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O PEDRO DAS MALAS ARTES

Quinta-feira, 01.05.14

(CONTO POPULAR)

 

Era uma vez um casal de velhos que tinha dois filhos. Um chamava-se João e o outro Pedro que, por ser muito astucioso e vadio, todos tratavam por Pedro das Malasartes. Como eram pobres, certo dia, o filho mais velho partiu para ir trabalhar e ganhar algum dinheiro. Empregou-se numa fazenda de um rico proprietário mas que era muito velhaco e aldrabão não pagando aos empregados, fazendo contratos impossíveis de cumprir. João trabalhou quase um ano e voltou para casa sem dinheiro e quase morto de tanto trabalhar. Além disso, o patrão dera-lhe sim uma grande tareia, deixando-lhe o corpo em ferida, da cabeça aos pés.

O Pedro quando viu o irmão chegar a casa naquele estado e roubado ficou furioso e saiu para o vingar. Procurou o mesmo fazendeiro e, disfarçadamente, pediu-lhe trabalho. O fazendeiro disse que o empregava com duas condições: devia fazer todos os serviços que ele mandasse e o primeiro dos dois que se zangasse daria uma grande sova no outro, até lhe por as costas em ferida. Pedro das Malasarte aceitou e começou a trabalhar.

No primeiro dia foi trabalhar para uma plantação de milho. O patrão mandou que uma cachorrinha o acompanhasse e ordenou-lhe que só podia voltar para casa quando a cachorrinha também voltasse. Pedro começou a trabalhar enquanto a cachorrinha, deitada a uma sombra, nem se mexia. Vendo que era combinação do fazendeiro, o Pedro das Malasarte pegou num pau e deu uma paulada na cachorra e ela logo se levantou, correndo para o alpendre da casa do fazendeiro. O rapaz voltou e almoçou. Pela tarde nem precisou bater na cachorra. Fez o mesmo gesto e a bicha voltou a correr, para casa Quando o patrão o viu chegar a casa, tão cedo, ficou furioso. O Pedro perguntou-lhe:

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, - respondeu o patrão.

No dia seguinte o fazendeiro escolheu outra tarefa. Mandou-o mondar e sachar um campo de batatas, mas muito difícil de trabalhar porque tinha muitas mondas. Que arrancasse tudo, mandou o patrão, referindo-se às mondas. O Pedro não arrancou apenas as mondas mas também todo o batatal, deixando o terreno completamente limpo. Quando foi dizer ao patrão, este foi ver o que ele fizera e ficou furioso;

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, - respondeu o patrão.

No dia seguinte o fazendeiro mandou o Pedro carregar um carro de bois com troncos, mas só com troncos sem nós. Ora o fazendeiro possuía, ali perto, um grande e belo bananal, com as bananeiras carregas de bananas. O Pedro das Malasarte pegou num foicinho e cortou quase todo o bananal, explicando ao fazendeiro que o tronco da bananeira era o único, ali que não tinha nós. O patrão ficou furioso e o Pedro perguntou;

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, não me zanguei.

No dia a seguir, mandou-o levar o carro, com a junta de bois, para dentro de uma sala de uma pequena casa mas sem passar pela porta. E para mais o atrapalhar, ainda fechou a porta e escondeu a chave. O Pedro das Malasarte agarrou um machado e fez o carro em pedaços, matou os bois, fê-los em bifes e atirou tudo pela janela, para dentro da sala. O patrão, quando viu, ficou preto de raiva:

- Zangou-se, meu amo?

- Não senhor, não me zanguei.

No dia seguinte mandou o Pedro ir vender à feira uma dúzia de porcos. O Pedro das Malasarte levou os porcos, cortou-lhe os rabos e vendeu-os todos por um bom preço. Ao voltar para casa enterrou os rabos num lamaçal e ao chegar junto do amo começou a gritar;

- Ai de mim, ai de mim! Os porcos enterraram-se todos no lamaçal.

O patrão correu logo até ao local indicado e ao ver os rabos dos porcos, cuidando que eles estavam ali enterrados, ficou novamente furioso. O Pedro das Malasarte sugeriu que cavassem os dois, com duas pás, para retirar os porcos. Ali perto morava uma velhota. O patrão disse ao Pedro que fosse pedir duas pás à velhota. O rapaz foi bater-lhe à porta e pediu que lhe entregasse dois contos de réis. A velha não queria mas o Pedro gritava ao patrão, perguntando-lhe por gestos se devia levar um ou dois, e mostrava os dedos. Ante aos gritos do amo, que dizia “dois”, “dois”, a velha entregou o dinheiro ao Pedro. Voltou para o lameiro e começou a puxar a cauda de cada porco que dizia estar enterrado. Ia ficando com todas na mão. O patrão ficou cansado e aborrecido mas não deu mostras de zanga. E Pedro ainda negou que tivesse recebido dinheiro da venda dos porcos.

Então o patrão vendo que ficava pobre e desgraçado com aquele empregado, resolveu matá-lo o mais depressa possível, de um modo que parecesse que não era o culpado. Disse que andava um ladrão rondando o curral para lhe roubar os animais e deviam ambos vigiar, armados, para prender ou afugentar a tiros os ladrões. A ideia do fazendeiro era atirar no Pedro das Malasarte e dizer que se tinha sido por engano e sem querer, pois estava a pensar que era um malfeitor. De noite o fazendeiro foi para o curral e Pedro devia substituí-lo ao primeiro cantar do galo. Quando o galo cantou, o rapaz levantou-se e foi acordar a velha e disse-lhe que o marido a esperava no curral, e que levasse também uma espingarda, porque ele ia fazer o cerco pelo outro lado. A velha apanhou a arma e correu para o curral. O fazendeiro, assim que viu aquele vulto com a arma, pensou que era o Pedro e atirou-lhe um tiro, matando-a mas pensando que com aquele tiro tinha morto o Pedro das Malasartes. Assim que a velha caiu morta, Pedro apareceu chorando e acusando o amo de ter morto uma velhinha inocente. O fazendeiro ficou muito assustado e cheio de medo pois cuidava que iria para a cadeia pelo resto da vida. Para que o Pedro não dissesse nada a ninguém nem o denunciasse à polícia pagou-lhe muito dinheiro para não haver conhecimento da justiça e ofereceu ainda mais dinheiro se ele se fosse embora, sem mais outra proeza, pois só lhe dava prejuízos e consumições. O rapaz aceitou e voltou rico para casa dos pais, vingando assim o seu irmão e a injustiça que o fazendeiro lhe tinha feito.

(Conto popular adaptado)

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publicado por picodavigia2 às 19:19

ÁGUAS DE MAIO E DE ABRIL

Quinta-feira, 01.05.14

 “Uma água de Maio e três de Abril valem por mil.”

Mais um interessante adágio, que embora, aparentemente, pouco usado na Fajã Grande, lembrava aos agricultores a importância da chuva nos meses de Abril e Maio.

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publicado por picodavigia2 às 16:19

ENJOO

Quinta-feira, 01.05.14

Álvaro viajava no S. Pedro, vogando a noroeste da ilha das Flores, entre a Fajã e o ilhéu de Maria Vaz, rumo a Ponta Delgada. O barco, inicialmente, navegara a motor, mas cuidava-se que na recta final da viagem, entre a Ponta do Albarnaz e o porto de Ponta Delgada, o vento havia de lhe bater na popa, pelo que o mestre havia de mandar içar a vela. Sentado à ré com a cana do leme na mão, calças arregaçadas. Mestre Gregório ordena

- Ó Antonho, senta-me esse pequeno ao pé de ti, home. Com os balanços do barco não vá o diabo tecê-las.

O Manuel da Ana, metia conversa com o petiz, na tentativa de o abstrair do dolente marasmo em que emergira:

- Então é a primeira vez que andas de barco?

- É sim senhor. E estou a gostar muito. Mas agora, já estou a ficar um pouco mal disposto.

 O João do Alto bem segredava ao mulato:

– Ou me engano muito ou do ilhéu p’ra diante vais gostar pouco… Áh! Se vais…

O miúdo indagava:

- Pai, o mar vai estar sempre assim calmo, até Ponta Delgada?

O Jacinto, olhando para as nuvens, sentenciava, ao mesmo tempo que franzia o nariz:

 – Hum!... O vento está a rodar para sudoeste. Da ponta do Albarnaz para lá vai meter umas vagas grandotas. Até à baía dos Fanais talvez se mantenha assim…

.- Ó Jacinto, parece que nunca andaste no mar, home. Da ponta do Albarnaz para lá? Com que então? Parece que estás cego! Olha como as nuvens correm para cima da terra. Não enganes o homem! Isto vai mexer bem, vai!

- Olhe, pai, olhe como se vê a Fajã daqui. É tão diferente. Estou a ver a casa d’avó, acolá.

- E a tua? Não a vês? – Indagou o Mulato, com ironia

- Não, não a pode ver. Fica na Assomada, por trás daquele Outeiro, que tem a cruz no alto.

- Vê-se muito bem é a igreja e a torre do chileno? A Fajã vista daqui parece um navio. É tal e qual o Carvalho Araújo, quando vem fazer serviço aqui para a baía: a Ponta do Baixio é a proa e depois é o convés com as casinhas brancas e as torres da igreja e da casa do chileno.

- Sim senhor, muita imaginação. Mas o que é isso da torre da casa do chileno?

- É aquela casa muito alta com uma torre.  Mas não sei porque se chama assim. Talvez meu pai saiba.

Foi o pai que esclareceu:

- Há uns anos atrás houve um homem de cá que emigrou para o Chile. Lá, pelos vistos, a vida correu-lhe às mil maravilhas. Fez fortuna… Passados muitos anos voltou riquíssimo, dizem que milionário, e então construiu aquela casa enorme, com uma torre em cima. É a casa maior da freguesia e toda a gente a conhece pela “casa do chileno”.

- Pai, estamos a passar a rocha das Covas. Olhe a nossa terra, vê-se bem daqui. Foi ali… Lembra-se?

- O que aconteceu ali rapaz? – Perguntou o Manuel da Ana. - Tu sabes muitas histórias, mas teu pai é que as conta? Então diz lá? O que aconteceu ali?

- O pai, conte!

- Foi um grande susto que apanhámos. Eu tenho ali uma terra, mesmo bem junto à rocha. Há uns dias atrás, ele veio comigo apanhar erva-santa. Estávamos mesmo bem encostados à rocha, ali, junta aquelas faeiras, quando começaram a cair pedras, calhaus enormes. Vimos a morte pintada! Não fossem os gritos do Constantino, de cá de baixo, a dizer para ficarmos junto da rocha, hoje não estaríamos aqui.

- Tiveste sorte rapaz! Olha se apanhavas com aqueles marmelos!

- Estas rochas são muito perigosas, não são?

- Perigosíssimas! Quase todos os dias caem pedras ou ribanceiras. E eu tenho muitas terras junto à rocha. Tenho aquela de mato, tenho mais abaixo uma lagoa de erva, tenho tês relvas, mais além, nas Águas e ainda tenho outra lá para cima, nos Paus Brancos. Tudo debaixo da rocha. Mas há quem esteja pior…

- Eu agora já sei como se deve fazer, quando estamos junto da rocha: se estiverem a cair pedras devemos fugir para junto da rocha. Se for ribanceira é que é pior.

- Tem morrido muita gente? – indagou o Mulato, apreensivo

- Meu pai contava que antigamente morria mais. Mas hoje em dia, não. Nos últimos anos, que me lembre, morreram três pessoas. Aquela ribeira chama-se Ribeira das Casas. Os antigos diziam que era por antigamente haver ali casas que foram cobertas por aquela ribanceira que ali se vê, à nossa esquerda, mesmo no sírio da minha terra. Mas não acredito muito…e se tal aconteceu já foi há muitos anos.

- Ponta Delgada também fica assim debaixo duma rocha? – perguntou Álvaro, cada vez mais descorado. Foi o Jacinto que esclareceu:

- Não. A freguesia de Ponta Delgada fica no cimo duma encosta tem um cais muito bonito e grande e uma pequena baía ladeada por uma ponta que também se chama Ponta Delgada, e que deu o nome à freguesia e pela Ponta do Ilhéu e estende-se por uma grande planície, cheia de casinhas pintadas de branco. É muito mais bonita do que a Fajã. Nunca lá foste, pois não? Vais gostar muito… Ainda ficas é lá…

E o Mulato com ar de maroto:

- Não tem é assim uma torre como o do chileno ou lá o que é…

Mas lá da ré, mestre Gregório, sempre atento ao que se passava dentro do pequeno batel, avisava

- Mulato, mais atenção ao que vais a fazer. Vê se não respinga água salgada para cima do motor.

Nesse momento, Álvaro, encostando-se ao pai, começou a ficar, de veras, enjoado. Num misto de dor e aflição, interrogava o progenitor

 – Pai, ainda falta muito para chegarmos a Ponta Delgada?

- Ui!... Acabámos de passar a Baixa-Rasa e o ilhéu do Cão! Eu bem me parecia que a tua boa disposição ia acabar de pressa…

- Não desanimes rapaz. Conta mais histórias para te distraíres.

E a chacota avolumava-se, enquanto Álvaro, muito angustiado, suplicava:

– Pai, vamos para trás, quero ir p´ra nossa casa. Estou a ficar muito mal disposto.

- Paciência! E tanta alegria que tiveste quando soubeste que vinhas…

Mestre Gregório, agora em pé, esbracejava:

 – Jacinto, agarra bem o miúdo. Não vês que ele vai vomitar.

- Brr. Ai! Ai! Oh pai! –

Nada mais havia a fazer. O pai e o Jacinto agarram-no, inclinando-o para a borda do barco. Álvaro vomitou, ao mesmo tempo que gritava, numa medonha aflição:

 – Ai! Ai Jesus que eu morro. Quero ir para casa. Ai. Ai. Não quero andar mais de barco. Ai! Ai! Ai que eu morro!

- Não morres coisa nenhuma. Isto acontece a todos. É só nas primeiras vezes. Ainda vais ser um grande marinheiro, quando fores grande.

- Bravo! Assim é que se aprende! Eu também comecei assim. Vais ver que para a próxima vai ser melhor.

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publicado por picodavigia2 às 13:34

NASCENTE

Quinta-feira, 01.05.14

MENU 39 – “NASCENTE”

 

ENTRADA

 

Ensopado de flagelotes com cebola, tiras de pimentos coloridos, azeite e alho

acamado sobre tostas de pão.

 

PRATO

 

Peixe-espada fresco, assado no forno com batatas acamado sobre fatias de pão esmiolado com guarnição de salada ou brócolos gratinados

e recobertos com creme de queijo fresco.

 

SOBREMESA

 

Gelatina de morango com pedacinhos de morangos.

 

 

******

 

Preparação da Entrada: - Refogar num pouco de azeite a cebola, o alho e as tiras ou pedacinhos de pimento e temperar com ervas aromáticas. Juntar água ou caldo e misturar os flagelotes. Tostar fatias finas de pão e cobrir o fundo de um prato ou travessa, cobrindo com algumas folhas de hortelã. Derramar a calda com os flagelotes e abafar. Empratar.

 

Preparação do Prato – Levar ao forno, as postas de peixe as batatas, a cebola e os pimentos. Temperar com alho e ervas aromáticas e cobrir, parcialmente, com uma calda feita com azeite, vinho do porto e água. Cozer os brócolos e gratiná-los com o creme de queijo fresco. Empratar, sobre uma fatia de pão torrado e barrado com alho,

 

Preparação da Sobremesa –  Processo tradicional.

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publicado por picodavigia2 às 08:54

A FESTA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO NO SEMINÁRIO DE ANGRA

Quinta-feira, 01.05.14

A maior festa realizada no Seminário de Angra era a de São Tomás de Aquino. Padroeiro dos filósofos e que era dinamizada e organizada pelos alunos do 1º ano do Curso de Filosofia, correspondente, na altura, ao 6º ano. Eram os debutantes da Filosofia que tinham a seu cuidado os preparativos no que à parte religiosa dizia respeito – um tríduo preparatório e a missa no dia da festa, sendo nesses dias a pregação feita pelos alunos do último ano de Teologia, já ordenados diáconos – mas também eram eles que organizavam uma sessão solene da academia Dr Manuel Cardoso do Couto, onde alguns alunos apresentavam os seus trabalhos, assim como as sabatinas que na década de cinquenta tiveram o seu apogeu. Nessa altura eram constituídas por duas partes, uma sobre Filosofia e outra sobre Teologia e abertas ao público. Para além dos corpos docente e discente do Seminário, participavam também os alunos de filosofia do Liceu de Angra, para tal convidados, presidindo à mesa da sessão, para além do reitor e do professor de Filosofia do Seminário, o reitor do Liceu e o director da Escola Industrial. Nestas sessões, os “melhores” alunos, uns sustentando a defesa duma tese outros negando-a como arguentes, debatiam, intensivamente, os meandros mais subtis da Escolástica e os enigmáticos mistérios da Teologia. Era também um dos alunos do 1º ano de Filosofia que tinha o privilégio de escrever um artigo publicado no jornal A União, nesse dia, enquanto outro, alternadamente com um aluno de Teologia, era o orador principal, no sarau solene, em honra de São Tomás e em que actuava o orfeão do Seminário. Por tudo isso era-lhes concedida uma semana de descanso, durante a qual, embora frequentando as aulas, estavam dispensados quer de chamadas orais quer de testes escritos, uma espécie de “semana da queima”.

Outra festa importante, embora não com a grandiosidade da de São Tomás de Aquino, era a de São José, padroeiro da “prefeitura” dos “Médios que tinha lugar no dia 17 de Março, também ela precedida de um tríduo preparatório, com pregação pelos diáconos que aguardavam a ordenação.

Quer a prefeitura dos Teólogos, quer a dos “Miúdos” também festejavam os seus padroeiros, o Coração de Jesus e São Luís Gonzaga, embora não o fizessem com a pompa e a grandiosidade quer da festa de São José quer, sobretudo, da de São Tomás de Aquino.

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publicado por picodavigia2 às 00:41





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