de repente lembrei-me

que foi numa tarde como esta

sob uma brisa morna

que nos dissemos adeus.

 

No entanto não recordo

se havia flores ou simplesmente

era a tarde, sem paisagem nenhuma.

O que ainda sei  é o teu vulto

emoldurado no sol –

e depois a casa

onde já não vive ninguém.

 

Tantas casas desertas

e tantos rostos para sempre inencontráveis.

 

Pedro da Silveira, Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 10:43

DAS FLORES A SÃO MIGUEL

Segunda-feira, 17.02.14

Em cima do cais da Lajes havia uma confusão tremenda e uma barafunda descomunal. Homens, mulheres, crianças, malas, baús, grades, bidões, caixotes, barris, sacos de serapilheira, bois, vacas e até alguns cavalos amontoavam-se em desusada caldeação. Aguardava-se a chegada de mais uma das duas pequenas barcaças que iam e vinham, alternadamente, entre o cais e o enorme paquete ancorado a umas duas ou três milhas de terra. Eram lanchas pequenas, vagarosas e frágeis que iam e vinham à vez, chegando carregadíssimas, a abarrotar de pessoas e bagagens. Encostavam-se às escadas de acesso ao porto e dois marinheiros, de calças arregaçadas pelo joelhos e descalços, uma à proa e outra à ré, atiravam as cordas que traziam amarradas nas bordas da embarcação para cima do cais a fim de que as alças das pontas fossem presas nos moitões de ferro cravados no cais, permitindo aos passageiros saltar para terra com maior segurança. Só depois lhes era retirada a bagagem, que, a conta-gotas, ia sendo atirada pelos marinheiros para cima do cais onde estavam os bagageiros que a apanhavam com mestria e a seguravam com perícia a fim de que nenhuma mala ou caixote caísse no chão ou escapulisse para o fundo mar. Assim que as lanchas ficavam livres das pessoas e das malas que traziam de bordo, seguia-se uma lufa-lufa medonha, por parte dos que estavam em terra e pretendiam embarcar. Acompanhados da respectiva bagagem, todos queriam ser os primeiros a entrar e a ocupar os melhores assentos nos pequenos batéis, enquanto as malas iam sendo arrumadas à proa e à ré das embarcações.

Mais fora, mas antes do molhe, dois botes maiores do que as lanchas e com motores mais potentes, carregados com sacos de farinha, de açúcar, de adubo, de cimento, caixotes de sabão e de bebidas, bidões de cal ou de petróleo, grades com garrafas de cerveja e de pirolitos e muita outra carga, também se iam, à vez, encostando ao cais. Em terra, um pequeno e desengonçado guindaste levantava, muito lentamente, toda aquela carga e colocava-a, desordenadamente, em cima do cais. Depois alguns homens entretinham-se a arrumá-la e ordená-la de acordo com os comerciantes da vila a quem se destinava e dos quais se destacavam: o Germano e a Firma.

Eu observava tudo aquilo com um misto de apreensão e angústia. Também estava em cima do cais à espera da minha vez de embarcar, mas estava, momentaneamente, impedido de o fazer. É que para além duma mala castanha, levava comigo um pequeno baú, que por rigorosa determinação do senhor Jerónimo, o agente da “Insulana” nas Lajes, tinha que ir no porão. Por isso esperei horas a fio. É que a bagagem de porão para as ilhas só poderia ser carregada depois de toda a mercadoria que se destinava ao continente estar devidamente colocada e arrumada nos fundos dos porões do navio.

Abracei-me a meu pai e comecei a chorar e a esmoncar-me. Olhava para a carga amontoada em cima do cais e concluía que a minha viagem começava ali a complicar-se. Muito provavelmente só seguiria para bordo numa das últimas lanchas e o meu progenitor já não me poderia acompanhar. Assim não chegaria a tempo de arranjar beliche. Foi o senhor Aurélio, aos cuidados de quem eu havia de viajar até à Terceira, que me salvou. O senhor Aurélio há muitos anos que era o porteiro do Seminário de Angra, onde vivia durante todo o ano. Tinha casa na Fajã e ali vinha passar os meses de Verão. Comprava sempre passagem de ida e volta, mas em Angra, onde era mais fácil arranjar acomodação. Já tinha o beliche marcado no seu bilhete e não necessitava de pressas para embarcar, por isso sugeriu a meu pai que seguisse comigo para bordo e que fosse falar com o Senhor Artur, o responsável pela terceira classe, a ver se ainda havia um beliche livre para mim. Ele ficava em terra e comprometia-se a embarcar apenas quando tivesse a certeza de que o meu baú já seguira para bordo.

Por entre apertos e empurrões, entrei no primeiro batel que encostou ao cais, seguido de meu pai que carregava a minha mala às costas. Apertados como sardinha dentro de lata, com o barco a transbordar de gente e de bagagem, com a água quase a dar-lhe pela borda, seguia temeroso, atravessando aquele troço de mar, que à medida que a embarcação se afastava de terra parecia ir tornando-se cada vez mais agitado. Ao fim de algum tempo, por entre solavancos e tropeções, o batel aproximou-se do monstruoso e vetusto paquete, ao redor do qual o mar parecia tornar-se mais calmo e mais tranquilo, transformando o navio numa espécie de rochedo encravado ali, na enorme baía, bem em frente à vila das Lajes. A barcaça encostou-se ao vapor. Esperei pela minha vez e, amedrontado, subi as escadas. Através dos vãos via lá em baixo o mar liso, azulado e escuro e sentia um medo terrível. Não fosse algum pé escorregar-me e eu escapulir-me-ia por ali abaixo, perdendo-me definitivamente no fundo do Oceano. Por isso, à medida que subia as escadas, agarrava-me ao corrimão de lona, dúctil e maleável, com ambas as mãos. Ao portaló o Imediato e outros tripulantes, vestidos de farda branca e boné da mesma cor, davam a mão aos passageiros mais enrascados e temerosos e as boas vindas a todos. Entrei no corredor do velho paquete, a abarrotar de malas e caixotes, como se penetrasse num mundo estrambólico e tenebroso e onde tudo me era desconhecido e estranho. Esperei por meu pai que subia um pouco atrás carregando a minha mala.

Iniciava ali a minha primeira pequena grande aventura.

Fora em Junho, pela festa do Espírito Santo da Casa de Cima que a decisão havia sido tomada lá em casa. A Dona Madalena, a minha professora da quarta, não cessava de anunciar e proclamar alto e bom som que era um pena eu não seguir os estudos. Mas não havia volta a dar-lhe. Era de todo impossível e impensável. O meu futuro estava traçado e seria igual ao de meus irmãos mais velhos: viver ali, na ilha, agarrado à foice e à enxada, trabalhando à chuva ou ao sol, carregando cestos de batatas e molhos de incensos, levando as vacas ao pasto ou limpando-lhes o esterco do palheiro, ajudando meu pai nas lides do campo. Só que o milagre aconteceu. Uma carta da América veio alterar substancialmente o meu destino. Uma tia, que há alguns anos para lá havia emigrado, considerando que esse acto teria sido uma fuga perversa ao que julgava serem responsabilidades suas, sentiu uma enorme necessidade de redimir-se. Como consequência eu ia estudar, mas para que a remissão a que ela aspirava fosse mais eficiente, só o poderia fazer no Seminário. Meu pai a princípio não aprovou a ideia. Embora eu ainda fosse um badameco de meia tigela, já lhe fazia muita falta. Normalmente era eu que ia buscar e levar o gado, enquanto os mais velhos andavam a ceifar, a lavrar ou a mondar os campos. Uns dias depois, porém, cedeu. Afinal a ideia até nem era de todo má, pois era uma oportunidade única e uma forma airosa de ver pelo menos um dos filhos sair das Flores, libertar-se dos trabalhos forçados, da miséria, da fome e de muitas outras limitações que proliferavam pela ilha. Além disso, perante o meu feitio e temperamento, ele concluía que muito provavelmente eu nunca aguentaria aqueles doze longos anos fechado naquela casa e que eram requisito obrigatório e necessário para a Ordenação. Mas mesmo que desistisse, ficaria com os estudos. Depois era a pressão da minha avó e das tias Graça e Luzia, sempre muito devotas e dedicadas ao serviço de Deus. E decidiu-se que no Carvalho de Setembro eu partiria para Ponta Delgada, para o Seminário Menor de Santo Cristo.

Os três meses que se seguiram foram de grande azáfama e consumição. Nos tempos que tinha livres das tarefas domésticas minha irmã Amélia começou a preparar o enxoval de acordo com uma lista que havia sido enviada pela reitoria do Seminário e entregue pelo pároco e da qual constava, como mínimo necessário e obrigatório, quatro lençóis, dois cobertores, uma colcha, duas fronhas, um colchão e uma almofada. A colcha era o mais difícil, pois comprar uma nova era de todo impossível. Foi minha avó que se comprometeu a costurá-la. E fê-lo com mestria. Arranjou dois bons bocados de fazenda enramados, um azulado e outro castanho, coseu-os em três dos lados, formando uma espécie de saco, dentro do qual colocou escondidas, algumas peças de roupa velha, devidamente alisadas. Depois coseu a extremidade equivalente à boca do saco, alinhavou, chuleou e voltou a chulear a futura colcha de alto a baixo e de lado a lado, em linhas perpendiculares e paralelas, de tal maneira que formaram uma espécie de tabuleiro de xadrez, de forma a simular uma colcha acolchoada. Uma obra-prima! A lista também indicava a roupa que deveria levar para uso caseiro: dois lenços de mão, dois guardanapos, duas camisas, duas soeras, dois pares de calças, dois pares de meias e um par de sapatos, e dois guarda-pós. Arranjar tudo isto tornava-se complicadíssimo, até porque a minha irmã entendia que não devia levar roupa usada. Uma encomenda da América, no entanto, veio resolver o problema, trazendo em triplicado algumas das peças de roupa indicadas na lista. Excepção feita para os dois guarda-pós que deviam ser de cotim e que foram mais difíceis de arranjar. No entanto como tinha um tio alfaiate ficaram-se pelo custo da fazenda, verificando-se procedimento idêntico para o fato preto que aparecia logo bem escarrapachado e em primeiro lugar na lista apresentada pelo pároco. Para arranjar os sapatos pretos é que foram elas… Só nas Lajes e os mais baratos custavam para cima de vinte escudos. Na opinião da minha irmã era um rombo terrível no orçamento familiar e a sua compra iria provocar grande revolta e contestação por parte de meus irmãos mais velhos que andavam sempre descalços e a quem, nem sequer pela Comunhão Solene lhes haviam sido comprados uns sapatos novos. Mas não havia volta a dar-lhe: sem sapatos pretos é que eu não podia ir para o Seminário. Foi minha irmã que inventou a artimanha para os arranjar. Para evitar a revolta de meus irmãos eu iria jurar a pés juntos que os sapatos tinham sido oferecidos pelo senhor padre Silvestre, como recompensa de eu lhe ir ajudar à missa todas as manhãs, enquanto ela, por sua vez, iria pedir vinte escudos à vizinha Celeste, a mulher do senhor Regedor, muito amiga da minha mãe, antes de ela falecer e agora, sempre muito pronta a ajudar-nos em momentos de aflição. Havia de lhos pagar, depois, em sete ou oito prestações de maneira a que meus irmãos não se apercebessem do embuste. À lista seguia-se uma observação importante: todas e cada uma das peças deviam ser marcadas com as letras iniciais do nome e sobrenome do candidato, a fim de que a roupa não se perdesse e as lavadeiras não a misturassem com a dos outros alunos. Deliciosa tarefa para minha irmã que era uma excelente bordadeira e adorava fazer ponto cruz. Depois foi papelada e mais papelada, o que implicou variadíssimas viagens a pé, entre a Fajã e as Lajes, sempre acompanhado por meu pai, para tirar fotografias, bilhete de identidade, marcar a passagem e comprar papel para os requerimentos. O pior foi quando meu pai viu na lista apresentada pelo pároco, - ”uma folha de papel timbrado da Ouvidoria”. Como ele não soubesse o que era aquilo da Ouvidoria e cuidando que era engano, comprou a respectiva folha na Tesouraria da Fazenda Pública, onde habitualmente se comprava o papel selado. Para além dos recados que ouviu do prebendado, ao regressar à Fajã e de perder o dinheiro gasto no papel timbrado que não tinha nenhuma outra utilidade nem estorno, teve que voltar às Lajes no dia seguinte, exclusivamente para comprar uma folha de papel com o timbre da diocese de Angra do Heroísmo, em casa Senhor Ouvidor Eclesiástico.

Era nisto que pensava enquanto sentado em cima dum caixote, no corredor de entrada do navio, esperava meu pai que chegou um pouco depois. Arrumou a mala no corredor, de acordo com as instruções de um tripulante e dirigimo-nos para a terceira classe, em que eu viajava, conforme o assinalado com letras garrafais no meu bilhete de viagem, pelo senhor Jerónimo.

 

O Carvalho Araújo era um velho paquete pertencente à Empresa Insulana de Navegação que detinha o monopólio do transporte de passageiros e de carga entre o Continente, a Madeira e as nove ilhas dos Açores, as quais demandava uma vez por mês. Apenas entre as ilhas do grupo central circulavam três pequenos iates, o Terra Alta, o Terceirense e o Santo Amaro. O Carvalho era um barco enorme. Para além dos cerca de noventa e oito tripulantes, tinha capacidade para o transporte de mais de trezentos e cinquenta passageiros e quatro mil e setecentas toneladas de carga. Tinha sido comprado à construtora italiana “Cantiere Navale Trestino” havia uns bons trinta anos. Uma placa colocada na primeira classe, na escadaria que dava acesso à sala de jantar, explicava a razão se ser do nome com que fora baptizado, recordando o episódio em que fora protagonista o comandante Carvalho Araújo. Em Outubro de 1918, durante a primeira Grande Guerra Mundial, o navio S. Miguel fazia uma viagem entre a Madeira e os Açores, transportando passageiros e carga diversa, sendo escoltado pelo navio patrulha Augusto Castilho, sob o comando do tenente José Botelho de Carvalho Araújo. Quando os dois navios se encontravam a algumas milhas da cidade de Ponta Delgada foram atacados a tiro de canhão por um submarino alemão, comandado pelo experiente Lothar Von Arnaul de La Periére. Iniciou-se, então, uma dura e árdua batalha naval que se prolongou durante algumas horas e durante a qual o comandante Carvalho Araújo ofereceu brava resistência à artilharia alemã, salvando muitos companheiros mas acabando ele próprio por sucumbir durante o combate. Para homenagear o comandante Carvalho Araújo fora posto o seu nome ao paquete que agora navegava mensalmente entre o Continente e as ilhas açorianas. O navio dividia-se em três partes, correspondentes a três classes distintas. A primeira classe, a melhor e mais cara, ficava no centro do navio e constituía a sua parte mais alta, mais nobre e mais luxuosa, com três andares. No terceiro para além do enorme convés com uma parte coberta e outra descoberta ficava ainda a sala de estar, com bar, cadeiras estufadas e mesas de jogo e as salas de comando. No segundo a sala de jantar, a cozinha, as casas de banho e os aposentos dos oficiais de bordo. Por baixo destes e já dentro do bojo do navio ficavam as casas das máquinas e os camarotes, mais amplos, menos susceptíveis aos balanços das ondas, mais limpos, mais arejados e, consequentemente mais caros. Só os ricos e endinheirados podiam viajar em primeira e aos restantes passageiros era vedada a permanência na sua área. A segunda classe, separada da primeira pelo porão de carga, ficava à popa, também tinha dois andares sobre o bojo. O preço dos bilhetes já era mais acessível. No segundo andar ficava a sala de estar reservada aos passageiros que compravam bilhetes de segunda circundada por um pequeno convés. A sala de jantar e a
cozinha ficavam no primeiro andar. Os camarotes ficavam no bojo, mas à ré, pelo que eram bem mais ruidosos e menos confortáveis do que os da primeira. Finalmente a terceira classe, a mais barata e a pior em todos os aspectos, ficava à proa. Não tinha convés, nem sala de estar, nem bar. A sala de jantar ficava enfiada no bojo, era apertadíssima, muito suja e acumulava também as funções de sala de estar durante o dia e de dormitório, para muitos passageiros, durante a noite. Os camarotes eram poucos, pequenos e mal cheirosos e os beliches desconfortáveis e apertadíssimos. Além disso a sua colocação à proa do barco, tornava-os muito incómodos, sobretudo durante viagens em que a agitação mais acentuada do mar provocava um balouçar maior do navio e extremamente ruidosos, pois ficavam debaixo dos guindastes do porão da frente. Assim como os camarotes todas as instalações desta classe, incluindo a sala de jantar e a cozinha eram tão pequenas, tão apertadas e tão promíscuas que a maior parte dos passageiros que navegava com bilhete de terceira, fugia dali como o diabo da cruz, preferindo acomodar-se ao longo dos corredores, ao lado dos porões, ou até pelo convés das outras classes, embora, neste caso, a permanência fosse sempre condicionada pela tolerância da tripulação. É que por toda a terceira classe proliferava um pestilento e emético cheiro a vomitado, a latrinas nauseabundas, a comida enjoosa, ao bafio dos beliches e até a bosta de vaca, dado que ficava porta a porta com o porão onde viajavam os animais.

Ao entrar na sala de jantar da terceira, juntamente com meu pai, deparamo-nos com uma enorme fila na direcção do senhor Artur, que, sentado a uma das mesas, ia registando o número dos beliches e dos camarotes nos bilhetes dos que haviam chegado primeiro. Ainda nem tinha atendido metade dos que estavam à minha frente, quando se levantou e anunciou em tom autoritário e definitivo:

- A partir de agora não há mais beliches para os homens. Só há para senhoras e vou dar prioridade às que têm crianças de tenra idade.

Estarreci. Não havia rigorosamente nada a fazer. Meu pai ainda tentou aproximar-se do homem, mas sem sucesso. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Das Flores a S. Miguel eram três dias e três noites de viagem e eu sem ter onde me deitar ou uma cama para dormir… Meu pai apercebendo-se da minha aflição, tentando ocultar a sua mágoa, explicou-me que a partir da meia-noite, depois dos passageiros de primeira se deitarem nos seus camarotes, ficavam sempre no convés daquela classe algumas cadeiras vagas, onde me poderia deitar. Normalmente a tripulação, a essa hora, já era mais condescendente e não expulsava de lá os da terceira.

Já era bastante tarde e a hora do navio levantar ferro aproximava-se. Além disso, meu pai não podia demorar-se a voltar para terra, pois tinha que regressar a pé para a

Fajã, atravessando os matos de noite, evitando chegar a casa muito tarde. Felizmente que o senhor Aurélio já tinha chegado a bordo, assegurando que o meu baú também já estava arrumado no porão. Meu pai despediu-se de mim sem grande alarido e partiu para terra, enquanto eu me ia postar sobre a amurada do convés, observando a pequena barcaça em que ele seguia, balouçando lentamente sobre as ondas e que se ia afastando cada vez mais na direcção da ilha, que lá ao fundo parecia envolvida numa espécie de penumbra petrificante onde se evaporavam todos os meus sonhos de infância. E quando a barcaça que levava meu pai de regresso a terra desapareceu por completo por de trás do molhe do porto, retirei-me para um canto e chorei amargamente.

Já era noite escura quando o Carvalho levantou ferro da baía das Lajes com destino ao Faial, onde deveria chegar na manhã seguinte. Agora, mais calmo, tranquilo e conformado com a minha situação de desacomodado, voltei à amarra do convés e entretive-me a ver as manobras que os guindastes e roldanas da proa executavam a fim de levantarem do fundo do mar a pesada âncora que prendera o Carvalho em frente à vila, durante várias horas. Alguns marinheiros já tinham levantado a escada e fechado o portaló, trancando-o com duas grossas cavilhas de ferro. O navio, sentindo-se liberto da pesada poita, deu duas guinadas à retaguarda, apitou por três vezes, orientou-se rumo à saída da baia e zarpou em marcha lenta, em direcção ao Faial, deixando atrás de si, juntamente com o roncar estridente dos motores, uma enorme esteira de espuma esbranquiçada.

Passei a noite num vai e vem apreensivo e temerário entre a primeira e a segunda, ora subindo escadas ou penetrando em corredores ora entrando nas salas que ainda permaneciam abertas, para sair logo a seguir. O senhor Aurélio, como era seu hábito, foi deitar-se cedo, logo depois do navio levantar ferro, não cessando, no entanto, de me fazer excessivas recomendações, alertando-me para os cuidados que devia ter em tudo o que fizesse ou em todos os lugares para onde fosse. De vez em quando subia ao convés da primeira a ver se descortinava uma espreguiçadeira desocupada. De seguida voltava à amarra para ver mais uma vez a ilha, agora já muito longe e de tal maneira confundida com o negrume da noite que quase não se via, apesar de estar perfeitamente assinalada pelos dois enormes e potentes faróis: a Sul o das Lajes e a Norte o do Albarnaz. Eu pensava então em meu pai, que aquela hora estaria a atravessar a ilha a pé, sozinho, sem luz, no meio de toda aquela escuridão. Possivelmente ainda estaria muito longe de casa. Olhava para o relógio e contava as horas desde que ele tinha partido das Lajes. Três horas de viagem, permitiam-me concluir que já teria chegado aos Terreiros. Mais uma hora e meia e estaria em casa. Depois imaginava minha irmã a levantar-se quando ele chegasse, alta madrugada, para lhe fazer café. De certo iria dormir muito pouco, talvez mesmo, preocupado comigo, nem chegasse a pregar olho. Além disso, como habitualmente, pela manhã teria que se levantar muito cedo, para ir à lagoa das Covas ceifar um molho de erva e trazê-lo às costas até ao palheiro onde as vacas permaneciam fechadas até à hora em que as soltassem para os pastos. Afinal ele e meus irmãos ainda estava em condições bem piores do que as minhas…

Voltei a olhar a escuridão da noite onde já muito ao longe e muito tenuemente brilhavam os dois faróis. Dizia-se que havia um sítio a meio do canal entre as Flores e o Faial donde, em noites muito limpas e bem escuras, se viam ao mesmo tempo os faróis de ambas as ilhas. Mas aquela noite, apesar de muito escura, estava bastante enevoada.

Passaram-se mais algumas horas e começaram a vagar cadeiras no convés da primeira. Ocupei uma, mas não conseguia dormir. O navio, no silêncio escuro da noite, enquanto a maioria dos passageiros e tripulantes dormia, com as luzes quase todas apagadas, continuava o seu marear com solavancos rítmicos, cada vez maiores, acompanhados pelo som roufenho das máquinas. Os faróis das Flores há muito que haviam desaparecido por completo. Agora, possivelmente, já estaríamos mais perto do Faial. Eu aguardava expectante a aproximação da ilha, na esperança de conseguir vislumbrar, de longe, o vulcão dos Capelinhos.

É verdade que o vulcão havia rebentado quase há um ano. No entanto quem por ali passava a bordo do Carvalho afirmava que ainda se via perfeitamente uma coluna de fogo. Tinha sido no final do mês de Setembro, do ano anterior que tudo começara. Entre os dias dezasseis e vinte sete de Setembro registara-se uma crise sísmica no Faial e no Pico, como há muito se não vira e que culminara com o rebentar de um vulcão, no final do mês, na parte norte da ilha do Faial. Uma enorme coluna de fogo emergira do seio da terra, espalhando uma chuva de cinzas sobre grande parte da ilha. Os abalos sísmicos foram prosseguindo e a coluna de fogo manteve-se bem viva e ameaçadora durante longos meses. Agora, no entanto, já não tinha nem a pujança nem a força inicial. Mas no início da crise, a lava emersa da terra era tanta e tão forte que até nas Flores, imune a todo o tipo de actividades sísmicas, ter-se-ia visto, por vezes, o céu mais enevoado e mais escuro devido às cinzas e aos fumos libertados pelo vulcão.

Agora era-me dada a oportunidade única de observar aquele fenómeno telúrico, embora já na sua fase decrescente, mas do qual tinha um medo terrível. Levantei-me ocupando um lugar estratégico a bombordo, na amarra do convés. Muitos passageiros já ali estavam com os mesmos intuitos. Passado algum tempo foi possível observar, lá ao longe, uma pequena e trémula coluna de fogo que saía da terra em espiral e se ia enrolando pelo céu acima até se perder no horizonte e na escuridão que de momento para momento começava a clarificar-se.

Voltei à espreguiçadeira e pouco depois adormeci. Quando acordei já era dia claro. O navio, muito lentamente, rodava a ponta da doca do Faial.

O espectáculo que se me deparava era admiravelmente belo. Em frente a cidade da Horta, disposta em anfiteatro, virada para a majestosa montanha do Pico e como que protegida a Sul pelo montes da Guia e a Norte pela Espalamaca. As casinhas muito bem alinhadas e entrelaçadas permitiam ver lá no alto o observatório meteorológico Príncipe Alberto do Mónaco, os moinhos de vento e as torres das igrejas. A Horta assemelhava-se a um enorme presépio iluminado pelos raios do Sol que acabava de nascer lá ao fundo, por trás de S. Jorge. O mar calmíssimo estava pejado de pequenas embarcações, onde se destacavam as lanchas que chegavam do Pico a abarrotar de pessoas, de malas e de fruta, e que pareciam afastar-se para dar prioridade ao enorme paquete que, soltando três longos silvos, seguia vagaroso, com as máquinas quase paradas e empurrado pela leveza da corrente, atrás de uma pequena lancha, com a bandeira da Capitania e que momentos antes encostara, permitindo assim ao piloto de barra saltar para bordo. Agora era ele, conhecedor daqueles baixios e escombros, que, com mestria, conduzia o paquete e o atracava à doca. O portaló, que desde as Lajes das Flores permanecia trancado a ferros, foi aberto ligando-se de imediato a uma escada que fora içada de terra. As idas e vindas à ilha estavam facilitadíssimas, o navio encostava e ligava-se a ela por uma espécie de ponte e assim permaneceria até largar de novo para o mar alto em demanda de outra ilha, o que permitia aos passageiros e aos residentes no Faial entrar e sair do paquete sempre que desejassem ou quando muito bem o entendessem.

O Senhor Aurélio procurou-me para me avisar que iria sair do navio e que se eu quisesse poderia muito bem ir com ele. Era melhor do que fazê-lo sozinho. Aceitei de bom grado. É que para além de ficar a conhecer a cidade da Horta, poderia comer qualquer coisa, pois sabia que a bordo e na terceira classe teria que prolongar o jejum por mais três longos dias.

Logo ao sair da doca, no início da cidade, encontrámos os armazéns e escritórios da Capitania. Era lá que trabalhava o Isaac, vizinho e amigo do senhor Aurélio. O Isaac saíra da Fajã, depois da inspecção, quando fora apurado para a tropa e não regressara mais às Flores, a não ser em curtas e espaçadas férias. Terminada a recruta, entrou para a Marinha, fez um curso em Lisboa e regressou aos Açores, sendo colocado na Capitania do Porto da Horta. Era um dos marinheiros que constituía a companha da lancha que trouxera o piloto de barra a bordo do Carvalho para o atracar. A capitania era um edifício branco e alto, constituído por dois corpos articulados por uma torre rectangular e situava-se no largo Manuel da Arriaga. Assim que foi avisado de que Senhor Aurélio o procurava assomou à porta e cumprimentando-o, interrogou:

- Quem é este fedelho que trazes contigo?

O Senhor Aurélio explicou quem era meu pai, para onde eu ia e por que razão o acompanhava. Logo o Isaac, piscando-lhe o olho com malícia, voltou-se para mim, dizendo em tom jocoso:

- Áh! Vais para o Seminário! E sabes qual a primeira coisa que os padres te vão fazer quando lá chegares? Vão cortar-te a blica.

- Lá estás tu com essas coisas. Não metas medo ao pequeno que ele tem-se fartado de chorar desde que saiu de casa – retorquiu o senhor Aurélio, enquanto eu, fazendo conta que não o ouvia, me afastava e me entretinha a apreciar a estátua do primeiro presidente da República Portuguesa, ali plantada no meio do largo.

Como ainda faltasse muito tempo para o almoço, o Senhor Aurélio resolveu levar-me a ver os edifícios mais importantes da cidade da Horta: a Residencial Infante, a Casa Bensaúde, a Tabacaria da Sorte, a estátua do Infante D. Henrique no Largo com o mesmo nome, a Alfândega, a Fortaleza de Santa Cruz, o Amor da Pátria, o Mercado a abarrotar de fruta e vegetais, o Colégio de Santo António para onde vinham estudar as meninas ricas das Flores e as Igrejas das Angústia, de São Francisco e a Matriz, mesmo ali junto ao novo edifício dos correios.

De seguida dirigimo-nos ao Graciosa. Era lá que as pessoas vindas das Flores iam almoçar sempre que o Carvalho ancorava na doca ou até quando vinham ao Faial e ali ficavam a acompanhar algum familiar doente. Manifestei uma reservada recusa em acompanhá-lo ao restaurante. A minha intenção era comprar um pão com queijo e uma laranjada. Ele, porém, apercebendo-se da razão porque me esquivava, encorajou-me:

- Anda lá. Não vais ficar aqui sozinho na cidade. Sei que tens pouco dinheiro. Mas podes vir à vontade. O Graciosa enche muito os pratos. Há-de repartir-se alguma coisa contigo.

O Graciosa ficava nas traseiras do Largo do Infante. Eram duas enormes salas no rés-do-chão de um velho prédio. Estava repleto e como era dia em que o Carvalho chegava das Flores, a ementa era variadíssima dado que a clientela estava assegurada, sobretudo, por se tratar duma viagem naquela altura do ano. O prato principal e mais solicitado era feijão assado, mas havia também molha de carne com inhames, torresmos de porco com batata-doce e veja frita com bolo do Pico. Homens, mulheres, soldados, estudantes e seminaristas de toda a ilha das Flores demandavam e enchiam aquele prodígio pantagruélico da gastronomia faialense ou para se desaforarem dos miseráveis cardápios que lhes proporcionava a Insulana a bordo do Carvalho ou para se prevenirem da fome que haveriam de passar nos dias seguintes.

Durante a tarde, sentámo-nos nos bancos do Largo do Infante, a acompanhar o movimento da cidade, a ver os automóveis que circulavam pelas ruas em grande número e a contemplar a mansidão do mar, os navios e iates ancorados na doca, as pequenas embarcações que entravam e saíam e a imponência da montanha do Pico que, erguida mesmo em frente, começava a lançar uma ténue neblina sobre o Oceano.

O Carvalho desatracou da doca da Horta, com rumo ao Cais do Pico, já passava das cinco. Assim que regressei de terra, subi ao convés da primeira e deparei com uma espreguiçadeira vazia. Estava exausto, cheio de sono e com a barriguita cheia. Encostei-me o mais comodamente possível. Foi tiro e queda…

Quando acordei o Carvalho balouçava ancorado fora do Cais do Pico. A noite já ia alta e a faina habitual das lanchas entre o navio e o porto do Cais, como que se resumia a um pequeno barco que de meia em meia hora ia a terra e voltava pouco tempo depois ao navio, trazendo apenas alguma mercadoria. O número de passageiros que embarcava no Pico era muito reduzido. A maior parte, sobretudo os da parte Sul da ilha e da Madalena, preferiam vir nas lanchas e embarcar na Horta, por isso, os poucos que entravam no Cais já haviam embarcado todos e o paquete aguardava a madrugada a fim de rumar às Velas. A noite estava muito escura e o céu pejado de estrelas. A sombra da montanha confundia-se com a escuridão e penetrava no universo celeste, parecendo aproximar-se das próprias estrelas. Apenas na faixa costeira da ilha quer a leste quer a oeste do Cais do Pico e de São Roque, tremelicavam aqui e além algumas luzes cravadas na massa basáltica da ilha. Por trás da montanha, para o lado das Bandeiras, parecia emanar uma espécie de claridade a anunciar que dentro em breve a Lua, havia de aparecer e iluminar a ilha e o Oceano.

Percorri novamente o barco de lés-a-lés e voltei à terceira classe, onde nunca mais entrara desde a tarde do dia anterior, quando o Senhor Artur exarara a sentença que me condenava a passar três noites e três dias ao relento. Pensava eu que, tendo desembarcado, no Faial, muitos passageiros oriundos das Flores, os camarotes e beliches ocupados por eles estariam agora livres. Assim, ia solicitar-lhe um beliche para as duas noites seguintes. Mas o que eu não sabia, ou não queria saber na opinião do Senhor Artur, é que no Faial tinham embarcado ainda mais passageiros do que os que tinham desembarcado vindos das Flores e que até muitos deles, como eu, também viajavam sem acomodação. Saí muito triste mas resignado com a suprema certeza de que não haveria mais nada a fazer. Estava definitivamente determinado que eu havia de passar mais duas noites ao relento.

Alta madrugada, o Carvalho levantou ferro do Cais e aproou às Velas. O mar estava calmo e a Lua surgia agora na sua máxima força, clarificando a noite e definindo com maior rigor os contornos escurecidos das três ilhas até então confundidas e misturadas com o negrume nocturno. O luar por sua vez, projectava-se no mar, transformando-o num espécie de espelho prateado e cristalino que o Carvalho, impulsionado pelo propulsar das suas potentes máquinas, ia quebrando, num ritmado e ronceiro marulhar.

Á medida que o barco se aproximava de S. Jorge, eu cismava com a minha saída naquela ilha. Era lá, nas Velas, que vivia a Dona Hermínia e eu não podia deixar de ir a terra visitá-la.

A Dona Hermínia era da Ponta. Alguns anos mais velha do que eu, saíra das Flores e viera estudar para o colégio de Santo António, na Horta. Ao terminar o quinto ano concorreu para os Correios e foi colocada em S. Jorge, precisamente na vila das Velas, onde já trabalhava havia três anos. No Verão ia sempre passar férias às Flores. Encontrara-a, no mês de Agosto, em casa de uma prima que era costureira e onde ela vinha, de vez em quando, encomendar alguma roupa. Quando no final de Agosto se despediu de mim, antes de partir para São Jorge, ao saber que eu ia viajar em Setembro para S. Miguel, disse-me com convicção:

- Espero por ti em São Jorge. Tens que ir aos Correios visitar-me. Não te esqueças.

Já era dia claro quando o Carvalho fundeou na baía das Velas. Debruçado sobre a amurada do convés da primeira classe observava distraída e displicentemente a maior e mais importante vila de S. Jorge, as Velas, um aglomerado de casas muito branquinhas, umas dispostas em anfiteatro junto ao cais, outras mais ao longe, encastoadas nas encostas sobranceiras e misturadas com as pastagens e as terras de mato galvanizadas de um verde muito verde e prolongadas indefinidamente até interior da ilha. O paquete lentamente voltou a popa a Sul e obrigou-me a mudar para estibordo, a fim de continuar a ver a vila e a ilha.

Pouco depois de o navio fundear na enorme e calma baía, ali mesmo em frente à vila, desci o convés da primeira e aproximei-me do portaló, com a denodada intenção de abalar para terra logo na primeira lancha. A saída estava facilitada, pois o número de passageiros que pretendiam desembarcar em S. Jorge era reduzidíssimo. Ambicionava assim ver a Dona Hermínia e estar com ela durante todo o tempo possível. De repente lembrei-me que não devia fazê-lo sem primeiro dar conhecimento ou até mesmo pedir autorização ao meu marítimo paraninfo. Voltei ao convés e percorri o barco todo a ver se o encontrava. Mas nada! Esperei impacientemente mais de uma hora e nada… Logo hoje é que o homem havia de demorar-se… Esperei, esperei, percorri novamente e voltei a percorrer o navio de lés-a-lés. O Senhor Aurélio continuava sem aparecer. Já passava das dez quando finalmente o encontrei. Manifestei-lhe a minha intenção de ir a terra, visitar a Dona Hermínia, a qual de imediato sofreu forte contestação por parte dele. Que nem pensasse numa coisa dessas. Que se vinha ao seu cuidado só sairia para terra quando e onde ele saísse. E que tirasse o cavalinho da chuva que a São Jorge é que ele não havia de ir. Eu, porém, tanto barafustei, tanto gritei e tanto berrei que o homem lá cedeu, mas com uma condição: - Tinha que estar a bordo sem falta, antes do meio-dia.

Voltei ao portaló num ápice e apanhei o primeiro batel que encostou ao navio e parti para terra, investindo quase metade do dinheiro que trazia comigo na compra do bilhete.

Ao chegar ao cais, deparei-me logo com o edifício dos Correios. Tímido e ansioso, entrei. O coração pulou-me de contentamento ao ver a Dona Hermínia do lado de dentro do balcão, juntamente com outras empregadas. Sem que ela me visse aproximei-me do cliché como se fosse comprar selos ou enviar uma carta. Quando chegou a minha vez a empregada que atendia os clientes perguntou-me o queria. Informei-a de que não queria nada ou melhor queria apenas falar com aquela senhora e apontei para a Dona Hermínia que continuava sentada a uma mesa a ler uns papéis, sem dar conta da minha presença. Assim que me viu, correu para o balcão, levantou-lhe o tampo, saiu apressada para a parte reservada ao público, beijou-me em ambas as faces, fez-me uma série de perguntas sobre a viagem e, colocando-me o braço por cima do ombro com muito carinho, conduziu-me para dentro do balcão e apresentou-me às suas colegas de trabalho e à chefe da estação, a Dona Helena:

- Olhem a encomendinha que me chegou das Flores, no Carvalho – dizia ela, apresentando-me a umas e outras.

Eu, envergonhadíssimo e vermelho que nem um pêro, lá fui respondendo timidamente às perguntas que me faziam, sobre o meu nome, a minha idade, como tinha corrido a viagem, se tinha vomitado muito e se gostava de ir para o Seminário. Uma delas, mais nova e com ar mais atrevidote, atirou-me de rompante:

- Para o Seminário?! Hum! Não tens olho de padre.

Ao lado uma outra comentava:

- Tão perfeitinho! Podes crer que é um desperdício ires para o Seminário.

      A Dona Hermínia, porém, não as ouvia. Conversou com a chefe, demorou mais um pouco a arrumar uns papéis dispersos sobre a sua secretária, enquanto a D. Helena vinha ter comigo, como que a entreter-me, propondo que, a partir de agora, sempre que passasse por S. Jorge, fosse visitá-las.

Só quando ultrapassámos a porta dos Correios percebi que a Dona Hermínia me iria acompanhar numa visita às Velas. É que a Dona Helena autorizara-a a suspender o seu trabalho por algumas horas, a fim de estar comigo até que eu regressasse ao navio.

Passeámos pela vila, visitámos a Matriz e sentámo-nos no Jardim da Praça da República. Depois a D. Hermínia, adivinhando a fome que eu devia sentir ao fim de dois dias de encerramento naquela maldita terceira classe do Carvalho, levou-me a almoçar a um restaurante da vila, pagou a conta, exigiu que a não tratasse mais por “Dona”, voltou comigo aos Correios para me despedir da Dona Helena e das outras meninas, acompanhou-me até ao cais e, como se tudo isso não bastasse, ainda comprou e pagou o meu bilhete de regresso a bordo. Mas a Dona Hermínia não me parecia uma pessoa muito apressada e, além disso, sabia muito bem a que horas o navio havia de partir para a Graciosa. Por isso demorou-se um tempo sem fim em cima do cais, conversando comigo e pedindo-me que lhe prometesse que havia de visitá-la sempre que por ali passasse. Para cúmulo, enviou-me para bordo precisamente na última lancha, apesar de eu manifestar uma enorme e simulada preocupação.

 Foi o bom e o bonito! Ainda não tinha assomado ao portaló e o senhor Aurélio, no cimo das escadas, já vociferava, berrava, barafustava e bufava por tudo o que era sítio, jurando a pés juntos que eu não sairia em mais ilha nenhuma e que nunca mais me traria ao seu cuidado. Que eu estivera quase a perder o navio… Que se eu tivesse ficado em S. Jorge como é que ia ser… Que tinha saído com obrigação de regressar antes do meio-dia e já eram aquelas horas… Eu bem argumentava ao contrário e atirava as culpas para a Dona Hermínia, mas que não a contrariara porque ela me tinha tratado muito bem. Além disso ele não precisava de se ter preocupado porque, afinal, eu chegara muito a tempo. Porém, não o demovia da sua impertinência.

Para não o ouvir mais e porque o convés da primeira estava a abarrotar e os tripulantes não condescendiam, regressei à terceira classe, conforme indicava o meu bilhete. Por ali fiquei a tarde inteira, junto ao porão do gado, enquanto o navio ronceiro e tranquilo navegava lado a lado com a Ponta dos Rosais, em direcção à Graciosa, para na manhã do dia seguinte rumar à Terceira. Sentado em cima dum caixote olhava aquela ilha tão estreita e comprida, que me acolhera e que, a pouco e pouco, se ia tornando mais distante e lembrava-me daquela inolvidável manhã na companhia da Hermínia, que me tratara com tanto carinho, com tanta amizade, que me abraçara e se encostara a mim, permitindo-me cheirar o seu perfume, sentir o arfar do seu corpo e até, inadvertidamente, descortinar uma nesga dos seus peitos. Não poderia nunca esquecer aquela manhã maravilhosa na vila das Velas, pese embora a irritação que havia provocado no senhor Aurélio. E à medida que o navio se ia afastando de S. Jorge, mais eu recordava aquela manhã em terra firme, sem solavancos, sem balanços, sem enjoos, sem maus cheiros, sem fome e, sobretudo, sem a maldita irritação do senhor Aurélio.

Na Graciosa o Carvalho fez serviço na Praia e ali esteve toda a tarde e grande parte da noite. Apenas de madrugada largou em direcção à Terceira, onde chegou na manhã seguinte, fundeando na baía de Angra e permanecendo ali ancorado durante todo um longo e enfadonho dia.

Grande parte dos passageiros que viajavam no Carvalho, terminavam a sua viagem na Terceira. Por isso, depois do navio ancorar, a confusão no portaló e corredores anexos era grande: padres assinalados no cocaruto com a tonsura, seminaristas já vestidos de fato preto e cabeção, estudantes abraçados às namoradas, soldados fardados com o bivaque e com botas de cordões entrelaçados até meia perna, empregados de mãos a abanar, doentes amparados por familiares e até uma velhinha, com o rosto muito pálido, enrolado num lenço de merino e transportada numa maca. O senhor Aurélio também terminava ali a sua viagem. Desde que amuara em S. Jorge, nunca mais me procurou ou dirigiu palavra. Revelando ainda algum ressentimento, veio despedir-se de mim, aconselhando-me o máximo cuidado durante o tempo que ainda me restava de viagem até São Miguel e proibindo-me determinantemente de ir a terra, para que não me acontecesse o mesmo que acontecera em São Jorge. Despedi-me, agradeci-lhe a protecção e decidi ficar a bordo durante mais um longo e pesaroso dia, numa autêntica pasmaceira, sem fazer nada nem coisa nenhuma e, pior do que isso, sem me alimentar. Na véspera à noite, enquanto o navio fazia serviço na Praia da Graciosa, tinha entrado na terceira classe, com intenção de jantar. A ementa, afixada num placard, à entrada, era apetitosa: bife com puré de batata. Ainda consegui o feito brilhante de me sentar à mesa e ser servido com um prato bem cheiinho do anunciado menu. Levei a primeira garfada à boca… Simplesmente intragável! Além disso comecei a ficar mal disposto devido ao ar sufocante da sala, aos maus cheiros que por ali abundavam e ainda porque alguém ao meu lado anunciava muito ao sério que aquilo era bife de cavalo. Zarpei dali, numa corrida louca, com uma enorme vontade de vomitar, sem comer uma única dentada, jurando nunca mais voltar àquela sala de jantar, sobretudo com o exclusivo intuito de matar a fome.

Abandonei a terceira. O navio parecia quase deserto. No convés da primeira superabundavam espreguiçadeiras vazias. As pessoas que permaneciam a bordo resumiam-se à tripulação e pouco mais, dado que a maioria dos passageiros em trânsito saíra para terra, visitando a cidade e a ilha. Comecei, pois, a deambular, muito à vontade, para trás e para diante no convés da primeira, ora deitando-me nalguma espreguiçadeira ora assomando à amurada onde me entretinha a observar o Monte Brasil, a Memória, a Igreja da Misericórdia, o Canta-Galo, o Porto de Pipas, enfim, toda aquela maravilhosa cidade que eu apenas conhecia dos livros da escola primária, onde aprendera que tivera um papel preponderante nas lutas liberais, que D. Pedro IV, o Rei soldado, a apelidara de “Mui nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” e que guardava os restos mortais do irmão de Vasco da Gama, ali sepultado a quando do regresso a Portugal do descobridor do Caminho Marítimo para a Índia. Depois olhava a borda do navio e extasiava-me com aquele frenético vaivém de embarcações que ligavam o navio ao cais da Alfândega numa árdua e contínua lufa-lufa de transporte de pessoas, animais e mercadorias e que aqui eram bem maiores e mais numerosas do que as chatas das Flores, de S. Jorge ou da Graciosa.

De tarde o navio ainda parecia mais deserto e eu comecei a sentir uma fome tremenda. Desde o almoço que a Dona Hermínia me oferecera em São Jorge, no dia anterior, que não tinha comido rigorosamente mais nada. Eu tinha um vizinho nas Flores que era professor no Seminário e morava em Angra, com a mãe, a Dona Alcina. Quando ela ia de férias, para a sua casa da Fajã, paredes-meias com a casa onde eu morava, pedia-me muitas vezes para lhe fazer alguns recados. Retribuía-me sempre com uma fatia de pão de trigo com doce de pêssego. Se eu a fosse visitá-la de certo que se aperceberia da fome que eu tinha por andar há tantos dias a bordo e me ofereceria alguma comida. Mas não sabia onde morava e a cidade parecia-me muito grande. Além disso, se tivesse o azar de encontrar o senhor Aurélio, de certo que me desancava de alto a baixo. Optei, pois, por ficar a bordo. Bem vistas as coisas, indo a terra talvez gastasse nas viagens todo o dinheiro que me sobrava. Por isso decidi que seria preferível investi-lo no bar da segunda e ficar a bordo o dia inteiro. Comprei um pão com queijo, uma laranjada e um chocolate o que me serviu de alimento durante todo aquele longo e penoso dia.

À tardinha começou o embarque dos passageiros que, em grande número, viajavam da Terceira para S. Miguel, para Lisboa ou até para a Madeira. Havia também muito gente que de terra se deslocava a bordo para acompanhar os familiares, ou simplesmente para visitar o navio. Debrucei-me mais uma vez sobre a amarra do convés a observar toda aquela movimentação de gentes e de bagagens. Não é que entre os passageiros me aparece o Sweetling. Mal me viu veio ter comigo e, coincidência das coincidências, disse-me que também ia para o Seminário. Eu conhecia o Sweetling da Fajã, onde ainda viviam os seus avós e alguns tios. Ele morava no Corvo com os pais, embora se deslocasse à Fajã, de vez em quando. O pai era Cabo do Mar na mais pequenina ilha açoriana. Explicou-me porque embarcara em Angra. O pai já estava no Corvo há muitos anos e queria mudar-se para as Flores, onde agora havia uma vaga. Viera à Terceira meter a papelada a fim de pedir a transferência para Santa Cruz. Como tinha um amigo que era Cabo do Mar na Praia da Vitória, vieram todos passar um mês em casa do tal amigo. Os pais tinham partido para o Corvo, enquanto ele ficara na Praia, à espera do regresso do Carvalho, para agora seguir definitivamente para S. Miguel. Mas o Sweetling tinha uma sorte danada, pois viajava em condições muito superiores e melhores do que as minhas: o pai comprara-lhe passagem em segunda classe, tinha acomodação apesar da viagem demorar só uma noite e, a pedido directo do pai, viajava aos cuidados do Senhor Imediato. Invejei-o, não tanto pela protecção do Imediato mas pela acomodação e, sobretudo, pelo jantar que o esperava na segunda.

O Sweetling, para além dum nome esquisito, tinha um feitio danado. O avô, o velho Sweetling, chegara à Fajã havia muitos anos, vindo, não se sabia donde. Tinha olhos e traços asiáticos e fez constar pela freguesia que vinha das “Terras Canecas”, região do globo terrestre que nunca ninguém soube ao certo onde se situava, pese embora o homem afirmar que ficava nas ilhas Filipinas. Por ali ficou definitivamente. Casou, teve filhos e netos, mas assim como o velho Sweetling, nem uns nem outros eram alvo de grande estima ou consideração por parte dos pacatos habitantes da freguesia, que desconfiaram sempre daquele misterioso intruso. Como o fazia sempre que ia à Fajã, o Sweetling meteu-se comigo, gozou-me, chateou-me, aborreceu-me e pior do que isso, sem que eu o pudesse evitar, a dada altura, surripiou-me as chaves da mala e do baú que trazia comigo nos bolsos e, sem dó nem piedade, atirou-as para o mar.

Estarreci! Escondi-me para que me não visse chorar. Como ia ser ao chegar a S. Miguel, sem conhecer quem quer que fosse, com as malas fechadas e sem chave? Ao chegar ao Seminário na manhã seguinte, como poderia mudar de roupa e fazer a cama? Estava rigorosamente lixado. Passei o resto da noite entre choros e soluços, maldizendo a minha sorte, evitando o Sweetling, para não me atirar a ele de unhas e dentes, sem sequer arranjar sítio onde me sentar, quer no convés da primeira ou no da segunda quer em outro sítio qualquer, pois o navio estava a abarrotar com os passageiros oriundos da Terceira. Além disso estava previsto mau tempo para a noite que se aproximava, e o vento  forte já começava a agravar o estado do mar, que piorava a cada momento, provocando um balancear contínuo e exagerado do velho paquete. Pela primeira vez desde que saíra das Flores comecei a enjoar, a sentir tonturas, vómitos e enormes dificuldades em segurar-me em pé. O Carvalho navegava agora açulado pelo forte vento e com um ranger assustador dilacerava ondas enormes e altivas, provocando grandes balanços e sucessivos solavancos, que assustavam mulheres e crianças. Sentindo que ia vomitar e não tendo onde, desloquei-me para a terceira classe na tentativa de descobrir lugar onde me recostasse e onde, à socapa, me aliviasse. Entrei na sala de jantar estava repleta de crianças a chorar, de mulheres a gritar e de homens a gemer. Quase todos vomitavam e muitos outros estavam prestes a fazê-lo. A sala exalava um cheiro insuportável e o ar lá dentro era pestilento a ponto de sufocar. Saí cá para fora, para respirar o ar puro e fresco, acompanhado dos salpicos do mar. Mas sentia-me em piores condições do que quando entrei na sala. O mar piorava a cada momento o que agravava as condições de navegabilidade do navio que balouçava mais assustadoramente. À minha volta a maior parte dos passageiros vomitava. Eu não pude evitá-lo. Uma vasca terrificante e nauseativa apoderou-se de mim e o meu corpo, trémulo e inerte, estatelou-se no chão duro e molhado do convés. Ali fiquei por algum tempo. Salpicado com os respingos da água salgada que a proa do navio ao sulcar as ondas projectava no ar e que caíam em chuveiro sobre o convés e sobre mim, reanimei e tomei consciência da minha situação. Decidi aproximar-me mais da borda do navio e permanecer ali com o rosto exposto ao ar frio da noite e à água salgada. Assim sentia-me mais aliviado. Mas o meu corpo continuava inerte e sem forças. Um marinheiro viu-me e veio tirar-me dali, avisando que era perigoso, pois, na opinião dele, alguma vaga maior poderia molhar-me por completo ou até arrastar-me. Amparado pelo homem, sentei-me em cima de uns sacos molhados que por ali estavam mas onde continuava a ser bafejado pelo fresco da noite que me ia aliviando a náusea e a aflição. Deitado, de costas entretinha-me a contemplar os salpicos da água a projectarem-se sobre a proa do barco e a reflectirem-se nas luzes, formando pequenas bolinhas vermelhas, amarelas, verdes, azuis e violetas, como as do Arco-íris. Os barulhos das máquinas assemelhavam agora a um sussurrar longínquo, suave e doce. Carvalho seguia em grande velocidade, com os motores parados, parecia que voava. Um forte vento agitava-me, levantava-me e eu sentia que me atirava pela borda fora do navio. Em grande aflição, agarrava-me com ambas as mãos à amarra do convés, evitando cair no fundo mar. O Sweetling, numa risota exagerada e gozosa, calcava-me as mãos com os pés, obrigando-me a despegar da borda da amarra do convés e eu caía no abismo, estatelando-me no mar. De repente a Dona Hermínia conduzindo uma pequena chata semelhante à que viera atracar o Carvalho na Horta, corria a grande velocidade, na tentativa de me salvar. A muito custo agarrava-me e puxava-me para dentro da embarcação, encostava-me a ela, enxugava-me a roupa molhada e o corpo a pingar de água salgada e de espuma do mar e, num ápice, conduzia-me ao cais das Lajes das Flores, em cima do qual me colocava. Eu ficava sozinho, triste e macambúzio a acenar-lhe e a vê-la partir. Depois iniciava uma enorme correria pela vila, galgando-a de lés-a-lés, procurando ansiosamente meu pai, mas não via. Largava, então, sozinho, no escuro da noite pelo interior da ilha, até à ladeira da Boca da Baleia, no cimo do qual estava escondido, por trás de uma moita de hortênsias, o Isaac que, colocando-se à minha frente me apanhava de surpresa. Segurando-me pela gola do casaco, ameaçava-me:

- Ah! Seu grande mariola! Ias a fugir com medo dos padres.

Depois, pegando-me à força metia-me novamente no Carvalho, repleto de pessoas a vomitar, de crianças a chorar e de vacas a mugir conduzindo-me definitivamente para São Miguel. Um marinheiro de maleta a tiracolo, vinha cobrar-me o dinheiro do bilhete da viagem, mas eu não o tinha. Para me castigar por não ter dinheiro para o bilhete, o marinheiro atracava o navio numa ilha estranha e escura, iluminada apenas por uma ténue coluna de fogo, onde me deixava sozinho. De repente a ilha enchia-se de água e começavam a aparecer padres de todos os lados e entre os quais estava o Senhor Aurélio, de tesouras em punho, a repreender-me exasperadamente.

Acordei assustadíssimo com três estridentes apitos do Carvalho. Levantei-me sobressaltado. Já era dia claro. Olhei á direita e vi o mar. Olhei à esquerda e vi uma cidade enorme, coberta duma chuva miudinha.

Era Ponta Delgada e eu estava com a roupa toda encharcada.

Aproximei-me da borda do navio. A doca estava pejada de gente com guarda-chuvas abertos, de guindastes à espera de carga e de carga à espera de guindaste.

Ao redor apercebi-me de outras crianças da minha idade que teriam destino igual ao meu e apontavam lá para o fundo onde se via uma padre, ainda jovem, cabelo muito negro e ondulado, batina preta e coberta com uma gabardina azul, a proteger-se da chuva por um enorme guarda-chuva.

Saí do navio e segui os outros que se dirigiam na direcção do padre.

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VITÓRIAS E DERROTAS

Domingo, 16.02.14

"O que as vitórias têm de mau é que não são definitivas. O que as derrotas têm de bom é que também não são."

 José Saramago

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O CONCELHO DE PAREDES

Domingo, 16.02.14

O Concelho de Paredes situa-se na região do Vale do Sousa e é constituído por 24 freguesias, fazendo fronteiras, a norte com os concelhos de Lousada e Paços de Ferreira, a oeste com o de Valongo, a sul com o de Gondomar e a este com o de Penafiel.

Testemunhos arqueológicos demonstram que há mais de 5000 anos o homem escolheu o território do actual concelho de Paredes, para habitar. Sabe-se, hoje que a sedentarização de povos nesta zona perdurou ao longo dos séculos, sendo que, os povos que por aqui passaram ou aqui se fixaram e foram deixando inúmeros e variados vestígios da sua presença, muito deles ainda hoje guardados em museus ou representados nos falares, nos usos, nos costumes e nos utensílios das gentes que ainda hoje habitam os povoados e aldeias da região.

No caso dos Romanos, chegaram à Península Ibérica durante o século II a. C. e o seu interesse na expansão do Império e a busca de riqueza conduziram-nos às jazidas auríferas de Castromil e das Banjas (Sobreira), onde a intensiva exploração do ouro ficou visível nos numerosos poços, galerias e cortas, alguns deles, ainda hoje existentes

O actual Município de Paredes assenta no antigo Julgado de Aguiar de Sousa, com origem nos primórdios da nacionalidade, que se apresentava como um espaço político, judicial e administrativo independente, exercendo domínio sob um vasto território, composto por 48 freguesias. A partir dos finais do século XVI, porém, as funções de Aguiar de Sousa como cabeça de Julgado, transitam para o lugar das Paredes, situado na freguesia de Castelões de Cepeda, junto à estrada que ligava Porto – Vila Real, com Cadeia e Casa de Audiências.

Fruto da presença de importantes famílias nobres, desde a Idade Média, nas terras deste Julgado, entre as quais o mais importante foi Egas Moniz, aio do primeiro rei de Portugal, surge a fundação de quatro mosteiros e a formação dos respectivos Coutos, bem como a delimitação de Honras com inúmeros privilégios que lhe eram associados. Esta situação permitiu que, durante a crise liberal, com as reformas administrativas de Mouzinho da Silveira, Baltar, Louredo e Sobrosa ascendessem à categoria de concelho, sendo extintos alguns anos mais tarde e integrando-se no de Paredes, o qual foi criado, como consequência da reorganização administrativa de Passos Manuel. Este concelho, inicialmente, era constituído por 23 freguesias, sendo que, em 1855, foi criada a nova freguesia de Recarei, a partir de vários lugares da freguesia da Sobreira, passando a corresponder às 24 freguesias actuais.

O crescente desenvolvimento do concelho levou D. Maria II a conceder-lhe o alvará régio, que o elevava à categoria de Vila, em 1844. A dirigir os rumos do Concelho de Paredes surgiu uma figura ímpar na sua história, que ficou conhecida pelo epíteto de “Rei de Paredes”, José Guilherme Pacheco, que foi presidente da câmara de 1864-1871 e durante parte do ano de 1878. Na linha política de Fontes Pereira de Melo, o conselheiro José Guilherme, procurou promover o progresso de concelho, no campo das acessibilidades, transportes, comunicações e educação. Paredes prestou-lhe justa e devida homenagem, dando o seu nome ao mais importante largo da cidade, fronteiriço ao actual edifício da Câmara Municipal, colocando no centro do mesmo uma estátua.  

Ao longo dos tempos, as gentes de Paredes foram-se dedicando às artes do mobiliário que evoluíram de forma significativa ajustando-se, hoje, às novas tecnologias e métodos de fabrico de acordo com os gostos e exigências do “modus-vivendi”. O concelho ocupa lugar de destaque no que à produção de móveis em Portugal diz respeito.

O florescimento económico do concelho, deve-se, em grande parte, à disponibilidade de capitais, trazido pelos emigrantes dos brasileiros nos finais do século XIX e inicio do século XX, regressaram à região, contribuindo, assim, directa e indirectamente, para o desenvolvimento da indústria mobiliária, quer pelo investimento directo nalgumas fábricas, quer pelas encomendas de mobiliário feitas por esses brasileiros, quer ainda pelo mobiliário que trouxeram do Brasil e que inspirou os marceneiros locais. A relação tradição/modernidade desta da arte de trabalhar a madeira nas suas diferentes vertentes sustentam um produto turístico-cultural denominado “Rota dos Móveis”.

Como resultado de todo um processo de desenvolvimento, Paredes é elevado à categoria de cidade em 20 de Junho de 1991, reunindo todos os requisitos exigidos pela lei vigente. O excessivo crescimento demográfico e notável desenvolvimento económico do concelho, convergidos a diferentes freguesias, fizeram que em 2003, as freguesias de Baltar, Cête, Recarei, Sobreira e Vilela fossem elevadas a Vila e as freguesias de Gandra, Lordelo e Rebordosa fossem elevadas à categoria de Cidade.

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publicado por picodavigia2 às 17:40

O CÂNTICO DAS GANHOAS

Domingo, 16.02.14

Anoitece,

Lentamente…

 

Na curva tenebrosa de uma onda

a esvair-se por entre o granito negro das marés

cantam ganhoas,

imaginando que no brilho prateado das estrelas,

há reflexos de sinfonias perdidas.

Mas quando a maré se esvazia por completo,

o cais fica deserto,

porque todas as ganhoas partiram.

Agora, apenas as rochas negras cintilam

com o restolho inebriante da espuma

que escorre ressequida para o mar.

E quando a noite desaba, por completo,

cansada, meditabunda, vazia de desejos

há plenitude de escuridão no firmamento,

porque as ganhoas já não erguem os seus cânticos solenes

como se estivessem em adoração verdadeira.

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publicado por picodavigia2 às 16:22

IR AO MOINHO

Domingo, 16.02.14

Desde o início do seu povoamento que a agricultura, juntamente com a pecuária, é, desde longa data, um dos pilares fundamentais da economia das ilhas açorianas. Na Fajã Grande, como em toda a ilha das Flores.na primeira metade do século passado, cultivava-se sobretudo o milho.

A importância do milho na economia da freguesia acresce do facto de em tempos relativamente recentes, o milho ser frequentemente utilizado como moeda de troca e como meio de pagamento de serviços de vária ordem neste contexto, marcado por uma economia de subsistência Ao longo do ano, quando não havia farinha ou quando a existente estava prestes a chegar ao fim era necessário tirar uma parte do milho que estava guardado nos estaleiros, de maneira a encher uma moenda que seria levada ao moinho. Para tal era necessário tirar do estaleiro uma certa quantidade de milho, o qual, antecipadamente devia ser descascado, caso se tratasse de cambulhões. A retirada destes do estaleiro deveria ser sempre inversa à da sua colocação, de forma a não prejudicar o que lá ficava e apenas na quantidade necessária para encher a respectiva moenda, que de imediato seria levada ao moinho.

Na Fajã Grande havia quatro moinhos todos na Ribeira das Casas, dois pertencentes a tio Manuel Luís, um ao Manuel Dawling e o Moinho do Engenho, que teve vários proprietários, acabando, mais tarde, por ser abandonado. A Ponta tinha os seus moinhos e as pessoas da Cuada iam moer o seu milho à Fajãzinha, por lhes ficar mais perto. Competia a cada agricultor ou a um membro da sua família levar a sua própria moenda ao moinho, tarefa geralmente atribuída às raparigas, as quais aproveitavam a ida para por em dia a conversa com os namorados. Na ocasião em que se entregava a moenda era combinado com o moleiro o dia em que estaria pronta. Ao moleiro competia apenas moer o milho, pagando-se ele próprio do seu trabalho através de uma “maquia” de farinha que retirava de cada uma das moendas. Como geralmente não a utilizava para uso pessoal, dado que ele próprio também tinha as suas terras de milho, vendia-a compensando assim todo o trabalho que tinha e as horas que passava no moinho, onde geralmente pernoitava, pois a substituição de cada moenda era manual.

Os moinhos na Fajã Grande, como aliás em toda a ilha das Flores eram movidos a água, por isso eram construídos junto das ribeiras donde se desviava a água para um rego ou levada, que corria na direcção do moinho. A água encanada no respectivo rego corria no mesmo com maior pressão, saía do rego e projectava-se contra uma enorme roda dentada cujo movimento comunicava a toda a restante engrenagem que acabava por movimentar a mó. Na Fajã Grande os moinhos ficavam situados junto da Ribeira das Casas e deles, actualmente, apenas restam ruínas.

Os moinhos eram construídos em locais de rara beleza, embora tendo o inconveniente do relativo isolamento e da distância face aos núcleos populacionais. Além disso os caminhos de acesso, ao longo da Ribeira das Casas eram íngremes e sinuosos e a moenda tinha que ser carregada às costas ou cabeça. Escolher o moinho a que se devia ir dependia de um conjunto de factores, entre os quais a distância a percorrer e os meios de acesso, as relações de amizade e de parentesco que se tinham com os moleiros, o montante das maquias, a qualidade do serviço, a disponibilidade do moleiro e o atendimento. Mas na Fajã Grande, os moinhos mais procurados eram os do Tio Manuel Luís, que tratava muito bem a sua clientela que era sempre atendida educadamente e muito bem servida.

As pessoas, em tempos de menor procura, esperavam até que a farinha estivesse feita ou regressavam a casa e voltavam ao moinho no dia seguinte ou no dia indicado pelo moleiro. Na Fajã Grande ia.se ao moinho com muita frequência, pelo que os moinhos eram espaços de convívio social de eleição. Por vezes eram autênticas romarias, uns a ir outros a vir, parando e descansando aqui e além. Os moinhos eram importantes locais de convergência, sendo usual o facto de neles ou nas suas imediações se encontrar sempre não apenas que ia ao moinho mas as lavadeiras da Ribeira das Casas, as pessoas que iam ou vinham da Ponta e ainda os que iam trabalhar para as terras ao redor dos próprios moinhos.

Ir ao moinho era fundamental na vida da Fajã Grande. O milho era levado ao moinho em sacas de pano que vinham da América. Competia a cada agricultor ou a um membro da sua família levar a sua própria moenda ao moinho, tarefa geralmente atribuída às raparigas, as quais aproveitavam a ida para por em dia a conversa com os namorados. Na ocasião em que se entregava a moenda era combinado com o moleiro o dia em que estaria pronta.

Ao moleiro competia apenas moer o milho, pagando-se ele próprio do seu trabalho através de uma “maquia” de farinha que retirava de cada uma das moendas. Como geralmente não a utilizava para uso pessoal, dado que ele próprio também tinha as suas terras de milho, vendia-a compensando assim todo o trabalho que tinha e as horas que passava no moinho, onde geralmente pernoitava, pois a substituição de cada moenda era manual.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:42

TORRENCIAL

Domingo, 16.02.14

MENU 28 – “TORRENCIAL”

 

 

 ENTRADA

 

Salada de alface, morango, queijo fresco e nozes com molho vinagrete,

acamada em bolachas cream-caker.

 

PRATO

 

Lombo de porco grelhado e borrifado com mel. Arroz de ervilhas de quebrar

 e mortadela de peru recheada

 com queijo de creme fresco e ervas aromáticas

 

SOBREMESA

 

Morangos ao natural e gelatina de ananás.

 

 

******

 

Preparação da Entrada: Lavar e cortar a alface aos pedacinhos, lavar e laminar os morangos às fatias finas, juntar os pedacinhos de queijo fresco e as nozes. Cobrir com molho vinagrete. Para o molho vinagrete juntar 3 colheres de sobremesa de azeite a uma de sumo de limão e outra de mel. Juntar um pouco de sal e bater muito bem. Misturar na salada. Empratar a salada sobre as bolachas cream-caker.

 

Preparação do Prato – Para o arroz, refogar cebola e alho em azeite e juntar as ervilhas e, algum tempo depois o arroz. Acrescentar a água necessária e deixar cozer. Temperar o bife de lombo e grelhá-lo, barrando-o em quente com um pouco de mel. Rechear a mortadela com o queijo e empratar.

 

Preparação da Sobremesa - Confecção tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:24

DOM JOSÉ VIEIRA ALVERNAZ

Domingo, 16.02.14

O livro de Maria Guiomar Lima “José Vieira Alvernaz” foi publicado pelo IAC e apresentado durante a sessão de encerramento da Semana Cultural e Recreativa da Ribeirinha  do Pico, cabendo a apresentação do mesmo a Emílio Porto. Trata-se de uma obra de grande rigor histórico e de agradável leitura onde se rela a vida de uma das mais altas e destacadas figuras da Igreja Açoriana, D. José Vieira Alvernaz (5-2-1898/13-3-1986). O Patriarca Alvernaz, como também é conhecido, nasceu na Ribeirinha do Pico, (na altura um lugar da Piedade) estudou no liceu de Angra e no Seminário Episcopal, formou-se na Universidade Gregoriana em Roma e no Instituto de Ciências Sociais de Bergamo. Foi fundador do Colégio Sena Freitas em Ponta Delgada, pároco em Santa Luzia e na Praia da Vitória, professor e mais tarde reitor do Seminário de Angra. Dirigiu o boletim da diocese, colaborou assiduamente nos jornais A União e A Pátria, sendo uma figura de destaque na vida social angrense nos anos 1930/40. Nomeado bispo de Cochim em 1941 e mais tarde arcebispo de Goa e Damão, Patriarca das Índias, Primaz do Oriente, foi o último prelado português a ocupar estes cargos. Manteve-se na Índia até Setembro de 1962 mas, para facilitar a nomeação de um bispo goês, deixou Pangim. Voltou aos Açores no início do ano seguinte e viveu em Santa Luzia de uma forma modesta, retirada mas muito próxima da população. Manteve os seus títulos de arcebispo e Patriarca das Índias até à assinatura do Tratado de 31 de Dezembro de 1974 entre Portugal e a União Indiana.

O livro agora publicado é tanto mais interessante, completo e rigoroso, porquanto Maria Guiomar Lima, Licenciada em Psicologia e Ciências da Educação, com larga experiência em jornalismo e investigação histórica e biográfica, também natural da Ribeirinha, viveu em Angra entre 1959 e 1972, conheceu e privou com o D. José durante largos anos.

A obra está divida em seis partes. Na primeira retracta-se a infância e a vida de D. José como aluno em Angra, enquanto na segunda, nos é apresentada a sua vida de estudante em Roma e em Bérgamo. Na terceira parte é-nos apresentado o Dr Alvernaz como professor e Reitor do Seminário, na Angra dos anos trinta, enquanto nas seguintes se descreve a atribulada vida do Bispo, Arcebispo e Patriarca por Cochim, Malabar, Goa e outras paragens da Índia. Finalmente o livro termina com o regresso de D. José aos Açores, descrevendo a sua vida simples e humilde, entre 1963-1968, na sua casa de Santa Luzia, onde, inclusivamente, dava explicações gratuitas aos alunos mais pobres do liceu.

D. José Vieira Alvernaz, a veneranda figura da Igreja missionária, bispo de Cochim, arcebispo de Goa e Damão, Patriarca das índias Orientais, estudou no Seminário de Angra, onde se matriculou em 2 de Novembro de 1909, distinguindo-se como um aluno brilhante. Quando o Seminário encerrou, em 1911, a quando da proclamação da República, continuou os seus estudos no liceu de Angra do Heroísmo. Terminou o Curso de Teologia e ordenou-se presbítero em 1920, seguindo para Roma a fim de frequentar o Pontifício Colégio Português, vindo a doutorar-se na Universidade Gregoriana em filosofia e direito canónico. Matriculou-se, também, no Instituto Católico de Ciências Sociais, de Bérgamo, doutoramento em Ciências Sociais, naquela cidade italiana. Regressado às ilhas dos Açores, paroquiou em Santa Luzia de Angra, por nomeação do então prelado diocesano D. António Augusto de Castro Meireles, foi director do Colégio de Sena Freitas, em Ponta Delgada, onde foi "grande e profícua a sua acção, durante os quatro anos" em que esteve à frente daquele colégio. "Ainda hoje, afirma o Boletim Eclesiástico dos Açores, falam os antigos alunos do colégio, com saudade e reconhecimento, da dedicação, do espírito de sacrifício, dos conselhos acertados do sr. dr. Alvernaz”. No ano de 1930 o bispo D. Guilherme Augusto nomeou-o pároco de Santa Cruz da então vila da Praia da Vitória, onde a sua obra foi "marcada por uma luz brilhante", ali também exercendo as funções da provedoria da Santa Casa da Misericórdia, tendo-se empenhado pela reedificação da igreja de Santo Cristo, que o fogo destruíra. Colaborou activamente na imprensa terceirense, por vezes, com temas polémicos, sendo considerado uma das maiores figuras do jornalismo moderno açoriano. Professor do seminário de Angra, em 1937 foi nomeado reitor deste estabelecimento de ensino. Foi também dirigente da Acção Católica, fazendo conferências e palestras, reuniões e retiros espirituais, orientando reuniões de militantes e de massa, visitando as secções. Foi capelão e director dos serviços sociais da Legião Portuguesa, sendo ampla a sua acção na defesa dos princípios religiosos e morais. Quando falava fazia-o dando exemplo enquanto que, com a palavra "convencia e apontava o caminho da perfeição a seguir. A sua vida foi para os seminaristas o maior incentivo ao cumprimento do dever e à consecução do bem".

D. José Vieira Alvernaz, foi um espírito culto e muito viajado. A 13 de Agosto de 1941 Pio XII fê-lo bispo de Cochim, havendo decorrido em Lisboa as cerimónias da sua sagração a 1 de Dezembro desse ano, na Basílica dos Mártires, sob a presidência do bispo de Angra D. Guilherme Augusto da Cunha Guimarães, assistido por D. Abílio Augusto Vaz das Neves, bispo de Bragança e Miranda, e D. Manuel Ferreira da Silva, bispo titular de Gurza e superior das Missões Ultramarinas.

Passados dois meses, a 18 de Fevereiro de 1942, D. José chegava à Índia. na companhia do seu secretário Pe. José Joaquim Neves, até então prefeito do seminário de Angra. O bispo de Goa usava a denominação de Arcebispo de Goa e Damão, Primaz do Oriente, Patriarca das Índias Orientais, Arcebispo "ad honorem" de Granganor. Com a independência da Índia extinguiu-se o Padroado Português no Oriente, deixando o governo de Portugal de fazer a apresentação de prelados às dioceses que até ali estiveram subordinadas ao Padroado, entre elas a de Cochim, cujo sólio era nessa altura ocupado por D. José Vieira Alvernaz, que, mercê do destino foi o último prelado português de Cochim.

Como resultado destas ocorrências a Santa Sé nomeou D. José coadjutor com direito a sucessão do arcebispado de Goa e Damão iure successionis. Patriarca das Índias Orientais a 23 de Dezembro de 1950 e arcebispo titular de Anasartha, cuja posse efectivaria em 7 de Abril de 1951. Sucedeu na Sé de Goa quando da renúncia (1953) de D. José da Costa Nunes, outro emérito açoriano a quem viria a ser dado o chapéu cardinalício.

Devido à ocupação de Goa pela União Indiana, D. José Alvernaz viu-se compelido a deixar o território da sua jurisdição, passando aquela arquidiocese a ser governada sede plena a partir de 1966 por um administrador apostólico. No ano de 1946 D. José foi de visita aos Estados Unidos, viagem algo conturbada, porquanto o navio naufragaria nas proximidades do Canal do Suez. Mas ao chegar ao generoso solo americano este bispo missionário foi alvo das maiores homenagens e simpatias, não só por parte da gente portuguesa, mas, viu-se distinguido por personalidades importantes do próprio país. Depois dos acontecimentos políticos na Índia portuguesa, Dom José voltou ao seu recanto açoriano, fixando residência na freguesia de Santa Luzia, retomando os hábitos da vida simples açoriana. E a sua figura missionária de longas barbas alvas é tanto singular a presidir cerimoniais litúrgicos, como em sociedade, ou, quando, recolhidamente, ia às "Mónicas" celebrar a sua missa. Os seus conterrâneos picoenses, nomeadamente os que, como ele, nasceram e viveram na Ribeirinha do Pico, não esqueceram o bispo de Cochin erigindo-lhe um busto de bronze. Os terceirenses também não foram avaros com este prelado cuja veneranda presença lhes é grata, tendo o município angrense, que já o tinha declarado Cidadão Honorário da Cidade de Angra, associando-se ao jubiloso acontecimento das suas Bodas de Ouro sacerdotais para, mais uma vez, prestar homenagem. Faleceu no dia 13 de Março de 1986, na sua residência da Ladeira de Santa Luzia, na cidade de Angra, sendo o seu corpo trasladado, mais tarde, para o seminário, onde ficou em câmara ardente. O féretro passou, na manhã seguinte, à Sé Catedral, onde se realizaram solenes exéquias presididas por D. Aurélio, bispo diocesano, indo o seu corpo a sepultar no cemitério de Nossa Senhora da Conceição, em campa de família. D. José era filho de José Vieira Alvemaz e de D. Perpétua Mariana, e irmão de Monsenhor Manuel Vieira Alvernaz, que foi pároco da igreja do Sagrado Coração em Turlock, na Califómia, Estados Unidos da América do Norte.

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publicado por picodavigia2 às 10:28

FRANCISCO DO CANTO E CASTRO

Sábado, 15.02.14

O poeta Francisco do Canto e Castro nasceu em Angra do Heroísmo, em 13 de Novembro de 1903 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1988. Funcionário de Finanças, em Angra e na Horta, emigrando em 1947 para a Califórnia, terra de sua primeira mulher, Josefina Amarante do Canto e Castro. Viveu na cidade de S. José, onde manteve um programa de rádio e em 1960 fixou-se no Rio de Janeiro onde continuou a actividade cultural, colaborando nos jornais e proferindo conferências. Muita da sua poesia encontra-se dispersa por jornais e revistas, nomeadamente no Boletim do Núcleo Cultural da Horta e na Atlântida, do Instituto Açoriano de Cultura.

Das suas obras destaca-se: De olhos postos no Teatro de Guerra, Alma açoriana e O imigrante português nas américas, mas muita da sua poesia encontra-se dispersa por jornais e revistas, nomeadamente no Boletim do Núcleo Cultural da Horta e na Atlântida, do Instituto Açoriano de Cultura.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 19:29

NOME FAGUNDES

Sábado, 15.02.14

Nas duas últimas décadas do século passado, andava eu na casa dos quarente – cinquenta, eram muito comuns e frequentes as acções de formação para professores, umas organizadas pelos organismos regionais dependentes do Ministério da Educação, outras, simplesmente, propostas e oferecidas por entidades ou instituições privadas. Nas escolas, uma procura desusada às mesmas, uma vez que a sua participação, para além de um direito estabelecido no estatuto da carreira docente, enriquecia o currículo e garantia créditos, muitos deles necessários à progressão na carreira e, além disso, geralmente, consubstanciava um dia de alívio da actividade docente e ocasião inequívoca para um convívio mais alegre e folgazão. À noite, na televisão, desfilavam telenovelas brasileiras, muitas delas tendo como protagonista o prestigiado actor António Fagundes.

A participação nessas acções, muitas vezes era de opção livre, mas para outras éramos convidados, por vezes até obrigados a frequentá-las, porquanto, exercendo cargos de chefia nas escolas, devíamos informar-nos sobre temas de interesse didáctico e pedagógico, a fim de, mais tarde, os partilhar com os colegas de grupo na escola a que pertencíamos. Bons e santos tempos, estes.

Certa vez, numa altura em que era responsável pelo Departamento de Língua Portuguesa da escola onde leccionava, intimaram-me a participar numa dessas acções, organizada por um organismo do Ministério, na região onde a escola se situava. E tive que ir.

Logo no primeiro dia de actividades, no encontro inicial, atendendo a que os professores participantes eram oriundos de escolas diferentes e que a maioria não se conhecia, as duas formadoras propuseram que cada um se apresentasse, mas de forma diferente do habitual, através da estória do seu nome.

De rompante, começaram a chover estórias interessantíssimas, umas simples, outras comoventes e uma ou outra, até um pouco dramática. Apareceu de tudo: um nome herdado da avó, uma opção da madrinha, uma irmã mais velha falecida, um avoengo do século passado, a devoção especial a um santo, um milagre de Fátima, a padroeira da freguesia, um simples acaso, etc., etc.. Todas elas estórias muito interessantes e comoventes. relatadas com entusiasmo e, sobretudo, com uma desusada mas bravata ostentação.

Chegou a minha vez. Eu estava numa extremidade da sala e fui o último. Então contei:

- Eu chamo-me Fagundes porque, quando estava grávida de mim, a minha mãe via muitas telenovelas, em que o actor principal era o António Fagundes, por quem a minha mãe tinha um enorme fascínio e de quem gostava muito. Era o seu actor preferido. Quando nasci, em homenagem a ele, pôs-me o nome: “Fagundes”.

Foi uma risota geral. Mas não é que uma professora, na sua ingenuidade pura e cândida, se volta para mim, muito admirada, indagando:

- Ui! Nesse tempo já havia telenovelas?

A risada ainda foi maior.

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publicado por picodavigia2 às 12:27

UM COMPANHEIRO

Sábado, 15.02.14

Logo após a minha chegada a Ponta Delgada, a bordo Carvalho, saindo da Doca e atravessando o Largo de São Francisco, seguia em frente, numa rua de prédios antigos e altos, que me faziam lembrar a rua Direita, em ponto grande. De seguida voltei à esquerda, depois à direita, passei junto ao liceu e, finalmente, cheguei ao jardim Antero de Quental, no cimo do qual ficava o Seminário. Eu seguia só, acabrunhado e triste, pelas ruas de Ponta Delgada cheias de lojas, repletas de carros e apinhadas de gente, a caminho do Seminário. Lamentava o meu infortúnio e indignava-me com o meu destino. Sentia-me só, não conhecia ninguém e, no meu íntimo, desejava, imediatamente, voltar para Flores, donde nunca devia ter saído. Aumentavam, galopantes, as saudades de meu pai, de meus irmãos, da minha casa, da minha avó e até da minha ovelha, Além disso, preocupava-me de sobremaneira e entristecia-me, sobretudo ao pensar que não tinha as chaves, nem sabia como havia de abrir as minhas malas. Mas não podia continuar assim. O Carvalho partiria, dentro em breve, mas para Lisboa, bloqueando-me, por um mês, o regresso às Flores, donde eu agora estava muito longe. Por isso, continuava, só triste e macambúzio, enquanto os outos conversavam, brincavam e tentavam divertir-se. Pensei, então, que não poderia continuar assim. Tinha, necessariamente, que me juntar a eles, meter conversa com alguém.

Foi ainda, no largo de São Francisco que o fiz. Enquanto parámos a observar o Castelo de São Brás, a igreja do Convento de Santo Cristo, a de São José e o Hospital, dirigi-me a um dos que me acompanhavam na demanda do Seminário pela primeira vez e que como eu viajara no Carvalho, desde o Faial, donde era natural. Ouvira-o na doca, quando o padre Agostinho lhe perguntara de onde era, responder que era do Faial, da Praia do Norte, freguesia onde outrora fora pároco o meu primo padre António Cardoso, agora colocado na Feteira. Foi um óptimo pretexto para meter conversa com ele, até porque pensava que algo mais nos unia, pois as nossas ilhas pertenciam ao mesmo distrito, o Faial, depois do Corvo era a ilha mais próxima das Flores e ambas estavam bastante afastadas de São Miguel, onde agora fôramos despejados e ambos nos encontrávamos bem longe de casa, quase perdidos.

Estranhamente nem eu, nem o Manuel Faria de Castro - assim se chamava o meu novo e primeiro interlocutor – nos lembrávamos ou sequer tínhamos uma vaga memória de nos termos cruzado a bordo do Carvalho Araújo. O navio era muito grande, transportava muita gente e nem sequer trajávamos de fato preto como os do segundo ano. 

Como eu, o Manuel Faria também espelhava no rosto um misto de tristeza, de estranheza, de mágoa e de angústia, não tanto por estar em São Miguel, longe de casa e da família, mas pelas consequências da crise sísmica, verificada no ano anterior. A Praia do Norte fora a freguesia faialense mais atingida pelo vulcão dos Capelinhos e a família dele, uma das mais prejudicadas. Os pais e os irmãos haviam ficado sem casa, sem campos, sem gado, sem trabalho, sem nada. Muito possivelmente seriam forçados a emigrar para a América ou para a África. De olhos rasos de lágrimas, lado a lado comigo, a caminho da Gaspar Frutuoso, contava-me as cenas horrorosas que durante dias e meses havia vivido, juntamente com os pais e irmãos, durante aquela catastrófica crise sísmica. Foi esta troca recíproca de mágoas e tristezas, este comungar de dissabores e angústias que nos havia de unir e tornar grandes amigos durante os primeiros anos.

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publicado por picodavigia2 às 08:57

A VILA DAS VELAS

Sexta-feira, 14.02.14

Guilherme de Morais descreveu a vila das Velas, o maior agregado populacional da ilha de São Jorge, assim: “um aglomerado de casas muito brancas subindo a encosta íngreme em jeito de pessoa cansada que parou a meio da viagem, deixando correr os olhos pelo horizonte sem fim.” Por sua vez alguns panfletos turísticos definem-na desta forma: visão peregrina e aliciante, açapada no sopé de forte morro. Vila gaiata e alegre, aconchega sobre si monumentos vistosos...”

A vila das Velas fica do lado Sul da ilha de São Jorge, no fundo de uma fajã, resultante de um escorrimento de lava proveniente das montanhas que lhe ficam a norte. Enclausurada entre a montanha e o mar, a vila das Velas torna-se bastante abrigada, resistindo às intempéries e aos ventos fortes. Esta sua posição geográfica privilegiada, terá sido, incontestavelmente, o principal motor da sua evolução e do seu crescimento. Esta vila, situada geograficamente mais ou menos a meio da ilha, possui uma posição estratégica tal que a torna ponto de intercâmbio de pessoas e bens entre as ilhas do grupo central, justamente por se encontrar no centro das mesmas. Esta posição e as condições do seu porto, também lhe permitiam que outrora fosse o porto eleito para escala dos navios das carreiras regulares entre Lisboa e as ilhas, nomeadamente, do Carvalho Araújo e, actualmente, do Santirini.

As Velas é uma vila fascinante. O seu fascínio estampa-se de modo particular na sua arquitectura e na sua posição geográfica. Além das suas igrejas, destaque para o jardim situado no centro da vila, dotado de um característico coreto e que é ponto de encontro ou de passagem obrigatória dos jovens nas quentes noites de Verão. A Igreja Matriz dedicada a São Jorge, levantada no local onde dantes existia uma primitiva igreja, também dedicada a São Jorge foi construída no seculo XVII, sendo sagrada em 1675, pelo então bispo de Angra, D. Lourenço de Castro. No entanto, sabe-se que a actual fachada já não é a primitiva. O seu interior e composto por três naves e possui, na capela-mor um retábulo que se cuida ter sido oferta de El-rei D. Sebastião. Vários vitrais contemporâneos representam a lenda de São Jorge a matar o dragão. Anexo à igreja encontra-se o Museu de Arte Sacra de São Jorge, que possui uma interessante colecção de imagens sacras, uma pintura em vidro representando São Jorge, e valiosas alfaias litúrgicas, assim como algumas esculturas, cerâmicas, móveis, fotografias e um importante arquivo histórico. Outro templo importante é a igreja de Nossa Senhora da Conceição, templo que pertenceu ao antigo Convento de São Francisco. Trata-se de uma construção do século XVII. Apresenta-se com corpo único dotado de galilé e cornijas elaboradas em lava de negra. A nave está enriquecida com talha dourada e o altar-mor é de estilo barroco.

Sob o ponto de vista paisagístico, um dos percursos mais admirados nesta região é aquele que parte das Velas na direcção direito da baía de Entre Morros, passando pelo Parque Florestal das Sete Fontes, até à Ponta dos Rosais, à Fajã da Ponta Ferrada e à Urzelina. Aos verdes matizados e frescos das pastagens, juntam-se as manchas azuis das hortênsias, os maciços de fetos, os jarros e as beladonas que cobrem as encostas. Pelo Sul, num percurso paralelo ao canal, avista-se sempre ao fundo a ilha do Pico, com o seu magnífico cone quase sempre rodeado de uma coroa de nuvens. Sucedem-se panoramas sempre diferentes, passando pelas fajãs dos Lourais, de Vimes e de São João. Na vila da Calheta, construída paralela ao mar, existe um conjunto de piscinas naturais talhadas nas rochas negras que fazem as delícias dos banhistas. O Topo, primeiro ponto de desembarque dos descobridores, é hoje uma pequena vila com um pitoresco porto de pesca e, naturalmente, um farol vermelho e branco, com um enorme ilhéu, em frente

Considerada, juntamente com as Flores, uma das ilhas mais verdes dos Açores, S. Jorge está povoada, aqui e além, de castanheiros, faias, pinheiros, eucaliptos e acácias, que se misturam com os vestígios da floresta laurissilva existente antes do povoamento. O cedro e a urze são relíquias da vegetação existente no Sul da Europa e no Norte de África há mais de 15 milhões de anos.

As fajãs resultam dos desprendimentos de terra da falésia, que se estendem até ao mar e são transformadas pelo homem em férteis campos de cultivo

Gaspar Frutuoso, o mais antigo cronista açoriano, descreveu a ilha de S. Jorge no seu livro «Saudades da Terra» observando a existência de «muito gado vacum, ovelhum e cabrum, do leite do qual se fazem muitos queijos em todo o ano, o que dizem ser os melhores de todas as ilhas dos Açores, por causa dos pastos», abundantes nas zonas de média e elevada altitude.

Quem sair da Vila das Velas e for até a costa do morro da Ponta das Eiras, fim da pequena planície onde assenta a vila, descobre uma paisagem fascinante e pode deliciar-se com a Natureza que se abre sobre o miradouro da vila. Se subir ao morro a paisagem é quase de cortar a respiração. Não só pelo precipício que do morro se abre a nossos pés mas pela vista das Velas e de grande parte da costa. Nos arredores das Velas existem, varias fajãs como é o caso da fajã da Queimada, com miradouro debruçado sobre o aglomerado de tipo citadino que é hoje a vila. Famosa também por ter sido palco de uma erupção vulcânica recente.

Sabe-se hoje que a vila das Velas foi outrora fortificada sendo a sua costa defendida por muralhas fechadas por portões, restando, actualmente, apenas o portão do cais. O porto das Velas, situado numa baía abrigada, funda e espaçosa, é um dos melhores e mais abrigados portos dos Açores.

 

NB – Dados retirados de alguns sites da Internet.

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publicado por picodavigia2 às 16:12

NA DOCA

Sexta-feira, 14.02.14

A cidade de Ponta Delgada, naquela manhã, despertara cinzenta, enevoada e banhada por uma chuva persistente, irritante e miudinha. A estender-se sobre uma enorme e longa planície, a maior urbe açoriana como que se escondia de quem ali chegava, de barco, vindo das outras ilhas, ocultando as suas igrejas, os seus palácios, os seus monumentos, os seus jardins e até grande parte do seu casario, não apenas por entre as brumas e nevoeiros matinais, mas também por de trás dos altíssimos e esbranquiçados prédios da Avenida Marginal. Esta estendia-se e prolongava-se, paralela à baía, desde do Castelo de São Brás até à igreja de S. Pedro, permitindo, no entanto, concluir-se que, a partir daí, a ilha do Arcanjo, que eu demandava pela primeira vez, continuava muito para além, ultrapassando a Lagoa e Vila Franca, através de um verde desbotado, entontecido pelo enevoado das brumas matinais. Um espectáculo grandioso, magnífico, e arrebatador, muito diferente do que observara, quer quando chegara à Horta, quer quando permanecera fora de Angra, um dia inteiro, mas do qual eu, aos poucos, me ia alheando, mais preocupado com a inexaurível angústia que sentia e a enigmática situação em que me encontrava.

Depressa o padre que ali estava à espera dos que demandavam o Seminário agregou ao seu redor um enorme punhado de crianças, acabadas de sair do vetusto paquete atracado à doca. Uns, trajando fato preto e gravata, mais expeditos, mais lestos, mais afoitos, mais conhecedores do pequeno mundo onde agora eram despejados, abraçavam em eflúvios de satisfação e alegria recíproca aquele homem de batina preta e gabardina azul, elegante, aprumado e sorridente, que espelhava no rosto e, sobretudo, nas atitudes uma alegria contagiante e atraente. Eram os do segundo ano, que regressavam de férias, do Pico, de São Jorge e da Terceira, Outros, entre os quais eu me incluía, mais tímidos, mais angustiados, mais temerosas, esperavam, apreensivos, a sua vez de também cumprimentarem aquele que, cuidavam, seria um dos professores que os acompanharia no Seminário, durante os próximos dois anos.

Quando chegou a minha vez de cumprimentar o padre e me apresentar, aproximei-me, tímido e assustado, tentando, beijar-lhe a mão, conforme as indicações que recebera da Dona Maria, a irmã do Senhor Padre Pimentel, quando, ainda na Fajã, na véspera de embarcar, me fora despedir. Indicara-me a casta e douta senhora que, quando chegasse ao Seminário, sempre que me aproximasse dos Superiores ou de outro senhor padre qualquer para os cumprimentar, lhes havia de beijar a mão direita. O sacerdote, no entanto, sem que eu o pudesse evitar, fez um intencional esforço por manter o braço baixo, permitindo, assim que eu apenas o cumprimentasse e não lhe osculasse a mão. Além disso, mantendo a minha mão presa pela sua, por alguns segundos, perguntou-me:

- E tu? Como te chamas e donde és?

Indiquei-lhe o meu nome, acrescentando que era das Flores, da Fajã Grande das Flores. Logo, num micaelense sibilante e adocicado, exclamou, com um misto de alegria, como que se tentasse desmoronar a tristeza que me extravasava do rosto e a mágoa que me acabrunhava o espírito:

- Ah! Tu é que és das “Felores”! Estás todo molhado, meu filho! Precisas de mudar de roupa, depressa.

Por instantes animei-me e contive, parcialmente, o meu sofrimento e a minha angústia, com as palavras ternurentas e amigas do padre. Afinal, sendo ele um Superior do Seminário, estava muito bem informado, pois até já sabia que vinha um candidato das Flores e preocupava-se comigo, por eu estar molhado. Além disso o padre, que nessa altura revelara, a um outro mais curioso do que eu, o seu nome – Agostinho Tavares – voltou a chamar-me:

- Vai, depressa, dizer àqueles senhores quais são as tuas malas. Vamos tentar despachá-las o mais cedo possível, para que mudes de roupa quanto antes.

Eu, cada vez mais animado com a atenção que o padre me dispensava, retorqui, dizendo-lhe que não podia abrir as malas, pois havia perdido as chaves. Mas o padre, a ter que a atender a tudo e a todos, já não me ouviu.

Não demorou muito, aquele aglutinado espontâneo. Pouco depois de o padre Agostinho Tavares, se certificar de que não havia mais nenhum candidato a seminarista a bordo do Carvalho, juntou todos os que ali estavam ao seu redor, informou-nos de que os empregados haviam de tratar da bagagem mais pesada e transportá-la até ao Seminário.

De seguida partimos, em rancho, na direcção daquela que seria a nossa casa durante dois anos.

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publicado por picodavigia2 às 11:46

A LADEIRA DA ASSOMADA

Sexta-feira, 14.02.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, existiam dois lugares com o nome de “Ladeira”, sendo que ambos estavam situados em encostas. Um, abrangia toda a encosta do planalto do Mimoio, sobranceiro ao lugar e à rua da Tronqueira e era conhecido simplesmente pela Ladeira. O outro ocupava toda a verdejante e bem extensa encosta do Outeiro e Outeiro Grande, desde da Cruz até ao Covão e sobrepunha-se à rua da Assomada, em quase toda a sua extensão, desde a Praça ao Vale da Vaca. Para distinguir estes dois topónimos, o segundo era designado por Ladeira da Assomada.

A Ladeira da Assomada era uma enorme encosta, encastoada no Outeiro e sobranceira à Assomada. A zona mais baixa e próxima das habitações era ocupada por terrenos agrícolas de pequena extensão, nalguns casos belgas, sobrepostas umas às outras e, noutros casos, pequenas courelas, anexas às próprias habitações. A sua pequena extensão e a fraca qualidade do terreno, já um pouco encastoado no Outeiro, faziam com que ali apenas se cultivassem algumas hortaliças e um outro pé de milho. Mas o maior aproveitamento de quase todas estas pequenas terras era para o cultivo da batata-doce.

A estas pequenas belgas e courelas seguia-se um espaço de relvas. Mas eram, também, tão pequenas e tão pouco produtivas que nunca se destinaram a pastagens de bovinos. Muitas delas serviam de estendais de roupa enquanto noutras eram amarradas ovelhas. Algumas, ladeadas por densos canaviais, serviam mesmo de currais para as galinhas.

Finalmente, na parte superior da encosta, também ela pouco fértil e povoada por enormes pedregulhos, alguns deles muito salientes e a ameaçar derrocadas, havia uma zona arborizada. No entanto tratava-se de pequenos arbustos como a queiró, o sanguinho, pau-branco, faia, vinhático, espadanas e um ou outro loureiro. Espalhadas por entres estes arbustos e a destacarem-se pelo seu tamanho uma ou outra “babosa”, entre as quais tinham lugar de relevo duas gigantes, conhecidas pelas babosas do Farnande, dado que se situavam numa propriedade pertencente aos filhos de Ti Manuel Rosa, um dos quais se chamava Fernando. Mas o que mais existia na Ladeira da Assomada eram canas, de todos os tamanhos, grossuras e feitios e que eram aproveitadas para fazer bardos, portões, separadores e sobretudo para as crianças, que ali as iam apanhar com frequência, fazerem os seus brinquedos preferidos: botes de baleia e instrumentos musicais. Também se usavam as canas para fins domésticos pois com elas se construíam os canudos de assoprar o lume, esteiros para os queijos escorrerem o soro, paus para lavrar tripas e estacas para subirem os feijoeiros.

A razão deste topónimo, parece, logicamente, ter a ver com a sua forma estrutural, uma vez que a palavra “ladeira” significa precisamente, uma inclinação acentuada de um terreno, embora na Fajã Grande a palavra se usasse para designar a inclinação acentuada de um caminho e, com este sentido, havia, na Fajã Grande, vários topónimos: Ladeiras do Covão, Covas, Calhau Miúdo, Ponta, Fontinha, Biscoito, Pessegueiro, Bandeja, Alagoinha, Batel e muitas outras.

A Ladeira da Assomada era uma espécie de lugar mítico para a ganapada, sobretudo para os que moravam ali perto, uma vez que, ora servia para lugar de jogos e brincadeiras ora para aventuras diversas e envolvimentos emotivos. Mas o que mais a mistificava era o facto de ser dali que, em noites de invernia, descendo sobre o casario em eco sublime e diáfano, o sibilar do vento norte cantasse maviosas e deslumbrantes melodias com as quais, muito enroladinhos nos cobertores, adormecíamos.

Ladeira da Assoma, um mito, outrora personificado e hoje perdido, de alegria, enlevo, nostalgia e saudade.

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publicado por picodavigia2 às 11:16

À MARGEM DE UMA BIOGRAFIA DE RIMBAUD

Sexta-feira, 14.02.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

Saído da Batávia fugido, desertor procurado

do exército colonial holandês,

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, de vinte

e dois anos de idade e francês de nação,

que não sei se viajou como passageiro

ou (pagando assim a passagem) matalote engajado

do cliper inglês que aceitou trazê-lo para a Europa

e que fez, passado o Índico, escalas no Cabo

e Santa Helena e a Ascensão e o Faial,

em que aportou em não achei que dia

do começo de Outubro de 1876;

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, já dito,

vagabundo, poeta (ainda?),

não escreveu que se conheça

tão-pouco uma carta à família em que conte

como era a Horta naquele tempo.

E também, infelizmente, nenhum dos três

jornais que havia na pequena cidade ship-chandler

deu notícia que ele a visitava (ou visitara)

nem de modo indirecto denunciou a sua passagem por lá,

por exemplo relatando alguma desordem

na Rua Velha ou na Rua do Mar.

se bem que acolhendo as musas, os jornais da Horta

normalmente evitavam (quanto possível)

trazer nomes de criaturas como as Paciências,

a Cordeira, as Blicas, a Aparquinha, a Madraça,

criaturas afinal tão filhas de Deus como o poeta Rimbaud,

que, calem-se ou digam-no hipotéticas inéditas crónicas,

foi a casa de alguma delas,

sabedor decerto do preço em boa conta

dos seus rimiformes predicados.

 

Pedro da Silveira Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 08:56

AS TRÊS PRETENDENTES

Quinta-feira, 13.02.14

Era uma vez um rei, que tinha três filhos. Um dia, sentindo que já estava velho e desejando escolher o seu sucessor, juntou-os e disse-lhes:

- Meus filhos, ide correr o mundo, e aquele que trouxer e se casar com a mulher mais bela e formosa é que há-de ser o meu herdeiro e ficar com o meu reino.

Partiram os três. Os dois mais velhos, depressa, encontraram duas raparigas, ambas muito formosas e belas, que trouxeram para o reino e com quem se casaram. O mais novo andou por muitas terras, mas não conseguiu encontrar uma mulher que lhe agradasse.

No entanto, passado alguns dias, quando ia por um descampado, desceu do cavalo e deitou-se a uma sombra, para descansar. Perto dali, viu uma casa muito alta sem portas e só com uma janela. De repente, chegou uma velha que se aproximou da casa e bateu na parede. Nesse momento, apareceu à janela uma linda menina que lhe atirou a sua trança, à qual a velha se agarrou, subindo para dentro de casa. Pouco tempo depois a velha, agarrando-se, novamente, à trança, desceu e foi-se embora.

O rapaz aproximou-se, então, da casa, repetindo o gesto da velha. A janela abriu-se, a trança desceu e o rapaz, pendurando-se nela, subiu. Ficou pasmado quando, ao entrar, viu diante de si a mulher mais bela do mundo. A menina muito assustada e aflita, suplicou:

— Vá-se embora, senhor, que pode vir minha mãe, e ela tem artes de lhe causar todos os males do mundo.

— Não vou, sem vires comigo, porque só assim eu ganharei o reino de meu pai.

Ao ouvir estas palavras a rapariga concordou. Desceram ambos pela parede e fugiram a toda a pressa, montados no cavalo do rapaz. Ainda não iam longe, quando ouviram uma voz:

— Para, para, filha cruel e ingrata, para, não me deixes só no mundo.

A filha, porém, não lhe deu ouvidos, continuando a fuga. A velha pediu-lhe:

— Ao menos, olha para trás, para receberes a bênção de tua mãe.

Assim que a menina se virou, a velha disse-lhe:

— Eu te esconjuro para que essa tua cara linda se transforme numa cara de boi.

Quando o príncipe chegou à corte, ao vê-lo acompanhado de uma donzela com aquela cara, começaram todos a rir-se sem perceber como ele se tinha apaixonado por uma criatura tão feia e horrorosa. O príncipe contou a sua desventura, mas ninguém acreditou.

Estava prestes a chegar o dia em que os três irmãos haviam de apresentar as suas esposas diante de toda a corte, a fim de que o rei, conforme o prometido, escolhesse a mais bela, decidindo assim qual dos filhos seria o seu herdeiro.

O rapaz contou à mãe o que se passava e esta decidiu atrasar a cerimónia, para ver se a velha, com o tempo, perdoava à menina e lhe restituía a sua formosura. Para tal pediu que cada uma das três meninas lhe bordasse um lenço. As duas primeiras não sabiam bordar, pelo que tentaram enganar a rainha, arranjando quem lhes fizesse os bordados. A que perdera a formosura também não sabia bordar, mas em vez de enganar a rainha, pôs-se a chorar. Tanto chorou que lhe apareceu a velha, e lhe disse:

— Não te rales mais. No dia em que tiveres de entregar o lenço à rainha eu cá to virei trazer.

Chegou o dia, e a velha veio entregar-lhe uma noz muito pequenina. A menina foi levá-la à rainha, dizendo que ali estava o seu lenço. A rainha quebrou a noz e ficou pasmada com a mais fina cambraia, bordada com flores, ramos e pássaros.

Chegou o dia de as três meninas irem à corte para serem apresentadas ao rei. A menina feia começou de novo a chorar, até que, novamente, lhe apareceu a velha, dizendo:

— Não chores mais, minha filha. Trago-te este um vestido para a festa. Com ele ficarás muito bela. Era um vestido todo bordado a ouro e com pedras preciosas. A menina vestiu-o, e quando ia pelo corredor do palácio, olhou para trás e, ao ver a mãe, readquiriu, de imediato, a formusura que perdera durante a fuga.

De seguida, perante a admiração de todos, entrou na sala pelo braço do marido. Jamais se vira na corte jovem tão bela. Perante a raiva e inveja das outras duas, o rei não teve dúvidas em escolhê-la como futura rainha, tornando o marido o herdeiro do seu reino.

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publicado por picodavigia2 às 21:39

UOSTEROL OU O REI MALDITO

Quinta-feira, 13.02.14

Vários foram os chefes tribais, que, desde os tempos mais remotos e longínquos, se fixaram na serra Prada e impuseram, geralmente à força, regimes totalitários e despóticos, que massacraram, sacrificaram e, por vezes, quase destruíram a dignidade, a felicidade e a própria liberdade dos seus habitantes, os serranos pradenses. Esses régulos assumiam-se, geralmente, de forma disfarçada, como autênticos tiranos que apenas conheciam, tentavam impor e faziam vigorar dois princípios: o da força brutal e o da falsa superioridade. Leis draconianas foram promulgadas, ergástulos megalómanos construídos, imposições draconianas tomadas.

De todos estes pérfidos ditadores, sobressaiu, pela sua excessiva barbaridade e cônscio despotismo, um tal monarca, que o povo alcunhou de "Uosterol", epíteto originado a partir duma incorrecta pronúncia do inglês "The worst of all", ou seja, "O pior de todos". Tratava-se, na realidade, dum monarca que reinou alguns anos, num despotismo galopante e que, para saciar os seus caprichos e fanatismos desenfreados, terá desbastado, destruído e incendiado sete aldeias da serra, matando e arrasando as respectivas populações, só porque desconfiou que, numa delas, se encontrava refugiada uma jovem donzela, que fugira dos arredores do palácio real, quando se apercebeu que sua majestade a iria recrutar para o seu harém. A jovem foi degolada publicamente, ao mesmo tempo que eram destruídas todas as aldeias que, supostamente, lhe tinham dado acolhimento. Eu vou contar pra todos a história de um rapaz

Uosterol tinha, na realidade e desde sempre, a fama de ser um rei mau, perverso e maligno. O povo temia-o, apenas ao ouvir o seu nome. Para além de grosseiro, estúpido e violento, não gostava de alguém e nunca amou, de verdade, quem quer que fosse. Passava a vida em caçadas, duelos e batalhas, provocando mal-estar, tédio e, sobretudo terror, entre os seus súbditos.

Certo dia, porém, chegou à Serra, governada por Uosterol, um homem bom, digno e justo, mas valente e destemido. Com intenção de destruir o facínora e libertar o povo da tirania, dispôs-se a lutar contra o tirano. O povo tremeu e temeu, cuidando que o pior acontecesse. Mas como o homem era bravo e destemido, o povo aceitou que lutasse

Marcaram o duelo no cimo de uma montanha, longe do povoado, antes do pôr-do-sol. Todos já sabiam que um deles havia de morrer. O povo desejava que fosse o fim de Uosterol, pensando, assim, ver-se livre do facínora.

Subiram a montanha. Perante a coragem daquele homem, nesse dia, pela primeira vez, o Uosterol tremeu e teve medo. Nunca encontrara alguém que o desafiasse, que se lhe opusesse e que, sem medo algum, se dispusesse a lutar contra ele, rei poderoso e soberano invencível. Quem seria aquele desconhecido?

Uosteroç, durante a viagem de subida da montanha, entrou num bar bebeu. Bebeu tanto que perdeu a força tirânica, transformando-se num fraco, considerando-se, ele próprio, pela primeira vez na sua vida, um inútil imbecil.

Chegando ao cimo da montanha, ao lugar onde tinham combinado o duelo. Contrariamente ao habitual era Uosterol que tremia, enquanto o desconhecido se mantinha, calmo e firme com a arma na mão, apontada ao facínora. Uosterol preparou-se para atirar, com intenção de matar o desconhecido. Soaram tiros pelos ares, houve tão grande tiroteio como jamais se vira. Toda a Serra estremeceu e emudeceu. Apenas um grito se ouviu, após o qual Uosterol caiu por terra morto.

Algum tempo depois, a paz voltou à Serra.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:50






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