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BICHAS DA QUARESMA

Quinta-feira, 06.03.14

Quando me fixei no norte do país, mais concretamente no Douro Litoral, muito pouco sabia dos costumes, das tradições, dos hábitos, da maneira de ser e até de falar do povo da região duriense. Mas tive sorte, porque abraçando o ensino e, na altura, inspirando-me no Diário de Sebastião Gama, fiz sentir aos meus alunos, logo no início do primeiro ano lectivo em que leccionei, que estávamos ali, não apenas para ser eu a ensiná-los, mas também para aprender com eles tantas coisas que eles sabiam e que eu desconhecia, sobretudo acerca da terra onde viviam e onde eu era um estranho.

Todos aceitaram de bom grado a proposta, cumpriram-na com zelo, gosto e competência e, algum tempo depois, podia orgulhar-me de muito já conhecer sobre a terra que agora assumira como minha.

Entre os variadíssimos temas sobre os quais foram dissertando, um ainda hoje recordo com persistência e que me veio, ontem, à memória, quando transitava, pela minha rua, com uma boa parte dos passeios ladeados por um vasto e amplo pinhal, e verifiquei que o chão estava repleto de lagartas de pinheiro.

Pois foram os meus alunos, há muitos anos, que tudo me ensinaram sobre elas, quando em certa aula, por esta altura do ano, me falaram das “Bichas da Quaresma”, nome pelo qual são designadas pelo povo desta região, as ditas lagartas.

- São umas bichas muito feias, setôr. Meu avô diz que elas atacam os pinheiros, enfraquecem-nos e até os podem destruir. – Afirmava um. Perante a minha assumida ignorância, logo outro acrescentava:

- E também fazem mal às pessoas. Devemos ter muito cuidado e não lhes tocar porque nos irritam a pele, os olhos e o aparelho respiratório.

- Até os cães, se as farejarem ficam com o focinho muito vermelho e inchado.

Logo um, lá do fundo da sala acrescentava, perante o meu espanto:

- É verdade, setôr. Meu tio tinha um cão que andava a farejar as “Bichas da Quaresma”. Meu tio deixou-o continuar e ele abocanhou uma e começou logo a ganir que parecia doido. No dia a seguir tinha a boca toda seca, nem conseguia comer. Foi preciso meu tio ir com ele ao veterinário. O cão esteve quase a morrer.

- Ó setôr, – levantava o braço, uma menina, logo ali à minha frente – elas até fazem ninhos nos pinheiros. A minha avó avisou-me para nunca tocar num ninho de um pinheiro porque eles não são de passarinho, são das “Bichas da Quaresma”. Minha avó também me disse que elas saem do ninho logo de manhãzinha para se alimentarem durante a noite e ficam presas por um fio de seda, através do qual conseguem regressar ao ninho. Também é perigoso tocar no fio.

Finalmente um dos mais expeditos e sabedores, desafiava-me com ar solene;

- E o sector sabe porque é que elas descem dos pinheiros e andam pelo chão, em fila, parecendo um combóio? – Como manifestasse a minha ignorância, ele perseguiu: - É para se enterrarem e depois se transformarem em casulos e a seguir em borboletas para voltarem a por os ovos nos pinheiros e nascerem mais bichas. É nesta altura que elas andam pelo chão e são mais perigosas.

- Então elas têm metamorfoses, como o bicho da sede. – Acrescentei. Depois concluindo: - Sim senhores, bela lição, muito aprendi. Só não percebi ainda por que é que lhes chamam “Bichas da Quaresma”?

E logo eles em coro:

- Porque é nesta altura, na Quaresma que elas descem dos pinheiros e andam pelo chão e é nesta altura que elas são muito mais perigosas.

Fiquei esclarecido e, sobretudo, prevenido. Por isso mesmo, passados tantos anos, ao ver hoje o chão pejado daqueles asquerosos e temíveis vermes, fugi delas como o diabo da cruz.

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publicado por picodavigia2 às 16:42

À MESA

Quinta-feira, 06.03.14

A mesma sala,

Quiçá a mesma mesa.

 

Talvez os pratos sejam outros,

Outros serão, de certeza, os talheres,

Assim como ass toalhas

E, quiçá, os bancos…

 

E os comensais?

 

Ah! Esses também são os mesmos.

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publicado por picodavigia2 às 16:38

QUERMESSE

Quinta-feira, 06.03.14

Era pela festa da Senhora da Saúde. Todos os anos. Num dos domingos que antecediam o dia da festa, lá ia a criançada da catequese, os da quarta, pelas casas da freguesia, desde o Cimo da Assomada até ao fundo da Via d´Água, pela Fontinha, pela Rua Direita, pela Tronqueira e Rua Nova. Rara a casa que escapava à fúria pedidora da ganapada. No fim, acumulava-se, na sacristia de baixo, um amontoado de prémios, bugigangas diversas de pouca utilidade mas, regra geral, bastante vistosos e apelativos. Compravam-se mais umas miudezas baratas, a concertar o amontoado e seleccionavam-se os prémios para a roleta. Os melhores, claro.

Uns dias antes da festa impunha-se que imperasse a organização de todo aquele acervo, metódica, selectiva e emocional. No reboliço da azáfama, ele mais afoito e experiente nestas lides, mas mais desleixado e maleável, ela mais sensível e delicada, mais cuidadosa e sensata na escolha, na selecção e no arranjo. Tudo desenvencilhado em diálogos de circunstância, emoções contidas, desejos refreados, a arfar uma inusitada mas recíproca cumplicidade. A obstrução era rainha, numa ternura desmedida, num envolvimento desejado, a esquecer um passado proscrito, amordaçado. Centenas de quadradinhos de papel eram cuidadosamente enrolados, uns após os outros, simetricamente, num insigne e deslumbrante cuidado. O epicentro do desvelo rasgava-se frenético como se fosse uma onda a vir e voltar, tímida, temerosa, talvez mesmo ofegante. Reservavam-se uns quantos quadradinhos brancos para os premiados, onde se haviam de registar os números atribuídos aos prémios. Depois a lista, cuidadosamente abstrusa, a obrigar e exigir uma repetição, com as bugigangas devidamente registadas e numeradas, onde a cada objecto correspondia um número. Discutia-se a ordenação, a prioridade e a selecção com aparente indignação e disfarçado distanciamento. Despejavam-se, em uníssono mas de forma encoberta, desejos conciliadores, alvoroçava-se, às escondidas, a unanimidade, convertendo-a numa espécie de ternura sufocante, num simulado desembocar de contrição. Colocados os números nos bilhetes que haviam sido reservados, havia que os enrolar, firmes, destemidos, mesmo que a noite já se impusesse como destruidora de fascinações.

Depois vinham os prémios tardios, dos que não estavam em casa e dos que, na altura da derrama, de nada dispunham. Precioso retardamento! Eram precisos mais bilhetes brancos, mais nomes na lista, mais números, mais tudo. Para remediar o que quer que fosse, para acrescentar o que chegava atrasado, havia sempre mais um dia, depois outro e ainda outro - dias consagrados, perenes, profundos, límpidos e serenos. O reparar dos erros renovava a inconstância, o repor das falhas reconstruía a aparência e o acrescentar de conteúdos obstruía o sentimento. Atirava-se ao ar o amontoado gigantesco de desejos e repeliam-se os brados estridentes dos enigmas. Agora, era a excelência, sublime e dominadora, que, substituindo a obstrução inicial, se tornava rainha.   

O quiosque era um hexágono de madeira, chavasco, tosco e pouco estético. Os seis lados do hexágono eram construídos com ripas de madeira cruzadas, um deles com ádito, sendo presos nos vértices a seis barrotes. Estes, unidos na base e presos no cimo, amontoavam-se e agregavam-se, lá no alto, como se fosse uma pirâmide, também ela hexagonal, a afunilarem-se no cocuruto, terminando sob a forma de um pequeno capitel arredondado, com uma bandeira a encimá-lo. Sobre cada um dos vários conjuntos das ripas cruzadas, uma pequena tábua a simular uma espécie de balcão de tasca antiga e seis janelas, sempre abertas, a arejarem o interior, como se isso fosse necessário.

O quiosque era colocado no adro, à entrada para a sacristia, por baixo da torre sineira, e emergia altivo, cativante e motivador. No interior, uma mesa com algumas prateleiras sobrepostas, expositivas dos prémios, imbricados de forma apelativa e convincente, a provocar enlevo e, sobretudo, atracção. Homens, mulheres, crianças todos se aproximavam. Umas vezes acotovelando-se, outras emancipando-se em remanso, iam comprando, desenrolando, desembrulhando. Se não havia o tão desejado numerozinho que correspondia a um prémio, era o desânimo instituído, emaranhado com um outro comentário malicioso, atrevido, displicente. Quando havia prémio era um regalo aliado a um momento de suspense personificado num estender de braços por cima das ripas. A demora da procura, gratificante e envolvente, açulava a expectativa. Se reinava a calma as caixas recheadas dos bilhetes aquietavam-se e era a lista o pretexto para um olhar conjunto, simultâneo, unificado. Um simular de procura ou um suposto engano eram o alor amantético e o travo adocicado de novos e profundos sentimentos, um desenrolar de subterfúgios acorrentados, perdidos, impossíveis de edificar.

Lá fora algumas crianças com cachinhas de papelão a vender bilhetes, o boneco de madeira a revirar-se às boladas, o repique dos sinos, o estalar de um ou outro foguete e a música a tocar, encobrindo um gracejo chocarreiro, um enleio gratificante, um segredo adivinhado, um olhar sublime, um embate inusitado mas sentido e clarificado na doçura de um sorriso.

E quando a noite, madrasta e perversa, desfazia a magia telúrica e profunda da quermesse, caía sobre o quiosque hexagonal, chavasco e tosco um amargo acervo de melancolia.

Mas o que tornava mais bela e gratificante a festa da Senhora da Saúde era a quermesse.

 

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publicado por picodavigia2 às 16:15





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