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CASTIGO SEM CRIME

Quarta-feira, 19.03.14

No Seminário Menor de Ponta Delgada, na longínqua década de cinquenta, os recreios, geralmente, eram passados no maior corredor da casa, aquele que atravessava o edifício de norte a sul, paralelo à igreja de Todos os Santos, impropriamente chamado salão de recreio, embora fosse permitido que os alunos, se assim o entendessem, ficassem, durante os recreios, no salão estudo, conversando uns com os outros, por vezes até esclarecendo dúvidas sobre as matérias estudadas, com o prefeito ou com algum dos melhores alunos, à frente dos quais pontificavam o Onésimo e o Varão.

Certa tarde, terminada a hora de estudo, o Manuel Faria e eu descemos para o corredor que ficava ao lado da sineta, onde habitualmente brincavam muitos alunos. Entre outras brincadeiras, optámos pelas “cavalitas”. Eu ajoujava-me, o Manuel Faria saltava-me para as costas e eu transportava-me de um lado para o outro. Depois invertíamos os papéis e era o Manuel Faria a carregar-me, na maior das inocências e na mais ingénua e simples cumplicidade. Outros alunos brincavam por ali. Precisamente na altura em que eu carregava com o Manuel Faria “às cavalitas” de um lado para outro, passou o Senhor Reitor. De imediato parou, desabando um enorme raspanete e uma demolidora repreenda sobre o Manuel Faria, poupando-me, no entanto, do descalabro. Que aquilo não eram modos nem maneiras de um seminarista brincar e que se voltasse a fazê-lo que havia de o castigar. Depois seguiu o seu destino, na direcção do salão de estudo, enquanto o Faria, sentindo-se verdadeiramente injustiçado, desata a soluçar, num choro convulsivo, comprovativo da sua inocência e reprovador da injustiça de que fora vítima. O José Gabriel e o Octávio, sempre muito solícitos e atentos, logo vieram, junto dele, inteirar-se do sucedido, tentando acalmá-lo. Ele porém não se continha e para mostrar ainda mais sua inocência e que nada de mal estava a fazer, mas apenas uma simples e incauta brincadeira, decidiu-se pela reconstituição do folguedo, voltando a saltar-me para as costas, enquanto exclamava muito convicto da sua infantil, pura e genuína intencionalidade:

- Eu não estava a fazer nada de mal! Só estava a fazer isto! – E voltava a encavalitar-se nas minhas costas vezes seguidas, com a simples intenção de demonstrar que nada de mal estava a fazer.

Azar dos azares! O Senhor Reitor não demorara no seu périplo pelo salão de estudo e, voltando a passar por ali, depara-se com o mesmo quadro que, momentos antes tão radical e ameaçadoramente, havia condenado. Foi o bom e o bonito! Para além de uma reprimenda muito superior à primeira, o Faria levou três horas de estudo em pé, enquanto eu, na minha qualidade de cúmplice compulsivo, levei uma.

Bem me custou este primeiro castigo e ainda mais o Faria, pois tanto eu como ele estávamos apenas a brincar e, naquilo que o Senhor Reitor cuidou que era uma recaída intencional, provocatória e malévola, ele apenas estava a demonstrar, com a minha cumplicidade, a inocência de tão inócua e supérflua brincadeira.

Na realidade, um dos castigos mais frequentemente aplicados pelos perfeitos aos alunos era o de ficar de pé, durante uma ou mais horas de estudo. Um martírio e, sobretudo, uma vergonha. Enquanto todos os outros permaneciam sentados nas suas cadeiras, o prevaricador, verdadeiro ou injustiçado, era obrigado a ficar uma hora, duas ou até mais, de pé, junto à sua carteira, a estudar ou a ler. Para além de incómodo, uma vez que a posição de pé dificultava o estudo e sobretudo a escrita, era o pejo, a moléstia e o enfado de estar ali exposto aos olhares e por vezes aos vitupérios e exprobrações dos outros. Parecia um espantalho plantado no meio duma seara! Eu detestava este tipo de castigo, mas a ele não me podia esquivar. De vez em quando lá apanhava uma horinha e, além disso e para maior vexame, não só os castigos como também as infracções que os originavam, eram anunciados previamente e diante de todos, pelo perfeito. Outro castigo também muito frequente era o de ficar em silêncio, incomunicável, junto da sua carteira, durante um recreio, sem poder participar nas brincadeiras, nas conversas, nos folguedos e nos jogos com os outros. Este, pelo menos a mim, doía menos, pois éramos poupados aquela vil e detestável exposição que era ficar de pé, enquanto os outros estavam sentados a estudar.

Estes castigos eram resultado de pequenas asneiras, muitas delas inocentes, geralmente relacionadas com o violar de uma ou outra norma do regulamento, não respeitar o silêncio, brincar ou falar durante a noite nas camaratas, conversar na igreja, chegar atrasado a isto ou àquilo, ou até nem fazer a cama. No entanto muitas vezes violavam-se as normas, exageravam-se as brincadeiras e as conversas em lugares sérios, muitas conversas às escondidas, pontapés debaixo da mesa, caneladas no recreio, amuos, zangas, almofadas a voarem, por cima das camas e, até, muito chichi pingava durante a noite, sobre uma tipografia que existia por baixo da camarata do primeiro ano. De manhã o dono da tipografia, que ficava com jornais e outros papéis encharcados vinha queixar-se ao Senhor Reitor, mas, felizmente, nunca se sabia quem era. Por isso mesmo, muitas das nossas incautas mas pequenas infracções ou asneirazinhas ficavam sem castigo, pois como, no fundo, éramos todos bons amigos, não havia denúncias nem delatores.

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publicado por picodavigia2 às 16:27

O PAI

Quarta-feira, 19.03.14

(POEMA DE PABLO NERUDA)

 

Terra de semente inculta e bravia,

terra onde não há esteiros ou caminhos,

sob o sol minha vida se alonga e estremece.

 

Pai, nada podem teus olhos doces,

como nada puderam as estrelas

que me abrasam os olhos e as faces.

 

Escureceu-me a vista o mal de amor

e na doce fonte do meu sonho

outra fonte tremida se reflecte.

 

Depois... Pergunta a Deus porque me deram

o que me deram e porque depois

conheci a solidão do céu e da terra.

 

Olha, minha juventude foi um puro

botão que ficou por rebentar e perde

a sua doçura de seiva e de sangue.

 

O sol que cai e cai eternamente

cansou-se de a beijar... E o outono.

Pai, nada podem teus olhos doces.

 

Escutarei de noite as tuas palavras:

... menino, meu menino...

 

E na noite imensa

com as feridas de ambos seguirei.

 

Pablo Neruda, in Crepusculário

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publicado por picodavigia2 às 16:09

FESTA DO PADROEIRO SÃO JOSÉ

Quarta-feira, 19.03.14

A Fajã Grande, ainda antes de ser paróquia escolheu São José como seu padroeiro. Não se vislumbram facilmente as razões desta opção. No entanto, não será de estranhar, que tendo a sede da freguesia das Fajãs, ou seja a Fajãzinha, a que o lugar da Fajã Grande pertenceu até 1861, como padroeira a Virgem Maria, Mãe de Jesus, sob a invocação de Senhora dos Remédios, aquele lugar escolhesse o Pai Putativo de Jesus, São José, como seu padroeiro, mantendo-se o orago, aquando o da criação da paróquia. Assim ficaram as duas localidades vizinhas sob a protecção de Maria e José, os pais de Jesus. Além disso, São José foi sempre considerado um dos Santos mais populares da Igreja Católica e padroeiro dos trabalhadores, portanto um Santo a cuja devoção não podia ser alheio o povo de uma terra onde o trabalho era condição fundamental de vida.

A mais antiga imagem de São José de que há memória na Fajã Grande, ainda existe na sacristia da igreja paroquial. Trata-se uma bela e valiosa obra artística, do século XVII, pintada a ouro, de pequenas dimensões, representando o Santo, com aspecto de caminhante, calçado com umas botas, com o Menino ao colo e uma açucena a servir de bordão. Dado o seu valor histórico, esta imagem foi sempre muito cobiçada por coleccionadores de arte e directores de museus. Nos anos cinquenta foi substituída por uma nova, moderna, em que o Santo se apresentava como carpinteiro, conduzindo o Menino por uma das mãos e segurando uma serra com a outra.

Colocada no altar-mor, em lugar de destaque, a imagem de São José, quer a nova quer a velha, foi sempre muito venerada na Fajã Grande, sendo, na década de cinquenta, celebrada uma festa no seu dia litúrgico, 19 de Março.

A festa de São José era uma das maiores da Fajã Grande, depois do Espírito Santo e da Senhora da Saúde e a ela vinham, a pé ou de barco, muitos romeiros de toda a ilha, sobretudo das freguesias vizinhas, nomeadamente da Fajazinha, Mosteiro, Ponta Delgada, Lajedo, Lomba e Cedros. Muitos deles vinham de véspera, hospedando-se em casa dos seus “conhecidos”. Era também o dia em que as crianças, geralmente, faziam a primeira comunhão e a comunhão solene.

A festa iniciava-se com um tríduo preparatório, constituído, por missa, sermão e devoção a São José. Na véspera e dia tocavam-se Trindades dobradas. Para a freguesia deslocavam-se sempre, no mínimo três padres, sendo que um deles vinha mais cedo para pregar o tríduo. Na véspera todos os padres se disponibilizavam para as confissões, dois nos confessionários laterais e outros dois nos ralos da grade, aproveitando o padre Pimentel para fazer, nessa altura, a desobriga pascal. No dia da festa, durante a manhã havia três ou quatro missas. A da manhã destinada às donas de casa e a quem não pudesse assistir às seguintes. A segunda era a missa da Comunhão, onde toda a gente comungava, pois sendo obrigatório o jejum desde da meia-noite, era quase impossível comungar na missa da festa. Esta era sempre de três padres, celebrada e cantada por um, geralmente o pároco, com outros dois a acolitá-lo e com um quarto a pregar o sermão, assumindo assim o epíteto de o “pregador da festa”. A quarta missa, se a houvesse, era celebrada no altar da Senhora do Rosário e contrariamente às outras esta não tinha sermão. De tarde realizava-se uma grande procissão. Para além da imagem de São José saíam também a da Senhora da Saúde e a de Santa Teresinha e nela se incorporavam as crianças da cruzada, os homens com as opas vermelhas, uns a transportar os andores e o pálio, outros as lanternas e a cruz, muitas pessoas e o clero, sendo que três padres seguiam debaixo do pálio, um de capa de asperges, transportando o Santo Lenho e os outros dois acolitando-o, revestidos com dalmáticas. Se a Páscoa fosse baixa, e o dia de São José coincidisse com algum dia da semana da Paixão, os Santos estavam todos retirados ou cobertos com véus. Nesse caso só saía na procissão São José.

Durante a restante parte da tarde havia arraial, com quermesse, vendas de bebidas e chocolates, arrematações e jogos, nomeadamente o do boneco de atirar bolas e o da pesca às cervejas, sob a orientação e coordenação do Albino. Antes de ser criada a Filarmónica Senhora da Saúde geralmente a procissão e o arraial não eram acompanhados por filarmónica.

No dia do padroeiro as refeições, em quase todas as casas, eram melhoradas: comia-se pão de trigo com manteiga de manhã e ao meio dia e à noite carne de vaca ou de ovelha. Caso uma e outra faltassem recorria-se a uma galinha da capoeira ou a torresmos e linguiça, tudo, é claro, acompanhado com inhames e pão de trigo

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publicado por picodavigia2 às 13:06

BARULHO QUE PENSA

Quarta-feira, 19.03.14

“A música é o barulho que pensa.”

Victor Hugo

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publicado por picodavigia2 às 09:15

ESCADA

Quarta-feira, 19.03.14

São outros os degraus,

Mas a escada é a mesma…

Era ali!

 

Descíamos

E subíamos,

Nas manhãs frias,

Sonolentos,

Acorrentados a uma crença,

Afoitos a um ideal.

 

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publicado por picodavigia2 às 01:05

Quarta-feira, 19.03.14

A Primavera chegara há pouco e, no ar, pairava um perfume, densamente, azedado. A tarde, ainda muito desobscurecida, teimava em aproximar-se do fim. Sentada num banco do jardim, Irene olhava, displicentemente, os caros que passavam velozes, intransigentes, na rua em frente, como se fossem ondas que iam e vinham, apenas elas e só elas a tentarem, infrutiferamente, desfazer-lhe a solidão em que emergira.

Desde há muito tempo que vivia sozinha, isolada, triste, imersa numa espécie de escuridão que a impedia de despoletar vivências gratificantes, de se imiscuir em prazeres amantéticos ou de se encharcar em cometimentos hedónicos.

De vez em quando, porém, gostava de passar o tempo que tinha livre – e tinha muito - ali, sentada num banco, abstracta e abstrusa, no meio daquele silêncio, umas vezes eloquente e acariciador, outras, plangente e opressivo, apenas entrecortado pelas buzinas e motores dos carros, pelo chilrear dos pássaros e pelos gritos das crianças que brincavam no pátio de uma escola, do outro ado da rua. O habitat das suas horas de lazer parecia estar, inevitavelmente acorrentado ao remanso daquele solitário s sombrio jardim.

Os dias passavam lentos e monótonos. Duma caixa de supermercado passara a vendedora de produtos de beleza, numa perfumaria dos arredores. Apesar de, diariamente, lhe surgirem ao balcão dezenas de clientes, geralmente mulheres, muitas delas ávidas de conversas, desejosas de contubérnio, sempre a bisbilhotar, a fazer perguntas, a despoletar silêncios, sempre prontas para devaneios supérfluos, Irene sentia-se cada vez mais só. Tinha trinta e cinco anos e a hipótese de encontrar o companheiro idealizado com quem havia de partilhar momentos de felicidade, de alegria, de bem-estar e, sobretudo de prazer, começava a diluir-se.

Um dia, porém, enquanto almoçava no snack-bar em frente à perfumaria onde trabalhava, renasceu-lhe na alma, uma estranha auréola de esperança. Recebeu um estranho telefonema! Alguém, do outro lado, um homem, numa situação semelhante à sua, pretendia que se encontrassem, a fim de conversarem, partilharem mágoas e angústias. Que esperasse. Em breve chegaria ali. Um fato preto e uma camisa azul escura, haviam de identificá-lo.

Inquieta, expectante e, sobretudo, muito ansiosa, Irene desligou o telemóvel, sem responder e, enigmaticamente, pensativa, voltou à perfumaria. As clientes rareavam, acabando por se reduzirem a zero. Decidiu-se por voltar ao snack-bar. Apenas o dono e duas senhoras, já de idade, sentadas numa mesa, em frente à montra, mantinham-se entretidas com o vai e vem dos automóveis que, apressados, continuavam, cada vez mais intensamente, a cruzar-se na rua, em frente. Pediu um café, abriu o jornal com o intuito de alienar-se, enquanto aguardava. O tempo demorava em passar e, por isso, movia-se emocionalmente, açulada por uma curiosidade inexplicável. Passou um quarto de hora, meia hora e nada. Decidiu-se por regressar, definitivamente, à perfumaria e telefonar. O número ficara-lhe registado no telemóvel. Apenas um silêncio profundo, angustiante e perturbador, do outro lado. Tentou mais uma vez, naquele dia, uma outra no dia seguinte e ainda outra no terceiro dia… Nada. Sempre o mesmo silêncio, sempre a mesma estranha e intrigante e rejeição. Desistiu

Voltaram a rolar vagarosos e monótonos, os dias e os meses… talvez um ano.

Um dia, do lado de fora do balcão da perfumaria, onde geralmente só iam mulheres, encostou-se um homem, já aparentando alguma idade. Uma acentuada calvície a denunciar que já andaria muito para além dos cinquenta, muito magro e alto, mas elegante, charmoso e simpático, muito simpático. Não havia mais clientes. Falaram sobre coisas supérfluas, conversaram sobre assuntos triviais e, Irene sorriu, o que há muito não acontecia. O homem vestia um fato preto, sobre uma camisa azul escura, desajeitadamente desabotoada no pescoço, aparentando que a gravata havia sido retirada há pouco tempo. Voltou no dia seguinte e ela desejou que ele voltasse em mais um dia, em muitos outros dias.

Mas no dia seguinte, o homem de fato preto e camisa azul escura não voltou. Nem em mais nenhum dia. Apenas de vez em quando passava, na rua, em frente à perfumaria. Apenas olhava, sorria e cumprimentava-a com um solene acenar da cabeça. Depois, triste e sorumbático, continuava o seu caminho…

E Irene regressou ao silêncio amargo da solidão, ao emaranhar-se entre as conversas supérfluas dalgumas clientes, o sorriso fingido de outras, entra a indiferença de todas as que demandavam a perfumaria. E ao sentar-se, nas tardes de folga, abstracta e abstrusa, num banco do velho jardim onde apenas, as buzinas dos carros, como se fossem sirenes distantes se misturavam com o chilrear dos pássaros, Irene continuava a sentir uma solidão, aparentemente, ainda maior e, sobretudo, mais dramática. É que na escola em frente, os gritos das crianças que brincavam no pátio, desde há muito que se haviam calado.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:50





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