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RETALHOS DE GUERRA I

Quarta-feira, 21.05.14

A partir de Maio de 1973 a situação militar na Guiné agravou-se paras Forças Armadas portuguesas, perante várias grandes ofensivas e ataques massivos por parte do PAIGC. No inicio de 1974, quando lá cheguei a situação era dramática, incluindo, a cidade de Bissau, onde o perigo espreitava a cada esquina.

Os altos comandos militares em Bissau haviam acompanhado o evoluir da situação militar, analisando as possibilidades do inimigo intensificar a acção antiaérea, em ordem a retirar às Forças Portuguesas, a liberdade de acção no ar; incrementar a acção da guerrilha em ataques a aquartelamentos e emboscadas a colunas; massificar as acções contra as povoações com guarnição militar, em ordem a obter sucessos politicamente exploráveis; intensificar a resistência à reocupação do Sul, incrementar a sua actividade contra meios navais, tentar a eliminação sistemática de guarnições mais expostas sobre a fronteira, estabelecer no Boé a fisionomia de um novo Estado e consolidar as bases de uma ulterior evolução do conflito para a fase convencional.

Na realidade, as ofensivas de envergadura do PAIGC com destaque para o ataque contra Guidage, unidade situada junto à fronteira com o Senegal, intensificaram-se. Para garantir a defesa de Guidage, o Comando-chefe da Guiné teve que enviar para a zona um conjunto elevado de unidades e tropas especiais, Comandos, Pára-quedistas e Fuzileiros, bem como unidades de artilharia e de cavalaria. A guarnição local, quando começou o cerco, era constituída por uma companhia de caçadores e por um pelotão de artilharia, equipado com obuses de 10,5cm num total de 200 homens, a maioria do recrutamento local.

Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou cerca de um mês, estiveram envolvidos mais de mil homens das Forças Armadas portuguesas, que sofreram 39 mortos e 122 feridos. Seis viaturas militares foram destruídas e abatidos três aviões. A guarnição de Guidage, nos cerca de 20 dias que ficou cercada esteve sujeita a 43 ataques com foguetões, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. Guidage ficou isolada por um cerco terrestre que se acentuou, na altura em que uma coluna saída de Farim accionou uma mina, sofrendo uma emboscada. A coluna, sofreu vários feridos e foi obrigada a regressar à base de partida.

Seguiram-se novas emboscadas e vários combates com um elevado número de mortos e feridos, alguns em estado graves.

Depois de contínuos massacres o PAIGC ameaçava isolar completamente Guidage, dados os campos de minas lançados, as emboscadas montadas e a impossibilidade dos meios aéreos actuarem, devido ao dispositivo antiaéreo de que dispunha.

Uma operação efectuada pelas tropas portuguesas, chamada "Ametista Real", o Batalhão de Comandos da Guiné assaltou a base de Cumbamori, pertença do PAIGC, situada em território do Senegal. A operação destinava-se a aliviar o cerco do PAIGC a Guidage e a permitir o reabastecimento daquela guarnição. De facto, só a destruição da base de Cumbamori, a grande base do PAIGC no Senegal, na península do Casamança, permitiria pôr fim ao cerco a Guidage. A operação era difícil e de resultados imprevisíveis. O ataque ao Senegal foi atribuído ao Batalhão de Comandos Africanos, comandado pelo major Almeida Bruno. Esta operação envolveu 450 homens do Batalhão de Comandos Africanos que embarcaram em lanchas da Marinha e subiram o rio Cacheu até Bigene, onde chegaram ao pôr-do-sol. À meia-noite a força de ataque seguiu dividida em três grupos de combate - o Agrupamento Bombox, comandado pelo capitão Matos Gomes, o Agrupamento Centauro, sob o comando do capitão Raul Folques e o Agrupamento Romeu, comandado pelo capitão pára-quedista António Ramos.

 O comandante da operação, Almeida Bruno, seguiu integrado no Agrupamento Romeu, que levava um grupo especial comandado por Marcelino da Mata. Avançaram durante a madrugada e pisaram território senegalês cerca das seis da manhã do dia 20, sábado. Às oito horas, uma esquadrilha de aviões Fiat iniciou um forte bombardeamento da zona. Os pilotos atacaram um pouco às cegas, porque a exacta localização da base da guerrilha não era conhecida. Mas por sorte as bombas da aviação acertaram em cheio nos paióis. Mal cessou o ataque aéreo, os grupos comandados lançaram-se no assalto, enquanto o Agrupamento Romeu, comandado por António Ramos e onde seguia o comandante da operação, Almeida Bruno, tomava posição como força de reserva.

 Os três agrupamentos envolveram-se em duros combates: “Os soldados de ambos os lados estavam tão próximos uns dos outros que era impossível delimitar uma frente”. O combate foi corpo a corpo e desenrolaram-se até às 14h10, altura em que Almeida Bruno deu ordem para o Agrupamento Centauro apoiar uma ruptura de contacto entre as forças do Batalhão de Comandos e as do PAIGC. Mas este Agrupamento estava praticamente sem munições e Raul Folques ferido gravemente numa perna. A marcha em direcção a Guidage foi lenta e com várias emboscadas pelo meio. Só a meio da tarde cessaram os combates e os primeiros homens do Batalhão de Comandos começaram a chegar a Guidage, ao anoitecer.

Sabe-se que o PAIGC sofreu 67 mortos, entre os quais uma médica e um cirurgião cubanos e quatro elementos mauritanos, enquanto os Comandos Portugueses sofreram dez mortos, dos quais dois oficiais, 23 feridos graves e três desaparecidos.

Uma nova coluna de reabastecimentos ficou retida em Farim, por ter sido atacada outra coluna entre Mansoa e Farim de que resultou a destruição de três viaturas que ficaram no terreno, tendo as forças portuguesas sofrido quatro mortos e 16 feridos, dos quais nove graves.

 Na luta por Guidage, o PAIGC utilizou a sua infantaria apoiada por artilharia pesada e ligeira, além de um grupo especial de mísseis terra-ar. Em armamento utilizou foguetões, morteiros, canhões sem recuo, armamento ligeiro e mísseis de grande alcance.

 

Excertos retirados do livro Os Anos da Guerra Colonial de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes e Wikipédia

 

 

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publicado por picodavigia2 às 15:07

A MOBÍLIA

Quarta-feira, 21.05.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, a maioria das casas tinha apenas três divisões, contendo uma mobília modesta, simples e tosca.

A cozinha era a divisão da casa mais utilizada. Para além do lar e do forno, havia uma mesa de jantar, grande e rudimentar, à volta da qual, se colocava uma ou duas cadeiras e dois bancos. Junto da mesa, existia uma caixa de arrumos, servindo de assento numa das cabeceiras. Junto ao lar havia um lava mãos de ferro, com uma bacia e um jarro de esmalte ou louça. Ao lado um ou dois baldes de madeira que se destinavam a ir encher água à fonte, caso não existisse canalizada. Os lavradores mais abastados possuíam uma amassaria e, em muitos casos, até um guarda louça, alguns com portas de vidro. A amassaria, uma modernidade nestes tempos, tinha uma dupla função: guardar alimentos e alguns objectos e servir de suporte para amassar o pão e estendê-lo, depois de saído do forno. Algumas casas também possuíam guarda louças, mas na maioria a louça era guardada em prateleiras pregadas nas paredes da cozinha. Todas as casas tinham selha e bancos para lavar os pés e balde do porco.

Na sala, onde normalmente dormiam os rapazes, havia uma enorme barra, várias cadeiras, uma cómoda com gavetas de arrumo de roupa e bugigangas. Sobre a cómoda, geralmente existia um oratório e uma infinidade de retratos de familiares emigrados na América, encaixilhados em passe-partouts de papelão. Nos cantos ou junto às paredes, entrelaçadas com as cadeiras, havia uma ou duas caixas, vindas da América em tempos idos e floreiras de madeira, com vasos de plantas, naprons e bolas de vidro encontradas no mar.

Finalmente, no quarto de dormir, quase todo o espaço era ocupado por duas barras: uma para o casal e outra para as filhas. Quando havia crianças recém-nascidas, um berço separava as duas barras. Pregadas nas paredes havia pequenas farripas de madeira, forradas com pedaços de pano onde se guardava a roupa de domingo e das festas.

Junto às portas havia capachos de casca de milho e um relógio, geralmente um Ausónia, vindo da América.

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publicado por picodavigia2 às 10:04

O PORTALINHO

Quarta-feira, 21.05.14

O Portalinho era, sem sombra de dúvida, um dos lugares mais pobres, mais inóspitos, mais desinteressantes, mais inócuos e mais improdutivos da Fajã Grande, na década de cinquenta. Mas o pior, é que para além de todas estas maléficas e danosas características, o Portalinho ainda era um dos lugares mais distantes do povoado e, por conseguinte, de difícil acesso.

Situava-se para além dos Lavadouros, encastoado entre o Curralinho e a Rocha, sendo que uma parte do seu espaço se prolongava pela própria Rocha. Era um lugar exclusivamente de terras de mato. Nem relvas, nem terras de inhames, nem de árvores de fruto, nem muito menos de outra cultura qualquer. Apenas matagal, onde por entre fetos e cana roca quase gigantes, proliferavam incensos, faias, paus brancos, sanguinhos, loureiros e vinháticos.

Tudo isto fazia com que o lugar do Portalinho fosse muito pouco procurado, até porque muitas das terras ali existentes, praticamente estavam ao abandono, por parte dos seus proprietários.

O acesso a este lugar fazia-se por um ou outro dos caminhos que ligavam a Fajã aos Lavadouros. Aqui, ou mais propriamente nos Lavadouros de Cima, o caminho bifurcava-se. Voltando-se à direita caminhava-se na direcção do Vale Fundo e da Cuada, por um caminho de boa qualidade. Porém, se voltássemos à esquerda, caminhava-se na direcção da Rocha, com destino ao Curralinho, por uma vereda com muitas poucas condições. O piso não era calcetado, em muitos sítios era bastante irregular e, além disso, só acessível a pequenos corsões. A partir do Curralinho a vereda piorava, uma vez que se transformava numa pequena e estreita canada que conduzia às primeiras terras do Portalinho, onde havia um pequeno largo e onde tudo terminava. Quem pretendesse penetrar pelo Portalinho dentro teria que o fazer atravessando propriedades atrás de propriedades, o que, convenhamos, não era muito fácil, devido ao denso matagal que por ali proliferava.

Meu avô tinha lá uma terra, na fronteira com o Curralinho, onde meus tios iam, de vez em quando, com um pequeno corsão de canguinha, cortar e acarretar lenha. Terei ido lá apenas uma vez. Era o fim do mundo!

O nome do lugar parece advir-lhe do facto de, terminando ali o caminho, o lugar se iniciar com o portal de uma das propriedades ali existentes. Como ali tudo era pequeno, o portal também o era. Seria apenas um portalinho, o qual terá dado nome ao lugar.

O que restará hoje do lugar do Portalinho? Talvez, apenas e somente esta memória…

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publicado por picodavigia2 às 09:34

OS IRMÃOS

Quarta-feira, 21.05.14

(CONTO POPULAR)

Era uma vez uma mulher que tinha um filho, mas este era mau e não obedecia à mãe. Certo dia, decidiu fugir de casa e foi para o Mato cortar lenha que ia vender à vila, ganhando, assim, algum dinheiro.

Na vila, conseguia vender a lenha e ganhar o dinheiro necessário para viver. Numa tarde, cansado de tanto trabalhar, sentou-se à Praça a descansar, sem grande vontade de regressar a casa. Ficou na vila por mais uns dias e, passado algum tempo, viu uma rapariga de quem gostou e com quem casou, passando a viver, definitivamente, na vila, nunca mais procurando a mãe. Do seu casamento nasceram seis filhos, com pouca diferença de idade.

Quando o filho mais velho fez dezoito anos, aborrecido com a vida que tinha em casa dos pais, decidiu, também, fugir de casa e levar consigo todos os irmãos, Esconderam-se no Mato e passaram a viver numa furna, alimentando-se com frutos e raízes silvestres e com a carne de um outro animal que caçavam e assavam. Os pais ficaram muito tristes. Tiveram, então, outro filho, a quem puseram o nome de Guilherme. Mas quando menino tinha cinco anos a sua mãe morreu. Pouco depois, o pai ficou gravemente doente, pelo que pediu ao filho que fosse procurar os seus irmãos, para eles tomarem conta dele. Nesta altura, porém, lembrou-se do que tinha feito à sua mãe e pediu, fervorosamente, a Deus que os seus filhos voltassem para casa. Os filhos voltaram, mas quando chegaram, o pai já tinha morrido, por isso, encontraram o irmão, sozinho com o seu cão Piloto. Os irmãos acenderam o lume, assaram um carneiro e convidaram o Guilherme para comer. Este, porém, não aceitou.

Os irmãos sepultaram o pai, prenderam o cão e levaram o Guilherme para o Mato, montado num burro. Pelo caminho o Guilherme adormeceu e os irmãos abandonaram-no, num local ermo e que ele desconhecia. Quando acordou, não sabia onde estava e ao ver-se sozinho chorou todo dia. À noite ouvia uns cães a uivar e, cheio de medo, subiu a uma árvore. Pensava no seu cão e rezava. Lá do cimo da árvore viu uma luz. Desceu a árvore e, já sem medo, correu na direcção da luz. Quando estava para atravessar um grotão sentiu passos e atirou-se ao chão, a fim de se esconder, com receio que fosse alguém que lhe quisesse fazer mal. Muito admirado, viu o seu cão que o ajudou a passar o grotão e que o defendeu de outros cães raivosos e esfomeados que por ali andavam. O cão ficou ferido e Guilherme muito cansado, mas foram andando, até encontrar uma casa onde morava uma velhinha muito bondosa que logo os acolheu e os tratou.

Perguntou-lhe quem era, e como se chamava o seu pai. O menino disse que que se chamava Guilherme e deu-lhe algumas informações sobre o seu pai. O coração da boa velha deu um salto ao perceber que o pai daquele menino deveria ser o filho que a abandonara. Aquele menino era com certeza seu neto. Acolheu-o pois na sua pobre casinha e o Guilherme ajudava a avó a guardar as ovelhas que davam leite para o seu sustento, a acarretar água para casa e a fazer a comida. Guilherme cresceu e fez-se um belo rapaz. No entanto a velhinha morreu e Guilherme voltou a partir, regressando à vila, onde, passado algum tempo, encontrou uma linda rapariga por quem se apaixonou e com quem casou. Tiveram duas filhas e dois filhos, eram muito educados e trabalhadores.

Numa tarde quente de verão, Guilherme saboreava a fresca sombra de uns arbustos, no pátio da sua casa quando viu chegar seis homens todos sujos, e perguntou-lhes:

- Donde vêm?

- Da cadeia.

Guilherme recordou os seus seis irmãos. E perguntou-lhes?

- De quem sois filhos?

Os rapazes deram-lhe alguns informações sobre o seu pai. Guilherme percebeu então que eram os seus irmãos e perguntou-lhes:

- O que foi feito do vosso irmão mais novo?

- Nós não tínhamos nenhum irmão.

- Então?! Não tinham um irmão mais novo, chamado Guilherme que, depois da morte do vosso pai, abandonaram no mato?

Eles lembraram-se, então, do mal que tinham feito, do crime que tinham cometido e perceberam que aquele era o seu irmão Guilherme que tinham abandonado quando o pai morreu. Abraçaram-no e pediram-lhe perdão.

Guilherme perdoou-lhes e chamou a sua mulher e seus filhos para que vissem abraçar os seus irmãos. Eles, na verdade, estavam verdadeiramente arrependidos da vida que tinham levado, do mal que tinham feito, mas não tinham possibilidade de se tornarem homens honestos. Como trabalhadores ninguém os queria, todos desconfiavam deles e não tinham dinheiro para comprarem terreno e o cultivarem.

Guilherme aceitou-os e hospedou-os em sua casa, por algum tempo. Deu-lhes terras para eles trabalharem e construírem uma casa. E foi assim que eles se tornaram homens honrados, honestos, bondosos e trabalhadores

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publicado por picodavigia2 às 08:25





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