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ALFRED LEWIS

Sábado, 03.05.14

Alfred Lewis foi um notável escritor, tendo-se distinguido, sobretudo, como romancista, contista, poeta e dramaturgo. Nasceu na freguesia da Fajãzinha, na ilha das Flores, em 1902, com o nome de Alfredo Luís. Emigrou para os Estados Unidos aos 19 anos de idade, em 1922, nos últimos anos da segunda onda de emigração portuguesa para aquele país norte-americano. Lewis era filho de um baleeiro, também ele imigrante e pertencente à primeira onda ligada à indústria baleeira americana, cujos grandes barcos faziam escala nas Flores e nas outras ilhas açorianas para reabastecimento de água e géneros frescos e recolha de tripulantes. Alfred Lewis formou-se em Direito e exerceu o cargo de Juiz Municipal, granjeando, como profissional, um notável êxito. Mas foi nas letras. Que se notabilizou e tornou conhecido nos Estados Unidos Com efeito, Lewis tornou-se o primeiro e único imigrante português a conquistar a atenção do público americano. É autor de contos publicados numa revista literária de prestígio nacional, Prairie Schooner, tendo estes relatos dramáticos, que descrevem uma sociedade multi-racial, composta de mexicanos, portugueses, arménios e anglo-americanos, merecido referência numa antologia de grande renome, The Best American Short Stories, dois anos seguidos, em 1949 e 1950. Lewis foi também poeta prolífico, com composições escritas nas suas duas línguas e publicadas em jornais e revistas de língua inglesa e portuguesa. Muitos desses poemas, que frequentemente lembram a sua terra de origem idealizada pela saudade, foram reunidos postumamente, em 1986, por Donald Warrin, da Universidade de Califórnia, em Berkeley, sob o título sugestivo de Aguarelas Florentinas e Outras Poesias.  

Mas foi a publicação do romance, Home is an Island, pela prestigiada editora Random House, em 1951, na mesma colecção e no mesmo ano em que saíram romances de grandes autores norte-americanos como William Faulkner e J. D. Salinger, que o lançou Lewis para a ribalta do reconhecimento nacional e o consequente estatuto do autor luso-americano, imigrante, mais importante do século XX. Trata-se de um romance autobiográfico cujo protagonista, um jovem açoriano, está prestes a emigrar para a América, Home Is an Island descreve a vida numa pequena aldeia nos Açores, no princípio do século XX.

Este romance mereceu mais de oitenta recensões em alguns dos jornais mais influentes nos Estados Unidos. O New York Times declarou que, "O estilo de Lewis e a qualidade da narrativa são refrescantes. Algumas das suas passagens descritivas, de uma simplicidade cristalina e ricas em imagens, transmitem o lirismo da poesia." O Chicago Sunday Tribune acrescentou que, "É o tipo de livro que delicia. O Sr. Lewis conseguiu transmitir de forma bem-sucedida os `sentimentos' das pessoas simples que ainda vivem em comunhão com a natureza..."; enquanto o San Francisco Chronicle asseverava que "o romance é um esforço pioneiro deste grupo em particular," referindo-se aos luso-americanos, terminando com a esperança de que Lewis "viesse a inspirar outros descendentes de Camões . . . a empunharem a pena, a fim de explorar e relatar a história dos pioneiros portugueses na Califórnia."

Na contracapa de Home is an Island, Alfred Lewis promete uma sequela que colocaria o protagonista na Califórnia, permitindo assim explorar as experiências dos portugueses na sua pátria adoptiva. Essa narrativa, The Land Is Here, passou por várias metamorfoses, ao longo de muitos anos, mas nunca foi publicada. No entanto, muitas das personagens e o fio condutor do enredo foram integrados em Sixty Acres and a Barn, publicado postumamente em 2005 pela Universidade de Massachusetts Dartmouth, local onde se encontra o espólio literário de Alfred Lewis. A sua intenção parece clara: Lewis pretende homenagear as almas corajosas que haviam deixado para trás família, amigos, todos os vestígios da sua antiga existência, com o intuito de trocaram tudo por uma nova vida na América que então era vista como "Terra Prometida," como se lê em Home Is an Island.

Sixty Acres and a Barn é um romance de formação que conta a história de Luís Sarmento, imigrante açoriano que encontra na América um espaço de tolerância, prosperidade e realização amorosa. Este pioneiro tratamento literário da agro-pecuária é levado a cabo de uma forma memorável, numa prosa ao mesmo tempo lírica e realista, onde se depara com a representação de obstáculos enfrentados por uma comunidade portuguesa que vive um tanto isolada entre duas culturas. Sixty Acres mantém muitas das qualidades de Home is an Island, incluindo a sua prosa lírica, mas transmite também a dura realidade da vida dos portugueses naquele lado do Atlântico, por volta de meados do século XX. Dessa forma, o romance constitui uma contribuição valiosa para as letras étnicas da época pós-guerra, tornando Lewis o precursor de outros ilustres escritores luso-americanos, embora já da segunda e terceira gerações.

Na realidade, o apelo à criação de uma literatura luso-americana, em inglês e ao mais alto nível estético, só foi feito muitos anos mais tarde.

A freguesia da Fajãzinha tem em Alfred Lewis um dos seus filhos mais ilustres e disso se pode ufanar.

 

NB - Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 19:56

HOMENAGEM A JOSÉ ENES

Sábado, 03.05.14

“Natural das Lajes do Pico, o Dr. José Enes nasceu a 18 de Agosto de 1924, tendo ingressado no Seminário de Angra em 1936 e na Universidade Gregoriana em Roma, em 1945, voltando depois em 1964. Fez um Doutoramento em Filosofia em 1968, com distinção máxima (Summa Cum Laude e Medalha de Ouro). É licenciado em Teologia. Recebeu um Doutoramento “Honoris Causa” em 1978 da Universidade de Rhode Island e fez a Agregação em Ontologia na Universidade dos Açores em 1983. Para além de Professor do Seminário de Angra, foi Professor, Presidente do Conselho Directivo e Vice-Reitor da Universidade Católica; Professor da Universidade de Luanda; Professor do Instituto Politécnico da Covilhã; Reitor da Universidade dos Açores; Presidente do Conselho Municipal da Câmara de Ponta Delgada; Professor Catedrático da Universidade Aberta, tendo sido seu Vice-Reitor. Exerceu ainda muitos outros cargos. Fundou a página cultural do diário A União intitulada “O Pensamento”, o Instituto Açoriano de Cultura, o Movimento Regional “Semanas de Estudos nos Açores.” Foi designado em 1964 para presidir à primeira Comissão Promotora do Desenvolvimento Regional dos Açores. É muito vasta a lista das suas publicações, incluindo um livro de poemas.

Membro de várias associações açorianas: membro-fundador da Sociedade Científica da Universidade Católica Português, membro do Instituto de Filosofia Luso-Brasileira. Sócio Honorário da Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos. Membro honorário da Aula Castelão de Filosofia da Galiza. Membro do Prince Henry Society da Nova Inglaterra e membro do Clube Micaelense.

José Enes foi condecorado pelo Corpo Nacional de Escuteiros, com a Medalha de Ouro e Gratidão. Foi agraciado em 1964, pelo Chefe de Estado Português, com o “Oficialato da Ordem do Infante,” por serviços prestados a Bem da Nação no Arquipélago dos Açores. Em 1983 foi agraciado pelo Presidente da República com o Grau de “Grande Oficial da Ordem da Instrução Pública.” Em 1992 o Município de Ponta Delgada concedeu-lhe o Diploma de Cidadão Honorário de Ponta Delgada. Em 1999 a Câmara Municipal das Lajes do Pico atribuiu-lhe o Título de Cidadão Honorário. Recebeu ainda a Medalha de Honra da Universidade Aberta, em 1994.

Foi um grande homem, um grande açoriano e um grande espírito da actualidade.

João Carlos Tavares, o Presidente da Casa dos Açores, abriu a sessão (…) O orador principal foi o Dr. Onésimo Almeida, antigo aluno do homenageado e seu amigo pessoal, que preferiu não fazer discurso, uma vez que a biografia do “Mestre” se encontrava à disposição dos presentes no Boletim da Casa dos Açores, mas chamou-o de “educador,” de “cérebro” das Semanas de Estudo de onde saiu o conceito da açorianidade, afirmando que entre os presentes e em muitos ausentes, estavam pessoas que foram tocadas pelo Dr. Enes.

Algumas mensagens foram lidas: Do Presidente da Câmara Municipal das Lajes do Pico, na qual referia que o nome de José Enes estava entre os maiores e os melhores no mundo das letras. A Presidente da Câmara Municipal de Ponta Delgada, também enviou uma mensagem, na qual dá a conhecer uma outra homenagem a prestar ao Dr. José Enes — uma Praça numa nova urbanização em Ponta Delgada, com o seu nome. O Presidente da Câmara Municipal do Nordeste, enviou um abraço do concelho, chamando ao Dr. Enes “um dos açorianos de maior relevo de sempre.”  Pedro Bicudo, jornalista da RTPi, que esteve presente, disse que cresceu com o nome do Dr. Enes (colega do pai) como referência. Que, como membro da Comissão de Estudantes da Universidade dos Açores, criticou o reitor, mas que sempre admirou o homem e o professor, tendo mais tarde modificado a sua opinião acerca do reitor, terminando dizendo que “Os Açores muito devem a este Mestre.” Manuel Estrela, antigo aluno do Dr. Enes, recordou factos passados entre os dois e leu uma mensagem de Heitor Sousa, outro antigo aluno, na qual afirmava: “Não posso esquecer a sua influência na minha vida...” Noutro passo, Sousa escreveu: “Alto (como a sua ilha) na estatura, mas essencialmente no espírito, o Dr. José Enes merece esta homenagem.”

Na sua apresentação, o Dr. José Enes recordou aspectos da sua vida, nomeadamente o esforço que foi preciso fazer para se conseguir um diálogo com a intelectualidade açoriana, necessário para uma organização que tentasse resolver o problema dos Açores, nomeadamente no campo da formação profissional. Daí surgiram as Semanas de Estudos e mais tarde, depois do 25 de Abril, a Universidade. “Tive a ideia, atendendo ao ambiente em Portugal e à nova situação de escrever ao General Altino Magalhães, no sentido de se criar uma universidade nos Açores, o que antes tinha sido impossível, pois julguei ser aquela a hora da universidade, e recebi com surpresa um telegrama em resposta, a dizer: ‘Siga e tudo o mais se resolverá.’ Cheguei a Ponta Delgada a 29 de Setembro de 1975, e aproveitamos o que havia sido feito anteriormente. Formaram-se comissões. Tudo correu com firmeza e ritmo, e em Janeiro de 1976 foi criada a Universidade dos Açores,” disse o Professor.

Recordando, o Dr. Enes continuou: “O que fiz nunca foi sozinho...” Mas volto hoje a estar preocupado com os Açores... O arquipélago perde população. Neste momento por mais que façam não há forma de avançar... Vejo na ‘Lusolândia’ uma comunidade activa, inteligente e poderosa...”

Talvez seja esta a solução para o problema açoriano...

E o “Mestre” finalizou: “Já nada posso fazer...”

Homenagem da Casa dos Açores da Nova Inglaterra.”

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publicado por picodavigia2 às 16:13

GUILTY OR NOT GUILTY

Sábado, 03.05.14

O vento soprava com rajadas fortíssimas! E um barco arreou como se o mar estivesse calmo. Havia um criminoso na esquadra. Teimosa e convictamente, não confessava o crime de que o acusavam. Um polícia fardado de negro levantou os olhos, com o esforço de quem estivera acordado a noite inteira. Um homem destroçado é como um rato apanhado e preso numa ratoeira. O homem continuava calado.

O polícia colocou-lhe as algemas. O vento soprava com rajadas cada vez mais fortes. O barco afastara-se de terra a uma velocidade louca. Já ia longe! O criminoso, aldrabão de nascença e mentiroso por destino, embora algemado, continuava a afirmar a sua inocência. O polícia, farto de insistir, lia uma revista sobre automóveis com as chapas amolgadas.

De repente o vento parou. O barco já não se via. Apenas o criminoso continuava preso. Preso por casmurrice do polícia que, por nada deste mundo deixava de ler a revista.

Finalmente o homem falou e polícia colocou a revista sobre a secretária, besuntada de justiça. No fim, em desespero, pediu clemência. O polícia que ouvisse pelo menos os vizinhos, talvez os amigos, a ver se assim cativa o criminoso e descobria o motivo de o ter prendido. Contrafeito, o polícia aceitou que trouxessem os vizinhos, os amigos, os filhos, os sogros, quem ele quisesse.

Os sogros!? Sim porque ninguém cuidaria que os testemunhos dos sogros, se favoráveis à sua inocência, não seriam verdadeiros…

Na semana seguinte, vieram os sogros. O polícia, sisudo, taciturno, ouviu-os. Eles testemunharam a favor do genro, transformado em acusado. O criminoso foi libertado.

Tantos inocentes são condenados, talvez porque não têm sogros que testemunham sobre a sua inocência.

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publicado por picodavigia2 às 12:06

A PREFEITURA DE SÃO LUÍS GONZGA

Sábado, 03.05.14

A prefeitura de São Luís Gonzaga, no Seminário de Angra. nas décadas de sessenta, cinquenta e anteriores, vulgarmente designada por “Prefeitura dos Miúdos” ocupava toda a aula transversal do edifício, paredes meias com a Rua do Rego e dividia-se em dois andares. No piso superior tinham lugar duas camaratas, uma enorme e outra minúscula e os lavatórios. A separar as camaratas, uma porta sempre aberta, a seguir à qual, uma escadaria interior, que ligava a camarata pequena a um pequeno átrio, no piso inferior, ao lado do qual ficava o quarto do prefeito. Esse átrio comunicava com uma terceira e última camarata, destinada a uma parte dos alunos do quarto ano, à qual se seguia um enorme salão – o Salão de Estudo. Era também através daquele átrio que se tinha acesso à capela da Natividade, através do coro, que era de uso exclusivo dos “Miúdos” e dos Superiores que, de manhã, vinham ali celebrar missas umas atrás das outras, nos cinco altares que a capela disponibilizava, às quais os alunos, à vez e através da chamada por um toque de campainha, iam ajudar. Todas as janelas, quer as das camaratas quer as do salão de estudo, voltadas para Rua do Rego, estavam pintadas com tinta branca e trancadas de tal maneira que nunca se abriam nem deixavam ver para o exterior. As janelas das camaratas eram tapadas com reposteiros de veludo encarnado e os vãos daí resultantes eram utilizados como guarda-fatos. Como não havia porão e as camaratas eram muito largas os baús e as malas ficavam aos pés da cama de cada um.

No primeiro ano que demandei o Seminário de Angra, o prefeito era o padre Augusto Cabral que havia terminado o Curso de Teologia no ano anterior e o monitor, uma espécie de ajunto do prefeito, o José Alvernaz, que na altura frequentava o oitavo ano.

Afastados do resto do Seminário, não sendo permitido comunicar com os alunos das outras prefeituras, passávamos todo o tempo isolados no nosso espaço, apenas nos deslocando, para o refeitório, para o campo de futebol durante o recreio grande e para as aulas, a maioria localizada no piso inferior da ala oposta, embora geralmente, no terceiro ano, o meu curso frequentasse sala dez, entrincheirada entre a pequena sala de convívio dos Médios (antiga sala nove) e o palco, mesmo ali ao lado da cabra.

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publicado por picodavigia2 às 10:56





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