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O PAJEM INVEJOSO

Quinta-feira, 06.02.14

(CONTO POPULAR)

 

Conta-se que certa vez, estavam El-rei de Portugal, D. Dinis e sua mulher, a Rainha Santa Isabel, a estanciar numa aldeia, para os lados de Leiria, onde o rei havia mandado plantar um pinhal, o que faziam sempre que era possível.

Certa manhã, foi o Rei galopar, pelos campos, levando consigo um pajem que tinha inveja de um outro pajem que era muito valoroso e mui estimado por El-rei. Num abrandamento da corrida, para descanso dos animais, o moço fidalgo invejoso disse ao rei, que o outro pajem estava apaixonado pela Rainha.

O Rei Lavrador mostrou acreditar na palavra do seu acompanhante e vendo, ali perto do lugar onde estavam, um forno de cozer cal, a arder com enormes labaredas, imediatamente combinou com o forneiro de que, dentro de poucos dias, um pajem o iria procurar e lhe diria que ia para cumprir as ordens do seu Rei e Senhor. Mais lhe disse El-rei que, logo que dissesse tais palavras, lhe pegasse e o metesse no forno, pois que assim convinha ao seu serviço.

Passados uns dias, ao regressar à corte, o Rei, como planejara, mandou o pajem, vítima inocente da intriga do outro pajem invejoso, ir ter com o forneiro, da aldeia onde havia estanciado.

Este pajem, porém, que além, de destemido e considerado, era um homem justo e temente a Deus, ao passar por uma capelinha onde se celebrava missa entrou e cumpriu os preceitos de bom religioso, assistindo à missa e comungando. E ali se demorou um bom pedaço, em oração.

O pajem invejoso, ansiando por saber se as ordens do Rei já estavam a ser cumpridas tão fielmente como haviam sido dadas, não teve mão na sua maldade e meteu a galope em direcção ao forno indicado pelo rei, para saber se o pajem, supostamente traidor, já tinha chegado e se as ordens de Sua Real Majestade, estavam cumpridas.

Palavras não eram ditas e o forneiro e os seus ajudantes agarraram no pajem invejoso e meteram-no forno.

E assim, devido à sábia perspicácia de El-rei, morreu queimado um invejoso e intriguista, salvando-se o bondoso e honesto pajem de Sua Majestade.

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publicado por picodavigia2 às 11:12

O MINORISTA

Quarta-feira, 05.02.14

Horácio era uma criança loira, franzina, mas simples, inteligente e estudioso. Fora o décimo segundo e último rebento dos Gouveia. Os pais viviam da lavoira, trabalhando, arduamente, ao vento, à chuva, ao sol, sob tempestades e procelas, lavrando os campos e pastoreando os gados. Apesar de pobres, nunca havia faltado aos filhos uma côdea de pão, um pedaço de bolo do tijolo, uma tigela de leite ou um prato de sopa. Vendendo, diariamente, uma boa parte do leite que ordenhava, embarcando uma rês alfeira, de vez em quando, o Herculano Gouveia poupara uns escudos, que guardava, religiosamente, nos “caninos” de uma caixa verde, trazida, em tempos idos, pelo avô paterno, quando regressara, definitivamente, das Américas.

Terminada a quarta classe, o miúdo, muito mimado e poupado pela mãe e mais inclinado para leituras e rezas do que, propriamente, para o trabalho agrícola, impulsionado pelos elogios da senhora professora à sua inteligência e capacidades de aprendizagem, apresentou-se diante do progenitor, afirmando a pés juntos, que gostava de ir para o Seminário. Queria estudar para ser padre.

O pai, apesar de pouco afeito a missas e igrejas, mas afrontado pela sincera convicção do garoto e pelo denodado apoio da mãe que, deslumbrada com a imprevista revelação do filho, começava a sonhar com a sublimidade de ter um filho padre, acabou por anuir. Preparado o enxoval e tratada a papelada junto do pároco, no Carvalho seguinte, Horácio abalou, com destino ao Seminário de Angra, deixando a mãe lavada em lágrimas e os irmãos numa fúria irritante. O pai, que o veio levar à vila, ao despedir-se dele, a bordo do paquete, encolhendo os ombros, apenas murmurou, tentando, sem grande convicção, estancar-lhe as lágrimas: “Foi o que quiseste! Agora, amanha-te como puderes…”

E amanhou-se muito bem, o Horácio, no Seminário, onde a estadia se transformou numa doce vivência. Acompanhado por dezenas de alunos, originários das várias ilhas açorianas, vivia, naquele enorme casarão, dias de estudo, de disciplina e de oração, mas também momentos de lazer, de brincadeira, de convívio, de alegria e, até, de prática desportiva. De regresso a casa, nas férias, ajudava os pais e irmãos no amanho das terras e no tratamento do gado, como se fosse um deles, pautando, no entanto, o seu dia-a-dia, por uma sóbria seriedade, um discreta moderação e por uma salutar convivência com todos. Além disso, cada vez se ia integrando mais em todas as celebrações e actos litúrgicos, ajudando e colaborando com o pároco, recebendo, como recompensa, redobrados elogios. Era voz unânime, na freguesia, que o rapaz “tinha mesmo jeito para padre!”

E no início do penúltimo ano, o terceiro de Teologia, Horácio, depois de muito pensar e reflectir, aconselhou-se com o Director Espiritual e apresentou-se ao Reitor, declarando que queria, realmente, ordenar-se, pelo que vinha candidatar-se a receber as “Ordens Menores”, durante aquele ano. 

Foi na igreja da Conceição, na festa da padroeira, em Dezembro, que recebeu a “Prima Tonsura”. O bispo, munido de uma tesoura, a cortar-lhe umas farripas de cabelo e ele, de tarde, juntamente com outros cinco, a correr para o barbeiro, a fim de que este lhe desenhasse no cocuruto uma pequena circunferência, rapando-lhe o cabelo naquele minúsculo círculo, assinalando-o com a coroa sacerdotal. Era o rito inicial que o entronizava na vida clerical. Nas têmporas da Quaresma, na capela do Seminário, recebeu o “Ostiariado” e o “Leitorado”, sendo-lhe entregue, simbolicamente, uma chave e um leccionário e, no fim do ano lectivo, enquanto os colegas finalistas eram ordenados “Presbíteros”, ele recebia, na Sé de Angra, o “Exorcistado” e o “Acolitado”.

Terminado o ano lectivo, mais uma vez, regressou, de férias, à freguesia que o vira nascer, mas, desta feita, já clérigo, envergando o fato preto e o cabeção e assinalado, na cabeça, com uma coroa igual à dos senhores padres. Em casa e na rua, por toda a parte, todos se admiravam e interrogavam: “Então?! O rapaz do Horácio Gouveia afinal, já é ou não é padre?”

Aos poucos lá foi esclarecendo uns e outros. Primeiro os pais e os irmãos. Aproveitou uma altura em que todos se reuniam à volta de um caldo de couves com toucinho, ainda a fumegar, e bolo do tijolo quentinho - o pitéu que a mãe, normalmente, confeccionava, para comemorar a sua chegada do Seminário - e esclareceu: “Não, ainda não era padre. Tinha recebido apenas a “Tonsura” e as “Ordens Menores”, mas estas não eram sacramento, nem sequer consagravam, de modo definitivo, ao serviço de Deus, quem as recebia. Era apenas “minorista”. No entanto, com estas ordens, já era clérigo e podia acolitar nas missas solenes, de três padres, paramentando-se, neste caso com a dalmática, mas sem a estola. Como se fosse um subdiácono… Apenas, no final do próximo ano, o senhor bispo lhe havia de conferir a ordem de presbítero. Ao regressar, no verão, celebraria, na igreja da freguesia, a sua Missa Nova.”

As irmãs, sempre muito afoitas à igreja, sobretudo agora que iam ser “irmãs do senhor padre”, ainda entenderam alguma coisa. Os irmãos, cedo se desinteressaram pela conversa. O pai percebeu apenas que ele era “minorista” e que já podia rezar missa, contanto que fosse ao lado de outros padres, enquanto a mãe, aproveitou o momento de enlevo, para, mais uma vez, agradecer a Deus, o dom divino com que fora presenteada na sua senectude.

No dia da festa da padroeira, decidiu o pároco que o Horácio havia de fazer a sua estreia na celebração dos divinos mistérios, acolitando-o de subdiácono, na missa da festa.

Horácio paramentou-se a rigor, ufanando-se de pela primeira vez envergar uma dalmática. Aprimorou-se no acompanhamento da celebração, quer no cantar da epístola, num latim fluente e com uma excelência desusada, quer na forma como se aproximava ou afastava do altar, sempre de mãos postas sobre o peito, sempre elegante e digno, ao executar, com sobriedade e primor, quer as genuflexões ao meio do altar, quer as inclinações perante o cruxifixo, à elevação da hóstia e do cálice ou ao “nobis quoque pecatóribus”. Até o segurar do missal durante o canto do evangelho pelo pároco da freguesia vizinha, que fazia de diácono, foi feito com dignidade e aprumo, contrastando, notoriamente, com as atitudes da maioria do clero presente, muitos deles já de avançada idade e, acentuadamente, barrigudos.

No fim da missa toda a população, que nem sequer distinguia uma casula duma dalmática, se ufanou, alegrou e regozijou por ver um filho da terra, ainda ontem criança e agora já a subir o altar, celebrando com tanta dignidade, beleza, excelência e santidade, os sagrados mistérios, naquela missa de três padres.

Todos, menos o compadre Sebastião, que juntamente com a sua Josefa haviam sido os padrinhos de baptismo do Horácio. Indignado, revoltado e amuado, o Sebastião, no fim da missa, procurou o compadre Gouveia, que sempre lhe havia garantido que no dia da “Missa Nova” seria ele e a comadre Josefa, sentados em lugar de honra, na capela-mor, que haviam de segurar a bacia e o jarro de prata, com que o afilhado, antes de se aproximar do altar, lavaria as mãos.

Mas o Gouveia não se fez esperar e esclareceu com clareza:

- Ó home, nã tás bom do juízo. O rapaz é minorista. É verdade que já pode cantar missa, mas acompanhado d’outros padres. Sozinho nã pode. Só para o ano que vem é que senhor bispo lhe vai dar ordem p’ra ele poder dizer a missa sozinho.

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publicado por picodavigia2 às 17:04

O DESCANSADOURO DE SANTO ANTÓNIO

Quarta-feira, 05.02.14

No Largo de Santo António, na Fajã Grande, no caminho que ligava a Assomada aos Lavadouros e, também, à Cuada, uma das vias mais percorridos diariamente pelos habitantes da Fajã na década de cinquenta, havia um interessante e típico descansadouro, conhecido, precisamente, pelo descansadouro de Santo António e que servia de paragem obrigatória e de repouso merecido aos homens que vinham da Cabaceira, da Cancelinha, do Espigão, do Moledo Grosso e da Lombéga, da Alagoinha e dos Lavadouros, assim como os que vinham das terras do lado da Cuada. Tratava-se um local de descanso situado num largo, no cruzamento de três caminhos, rusticamente preparado de modo a que os homens pudessem pousar as cargas que transportavam, descansar e conversar um pouco. Na realidade, em Santo António, como no Alagoeiro, no Pico Agudo ou na Ribeira das Casas e em tantos outros sítios, os homens, ao regressarem dos campos vergados ao peso dos molhos e cestos, uns e outros pesadíssimos, paravam para descansar e cavaquear. Colocando os brutais carregamentos sobre as paredes circundantes, limpavam o suor com as costas das mãos, com lenços ensebados ou até com as mangas das frocas, com as quais também formavam espécies de rodilhas ou almofadas que colocavam sobre as pedras soltas, encostadas às abas das paredes mais altas e abrigadas, para se sentarem sobre elas, de modo a não “apanharem frio”. Sentados sobre essas espécies de toscas bancadas, os homens descansavam, fumavam, trocavam lume e cigarros, por vezes, se o descanso era mais prolongado, até falquejavam troncos de cana-roca ou um garrancho qualquer e conversavam, discutiam, umas vezes a “tirar teimas” outras “acertar contas”, recriminando-se reciprocamente. Uns vinham de longe outros de perto, uns mais cansados outros mais aliviados, mas todos ali se sentavam de manhã, ao meio-dia, à tarde e à noitinha.

O descansadouro de Santo António, ocupava todo o largo e era circundado por três altas paredes. A Sul, do lado do Delgado ficava uma horta pertencente ao José de Nascimento, com paredes altíssimas e um gigantesco portão sobre o qual havia um pequenino nicho com uma imagem de Santo António, padroeiro onomástico do lugar. A Oeste e do lado da Cuada uma outra parede, também bastante alta e abrigada, pertencente a uma terra do Roberto de José Padre. A norte e a fazer esquina com as duas primeiras, uma terra do Augusto Mariano, com paredes mais baixas e uma espécie de maroiço anexo que servia de palanca onde os homens colocavam molhos e cestos. Um pouco acima e logo no início do caminho que dava para a Cuada havia uma relva pertencente ao Josezinho Fragueiro, onde havia uma nascente de água com uma bica que jorrava permanentemente um diáfano e fresquinho fio de água, onde homens, mulheres e crianças que por ali passavam ou ali paravam a descansar iam matar a sede.

No final da década de cinquenta, a nova estrada que ligava o Porto da Fajã Grande aos Terreiros, passou por ali perto e o descansadouro de Santo António, como muitos outros da Fajã, perdeu o seu protagonismo, sendo, neste caso substituído por um, na nova estrada, no sítio em que a mesma atravessava o cerrado do Lucindo Cardoso, um pouco mais abaixo, no Delgado, junto a um palheiro que ali havia.

O descansadouro de Santo António era dos poucos da freguesia que dispunha de água. Logo a seguir, no caminho que dava para a Cuada, do lado direito de quem caminhava na direcção daquela localidade, ao fundo da relva que ali existia, havia uma nascente de água, que havia sido aproveitada e transformada numa espécie de bica ou fonte, donde brotava um fiozinho de água, que corria dia e noite, ténue, diáfano e cristalino e que era vulgarmente designada pela Fonte do Delgado. O precioso líquido que dali brotava, que rareava naquelas redondezas, era muito fresquinho, limpo e deliciosamente saboroso, pelo que dava de beber e matava a sede a quantos sequiosos passavam por ali ou se sentavam no descansadouro contíguo.

No entanto, ao fundo da relva onde se situava a fonte e um pouco mais abaixo desta, havia uma quinta com altas paredes e um enorme portão, encimado por uma cruz, sempre aberto, sempre disponível a quem quisesse por ali entrar. Mas poucos o faziam, com medo de lá entrar. Contava-se que uns anos atrás se enforcara ali um rapaz. Ora como o suicídio, na freguesia, sobretudo através do enforcamento, era raríssimo, o povo, embalado em ensinamentos religiosos onde pontificava o misterioso, o maldito, o coiso-mau e, sobretudo, a ameaça permanente do envolvimento do diabo e das almas do outro mundo na sua vida e costumes, considerava-o como uma espécie de mistério ou algo de terrível, diabólico e do outro mundo, pese embora neste caso, a beatitude toponímica do lugar ofuscasse, parcialmente o macabro do evento que o notabilizara. Mas a maioria dos transeuntes que por ali passavam e, muito especialmente, os que paravam naquele recanto paradisíaco para ir buscar à água à nascente, num contraste mítico, traziam, permanentemente à memória, a recordação do enforcado, cuidando que ele pudesse eventualmente, dada a sua qualidade de condenado ao inferno, aparecer por ali sob a forma de alma penada ou de demónio. Por isso, todos e cada um dos que por ali transitavam ou se sentavam, sobretudo se tivessem o atrevimento de ir buscar água, temiam que sobre si próprio viessem a cair anátemas de perdição moral ou lhe acontecesse alguma desgraça ou desventura.

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publicado por picodavigia2 às 13:17

O COMPADRE POBRE E O COMPADRE RICO

Quarta-feira, 05.02.14

(CONTO TRADICIONAL)

 

Numa certa terra moravam dois compadres. Um era pobre e o outro rico, mas muito avarento, sem querer dar nada a ninguém do muito que possuía. Naquela terra era costume que todos, quando matassem o seu porco, oferecessem um bocado do lombo ao senhor padre. O compadre rico, que era muito forreta e queria matar porco sem dar um pedaço do lombo ao padre, chegou junto do compadre pobre e começou a dizer mal daquele costume e que não concordava com aquele hábito. Além disso o padre vivia melhor do que eles e não precisava que lhe dessem nada. Então o compadre pobre aconselhou o compadre rico a que quando matasse o seu porco, o dependurasse no quintal para que toda a gente, incluindo o padre, o visse. Durante a noite, às escondidas ia ao quintal, pegava no porco e guardava-o em sua casa, bem escondido, para depois, na manhã seguinte, dizer toda a gente que lho tinham roubado. Assim livrar-se-ia de dar um pedaço de lombo ao padre.

O compadre rico ficou muito contente com aquela genial ideia do amigo e seguiu à risca o que o compadre pobre lhe tinha dito. Depois de pendurar o porco no quintal, deitou-se com a intenção de ir de madruga ao quintal, buscá-lo. Ninguém o havia de ver e o porco havia de ficar muito bem escondido em sua casa e o padre não apanhava nada do lombo nem de nenhuma outra parte. Mas o compadre pobre, que era espertalhão, antecipou-se e, durante a noite, foi ao quintal onde estava o porco e roubou-o. No dia seguinte, quando o avarento deu pela falta do porco, correu a casa do compadre pobre e, muito aflito, contou-lhe o acontecido. Este, fazendo-se desentendido, dizia-lhe, baixinho:

- Boa, compadre! Bravo! Muito bem, muito bem! Assim é que o compadre há-de contar ao senhor padre e safar-se-á de lhe dar um pedaço de lombo!

Mas o compadre rico cada vez teimava mais que lhe tinham roubado o porco mesmo a sério e de verdade, enquanto o outro cada vez o apoiava e incentivava mais para que contasse assim, tudo muito bem “contadinho”, ao senhor padre, porque assim o reverendo acreditaria de certeza. Já farto de o ouvir, o compadre rico foi-se embora desesperado, enquanto o pobre, a rir-se dele, ficou com o porco todo inteiro para si, sem que o compadre rico dele desconfiasse.

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publicado por picodavigia2 às 10:37

ADEUS DOS VOLUNTÁRIOS

Quarta-feira, 05.02.14

Poema oral, recitado e cantado, antigamente, na Fajã Grande e recolhido por Pedro da Silveira, em 1945, através de um familiar, tendo-o publicado na Revista Lusitana, Nova Série, em 1966. Em anexo ao texto, do qual apresenta uma versão, ligeiramente diferente, recolhida no Lajedo por José Luís de Serpa, Pedro da Silveira afirma que este rimance era conhecido também na Ponta e na Fajãzinha. Reza assim a versão recolhida na Fajã Grande:

 

“A vinte e quatro de Abril,

Das quatro para as seis da tarde,

Embarcaram os voluntários,

Oh, meu Deus, que crueldade.

 

Não sei com que coração,

Ponha os pés nestes navios,

Deixo minha mãe chorando,

Minha mulher e meus filhos.

 

Adeus, ó querido pai,

Deite-me a sua bênção,

Eu vou para as terras do Sul,

Defender nossa nação.

 

Adeus, ó querida mãe,

Abraçai-me com valor,

O Brasil é nossa pátria,

Dom Pedro o Imperador.

 

Adeus, ó querida esposa,

A quem devo tanto e tanto,

Pede ao Deus do céu que eu volte

Para enxugar teu pranto.

 

Adeus, ó queridos filhos,

Vinde abraçar vosso pai,

Que em breve vai partir

Para os campos do Paraguai.

 

Adeus, ó querida irmã,

Anjo céu, flor da terra,

Já oiço o som da corneta

Que me chama para a guerra.

 

Adeus, ó querida igreja

Adeus, ó templo sagrado,

Adeus, ó sagrada via,

Onde eu fui baptizado.

 

Adeus terra do meu berço,

Pátria minha tão querida,

Em defesa dos teus brios,

Vou arriscar minha vida.”

 

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publicado por picodavigia2 às 10:13

NÃO ENVELHEÇA

Terça-feira, 04.02.14

"O homem só envelhece quando nele os lamentos substituem os sonhos."

 

(John W Berry)

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publicado por picodavigia2 às 19:59

O PENICO

Terça-feira, 04.02.14

Corriam os famigerados anos da Segunda Guerra Mundial que envolvera a maioria das nações do mundo, organizadas em duas alianças militares opostas: os Aliados e o Eixo. Um conflito tremendo, dramático e o mais letal de toda a história da humanidade, em que todos os países envolvidos se agastavam excessivamente, desfazendo, quase por completo, as suas mais excelsas e dignas capacidades. Açulada pela guerra, a economia mundial suportava um rude golpe, um grande revés e muitos países, para além da angústia e da morte, sofriam o flagelo da fome e da falta de todo o tipo de géneros. Portugal e os Açores, em particular, não foram excepção. Nas ilhas, em cujos mares, em vez dos navios e iates que, tradicionalmente, nelas faziam escala, abastecendo-as e ligando entre si as suas gentes, navegavam, agora, preferencialmente, submarinos alemães, numa zona, para eles, transformada numa espécie de santuário, deserto de navios e aviões inimigos, onde reabasteciam os seus navios de guerra, em trânsito para o teatro das operações ou para as suas bases. Tudo isto fazia com que a vida económica das populações das ilhas começasse a ressentir-se, rareando muitos produtos, nomeadamente, os alimentares e os derivados do ferro.

No Seminário de Angra, nesses tempos a abarrotar de alunos, vivia-se intensamente o drama mundial. Recolhiam-se notícias soltas num ou noutro rádio, liam-se os poucos jornais existentes, discutiam-se as estratégias bélicas e, nos campos de jogos, chegaram a efectuar-se árduas batalhas entre Aliados e Eixo, nem sempre favoráveis aos primeiros. Mas o que mais se fazia sentir era a escassez de géneros, nomeadamente, de alimentos, no minorado pecúlio armazenado nas dispensas anexas à cozinha, e que ia transformando as refeições em momentos de rareza, consubstanciada, sobretudo, na carne, rija, intragável, a originar a lendária “miragaia”. Mas, pior ainda, é que com as restrições à navegação e, sobretudo, com o enfurnar da abastança de muitas famílias, havia diminuído, substancialmente, o acervo de cestas, cabazes, pacotes, sacos, caixas e encomendas que chegavam ao Seminário, quer de São Miguel quer das ilhas de baixo e que, nos intervalos das refeições, alentavam gulosices e sustinham as carências nutritivas que as refeições, cada vez mais limitadas, consubstanciavam. Até a Terceira, por razões mais que óbvias, líder destas remessas, agora fraquejava, tornando-as quase exclusivas de uma ou outra família mais abastada.

Era o que acontecia com o Menezes. A família, residente numa enorme quinta, para os lados da Silveira, possuía bens e terras de tal ordem e riqueza, que por mais que a guerra cravasse as suas garras desoladoras na economia açoriana, não se haviam de esgotar tão cedo. Por isso todos os domingos de manhã, à hora da visita, a mãe e duas tias solteironas, corriam solícitas até à portaria do Seminário, trazendo ao seu menino sacos e caixas com todo o tipo de vitualhas, onde nunca faltava um bolo doce. Mas o Menezes era um sovina, sôfrego, comilão e anafado, incapaz de partilhar com quem quer que fosse uma nica do que tão substantivamente lhe traziam e que tão, avidamente, comia e guardava nas suas malas. À hora do recreio, mal soava a campainha, era vê-lo, de chave na mão, a correr para o porão, a encafuar-se às escondidas, atafulhando-se em bolachas, biscoitos, frutas, filoses e fatias de bolo doce. Os outros, simplesmente, a verem e a crescer-lhes água na boca.

Alguns, mais famélicos, bem o seguiam, a ver se o somítico repartia alguma coisa… Mas ele, nada. Outros, mais atrevidotes, bem o tentavam apanhar de surpresa, surripiar-lhe as chaves, mas ele parecia que tinha olhos no rabo e reflectores nas orelhas. Impossível rapinar o que quer que fosse ao somítico do Menezes.

Revoltado com tamanha sovinice, agastado com tão irritante falta de companheirismo, o Machado jurou a pés juntos que lhe havia de surripiar um bolo, com qual todos se haviam de deliciar. Os outros que não e ele que sim! Que esperassem, que haviam de ver e não demoraria muito.

Foi o Manelinho, o empregado sempre solícito e amigo, encobridor de patuscadas e colaborador na candonga dos cigarros, que comprou um bacio, de alumínio, para não se partir, ao ser arremessado.

Depois, foi aguardar, atentamente, uma manhã de domingo. O Menezes, durante a hora de estudo, chamado à portaria para receber familiares e géneros, foi colocar os sacos e pacotes, na camarata, à espera do recreio seguinte, a fim de os guardar na mala, no porão. Ainda nem tinha regressado o Menezes ao seu lugar e o Machado junto à secretária do prefeito que, muito concentrado, lia o breviário. Tinha uma enorme dor de barriga e precisava de ir à retrete, com urgência. Um desvio pela camarata. Lá estavam as vitualhas do Menezes, entre as quais um bolo doce, excelente, apetitoso, divinal. Retirou-o da caixa de papelão e colocou-o, com cuidado, dentro do penico que, obviamente, nunca tinha sido utilizado.

Mal tocou a sineta para o recreio e o Menezes a correr para a camarata, com o intuito de proteger o seu pecúlio pantagruélico. O Machado e os comparsas com quem compartilhara o ardil, a verem de longe.

Dito e feito. O Menezes, ao deparar-se com a marosca, furioso, pegou no penico e arremessou-o, com violência, para chão da camarata, ficando o bolo, por feliz coincidência, direitinho e inteiro como se, acabado de sair do forno, aguardasse ser retirado da forma. Era o epílogo desejado!

E do bolo, nem uma fevra sobrou.

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publicado por picodavigia2 às 19:40

VIRIATO

Terça-feira, 04.02.14

Ninguém sabe ao certo quando nasceu Viriato nem a que família pertencia. Segundo a tradição, durante a juventude terá sido pastor nos Montes Hermlnios, que hoje se chamam Serra da Estrela.

Há quem diga que Viriato participou desde muito novo em assaltos-relâmpago às povoações dominadas por romanos. E que já então se distinguia pela agilidade, pela força e pela inteligência guerreira.

No entanto, foi um dos homens que acreditaram nas promessas de Galba e desceram à planície na intenção de se instalar e viver em paz numa terra fértil. Assistiu ao ataque traiçoeiro; não pôde lutar porque não tinha armas, mas conseguiu fugir.

Depois do massacre, todos os lusitanos sobreviventes regressaram aos seus castros nas montanhas. A pouco e pouco reorganizaram-se, fabricaram armas e prepararam o contra-ataque.

No ano 147 a.C. dez mil lusitanos em fúria avançaram para sul e dirigiram-se a uma zona dominada pelos Romanos.

Queriam saquear as povoações e vingar a morte dos companheiros, mas quando menos esperavam perceberam que estavam cercados à distância por um anel de soldados inimigos. Que fazer?

Os chefes, para evitarem nova carnificina, propuseram-se ir negociar a rendição. Viriato opôs-se com veemência. Erguendo a voz, lembrou:

- Os Romanos não respeitam promessas. Enganaram-me uma vez, não me tornam a enganar. Comigo não contem para negociações. Prefiro lutar ou morrer.

O discurso e a firmeza impressionaram toda a gente, sobretudo os outros chefes. E Viriato continuou:

- Se não podemos vencê-los pela força, vencê-los-emos pela astúcia. Ora oiçam o meu plano.

Propôs-lhes então o seguinte: os homens que combatiam a pé deviam formar grupos e a um sinal combinado disparar em todas as direcções e romper a barreira que os cercava sem dar tempo aos inimigos de se organizarem.

- Enquanto vocês fogem, eu e os outros cavaleiros caímos sobre eles ora de um lado ora de outro, de forma a derrotá-los e a proteger a vossa fuga.

O plano foi aceite; faltava combinar o sinal.

- Fiquem atentos. Quando eu montar a cavalo, já sabem... é ordem para arrancar.

Pouco depois ecoavam gritos de guerra pelos campos, zuniam setas e lanças, por toda a parte se ouvia o tinir das espadas. Os romanos não estavam à espera daquela táctica-relâmpago e, tal como Viriato previra, desnortearam-se. Muitos grupos de peões romperam o cerco e desapareceram, enquanto os bravos cavaleiros lusitanos, apesar de estarem em minoria e de possuírem armas mais fracas, lutavam sem cessar.

O campo de batalha ficou juncado de mortos, o próprio general romano perdeu a vida, mas não se pode falar de vitória ou derrota. Neste confronto, Viriato, mais do que vencer os Romanos, salvou os Lusitanos. A partir de então foi reconhecido e amado como chefe máximo por todas as tribos.

As mulheres sonhavam com ele, os homens admiravam-no, acatavam as suas ordens e seguiam-no com tanto entusiasmo e convicção que durante anos lançaram o terror entre as hostes inimigas. Viriato parecia invencível. E, de facto, em guerra aberta ninguém o derrubou.

No ano de 139 a.C. Viriato foi assassinado à traição, quando dormia na tenda, por três homens da sua tribo que os Romanos tinham aliciado e subornado. Os Lusitanos choraram longamente a perda daquele chefe querido e ficaram muito enfraquecidos. Quanto aos assassinos, parece que não chegaram a obter nenhuma recompensa pelo crime. Segundo consta, foram recebidos com desprezo pelo chefe romano, que lhes terá dito «Roma não paga a traidores».

É engraçado que tudo o que sabemos a respeito deste homem que os Portugueses consideram como o primeiro dos seus heróis foi escrito por autores romanos. Impressionados pela personalidade forte, austera e recta do chefe lusitano, impressionados também pelo imenso valor que demonstrava na guerra, escreveram vários textos elogiosos sobre ele. Apesar de serem adversários, foram os Romanos que deram a conhecer ao mundo a figura de Viriato.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:30

FEVEREIRO

Terça-feira, 04.02.14

“Em Fevereiro leva a mãe ao outeiro.”

No caso específico da Fajã Grande, este adágio encaixava-se que nem uma luva, pelo que, sem sombra de dúvida ele era típico desta freguesia, uma vez que a mesma se situa nas fragas de um pequeno monte, a ombrear com algumas habitações, designado precisamente pelo nome de “Outeiro”.

Este adágio era de âmbito profundamente meteorológico. Era uma espécie de previsão e anúncio do tempo. Com ele pretendia-se informar os menos atentos de que, nas Flores e mais concretamente na Fajã Grande, ao chegar o mês de Fevereiro, havia a certeza de que os dias de mau tempo e de grandes temporais, com chuvas diluvianas e ventos ciclónicos, que impediam as pessoas de sair de casa, como os de Dezembro e Janeiro, haviam terminado. Fevereiro já era, naqueles recuados tempos da década de cinquenta, um mês de bom tempo, com dias de Sol, em que nos podíamos sair de casa, à vontade, sem grandes resguardos do frio e da chuva, e darmo-nos ao luxo de não irmos apenas só nós, filhos, sinónimos de mais novos, mais ágeis e mais capazes. Também as pessoas de mais idade e mais débeis, como eram por exemplo as mães, também já podiam aventurar-se a uma caminhada tranquila por aqui ou por além, até subindo lugares mais íngremes, como o Outeiro, sem se sujeitar aos rigores do Inverno. É verdade que nestes dias o Sol, geralmente, ainda aparecia como que tímido e por entre nuvens, sem o brilho do Sol da Primavera ou do Verão, mas já era um Sol quentinho, sobretudo a fazer esquecer os tenebrosos dias anteriores e a convidar a sair de casa.

Se podíamos fazer uma caminhada ou dar um passeio com a mãe até aos meandros do Outeiro era porque na Fajã Grande já havia bom tempo, embora, apesar de estarmos em Fevereiro, ainda estivéssemos no Inverno.

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publicado por picodavigia2 às 15:53

BEBIDAS E ALIMENTOS PROIBIDOS

Terça-feira, 04.02.14

 

BEBIDAS E ALIMENTOS PROIBIDOS A QUEM SOFRE DE

INSUFICIÊNCIA RENAL

 

Alheiras, Alho Francês, Amendoins, Azeitonas, Bacalhau, Bananas, Bolo doces, Bolo do Tijolo, Bolo-Rei, Caldo de Frango, Carne de Vaca, Carne Gorda de Porco, Castanhas, Chocolates, Compotas, Conserva em Azeite ou óleo, Couves, Croissants, Ervilhas, Espinafres, Feijão, Feijão-Frade, Figos, Frango, Gema de Ovos, Grão-de-Bico, Grelos Hambúrgueres, Inhame, Ketchup, Kiwi, Laranja, Leite, Lulas, Maionese, Marisco, Massa Sovada, Melancia, Melão, Meloa, Morcela, Natas, Nectarinas, Pão-de-ló, Pão de Milho, Pepinos, Piza, Polvo, Pudins, Queijo Ralado, Queijos Curados, Salsichas, Sardinhas, Sopas de ES, Sumos de Frutas, Tangerinas, Tomates. Aguardente e licores, Cerveja e Vinho Verde

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publicado por picodavigia2 às 15:33

ERA-NÃO ERA

Terça-feira, 04.02.14

Era-Não-Era, no tempo das eras

Andava na serra,

Lavrando a terra

Com arado de carne

E bois de madeira.

Vieram-lhe dizer que o pai estava a morrer

E a mãe a nascer.

Foi tão grande o seu prazer.

Que prendeu os bois a uma moita

E pôs o arado a comer.

Vai por aí abaixo,

Encontra um ninho de marracho

- Onde hei-de pôr os ovinhos?

- Oh… debaixo da burrinha!

Saíram-lhe dois tentilhões;

E onde haviam de poisar?

Numa árvore que dava avelãs.

Começou a atirar-lhe pedras

E a caírem cebolas albarrans.

Foi vendê-las à vila e fez um dinheirão.

À volta dá com um meloal

E entra a apanhar um melão.

Vem de lá o dono e diz:

- Que fazes em faval alheio?

Atirou-lhe um melão, acertou-lhe com um torrão,

E fez-lhe sangue tão vermelho!

 

Seguindo o seu caminho,

Logo a seguir viu um passarinho

A sair do seu ninho.

Chegou às suas colmeias

Não pode contar os cortiços;

Mas foi contar as abelhas… e faltava-lhe uma!

N'isto ouviu resmalhar em uma moita,

E julgando que fosse a abelha,

Atirou-lhe com o machado.

Foi lá busca-lo, mas não o encontrou.

Atiçou fogo a uma moita,

Queimou o machado e lá apareceu o cabo.

 

Voltou para traz e foi falar ao professor,

Que lhe fizesse um machado.

Vai de lá o mestre ferreiro apresentou-lhe um anzol.

Que se havia ele lembrar?

Lembrou-se de ir á pesca.

Quando sente morder no anzol.

Puxa a linha e trouxe…

Um burro pelas orelhas, sem as ter!

Deixou o burro a comer,

E foi ás colmeias outra vez.

Estava a moita feita em mel.

Tirou dois piolhos da cabeça,

Das barrigas fez dois sacos,

e com elas carregou o burro,

Depois de as encher de mel.

Mas a carga era muito pesada,

E o burro ficou todo ferido.

O Era-Não-Era pôs-lhe favas em cima,

Cuidando que o burro morria

Pôs-lhe as favas mesmo cruas,

Por ser assim mais depressa,

E lá o deixou no campo a pastar.

 

Passado um ano voltou ao campo,

E viu um grande faval nascido em cima do burro.

Tratou logo de ir buscar uma foice para ceifar as suas favas;

Mas quando ia começar o trabalho,

Viu lá dentro um porco-espinho.

Jogou-lhe com a foice, e o cabo entrou-lhe pelo rabo,

Com o rabo o porco ceifava, com as patas debulhava…

E d'esta maneira o Era-Não-Era

Recolheu uma grande colheita.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:59

AGUARELA

Terça-feira, 04.02.14

Fajã Grande! O ponto mais ocidental da ilha das Flores, dos Açores e, simultaneamente, o ponto mais ocidental de Portugal e da Europa. Olhando em frente, apenas o Monchique e o mar. O mar é tudo o que a vista humana alcança. Lá ao longe, apenas o horizonte a separar o mar do céu e a impedir que se enxergue, talvez com uns bons binóculos, aparentemente muito longe, mas ape­nas 3500 quilómetros, Manhattan, a personificação da América. Encastoada entre o Outeiro e o Pico da Vigia, com a rocha lá ao fundo, recortada por inúmeras quedas de água, a Fajã Grande, pintada de verde na Primavera e colorida de amarelo e lilás no Outono, teve uma enorme im­portância num passado recente, pois foi ponto de paragem dos baleeiros americanos e ponto de partida de grande parte dos emi­grantes açorianos que abalaram para os Estados Unidos e Canadá. No final do século XIX e na primeira metade do seguinte, a freguesia continuou a prosperar, adquirindo uma estrutura urbanística que a diferencia claramente das restantes freguesias rurais das Flores e até dos Açores. A rua principal da Fajã Grande, a Rua Direita, a que, mais tarde, foi dada o nome de um dos seus mais ilustres filhos, o Senador José Joaquim André de Freitas, é ladeada por um conjunto de imóveis de traça erudita e com dimensões e qualidade construtiva que atestam a riqueza que a emigração americana trouxe e a relação com a baleação propiciou. Por isso mesmo, foi muitas vezes considerada como um lugar que, embora pequeno, bem merecia o estatuto de vila. Hoje em dia é, essencialmente, uma zona balnear com cada vez mais pro­cura nos meses quentes de Verão. Entre a Fajã Grande e a vizinha freguesia de Ponta Delgada não existe qualquer tipo de liga­ção rodoviária. A única hipótese de per­correr os 12 quilómetros da costa oeste da ilha é através de um longo e irregular per­curso pedestre de cerca de 3 horas e meia, mas que é o mais interessante de todos. Ao longo do troço destacam-se paisagens deslumbrantes sobre as falésias, calçadas de pedra antigas, vários cursos de água, cascatas e a magnífica mostra de exemplares da vegetação endémica. A Fajã Grande conta, actualmente, com várias colectividades, entre as quais se destacam a Tuna Sol Mar da Fajã Grande, fundada em 1993, por Jesuíno Pimentel, sendo composta por amantes da arte musical, tocando e cantando as modas regionais e tradicionais da ilha das Flores. Embora actualmente inactiva, a Filarmónica União Musical Nossa Senhora da Saúde, instituída em 1950, com a oferta, por parte de todas as famílias, do leite do primeiro domingo de cada mês, divulgou, durante décadas, a arte musical das Flores por toda a ilha, actuando em festas locais e regionais. No desporto foi o Atlético Clube da Fajã Grande que também durante décadas ocupou dezenas de jovens na prática desportiva. A Casa do Povo de Fajã Grande, ainda hoje em actividade, possuindo uma moderna sede onde funciona um gabinete de assistência social e um salão polivalente para reuniões e espectáculos, continua a ser uma mais valia, para os seus cerca de actuais duzentos habitantes. Para além do porto e área de lazer adjacente, a freguesia apresenta alguns locais de interesse, nomeadamente a sua Igreja paroquial de São José, edificada em 1868, com a sua génese numa primitiva capela com a mesma invocação, erigida em 1755. Este templo possui dois altares no encontro do arco que separa a restante parte do edifício da capela mor. Possui ainda na Ponta uma ermida da invocação da Senhora do Carmo. A vigia da baleia, uma cabina empoleirada em cima no alto do Pico da Vigia e que se projecta sobre o mar, donde se goza um estupendo panorama. Em tempos serviu a indústria baleeira, assinalando a presença de cachalotes na zona e coordenando a caça pelos botes baleeiros baseados no porto da freguesia. A capela de Santo António, no antigo largo do mesmo nome a Casa do Espírito Santo no lugar da Cuada, datada de 1841 e teatro da festa homónima no dia de Pentecostes, são outros locais de enorme interesse. A Cuada é um lugar pertencente à freguesia, habitado até aos anos sessenta, altura em que todos os seus habitantes emigraram para a América. Foi, então, recuperado e transformado num local de turismo de excelência, como um enorme testemunho de perseverança a seguir. A Cuada, com as suas casas e ruas recuperadas, personifica uma viagem entre o passado e o presente, uma recuperação da traça rural das pequenas casas de pedra, no meio duma paisagem delirantemente bela e estranhamente acolhedora. A Fajã Grande orgulha-se de ter sido o berço de algumas personalidades que, no seu tempo e à sua maneira, se notabilizaram. De entre esses, destacam-se o padre José António Camões, o padre José Luís de Fraga, pelos seus dotes de orador, escritor e músico; o senador André de Freitas e Pedro da Silveira crítico literário, historiador e poeta, com múltiplos trabalhos publicados.

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publicado por picodavigia2 às 10:06

ACRÓSTICO

Segunda-feira, 03.02.14

Caminha sobre tapetes de ternura, por entre alamedas de sonho,

Aromatiza as madrugadas com o perfume das flores e com o canto dos pássaros,

Transforma a sinuosidade das vielas que conduzem à esperança. E,

Antes que a noite chegue ou o luar se desvaneça,

Recolhe todos os raios de Sol dispersos no entardecer,

Impedindo que a escuridão chegue depressa e se apague o brilho das estrelas. Então,

Nunca mais haverá crianças sem amor, jovens sem felicidade,

Adultos sem paz, velhinhos sem alegria e resplandecerá para sempre o diadema da paz.

        

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publicado por picodavigia2 às 20:40

MOINHOS DE TREMOÇO

Segunda-feira, 03.02.14

O tremoço não é propriamente uma planta mas sim a semente de uma planta, designada por tremoceiro, embora, geralmente, se use a palavra tremoço para significar também a planta que o produz. A cultura do tremoceiro era muito frequente na Fajã Grande na década de cinquenta, sendo o tremoço utilizado com duas funções. Por um lado era utilizado como alternativa às forrageiras, servindo, nesse caso, de alimento apenas ao gado alfeiro. Para as vacas leiteiras a planta do tremoço era um fraco e mau alimento, por quanto fortalecia-as pouco e, sobretudo, porque provocava um sabor muito amargo e desagradável no leite. A outra razão porque se apostava, neste caso em larga escala, no cultivo do tremoço, era para utilizá-lo como adubo, em vez do estrume, sobretudo por ser mais prático, pois não era necessário acarretá-lo para as terras, como acontecia com o esterco ou o sargaço, uma vez que adubava a própria terra que o produzia. Cortado aos pedaços ainda em verde, o tremoço era estraçalhado e depois colocado e acalcado no fundo dos regos, ao lado de sementes e plantações. Acreditava-se que, devido ao azoto que possuía, o caule e sobretudo as folhas do tremoceiro tinham a vantagem de purificar os terrenos, enriquecendo-os para as culturas seguintes, nomeadamente da batata branca e da doce. Neste caso o tremoceiro era cultivado, unicamente para sideração e enterrava-se, geralmente, em regos feitos com o arado ou, excepcionalmente e em campos minúsculos, em covas feitas com a enxada, quando as plantas já estavam suficientemente crescidas. O objectivo era adubar e enriquecer o solo com substâncias orgânicas. Apesar de rico em proteínas, o tremoço muito raramente era empregado como forragem, devido ao seu sabor amargo.

O tremoceiro era plantado no Outono e, geralmente, a chuva encarregava-se de regá-lo, pois exige bastante água, sendo necessário recorrer à rega manual quando a planta secasse, embora na Fajã Grande nunca tal fosse necessário, uma vez que entre Outubro e Março, altura em que o tremoço florescia, as chuvas não rareavam. A colheita do tremoço era feita, geralmente, em Março. Costumava dizer-se que “.Cada cavadela, cada tremoço”, o que demonstra a facilidade do cultivo do tremoço e a sua importância em épocas anteriores.

Na Fajã Grande não era costume, como acontece em muitos locais do país, utilizar a semente do tremoceiro como alimento, nem muito menos como “petisco”. Assim, guardava-se, apenas, uma pequena parte do tremoço para amadurecer e dar fruto, sendo este destinado à semente.

Era nesta altura que se faziam os célebres moinhos de tremoço. Para a construção dos moinhos, todo o material era retirado do tremoceiro, excepto um alfinete de cabeça ou uma comprida e fina tacha, de que nos devíamos munir previamente. Depois era apenas construir o moinho. Para tal procurava-se uma das vagens maiores. Encontrada a mais conveniente e adequada, era necessário abri-la com muito cuidado, sobretudo para não a quebrar. Escolhiam-se dois grãos robustos e achatados, os quais eram perfurados ao meio com o alfinete de cabeça ou prego fino. Quem não os tinha pedia um emprestado, furava com ele o seu material e utilizava um pedacinho de madeira, o mais rija possível. Do mesmo modo se furava uma das cascas, mas o furo deveria ser dado rigorosamente no centro da mesma. Procurava-se, de seguida um caule do tremoceiro, do qual se retiravam todas as folhas e vagens, cortando-se-lhe a raiz. Junto à cabeça do alfinete enfiava-se um grão de tremoço, de seguida a folha e depois o outro grão, deixando uma pequena folga entre os grãos e a folha. Por fim, espetava-se o alfinete no caule do tremoço. Estava o moinho pronto, bastando para que girasse, colocá-lo contra ao vento.

Por altura da apanha do tremoço, as paredes e os recantos das terras onde ele se cultivara, se houvesse crianças, estavam crivadas de pequenos moinhos a girar com uma velocidade impressionante. Outras vezes eram as ruas repletas de crianças a correr empunhando os respectivos moinhos.

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publicado por picodavigia2 às 16:32

MALDADE

Segunda-feira, 03.02.14

“O mundo não está ameaçado pelas más pessoas, mas sim por aqueles que permitem a maldade.”

(Albert Einstein)

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publicado por picodavigia2 às 09:17

MARCELINO DE LIMA

Segunda-feira, 03.02.14

Marcelino de Almeida Lima nasceu na cidade da Horta, em 12 de Março de 1868 e faleceu em Lisboa, em 22 de Janeiro de 1961. Foi jornalista, romancista, historiógrafo e autor duma vasta bibliografia sobre a ilha do Faial. Ainda jovem, dirigiu com Júlio Lacerda, o semanário literário O Bibliophilo. Foi redactor principal do semanário literário e desportivo Revista Faialense e redigiu, com Florêncio Terra e Rodrigo Guerra O Fayalense. Foi um dos fundadores, da Sociedade Luz e Caridade e do Grémio Litterario Fayalense).

Genealogista de mérito, publicou um estudo genealógico sobre diversas famílias faialenses, incluindo notas históricas e redigiu os Anais do município da Horta, a sua obra de maior vulto, publicada em 1943.

Foi o último da plêiade de intelectuais que pontificaram na cidade da Horta, no fim do século XIX, como Florêncio Terra, Rodrigo Guerra, Zerbone, Garcia Monteiro, Manuel Joaquim Dias, Osório Goulart e Manuel Greaves.

As suas obras principais são: (1903), Indústrias caseiras in Álbum Açoriano, Francisco d’Utra de Quadros, Famílias faialenses: subsídios para a história da ilha do Faial, A loucura do ideal: miguelistas e liberais na ilha do Faial, Uma freira que pecou, A Discípula, Faial e Pico – ilhas gémeas, Anais do Município da Horta, A ilha do Faia, Judeus na ilha do Faial, Vocabulário regional das Ilhas do Faial e Pico e Almas cativas.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 08:39

INTRIGAS

Segunda-feira, 03.02.14

Iluminata aguardava, ansiosa, novas de seu amo. Deu-lhas Gemildo:

- Vosso estimado esposo, o meu amo e alcaide deste castelo não regressará, tão cedo a Trancoso. A moirama voltou a atacar e não desarma. Muitas das praças que havíamos conquistado, para além de Coimbra e Leiria, foram tomadas pelos mouros. D. Afonso Henriques, está para Zamora e não pode deslocar-se para o sul. Pretende reunir-se com o rei de Leão, para que este o reconheça definitivamente como rei e Portugal como reino independente Estará para breve a assinatura de um tratado para que tal determinação perdure pelos séculos dos séculos. El-rei e nosso senhor entregou a defesa da fronteira ao vosso esposo, o valoroso D. Paio de Farroncóbias, que por essa razão não pode regressar a Trancoso para vos ver e abraçar. Mandou-me a mim, com uma companhia de besteiros para vos trazer novas. Pelo caminho, porém fomos atacados pela moirama e um dos nossos homens ficou ferido. Mas por vontade de Deus Nosso senhor e intercessão de um dos seus servos, Joahannes Beltrasanas, a cujo enterro assistimos, foi curado.

Iluminata ao ouvir o nome de Beltrasanas tremeu. Interrogando o lugar-tenente se, não estaria em sua companhia um jovem discípulo do servo de Deus, de nome Banaboião, do qual queria saber novas.

Gemildo respondeu que fora Banaboião que aconselhara o guerreiro e o acompanhara ao túmulo do santinho, enchendo-lhe o peito de fé. Como Iluminata persistisse em saber mais notícias e o interrogasse contínua e persistentemente sobre Banaboião e manifestasse mais interesse em saber mais novas acerca dele do que do seu esposo D. Paio de Farroncóbias, Gemildo percebeu que um sentimento estranho trespassava o coração de Iluminata. Cuidando ele que estando Iluminata tanto tempo longe e afastada de seu esposo se teria aventurado em andanças amorosas que de contrário não indagaria tão pertinazmente sobre um estranho, decidiu ele aventurar-se amorosamente com a esposa de seu amo, senhora de Cangas e Freixomil, atirando-se a ela como Santiago aos mouros.

Iluminata ripostou radicalmente as exigências de Gemildo e repudiou-o gravosamente jurando por sua honra logo ali enviar emissários que informassem D. Paio dos vis intentos de seu servo, para que fosse ele  dar-lhe a merecida paga. O tredo Gemildo não se deu por vencido e perante damas, lacaios e criados do castelo, denunciou Iluminata, movendo contra ela a mais insidiosa calúnia, acusando-a de ter sido infiel para com o seu valoroso e nobre esposo o ilustre fronteiro, D. Paio de Farroncóbias, que combatia em terras das Beiras, com um tal Banaboião. De imediato mandou emissários a D. Paio a informá-lo de tão grande indignidade e tão vil afrontamento.

D. Paio de Farroncóbias recebeu a notícia do adultério da esposa com enorme dor, raiva e ódio. Apenas ouvindo o acusador, jurou vingar-se. Ao vil tredo que havia beliscado a sua honra, lavrou trágica sentença:

- Banaboião, filho de Pero Fogaça e de Aldonça, em casa de quem pernoitei no regresso de Ourique, será chicoteado 47 vezes, publicamente e enforcado, para que todos saibam quanta ofensa constituiu tal afronta e conheçam o que acontece aos traidores que ofendam a honra e a dignidade de D. Paio de Farroncóbias, que combateu ao lado de El-rei D. Afonso Henriques, alcaide de Trancoso, fronteiro de El-rei, portador de vinte gilvazes e balsão.

Por sua vez, para a impúdica, adúltera e ingrata esposa, Iluminata, D. Paio decretou:

- Será imediatamente enviada para uma gafaria, na ilha dos leprosos, tendo apenas o direito levar consigo um baú com a roupa necessária e um punhal para se defender, caso seja atacada opor algum leproso.

Pouco depois o honrado e nobre fronteiro seguiu, por ordens de Afonso Henriques, para o Alentejo à conquista de Beja.

 

Fonte – Aquilino Ribeiro, São Bonaboião Anacoreta e Mártir.

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publicado por picodavigia2 às 08:09

AS FEITICEIRAS (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Domingo, 02.02.14

Meu pai contava que quando era criança, aqui na Fajã Grande as pessoas mais idosas diziam que no seu tempo havia muitas feiticeiras, as quais só saíam de casa entre a meia-noite e a uma da madrugada. Dizia-se que quando chovia e fazia sol ao mesmo tempo, era para as feiticeiras se casarem. Também se dizia que elas se encontravam umas com as outras junto das fontes e nos cruzamentos dos caminhos onde dançavam nuas, mas ninguém asvia, pois eram invisíveis e nem sequer se conheciam, umas às outras. Se batesse a pancada da uma hora num relógio e elas não tivessem recolhido a casa, já não podiam mais entrar e tinham que ficar na rua para sempre e eram estas, pelos vistos, que depois andavam por aqui e por ali a fazer das suas. Como elas não sabiam que não podiam ser vistas mesmo de dia, escondiam-se em furnas e buracos aí para cima, na rocha e nos matos ou então no baixio, junto do mar.

Meu pai também contava que uma vez houve uma feiticeira que se descuidou e deixou que batesse a uma hora da manhã sem ir para casa. A pobre desgraçada foi apanhada por um homem, toda nua, que a reconheceu e viu que era sua própria mulher. Desesperada, a maldita fugiu e atirou.se ao mar e nunca mais apareceu. Também contava meu pai que outra vez uma mulher, numa noite, estando na cama, de repente, começou a sentir uma coisa muito pesada em cima de si. Ficou muito agoniada e aflita mas não conseguiu gritar nem sequer falar. Apenas conseguiu dizer baixinho a palavra “credo”. Nesse momento começou a sentir o peso a diminuir e a ficar menos agoniada. De seguida, benzeu-se três vezes, uma em nome do Pai, outra do Filho e outra do Espírito Santo e meteu-se debaixo dos cobertores, com a cabeça coberta e nunca mais voltou a ser importunada por nada semelhante. Outra vez, contava ainda meu pai, um homem saiu de casa à meia-noite e encontrou uma galinha preta. Começou a enxotá-la mas a galinha cada vez mais se aproximava dele. Então o homem começou a dar-lhe pontapés e a cada pancada que se lhe dava, a galinha cantava. Foi então que ele viu que era uma feiticeira que estava metida no corpo da galinha. Meu pai contava muitas mais estórias de feiticeiras, que aconteceram, antigamente, aqui na Fajã Grande. Ainda me lembro de outra. Contava ele que há já muitos anos uma mulher que foi cozer o seu pão a casa de uma amiga, que lhe emprestara o seu forno, pois dizem que antigamente havia poucos fornos e era luxo que os pobres não podiam ter. Mas como a amiga precisava do forno, a mulher só pode cozer o pão de noite. Quando se veio embora para a sua casa com o cesto do pão à cabeça, faltavam cinco minutos para a uma hora da madrugada. A mulher seguia o seu caminho quando, de repente, viu um cavalo a correr atrás de si e muito aflita fugiu para um balcão de pedra de uma casa que ali se encontrava. O cavalo foi atrás dela mas assim que soou a badalada da uma da manhã, o cavalo desapareceu misteriosamente. A mulher nunca mais o viu e lá seguiu, cheia de medo, para a sua casa, mas nunca mais saiu de casa sozinha nem para cozer pão nem para nenhuma outra coisa.

Era assim antigamente! Estórias e mais estórias de feiticeiras não faltavam, aqui na Fajã Grande!”

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publicado por picodavigia2 às 22:39

A CASA DO CABRAL

Domingo, 02.02.14

A casa do Cabral, na Assomada era outro das mais imponentes construções da Fajã Grande e o mais emblemático daquela rua, na década de cinquenta. Tratava-se de uma casa de habitação de planta em forma de "L", como a maioria dos edifícios mais majestosos da freguesia e tinha dois pisos. Implantada na frente de rua, com a frente voltada a este, estava, na altura, divida em duas moradias. A norte morava o Cabral e a sul o Francisco Inácio.

Caiada de branco com barras cinza, a fachada principal era delimitada por uma faixa que simulava o soco, pelos cunhais e pela cornija. Tinha três portas no piso térreo, com um óculo oval entre as duas portas do lado esquerdo. Sobre cada porta existia um vão ao nível do piso superior, sendo o central uma janela de sacada com varanda e guarda em ferro fundido e os outros, duas janelas simples e de peito. Na vertical do óculo havia uma faixa estreita, de aspecto mais recente que divide os dois fogos, mas sinal de que em tempos idos, o edifício seria habitado só por uma família.

A fachada lateral norte correspondia ao braço do "L" e tinha, no piso superior, uma porta de acesso à primitiva cozinha e duas janelas de peito. No topo deste braço do "L", a encimar a cozinha, havia uma chaminé de grandes dimensões. Havia também uma escada exterior, adossada à fachada lateral esquerda, que liga esta esta porta do piso superior e a outra, situada ao nível do piso térreo, que fica semienterrada. Ao lado um balcão, de baixo do qual existia uma cisterna de água, recurso muito já muito pouco frequente na Fajã Grande, na época de cinquenta, uma vez que a greguesia fora abastecida de água nos finais da década de quarenta.

Actualmente o edifício ainda está em óptimas condições, tendo-se procedido, frequentemente à sua manutenção. É construído em alvenaria de pedra rebocada e pintada de branco, excepto o soco, a faixa divisória e a cornija que são pintados de cinzento e os cunhais, a consola da varanda e as molduras dos vãos que são em cantaria à vista. A cobertura é de quatro e duas águas em telha de meia-cana tradicional com beiral duplo e telhão de cimento pintado de branco na cumeeira.

Identificado como a “Casa do Cabral” este edifício faz parte integrante daquilo de que mais importante o simples e pobre património arquitectónico da Fajã Grande e constitui um dos seus elementos mais importantes e de maior significado.

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publicado por picodavigia2 às 12:58

BATATA-DOCE

Domingo, 02.02.14

O Sol emerge benevolente e acariciador. Os seus raios cálidos e desenfreados hão-de proteger a safra. A batata-doce quer-se plantada no crescente e apanhada no vazante lunar e com um Sol quentinho e enternecedor, ao qual deve fica            exposta, como que enternecendo-se, adocicando-se e, sobretudo, secando.

Hoje como ontem, a batata-doce tem a sua génese na rama do canteiro. Meu pai fazia-o, com requinte e excelência, junto de casa, a fim de que pudesse ir acompanhando o crescimento da rama que exigia, nos dias em que a chuva teimava em cair, uma rega abundante. Meu pai cavava no local escolhido da “terra da porta” um enorme e profundo fosso, geralmente de forma quadrangular e cujo fundo era bem forrado com milheiros, formando uma espécie de gradeamento ou rede para que a água da chuva ao cair sobre o canteiro, penetrando a terra, não enxurrasse mas antes escorresse a fim de que as batatas não apodrecessem. Depois cobria a camada de milheiros com erva que lhe tapasse as ranhuras, sobre a qual deitava pás e pás de terra e sobre esta, uma boa quantidade de esterco de vaca, que era coberta também com uma outra camada de terra sobre a qual, então, se colocavam as batatas-doces deitadas, muito direitas e juntinhas, sendo por fim todas muito bem cobertas com uma grande camada de terra muito bem alisada na superfície superior, para que a rama nascesse fofa e direitinha. Ao redor do canteiro era aberto um rego mais profundo do que a camada dos milheiros para que assim toda a água coada por aqueles escorresse para fora do canteiro. Finalmente e a toda a volta, mas do lado de fora do rego, semeava-se um carreiro de milho, o mais basto possível, o qual tinha uma dupla finalidade: ser o bardo protector da “planta” que o canteiro havia de produzir e dar maçarocas para se assarem ou cozerem, uma vez que o milho dos campos tinha outro destino. Passada uma ou duas semanas começava a rama da batata a nascer e a crescer muito verde e basta. Ao fim de três ou quatro semanas estava pronta a ser cortada e levada para os campos.

Nas terras do Porto, das Furnas e do Areal, porque mais férteis e bafejadas pelos ventos marítimos (embora por vezes estigmatizadas pela salmoura) a rama da batata-doce era plantada entre o milho, depois de este ser semeado ou quando começava a nascer. Às mulheres e, por vezes, à criançada competia a tarefa de ir à frente, “espalhando” a rama sobre a terra. A distância entre cada planta deveria ser de um palmo se a mão fosse grande ou de dois para as mãos das crianças. Assim tarefa dos homens, de ir atrás com uma enxada enfiando a planta na terra, tornava-se mais fácil, rápida e eficiente. É que, definido e delineado o local da plantação de cada pé, pelos que iam à frente a “espalhar”, aos homens competia apenas a tarefa de dar uma cavadela com a enxada de “plantar batata-doce” – um enxada mais pequena e de cabo mais curto. Depois a rama crescia viçosa e ramalhuda, enquanto debaixo da terra, miraculosamente, iam-se desenvolvendo e tomando forma enormes batatas. Nas terras mais secas e áridas da Bandeja, das Queimadas, do Mimoio, da Ladeira e do Outeiro tudo era diferente. A batata-doce era plantada de “latada”, isto é, isolada e não em conjunto com qualquer outra cultura. Enquanto as batatas das terras junto do mar cresciam por si e abruptamente ente o milho, as das terras interiores tinham que ser sachadas, mondadas, devendo-lhe ainda ser revirada a rama de forma a lhes arrancar as diversas raízes apócrifas, localizadas ao longo do caule e que se iam fixando no terreno, exigindo um desnecessário esforço e consequente desperdício de energia da planta, impedindo ou dificultando o desenvolvimento da batata.

Chegava a altura da apanha. As batatas das terras do litoral, graúdas e rechonchudas mas muito aguadas e pouco saborosas, eram destinadas à alimentação dos porcos, enquanto a rama, mesmo crivada de bichos horrorosos, constituía um excelente alimento para os animais bovinos. As batatas das terras do interior eram, por sua vez, muto rochas, secas, adocicadas e brancas por dentro, a abarrotar de “carnegão” e que umas vezes eram cozidas outras assadas no forno e constituíam um excelente alimento com que se acompanhava o conduto, naqueles tempos, pouco abundante. Por isso é que muitas vezes as batatas-doces comiam-se sem nada, sobretudo as assadas. Eram excelentes!

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publicado por picodavigia2 às 09:26

FLOR DO GIZ

Domingo, 02.02.14

A flor do giz é branca,

Branca como a esperança,

Mascarada de neve,

Coberta de merengue.

 

Engano!?

O giz não tem flor,

Tem apenas cor,

Que desenhada em verso,

É tão bela como uma flor.

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publicado por picodavigia2 às 00:45

O EMIGRANTE DE SÃO CAETANO

Sábado, 01.02.14

Crónica de Lélia Nunes, publicada no “Portuguese Times”, edição nº 2113, de 21 de Dezembro de 2011.

 

“No último dia 12 de novenbro, juntamente com a comemoração do 20º aniversário, a Portuguese-American Leadership Council of the United States – PALCUS (Conselho de Liderança Luso-Americana dos Estados Unidos), em noite de gala realizada na cidade de  Washington, homenageou  algumas personalidades portuguesas ou luso-americanas que se destacam por sua liderança no exercício profissional  e/ ou na realização de atividades  comunitárias de expressivo valor para  o desenvolvimento  das  Comunidades Portuguesas dos Estados Unidos. Uma tradição instituída em 1996 e que ano após ano vem distinguindo e premiando homens e mulheres que são reconhecidamente líderes em diferentes campos de atuação.

Divulgada a lista dos  galardoados aplaudi as respeitadas e reconhecidas  lideranças femininas da  Dra. Berta Cabral, presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada ( Prêmio de Liderança Internacional) e da Professora Maria Pacheco, Universidade de Brown (Prêmio de Liderança em Educação). Outros nomes integravam a tal lista de premiados e todos com certeza merecedores da distinção atribuída pela  PALCUS.

Foi com muitíssima satisfação que identifiquei entre os homenageados  “António Pereira Vieira Goulart” -  o  amigo Tony Goulart - ali  distinguido com a outorga do Prêmio de Liderança em Serviços Comunitários.  Lembro bem do dia que ouvi falar do Tony pela primeira vez. Na verdade, primeiro conheci o senhor António Goulart. O ano era 2002 e o lugar Casa do Povo de São Caetano, na Ilha do Pico. Era domingo do Espírito Santo e a Casa do Povo engalanada recebia toda a freguesia e mais gente de outros lados  que, no grande salão, esperavam  pela  tradicional Sopa do Espírito Santo. Um espanto! A azáfama era grande. Homens e mulheres se movimentavam em diferentes funções recebendo os convivas do grande banquete. Já na entrada deparei com centenas e imensas rosquilhas de massa sovada colocadas em açafate de vime, guarnecido por toalha branca, de renda ou linho, enfeitadas com flores do campo.

 Naquela altura eu ainda não percebia bem o que se passava num ritual de sopas. O salão decorado com simplicidade e elegância apresentava inúmeras fileiras de mesas cobertas com toalha branca, flores, uma garrafa de sumo, outra de vinho e muito pão. Entre flores, cetim encarnado, fitas, toalhas rendadas e candelabros onde velas tremulantes compunham um ar de sagrado ao bonito arranjo de um altar, coroas e bandeiras do Espírito Santo se destacavam no amplo salão. Abençoavam àquela Casa do Povo onde os devotos do Divino partilhavam a dádiva do alimento numa sentida  convivência fraterna. Meus olhos ávidos e curiosos por mais saber percorriam tudo na ânsia de registrar e não deixar escapar nada. A mini agenda estava cheia e não tinha espaço para novas anotações. O jeito foi rabiscar em guardanapos de papel as  minhas observações e informações que iam sendo passadas na simples menção de que eu estava ali como uma investigadora das tradições açorianas do Espírito Santo. Foi num desses guardanapos que anotei o nome de António Goulart um emigrante na Califórnia, nascido bem ali em São Caetano e que organizara e publicara no ano anterior o livro “The Holy Ghost Festas: A Historic Perspective of the Portuguese in California”. Afinal, fiquei sabendo que o senhor António era um emigrante muito ligado ao associativismo comunitário português na região de San Jose, no estado da Califórnia  e um empresário da construção civil muito bem sucedido. Cursara o 9º ano do Seminário nos Açores e aos 20 anos  emigrara para a América atrás do sonho – California dream, percorrendo o caminho árduo de todo emigrante na busca do seu norte seguro. De volta ao Brasil  busquei no guardanapo rabiscado o endereço anotado (da Câmara de Comércio Portuguesa em San Jose) e escrevi ao senhor solicitando informações sobre a aquisição da tão referenciada obra sobre a história do Espírito Santo na Califórnia.

Semanas depois chegou o “livrão” do Divino. Encadernado, bonito, a capa era  a imagem da própria bandeira do Espírito Santo. Muitos textos e imagens, testemunhos de toda uma história de vivências e mundividências de pertenças a mundos distintos e identificados pelo peso do hífen, que tão bem enfatiza Onésimo Teotónio de Almeida em seus ensaios sobre a experiência luso-americana (in: O Peso do Hífen,2010). Junto ao livro uma atenciosa carta de oferta e uma pergunta ao pé da página: “Como você descobriu São Caetano? Tony Goulart.”

Desse dia em diante, António Pereira Vieira Goulart passou a ser  simplesmente Tony Goulart, um açoriano dedicado a sua comunidade, assumindo e realizando inúmeros projetos sociais econômicos e culturais que contribuem para o desenvolvimento pleno de uma região que tem na sua história a presença do emigrante açoriano, aquele que “através dos tempos procurou noutras terras espaço, pão e justiça, que levava na mente a  esperança de riqueza, às  costas, sua ilha e no seu coração, o culto ao Espírito Santo.” Palavras de Manuel Duarte e que aqui cito de cor. Sua liderança inconteste em dezenas de atividades comunitárias que efectivamente participa na defesa da causa portuguesa e sua atuação como coordenador da editora Portuguese Heritage Publications da Califórnia, cuja finalidade precípua é salvaguardar e divulgar a história da presença portuguesa na Califórnia, com dezanove títulos  publicados, verdadeiros registros documentais, não deixam a menor duvida que a sua trajetória por terras da abundância foi abençoada. Sim, por tudo que tem feito em prol das comunidades o Tony Goulart é

merecedor de todas as homenagens recebidas em sua vida como recentemente nos Açores, no dia da Região, na segunda-feira do Espírito Santo ou como a que acabou de receber - “Prémio de Liderança em Serviços Comunitários,” num reconhecimento da egrégia associação luso-americana PALCUS, entidade com expressiva representatividade de portugueses em diferentes estados norte-americanos.

Enfim, o ousado sonho do jovem emigrante de São Caetano do Pico se transformou numa invejável realidade.

Parabéns Tony Goulart!”

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publicado por picodavigia2 às 18:37

FRÁGIL

Sábado, 01.02.14

MENU 27 – “FRÁGIL”

 

 

 ENTRADA

 

Canapés de tosta húmida, fiambre, pimentos e queijo ralado,

 intercalados com rodelas de cenoura acamadas sobre alface e cobertas com creme de queijo fresco com sabor a salmão.

 

PRATO

 

Canelloni recheados com creme de salmão, cebola, alho e cenoura, guarnecidos com pimento laranja. Fitas de alface  e massa cortada em tiras, borrifadas com azeite e vinagre balsâmico e cobertas com nozes.

Rodelas de queijo fresco regado com doce.

 

SOBREMESA

 

Maçã natural e Gelatina de Morango..

 

 

******

 

Preparação da Entrada: Cozer a cenoura. Cortá-la em rolas, colocando-as no prato juntamente com as tostas, depois de as humedecer em caldo. Cobrir as cenouras com queijo creme de salmão e acamá-las sobre ripas de alface. Fazer os canapés colocando  sobre as tos húmidas tiras de fiambre e de pimento e um pouco de queijo rsls

 

Preparação do Prato – Cozer as cenouras, o peixe e a cebola. Esmagar e juntar um pouco de água, formando um creme com que se recheiam os canelloni, cortados em quatro. Colocá-los erguidos em prato ao redor de um amontoado feito com alface e maça picadas e borrifadas com azeite e vinagre balsâmico. Ladear com triângulos de queijo fresco, cobertos com doce de compota.

 

Preparação da Sobremesa - Confecção tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 16:51

HOMENAGEM E GRATIDÃO

Sábado, 01.02.14

O vento soprava, fortíssimo, de noroeste e entrava pela pequena baía, ornada de molhes e pontões, agitando e revoltando o mar, lançando-o, abruptamente, sobre os baixios negros, crispando-o em ondas altíssimas, temerosas e inquietantes, apesar de deslumbrantemente encantadoras. O Faial, mesmo em frente, bocejava um nevoeiro sombrio e relutante e soluçava murmúrios de um dolente e aflitivo isolamento. São Jorge, apesar de não muito longe, nem se via. Apenas o Pico se firmava muito alto, esguio, sereno e constante, escarrapachado sobre o oceano, a simular uma enorme pirâmide entontecida. A Madalena, alheando-se a ventos e maresias, desfazendo o seu marasmo habitual, erguendo-se em apoteóticos alentos, como que se engalanava, emocional e emotivamente, para prestar uma simples mas sentida homenagem e manifestar o seu profundo agradecimento, àquela que foi a pioneira da criação e do desenvolvimento do ensino preparatório e secundário, na mais jovem vila da ilha montanha, nas últimas décadas do século passado – Cecília Amaral. Os picoenses e os madalenenses em particular souberam antanho e ainda sabem hoje, melhor do que ninguém, neste caso pela voz do seu presidente, José António Soares, que a gratidão é um dos mais belos sentimentos que o ser humano tem o dever de manifestar e que o acto de agradecer é um valor, uma espécie de trunfo de que disfrutam para selar o mérito, a competência, o trabalho e, sobretudo, a dedicação de quem se entrega, total e dedicadamente, ao serviço dos outros, ali, na ilha. E quando todo um tão vasto e cristalino acervo vivencial, como o da homenageada, circum-navega em prol da educação e da formação humana, as loas ao mérito e as gratulações de reconhecimento pelo trabalho realizado e pela dedicação empreendida, mais do que um dever, são uma imposição. A simplicidade, a doçura, o encanto, a simpatia, a sinceridade e amizade verdadeira que sempre pautaram o quotidiano de Cecília Amaral engrossaram a vontade de estar presente, de comungar um momento de enlevo, de partilhar um acto de homenagem e agradecimento. Assim o entenderam a vila, o Concelho e a Câmara Municipal da Madalena do Pico, juntamente com um bom número de populares – a maioria antigos alunos, alguns professores, misturados com dois resistentes dos inícios da década de setenta - quando no passado dia 8 de Março – dia da mulher e 290º aniversário da criação do Concelho da Madalena – se juntaram num acto de homenagem e gratidão, no bairro do Granel, ali nos arrabaldes do Centro de Saúde, recordando, agradecendo, preiteando e perpetuando a memória, gravando-lhe o nome no basalto negro duma rua.

Na realidade, Cecília Amaral tem o seu percurso pedagógico radicalmente acorrentado à implementação e ao desenvolvimento do ensino, não apenas na Madalena mas na ilha do Pico. Leccionando, no início do seu percurso pedagógico, como professora do então chamado ensino Primário, nas escolas da Candelária e da Criação Velha, a partir de meados da década de cinquenta iniciou, em sua casa, o acompanhamento pedagógico de um bom punhado de alunos, preparando-os para os exames de admissão ao Liceu. Mais tarde, estendeu, progressivamente, as suas explicações a muitos dos alunos que, na altura, se auto propunham fazer exames liceais.

Na segunda metade da década de sessenta e face ao crescente número de alunos que a procuravam e porque na ilha não havia nenhuma escola oficial ou particular, nem do ensino preparatório nem do secundário e as ofertas de disponibilidade de ensino muito reduzidas, sendo os alunos do Pico obrigados a se deslocarem para o Faial, simplesmente para tirar o segundo ou o quinto ano, Cecília Amaral alargou a sua actividade docente, em conjunto com outros colegas e amigos professores, utilizando espaços públicos da vila e até casas particulares. Eram os primórdios da criação e instituição do ensino na vila da Madalena, obstando a que milhares de alunos interrompessem os estudos após a conclusão do ensino primário e impedindo muitos outros de se descolarem para a ilha vizinha ou para paragens mais longínquas.

No início dos anos setenta e porque o número de alunos se agigantava, Cecília Amaral, sentindo a necessidade de instalações próprias, lançou-se, sem apoios e a suas expensas, na construção do edifício onde durante décadas funcionou o Externato Particular da Madalena e onde actualmente funciona a Escola Profissional. O Externato então criado, manteve-se em actividade, como única escola dos ensinos preparatório e secundário, no concelho da Madalena, até quase ao fim do século passado, altura em foi criada a Escola Cardeal Costa Nunes.

Mas Cecília Amaral não pautou a sua vida, apenas pela docência. Desenvolveu, juntamente com o marido e outros familiares, uma importante actividade a nível empresarial, com incidência, nas áreas do comércio e dos transportes.

A Assembleia Regional dos Açores, já lhe havia reconhecido o mérito, entregando-lhe, no dia da Região, a insígnia honorífica de mérito, considerando-a, na actualidade, como uma das mais importantes personalidades da ilha do Pico.

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publicado por picodavigia2 às 16:36

A FILHA REJEITADA

Sábado, 01.02.14

(CONTO POPULAR)

 

Era uma vez uma mulher muito bonita que tinha uma estalagem e a todos os homens que lá se hospedavam perguntava se tinham visto uma mulher mais bonita do que ela. Ela tinha uma filha mais bonita do que ela mas mantinha-a fechada para ninguém a ver. Disse-lhe um dia um almocreve, depois dela lhe fazer a pergunta habitual:

- Ainda agora ali vi uma mulher mais bonita do que vossemecê, debruçada a uma janela a pentear os seus belos cabelos.

-Ai, sim! É a minha filha. Vou mandar matá-la.

E mandou dois criados levá-la a um monte para a matar, mas a rapariga pediu-lhes que a não matassem, que a deixassem abandonada ali, mas viva, que prometia não mais voltar a casa da sua mãe. Os criados tiveram dó dela e deixaram-na, sozinha, no monte. Ela foi andando, chegou a uma serra e viu uma casa que parecia abandonada. Era noite e ela com intenção de pedir guarida, bateu à porta, mas não encontrou ninguém. Entrou para dentro e fez a ceia, e assim que a acabou de a fazer, escondeu-se. Nisto chegaram uns ladrões que vinham de fazer um roubo e, depois que viram a ceia feita, começaram a dizer:

- Ai! Que bom! Quem nos dera saber quem é que fez a ceia. Se por aí está alguém, apareça.

A rapariga apareceu-lhes e contou-lhes a sua sorte. Eles, lamentando o sucedido disseram-lhe:

- Agora não se aflija. Há-de ficar connosco e havemos de trata-la como nossa irmã.

Daí por diante os ladrões lá iam para os seus roubos e ela ficava sempre a arrumar e a limpar a casa e fazer-lhes a comida. Eles estimavam-na, respeitavam-na muito e tratavam-na com amizade e carinho.

Ora havia uma velhota que ia muitas vezes à estalagem da mãe dela que andava sempre em recados por muitas terras. Certo dia, a mãe disse-lhe:

- Você, como anda por muitas terras, diga-me se já viu uma cara mais linda do que a minha?

E ela disse-lhe:-

Vi, vi uma rapariga que ainda era mais linda que você, num monte, muito distante daqui.

- Você quando volta para lá? Quero que lhe leve uns sapatos.- E deu uns sapatos à velha, dizendo-lhe:

-Leve-lhos e diga-lhe que é a mãe que lhos manda; mas ela que os calce antes de você de lá sair; eu quero saber se é certo que ela os calça, a fim de ter a certeza de que é a minha filha. Olhe que eu pago-lhe bem.

A mulher levou os sapatos à filha. Ao chegar lá, disse-lhe:

- Aqui tens estes sapatos, que te manda a tua mãe.

A rapariga respondeu

- Eu não quero cá sapatos nenhuns; meus irmãos dão-me quantos sapatos eu quiser; não os quero.

A velha teimou tanto com ela que a rapariga pegou neles; calçou um, fechou-se-lhe um olho; calçou outro, fechou-se-lhe o outro olho e ela caiu morta. Depois vieram os ladrões, choraram muito ao pé dela, lastimaram muito a morte dela e depois disseram: «Esta cara não há-de ir para debaixo da terra; levemo-la num caixão à serra que vem lá o filho do rei à caça para ele ver esta flor.»

Depois levaram-na a esse sítio; veio o filho do rei e viu-a e achou-a muito bonita e depois tirou-lhe um sapato e ela abriu um olho, tirou-lhe outro, abriu outro olho e ficou viva. O príncipe levou-a para o seu palácio e casou com ela e foram felizes para sempre.

 

Conto Popular, baseado na versão de Adolfo Coelho

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publicado por picodavigia2 às 16:20

SÃO CAETANO DO PICO

Sábado, 01.02.14

No site da Câmara Municipal da Madalena, ilha do Pico, pode ler-se o seguinte, sobre a freguesia em epígrafe: “São Caetano é a mais jovem freguesia, instituída em 2 de Outubro de 1880, situa-se na parte sul do concelho e da ilha do Pico, entre as freguesias de São Mateus e São João. Localizada a dezoito quilómetros da sua sede concelhia, engloba os lugares de Prainha do Galeão, Caminho de Cima e Terra do Pão.

Alojada no regaço de uma pequena baía, onde assenta o Porto da Prainha, esta freguesia possui grande beleza, em boa parte, conferida pela sua posição geográfica. Instalada entre o mar e a montanha do Pico, é sulcada por ravinas designadas por quebradas, sendo a freguesia mais próxima desta montanha.

Ocupa uma área de 24,36 quilómetros quadrados e é demarcada por diversas elevações designadas cabeços: o da Prainha e o do Mistério, a Rocha Vermelha e o Paul. Cruzam este território as ribeiras: da Prainha, do Diluvio, da Cancela, da Grota, da Laje e a Ribeira Grande.

Os trilhos, primitivos acessos situados entre o mar e a montanha, conduzem qualquer viajante ao rico património paisagístico desta localidade, destacando-se o trilho da canada de São Caetano que se inicia junto à Prainha do Galeão em forma de escadaria; a canada da Ribeira da Prainha, trilho que ligava a Prainha do Galeão à parte superior da freguesia e que era usado por pescadores e baleeiros; o Largo das Fontes, acesso às pastagens de São Caetano e famoso pelas suas fontes.

Os primeiros colonos da região fundaram a povoação na zona, hoje, denominada por Prainha do Galeão, onde Garcia Gonçalves ali fez construir um galeão como forma de pagamento de dívidas ao rei Dom João III.

Sendo estes colonizadores muito devotos de São Caetano, sacerdote de Vicenza, elegeram-no como orago do povoado, logo nos primeiros tempos. Francisco Pires Flores mandou edificar uma pequena ermida em sua honra, no mesmo local onde actualmente se encontra um nicho com a imagem primitiva do santo.

Em 1878 foi iniciada a construção da igreja paroquial de São Caetano, mas a escassez de madeiras causou grande atraso na obra, agravado ainda por uma forte tempestade que se abateu sobre a ilha. Na mesma época naufragou na zona da Prainha um barco oriundo de Vicenza carregado de trigo que acabou por fornecer abundante madeira para a finalização do templo.

A agro-pecuária e a pesca continuam a ser a base de sustento da economia local, porém outras actividades se desenvolvem tais como a carpintaria, panificação, pequeno comércio e turismo.

O desenvolvimento cultural desportivo e de espaços de lazer é apoiado pelas associações e colectividades locais graças ao animado interesse da população que fez surgir os clubes de voleibol e de ténis de mesa, o Grupo Folclórico da casa do povo e o famoso grupo de música popular " Ronda das Nove" que com muita competência e orgulho promove a música de temática tradicional dos Açores.

Património histórico, cultural e natural: Igreja Matriz, Ermida de Santa Margarida, Impérios do Espírito Santo, Casas Rurais com balcão, Zona das Adegas, Casas dos Botes, Casa do Povo, Antigos Trilhos pedonais, Poços de Maré, Largo das Fontes e Baía da Prainha do Galeão - Zona Balnear.”

O mesmo site ainda informa que a freguesia possui uma população de 479 habitantes e que as suas actividades económicas mais importantes são a agricultura, a pecuária e a pesca, sendo as principais festas a de São Caetano, a de Santa Margarida e a de Nossa Senhora da Assunção, esquecendo as do Espírito Santo, uma, na Prainha, na terça-feira seguinte ao domingo de Pentecostes e outra em Julho, no Império da Terra do Pão.

No que ao património arquitectónico da freguesia diz respeito, o site destaca: Igreja Matriz, Ermida de Santa Margarida, Impérios do Espírito Santo, Casas Rurais com balcão, Zona das Adegas, Casas dos Botes, Casa do Povo, Poços de Maré e Largo das Fontes. Esclareça-se, no entanto, que a igreja de São Caetano, não tem o estatuto de “matriz”, uma vez que nunca originou nenhuma outra, o mesmo não acontecendo com a de São Mateus.

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publicado por picodavigia2 às 13:54

EMÍLIO PORTO

Sábado, 01.02.14

Faz agora precisamente um ano, que “Farol da Ponta”, uma das, até então, mais insignes e respeitáveis colunas do jornal “O Dever”, se apagou. Infelizmente pela razão mais triste, pesarosa e angustiadora. O falecimento do responsável quer pela criação quer pela manutenção semanal, naquele semanário lajense, duma coluna, intitulada “Farol da Ponta”.

A família, os amigos, a vila das Lajes e a ilha do Pico choraram a sua morte, por quanto ela significava uma perda de vulto, não apenas do colunista do “Dever”, mas sobretudo e especialmente de um músico de elevada craveira, de um maestro de inquestionável competência. Que o diga o Grupo Coral das Lajes do Pico, que, na semana passada lhe prestou condigna, justa e merecida homenagem.

Na realidade foi nesta área que Emílio Porto marcou a sua presença, contribuindo, com o seu trabalho e mestria, para o desenvolvimento da cultura musical açoriana. Desde os tempos de aluno do Seminário de Angra, onde, não apenas, fez grande parte da sua formação, mas também onde já se distinguiu como músico insigne, regente de capela e de grupos corais, que Emílio Porto se consagrou como um dos mais insignes músicos e maestros açorianos. Como ele próprio confessou, foi o ambiente musical do Seminário que o motivou para música, pois segundo ele: “O ambiente musical que se vivia no Seminário em 1950 era o reflexo de uma tradição forte nas ilhas açorianas. Consequências, talvez, dos apelos do Motu Próprio do Papa Pio X, e também da necessidade de ir ao encontro das pessoas que viviam em quase isolamento total. Os padres deveriam saber música para poderem ensinar e exercer condignamente as funções litúrgicas da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, contribuir para o seu desenvolvimento cultural. E continuou a ser assim. (…) No meu primeiro ano lectivo - 1950-1951 - assisti na minha cadeira, ao fundo do salão, ao concerto do Orfeão do Seminário, na festa de São Tomás de Aquino. Aí ouvi, pela primeira vez, as primeiras palavras do hino do Seminário "Se há grandeza, no mundo, é aquela..." O Seminário respirava música por todo o lado. Que me contagiou. A partir do primeiro ano esteve sempre presente. Nessa mística me integrei. Desde as primeiras noções do solfejo entoado, à teoria musical e História da Música, e às práticas musicais curriculares e ocasionais. E depois, pela vida fora, até hoje.”

A morte de Emílio Porto, há um ano, no entanto, para além da enorme perda que constituiu, a nível musical, também fez silenciar as colunas deste jornal e o seu blogue “Alto dos Cedros, onde divulgava a maior parte dos seus escritos. Neste aspecto também constituiu e constitui uma perda irreparável.

Conheci o Emílio Porto, quando em Setembro de 1960, demandei, pela primeira vez, o Seminário de Angra. Recordo-me de o ver assomar à janela do seu quarto, voltada para os “miúdos”, sempre sério e pensativo, a descer os degraus dos teólogos, a correr para a sala seis, a fim de chegar a tempo à aula de Teologia, a jogar voleibol no campo junto à cozinha, a percorrer as ruas de Angra, com passagem pelo pátio da Alfândega e, sobretudo, a reger, com mestria, elegância e emoção, a capela do Seminário. Frequentava o décimo primeiro ano e eu, o terceiro. As normas de um regulamento interno, rígido e rigoroso, impediam a comunicação diária entre os alunos das três prefeituras, quebrada apenas, nas manhãs de Natal, nos dias de Festa, nos ensaios do orfeão e pouco mais. Não era de muitas falas, nem se metia em graçolas ou brincadeiras com os mais pequenos. Tinha, no entanto, um ar alegre, prazenteiro, solene, digno, concentrado e trabalhador, revelando já dotes extraordinários e inexauríveis, a nível da formação musical.

Anos mais tarde, embora em tempos diferentes, cruzei-me com ele em São Caetano do Pico, substituindo-o, nas inúmeras actividades em que ele ali se envolvera e a que procurei dar continuidade e prosseguimento. Em São Caetano do Pico, Emílio Porto, para além de granjear o respeito, a consideração e a estima de toda a população, deixou uma obra notável. Dedicado à juventude, que acompanhava em todas as actividades e com quem se envolvia em todos os acontecimentos, com destaque especial para a música e também para o teatro, Emílio Porto deixou ali uma obra notável, marcando positivamente uma geração.

Mais tarde serviu o exército português no ultramar, durante a guerra colonial, realizando duas comissões de serviço em Angola. A forma como o fez, estabelecendo a amizade como estandarte da guerra e a verdade como lema de vida, granjeou-lhe o respeito, a consideração e a estima de quantos com ele conviveram. A atestá-lo os variadíssimos testemunhos de quantos acompanhou naquelas missões e os encontros regulares que, passados quarenta anos, ainda mantinha com os seus camaradas de guerra.

A partir de então, perdi-lhe as pegadas. Sei, no entanto, que, quer como homem, quer como cidadão ou professor e ate como político, teve sempre um comportamento digno, nobre e exemplar, pautado por um empenhamento honesto, por uma competência fluente, por uma dignidade desmedida e por uma humildade transparente, que nem o Grau de Comendador, com que foi agraciado pelo presidente Jorge Sampaio em 2008, nem a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico que a Assembleia Regional dos Açores lhe atribuiu, haviam de desfazer.

Quis o destino que, nos últimos tempos, nos reencontrássemos e restabelecêssemos uma amizade recíproca, íntima, sã e enternecedora, a nível individual e familiar. Não apenas em encontros frequentes, que agora podíamos fruir, mas também no “Alto dos Cedros” e no “Pico da Vigia”, onde, dia após dia, íamos fazendo deslizar memórias de um passado que, afinal, tinha muito em comum.

Como herança final, haveria de ser eu a dar-lhe continuidade nesta coluna, embora muito longe da competência que nele refulgia. Apenas e tão só, até porque de maneira diferente, para que este “Farol da Ponta” que ele criou com tanto interesse, continuasse a cintilar.

 

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publicado por picodavigia2 às 12:18

UM PASSEIO A CAVALO

Sábado, 01.02.14

(TEXTO DE VITORINO NEMÉSIO)

Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas. Dos lados da estrada da Caldeira sentiu-se uma tropeada, depois pó e um cavaleiro. Os cavalos meteram a trote e puseram-se a par. O de Roberto Clark vinha suado, com um pouco de espuma e na barriga um sinal de sangue. O de Margarida, enxuto, meteu a passo:

- Ah, não posso mais... O tio desafiou-me e deixou-se ficar para trás! Assim não vale...

- Largaste-te logo... Eu bem te disse: prender e folgar... prender e folgar... E depois, deixaste-o fazer a curva a galope com a mão do outro lado.

Roberto Clark exprimia-se correntemente em português; só tinha um nada de entonação ingénua, cheia de ohs, que tanto divertia Margarida; às vezes hesitava um pouco, à procura de certas palavras, fazendo estalar os dedos como quem deixa fugir precisamente a que convinha. Era um rapaz alto, espadaúdo. Vestia um casaco de sport e calção encordoado, à Chantilly, um boné escocês enterrado até às sobrancelhas ruivas, debaixo das quais espreitavam dois olhinhos sem cor precisa, como que metidos n’água.

- Que bom, galopar! E depois, este não é como a Jóia, que apanhou aquele passo escangalhado da charrett...

- Quê? A égua de teu pai, o peru? Já lhe disse que tem de vendê-la.

- Ah! Se o tio conseguisse...

- Com o dobro do dinheiro da Jóia arranja-se um bom cavalo. Eu ponho o resto. É o meu presente de anos.

Margarida sorriu; mas mostrou-se reservada, lassou um pouco as rédeas do bridão e compôs o cabelo. Não sabia o que era fazer anos desde a última vez que os passara na Pedrada Burra, nas Vinhas, quando o avô ainda se mexia e teimava em meter-se ao Canal.Em Fevereiro havia muitos dias de mar bravo, as lanchas afocinhavam nas grandes covas de água cavadas pelo vento da Guia. Para tirar o avô das escadinhas eram duas pessoas: o Manuel Bana dentro da lancha a agarrá-lo por um braço, o cobrador nos degraus do cais, de mão estendida, e sempre aquele perigo de escorregar nos limos. Mas teimava; metia-se no vão da janela do pomar quase entalado pela mesa, estendia o baralho das paciências na coberta de tapete com a garrafa de whisky ao lado, a caixa dos charutos e dos sisos do whist aberta. Ficava ali tardes... a ouvir a tesoura de Manuel Bana, que podava defronte.

Nesse ano quisera nas Vinhas todas as famílias amigas ― lanchas atrás de lanchas, o portão do pátio aberto para a charrette e com argolas para os burros. Tinham jantado na falsa por cima do barracão das canoas, por arrumar mais gente. A última vez que enfeitaram o bolo com rosas de que ela gostasse, as primeiras rosas de trepar do quintal do tio Mateus Dulmo. E camélias fechadas do Pico, como uns copinhos... Vinte velas a arder diante do seu talher!

- Estás velha, hem...

- Velha, não; mas enfim... O tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera...

- Viajar ou envelhecer?

- Talvez as duas coisas...

Sentiu sede de se abrir toda ao tio, explicar aqueles dois pontos que ele isolara tão bem a rasto da recordação do seu dia de anos no Pico; mas não achou palavras sensatas, ou pelo menos capazes de serem ditas ali de selim a selim, nos campos tão bonitos. As culturas começavam a cobrir-se das primeiras flores singelas; os olhinhos das árvores abotoavam discretamente. O verde-negro dos pastos, o verde dos Açores, quente e húmido, emborralhava-se até longe. Os cavalos seguiam de cabeça comprida, fazendo vibrar de vez em quando as ventas.

 ... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente... gaivotas... sem ninguém.

O tio tinha dito: «viajar ou envelhecer?» Margarida gastara a resposta naquele silêncio e os olhos nas orelhas do cavalo.

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal

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publicado por picodavigia2 às 10:50

A GUERRA E O GOVERNO

Sábado, 01.02.14

(EXCERTOS DO SERMÃO HISTÓRICO E PANEGÍRICO, PROFERIDO PELO PADRE ANTÓNIO VIEIRA, NOS ANOS DA RAINHA D. MARIA FRANCISCA DE SABÓIA, EM 21 DE JUNHO DE 1668.)

“As desconsolações gerais que padecia Portugal o ano passado e ainda na entrada do presente, se atentamente as considerarmos, todas se reduzem a três: a guerra, o casamento e o governo. Na guerra estava o povo aflito, no casamento estava a sucessão desesperada, no governo estava a soberania abatida. E em todas juntas? - O Reino perigoso e vacilante. Ora vejamos como Deus neste grande ano, em quanto consolador, nos sarou estas três desconsolações (…)

Começando pela desconsolação da guerra, e guerra de tantos anos, tão universal, tão interior, tão contínua: oh que temerosa desconsolação! É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários não está seguro. Esta era a primeira e mais viva desconsolação que padecia Portugal no princípio deste mesmo ano. Mas que bem no-la consolou Deus com a felicidade da paz, de que nos fez mercê! Assim o diz o texto do Evangelho. “Deixo-vos a paz, e dou-vos a minha paz - diz Cristo -, mas não vo-la dou como a dá o Mundo”. O que reparo nestas palavras, e que parece nos dá Cristo a mesma cousa duas vezes, e que de uma mercê faz dois benefícios, ou de um beneficio duas dádivas. Na primeira cláusula dá-nos a paz, na segunda cláusula torna-nos a dar a paz. Pois se a paz é a mesma, porque no-la dá duas vezes? Nem é a mesma, nem no-la dá duas vezes - disse e notou agudamente Santo Agostinho. Na primeira cláusula dá-nos a paz e na segunda cláusula dá-nos a sua paz. O ser a paz sua ou não ser, é grande diferença de paz. A paz não sua, é a paz que dá e pode dar o Mundo; a paz sua, é a paz que só dá e pode dar Deus; e esta é a paz que Cristo promete no Evangelho e a que nos deu neste feliz ano…

(…)

A terceira e última desconsolação que padecia Portugal, era o governo. A enfermidade não é culpa; e os efeitos da enfermidade são dor, não devem ser escândalo. E porque sei com quanto decoro e reverência se deve falar nessa mesma dor (já que é forçoso trazê-la à memória), será a voz do nosso sentimento uma pintura totalmente muda. Viu o profeta Ezequiel quatro corpos enigmáticos e hieroglíficos, que tiravam pelo carro da glória de Deus e, em cada um, ou qualquer deles (porque todos eram semelhantes), se me representa o governo de Portugal naquele tempo. Lá tiravam pelo carro da glória de Deus, cá tiravam também pelo carro das glórias de Portugal; porque não se pode negar, que no mesmo tempo vimos o Reino carregado de fortunas e palmas, sendo tão lastimoso o governo para os de dentro, nas leis, quanto era glorioso contra os de fora, nas armas. Formava-se aquele corpo enigmático (como o nosso político) não de uma só figura, senão de muitas. Tinha uma parte de humano, porque tinha rosto de homem, tinha duas partes de entendido, porque tinha rosto de homem e rosto de águia; tinha três partes de rei, porque tinha rosto de homem, rosto de águia e rosto de leão: de leão rei dos animais, de águia rei das aves, de homem rei de tudo; finalmente, tinha quatro partes de quimera, porque aos três rostos de leão, de águia, de homem, se ajuntava, com a mesma desproporção, o quarto, de touro. Destes quatro elementos se compunha aquele misto, e por estes quatro signos (uns próprios do seu zodíaco, outros estranhos) se passeava naquele tempo o Sol. Quando entrava no signo de touro, dominava grosseiramente a terra; quando passava ao signo da águia, dominava variamente o ar; quando se detinha no signo de homem, dominava friamente a água; quando chegava ao signo de leão, dominava arrebatadamente o fogo. Assim influía (ou assim entregava as influências) o confuso planeta, já aparecendo resplandecente, já desaparecendo eclipsado; tendo o império dividido entre si a luz com as trevas, a razão com o apetite, a justiça com a violência, ou, para falar mais ao certo, a saúde com a enfermidade. A parte sã era de homem e de águia, a parte enferma era de leão e de touro; e quanto se intentava nas deliberações da parte sã, tanto se desfazia nas perturbações da enferma. O que dispunha a benignidade do homem, descompunha a fereza do leão; o que levantava a generosidade da águia, abatia a braveza do touro. Visto pela parte sã, provocava a adoração e amor; visto pela parte enferma, provocava a dor e comiseração; e como o juízo verdadeiramente estava partido, não podia o governo estar inteiro. A esta desconsolação tão lastimosa e tão universal acudiu Deus, como às demais, suprindo suavemente a enfermidade e defeito de um irmão com a perfeição e capacidade do outro…”

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publicado por picodavigia2 às 10:09

ADÁGIOS DE FEVEREIRO

Sábado, 01.02.14

“Fevereiro leva a ovelha e o carneiro.”

 

“Fevereiro enganou a mãe ao soalheiro.”

 

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, não eram muitos os adágios sobre o mês de Fevereiro e os poucos que ao segundo e mais pequeno mês do ano se referiam, geralmente, continham informações de carácter meteorológico. Que me lembre, apenas dois; “Fevereiro leva a ovelha e o carneiro.” e este outro “Fevereiro enganou a mãe ao soalheiro.”

Embora um pouco enigmáticos, aparentemente, ambos os provérbios referem o mau estado do tempo que, geralmente, no mês de Fevereiro, ainda se verificava na ilha das Flores. Na realidade na maior ilha do grupo ocidental açoriano e, mais concretamente na Fajã Grande, em Fevereiro, imperava o “general” inverno, mas intercalado com dias soalheiros e de bom tempo. Por isso mesmo, o tempo pré-primaveril de Fevereiro, apesar de permanentemente ameaçado por um ou outro dia tormentoso e ameaçador de mau tempo, já permitia abandonar o gado ao relento, nos campos e nas pastagens, sobretudo o gado ovino, mais habituado às agruras do Inverno e que passava quase todo o ano fora dos palheiros ou resguardos.

No segundo adágio acima referido, parece, também, estar também patente esta ideia, talvez ainda mais clara, premente e completa, por quanto se confirma que este mês do ano, na realidade, intercalava o mau tempo com o bom tempo, sendo, no entanto, este último enganador. Em Fevereiro, ora havia um dia de bom tempo, mesmo de Sol, soalheiro que, no entanto, enganava, porque afinal durante aquele mês ainda se sucederiam muitos outros dias de mau tempo e até de temporal. Não se cuidasse pois que, havendo em Fevereiro um dia de bom tempo, não era de forma nenhuma o fim do Inverno. Um dia soalheiro, no segundo mês do ano, poderia ser sinal de que muito temporal ainda poderia estar para vir. Daí que se resguardasse tudo o que era de grande estima e que estava personificado na própria mãe.

Mais duas sentenças sábias dos fajãgrandense que assim se iam informando uns aos outros e dando conta do estado do tempo a fim de estarem atentos e se prevenirem contra as fortes intempéries que por vezes fustigavam as ilhas, sobretudo as do grupo ocidental – Flores e Corvo.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:59


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