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SOL DE ABRIL

Sábado, 05.04.14

“Sol de Abril, quem no vir abre a mão e deixa-o ir.”

Trata-se de mais um interessante adágio fajãgrandense de carácter meteorológico, através do qual se constata um fenómeno climatérico bastante vulgar nas ilhas açorianas e consequentemente nas Flores. Na realidade, no início da Primavera e, por conseguinte no mês de Abril, é vulgar nas ilhas existirem dias de alguma instabilidade climatérica. Naquele mês, nos Açores, geralmente o Sol é “de pouca dura”, isto é, o astro-rei tanto aparece como desaparece logo a seguir, alternando, no mesmo dia, com períodos de chuva. Por outras palavras, o Sol de Abril é muito instável e pouco seguro ou duradouro. É como um pássaro que se tem preso na mão e, se a abrirmos ele foge logo.

Com este erudito adágio pretende pois, a sabedoria popular, lembrar aos mais descuidados que nas suas idas e vindas aos campos e nos seus trabalhos e tarefas diárias, devem estar prevenidos contra esta instabilidade climatérica primaveril, porque pode estar a fazer Sol, num determinado momento do dia e, num abrir de mão, isto é, num instante, o tempo se alterar e começar a chover ou fazer mau tempo.

Douta sabedoria popular, com importantes ensinamentos que não devem ser ignorados pois revelam a virtude de, regra geral, serem exactos e verdadeiros.

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publicado por picodavigia2 às 21:02

FAJÃ GRANDE

Sábado, 05.04.14

(TEXTO DE LUÍS ALVES DE FRAGA)

Certamente o leitor nunca se interrogou sobre qual é a povoação mais ocidental da Europa. Mas se, por um acaso, já alguma vez se lhe colocou esta dúvida, quase pela certa terá pensado no continente europeu e jamais no arquipélago dos Açores. Pois é. Na distante ilha das Flores, virada para o continente americano situa-se a freguesia da Fajã Grande, localidade mais a ocidente na Europa.

Também poucos são os portugueses que se dão ao trabalho de consultar o dicionário para procurar saber o que é uma fajã. Se folheassem esse pesado livro onde se compilam os significados do vasto léxico por nós usado dariam com a seguinte explicação: «fajã: terreno plano, cultivável, de pequena extensão, situado à beira mar, formado de materiais desprendidos da encosta». Por mera curiosidade, posso acrescentar que é um termo próprio dos Açores e de origem desconhecida.

Então, a localidade da Fajã Grande, por definição, fica à beira mar e tem atrás de si uma encosta que, no caso vertente, é uma alta arriba escarpada de onde correm duas ribeiras – a das Casa e a do Cão – que se despenham à vertical para correrem rumo ao oceano. É um aglomerado de casas dispersas, formando pouco mais do que meia dúzia de arruamentos.

Para lá chegar ou se vai de barco ou de automóvel, deixando-se para trás, sem nela se ter entrado, uma outra pequena urbe de nome Fajãzinha. No Verão, de preferência em Julho, se não chover e o céu não estiver carregado de nuvens, a paisagem que se desfruta do alto da rocha sobranceira à Fajãzinha é idílica, pela beleza do colorido da vegetação – onde abunda o verde, o azul e o rosa das hortênsias – e pela grandiosidade do confronto entre o mar imenso, o silêncio só cortado pelo voo e grito das aves e o marulhar distante da cascata de água cristalina que forma a Ribeira Grande.

Quem vem de automóvel para a Fajã Grande entra pela Assomada para vir desembocar na Rua Direita, no enfiamento da anterior; passa-se pelo largo e tem-se, a meio caminho, a igreja e, por detrás, o cemitério. Mais adiante a Casa do Espírito Santo (de fora) e as bifurcações para a Tronqueira e a Via d’Água.

Só já na Rua Direita os edifícios – de baixa estatura, não vão além de um primeiro andar – estão ligados uns aos outros, porque, antes, separam-se por pequenos quintais onde ainda se cultiva algum alimento para consumo da casa.

Foi lá ao fundo, na Tronqueira, quase já próximo do caminho que conduz ao começo da larga baía onde desagua a Ribeira das Casas, bem de frente para a imensa queda de água que se despenha da alta rocha de 90 metros, numa casa desnivelada em relação à rua, que o meu pai nasceu no dia 4 de Dezembro de 1907.

Não seria a Fajã Grande muito diferente, há cem anos, do que é agora, salvo os benefícios que a tecnologia introduziu naquela distante ilha. As diversões poucas ou nenhumas, convidavam a uma vida que se distribuía entre o trabalho – não muito apressado pois os ritmos da Natureza são lentos – e uma religiosidade que se praticava na igreja matriz, construída, em 1868, sob a invocação de S. José, no lugar onde já existia uma pequena capela, erigida em 1755, também dedicada ao putativo pai de Jesus.

As constantes chuvadas e a humidade relativa sempre deram àquelas terras um extraordinário poder fértil. Cresce o pasto em abundância, o que convidou a que os mais afortunados tivessem uma ou duas, às vezes, três vacas de ordenha que também serviam nos trabalhos do campo. Nas leiras próximas das casas, ou mais distantes, cresceu e cresce o milho e menos o trigo.

Frequentar o ensino primário era uma obrigação que todos cumpriam na falta de outros trabalhos. Mas não era rentável ter um mestre-escola capaz de ir muito além das primeiras letras e das contas. Esse era o motivo por que, para ser aprovado no exame da chamada 4.ª classe, havia que o candidato se deslocar à vila de St.ª Cruz onde residia o professor com competência para aquilatar do saber e passar o respectivo diploma. Coisas que já só a imaginação concebe, nos tempos que correm!

 

Engastada entre verdura

Daquele bosque de além,

Qual diamante fulgura

A terra da minha mãe…

 

Terra de graça e ventura!

És minha terra também.

Viste-me, tu, com brandura,

Vir ao Mundo, ser alguém.

 

Volveram-se anos, parti…

Mesmo longe de ti

Onde o Destino me mande

 

Nunca mais te hei-de esquecer

Mas sempre bem-dizer

Minha aldeia Fajã Grande.

 

Foi assim, em poesia simples, quase ingénua, que o meu pai, rondaria os vinte anos de idade, escreveu na revista Os Prelúdios, que se publicava em Angra do Heroísmo as saudades que o roíam da freguesia. Estava, então, prestes a deixar para trás o seminário e a despreocupada vida de estudante de que sempre gostara. Vocação sacerdotal não a tinha, como o atestam os versos que pela mesma época escreveu, mas não publicou.

 

Duas fadas que passavam

Em noite de lua cheia,

Sozinhas ao pé da aldeia,

Deste modo conversavam:

 

- Vamos colher muitas rosas

Na rainha das roseiras,

De todas as mais Formosas

Como colhem as romeiras?

 

E desfolharam as rosas

Que colheram de mão cheia

- Rosas frescas, tão viçosas!

 

E em noite de lua cheia

As folhas – todas mimosas –

Foram as moças da minha aldeia…

 

Os sonhos da juventude, a distância da terra natal, as saudades da família – especialmente da mãe que adorava – a ambiência intelectual da velha cidade capital do arquipélago, ter-lhe-ão despertado o gosto de fazer poesia. Todavia, como mais tarde provou, viria a ser no jornalismo a sua primeira área de afirmação.

Foi vendo o seu exemplo e ouvindo, com atenção, as suas longas palestras – que os amigos escutavam com prazer – que em mim nasceu o desejo de lhe imitar o talento. Mestre na arte de me ensinar a viver, o meu pai foi, também, um severo crítico da minha prosa. Com ele aprendi muito.

 

Luís Alves de Fraga  in Blog Desbogleando http://luismfraga.blogspot.pt/

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publicado por picodavigia2 às 18:23

O CARVALHO DE MARÇO

Sábado, 05.04.14

O Carvalho de Março, trouxe-me uma carta com uma terrível notícia. Ainda antes de a abrir, estranhei que o envelope trouxesse o remetente com o nome da minha irmã, quando habitualmente era o nome de meu pai que ali constava, embora escrito por ela. Abri-a nervoso e tímido. A carta era curta, concisa c carregava muita tristeza, mágoa e angústia. Dizia-me a minha irmã que no mesmo Carvalho em que a carta seguia, também viajava meu pai, acompanhado por meu tio António, com destino a Angra, à Casa de Saúde de São Rafael, a fim de ali ser internado, uma vez que “enlouquecera”. Senti uma enorme angústia, um nó na garganta e uma forte dor no peito. Queria evitar chorar, ali, diante de todos, em pleno salão de estudo, mas não consegui. Para esconder as lágrimas, deitei a cabeça, sobre a carta e sobre os braços, e inclinei-me em cima do tampo da carteira, enquanto soluçava dolosamente, sem me conter.

De repente senti alguém bater-me levemente com os cotos dos dedos no cocuruto. Levantei a cabeça, lavado em lágrimas. Era o prefeito que, de imediato, me recriminou em ar displicente:

- Com que então, a chorar com saudades da mãezinha!

Foi como se me caísse em cima o mais fulminante de todos os raios já mais emitidos por uma tremenda trovoada. Cheguei a enraivecer-me e até me enfureci. Mas voltei a ler a carta, a reclinar-me sobre o tampo da carteira e chorar porque achei que tinha direito a fazê-lo.

A minha desolação e o meu choro foram tão grandes e tão notórios, que no fim da hora de estudo o Octávio, o Manuel Faria e alguns outros ocorreram até junto de mim, a inteirar-se do sucedido e a confortar-me, solidarizando-se com a minha dor.

O Manuel Faria, entendia muito bem o que era a separação dos pais, pois também tinha recebido uma triste e amarga notícia que o deixara extremamente desolado. A sua família tinha sido uma das mais atingidas pelo vulcão dos Capelinhos e os pais, que antes já eram bastante pobres, e que alguns anos antes haviam perdido a atafona e parte da casa num incêndio, agora, haviam ficado sem terras, sem gado e sem nada, tendo mesmo que abandonar a freguesia e refugiar-se em casa de benfeitores nos Cedros e no Capelo. Alguns meses depois os sinistrados, nos quais eles se incluíam, continuavam a viver da caridade dos habitantes de outras freguesias. Por isso e passados alguns meses, pariram todos para Moçambique, juntamente com outras famílias do Faial, ficando o Manuel Faria sozinho nos Açores.

Mas era na dor e no sofrimento que, afinal, nos sentíamos, mais solidários, mais compreensivos e, sobretudo, mais amigos.

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publicado por picodavigia2 às 17:37

IDA AO POÇO EM SÃO CAETANO

Sábado, 05.04.14

São Caetano, assim como a maioria das freguesias da ilha do Pico, somente a partir da década de 80, foi provida pela rede de abastecimento público de água. Os próprios tanques e cisternas que ainda hoje proliferam pela freguesia, junto às habitações, apesar de não utilizados actualmente, na sua maioria, são construções relativamente recentes. Daí que, em tempos mais remotos, a água fosse um elemento, raro, precioso e de difícil obtenção. O Pico é uma ilha vulcânica, seca e, por conseguinte, em São Caetano a água era escassa. Além disso, as ribeiras apenas se enchiam por altura de chuvas torrenciais e as nascentes eram raras, distantes das habitações e com caudais insuficientes para satisfazer as necessidades da população. Por outro lado, tratando-se de uma freguesia pobre, em tempos mais recuados, poucos tanques de recolha da água foram construídos na localidade.

Perante a escassez de água os habitantes de São Caetano adoptaram uma solução que lhes permitia aceder à água e adquiri-la recorrendo aos chamados “Poços de Maré”. Apesar de salobra, insípida e pouco bebível, foi esta água que desde os primórdios do povoamento até ao início do século passado abasteceu a quase totalidade da população desta hospitaleira freguesia, embora, por vezes o povo recorresse ao lugar das Fontes, no Caminho do Mato, onde ia buscar a água, sobretudo, para beber, para fazer o café ou o chá.

Mas estes poços, construídos em pedra vulcânica, eram edificados perto da costa, muito distante das habitações e, além disso, enchiam-se somente por altura da maré cheia, através de infiltrações oriundas do mar. Assim, o ir buscar água ao poço, apesar de se tornar uma rotina diária para os nossos antepassados, constituía uma tarefa árdua, difícil e muito cansativa, pois exigia que as mulheres percorressem veredas íngremes e escarpas pedregosas, transportando a água, em potes de madeira levados à cabeça. Eram também as mulheres que pelos mesmos trilhos, carregavam, em trouxas, a roupa antes e depois de a lavarem nas pias que existiam junto àqueles poços. Por vezes, sobretudo, enquanto esperavam os maridos que estavam no mar, as mulheres depois de lavar a roupa, punham-na a secar sobre as pedras da costa, evitando, assim, o peso de a transportar molhada, de regresso a casa.

Assim, a água recolhida e transportada com tanto esforço e sacrifício, apesar de salobra, era considerada um bem precioso que urgia poupar, por isso, geralmente, era depositada e guardada em talhões de barro a fim de se conservar mais fresca, sendo o seu uso racionado.

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publicado por picodavigia2 às 15:48

PÁSCOA

Sábado, 05.04.14

Páscoa, Páscoa!

Alegria no ar.

Saboreamos os ovos de chocolate,

Comemoramos a Ressurreição de Jesus.

Os ovos iremos procurar…

Animação sem fim!

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publicado por picodavigia2 às 10:48

MEMÓRIAS

Sábado, 05.04.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

À memória de António Dacosta que, pintor e poeta, sabia

de sereias e tritões como meu avô José Laureano

1

 

Perdi os nomes da inocência.

A ignorância

Continuo a aprendê-la.

 

2

 

Tinem campainhas

No azul novo da manhã.

Vacas a caminho das relvas.

 

3

 

A mesa está .posta. Come

Como quem beja

O pão duro da vida

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publicado por picodavigia2 às 10:28





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