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A LENDA DA CIDADE DE ANGRA

Sexta-feira, 07.03.14

Conta uma lenda muito antiga que, certo dia, o Príncipe dos Mares se apaixonou por uma linda princesa. Mas o príncipe vivia triste, desafortunado e infeliz porquanto a sua amada não correspondia à sua grande paixão pois já tinha, no seu coração, um outro príncipe que muito amava.

Então, o Príncipe dos Mares, levado por um enorme ciúme, pensou desistir dos desejos de conquistar a princesa que amava, a fim de acabar com a tristeza e infelicidade em que vivia diariamente. Para isso, chamou ao seu reino uma fada, ordenando-lhe que deveria mudar o rumo dos acontecimentos, isto é, fazer com que a princesa o amasse e o tornasse feliz. A fada tentou, durante algum tempo, exercer a sua influência, porém, nada conseguiu e foi expulsa, com rudeza, pelo desesperado e infeliz príncipe.

Um dia, a princesa e o tal príncipe que ela, realmente, amava, trocaram o primeiro beijo. O sussurro dos dois apaixonados, porém, foi tão forte, tão alto e tão violento que se repercutiu por todos os reinos vizinhos e foi também ouvido pelo Príncipe dos Mares que dormitava, envolto em infortúnio, no seu leito de basalto e areia, e pela fada. Esta, mais lesta do que o vento, atravessou os céus em direcção ao reino do mar, cuidando que assim poderia ajudar o príncipe a vingar-se da princesa que amava e que lhe tinha roubado a felicidade.

Chegou a fada junto do Príncipe dos Mares que se debatia em grandes ondas de ódio e disse-lhe, em voz doce e convincente:

- Príncipe do Mares, chegou a hora da vossa vingança. Aqui estou para fazer o que mandardes.

Ele, cego de ciúme e de raiva, não se apercebeu do despeito que animava a fada e ordenou em tom de ódio:

- Correi, fada, fulminai o príncipe que roubou minha amada. Mas castigai-o só a ele… A ela, não podeis fazer mal algum

A fada concordou e convidou-o a assistir à vingança. Tomou-o pela mão e caminharam os dois em direcção à praia, onde a princesa, com os seus cabelos dourados pelo sol poente, se encontrava, docemente inclinada sobre o príncipe enamorado.

Com a rapidez de um raio, a fada deixou a mão do Príncipe dos Mares e avançou, com um sorriso infernal e fulminante, sobre o par enamorado. O feitiço foi perfeito. De imediato, o príncipe transformou-se num grande monte, coberto de arvoredo, levantando-se com altivez, em frente ao mar. A princesa, ainda reclinada, tornou-se na mais bela cidade do atlântico.

Foi assim que apareceu o "Monte Brasil" e a encantadora cidade de "Angra do Heroísmo", ainda embalada e amada, noite e dia pelo soluçar angustiado do Atlântico, o Príncipe dos Mares, enquanto, ao lado, o Monte Brasil, permanece adormecido para sempre.

 

Fonte: WIKIPÉDIA  - LIVRE

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publicado por picodavigia2 às 17:00

UM SUSTO

Sexta-feira, 07.03.14

Ainda nem um mês havia passado, ainda nem me adaptara a nada ou a coisa nenhuma, ainda continuava a chorar pelos corredores e cantos, ainda não tinha feito nada de bom ou de mal e recebi um recado inesperado, abrupto, extremamente apreensivo e desastradamente assustador. Avisou-me um dos prefeitos que deveria comparecer, imediatamente, no quarto do Senhor Reitor. Estarrecei por completo e assustei-me deveras. Sabia que só éramos chamados ao quarto do Senhor Reitor por sermos acusados de factos muito graves ou disparates muito grandes. Como nada havia feito ou dito de grave, cuidei que fosse por estar constantemente a choramingar e a manifestar vontade de voltar para as Flores. Assim, esforcei-me por evitar todo e qualquer indício de lágrimas, por dissimular todo o mal-estar que me ia na alma e por apagar tudo o que fosse vestígios de desgosto ou de tristeza e dirigi-me à reitoria. Entrei no corredor e, muito tímido, bati levemente à porta. De dentro ouvi uma voz forte e clara dizer: “Abra”. Tentando disfarçar o terrível embaraço que pesava sobre mim e o temor inexaurível que carregava sobre os ombros, meti a mão ao pica-porta, levantei-o, abri a porta e entrei.

Era um quarto amplo, mas muito simples e humilde, mais se assemelhando a uma cela de monge medieval do que ao quarto de um reitor. Voltado para o pátio interior do claustro, através de duas enormes janelas, o quarto tinha uma mobília modesta e um ar moderado. Ao fundo uma barra muito semelhante às dos seminaristas, encimada por um cruxifixo, com uma colcha branca e ao lado um lava mãos de ferro com bacia e jarro de esmalte. Flanqueando a parede que ladeava o corredor alguns armários e estantes, uma imagem de Nossa Senhora e ao lado uma secretária com uma cadeira de braços onde o Senhor Padre Jacinto estava sentado, com uma carta numa das mãos e na outra uma faca de cortar papéis, com a qual batia levemente sobre o tampo da secretária. Cumprimentei-o beijando-lhe a mão de acordo com as instruções da Dona Maria. De seguida, sem sequer ordenar que me sentasse, disse-me de rompante, mostrando-me a carta:

- Recebi esta carta da América, da tua tia. Não te a vou ler. Ela está muito preocupada contigo e pede-me que tratemos bem de ti, que não deixemos que te falte nada. Mas isso é o que nós fazemos aqui a todos os seminaristas, não era preciso que ele o pedisse. Junto com a carta, mandou-me um cheque de sessenta e cinco dólares, para pagar todas as tuas despesas. Ela pede-me para ser eu a guardá-lo. Ora isto trocado dará quase dois contos. Deve chegar para pagar a primeira mensalidade, os livros, os cadernos e outras coisas que precises. Creio que deve chegar para pagar as tuas despesas, pelo menos, até ao Natal. Escreve-lhe a contar tudo isto.

Dito isto e sem que me desse oportunidade de eu lhe dizer nada, (na verdade eu até nada tinha para lhe dizer) estendeu-me a mão direita virada com as costas para cima, para que eu a osculasse novamente e disse-me que podia sair. Afastei-me da secretária com um obrigado, abri a porta e saí aliviado, não tanto por ter o dinheiro disponível para as minhas despesas mas sobretudo porque afinal não apanhara nenhum raspanete, pois nada tinha feito de grave.

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publicado por picodavigia2 às 16:57

ROCHA DO MAR

Sexta-feira, 07.03.14

(POEMA DE VITORINO NEMÉSIO)

Já uma vila dos Açores

Loze ligeira no horizonte.

Será num alto das Flores,

No Pico ou logo de fronte,

Espraiadinha num cume

Ou encolhida em Calheta?

O ser nossa é que resume

Seus amores de pedra preta.

Para vila da Lagoa

Falta-lhe a cidade ao pé,

A distância de Lisboa

Já não me lembro qual é.

Para Vila Franca ser

Falta-lhe o ilhéu à ilharga,

É airosa pra se ver,

Mais comprida do que larga.

Povoação não me parece,

Nos padieiros não condiz,

Aos camiões estremece,

Mas não aguenta juíz.

Pra Ribeira Grande falta-lhe

O José Tavares no quintal,

Rija cantaria salta-lhe

Dos cunhais, branca de cal,

Mas não é Ribeira Grande:

Essa merecia foral!

No dia em que haja quem mande

Será cidade mural.

Nordeste - só enganada

Na vista da Ilha Terceira,

Longe de Ponta Delgada,

Sua sede verdadeira.

Nem Vila do Porto altiva,

A mais velha da fiada,

Em suas ruas cativa

Como princesa encantada.

De cimento a remendaram,

Coroaram-na de aviões,

Mas eternos lhe ficaram

Os bojos dos seus tàlhões.

Se é a Praia da Vitória

Não lhe reconheço a saia:

Enchem-lhe a areia de escória,

Ninguém diz que é a mesma Praia.

Talvez seja Santa Cruz

Da Graciosa, ou a sua Praia,

Com o Carapacho e a Luz

Cheirando a lenha de faia.

De S. Jorge a alva Calheta

Ou a clara vila das Velas,

E o alto, alvadio Topo

Com um monte de pedra preta

Dando realce  janelas.

As Lajes ou o Cais do Pico,

A escoteira Madalena

Vilas são de vinho rico,

Qual delas a mais morena.

Santa Cruz das Flores seria

Essa vila açoriana

Ou as Lajes de cantaria

Do bom Pimentel soberana.

Finalmente, só o Rosário,

Que do Corvo vila é,

Pequena como um armário

Ou um chinelinho de pé.

Mas não é nenhuma delas,

Nem Água de Pau, que o foi,

S. Sebastião, ou Capelas,

Da Terceira arca de boi

Como a nossa Vila Nova,

Que nem chegou a ser vila,

Tão branca na sua cova,

Tão airosa, tão tranquila.

Ah, já sei! É delas, fundo,

Que o muro alvo se perfila

Contra os corsários do mundo

Que invejam a nossa vila,

Nosso povo, na folia

De uma rocha de mar bravo,

Que o Guião da autonomia

Só por morte torna escravo.

 

Vitorino Nemésio

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publicado por picodavigia2 às 16:55





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