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O MILAGRE DE SANTO ANTÓNIO

Segunda-feira, 10.03.14

Rimance interessante era o contado, frequentemente, aos serões na Fajã Grande, sobre Santo António, santo cujo nome fazia parte da toponímia fajãgrandense. Curioso também era o facto de a imagem deste santo nãopoder estar na igreja, sendo guardada numa casa particular, na Assomada, pertencente à senhora Estulana, onde era guardado na sala, pese embora fosse uma imagem de proporções relativamente grandes.

Rezava mais ou menos assim o rimance:

 

Em Pádua ´stá Sant`António,

O seu sermão a pregar,

Quando vem do Céu um anjo,

Mandado pra o avisar:

- “Depressa, ide a Lisboa,

Tende mão no que lá vai:

Ide livrar da forca

O justo do vosso pai.”

O Santo que tal ouviu,

No púlpito ajoelhou

E, rezando um padre-nosso

Logo a Lisboa, chegou.

“-Homem morto, homem morto,

Por Deus assim querer,

Alevanta-te daí!

Quem te matou? Vem dizer.”

Então o morto da cova

Logo se ergueu e falou:

“- Esse triste padecente

Não fez crime, nem pecou,

Não me tirou ele a vida;

Por minha vida tirou;

Justiça, não o mandeis

Degraus da forca subir;

Soltai-mo já dessas cordas,

Soltai-mo, deixai-o ir.

Quem me matou vai aí,

Mas foi outro que não ele;

Quer Deus que eu salve este justo

E que o crime não revele.”

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publicado por picodavigia2 às 10:36

HORÁRIO

Segunda-feira, 10.03.14

O horário no Seminário Menor de Santo Cristo, em Ponta Delgada, apesar de bastante rígido e rigoroso era cumprido à risca e na íntegra. De manhã acordávamos com o bater de palmas do prefeito. Este, à hora indicada, já vestido de batina preta, entrava de rompante pela camarata dentro, acendia todas as luzes e, ao mesmo tempo que ia batendo palmas para nos despertar, anunciava o “Benedicamus Dominum” ao que devíamos todos responder “Deo Gratias”. Se algum mais dorminhoco não despertasse ou um ou outro mais preguiçoso permanecesse deitado, lá ia o prefeito sacudir-lhe o corpo ou puxar-lhe a roupa da cama, descobrindo-o e forçando-o a levantar-se. Depois era uma correria louca, de toalha ao pescoço, escova de dentes em riste e sabonete na mão, a atravessar o salão de estudo, a descer a escadaria do fundo, a fim de apanhar um urinol livre ou um lavatório disponível. De regresso à camarata, vestíamo-nos à pressa, geralmente por baixo dos lençóis, não por o regulamento a tal obrigar, mas por uma inequívoca, inocente e infantil vergonha púdica. De seguida e ao fundo do salão de estudo, contíguo à camarata, trajando o tradicional guarda-pó de cotim cinzento, formávamos a “bicha”, ocupando cada qual o seu lugar e lá seguíamos, sempre em silêncio rigoroso, profundo, estranho e quase assustador, permitindo que se ouvisse tão só o batucar do calçado sobre as tábuas envelhecidas do soalho, sobre as pedras rilhadas dos degraus das enormes escadarias e sobre as lajes frias e seculares dos subterrâneos que conduziam à igreja.

Uma vez chegados ao templo, ocupávamos toda a capela-mor, com três filas de bancos de cada lado. Colocados pela ordem da “bicha”, permitia que eu ocupasse o primeiro lugar da frente, do primeiro banco, do lado do Evangelho. A nossa presença ali demorava mais de uma hora, durante a qual se faziam as orações da manhã e a meditação, esta orientada pelo prefeito. Seguia-se a missa que devia ser acompanhada por todos, em latim, tarefa facilitada para mim, pois ainda na Fajã, aprendera as respostas a todas as invocações do sacerdote, os gestos, as mudanças do missal, o serviço das galhetas, o toque das campainhas e até o levantar da orla da casula do celebrante, à elevação da hóstia e do cálice, privilégios ali concedidos apenas aos alunos mais velhos. Por vezes havia duas missas simultâneas, uma vez que quer o reitor ou o outro prefeito, celebravam num altar lateral da igreja, onde existia uma monumental e impressionante imagem do Senhor dos Passos, num dos momentos mais dolorosos da sua paixão: carregando a cruz a caminho do Calvário.

Terminado a missa regressávamos, novamente em fila, ao Salão de Estudo, ali permanecendo durante uma hora, a estudar, a ler, a trabalhar e a preparar as aulas. À quinta-feira, dia em que não havia actividades lectivas, essa hora era destinada à prática da Educação Física, orientada pelo padre Agostinho Tavares, não se tratando propriamente duma disciplina, pois não tinha programa nem éramos avaliados. Após a hora de estudo, dirigíamo-nos para o refeitório, a fim de tomar o pequeno-almoço. Café, sempre quentinho, muito aromático, pão e manteiga, esta racionada. Durante o pequeno almoço, se o prefeito ou o reitor assim o entendessem, através do “Deo gratias”, terminava o silêncio rigoroso e profundo, em que havíamos mergulhado, desde o recreio da noite do dia anterior.

Após o pequeno-almoço, seguia-se um breve recreio durante o qual devíamos, obrigatoriamente, fazer a cama e preparar os livros para as aulas que se seguiam, num total de quatro, intercaladas com intervalos de dez minutos, em que pouco mais tempo tínhamos do que o necessário para trocar de livros e cadernos. É que até para as aulas, íamos e vínhamos sempre em bicha, pelo que não nos podíamos atrasar, até porque a pontualidade era uma das virtudes mais exigidas ao longo de toda a formação do Seminário.

Durante grande parte do almoço, era observado silêncio absoluto, geralmente acompanhado por alguma leitura, feita em voz alta, por um dos prefeitos ou por um ou outro aluno mais velho. Liam-se livros religiosos, vidas de santos ou de pessoas célebres, histórias de missionários, histórias de aventuras para jovens e outros. Apenas na última parte do almoço e às quintas e domingos não era observado silêncio durante as refeições.

Da parte da tarde, incluindo os sábados, havia o chamado recreio grande e uma hora de aulas, seguidas de duas de estudo intercaladas com pequenos intervalos. O jantar era precedido da reza do terço, no coro da igreja, a que se tinha acesso pelo corredor dos recreios, e desenrolava-se de forma semelhante ao almoço, sendo seguido do recreio grande da noite. Após este recreio reinava um silêncio geral, profundo e absoluto em todo o Seminário, o qual só terminava ao pequeno-almoço do dia seguinte. Após a hora de estudo da noite e, antes de nos deitarmos, ainda havia, no coro da igreja, a oração da noite,

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publicado por picodavigia2 às 10:35





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