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ÁUREA D'ESPERANÇA

Sábado, 29.03.14

Um régulo, facínora e depravado, pertencente a uma draconiana dinastia, prendeu, em intransponível ergástulo, um gerontocrata, membro do conselho régio, só porque o mesmo opinara publicamente, opor-se à oferta e sacrifício de sete jovens, destinadas ao regalo das fantasias execráveis e dos apetites depravados, do monarca reinante.

Isto fez com que a Serra Prada, onde reinava o famigerado facínora, vivesse anos e anos, em constante estado de inquietação e insegurança sofrendo e suportando, na maior das ansiedades, os caprichos, veleidades, sarcasmos e depravações deste e de muitos outros governantes enfatuados e instáveis, déspotas destemidos, energúmenos insaciáveis, bárbaros facínoras e janízaros meliantes. Uma dinastia maquiavélica de régulos facínoras, da qual surgiu, anos mais tarde, um monarca heteróclito, perdulário e abstracto que, apesar de tudo, se afastou notória e significativamente das frivolidades lascivas e das ditaduras prementes e opressoras dos seus antecessores.

Uma áurea de esperança surgiu, então, nos ânimos dos serranos pradenses, agora libertos de férula governação, candidatos esperançados à liberdade e à vivência dos seus projectos colectivos e das suas realizações pessoais e individuais. Não pesava, agora, tão constante, lasciva e continuamente, sobre a sua vida e costumes, a maquiavélica e diabólica governação dos régulos anteriores. Porém, com o passar do tempo, os serranos cansaram-se de se sentir enfrascados de aborrecimento, arrecadando e armazenando tédio absoluto e desespero permanente, frutos dum cada vez maior afastamento do novo monarca, dos seus deveres de governante real. O rei era louco por caça e passava dias e noites nos bosques e nas florestas, na mira de acertar em tudo o que lhe surgisse pela frente. Mesmo no rigor do Inverno, quando os nevões visitavam a serra, zebrando o ar plúmbeo, impedindo e obstaculizando, na totalidade, a concretização dos apetites cinegéticos do régulo, este ainda menos se ocupava com os seus súbditos e com a governação do reino, entregando-se, então, a extravagantes façunatas e lautas comezainas, as quais, embora, não cerceando o alvedrio quotidiano dos habitantes da serra, permitiam um efluente declínio e um evidente desgaste do erário público.

O povo, embora, experimentando a suprema vivência da liberdade, estava, porém saturado. A revolução estava eminente! Se as opressões das décadas anteriores tinham coarctado a liberdade e anulado a dignidade do povo, a alienação do monarca reinante desmoralizava o sentido de viver, confundia os valores constitucionais e provocava uma angustiante insegurança e uma confusa incerteza de viver, geradora dum lenocínio galopante, entre os povos serranos.

Os ânimos exaltavam-se, as opiniões dividiam-se e as teorias contradiziam-se. Forças político-sociais obscuras digladiavam-se nas praças e nas vias públicas. O terrorismo já se fazia sentir por toda a parte. Os gritos da revolta eminente ecoavam pelos esconsos mais recônditos da serra. O monarca, porém, continuava calma, impávida e serenamente a alienar-se de tudo e de todos, preparando-se para a caça, simplesmente caçando, ou saboreando lautamente os manjares subsequentes à mesma.

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publicado por picodavigia2 às 23:03

BLUETOOTH

Sábado, 29.03.14

Nos últimos anos da minha careira como professor, felizmente, tive a possibilidade pedagógica de recorrer ao uso do computador nas minhas aulas. Para além de consubstanciar uma maior motivação para os alunos, a utilização do computador permitia-me não apenas uma melhor planificação e uma mais adequada programação das aulas mas sobretudo permitia-me o recurso a metodologias mais dinâmicas, mais envolventes, mais actualizadas e, sobretudo, mais eficientes.

Comprara um computador simples e, relativamente, barato sem grandes placas ou modernas aplicações mas com o fundamental e que servia, perfeitamente, os meus intentos. Iniciando-me no seu uso e abuso, lá fui dando os primeiros passos nos, para mim, quase intransponíveis e infindáveis meandros da informática. Para além dos registos de textos, tabelas e quadros, comecei a perceber que poderia ir mais longe, servindo-me daquela quase mágica caixinha, para conectar e projectar informações através de um retroprojector, de um câmara ou de outros audiovisuais que a escola já possuía.

Certo dia, numa aula que pretendia mais dinâmica e atractiva, preparei-me para a grande aventura. Carreguei-me de sacos, malas e caixas… Computador, projector, colunas e uma data de fios que nunca mais acabava. Logo no início da aula e a muito custo, tentei ligar aquilo tudo conforme me haviam indicado. É verdade que ajuda não me faltou. Mas aquilo, nada! Quantos mais fios ligava e botões carregava,  maior era a desilusão. No ecrã continuava apenas projectada a imagem da página de fundo do meu computador. Felizmente, na turma, havia alguns experts na matéria que, de imediato, me cercaram, disponibilizando ajuda, dando palpites e propondo soluções. Escolhi aquele que cuidei mais ajuizado e sabedor e mandei os outros para os seus lugares. O artista seleccionado, ligou e desligou fios, acendeu e apagou botões e luzes, mirou as máquinas de fio a pavio e concluiu com uma certeza convicta, profunda e, sobretudo, absoluta:

- Ó professor, isto não pode dar. O seu computador não tem bluetooth.

Estarreci. Então tinha comprado um computador caríssimo, moderno, com tudo o que era necessário para as minhas aulas e ele não tinha blutô! Por isso interroguei-o:

- O que é isso do blutô, que esta porcaria deste computador não tem?

Ele, muito calmo, sereno e, sobretudo, seguro, explicou, pese embora muitos outros também o quisessem fazer:

 - Bluetooth, professor, é uma especificação para as redes wireless que permite ligar e trocar informações entre dispositivos como telefones celulares, computadores, impressoras, câmaras digitais, projectores e consolas de videogames digitais através de uma frequência de rádio de curto alcance. Se o seu computador tivesse Bluetooth a informação ou as imagens que o professor tem passavam para o projector e viam-se no ecrã. Assim não se pode projectar nem ver absolutamente nada.

E eis senão quando, perante o protesto e aborrecimento dos alunos, me preparava para abdicar de tudo aquilo e, recorrer ao manual e ao quadro, mergulhando e arrastando a turma comigo às antigas metodologias de uma aula tradicional, um aluno, lá do fundo da sala, levanta-se e anuncia com grande entusiasmo e um misto de vaidade:

- Ó professor, não há problema. Tenho aqui o meu telemóvel e ele tem Bluetooth! – E abandonando o seu lugar, veio até junto à minha secretária, perante a admiração de todos os outros, mostrar-me aquela intrigante mas magnífica máquina de que tanto se orgulhava. Por isso insistia:

- Pode usá-lo, professor, ele tem Bluetooth!

Amirado com aquela maravilha das novas tecnologias, indaguei:

- Tu tens um telemóvel destes? Quem to deu?

- Foi o meu pai!

- E quanto custou?

- Quatrocentos euros!

Sem que o miúdo se apercebesse, abri o Livro do Ponto e consultei a lista de alunos e os respectivos escalões. Fora-lhe atribuído, no início do ano, o Escalão A!

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publicado por picodavigia2 às 15:18

AGRIDOCE

Sábado, 29.03.14

MENU 32 – “AGRIDOCE”

 

ENTRADA

 

Canapés de bolachas cream-crackers barradas com creme de queijo fresco e recobertas com alface e doce de pimento vermelho.

 

PRATO

 

Bife de peru grelhado temperado com pimenta, ervas-doces, alecrim e orégãos e recheado com mortadela, creme de queijo fresco e pedaços de manga fresca, acompanhado com arroz de ervilhas de quebrar.  

 

SOBREMESA

 

 Morango com iogurte de soja/morango, mousse de pera e gelatina de morango.

 

 

 

******

 

Preparação da Entrada: - Barrar as bolachas com o creme de queijo e colocar-lhes pedacinhos de alface encimados por montinhos de doce de pimento vermelho.

 

Preparação do Prato – Temperar o bife com ervas e pimenta, estendê-lo. Colocar-lhe uma fatia de mortadela ou fiambre de peru, barrar com o creme de queijo e colocar os pedaços de manga. Enrolar, prender comum palito, levar ao forno e regar com um pouco de azeite e sumo de limão. Retirar e partir às rodelas. Cozer pedacinhos de manga em água e misturar um pouco de vinho do Porto e azeite. Passar pela varinha e juntar um pouco de maizena desfeita rem água fria, a fim de engrossar. Temperar com ervas. Fazer o arroz\pelo processo tradicional. Empratar, colocando as rodelas sobre o arroz, regar com o molho e ornar o prato.

 

Preparação da Sobremesa – Partir os morangos, cobri-los com um pouco de açúcar e iogurte. Reduzir as peras de calda e misturar bolacha moída. Gelatina tradicional.

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publicado por picodavigia2 às 13:40

FÉRIAS DE NATAL

Sábado, 29.03.14

Embora lento e moroso o primeiro período chegou ao fim, iniciando-se de imediato as ferias de Natal. Um dos prefeitos, reuniu-nos à volta da sua secretária e, sentados nas nossas cadeiras, lá fomos, aflitos e ansiosos, ouvindo as nossas notas e as dos outros, umas melhores outras piores. No dia seguinte, os alunos de São Miguel partiram para as suas freguesias, uns de carro, outros de camioneta, deixando o Seminário, novamente, quase deserto. Durante esses dias levantávamo-nos bastante mais tarde, não havia aulas, os recreios eram maiores e as horas de estudo eram em menor número e destinavam-se, sobretudo, à leitura e até nos era permitido conversar. Outras vezes íamos ouvir música e relatos de futebol para quarto do senhor padre José Franco. Não havia silêncio durante as refeições e saíamos a passear pela cidade, todas as tardes, sem ter que envergarmos o fatinho preto e, sobretudo sem irmos “afogados” no nozinho da famigerada grava preta.

Uns dias antes do Natal, fez-se o presépio, encimado por uma enorme árvore de Natal. O salão/corredor de recreio acendeu-se de sons, de cores, de imagens e lâmpadas coloridas, o que despertou em mim grande interesse e assombro, pois nunca tinha visto tantas luzinhas a piscar ao mesmo tempo e com tantas e tão variadas cores, embora, vezes sem conta, me viesse à memória o simples e rural presépio que se fazia na sala da minha casa, sem uma única luzinha que não havia electricidade na Fajã Grande. Além disso, o Carvalho de Dezembro trouxe das ilhas, para alguns alunos, muitas encomendas recheadas de doces, queijo, linguiça, biscoitos, figos passados e outras guloseimas. Até eu recebi um “cake” da América.

À meia-noite do dia de Natal, dirigimo-nos para a igreja Matriz, para assistir â Missa do Galo. Percorri, juntamente com os meus colegas das ilhas, as ruas da cidade que separavam o Seminário, da Matriz, entusiasmadíssimo com o esplendor e graciosidade das montras, com o piscar das dezenas e dezenas de lâmpadas dos arcos que ornamentavam as ruas e as praças, com o apinhado de pessoas que parecia ainda fazer as últimas compras de Natal. Entrei no templo ainda semiescuro, repleto de vultos negros, de bichanar de orações, de cheiro a velas a arder e de uma música melodiosa e suave.

Pouco depois iniciava-se a missa solene. O pároco, o padre Artur de Paiva, acolitado por dois outros sacerdotes, iniciava a celebração, rezando em silêncio e profundamente inclinado, o “Introíbo”, enquanto o coro cantava cânticos alusivos ao nascimento de Jesus. O povo, de joelhos e contrito, no templo semiescuro, batia com a mão direita no peito e inclinava, religiosamente, a cabeça e pedia perdão a Deus, enquanto o sacerdote rezava o “Confiteor”.

Pouco depois, o padre aproximou-se do centro do altar, de costas para o povo, ergueu os braços e entoou com uma voz muito alta mas martelada e ríspida:

- “Gló-ó-ó-ó-óó-ria in excelsis-sis Dé-é-é-ó”.

O sacristão começou a badalar, prolongada e intensivamente, duas enormes campainhas, enquanto os sinos repicavam e, como por milagre, a igreja se enchia de luz, de cor, de som e o coro respondendo à invocação do sacerdote, continuava: “Et in terra pax hominibus…”

Passados estes momentos de êxtase, comemorativos do nascimento do Menino Jesus, a missa continuou, em latim, misturado com os cânticos do coro e o bichanar de preces, louvores e orações dos fiéis.

No fim, o celebrante substituindo a casula pela capa de asperges, dirigiu-se para junto de um presépio, armada numa das capelas laterais. Depois de o incensar com o turíbulo fumegante, tomou o Menino nas mãos, beijou-O e colocou-se no meio do cruzeiro, enquanto os outros sacerdotes, os seminaristas e povo formava uma enorme fila para também O beijar.

Regressámos a casa e havia chocolates forrados com pratas multicolores, em forma de sininhos, de bolinhas e até de guarda-huvas, pendurados na árvore de Natal

Assim como já acontecera no início do ano, o regresso dos seminaristas de São Miguel, no princípio de Janeiro, voltou a trazer ao Seminário, a alegria, o reboliço e até o barulho, que a sua ausência provocara, desfazendo uma espécie de silêncio sombrio e uma indesejada inquietude, em que aquelas paredes centenárias, como que se haviam aquietado e quase adormecido, durante as férias de Natal. Nós, os das ilhas, habituáramo-nos tão bem e de tal maneira ao convívio e à camaradagem com os alunos de São Miguel, que agora sentíamos a sua falta e já quase nem sobrevivíamos com a sua ausência, não tanto pelo vácuo quantitativo que a sua partida provocara, mas pela amizade que se havia solidificado ao longo do primeiro período e pelo convívio em que já nos havíamos envolvido mutuamente. Sem os seminaristas de São Miguel abria-se, no Seminário, um vazio monumental, uma acabrunhamento inexplicável que só o seu regresso havia de desfazer. Sem eles o Seminário nem parecia Seminário e eles bem o sabiam, porque também partiram borrifados de saudades, deixando desvendar réplicas de uma enorme pena de nos abandonarem e, até, lamentando não nos poderem levar para as suas casas e para as suas freguesias. Por tudo isso regressaram desejosos de nos reencontrar e nós, alegres, por voltar a recebê-los. Além disso trouxeram as suas malas bem recheadas de vitualhas diversas e petiscos variados que foram repartindo connosco, durante quase todo o mês de Janeiro.

A vida, um pouco a custo, lá foi retornando ao seu ritmo normal, disciplinar, formativo, de silêncio, de estudo e de oração. Voltámos a levantarmo-nos cedo, apesar de agora mal habituados e com as manhãs a despontarem gélidas, enevoadas e escurecidas. Em Janeiro, ao sairmos da igreja e ao regressarmos ao Salão de Estudo, o dia ainda não havia clareado. Depois eram as aulas com os professores cada vez mais exigentes, aquele temor inicial, de vez em quando, a diluir-se, aquela fragilidade ténue e simples dos debutantes do início do ano, cada vez a desfazer-se mais e mais, o à vontade a crescer exponencialmente e, consequentemente, as infracções às normas regulamentares a tornarem-se mais frequentes e as repreensões, as ameaças, os avisos e os castigos a agigantarem-se, em catadupa.

Agora conhecíamos melhor os cantos da casa e já não nos amedrontávamos com a penumbra perturbante daquelas escadarias, com o silêncio enigmático daqueles corredores, com os mistérios subtis daqueles recantos e até com os desassombros e simbolismos daqueles subterrâneos, cujas estórias, aos poucos íamos descortinando. Contava-se que muito deles até comunicavam com os de outros conventos femininos espalhados pela cidade e que, noutros tempos, teriam servido de esconderijos aos frades e às freiras, sobretudo, em momentos de assaltos de piratas ou de ataques dos hereges e dos inimigos da fé e do império.

Assim e, ou porque o regulamento o impusesse ou porque este nosso despontar para um mais inebriante e atrevido modo de vida o exigisse, fomos confrontados, por alturas do Carnaval, com um retiro espiritual. Terminado o passeio da tarde de Domingo Gordo, fomos conduzidos à capela da igreja de Todos os Santos, onde nos foi feita a primeira prática, durante a qual nos foi explicado o que era um retiro, as normas a respeitar durante o mesmo, assim como os apelos ao silêncio, à meditação, à reflexão e, sobretudo, à penitência e à oração. Assim permanecemos em silêncio profundo o resto do domingo, durante toda a segunda-feira, até à manhã da terça-feira de Carnaval, a rezar, a reflectir e a andar, em silêncio, para trás e para diante, de um lado para o outro, como se fôssemos uns “doidinhos”.

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publicado por picodavigia2 às 08:04

O ALFAIATE, O SAPATEIRO E OS LADRÕES

Sábado, 29.03.14

(CONTO TRADICIONAL)

Havia numa pequena aldeia, nos tempos em que os mortos eram sepultados no interior dos templos, uma igreja que estava constantemente a ser assaltada por dois ladrões. O pároco, já velho, muito agastado com tais crueldades e incapaz de impedir tais atrocidades, pediu aos seus paroquianos, que todas as noites ficassem, à vez, a vigiar a igreja dois homens da paróquia, a vigiar a igreja.

Certa noite coube a dois moços, jovens e ávidos de se divertirem durante a noite e que a todo o custo se queriam livrar daquela tarefa. Para isso contactaram o alfaiate e o sapateiro, os quais, mediante bom pagamento, decidiram ficar a guardar a igreja no lugar dos rapazes.

Os dois vigilantes, ao anoitecer, entraram no templo e subiram para o coro a fim de assim estarem mais escondidos e não serem vistos pelos ladrões. Era Inverno e a noite era longa, por isso, resolveram aproveitar o tempo, começando cada um a trabalhar no seu ofício. Lá pela noite dentro ouviram um barulho estranho. Eram os ladrões que chegavam para roubar a igreja. O alfaiate e o sapateiro, cheios de medo, calaram-se e ficaram muito quietos sem fazer barulho, deixando os ladrões entrar no templo, à vontade e com toda a liberdade. Os ladrões vinham carregados com sacos em que traziam não apenas dinheiro mas também alguns objectos roubados noutros lugares e estenderam um lençol no meio da igreja, colocando em cima dele tudo o que traziam de roubos e assaltos anteriores, a fim de verem melhor e apreciarem o seu pecúlio.

Não satisfeitos com o que tinha procuraram, no templo, mais alguma coisa que aumentasse o fruto dos seus roubos. Porém, no momento em que procuravam por toda a igreja alguma coisa que lhes interessasse, o alfaiate, levantando-se, gritou com toda a força do seu peito, mas com voz roufenha e muito disfarçada: "Acudam aqui, defuntos". Ao que o sapateiro logo respondeu gritando ainda com mais força, mas alterando a voz, como se fosse em eco: "Já lá vamos todos, já lá vamos todos juntos."

Os ladrões, cuidando que eram realmente os mortos a falar, apanharam tamanho susto que nem mais um minuto ficaram ali parados, fugindo da igreja a sete pés, como faíscas de labaredas. Largaram em debandada pela aldeia abaixo, deixando no meio da igreja tudo o que traziam dos seus roubos anteriores. O alfaiate e o sapateiro, apanhando-se sozinhos, correram logo para junto do que os ladrões haviam deixado sobre o lençol, no meio do templo. No entanto, depois de muito correr e já cansados, os ladrões pararam para descansar. Um deles disse: “Não devíamos voltar à igreja, para ver o que lá havia. Ao que o outro retorquiu: Eu não vou, pois aquilo talvez são coisas ou castigo do diabo e contra o diabo nós não podemos fazer nada".

Apenas o outro voltou à igreja, Entrou à socapa e, escondendo-se, pôs-se a escutar o que se passava. Naquele momento, porém, o alfaiate e o sapateiro, depois de terem dividido quase toda a fortuna pelos dois, disputavam, ferozmente, um real. Mas não havia maneira de se entenderem. Como a igreja estava escura e o ladrão não via nada aproximou-se e ao chegar junto deles disse:

- "Ai, meus amigos! Muitos devem ter sido os mortos que que vieram, pois nem toca a real a cada um".

Dito isto e cheio de medo, pôs-se em fuga e muito assustado foi contar ao outro o que se passaram. Fugiram ambos dali e nunca mais voltaram a assaltar a igrejinha daquela terra.

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publicado por picodavigia2 às 00:46





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