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MANUEL JOAQUIM DIAS

Quarta-feira, 30.04.14

Manuel Joaquim Dias nasceu na cidade da Horta, em 21 de Dezembro de1852 e faleceu na mesma cidade. em 21 de Janeiro de 1930. Oriundo de uma família pobre não lhe foi possível frequentar o liceu e, assim, logo que feito exame da 4.ª classe, foi aprender o ofício de barbeiro. Isso não o impediu, porém, de se cultivar.

Autodidacta, adquiriu uma vasta cultura literária, lendo assiduamente os melhores clássicos portugueses: Camões, Filinto, Bocage e Tolentino. Estudou inglês e francês, o que lhe permitiu conhecer as obras de Victor Hugo, Lamartine, Proudhon e Spencer. À força de leituras, acabou por adquirir uma bagagem de conhecimentos verdadeiramente excepcional, sobretudo no campo da Filosofia. Entretanto, conseguiu empregar-se como amanuense na Administração do Concelho da Horta, de que veio a ser secretário.

A sua obra poética está recolhida nos seguintes volumes: Margarida, Apoteose Humana, Telas da Vida e Ao Cair das Sombras.

Romântico, primeiro, evoluiu depois de 1884 para um parnasianismo prosaico, em que, a par com preocupações sociais, frequentemente manifesta pendor para a interpretação filosófica e as divagações científicas. Traduziu Whalt Whitman e nos seus artigos e ensaios filosófico-sociológicos há referências às doutrinas de Marx.

Apoteose Humana é a sua obra de referência, com estrofes modulares, quer sob o ponto de vista conceptual, quer sob o ponto de vista formal. Inspirando-se nas epopeias cíclicas então em voga e crente no positivismo científico, Manuel Joaquim Dias fala, no referido livro, da glorificação do homem triunfando das forças cegas de um destino cego, liberto, enfim, «evolutivamente, do grosseiro determinismo primitivo».

Jornalista, foi redactor de vários semanários, entre os quais O Açoriano e colaborou em muitos jornais e revistas açorianos e de Lisboa.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 22:53

TALVEZ UM DIA

Quarta-feira, 30.04.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Talvez um dia a minha poesia seja

simples e natural

como um corpo de mulher abrindo-se ao amor.

 

Poesia simples, sem ódios nem revolta.

Poesia que fale

Só de cousas belas.

 

...E, liberto talvez do sonho antigo de evadir-me,

não me perturbará mais a presença longínqua

dos transatlânticos passando.

 

Ai,

Simples e natural

Como uma canção de berço.

 

(de A Ilha e o Mundo, 1952)

 

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publicado por picodavigia2 às 21:47

LINGUAGEM DO NHEM-NHEM

Segunda-feira, 28.04.14

Era uma vez uma velhinha

Que andava aborrecida

Dizendo sempre sozinha:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

A pobre e boa velhinha

É que estava sempre em casa

Por isso resmungava sozinha:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Tanto a velha falava assim

Que até quando alguém passava:

Dizia, julgando que estava sozinha:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

O gato, no canto da cozinha

Escutando a boa velhinha

Principiou também a miar assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

E quando a velha zangada,

Resmungava com o gatinho

Ele respondia-lhe sempre assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Depois veio um cãozinho,

Que morava na casa vizinha

Também começou a falar assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Uma cabra que pastava ali pertinho,

Ouvindo o cão e o gato

Começou também a berrar assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Um pato que a velha tinha

Também não se fez rogado

E logo começou a grasnar assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Até o galo e as galinhas

Que punham ovos para a velhinha

Começaram a cacarejar assim

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Uma vizinha da vellhinha

Que era muda, não falava,

Também começou a gritar assim.

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Todos quiseram aprender

A falar de noite e de dia

Aquela linda melodia:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

De maneira que a velhinha

Que não tinha companhia

E falava sempre sozinha:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Ficou toda contente

Pois mal a boca abria

Logo todos lhe respondiam:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

E até os meninos da escolinha,

Ouvindo a história da velhinha,

Também aprenderam a dizer:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

 

E quando a professora falava

Mandavam calar os meninos

Falavam como eles assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

E a vizinha na sala do lado,

Ouvindo a colega falar

Falava com os meninos assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Depois as outras professoras

Também não ficaram atrás

E todas falavam assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

E até as auxiliares ouviram

Ouvindo meninos e educadoras

Começaram a falar assim:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

 

Quando chegaram a casa

Os meninos contaram a história da velhinha

E os pais também começaram a falar:

Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem-Nhem.

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publicado por picodavigia2 às 15:50

ELEFANTE NA SOPA

Segunda-feira, 28.04.14

Quando entrei na sala de jantar, da casa da prima Secundina, faltava marcar o último. A esperança, nesse momento, era vermelha e o azul tremia, tímido e expectante. Admirado, interroguei a prima Secundina, sobre a causa de tal descalabro. Ela esclareceu:

- Coincidia com o agendado há muito. Cometeram o primeiro erro em Coimbra. Arrastar o jovem promissor para voos tão altos, tirá-lo duma canada íngreme e sinuosa e enfiá-lo, sem mais nem menos e de repente, numa auto-estrada, fora um enorme disparate, Agora, estava patente um inequívoco desconforto.

- Desastre completo... Falha fulgorao Azul e a festa é, decididamente, forasteira.

A prima Secundina gostou da surpresa e saltitou contente perante a hipótese de ornamentar a sua sala com fitas de um colorido vermelho, inesperadas e abrupto.

O orgulho da glória nacional traz consigo a tragédia, dura, platinada e explosiva. Bem merecem…Para abater o orgulho e a vanglória:

- Então, meu caro, diga-me o que é que se passa para eles caírem com tamanha monstruosidade e em atmosfera tão enigmática? – Pergunta a minhaprima.

A resposta é grandiosa e chega mesclada de pedaços de ética e de bem-fazer, unidos ao espírito de missão e compromissos de honra.

- Agrada-me esperar que a nova época vai ser diferente, muito diferente. Vão ver!. Não imagina o tempo que se perde quando os meninos querem fugir. Que vão! Vêm outros, menos carismáticos mas melhor ensinados. Verão no verão.

A mesa parece querer sorrir e disfarçar o sombrio que irrompe. Um senhor de verde tenta desviar as atenções atirando para o ar brevidades esvoaçantes, relacionadas com as apostas do Bet 365.

O voo parte atrasado, mas parte

De repente, cai um elefante sobre a sobremesa, e acerta no prato da sopa. Por sorte, o prato era azul e não era o da prima Secundina…

Nesta neste azul, quando se convidam vermelhos, deve-se sempre ter cuidado com os pratos da sopa, para neles não caírem elefantes.

Desta feita, caiu um… e grande.

So delicious... I enjoy it.

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publicado por picodavigia2 às 15:24

MONSENHOR CAETANO TOMÁS

Domingo, 27.04.14

Francisco Caetano Tomás, cónego da Sé de Angra e Monsenhor, nasceu na freguesia do Lajedo, concelho das Lajes, ilha das  Flores, Açores, a 12 de Setembro de 1924. Para além de professor no Seminário de Angra e do Liceu da mesma cidade, destacou-se, também, no campo do aconselhamento psico-social no âmbito da acção pastoral católica. Embora seja por vezes referido como "psicólogo", não detém curso superior em Psicologia nem está inscrito na Ordem dos Psicólogos Portugueses, formou-se sim em Filosofia e Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma.

Monsenhor Caetano Tomás, como é mais conhecido, completou os seus estudos iniciais no Seminário Episcopal de Angra, na ilha Terceira, tendo de seguida estudado em Roma, de 1947 a 1954, na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde se licenciou em Teologia e Filosofia. Fez também alguns cursos de Matemática, Física e Métodos Científicos na Universidade de Roma.

Regressou aos Açores em 1954, fixando-se em Angra do Heroísmo, onde iniciou a sua carreira de docente no Seminário Episcopal de Angra. Foi também docente, de Psicologia, na Escola do Magistério Primário de Angra do Heroísmo e na Escola Superior de Enfermagem daquela cidade,

Para além da sua actividade docente, destacou-se na introdução do aconselhamento psico-social, especialmente em matérias matrimoniais e de família, no âmbito da acção pastoral da Igreja Católica Romana, no âmbito da qual foi nomeado cónego da Sé Catedral de Angra e distinguido com o título eclesiástico de monsenhor.

Nesse mesmo campo, sempre no contexto das suas funções eclesiais, participou em múltiplos programas sobre Psicologia na rádio e na televisão, e realizou acções de formação nessas matérias para docentes dos ensinos básico e secundário e para o público em geral.

Desde 1980 que é o principal orientador dos "Cursos de Preparação para o Matrimónio", obrigatórios para os nubentes que pretendam casar no rito católico na Diocese de Angra, É actualmente director do jornal ergoterápico O Irresponsável, da Casa de Saúde de São Rafael, em Angra do Heroísmo.

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publicado por picodavigia2 às 23:50

IN ALBIS

Domingo, 27.04.14

Chama-se In Albis ao domingo imediato ao da Páscoa, porque, nos primórdios da cristandade, era nele que os neófitos, ou seja os cristãos baptizados durante a vigília pascal, depunham a túnica branca do baptismo que haviam recebido, naquela noite santa. No entanto, este domingo também tem outras designações, sendo conhecido por Quasi modo por serem estas as primeiras palavras do antigo intróito da missa, deste dia. Esta designação está intimamente relacionada com uma das personagens do romance de Victor Hugo, Nossa Senhora de Paris. Trata-se duma personagem que recebeu este nome, por ter sido abandonada à nascença e encontrado neste dia, junto da catedral parisiense. Quasimodo, no entanto, nasceu com notáveis deformações físicas, descritas por Victor Hugo como "uma enorme verruga que cobre seu olho esquerdo" e "uma grande corcunda". Foi recebido e adoptado pelo arcediago da catedral, que o baptizou. Desconhecendo-lhe nome, atribuindo-lhe aquele nome, por ter sido encontrado naquele domingo, designando-o, depois de adulto, para ser sineiro da Catedral. Devido ao alto som dos sinos de Notre Dame, Quasimodo acabou por ficar surdo. Apesar da sua aparência monstruosa, Quasimodo apaixonou-se pela cigana Esmeralda, salvando-a de ser assassinada.

Na Fajã Grande, onde este episódio da literatura mundial, obviamente, era desconhecido, e em muitos outras localidades, este domingo, que ocorre, precisamente, oito dias depois da Páscoa, correspondendo ao domingo seguinte ao domingo de Páscoa, agora, também denominado Dia da Misericórdia de Deus, sendo a oitava da Páscoa era designado como domingo da Pascoela, por simbolizar o prolongamento do próprio domingo de Páscoa, numa atitude festiva da Igreja e dos fiéis, podendo dizer-se que representa uma espécie de diminutivo da palavra Páscoa, ou Páscoa Menor e era neste domingo que se iniciavam as celebrações e as festas em louvor do Divino Espírito Santo, pois a partir deste dia todas as coroas dos vários impérios da freguesia se deslocavam, em cortejo, acompanhadas dos foliões e das bandeiras, para a igreja paroquial, onde ficavam presentes durante a missa de domingo. Por isso estes domingos eram designados pelos domingos em que o Senhor Espírito Santo ia à Missa. Nos pátios das casas onde existiam crianças eram colocadas bandeiras do Espírito Santo, vermelhas e brancas, com o desenho da coroa ou da pomba no centro.

Segundo a tradição popular, nalgumas localidades, era durante a celebração da missa, no domingo de Pascoela – quando esta se realiza às três horas da tarde em ponto – que, entre a elevação da hóstia e do cálice, «ao pedir-se uma graça, ela seria concedia».

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publicado por picodavigia2 às 11:57

O DIA SEGUINTE

Domingo, 27.04.14

O dia seguinte ao da tremenda catástrofe amanheceu sombrio, escuro com um tempo ameaçador. O vento soprava de Noroeste, o mar revoltara-se e embravecera subitamente e, sobre o Faial pairavam umas nuvens cinzentas, sinistras, prenunciadoras de aguaceiros. Era evidente que, mais tarde ou mais cedo, havia de chover.

A ameaça de chuva, no entanto, consubstanciava uma ambivalência, aparentemente, intrigante. Por um lado se chovesse seria benéfico, pois a chuva enviada por Deus como que serviria para limpar, para lavar e até para arrefecer todo aquele manto de lava, aquele pantanal de fogo que no dia anterior correra em catadupa por ali abaixo, que ainda fumegava, deixando um pestilento cheiro a enxofre e a carne queimada e deixara marcas atrozes, aterradoras e indeléveis, por aqui e por além, no solo. Por outro lado, porém, a chuva não era bem-vinda, antes pelo contrário, até era indesejada, pois seria uma autêntica desgraça, uma verdadeira tragédia. É que para além de trazer o frio consigo, a chuva não seria condescendente com ninguém, a todos molharia. Na realidade os abrigos eram poucos e a maioria das casas havia sido destruída por completo. Quase todas as habitações, sobretudo as mais débeis e pobres, haviam ruído e até a própria capela de Santa Luzia também sofrera prejuízos enormes, arrasantes, destruidores e irreparáveis, pondo em causa todo o seu interior, nomeadamente, a imagem da padroeira, as alfaias litúrgicas, os altares e até o sacrário onde se guardava o Santíssimo Sacramento. Apenas a coroa do Divino Espírito Santo que Frei José das Cinco Chagas havia retirado do altar e colocado sobre uma mesinha, fora da porta do templo, escapara àquela tremenda e avassaladora catástrofe.

Por volta do meio-dia a previsão confirmou-se. As nuvens escuras e carregadas de água que haviam amanhecido sobre o Faial, durante a manhã, tinham-se deslocado, muito lentamente, na direcção do Pico. Parecia que haviam parado ali mesmo, por cima de Santa Luzia, para dentro em breve se abrirem, despejando águas diluvianas por ali abaixo. Com as casas destruídas, a lava a devastar tudo e, agora, com a chuva a alagar o pouco que sobrara, não havia sítio onde o povo se abrigasse e protegesse, nem migalha com que se saciasse a fome. Sobretudo as crianças e os mais idosos sofriam em demasia.

A meio da tarde, no entanto, começaram a chegar carros de bois, carroças puxadas por cavalos e mulas carregadas de géneros alimentares, de roupas e agasalhos diversos, vindos de Santo António, do Cais do Pico e, sobretudo, de São Roque. O povo destas localidades, apesar de também atingidas por fortes tremores de terra, e as próprias autoridades municipais, sob as ordens do tenente Alçada de Melo, representante do capitão do donatário, sediado na vila das Lajes, haviam recolhido e angariado alimentos, roupas, cobertores, remédios, desinfectantes, chás e mezinhas. Vinham ali trazê-los distribuindo-os pelos doentes, pelos velhos, pelas crianças e sobretudo pelos mais necessitados. Juntamente, também um grupo de fradinhos, sediados num convento, construído uns anos antes e localizado no povoado do Cais do Pico e que pertenciam à Ordem dos Frades Menores, para ali se dirigira a prestar auxílios, a trazer conforto, a fortalecer os ânimos. Na madrugada do dia seguinte chegaram do Faial alguns barcos também carregados de géneros alimentares e de barracas feitas de pano de serapilheira e de peles de animais, destinadas a abrigar os que haviam ficado sem habitação.

José Pereira de Azevedo, a mulher e o filho passaram a primeira noite ao relento. Enrolados em grossos cobertores e em sacos de serapilheira, alguns cheios de lã, de palha, de erva ou de feno. Os pais, com o calor dos seus corpos, foram protegendo o pequeno António do vento, do frio, da chuva e dos rigores matinais.

A meio da manhã e depois de convencer Madalena de São João a permanecer ali, junto às paredes da pequena ermida, José Pereira de Azevedo decidiu ir dar uma volta, no sentido de verificar como haviam ficado os seus parcos haveres: duas pequenas terras de trigo, outras tantas de vinha e, lá mais no alto, uma de incensos e faias. O medo e o terror dominavam-no como se fosse um pássaro ferido, sem comida e sem ninho. Sabia que a lava se havia escoado para os lados das Bandeiras com mais intensidade e aí fizera os mais graves prejuízos. E os seus receios tornaram-se reais. Todas as suas propriedades haviam sido totalmente destruídas pela lava incandescente que no dia anterior a montanha expelira.

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publicado por picodavigia2 às 08:46

A SENHORA DOS MILAGRES DO CORVO

Sábado, 26.04.14

A padroeira de Vila Nova do Corvo é a Senhora dos Milagres, cuja festa se celebra a 15 de Agosto. A padroeira da vila e da ilha está representada, na igreja paroquial, por uma pequenina imagem de Nossa Senhora, que se diz dos Milagres e que, segundo a tradição, terá chefado à ilha juntamente com os primeiros povoadores. Felizmente, por vontade explícita do povo, até hoje, nunca foi substituída por outra maior e, sobretudo, mais bonita, como, infelizmente, aconteceu, ao longo dos séculos, em muitas igrejas e ermidas das restantes ilhas e do próprio continente. Trata-se, na realidade, da conservação secular, de uma obra de arte da escultura religiosa do século XV, trazida pelos primeiros povoadores da mais pequenina ilha açoriana.

Dizem os estudiosos da arte sacra que esta imagem, muito possivelmente, será de origem flamenga, tendo, nos primeiros anos do povoamento, sido invocada como Nossa Senhora do Rosário, primeiro nome da única paróquia existente no Corvo.

Uma lenda, ainda hoje muito divulgada e presente na crença popular, explica a mudança da invocação de Nossa Senhora do Rosário para Nossa Senhora dos Milagres. Segundo essa lenda, quando a ilha foi invadida por piratas que tentavam saquear a população, retirando-lhe os seus bens, levando os jovens como escravos, violando donzelas, roubando e destruindo tudo, os corvinos, bravos e destemidos, invocando a Virgem sua padroeira, conseguiram afastá-los e assustá-los de tal maneira que os facínoras regressaram a bordo dos seus navios e fugiram. Alguns pereceram à defesa dos corvinos, tendo um deles sobrevivido. Ao ser recolhido pela população, contou que em cima da rocha, junto ao mar, havia uma mulher na qual as balas das suas armas faziam ricochete e voltavam para eles, atingindo-os. Esta mulher, segundo o povo cuidou, era a Virgem, sua padroeira, que assim, miraculosamente, os protegeu e defendeu, pelo que o povo passou a invocá-la como Senhora dos Milagres.

Consta que a partir de então, como agradecimento e prece, invocando a protecção de Nossa Senhora dos Milagres, no Corvo, todos os dias, antes da missa, se reza o Rosário, em honra de Nossa Senhora.

Ao longo dos anos, muitas têm sido as promessas feitas à Virgem, Senhora dos Milagres, sobretudo pelos inúmeros emigrantes que se fixaram na América e no Canadá. A Padroeira do Corvo possui um rico tesouro em ouro, composto por duas coroas, uma para a Senhora e outra para o Menino, e ainda um preciosíssimo rosário também em ouro. Segundo uma outra lenda, este rosário terá sido oferecido à Virgem, pelo célebre pirata Almeidinha, que era amigo do pároco do Corvo e através dele das suas gentes e como sinal da sua amizade ofertou esta relíquia a Nossa Senhora.

Este pirata era tão amigo do padre que na altura paroquiava a ilha e que seria natural de São Jorge, conhecido como o padre Queixudo, devido a exagerado formado do seu queixo que lhe dava um aspecto feio. Segundo alguns historiadores, o padre Queixudo " paroquiava a ilha do Corvo na data 1819-20” altura em que terá decorrido o episódio com o pirata Almeidinha que, numa das suas escalas na ilha, não encontrando o padre Queixudo, soube que este tinha sido preso por ordens de El-rei, devido às suas relações de amizade com os piratas. O pirata Almeidinha, então, deixou dinheiro a fim de  com ele se pagar o resgate e, assim, conseguir o regresso à ilha do bondoso sacerdote.

À festa da Senhora dos Milagres, deslocava-se, antigamente, muita gente das Flores, inclusivamente da Fajã Grande, de onde, quase todos os anos, se o tempo estivesse bom, partia uma lancha a abarrotar de pessoas, tendo-se verificado, em 1942. Um grave desastre onde perderam a vida dezassete pessoas.

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publicado por picodavigia2 às 22:05

O GATO DAS BOTAS

Sábado, 26.04.14

Era uma vez um moleiro que tinha três filhos. Um dia, chamou-os para lhes dizer que ia repartir por eles todos os seus bens. Assim: ao mais velho deu o moinho, ao do meio deu o burro e ao mais novo deu o gato.

O filho mais novo ficou muito triste porque entendia que o pai não tinha sido justo para com ele. Mas, surpresa das surpresas, alguns dias depois, o gato começou a falar!

Certo dia disse-lhe:

- Dá-me um saco e um par de botas…

O rapaz ficou muito espantado e obedecendo ao pedido do gato no dia seguinte, lá foi comprar um saco e umas botas.

- Aqui estão meu amigo! - Disse ele.

O gato calçou as botas, pegou no saco e foi para uma floresta que havia por ali perto. Como era muito esperto, não demorou muito a apanhar uma lebre bem gordinha, que a pôs dentro do saco. De seguida, pôs o saco às costas e dirigiu-se para o castelo onde morava o rei e ofereceu-lhe a lebre, dizendo:

- Magestade, venho da parte do meu amo, o marquês de Carabás, e trago-lhe esta linda lebre de presente, que ele lhe manda.

O rei ficou muito impressionado e contente com aquela atitude e disse:

- Diz ao teu amo que lhe agradeço muito!

Daí em diante o gato repetiu aquele gesto várias vezes, levando vários presentes ao rei e dizendo sempre que era uma oferta do seu amo, o marquês de Carabás.

Um dia, em que o rapaz passeava pelos campos, na companhia do gato, este diz-lhe:

- Senhor, tomai banho neste rio que eu trato de tudo.

O gato esperou que a carruagem do rei passasse junto ao rio onde o seu amo tomava banho e pôs-se a gritar:

- Socorro! Socorro! O meu amo, o marquês de Carabás, está a afogar-se! Ajudem-no!

O rei, ouvindo aquilo, mandou logo parar a carruagem e ajudou o marquês, dando-lhe belas roupas e convidando-o a passear com ele e com a filha, a princesa, na carruagem real.

O gato desata então a correr à frente da carruagem. Pela estrada fora, sempre que via alguém a trabalhar nos campos, pedia-lhes que dissessem que trabalhavam para o marquês de Carabás. O rei estava cada vez mais impressionado! Por fim, chegando a um castelo gigante, o gato pediu para ser recebido pelo Gigante,  e perguntou-lhe:

- É verdade que consegues transformar-te num animal qualquer?

- É! - Disse o gigante. 

Então o gato pediu-lhe que se transforme num rato. E assim foi. O gato que estava atento, deu um salto, agarrou o rato e comeu-o. O rei, a princesa e o marquês de Carabás chegam ao castelo do Gigante, onde são recebidos pelo gato:

- Sejam bem-vindos à morada do meu amo! - Disse o gato.

O rei nem queria acreditar no que os seus olhos viam:

- Tanta riqueza! Tanta sumptuosidade! Tem que casar com a minha filha, senhor marquês.

E foi assim, graças ao seu gato e a um par de botas, que o filho de um pobre moleiro casou com a princesa mais bela do reino.

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publicado por picodavigia2 às 10:42

BURRO E SÁBIO

Sábado, 26.04.14

“Mais fácil é ao burro perguntar que ao sábio responder.”

Provérbio Popular

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publicado por picodavigia2 às 10:02

JONAS NEGALHA

Sábado, 26.04.14

Jonas de Amaral Medeiros Negalha nasceu em 1933, na Lomba da Maia, ilha de natural da freguesia de Lomba da Maia, ilha de S. Miguel, viveu alguns anos em Ponta Delgada tendo emigrado para o Brasil e fixado residência em S. Paulo onde trabalhou e veio a falecer em 2007. Professor, escritor, poeta, começou a sua carreira literária com a publicação do livro de poemas "Versos ao Marquês de Pombal". Depois seguiu uma verdadeira carreira literária, com a publicação de outras obras, revelando-se escritor, poeta, filósofo e professor. Foi membro da União Brasileira de Escritores. As suas obras já foram traduzidas em várias línguas e, em 1970, foi candidato ao Prémio Nobel de Literatura. A sua poesia caracteriza-se pela independência estilística e ideológica e os seus versos denunciam as iniquidades sofridas pelo ser humano, sobretudo nos países sob o domínio imperialismo. A sua poesia como que carrega uma chuva de munições contra o colonialismo português em África. É possível perceber, através dos seus versos, que Ele viveu o tempo Salazar, do fascismo e do colonialismo.

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publicado por picodavigia2 às 00:22

LENDA DE LISBOA NOVA

Sexta-feira, 25.04.14

Conta uma antiga lenda que há muitos, muitos anos vivia na freguesia da Fajãzinha um rapaz muito destemido e trabalhador. Todos os dias ajudava os pais, ora cavando e sachando os campos onde florescia o trigo, ora ceifando erva e fetos para o gado, ora acartando lenha para a mãe acender o lume, cozinhar os alimentos ou para aquecer o forno para cozer bolo e pão.

Ora um certo dia, em que o rapaz foi buscar um feixe queirós ao mato para a mãe acender o lume, ao descer a ladeira dos Bredos, enquanto assobiava, distraidamente, olhou para o mar e viu uma ilha, com uma cidade muito grande e bonita, como ele imaginava que seria a cidade de Lisboa. Desviou os olhos por um momento e, ao voltar a olhar na mesma direcção, já não viu nada. Ficou tão espantado que passou o caminho o mais depressa que pôde e quando chegou cá baixo, junto do povoado, ofegante, só conseguia dizer:

 - Eu vi Lisboa Nova! Eu vi Lisboa Nova ali por baixo do Portal, no mar.
Mas isso, afinal, não era novidade para as pessoas mais velhas da freguesia que muitas vezes já tinham visto a ilha encantada no mar, onde diziam que vivia el-rei D. Sebastião. Disseram-lhe então que ela costumava aparecer sempre, quando a noite de Natal calhava numa sexta-feira, e que se alguém fosse lá nessa noite a ilha ficaria desencantada para sempre.

O rapaz sonhou o resto de toda a sua vida em desencantar a ilha, numa linda Noite de Natal, mas nunca o conseguiu e por isso ainda hoje o povo, não só o da Fajãzinha mas até o da Fajã, acredita que existe, a Lisboa Nova, encantada no mar, por fora do Portal, na freguesia da Fajãzinha.

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publicado por picodavigia2 às 22:43

ANINA INÁCIA

Sexta-feira, 25.04.14

Morava na Fontinha, era casada com o Candonga e tinha dois filhos: O José e a Maria Silvina. A Anina Inácia era vizinha dos meus avós. O portão do pátio da sua casa ficava mesmo em frente à porta do piso superior do palheiro do meu avô. Como eu acompanhava os meus tios, sobretudo nos dias de chuva, em que passavam as tardes, por ali, a concertar corsões e arados, a preparar a comida para o gado, a arrumar os fetos e a rama seca e a tirar o esterco do gado ou ordenhar as vacas, encontrava-a todos os dias.

Era uma mulher muito humilde, sensata e trabalhadora, como se dizia na altura “não parava”. Como o marido, para além de esporadicamente ser acometido de doença mental, era baleeiro, pescador e, em tempos que não havia faina marítima, “dava dias para fora”, era ela, a Anina Inácia que era o homem da casa, executando, com perfeição, todas os trabalhos de cultivo dos campos e tratamento do gado.

Uma das principais tarefas, que logo de manhã executava, era o ir ceifar erva a uma lagoa que tinha, creio que para os lados da Figueira. Levantava-se de madrugada, foice ao ombro, corda na mão, saiote de lã, calçando umas grossas botas de borracha que lhe davam quase pelo joelho. Pouco depois regressava, com um grande molhos de erva à cabeça, para o sustento da única vaca que tinha no palheiro.

De seguida tirava o leite à vaca e regressava aos campos para ceifar, mondar, sachar, plantar ou então acarretava à cabeça pesados cestos de batatas, inhames, milho ou de estrume e até baldes de urina do gado. Fazia tudo esta mulher, apesar da idade e da doença, de fraca alimentação e da ausência de cuidados médicos.

Encontrava-a tantas vezes, ora carregando pesados cestos ou molhos, ora de foice ou machado ao ombro e cordas na mão. Condenada ao trabalho, no entanto, aquela mulher olhava para mim com um sorriso, é verdade que dolente e sofredor, mas contagiante e solidário. Quando me cruzava com ela nos caminhos e veredas, por aqui e por além, a blandícia do seu rosto, o trémulo brilho dos seus olhos, a sorumbática expressão do seu sorriso e, sobretudo o trabalho excessivo a que estava condenada mas a que se dedicava com resignação, faziam-me lembrar a minha mãe, lembrança fermentada com o facto de o Candonga, o seu marido, sofrer de doença semelhante à do meu pai…

E esta mulher, apesar de digna, nobre, trabalhadora, talvez nunca granjeou a merecida simpatia, a devida recompensa, nem sequer a devida estima social, que o seu árduo trabalho merecia, na terra onde nascera, só porque era pobre, muito pobre e o marido, doente mental!

A justiça do mundo onde devia imperar o reconhecimento pelo valor do outrem é um mar profundamente abalado pela incompreensão, pela indiferença, pela insensatez, pelo desprezo e, sobretudo pelo ódio e pela inveja!

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publicado por picodavigia2 às 17:59

A BAIXA-RASA

Sexta-feira, 25.04.14

Nos mares da Fajã Grande, plantadas na parte mais ocidental da enorme baía, circundada pelo extenso Rolo que se inicia no Pesqueiro de Terra e termina, já na Ponta, no Ilhéu do Cão, existem duas interessantíssimas formações rochosas, uma e outra muito bem visíveis de terra, formando uma espécie de par: ele, o Monchique, ela a Baixa-Rasa.

O Monchique, muito maior e mais alto, mais mítico e emblemático, tem sido muito divulgado em revistas e fotos, objecto de estudos e relatos e, além disso, hoje mais do que nunca, ufana-se de ser o ponto mais ocidental da Europa. A Baixa-Rasa, ao contrário, muito pequenina, silenciosa e humilde, perdida entre temporais e ciclones, a surgir apenas com a maré vasa, tem sido a eterna esquecida. Injustamente, diga-se em abono de verdade. E se não fosse o brilho e o fulgor do Monchique ou melhor, se este não existisse, a Baixa-Rasa possuiria, de certo, a excelência de todos os predicados que a este se atribuem e teria os requisitos necessários para ser considerada um outro ex-libris da Fajã Grande.

Segundo os estudiosos dos baixios e escolhos das ilhas açorianas, a Baixa-Rasa consubstancia uma espécie de afloramento rochoso marítimo, encafuado na direcção da Ribeira do Cão, localizado a duas ou três milhas marítimas de terra. Apresenta-se, aparentemente, com uma composição geológica bastante variada, cujos materiais de origem que a constituem tem origem vulcânica, sendo, muito provavelmente, originados em escoadas lávicas, principalmente, compostas por basaltos. Estas escoadas, que apresentam um elevado índice de facturação, com os planos dessa fracturação orientados principalmente na vertical, redopiam, permanentemente, numa constante agitação, formando uma espuma esbranquiçada que se agiganta sobretudo em dias de mar bravo e durante ventos e tempestades, sendo perfeitamente visível de terra. Em horas de maré vasa é possível ver o rochedo, como uma manha escura.

Desconhecesse-se a profundidade desta formação ronda e o acesso à mesma esta formação geológica só pode ser feito de barco. A fauna e a flora dominante desta formação geológica também não tem sido estudada, mas será muito semelhante a muitas outras da costa ocidental da ilha, nomeadamente da do seu parceiro o Monchique. Sabe-se, por relato de pescadores que por ali há muito peixe, sendo um privilegiado pesqueiro de vejas e bicudas. Mas por ali abundam muitas outras espécies piscatórias como barracuda, boga, bodião, peixe-rei, castanheta, lírio, mero, peixe-porco, polvo, ratão, para além de lapas, caranguejos, ouriços e uma enorme variedade de algas.

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publicado por picodavigia2 às 16:13

PIRADA 1974

Sexta-feira, 25.04.14

Véspera de Páscoa, do ano da graça de 1974. A tarde, apesar de inquietante e trémula, aproximava-se, lentamente, do fim, mas disfarçava-se de alegre e folgazona. Garrafas de cerveja e copos de whisky esbanjavam-se em catadupa e misturavam-se gracejos supérfluos e a palavrões insignificantes, provocando um alarido desusado, transformando a pequena messe de oficiais do velho e caquéctico quartel de Pirada, numa espelunca de recordações perdidas, no epicentro duma camuflada alegria pascal, eivada de revolta, de indignação, de raiva e de melancolia.

Um ribombar repentino de obus, sem que ninguém o esperasse, silenciou por completo, a messe e todo o quartel Seguiu-se outro estrondo e mais outro, ainda maior. O silêncio escarrapachou-se em todos os olhares, o pânico instalou-se em todas as mentes.  

- Porra! Estamos a ser atacados! – Gritou, exasperadamente o major, Seabra, que substituía, no comando do batalhão, o coronel Matoso que viera passar a Páscoa à metrópole. O alferes Aires reúne os seus homens à pressa e assume uma resposta rápida, com a artilharia. A confusão assume a liderança. Pirada estava a ser atacada massivamente. Continuavam os rebentamentos, aqui e além caiam morteiros, a pequena vila fronteiriça com o Senegal transformara-se, de repente, num mar de medos, de fugas e de gritos: Um tiroteio aéreo, com epicentro no interior do quartel, abalava, assustadoramente, o pequeno povoado.

Todo o quartel se refugiara nos abrigos e nas valas. Apenas o major Seabra, o alferes Aires juntamente com os homens da artilharia, por ele comandados e o furriel Secundino, das transmissões se mantinham nos seus postos. As trémulas luzes do quartel haviam-se apagado por completo. Apenas os holofotes da rede exterior compassavam reflexos dolentes a emperrar e obstruir entradasentradas.

Indiferente aos obuses e morteiros o dr Sabrosa, tenente e médico, calcorreava as valas uma a uma. Vigiava, cuidava, e repetia com desculpa insensata:

- Ando a ver o que se há-de cagar mais de medo!

Cuidava-se que para além de atingidos por uma basuca – o que seria morte imediata - nas incidências de tão abrupto e inesperado ataque, se provocassem danos morais. As valas, eivadas de condenados eram um rio de medo, um recinto de dor, uma arena de desolação. 

A noite escurecera por completo e congregava ainda mais medos e sustos. O silêncio emergente da escuridão era apenas interrompido pelo ribombar de um novo rebentamento, vindo de longe, a assobiar como sanguessuga que perfurava o ar e ia cair não se sabia onde. Ao aterrar, apenas uma única certeza: não caíra sobre aqueles que ainda o ouviam.

Só de madrugada os tiros cessaram. Um a um os que se haviam escondido nas valas iam regressando aos seus postos. A escuridão continuava medonha no quartel, alguns oficiais, mais destemidos e habituados à guerra, recolheram-se, rapidamente. Em voz serena e pausada o 1º sargento Benavides, murmurava consigo, mas de forma a que o ouvissem:

- Esta merda tinha que dar torto! Não se esperava outra coisa depois do massacre que ontem se fez no Dambo!

- E sabe, meu primeiro,- acrescentou o Pimenta que caminhando ao seu lado, o ouvira – sabe uma coisa: não é que para além de matarem quase todos os habitantes da tabanca, ainda deixaram lá um letreiro a provocar o inimigo… Parece que o tal letreiro dizia “Amigo turra, esperamos-te, amanhã, em Pirada”

Não se enganara o 1º sargento Benavides. Ao massacre de Dambo, o PAIGC, de uma base anti-aérea sediada no Senegal disparara massivamente contra Pirada, unidade situada junto à fronteira com aquele país. Para garantir a defesa do Quartel e da população civil o comando-substituto deu ordens para a artilharia responder com obuses. A noite de Pascoa de 1974, em Pirada foi longa, ansiosa, terrível e muito dolorosa.

Miraculosamente, nessa noite, não houve mortos…  

 

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publicado por picodavigia2 às 01:16

ENIGMÁTICO

Quinta-feira, 24.04.14

MENU 38 – “ENIGMÁTICO”

 

ENTRADA

 

Pizza em pão – fatia de pão de forma com doce de pimento, creme de queijo fresco, fiambre e mortadela de peru, pimentos e queijo ralado.

Cubinhos de bolo fritos e barrados com creme de queijo fresco.

 

PRATO

 

Lombo de pescada cozido e gratinado em azeite e alho, com cebolada sobre puré de batata e brócolos,

 

SOBREMESA

 

Gelatina de morango com pedacinhos de morangos.

 

 

******

 

Preparação da Entrada: - Cortar uma fatia de pão de forma, torrando-a levemente. Colocar sobre ela os restantes elementos como se duma piza se tratasse. Levar ao forno ou micro-ondas. Fritar os cubinhos de bolo, barrá-los com o queijo. Empratar.

 

Preparação do Prato – Cozer todos os ingredientes. Gratinar o lombo de pescada em azeite e alho. Refogar ligeiramente a cebola em azeite e alho. Esmagar a batata e os bróculos no esto do azeite. Empratar, colocado a pescada sobre o empadão, cobrindo tudo com a cebolada.

 

Preparação da Sobremesa –  Processo tradicional.

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publicado por picodavigia2 às 22:49

TRIBUTO AO ALVOROÇO

Quinta-feira, 24.04.14

sobre uma rocha negra,

junto ao mar,

solitária,

uma gaivota,

olhando o infinito,

remoí

silêncio.

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publicado por picodavigia2 às 21:26

FILOSOFIA DA LEITURA

Quinta-feira, 24.04.14

Todo leitor é, quando lê, o leitor de si mesmo. A obra é um instrumento que lhe permite discernir o que, sem ele, não teria visto em si”.

Marcel Proust

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publicado por picodavigia2 às 10:52

COSTA OCIDENTAL DAS FLORES (VISTA POR GASPAR FRUTUOSO - SEC. XVI)

Quinta-feira, 24.04.14

Na parte final do Livro VI, de  “Saudades da Terra”,  Gaspar Frutuoso descreve a Costa Ocidental da ilha das Flores, desde Ponta Delgada até à Fajã de Lopo Vaz,, no último quartel do século XVI. Reza assim a crónica d G. Fructuoso:

 

“…Dali a meia légua de rocha, de pedra viva e por baixo penedia, estão dois ilhéus… Criam-se neles muitos pássaros de toda sorte e muito marisco, e algum mato; chamam-se os ilhéus de Maria Vaz.

Daqui, a um tiro de bombarda, vai fazendo a rocha uma enseada, onde moram sete ou oito vizinhos, que lavram pão e pastel e têm um moinho em uma ribeira, que sai ao mar, chamada do Moinho.

Dali a um quarto de légua está uma fajã, chamada Grande, que dá pão e pastel, em terra rasa, com algumas engradas onde entram caravelas de até cinquenta moios de pão a tomar o pastel que nela se faz, onde também há marisco e pescado de toda a sorte, e no cabo dela está um areal, de meia légua de comprido, em que sempre anda o mar muito bravo; e dali por diante, a outra meia légua, é tudo rocha talhada, onde se apanha muita urzela, e de muita penedia por baixo, em que se cria infinidade de marisco e grandes cranguejos, e desta mesma maneira corre a rocha um tiro de bombarda até uma ponta, que sai ao mar um tiro de arcabuz, com um baixo de pedra, que tem lapas e búzios; e, logo adiante desta ponta, se faz uma baía, onde com ventos levantes ancoram navios de toda sorte e também naus da Índia.

No meio deste ancoradouro cai da rocha no mar, a pique, uma grande ribeira…

Pera o qual nordeste, virando esta ponta de alta rocha, de penedia e alguns pesqueiros por baixo, passado espaço de um tiro de bombarda, está um ilhéu, chamado de Maria Vaz, no mar, de grandura de um alqueire de terra, em que criam pássaros, como nos outros atrás ditos, onde há encoradouros de navios, defronte do qual vai beber no mar uma grande ribeira, chamada dos Moinhos, por ter um só que abasta à freiguesia de São Pedro, que está nesta ponta, e tem anexa uma ermida de Sant'Ana, que primeiro foi paróquia. Há nela homens nobres, Pimenteis, Homens, Costas, Fernandes, Vazes, Gomes e Vieiras; e é da jurdição de Santa Cruz. Fronteiro deste encoradouro, é terra tão alta, que se chama o Vento, por ali haver sempre grandes ventos que levam a terra, quando a acham lavrada.”

“…Dali a meia légua de rocha, de pedra viva e por baixo penedia, estão dois ilhéus, de grandura de alqueire de terra cada um, afastados da rocha um tiro de bombarda, que podem passar por antre eles e a terra navios e naus grandes, onde têm bom encoradouro. Criam-se neles muitos pássaros de toda sorte e muito marisco, e algum mato; chamam-se os ilhéus de Maria Vaz.

Daqui, a um tiro de bombarda, vai fazendo a rocha uma enseada, onde moram sete ou oito vizinhos, que lavram pão e pastel e têm um moinho em uma ribeira, que sai ao mar, chamada do Moinho.

Dali a um quarto de légua está uma fajã, chamada Grande, que dá pão e pastel, em terra rasa, com algumas engradas onde entram caravelas de até cinquenta moios de pão a tomar o pastel que nela se faz, onde também há marisco e pescado de toda a sorte, e no cabo dela está um areal, de meia légua de comprido, em que sempre anda o mar muito bravo; e dali por diante, a outra meia légua, é tudo rocha talhada, onde se apanha muita urzela, e de muita penedia por baixo, em que se cria infinidade de marisco e grandes cranguejos, e desta mesma maneira corre a rocha um tiro de bombarda até uma ponta, que sai ao mar um tiro de arcabuz, com um baixo de pedra, que tem lapas e búzios; e, logo adiante desta ponta, se faz uma baía, onde com ventos levantes ancoram navios de toda sorte e também naus da Índia.

No meiodeste ancoradouro cai da rocha no mar, a pique, uma grande ribeira.

Adiante um quarto de légua estão dois ilhéus no mar, afastados da terra um tiro de besta, que têm pouco mato em cima, onde criam diversas aves, e antre eles e a terra há encoradouros de navios, e ao lível com o mar corre uma ribeira, onde abicam as barcas dos

navios e dentro enchem as pipas de água, sem as tirar fora. Chama-se esta parte os Lagedos.

É terra lançante e a rocha pouco alta, que dá pão e pastel. Foi de um João Soares, dos Mosteiros, desta ilha de São Miguel, o qual, morando nestes Lagedos, por sua mão fez,

calafetou e breou um batel, sem saber nada destes ofícios, em que ia com sua mulher e filhos ouvir missa à vila das Lagens. Diziam dele que, quando tornava para sua casa, dizia à filha mais velha que pusesse o batel em e ela o tomava à cabeça e o punha onde queria, por ser muito pequeno e mal feito, mas servia-lhe, pelo caminho por terra ser trabalhoso, e muitas vezes este João Soares ia só às Lagens no barquinho e, às vezes, pescar nele.

Por diante um tiro de berço corre alta rocha dependia, até chegar a uma fajã, chamada de Lopo Vaz, de três moios de terra e rasa com o mar, ao longo do qual, antre grossa penedia há lapas e cranguejos, e pela banda da terra tem uma rocha de penedia, de altura de um tiro de besta, pela qual a través fez Lopo Vaz um caminho, por onde vão bois abaixo, que lhe custou e custa ainda muito, porque, quebrando a rocha muitas vezes, lho quebra, e logo lho torna a fazer, por ser a fajã de muito proveito de pastel e trigo, que nela amadurece primeiro que em nenhuma parte da ilha, e ter muitas fontes de água.

Desta fajã, espaço de meia légua, é tudo alta rocha, no cabo da qual está a vila das Lagens…”

 

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publicado por picodavigia2 às 10:37

A SENHORA DA SAÚDE

Quinta-feira, 24.04.14

Foi muito provavelmente à Praça, areópago de crítica e berçário de projectos, onde os homens descansavam à sombra nas tardes escaldantes de Verão, que nasceu a ideia de criar uma Filarmónica na Fajã Grande.

Inicialmente poucos apoiavam tão ousado desiderato. Com o tempo, porém, tão grande foi a insistência dum pequeno grupo que pouco a pouco a ideia foi germinando, nas mentes dos mais afoitos: comprar uma Filarmónica não era um projecto de todo impossível, para a freguesia. Para isso bastava que todas as casas oferecessem o leite do primeiro domingo de cada mês. As contas eram fáceis: mais ou menos duzentas casas a uma média de dez litros de leite por mês, eram dois mil litros. Em doze meses seriam vinte e quatro mil litros. Se todos entrassem, daria à volta de trinta e cinco a quarenta contos por ano. Em nove ou dez anos, porque havia que pagar os juros, a Filarmónica estaria paga.

O plano era aliciante. Para a sua concretização bastou que, num domingo, no fim da missa, o pároco anunciasse da grade:

- Hoje à tarde há uma reunião na Casa do Espírito Santo de Cima, na qual devem participar todos os chefes de família. Vamos decidir se a freguesia vai comprar uma Filarmónica. Basta que cada um ofereça o leite do primeiro domingo de cada mês, durante alguns anos. Os poucos que, como eu, não têm vacas, darão o valor correspondente em dinheiro. É preciso é que todos participem!

No Verão seguinte houve grande agitação em toda a freguesia. Os instrumentos estavam a chegar. Vinham de Lisboa, no Carvalho de Julho.

Um grupo de jovens com melhor ouvido e mais apetência para a Música, já há muito que se havia iniciado no solfejo, enquanto outros aperfeiçoavam o que tinham aprendido na tropa.

Finalmente chegaram os instrumentos! Vinham dentro de enormes caixotes, protegidos com palha e farripas e brilhavam como prata! Dois contrabaixos, dois bombardinos, duas trompetes, dois trombones, duas trompas, dois cornetins, um saxofone, cinco clarinetes, uma requinta, o bombo, a tarola e os pratos. Tudo direitinho e em óptimas condições.

Distribuíram-se pelos diversos músicos, de acordo com as capacidades de cada um e intensificaram-se os ensaios, agora sob a orientação de um professor de Música do Seminário de Angra, que vinha habitualmente, passar férias à Fajã, donde era natural.

No fim de Agosto estava tudo preparado e afinado. A banda estava, na abalizada opinião do maestro, preparadíssima para actuar. A inauguração e a primeira apresentação em público foram agendadas para o dia da festa da Senhora da Saúde, a maior festa que se realizava na freguesia e uma das maiores da ilha.

A festa foi de arromba! Vieram, como convidadas, todas as Bandas Musicais das Flores e até Lira Corvense! Veio clero e povo de toda a ilha.

Na Casa do Espírito Santo de Cima, os músicos fardados a rigor, calças e boné brancos, casaco azul com botões amarelados, acotovelavam-se nervosos, apreensivos e de instrumento em riste. Fora as restantes Filarmónicas esperavam pacientemente que o cortejo se organizasse. O Ouvidor das Lajes, paramentado a rigor, leu algumas orações em latim e aspergiu água benta sobre homens e instrumentos, traçando, vezes sem conta, cruzes no ar.

Pouco depois formou-se o cortejo em que seguiam as bandas convidadas. As ruas estavam engalanadas com bandeiras multicolores e o chão atapetado de pétalas e verdura, como se duma procissão se tratasse. Das varandas e janelas pendiam colchas de seda, no ar estalejavam foguetes e os sinos repicavam festivamente.

A seguir à missa, num coreto provisório, colocado no adro da igreja, as bandas tocaram à porfia. E a opinião era unânime: - a que melhor tocava era da Fajã. Pudera! Se os instrumentos estavam tão fresquinhos…

Passou a chamar-se “ Filarmónica Senhora da Saúde” e a partir de então abrilhantava todas as festas da freguesia, sendo muitas vezes convidada para tocar noutras partes da ilha, enquanto o leite do primeiro domingo de cada mês, com que quase todos contribuíam, ia pagando os juros.

Os anos passaram e a Filarmónica foi paga com o dinheiro de todos. Dezenas e dezenas de jovens aprenderam música, para substituir os que se ausentavam ou simplesmente desistiam. Todos se orgulhavam da “Senhora da Saúde” e acarinhavam-na, porquanto consideravam a importância que ela tivera no desenvolvimento sócio cultural da freguesia.  

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publicado por picodavigia2 às 07:29

UM MAR DE ISOLAMENTO

Quarta-feira, 23.04.14

A freguesia da Fajã Grande ocupava, juntamente com a Fajãzinha, um ampla fajã delineada a Oeste pelo mar e a Norte, a Leste e a Sul por uma altíssima rocha que a separava do resto da ilha, isolando-a das restantes freguesias e das duas vilas – Santa Cruz e Lajes. O isolamento era tal que até as deslocações à freguesia mais próxima, a Fajãzinha, sobretudo no Inverno, tornavam-se bastante difíceis e por vezes impossíveis. Era necessário atravessar Ribeira Grande, muito larga, sem ponte e com um caudal fortíssimo. As margens ligavam-se por uma fila de enormes calhaus, mais ou menos alinhados, alguns ali colocados pela natureza outros pelos homens, relativamente próximos uns dos outros. Chamavam-se “passadeiras”. Quem se aventurasse a atravessar a ribeira, teria que o fazer saltando de calhau em calhau, o que, por vezes e para os menos afoitos, provocava escorregadelas que, para além do susto, encharcavam uma boa parte da roupa. Os animais atravessavam-na a pé ou a nado. A ribeira, no entanto, não dificultava apenas as deslocações à Fajãzinha. Era por ali também que se ia às vilas ou às outras freguesias. Apenas para Ponta Delgada se virava a Norte, subindo a rocha da Ponta, percorrendo um sem número de atalhos e veredas, muitas vezes saltando tapumes e atravessando relvas para encurtar caminho. Para os Cedros a as viagens eram ainda mais difíceis mas muito raras.

Todas estas deslocações para além de muito difíceis eram também demoradíssimas. As ligações por mar não existiam.

O isolamento era total, absoluto e permanente.

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publicado por picodavigia2 às 22:43

LUIZA DE MESQUITA

Quarta-feira, 23.04.14

Luíza de Mesquita nasceu na Horta, em 1926 e faleceu no Rio de Janeiro, em 2002. Concluídos os estudos secundários no Liceu da Horta, frequentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, iniciando o curso de Filologia Românica, que completou Paris. Foi funcionária da embaixada norte-americana na capital portuguesa durante oito anos, em 1972 transitou para o Brasil, onde exerceu, no Rio de Janeiro e naqueles serviços diplomáticos, o cargo de assistente cultural.

O seu primeiro livro de poesia, Ondas de Maré Cheia, teve o melhor acolhimento junto da crítica brasileira. Seguiram-se Mar incerto, Areias Movediças, Tempo de Mar, Tempo de Amar, Caminhos de Mar, Bateau de papier, Cantigas de Mar e Bem-Querer, Mar de Sempre Açores e Ciclone.

São três os pilares fundamentais da poesia: o mar, o amor e a saudade. Em versos sensuais e apaixonados, que fluem em ritmo encantatório, a poetisa de Luiza de Mesquita celebra o mar – o mar das ilhas - ligado à infância enquanto paraíso irremediavelmente perdido e o seu mar interior – símbolo de um desejo pressentido e de um amor em busca da sua plenitude. Dai a navegação dos corpos que, em viagem erótica, procuram a felicidade perdida. Eis uma poesia marítima, telúrica, vigorosa e uterina. De uma sinceridade total e de uma espontaneidade absoluta.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 14:00

A VIDA

Quarta-feira, 23.04.14

A vida duma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo que recorda e a maneira como o recorda.

Gabriel Garcia Marquez

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publicado por picodavigia2 às 13:37

RITINHA

Quarta-feira, 23.04.14

Ela chega todas as manhãs, às vezes, antes do nascer do Sol! Traz consigo o brilho inebriante do astro-rei, o sorriso das estrelas adormecidas, o sabor da aurora debutante, a ternura das madrugadas florescentes. É uma dádiva celeste, um dom sublime, um encanto maravilhoso.

Assinala-a um meigo sorriso, envolve-a um abafado desejo, asperge uma terna vontade de ficar, de estar, de saltar para o meu colo e agarrar-se a mim com ambos os bracitos, como se tivesse medo de eu me evaporar.

Depois despede-se dos que partem: uns para a escola, outros para o trabalho, todos para a vida. Há, ali, escondido naquele olhar meigo e brilhante um misto indeciso, uma vontade partilhada, um não saber se ir ou se ficar. Fica! Não tanto por opção mas mais por imperativo de quem lhe cerceia o destino.

Depois sobe… O elevador parece que a distrai e desperta mais… Se os outros carregam no botão que lhe impinge o subir e o abrir da porta, por que não há-de ela carregar. Novamente os imperativos dos adultos a cercear desejos inocentes, vontades espontâneas.

Espera-a a caminha e o leitinho quente/morno, que a temperatura, naturalmente, tem que ser bem doseada, assim como o conteúdo. No meu colo suga, com suavidade e apetite, o biberon. Canto e embalo. A ternura atinge o epicentro: Junto ao berço, pequenino, Sonha mãe carinhosa, Sonho belo e divino… O encanto metamorfoseia-se em desvelo. É a sublimidade suprema.

Depois, deposito-a no bercito, ao lado da Quitinha, a que há muito se agarrara e ao peluche… Pouco depois, adormece…

Agora dorme, que regá-lo! Deixá-la dormir. Apetece-me reler o poema de António Nobre O Sono do João, e transcrever alguns excertos do mesmo:

O João dorme... (Ó Maria,

 Dize àquela cotovia

 Que fale mais devagar:

 Não vá o João, acordar...)

 

 Tem só um palmo de altura

 E nem meio de largura:

 Para o amigo orangotango

...

O João dorme... Que regalo!

 Deixai-o dormir, deixai-o!

 Calai-vos, águas do moinho!

 Ó mar, fala mais baixinho...

 E tu, Mãe! e tu, Maria!

 Pede àquela cotovia

 Que fale mais devagar:

 Não vá o João, acordar...

 

Ó Mãe, canta-lhe a canção,

 Os versos do teu irmão:

Na Vida que a Dor povoa,

 Há só uma coisa boa,

 Que é dormir, dormir, dormir...

 

 E tu vê-lo-ás crescendo

 A teu lado (estou-o vendo

 João! Que rapaz tão lindo!)

 Mas sempre, sempre dormindo...

 

 Mas para isso, ó Maria!

 Dize àquela cotovia

 Que fale mais devagar:

 Não vá o João, acordar...

 

António Nobre, in 'Só'

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publicado por picodavigia2 às 10:21

MENINA COM PAPAGAIO

Quarta-feira, 23.04.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

 

Ainda na sua mão

que lhe dirá o barbante

de como se vê o mundo

com os olhos do vento?

 

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publicado por picodavigia2 às 09:25

VISTA SOBRE A FAJÃ GRANDE

Terça-feira, 22.04.14

Do cimo do Pico da Vigia desfrutava-se, outrora de uma vista aprazível, deslumbrante e encantadora sobre a Fajã. Talvez mesmo uma das mais belas vistas de toda a ilha das Flores.

Logo à direita de quem sobe, divisava-se, ao longe o Oceano, ora manso e azulado, ora revolto e esbranquiçado de espuma, ornamentado pelo Monchique e pela Baixa Rasa, como que envolvendo e abraçando sem disfarce e sem vergonha, em semicírculo, a extensa fajã, delimitada a Norte pelo alto do Portal e a Sul pela Rocha dos Bredos. Depois, mais perto, a mancha negra, basáltica e rendilhada do baixio, com os seus caneiros e enseadas, onde se destacavam o Redondo, a Retorta, o Caneiro das Furnas, a Baia de Água e o Poceirão com o Calhau da Barra a fiscalizar passagem para o Atlântico. Mais além, espraiava-se a enorme Baía, debruada pelo Rolo, um amontoado inaudito de pedras polidas e arredondadas, estendendo-se ao longo da Ribeira das Casas e das Covas, desde o Pesqueiro de Terra ao Ilhéu do Cão, metamorfoseando-se de novo em baixio, lá ao fundo, junto à rocha da Ponta. Já mais perto, a igreja rodeada pelas casas ordenadas em arruamentos simétricos, umas brancas outras cinzentas, com os seus telhados avermelhados, aglomerando-se e misturando-se com cerrados, belgas e courelas onde florescia milho, batatas e couves. Mais perto ainda, já como que a prolongar-se pela encosta acima, pequenas pastagens e algumas terras de mato galvanizadas de um verde onde se misturavam incensos, faias, canas, fetos e cana-roca. Finalmente, mas muito distante, a Norte, já para além da ribeira do Cão, a Ponta, onde as casas se postavam em fila, muito bem arruadas na direcção da ermida da Senhora do Carmo, encravada nos contrafortes da rocha. Contrastando com o Oceano e do lado oposto, um semicírculo pétreo e altivo, formado pelas rochas da Ponta, das Covas, das Águas, dos Paus Brancos, dos Lavadouros e do Curralinho, povoadas de ribeiras e de cascatas onde a água se desprendia em fluxos ritmados e refulgentes sob o verde dos socalcos e andurriais e o negro das fragas, ravinas e penhascos.

Do outro lado e a Sul, a segunda parte do semícirculo. Muito ao longe as Rochas da Figueira e dos Bredos a protegerem a Fajãzinha, onde as casas, tão distantes e tão pequeninas, se assemelhavam a minúsculos salpicos esbranquiçados, como que confundidos com a enorme mancha verde das terras de mato, dos campos e das pastagens. Depois a Cuada com a velhinha Casa do Espírito Santo e pouco mais de meia dúzia de casas perdidas entre hortas e pomares, consubstanciando-se, mais adiante, na Eira-da-Quada, com o Oceano extenso, resplendoroso e sempre predisposto a receber o volumoso caudal da Ribeira Grande. Finalmente a rocha da Alagoinha povoado de um número quase infinito de grotas e cascatas, muitas delas dia e noite a escorrer, fazendo transbordar o Poço da Pata, sem encoberto pelo arvoredo do Vale Fundo, do Pocestinho e da Cabaceira.

No cimo daquele pico existia uma pequena casota branca, destinada a vigia de baleia, com uma enorme fresta no mural voltado para o Oceano, que permanecia sempre aberta sobre o mar para que o Vigia ali sentado horas a fio, avistasse as baleias e, de imediato, lançando um foguete lá do alto, avisasse os baleeiros cá em baixo, entretidos nas suas courelas em pequenas fainas agrícolas, de tão gratificante descoberta. Daí a razão do seu epíteto – Pico da Vigia.

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publicado por picodavigia2 às 18:20

OBRIGADO

Terça-feira, 22.04.14

A todos os que, ontem, tiveram a amabilidade de me enviar felicitações, quer através do meu email quer via FB, aqui deixo o meu sincero agradecimento.

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publicado por picodavigia2 às 17:45

DESCANSA EM PAZ

Terça-feira, 22.04.14

Ontem, após a sua morte no passado dia 8 deste mês, foi depositada, num dos cemitérios de Arcara, no Norte da Califórnia, uma minúscula urna, com as cinzas, daquela que em vida se chamou Maria de Jesus Fagundes, onde ficarão guardadas para sempre.

Simples, pobre e humilde, mas digna e nobre na vida, Maria, minha irmã/mãe, também o foi na morte. Ela própria havia decidido em vida que, após a sua morte, nem velório, nem cortejo fúnebre, nem exéquias, optando ainda pela cremação do seu cadáver. Assim e, após a morte, num hospital da mesma cidade, onde sempre residiu, desde de que emigrou para os estados Unidos, em 1966, depois de os familiares e amigos dela se “despedirem”, no próprio hospital, o seu cadáver foi conduzido, apenas, pela carrinha funerária, até ao local da incineração.

Maria de Jesus Fagundes nasceu, na Fajã Grande das Flores, a 13 de Agosto de 1940. Teve uma infância curta, difícil e muito penosa, sendo habituada, desde de tenra idade, a ajudar a mãe nas pesadas e árduas tarefas domésticas e a cuidar dos irmãos mais novos. Após a morte inesperada da mãe, com apenas 12 anos, Maria foi obrigada a tornar-se mulher, passando a ser mãe, verdadeira e real, dos restantes cinco irmãos, um dos quais fui eu. Por isso e por tudo o que ela me deu como irmã/mãe, hoje aqui lhe presto a minha homenagem e manifesto a minha gigantesca gratidão, com um grande e sentido abraço ao Lucindo, o seu companheiro de vida e aos filhos, Zuraida, Carlos e Herlander.

Rest in peace, forever, Maria!

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publicado por picodavigia2 às 12:19

ABSOLUTA NORMALIDADE

Terça-feira, 22.04.14

As férias passaram velozes e cedo se impôs o regresso ao Seminário de Ponta Delgada. A viagem entre as Flores e São Miguel, agora já com experiência acumulada do ano anterior, decorreu muito bem, até porque a partir do Faial tive a companhia do Manuel Faria e dos meus colegas das outras ilhas. Na viagem, para as Flores, em Junho, também tivera muita sorte, pois a partir de Angra, viajara junto com a minha vizinha Lucinda, a mãe de meu padrinho, que muito me apoiou e auxiliou.

Ao reentrar no Seminário, também, já conhecíamos a casa, por conseguinte já nada nos indignava, surpreendia ou sequer atemorizava. Agora que éramos os mais velhos, com experiência acumulada, como que nos sentíamos donos e senhores do velho casarão, revelando alguma disfarçada superioridade sobre os alunos que o demandavam pela primeira vez. Ocupámos as camaratas do segundo ano, escolhemos as melhores camas, optámos pelos lugares mais atractivos e até decidimos que as carteiras maiores seriam nossas.

No entanto, a chegada dos alunos de São Miguel veio alterar tudo isto. Os prefeitos entenderam que seriam eles a decidir sobre as nossas opções e, como o segundo ano não cabia todo nas camaratas que lhe eram reservadas, optaram por mandar os mais pequenos para a camarata do primeiro ano. Para tristeza minha, eu fui um deles, embora me tenha sido permitido colocar a minha cama logo à entrada da porta. No entanto, custou muito, separar-me dos meus colegas e abdicar do lugar inicialmente escolhido.

Procedimento idêntico teve um dos prefeitos, relativamente às carteiras. Retiraram aos mais pequenos as carteiras grandes, para as entregar aos mais velhos, maiores e, talvez, com mais aproveitamento escolar, mas não mais aplicados do que nós. Estes procedimentos discriminatórios provocaram alguma revolta nos mais pequenos, entre os quais se incluíam, para além de mim, o Jorge Nascimento, o Manuel Faria, o Lima Oliveira, o Humberto Clementino e o José Augusto.

O ano lectivo, no entanto decorreu como muita naturalidade e sem os sobressaltos, os temores e as contrariedades dos primeiros tempos, do ano anterior. Abandonei a infância e transformei-me, de repente, num homenzinho. O meu corpo transformou-se, radicalmente, e comecei a perceber que, afinal, o mundo era composto por ideias, por costumes, por atitudes e, também, por seres humanos diferentes: homens e mulheres. Numa palavra: tonei-me um homenzinho.

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publicado por picodavigia2 às 10:13

PREVENÇÃO PEDAGÓGICA

Terça-feira, 22.04.14

"Educai as crianças, para que não seja necessário punir os adultos."

Pitágoras

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publicado por picodavigia2 às 09:51


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