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BOLOS DE VÉSPERA PARA TODOS

Segunda-feira, 24.03.14

O amplo largo fronteiro à assimétrica igreja de Santa Luzia do Pico estava a abarrotar de pessoas, de conversas e de açafates repletos de bolos de véspera, assinalados com chavões e cravejados de flores. Um espectáculo de cor, de aromas e de simplicidade. Aguardava-se a chegada do pároco que havia de percorrer um a um, os quatro corredores, ao lado dos quais se dispunham os açafates, ordenados e arrumados em cima de bancos, como se fossem gigantescos grãozinhos de milho, semeados em regos paralelos, a germinar nos campos, por entre a terra húmida e fortalecida.

A tarde estava sombria e, do lado de São Jorge soprava um vento húmido, aguerrido e dominador. Cuidava-se mesmo que podia chover. Essa a razão por que o “mordomo” da festa e os seus colaboradores haviam equacionado a hipótese de colocar os açafates no salão paroquial, contíguo à pequena capela que ostentava, no frontispício branco, uma coroa granítica, preta, sobrevoada por uma pomba da mesma cor. Paradigmáticos símbolos do Divino Espírito Santo, nas ilhas açorianas! Mas o tempo aparentava melhoras e o povo preferia ver, observar de perto, sentir e presenciar toda aquela celebração em louvor da Terceira Pessoa da Trindade, ali ao ar livre, entre a montanha e o mar, entre o fogo e água, com o céu a servir-lhe de resguardo.

Não tardou muito e o pároco surgiu, lá do fundo, emergindo da igreja, paramentado de alva branca e estola vermelha, acompanhado de um acólito a segurar-lhe a caldeirinha da água benta e o hissope com que o pão havia de ser aspergido. À frente dois foliões, com tambor e pandeireta – pum-pum, pum-pum – trem-trem, trem-trem – entoavam loas ao Paráclito. O pequeno cortejo aproximou-se dos açafates. Os foguetes ribombaram e o povo fez silêncio. Encharcando o hissope que o acólito lhe apresentava na água da caldeirinha, o pároco, percorrendo os corredores delineados entre os açafates, dirigia preces a Deus, ao mesmo tempo que atirava respingos de água benta sobre o pão. O povo, silencioso, benzia-se. Alguns, mais crentes, bichanavam orações. Terminada a bênção de todos e de cada um dos açafates, o pároco, despojando-se das vestes litúrgicas, retirou-se, enquanto a filarmónica do Cais, entoava, com solenidade e mestria, o Hino do Espírito Santo. Muitos dos presentes acompanhavam os acordes musicais e os solos dos clarinetes, das trompetes e dos cornetins requintados, cantarolando em voz baixa: “Alva pomba que meiga, aparecestes, ao Messias no Rio Jordão…”

O bar, ali ao lado, que, em respeito religioso pelo divino, havia parado durante a bênção, ressuscitava, agora, o reboliço inicial das favas guisadas, dos caranguejos, das lapas e dos copos de vinho, perfumado com o negro enxofre da lava basáltica, onde as vides haviam germinado. Foguetes ribombavam em uníssono com o repicar dos sinos. O apinhado de gente cada vez mais volumoso aguardava, expectante e ansioso, a hora de “receber o pão”.

Dezenas, centenas, milhares de bolos de véspera, assinalados na parte superior com os chavões dos que os haviam ofertado, enfeitados com flores multicolores, passavam, agora, das mãos dos distribuidores para as de todos os que ali, pacientemente, haviam aguardado o momento mágico, transcendente e emocional, em que recebiam aquela dádiva do Divino, oferecida pelo humano.

- Ó sinhô, - explicava Ti Manuel da Silveira, ao mesmo tempo que com a mão direita ajeitava a aba do chapéu de feltro a tapar-lhe o cocuruto e estendia a esquerda para receber uma véspera. – Ó sinhô, isto é um costume muito antigo. Foram os nossos antepassados, há muitos, muitos anos que fizeram esta promessa. E pode acreditar que enquanto houver gente nesta freguesia, esta promessa há-de ser cumprida todos os anos. Lá isso há-de... – Depois apontando lá para os lados da montanha, que se ostentava tímida e enevoada: – O sinhô está a ver ali em cima aquele cabeço, e um outro mais além e ainda outro? Pois são sete, ao todo, veja bem, sete e olhe que de todos eles, há muitos, muitos anos, saiu muito fogo, lava pura, vinda de dentro da terra e que deslizou por aqui a baixo, a correr para o mar como se fosse um rio e destruiu isto tudo. Casas, animais, vinhas e campos, tudo… Tudo, o fogo levou. Ficaram poucos, mas foram esses que, naquele momento de enorme agonia, fizeram esta promessa: “Se o fogo parar, os que escaparem hão-de dar pão aos pobres e a todos os que demandarem esta terra, neste dia, enquanto o mundo for mundo, em louvor do Senhor Espírito Santo”.

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publicado por picodavigia2 às 20:44

NADA

Segunda-feira, 24.03.14

Não se sabe quem inventou o conceito de nada. Há quem diga que foi um senhor chamado Billen Claane.Certo dia, este senhor ao acordar, pressentindo que estaria a despontar uma mítica e emblemática manhã primaveril, assomou à janela do seu quarto e, como havia um nevoeiro persistente e serradíssimo, pura e simplesmente exclamou: Não se vê nada”.

O senhor Billen Claane deveria ter sido julgado e condenado à morte por inventar tal descalabro linguístico. Antes a janela do seu quarto estivesse emperrada, presa, fechada, trancada, atarraxada, colada, enfim, totalmente obstruída, incapaz de ele a abrir e ver, cá fora, o que quer que fosse. Mas não, o senhor Billen Claane, com um desplante do caraças, abriu a janela, olhou cá para fora e, simplesmente viu o que viu: nada, pelo que não esteve com meias medidas e zás,basicamente e num instante, criou um novo conceito.

Hoje ainda nos chegam ecos deste descuido do senhor Billen Claane, do qual somo vítimas inocentes. Por tuto e por nada, não vemos nada, não comemos nada, não nos importamos com nada e nem sequer prestamos atenção a nada. Se alguém nos pede desculpa, respondemos: “de nada”, se estamos preocupados não dormimos nada, se a má disposição nos domina não suportamos nada e se adoecemos não comemos nada. Se nos mandam trabalhar não nos apetece nada, se vamos a qualquer lugar não demoramos nada, se pedimos um favor não nos custa nada, se chegamos atrasados foi apenas um nada e sempre nos aborrecemos por tudo e por nada. Até dizemos às crianças que tomar uma vacina não doí nada, que se deve comer tudo e não deixar nada, que se chover não se pode fazer nada e que se portar bem não lhe há-de faltar nada. Os outros não sabem nada, a televisão hoje não dá nada, o Benfica não está a jogar nada e aos domingos à tarde não se faz nada. Os alunos não aprendem nada, com nevoeiro não se vê nada, os ingleses não gostam de nada e os gananciosos comem tudo e não deixam nada.

Chegado a este ponto, sinceramente, apetece-me mandar o senhor Billen Claane à fava e não escrever mais nada. Mas gostava que chegasse, mesmo que fosse por decisão governamental, uma lei que pusesse fim a este maldito conceito de nada.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:03

O PRIMEIRO NAUFRÁGIO NA FAJÃ GRANDE

Segunda-feira, 24.03.14

O primeiro naufrágio acontecido na Fajã Grande e de que há registo, porque naturalmente muitos houve antes e dos quais muito pouco ou nada se sabe, uma vez que dos mesmos não há memória, aconteceu a 5 de Setembro do ano de 1779. Tratou-se do naufrágio de um pequeno barco que, muito provavelmente, terá efectuado uma viagem da Fajã Grande a Santa Cruz, procedimento muito normal na altura, uma vez que as deslocações por terra eram quase impossíveis. Não havia caminhos e a rocha, os grotões e as ribeiras eram obstáculos quase intransponíveis. Além disso a possibilidade de qualquer transeunte se perder entre nevoeiros e temporais era muito provável. Assim o recurso ao mar para as viagens às freguesias mais distantes, deveria ser muito frequente, sobretudo quando o destino era Santa Cruz, Lajes ou Ponta Delgada. No acidente, que se terá verificado no regresso da viagem, já por fora da Fajã Grande, morreram três pessoas, não se sabendo se a embarcação traria mais tripulantes ou passageiros, o que seria bastante provável.

Foram três as vítimas deste naufrágio, todas naturais e residentes no então lugar da Fajã Grande, pertencente à freguesia das Fajãs. O mais velho chamava-se Cristóvão Valadão de 58 anos. Era filho de António Valadão e de Maria Fraga e casado com Francisca Rodrigues, filha de José Valadão e Isabel Rodrigues. A segunda vítima foi José Mateus de 32 anos, que muito provavelmente seria solteiro. Relativamente à terceira vítima, sabe-se apenas que talvez se tratasse de um jovem ou criança, que se chamava António e que era filho de Domingos de Freitas da Sumada ou da Assomada e de Maria de Freitas, contando estes dados no registo do respectivo registo de óbitos da Paróquia de Nossa Senhora dos Remédios. No entanto o pai, que casou nesta paróquia, em 5 de Maio de 1778, ou seja um ano antes do desastre e da morte do filho, com Delfina dos Santos, natural da freguesia dos Cedros e viúva de João Pimentel. Trata-se, no entanto do terceiro casamento de Domingos de Freitas, uma vez que já teria casado e enviuvado, anteriormente e por duas vezes. No entanto, como, curiosamente, uma e outra das mulheres com quem casou, nas primeiras e segundas bodas, tinham o mesmo nome, Maria Freitas, não se sabe qual delas seria a mãe do infortunado António, falecido neste trágico acidente. Além disso, não consta que Domingos de Freitas da Assomada tenha realizado os seus dois primeiros consórcios na paróquia onde residia, ou seja a das Fajãs.

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publicado por picodavigia2 às 10:51

DINHEIRO

Segunda-feira, 24.03.14

“O dinheiro é óptimo, quase perfeito, é capaz de tirar a pessoa da pobreza, mas nunca será capaz de tirar a pobreza das pessoas.”

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publicado por picodavigia2 às 09:24





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