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O CESTEIRO

Quarta-feira, 12.03.14

José era um filho dócil, meigo, obediente e trabalhador. Era o mais velho dos rapazes e, por isso mesmo, desde de tenra idade, acompanhava o pai nas lides dos campos, nos trabalhos agrícolas, ceifando, sachando, roçando e ordenhando as vacas à porta e nos matos. Na escola, fora sempre um aluno, atento, estudioso, aplicado e educado. O senhor professor gabava-o na escola, elogiava-o à Praça e enaltecia-o junto dos pais.

Já homem, empenhava-se com zelo e dedicação no cultivo dos campos, orientava os irmãos mais novos nos primeiros trabalhos, ajudava-os, ensinava-os e, sobretudo, servia-lhes de modele e exemplo.

Viviam-se os tempos agitados e difíceis da Segunda Guerra Mundial. Como muitos outros jovens da sua idade, José foi chamado às sortes. Ficou apurado e, semanas depois, foi mobilizado, abandonando a ilha, no paquete Lima, com destino a Angra onde assentou praça e fez a recruta.

Os pais e os irmãos emergiram numa dor sentida. O filho que tanto amavam, que tanta alegria lhes dera, o filho de que tanto se orgulhavam, partia e deixava-os numa saudade imensa, numa mágoa indiscritível. Apertava-se-lhe, noite e dia, o coração da mãe e o pai não pregava olhos, noites a fio. O seu filho dilecto havia partido, com um destino incerto e temeroso. Os dias tornavam-se amargurados, as noites longas e as horas infindáveis. Ansiavam, a cada momento o seu regresso. Não podiam viver longe dele. É verdade que tinham os outros, que também muito amavam, mas aquele, para além de ser o primeiro, era o mais dócil, o mais obediente, o mais trabalhador, o que mais falta lhes fazia.

Ao fim de duas dezenas de meses, José regressou e de novo a casa encheu-se de alegria e os pais e os irmãos rejubilaram de contentamento e de felicidade.

Mas José partira com o coração despedaçado. Cruzara-se, certo dia, com a Lucinda, a filha do Avelino Pombo, na ladeira do Paul. Falaram, conversaram e confessaram o que de há muito sentiam. Estavam, loucamente, apaixonados um pelo outro.

José e Lucinda sabiam, muito bem, do ódio profundo, enraivecido e eterno que existia entre os seus progenitores. Nem o pai dela nem, sobretudo, o dele, aceitariam jamais tão terna, pura e genuína união. Por isso calaram-se, ocultando e guardando para si, a gigantesca e indelével paixão que os unia.

Mas José regressou da tropa feito homem, mais maduro, mais responsável e sobretudo mais decidido. Lucinda temia, hesitante. José teimava, decidido.

E a decisão foi, definitivamente, anunciada ao progenitor. A mãe, incrédula, agarrava a cabeça com as mãos como se tivesse enlouquecido… Os irmãos, aflitos, choravam à socapa, pelos cantos da casa…

Na madrugada do dia seguinte José, depois de passar a noite na atafona do vizinho Costa, enroscado entre o folhedo do milho, desceu a rua, com uma saca de serapilheira às costas, onde guardava, juntamente com uma foto da tropa, a pouca roupa que tinha. O pai, perante os gritos de horror da mãe e os sobressaltos apreensivos dos irmãos, vergastara-lhe as costas com marmeleiro rijo, impondo radicalmente:

- Ou deixas a filha daquele pulha ou sais desta casa e nunca mais aqui entras.

José e Lucinda casaram, longe, numa outra igreja do norte da ilha. O pai dela também a havia ameaçado de morte.

Sem terras, sem vinhas, sem gado, sem recursos de qualquer espécie, fugindo aos vitupérios dos pais, José e Lucinda fixaram-se por ali, no norte, alugaram uma velha casa que José, aos poucos foi recuperando e melhorando. Habilidoso e trabalhador, com uma enorme vontade se singrar na vida, José dedicou-se à arte de cesteiro. Começou por fazer cestos simples, depois outros mais perfeitos, depois cestas e cabazes de todas as formas e feitios e, finalmente, cadeiras, sofás e mesas de sala, tudo com um cuidado ímpar e com uma perfeição invulgar. José tornou-se o mais perfeito cesteiro da ilha.

 

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publicado por picodavigia2 às 22:57





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