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EDUCAÇÃO

Sexta-feira, 23.05.14

Em Educação sabe-se quem e o que se “semeia”, no entanto, dificilmente se conhecem quais e quantos os frutos a colher!  (…) Em Educação, tudo é devir, qualquer efeito tem de ser encarado como positivo! Em Educação, não se podem esperar sucessos imediatos! Em Educação, a apreciação dos resultados é uma tentação, porém são os processos que devem merecer a nossa devida atenção! Não há Educação sem Esperança! O passado já foi bom, o presente está melhor e o futuro será óptimo!”

Manuel Francisco Aguiar

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publicado por picodavigia2 às 10:48

POR SÃO JORGE

Quinta-feira, 22.05.14

O Frederico Maciel nasceu nas Velas, São Jorge, em 1949 e frequentou os seminários Ponta Delgada e Angra do Heroísmo, onde fez a sua formação académica. Trabalhou na Tesouraria da Fazenda Pública das Velas e prestou serviço militar em Moçambique. Possui um currículo riquíssimo. Urge, no entanto, recordar os aspectos em que mais se notabilizou ao longo da sua vida, da qual fez um verdadeiro hino de dedicação e amor à ilha de São Jorge, como atestam os louvores, condecorações e insígnias que já lhe foram atribuídas.

O Frederico foi deputado à Assembleia Legislativa Regional e Presidente da Câmara Municipal das Velas. Na Assembleia Regional exerceu os cargos Secretário do Grupo Parlamentar e presidente de diversas comissões parlamentares. Fundou a Associação de Bombeiros. Como autarca participou com estudos em diferentes congressos sendo alguns dos seus trabalhos publicados em revistas da especialidade. Foi o principal impulsionador da criação da Associação de Municípios do Triângulo, Foi o impulsionador da Semana Cultural das Velas, organizou o IV Encontro de Escritores Açorianos, o I Encontro da Imprensa não diária dos Açores e fundou o jornal “Correio de S. Jorge” e da revista “O Jorgense”, dos quais foi director. É autor de vários livros e actualmente exerce o cargo de Provedor da Santa Casa da Misericórdia da Vila das Velas. Em 1994 foi agraciado com a Medalha de Ouro do Município das Velas, em 2008, recebeu a Insígnia Autonómica de Mérito Cívico e, em 2011, a Medalha de Mérito e Dedicação da União das Misericórdias Portuguesas. Actualmente é o Presidente da Assembleia Municipal das Velas.

O Frederico chegou ao Encontro dos Antigos alunos do SEA esbanjando uma humildade sincera, sombreando uma nobreza de carácter autêntica, emanando uma dignidade sincera e verdadeira. Com uns quilitos a mais do que o Frederico dos anos sessenta, a todos encantou quer com o seu eloquente silêncio, quer com as suas sábias e comedidas palavras ou até com a sua irreverente participação no jogo de futebol. Um homem de uma ternura excedente, de uma bondade extremosa, duma dignidade edificante, a pautar a sua presença por um testemunho de verdade, de carinho e de amizade para com todos. Presente em todas as actividades, participou em todos os eventos com interesse desmedido, com uma sobriedade exemplar e com uma presença enriquecedora. Como se isso não bastasse ainda nos obsequiou com um dos seus livros, sobre a sua ilha – São Jorge. Por tudo isto foi mais um dos “Senhores” do Encontro.

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publicado por picodavigia2 às 20:10

A DONZELA ENCANTADA

Quinta-feira, 22.05.14

Pedro da Silveira considerou este rimance o mais popular na ilha das Flores, depois do Lavrador da Arada. O exemplar que a seguir reproduzo, é, ainda segundo Pedro da Silveira, uma recolha feita por Jacob Tomás, na freguesia da Fazenda, onde este rimance era denominado por “A Moirinha”, muito provavelmente, devido a um estribilho que o acompanhava quando o cantavam, antigamente. Na Fajã Grande era assim que era conhecido, mas existia uma versão muito semelhante, conhecida por “Dom Pedro”, embora o texto tivesse algumas variantes.

Segundo publicou na Revista Lusitana, o rimance A Donzela Encantada (não confundir com a Donzela Enganada, já aqui reproduzido) rezava assim:

 

Caçador que foi à caça, à caça se foi num dia

Atrás de um pombinho branco e o pombinho le fugia.

Anoitecera na serra onde casas não havia,

Lá ao pé de um alvoredo tão alto à maravilha.

No mais alto galho dele viu estar uma donzilha

Com um pente de oiro na mão, que pentear-se queria.

O cabelo da sua cabeça, todo o alvoroço cobria;

Os olhos da sua cara, toda a serra esplandecia;

Os dentes da sua boca fina prata parecia.

«Que fazeis aí, donzela, que fazeis aí, senhora?»

Sete fadas me fadaram no colo duma mare minha,

Que vinhesse eu para aqui sete anos e mais um dia,

Ontem fez os sete anos, hoje é o derradeiro dia.»

Ele le ofereceu as ancas do meu fermoso cavalo,

…………………… Que a sela não le doía.

…………………….. Ao entrar numa vila.

Ao espedir duma calçada a donzila se sorria.

«Que tendes vós, ó donzila, que tendes que vos sorris?»

«Eu rio-me do cavaleiro, da vossa covardaria,

Que achou a nina na serra e le guardou cortesia.»

«Vira a volta meu cavalo, que as esporas são perdidas.»

«Adiante, cavaleiro, não faça tal tornaria,

Pois se elas eram de prata, meu pai de oiro las daria.

 Às varandas de meu pai lavra-se oiro todo o dia,

Que eu sou de saingue real, neta dum rei de Castilha,

A filha do rei de França, nossa mãe, dona Maria.»

«Valha-me deus com tal sorte, valha-me deus com tal dita,

Pensei que trazia dama e trago uma irmã minha.»

 

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publicado por picodavigia2 às 10:46

CULTURA ACTIVA E PASSIVA

Quinta-feira, 22.05.14

“Assentemos na ideia generalizada de que o conceito de cultura diversifica-se em duas linhas principais: a subjectiva – activa: a formação do homem como homem, a educação das suas faculdades corporais, intelectuais, morais e religiosas, a descoberta das suas virtualidades intrínsecas e a objectiva - passiva: o conjunto de meios para actualizar ou realizar as potencialidades humanas (a tradição) – a riqueza etnológica, etnográfica, transmissível de geração em geração.”

 

Manuel Serpa

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publicado por picodavigia2 às 00:16

RETALHOS DE GUERRA I

Quarta-feira, 21.05.14

A partir de Maio de 1973 a situação militar na Guiné agravou-se paras Forças Armadas portuguesas, perante várias grandes ofensivas e ataques massivos por parte do PAIGC. No inicio de 1974, quando lá cheguei a situação era dramática, incluindo, a cidade de Bissau, onde o perigo espreitava a cada esquina.

Os altos comandos militares em Bissau haviam acompanhado o evoluir da situação militar, analisando as possibilidades do inimigo intensificar a acção antiaérea, em ordem a retirar às Forças Portuguesas, a liberdade de acção no ar; incrementar a acção da guerrilha em ataques a aquartelamentos e emboscadas a colunas; massificar as acções contra as povoações com guarnição militar, em ordem a obter sucessos politicamente exploráveis; intensificar a resistência à reocupação do Sul, incrementar a sua actividade contra meios navais, tentar a eliminação sistemática de guarnições mais expostas sobre a fronteira, estabelecer no Boé a fisionomia de um novo Estado e consolidar as bases de uma ulterior evolução do conflito para a fase convencional.

Na realidade, as ofensivas de envergadura do PAIGC com destaque para o ataque contra Guidage, unidade situada junto à fronteira com o Senegal, intensificaram-se. Para garantir a defesa de Guidage, o Comando-chefe da Guiné teve que enviar para a zona um conjunto elevado de unidades e tropas especiais, Comandos, Pára-quedistas e Fuzileiros, bem como unidades de artilharia e de cavalaria. A guarnição local, quando começou o cerco, era constituída por uma companhia de caçadores e por um pelotão de artilharia, equipado com obuses de 10,5cm num total de 200 homens, a maioria do recrutamento local.

Na operação de auxílio, reabastecimento e contra-ofensiva, que durou cerca de um mês, estiveram envolvidos mais de mil homens das Forças Armadas portuguesas, que sofreram 39 mortos e 122 feridos. Seis viaturas militares foram destruídas e abatidos três aviões. A guarnição de Guidage, nos cerca de 20 dias que ficou cercada esteve sujeita a 43 ataques com foguetões, artilharia e morteiros. Todos os edifícios do quartel foram danificados. Guidage ficou isolada por um cerco terrestre que se acentuou, na altura em que uma coluna saída de Farim accionou uma mina, sofrendo uma emboscada. A coluna, sofreu vários feridos e foi obrigada a regressar à base de partida.

Seguiram-se novas emboscadas e vários combates com um elevado número de mortos e feridos, alguns em estado graves.

Depois de contínuos massacres o PAIGC ameaçava isolar completamente Guidage, dados os campos de minas lançados, as emboscadas montadas e a impossibilidade dos meios aéreos actuarem, devido ao dispositivo antiaéreo de que dispunha.

Uma operação efectuada pelas tropas portuguesas, chamada "Ametista Real", o Batalhão de Comandos da Guiné assaltou a base de Cumbamori, pertença do PAIGC, situada em território do Senegal. A operação destinava-se a aliviar o cerco do PAIGC a Guidage e a permitir o reabastecimento daquela guarnição. De facto, só a destruição da base de Cumbamori, a grande base do PAIGC no Senegal, na península do Casamança, permitiria pôr fim ao cerco a Guidage. A operação era difícil e de resultados imprevisíveis. O ataque ao Senegal foi atribuído ao Batalhão de Comandos Africanos, comandado pelo major Almeida Bruno. Esta operação envolveu 450 homens do Batalhão de Comandos Africanos que embarcaram em lanchas da Marinha e subiram o rio Cacheu até Bigene, onde chegaram ao pôr-do-sol. À meia-noite a força de ataque seguiu dividida em três grupos de combate - o Agrupamento Bombox, comandado pelo capitão Matos Gomes, o Agrupamento Centauro, sob o comando do capitão Raul Folques e o Agrupamento Romeu, comandado pelo capitão pára-quedista António Ramos.

 O comandante da operação, Almeida Bruno, seguiu integrado no Agrupamento Romeu, que levava um grupo especial comandado por Marcelino da Mata. Avançaram durante a madrugada e pisaram território senegalês cerca das seis da manhã do dia 20, sábado. Às oito horas, uma esquadrilha de aviões Fiat iniciou um forte bombardeamento da zona. Os pilotos atacaram um pouco às cegas, porque a exacta localização da base da guerrilha não era conhecida. Mas por sorte as bombas da aviação acertaram em cheio nos paióis. Mal cessou o ataque aéreo, os grupos comandados lançaram-se no assalto, enquanto o Agrupamento Romeu, comandado por António Ramos e onde seguia o comandante da operação, Almeida Bruno, tomava posição como força de reserva.

 Os três agrupamentos envolveram-se em duros combates: “Os soldados de ambos os lados estavam tão próximos uns dos outros que era impossível delimitar uma frente”. O combate foi corpo a corpo e desenrolaram-se até às 14h10, altura em que Almeida Bruno deu ordem para o Agrupamento Centauro apoiar uma ruptura de contacto entre as forças do Batalhão de Comandos e as do PAIGC. Mas este Agrupamento estava praticamente sem munições e Raul Folques ferido gravemente numa perna. A marcha em direcção a Guidage foi lenta e com várias emboscadas pelo meio. Só a meio da tarde cessaram os combates e os primeiros homens do Batalhão de Comandos começaram a chegar a Guidage, ao anoitecer.

Sabe-se que o PAIGC sofreu 67 mortos, entre os quais uma médica e um cirurgião cubanos e quatro elementos mauritanos, enquanto os Comandos Portugueses sofreram dez mortos, dos quais dois oficiais, 23 feridos graves e três desaparecidos.

Uma nova coluna de reabastecimentos ficou retida em Farim, por ter sido atacada outra coluna entre Mansoa e Farim de que resultou a destruição de três viaturas que ficaram no terreno, tendo as forças portuguesas sofrido quatro mortos e 16 feridos, dos quais nove graves.

 Na luta por Guidage, o PAIGC utilizou a sua infantaria apoiada por artilharia pesada e ligeira, além de um grupo especial de mísseis terra-ar. Em armamento utilizou foguetões, morteiros, canhões sem recuo, armamento ligeiro e mísseis de grande alcance.

 

Excertos retirados do livro Os Anos da Guerra Colonial de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes e Wikipédia

 

 

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publicado por picodavigia2 às 15:07

A MOBÍLIA

Quarta-feira, 21.05.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, a maioria das casas tinha apenas três divisões, contendo uma mobília modesta, simples e tosca.

A cozinha era a divisão da casa mais utilizada. Para além do lar e do forno, havia uma mesa de jantar, grande e rudimentar, à volta da qual, se colocava uma ou duas cadeiras e dois bancos. Junto da mesa, existia uma caixa de arrumos, servindo de assento numa das cabeceiras. Junto ao lar havia um lava mãos de ferro, com uma bacia e um jarro de esmalte ou louça. Ao lado um ou dois baldes de madeira que se destinavam a ir encher água à fonte, caso não existisse canalizada. Os lavradores mais abastados possuíam uma amassaria e, em muitos casos, até um guarda louça, alguns com portas de vidro. A amassaria, uma modernidade nestes tempos, tinha uma dupla função: guardar alimentos e alguns objectos e servir de suporte para amassar o pão e estendê-lo, depois de saído do forno. Algumas casas também possuíam guarda louças, mas na maioria a louça era guardada em prateleiras pregadas nas paredes da cozinha. Todas as casas tinham selha e bancos para lavar os pés e balde do porco.

Na sala, onde normalmente dormiam os rapazes, havia uma enorme barra, várias cadeiras, uma cómoda com gavetas de arrumo de roupa e bugigangas. Sobre a cómoda, geralmente existia um oratório e uma infinidade de retratos de familiares emigrados na América, encaixilhados em passe-partouts de papelão. Nos cantos ou junto às paredes, entrelaçadas com as cadeiras, havia uma ou duas caixas, vindas da América em tempos idos e floreiras de madeira, com vasos de plantas, naprons e bolas de vidro encontradas no mar.

Finalmente, no quarto de dormir, quase todo o espaço era ocupado por duas barras: uma para o casal e outra para as filhas. Quando havia crianças recém-nascidas, um berço separava as duas barras. Pregadas nas paredes havia pequenas farripas de madeira, forradas com pedaços de pano onde se guardava a roupa de domingo e das festas.

Junto às portas havia capachos de casca de milho e um relógio, geralmente um Ausónia, vindo da América.

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publicado por picodavigia2 às 10:04

O PORTALINHO

Quarta-feira, 21.05.14

O Portalinho era, sem sombra de dúvida, um dos lugares mais pobres, mais inóspitos, mais desinteressantes, mais inócuos e mais improdutivos da Fajã Grande, na década de cinquenta. Mas o pior, é que para além de todas estas maléficas e danosas características, o Portalinho ainda era um dos lugares mais distantes do povoado e, por conseguinte, de difícil acesso.

Situava-se para além dos Lavadouros, encastoado entre o Curralinho e a Rocha, sendo que uma parte do seu espaço se prolongava pela própria Rocha. Era um lugar exclusivamente de terras de mato. Nem relvas, nem terras de inhames, nem de árvores de fruto, nem muito menos de outra cultura qualquer. Apenas matagal, onde por entre fetos e cana roca quase gigantes, proliferavam incensos, faias, paus brancos, sanguinhos, loureiros e vinháticos.

Tudo isto fazia com que o lugar do Portalinho fosse muito pouco procurado, até porque muitas das terras ali existentes, praticamente estavam ao abandono, por parte dos seus proprietários.

O acesso a este lugar fazia-se por um ou outro dos caminhos que ligavam a Fajã aos Lavadouros. Aqui, ou mais propriamente nos Lavadouros de Cima, o caminho bifurcava-se. Voltando-se à direita caminhava-se na direcção do Vale Fundo e da Cuada, por um caminho de boa qualidade. Porém, se voltássemos à esquerda, caminhava-se na direcção da Rocha, com destino ao Curralinho, por uma vereda com muitas poucas condições. O piso não era calcetado, em muitos sítios era bastante irregular e, além disso, só acessível a pequenos corsões. A partir do Curralinho a vereda piorava, uma vez que se transformava numa pequena e estreita canada que conduzia às primeiras terras do Portalinho, onde havia um pequeno largo e onde tudo terminava. Quem pretendesse penetrar pelo Portalinho dentro teria que o fazer atravessando propriedades atrás de propriedades, o que, convenhamos, não era muito fácil, devido ao denso matagal que por ali proliferava.

Meu avô tinha lá uma terra, na fronteira com o Curralinho, onde meus tios iam, de vez em quando, com um pequeno corsão de canguinha, cortar e acarretar lenha. Terei ido lá apenas uma vez. Era o fim do mundo!

O nome do lugar parece advir-lhe do facto de, terminando ali o caminho, o lugar se iniciar com o portal de uma das propriedades ali existentes. Como ali tudo era pequeno, o portal também o era. Seria apenas um portalinho, o qual terá dado nome ao lugar.

O que restará hoje do lugar do Portalinho? Talvez, apenas e somente esta memória…

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publicado por picodavigia2 às 09:34

OS IRMÃOS

Quarta-feira, 21.05.14

(CONTO POPULAR)

Era uma vez uma mulher que tinha um filho, mas este era mau e não obedecia à mãe. Certo dia, decidiu fugir de casa e foi para o Mato cortar lenha que ia vender à vila, ganhando, assim, algum dinheiro.

Na vila, conseguia vender a lenha e ganhar o dinheiro necessário para viver. Numa tarde, cansado de tanto trabalhar, sentou-se à Praça a descansar, sem grande vontade de regressar a casa. Ficou na vila por mais uns dias e, passado algum tempo, viu uma rapariga de quem gostou e com quem casou, passando a viver, definitivamente, na vila, nunca mais procurando a mãe. Do seu casamento nasceram seis filhos, com pouca diferença de idade.

Quando o filho mais velho fez dezoito anos, aborrecido com a vida que tinha em casa dos pais, decidiu, também, fugir de casa e levar consigo todos os irmãos, Esconderam-se no Mato e passaram a viver numa furna, alimentando-se com frutos e raízes silvestres e com a carne de um outro animal que caçavam e assavam. Os pais ficaram muito tristes. Tiveram, então, outro filho, a quem puseram o nome de Guilherme. Mas quando menino tinha cinco anos a sua mãe morreu. Pouco depois, o pai ficou gravemente doente, pelo que pediu ao filho que fosse procurar os seus irmãos, para eles tomarem conta dele. Nesta altura, porém, lembrou-se do que tinha feito à sua mãe e pediu, fervorosamente, a Deus que os seus filhos voltassem para casa. Os filhos voltaram, mas quando chegaram, o pai já tinha morrido, por isso, encontraram o irmão, sozinho com o seu cão Piloto. Os irmãos acenderam o lume, assaram um carneiro e convidaram o Guilherme para comer. Este, porém, não aceitou.

Os irmãos sepultaram o pai, prenderam o cão e levaram o Guilherme para o Mato, montado num burro. Pelo caminho o Guilherme adormeceu e os irmãos abandonaram-no, num local ermo e que ele desconhecia. Quando acordou, não sabia onde estava e ao ver-se sozinho chorou todo dia. À noite ouvia uns cães a uivar e, cheio de medo, subiu a uma árvore. Pensava no seu cão e rezava. Lá do cimo da árvore viu uma luz. Desceu a árvore e, já sem medo, correu na direcção da luz. Quando estava para atravessar um grotão sentiu passos e atirou-se ao chão, a fim de se esconder, com receio que fosse alguém que lhe quisesse fazer mal. Muito admirado, viu o seu cão que o ajudou a passar o grotão e que o defendeu de outros cães raivosos e esfomeados que por ali andavam. O cão ficou ferido e Guilherme muito cansado, mas foram andando, até encontrar uma casa onde morava uma velhinha muito bondosa que logo os acolheu e os tratou.

Perguntou-lhe quem era, e como se chamava o seu pai. O menino disse que que se chamava Guilherme e deu-lhe algumas informações sobre o seu pai. O coração da boa velha deu um salto ao perceber que o pai daquele menino deveria ser o filho que a abandonara. Aquele menino era com certeza seu neto. Acolheu-o pois na sua pobre casinha e o Guilherme ajudava a avó a guardar as ovelhas que davam leite para o seu sustento, a acarretar água para casa e a fazer a comida. Guilherme cresceu e fez-se um belo rapaz. No entanto a velhinha morreu e Guilherme voltou a partir, regressando à vila, onde, passado algum tempo, encontrou uma linda rapariga por quem se apaixonou e com quem casou. Tiveram duas filhas e dois filhos, eram muito educados e trabalhadores.

Numa tarde quente de verão, Guilherme saboreava a fresca sombra de uns arbustos, no pátio da sua casa quando viu chegar seis homens todos sujos, e perguntou-lhes:

- Donde vêm?

- Da cadeia.

Guilherme recordou os seus seis irmãos. E perguntou-lhes?

- De quem sois filhos?

Os rapazes deram-lhe alguns informações sobre o seu pai. Guilherme percebeu então que eram os seus irmãos e perguntou-lhes:

- O que foi feito do vosso irmão mais novo?

- Nós não tínhamos nenhum irmão.

- Então?! Não tinham um irmão mais novo, chamado Guilherme que, depois da morte do vosso pai, abandonaram no mato?

Eles lembraram-se, então, do mal que tinham feito, do crime que tinham cometido e perceberam que aquele era o seu irmão Guilherme que tinham abandonado quando o pai morreu. Abraçaram-no e pediram-lhe perdão.

Guilherme perdoou-lhes e chamou a sua mulher e seus filhos para que vissem abraçar os seus irmãos. Eles, na verdade, estavam verdadeiramente arrependidos da vida que tinham levado, do mal que tinham feito, mas não tinham possibilidade de se tornarem homens honestos. Como trabalhadores ninguém os queria, todos desconfiavam deles e não tinham dinheiro para comprarem terreno e o cultivarem.

Guilherme aceitou-os e hospedou-os em sua casa, por algum tempo. Deu-lhes terras para eles trabalharem e construírem uma casa. E foi assim que eles se tornaram homens honrados, honestos, bondosos e trabalhadores

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publicado por picodavigia2 às 08:25

AJUDAR À MISSA

Terça-feira, 20.05.14

No início da década de sessenta, o Seminário de Angra teria cerca de vinte professores, todos eles sacerdotes, com excepção do médico, o Dr Mário Lima. Todos estes sacerdotes celebravam missa, diariamente, pese embora, nestes tempos ainda não fosse hábito concelebrar. Apesar de alguns, por vezes, celebrarem em igrejas ou capelanias da cidade, a maioria celebrava no Seminário e de manhã, o que exigia várias estruturas e alguma organização. Para o efeito, a capela de “cima” ou da Natividade, apesar de pequena e ocupada, habitualmente, pela prefeitura dos “Miúdos” para a missa e outras celebrações religiosas, possuía, embora de forma rudimentar, os altares, os paramentos e as alfaias litúrgicas necessárias para que cinco sacerdotes pudessem celebrar ao mesmo tempo, mas em altares separados: o altar-mor, dois laterais no corpo da igreja e dois no coro, sendo um deles, uma simples mesa.

Normalmente, a primeira missa era celebrada pelo prefeito e destinada aos seminaristas, que a ela assistiam em conjunto. Durante a mesma, no entanto, já chegava um ou outro professor, mais madrugador, que celebrava nos altares laterais ou no coro. Nestas primeiras celebrações, era habitual a presença do prefeito dos Médios, na altura o padre Horácio, ou o dos Teólogos, o Dr Valentim, uma vez que cada um, em alternativa, celebrava, para as duas prefeituras, semana sim, semana não, na capela de baixo. Entre os professores mais madrugadores pontificavam o cónego Jeremias e o padre Vitorino.

Após a missa da prefeitura, seguia-se uma hora de estudo e era durante a mesma que demandava a capela para celebrar missa, uma enorme avalanche de professores: Dr José Enes, Dr Pereira, Dr Edmundo, Pe Coelho, Dr Carmo, Pe Jaime e o Dr Caetano Tomás. Também, embora com menos frequência, ali celebravam o dr Américo que, confessando durante a missa dos Médios e Teólogos, geralmente, celebrava na capela de baixo, o Dr Custódio que celebrava nas Mónicas, Monsenhor Lourenço que celebrava na sua freguesia, o Dr Alfredo que celebrava no Post-Seminário e o Dr Cunha em São Carlos.

Ora todos estes celebrantes, pese embora a missa fosse em latim e celebrada em voz baixa, necessitavam de ajudantes, tarefa, muito bem organizada, atribuída aos alunos dos 3º e 4º anos, que integravam a prefeitura de São Luís Gonzaga. Cada professor, ao chegar à sacristia, premia o botão de uma espécie de campainha de porta que se fazia ouvir no salão de estudo, onde os alunos estudavam, em silêncio, durante a hora que mediava a missa do pequeno-almoço. Ordenadamente, a começar pelo primeiro da fila da esquerda, os alunos, à medida que a campainha tocava, iam-se levantando, abandonavam a sala sem ser necessário pedir ao prefeito e iam ajudar à missa do professor que tocara a campainha. No dia seguinte, o primeiro aluno a ser chamado, seria o que tinha a carteira imediatamente a seguir ao último do dia anterior. Normalmente o ser chamado para ajudar à missa era uma tarefa gratificante para os alunos. Por um lado era uma oportunidade de conhecer e conviver com os professores, nomeadamente com os que nos davam aulas e por outro uma ocasião única de sair da sala, onde se impunha um silêncio rigoroso e um emarfanhar.se, muitas vezes forçado, entre livros, cadernos e sebentas.

Semanalmente e também por ordem, dois alunos do 4º ano eram responsáveis por logo de manhã preparar os cálices e os paramentos necessários aos cinco altares. Por sua vez os “sanguíneos” e os “amitos” que eram pessoais, eram guardados, muito bem embrulhadinhos, numa prateleira afixada na parede e com várias divisões, cada qual com o nome de um professor e que eram renovados, semanalmente.

Interessante organização!

 

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publicado por picodavigia2 às 14:56

MANUEL MONTEIRO

Terça-feira, 20.05.14

O poeta Manuel Garcia Monteiro nasceu na Horta, em 29 de Junho de 1859, tendo falecido em Boston, em Julho de 1913. Fez os estudos no Liceu da Horta, foi funcionário público, jornalista e redactor do semanário satírico O Passatempo. O desejo de continuar a estudar na Escola Politécnica e a obtenção de um lugar de prefeito num colégio em Lisboa, fê-lo seguir para esta cidade, em 1882, onde se relacionou com intelectuais, entre os quais Fialho de Almeida que escreveu a seu respeito: «um açoriano dos mais vivos e um dos mais delicados espíritos que temos conhecido». Algum tempo depois regressou à Horta, onde fundou O Açoriano.

Em Junho de 1884, emigrou para os Estados Unidos da América. Foi convidado a redigir um novo periódico de língua portuguesa, sendo, também, tipógrafo do Boston-Herald. Trabalhando de noite e estudando de dia, formou-se em Medicina, na Escola Superior de Baltimore, actividade que exerceu em East Boston e em Cambridge. Aqui, entre a colónia açoriana, também desenvolveu grande actividade na propaganda dos ideais republicanos. Com João Francisco Escobar, fundou uma organização maçónica de que foi venerável..

Começou a publicar poesia, em 1874, no jornal O Faialense. Os seus poemas são quadros realistas de costumes e ideias do meio e da época. Pedro da Silveira considera-o lírico, mas bem melhor satírico ou humorista, um dos mais destacados parnasianos de língua portuguesa, incontestavelmente o primeiro na literatura açoriana. Dispersa pelos jornais, ficou obra vasta que ultrapassa o publicado em livro. Como cronista publicou «Cartas da América», como comediógrafo deixou duas comédias, notabilizando-se, também, como contista.

Obras principais: O Marquês de Pombal. Versos e Rimas de Ironia Alegre.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 10:14

IMPASSE

Terça-feira, 20.05.14

“Estamos no impasse, como a Igreja universal, no pensamento e no impulso renovador que lembramos dos anos 60.”

 

 

Abel Vieira

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publicado por picodavigia2 às 09:44

AS FREITAS

Segunda-feira, 19.05.14

Recuando oito gerações, na descoberta dos meus antepassados, descobri um razoável número de mulheres, minhas avós, tias e tias avós que tiveram no seu nome o sobrenome ou apelido “Freitas”. Foram elas:

Isabel de Freitas – casou na Fajazinha em 05-02-1725 com Bartolomeu Lourenço Fagundes, que era filho de António Lourenço e de Maria de Freitas. Ela era filha do alferes André Fraga  e de Bárbara de Freitas

Joana de Freitas 2ª mulher de Bartolomeu Lourenço com quem casou na Fajazinha em 06-10-1732 e era filha do capitão do Capitão Gaspar Henrique Coelho s e Francisca Rodrigues Coelho (natural dos Cedros capitão das Fajãs e neta paterna do capitão Domingos Rodrigues Ramos e Catarina de Freitas. Era irmã do padre Francisco de Freitas Henriques de do capitão da Fajã António de Freitas Henriques.

Catarina de Freitas – casou em 30-01.1752 com António Silveira de Azevedo na igreja da Fajãzinha, filha de Bartolomeu Lourenço e de Isabel de Freias do primeiro casamento. Neta Paterna de António Lourenço e de Maria de Freitas e materna deo Alferes André Fraga e de sua mulher Bárbara de Freitas.

Ana de Freitas – casou na fajazinha, em 17 de janeiro de 1774 com Bartolomeu Lourenço Fagundes. Era filha de Manuel Lourenço e Joana de Freitas e  e Bartolomeu Lourenço Fagundes era filho de António Silveira Azevedob e de Catarina de Freitas. Era nora de Catarina de Freitas

Maria de Freitas – primeira mulher de Manuel Lourenço com quem casou na Fajãzinha em 08-11-1723 era filha de do Alferes André Fraga Pimentel e de sua mulher Barbara de Freitas que faleceu com 55 anos em 26-10-1718

Joana de Freitas 2ª mulher de Manuel Lourenço com quem casou na fajazinha em 22-111751 e era filha de António George Garcia e de Maria de Freitas era mãe Ana de Freitas esposa de Bartolomeu Lourenço Fagundes

De ascendência paterna

Ana de Freitas Jr que casou na Fajãzinha, em 22 de Outubro de 1804 com Joaquim António Rodrigues de Freitas foram eus trisavós e pais de minha bisavó Mariana Joaquina de Jesus

Ana de Freitas que casou na Fajazinha em 6 de Outubro de 1763, com António de Freitas Fragueiro natural das Lajes das Flores e que foram

Como se isto não chegasse ainda tenho, na actualidade, algumas tias e primas com o mesmo sobrenome.

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publicado por picodavigia2 às 17:20

LIBERTAÇÃO

Segunda-feira, 19.05.14

Numa manhã, cálida, fulva e etérea do Outono, chegou à serra Prada um viajante solipsista, misterioso e invulgar. Invulgar porque, imaginem, era um anão. Vinha de longe, de muito longe. Percorrera mares, andurriais e páramos, suportando tempestades e procelas, saltando montanhas de espuma e de submissão, sentando-se à sombra de árvores sem folhas e sem esperança, perdendo-se ininterruptamente em ilhas desertas e em oásis mistificados. Atravessara, com extenuante lucubração, um grande e tórrido deserto, com rios de fogo e pináculos de estranha adoração, onde se perdera e onde, simultaneamente, enlapara muitos dos seus sonhos e fantasias. Mas trazia consigo a experiência da liberdade, a fragrância da dignidade, a auréola da fraternidade, a estranheza da sublimidade e do amor, sobretudo do amor. Sonhava, sempre, que as estrelas são de prata, e que para além de cada oceano, há sempre um outro mar. Ensinava que as nuvens quando se desfazem não pretendem apenas jorrar sobre os mortais a incomodidade da chuva. Aprendera nos campos e nos bosques e estudara com as flores e os pássaros. Acolhia com sorriso as manhãs sombrias, escuras, enevoadas e chuvosas. Era amigo da esperança e das florestas. Pernoitava nos bosques, ao relento, dialogando com o destino e com a solidão. Alimentava-se do perfume das flores e dos frutos. Possuía um coração com aromas de alecrim e sabor a hortelã. Mas tinha um grande defeito: dependia total e exclusivamente do sol, para quem olhava constantemente, sonhando poder, um dia, voar ao seu encontro.

Mais! Era gimnosofista, o anão! Vivia permanentemente nas florestas, abstraído das multidões, convivendo com a frescura e a mansidão dos bosques. Considerava a "noite" como a origem de todos os males e produtora de todas as limitações, e a "escuridão" a filha única da ignorância universal. A fuga a estas maléficas divindades, adquire-se através da sabedoria, filha da claridade, mas que permanece longínqua e quase inatingível, porque libertadora de sucessivas, contínuas e constantes migrações, e que consiste, apenas e simplesmente, na capacidade equívoca de fugir aos pesadelos escuros e tétricos da nossa existência atormentada. Isto apenas se consegue mediante um isolamento total e uma entrega às "hamadríades", ou seja, as ninfas dos bosques, que nascem simultaneamente com as árvores, nunca se desvinculando das mesmas, vivendo e morrendo com elas. A vida duma árvore ninfada ou duma ninfa arborizada é, no entanto, perene e infinita, porque umas e outras dependem da única fonte de vida do universo - o Sol. Por essa razão, o anão entendia, que as árvores nunca deviam ser destruídas, pois o aroma das suas folhas, o perfume das suas flores e o sumo dos seus frutos constituem o alimento primordial e único de todo a raça carracena, pelo que a vida depende, necessariamente e em último grau, da luz emanada pelo astro-rei. Este é um armazém infinito de poder e beleza, receptor tranquilizante de todas as inquietudes. Somente através dele é possível atingir a sublimação da beleza absoluta e, consequentemente, atingir a simplicidade. Assim toda e qualquer oposição à força e à beleza solar devia ser eliminada.

Chegou, pois, o anão, à serra Prada e aboletou-se num tétrico e cavernoso antro, isolado de tudo e de todos. Inicialmente, os serranos, supinamente preocupados com as perversas vicissitudes resultantes da famigerada governação dos seus chefes, não se aperceberam da sua presença. Passados alguns dias, porém, numa tarde clara, florida, perene de sol e de ternura, o anão desceu aos povoados e encontrou a serra na posse plena da sua beleza omnipotente e beatificante, isolada e só, mas acolhedora, glorificante e transcendente.

O povo, ocupado em orgias contestatárias e efervescentes, nem se apercebeu da sua presença e o anão perdeu-se, no meio da confusão que então se gerava, vagueando por entre a população envolvida em deslumbrantes manifestações contra o estado da nação. A revolta agigantava-se cada vez mais. O anão foi apanhado pela manifestante enxurrada, sem se aperceber e sem que ninguém o notasse. Foi levado pela confusão até ao palácio real, que de imediato foi invadido. A multidão, difluída junto à platibanda que o cercava, de rompante, encostou-se aos altos portões que a encimavam e que de imediato cederam e entrou, em turbilhão, pelos pátios ajardinados e pelos salões desertos e esconsos.

O monarca, mais uma vez se ausentara, para se dedicar às suas actividades preferidas e satisfazer os seus reais e eficientes instintos cinegéticos. A última sala a ser invadida foi a do trono. Uma multidão furibunda, intransigente, sedenta de esperança e liberdade, encostou-se à porta e esta cedeu facilmente. De repente, todos entraram, à esmo, pela sala dentro. A confusão era enorme e emaranhada em sucessivos e contínuos atropelos. Ninguém podia fugir, libertar-se ou, tão pouco, mover-se. O anão, hesitante, enleado e ilaqueado, ainda tentou fugir. Não conseguiu. Impossível de todo! Estava completamente preso e assolado, amarrado a uma força infinita, invisível e estranha, que o puxava e que, por fim, sem saber-se como, o sentou no próprio trono real.

De repente, fez-se um enorme e sepulcral silêncio na sala.

O anão estava ali, só, mais a multidão, que, faminta de lenimento, fixava o seu olhar  tímido, mavioso e expectante, no rosto aureolado e blandicioso de tão inesperada e inquietante personagem, que, na realidade e a partir de agora, seria a esperança libertadora da sua estigmatização.

Um grito de alívio ecoou por toda a serra Prada! As árvores ficaram mais  verdes e floridas, as flores mais perfumadas e alegres, os frutos mais aromatizados e saborosos. As aves, encheram-se de coragem, perderam os últimos resíduos de medo e de temor e voaram mais alto. Os animais retoiçavam com mais afinco e blandícia. A suavidade ornamentava o destino de toda a serra. O vento soprava paramentado de ternura e graciosidade.

Porém o monarca emérito, ausente do palácio real, continuava abstraído na prática das artes cinegéticas e pantagruélicas, não se apercebendo, de imediato, que ali terminara o seu reinado e que era substituído na governação serrana por um simples, humilde e heteróclito anão.

A noite, porém, decorreu, em toda a serra, sobressaltada, angustiante e repleta de escuridão e incerteza. Mas a manhã seguinte, surgiu, risonha, afável, simpática e perene de sol e de ternura. Os dias seguintes correram céleres, maviosos e flexíveis. Era imperioso, por parte da nova governação, alterar ou suprimir muitas das leis vigentes, estabelecendo novos rumos, mudando a ordem até então estabelecida.

Os ergástulos foram destruídos, as leis maquiavélicas suprimidas e os decretos aniquilantes anulados. Foi decretado que, a partir de agora, o Sol seria a principal razão de ser e de viver dos serranos pradenses. É que o neo-governante bochimane adorava o Sol. Não podia mesmo viver sem ele. A sua dependência do astro-rei era tal que, sempre este se escondia, quer porque chegasse a noite, quer porque surgisse um dia enevoado, cinzento ou chuvoso o anão refugiava-se no seu mítico falanstério e tremia terrivelmente de frio, sofrendo tão violentas e pitónicas convulsões, que se abstraia total e absolutamente da sua governação protectoral.

Por isso a protecção legislativa ao astro-rei era imperativo constitucional. O Sol recebia assim, por decreto, à boa maneira dos sacerdotes assírios e pré-helénicos, os epítetos de ser supremo, paraninfo real, coração do mundo, razão de ser de todo o universo, detentor dum poder, duma força e duma vontade anteriores ao mundo, regulador da marcha do universo, controlador assumido do destino, significante exímio da grandeza, da dignidade e da perenidade e gerador da contagiante simpatia.

Foram, então, publicados decretos cerceadores dos eclipses e eliminadores dos dias enevoados e cinzentos e promulgadas leis que combatiam, de forma radical e imperiosa, as próprias noites. A Lua, quer na sua extravagante ousadia de gerar eclipses, quer na sua prestigiante função de iluminar a noite, foi decretada como inimigo número um. A duração dos dias de Inverno foi aumentada.

Na própria bandeira da nação serrana foi mandada afixar a inolvidável imagem do maior e mais importante astro do universo, na sua postura mais digna, gratificante e criadora - nascendo. Por toda a parte, dentro e fora do palácio real, surgiam desenhos e imagens do Sol. Nos jardins reais, foram mandadas erigir duas estátuas: uma do deus Apolo e outra do rei Hélio e as salas foram ornamentadas com frescos e baixos-relevos representando os episódios mais significativos da vida de Faetonte, o mais importante filho do Sol que, estando um dia a jogar apaixonada e emotivamente com o seu amigo Epapo, este, ao ser derrotado, desentendeu-se com ele e lançou-lhe à cara alguns insultos, nos quais se incluía uma grave e ofensiva suspeita de que ele não era filho do Sol, o que punha linearmente em causa a seriedade da sua mãe. Faetonte foi queixar-se a esta que, de imediato, o mandou certificar-se junto do Sol. Este, encontrando o filho, a quem desde há muito procurava, despojou-se dos seus próprios raios em benefício do filho e jurou conceder-lhe tudo o que ali mesmo lhe pedisse, como real prova da sua efectiva paternidade. O jovem Faetonte pediu-lhe que o deixasse conduzir, apenas por um dia, o seu próprio carro. Não era essa a vontade paternal, mas como prometera em juramento e não podia voltar com a palavra dada, o Sol emprestou-lhe o seu carro puxado por fortíssimos cavalos e deu-lhe a respectiva certificação de condutor. Os verdores de Faetonte levaram-no, em louca correria, até ao horizonte terrestre. Foi aí que os cavalos, ao aproximarem-se da Terra, se assustaram e os raios de Faetonte começaram, de imediato a queimá-la e a incendiá-la, ao mesmo tempo que afastando-se, ela arrefecia. Gerou-se, assim, um caos universal, que culminou em tempestades ciclónicas e diluvianas, trovoadas contínuas, cataclismos destruidores, inundações arrasantes, tendo sido, o próprio Faetonte, fulminado por um raio, caindo o seu corpo no rio Eridano, perante o choro e o lamento de suas irmãs e do seu amigo Cícuo. A desordem no universo foi tal que, durante um ano, não houve Sol e a corrida dos cavalos tão violenta que do carro ficou um rastro no firmamento, que se prolongou até hoje e que ainda se pode observar - a Via Láctea.

Estas imagens, gravadas nas paredes o palácio real, contribuam, significativamente, para valorizar a força, a grandeza e a imperiosa consistência que o Sol, agora, passava a ter, na vida e nos costumes do novo governante. Este acordava todas as manhãs, na esperança de ver nascer o astro-rei. Caminhava pelos campos e pelas bosques, alta madrugada, ansioso e expectante, tímido e submisso, na certeza de que ele em breve, surgiria no firmamento, na sua grandiosidade e omnipotência, espargindo, com os seus raios luminosos, simpatia contagiante, irradiando doçura, emanando dignidade, aquecendo os bosques e as florestas, aconselhando as flores e os pássaros, passeando ao lado das montanhas, dignificando o perfume das flores e transformando em sublimidade a perene doçura dos frutos. O dia surgia, então, pacífico, alegre, e bonançoso. A água dos regatos e arroios corria, agora, mais  límpida e cristalina, a fluidez fora irradiada, a inconstância abolida e a indefinição suprimida. O sol assumia-se, na realidade, na sua total e infinita plenitude - rei e senhor do universo. Era, assim, reposta, nas cercanias serranas, a ordem mitológica, assíria e pré-helénica, desfeita pela perturbante missão da História, acolitada por imperativos religiosos ou racionais.

O povo, cedo, entendeu o que se passava. As alterações eram tais, que era impossível não entendê-las. Preferiu, no entanto, ocultar-se, calar-se, aguardar os acontecimentos, sentindo a perene e constante ternura de sentir que agora fora decretado o direito de sonhar e de imaginar a aventura e a fulgurante consonância de conquistar o próprio destino. Por outro lado, a protecção e o constante acompanhamento que lhe era dado, por parte do novo governante, permitia não apenas que aceitasse a mudança, mas também que a anelasse e que a quisesse ou até mesmo que a procurasse.

Os dias sucediam-se, pois, repletos de paz e de tranquilidade. O povo pradense orgulhava-se de ocupar o 1º lugar no top da euritmia e da ataraxia contemplativa. As manhãs consolidavam-se perenes de irradiações solares e erguiam-se acolhedoras e tranquilizantes, geradoras de orgasmos emocionais, transmitindo à serra um potencial de vida, de doçura e simpatia contagiante, nunca antes conseguida. Quando o dia, impelido pela beleza solar, se extravasava na sua delirante bonança, os arbustos cresciam, as árvores davam mais flores e mais frutos, as aves construíam ninhos de raios de luz e de esperança, o povo refugiava-se nas sombras do destino, o anão pura e simplesmente contemplava o sol ou as imagens que dele rodeavam os mistérios do reino.

A vida, na serra, era agora a certeza institucionalizada. Era possível sonhar-se com a perene transcendência de se poder sonhar mesmo não sonhando. O teorema hélénico dos filósofos socráticos fora traduzido para a neo-cultura serrana: "a verdade é que estamos sempre a sonhar, pois quando estamos a sonhar, estamos de facto a sonhar e quando estamos a não-sonhar, também estamos a sonhar que não estamos a sonhar". Por isso, toda a serra sonhava.

Porém, inesperadamente, um dia, sem que ninguém se apercebesse ou desejasse, chegou, o primeiro e grande Inverno. De imediato os dias escureceram totalmente, as flores fecharam-se, as folhas caíram, as árvores murcharam, os animais, em aulidos de dor, refugiaram-se nos seus esconderijos. As encostas serranas cobriram-se com um manto acinzentado de neve. O anão tremeu de frio, como nunca tinha tremido até então e escondeu-se, fechou-se, enclausurou-se e chorou amargamente. É que não havia nem leis, nem decretos que imperassem sobre as leis da natureza e transformassem aqueles frios e terríveis dias de inverno, fazendo regressar à serra a ternura, o calor e a fragrância solares.

A vida na serra paralisou totalmente. O frio e a neve destruíram tudo e todos. Apenas a perene certeza do retorno sazonal e ansiado da longínqua primavera, justificava a angustiante mas ousada volúpia de viver.

O anão tremeu de frio dias a fio, semanas inteiras, meses consecutivos. Do sol, apenas a ténue esperança de regressar o mais cedo possível, pondo termo a tão angustiante e tétrica lucubração.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:05

OS CAPITÃES DAS FLORES E CORVO

Segunda-feira, 19.05.14

Segundo Mendoça Dias a lista dos capitães das Flores e Corvo, desde que os Teives as alienaram até 1650 é a seguinte:

Fernão Teles - comprou as “Foreiras” aos Teives (que as descobriram ou delas se apossaram), segundo carta régia de confirmação da venda passada em 28 de Janeiro de 1475. Foi casado com D. Maria de Vilhena que, já viúva e com seu filho, a vendeu a João da Fonseca.

João da Fonseca - venda está confirmada por carta régia de 1 de Março de 1504, com as mesmas concessões.;

Pedro da Fonseca - filho do anterior sendo a sucessão confirmada por carta régia de 6 de Agosto de 1506. Foi o primeiro a usar o título de capitão das Flores e senhor do Corvo, por ter comprado o ilhéu a Antão Vaz.

Gonçalo de Sousa - segundo filho do anterior, sendo a sua sucessão confirmada pelas cartas régias de 12 de Janeiro de 1548 e 12 de Setembro de 1575. Casado com D. Beatriz de Távora, não tiveram descendentes pelo que o direito de herança da capitania caducou.

D. Francisco de Mascarenhas - conde de Santa Cruz e senhor das duas ilhas por carta régia de 17 de Setembro de 1593. A doação concedida como compensação pela perda da capitania do Faial e por estar vaga a das Flores;

D. Martinho de Mascarenhas - 2º conde de Santa Cruz e filho do anterior. A sucessão foi confirmada pelas cartas régias de 3 de Janeiro de 1608 e de 20 de Setembro de 1624.

D. Beatriz de Mascarenhas - 3ª condessa de Santa Cruz e filha do anterior. Foi casada com João de Mascarenhas, a quem o rei deu o título de conde de Santa Cruz, doando-lhe a capitania das Flores e do Corvo por carta de 15 de Junho de 1650.

Sucederam-lhes: D. Martinho de Mascarenhas II - 4º conde de Santa Cruz (1665-1676); D. João de Mascarenhas II - 5º conde de Santa Cruz (1676-1691); D. Martinho de Mascarenhas III - 6º conde de Santa Cruz e 3º marquês de Gouveia (1691-1723); D. João Maria de Mascarenhas - 4º marquês de Gouveia (1723-1740) e D. José de Mascarenhas - 5º marquês de Gouveia e 8º duque de Aveiro (1740-1759).

Em 1759, após a condenação e execução do duque, a capitania retornou à Coroa.

Pedro da Silveira caracteriza assim os governos das três dinastias

de capitães ou donatários como ele escreve: “Os Teles não se preocuparam com as ilhas a seu encargo. Os Fonsecas deram um notável impulso à sua efectiva colonização, em certa medida estimulados pelos reis, dada a crescente expansão castelhana para Oeste. Os Mascarenhas cuidaram sempre e apenas do que as ilhas lhes rendiam ou podiam render, não demonstrando a mais leve preocupação com o seu desenvolvimento ou com o bem-estar dos que lá viviam. Sugavam, implacavelmente, a população em rendas e dízimos e igualmente o faziam os seus feitores, em proveito próprio. Desde que esta família tomou posse da capitania, em 1593, não mais se criou ali qualquer freguesia.”

 

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publicado por picodavigia2 às 12:04

SERVOS INÚTEIS

Segunda-feira, 19.05.14

“Infelizmente, muitas paróquias (nos Açores) são como ilhas, só que rodeadas de terra por todos os lados, em vez de mar. Temos de nos habituar a pescar para o mesmo cesto e nós, sacerdotes, devemos pensar que ninguém pesca para si e que a paróquia ou a Igreja não são nossas. Na Igreja, só temos de nos convencer que somos servos inúteis.”

 

Octávio R de Medeiros

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publicado por picodavigia2 às 09:37

O MACHADO E O RAIO

Segunda-feira, 19.05.14

Antigamente, na Fajã Grande, havia muito medo das trovoadas e, sobretudo dos relâmpagos. Dizia que os relâmpagos, quando faiscavam, emitiam raios perigosíssimos, sobretudo se se reflectissem em espelhos ou no gume de um machado. Assim, sempre que começasse a relampejar deviam tapar-se todos os espelhos e quem transportasse um machado, tanto ao ombro, como nas mãos, devia libertar-se do mesmo, atirando-o para bem longe. Outros objectos, no entanto, também podiam atrair os raios emanados dos relâmpagos, como máquinas de costura, aivecas de arados, sachos, facas, etc. Mas mau, mau eram os espelhos e os machados.

Para ilustrar tais crenças, contava-se que Ti’Antonho Joaquim, que se ufanava de não ter medo de nada nem de coisa nenhuma, muito menos de raios, relâmpagos ou trovões, certo dia, de baixo de uma enorme trovoada, que, a julgar pelo pouco tempo que separava o faiscar do relâmpago do ribombar do trovão, deveria estar muito próxima, o que tornava tudo muito mais perigoso, resolveu pegar num machado, sair de casa e caminhar rumo a uma terra que tinha no Pocestinho, a fim de ir cortar lenha. Ao passar à Praça, alguns homens que ali estavam a descansar e abrigar-se da trovoado, ao ver aquela loucura, bem o avisaram:

- Ó home, já tens idade para tê juíze! Arruma-me esse machade, nã vês a relampada qu’está pr’ai a fazê?! Cum ess’idade, num sabes que debaixe de trovoade nunca se deve pegá num machade! Durante uma trovoada nã se deve pegar num machade, home dos diabes!

 Ele, continuando o seu caminho, respondeu:

- Nã tenhe mede nenhum, nim de nada, muito menes de raios. Raios vos partim é a vocês, qu’istão par’i sentades, sim fazê coisa nehua. Ca pur mim tenhe mazé que trabalhá. Precise de lenha, o cepe está sem nenhua. A minha Adelina qué fazer lume e nã tem cunquê.

E lá foi à sua vida, enquanto os outros ficavam ali pasmados, até porque a trovoada parecia aumentar cada vez mais. Ti’Antonho Joaquim subiu a Fontinha, seguiu até ao Alagoeiro, sempre com o machado às costas. Enfiou-se pela Canada da Fontecima e chegou ao Batel. Subiu a ladeira, abrigando-se junto às altas abas das paredes. Ao chegar ao cimo, junto ao Descansadouro, postou-se no alto, em pé, a olhar o povoado, como se nada estivesse a acontecer, embora, cada vez, trovejasse com mais intensidade.

De repente sentiu um estrondo medonho e um choque terrível percorreu-lhe todo o corpo, fulminando-o e deitando-o por terra, inanimado. Ao lado, o metal do machado derretera por completo. Um raio, emanado de um relâmpago, a que se seguiu um estrondoso trovão, atraído pelo metal reluzente do gume, caíra-lhe sobre o machado provocando uma enorme descarga eléctrica, atordoando-o por completo. Foram uns homens que por ali passaram, algum tempo depois, que o recolheram e o trouxeram em ombros até a casa, ficando alguns dias de cama, até se recompor por completo.

Mas o susto foi tão grande e o perigo de morrer tão eminente que Ti’Antonho Joaquim, em dias de trovoada, nunca mais saiu de casa, nem muito menos, pegou num machado.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02

OUSADO

Domingo, 18.05.14

M 42 – “OUSADO”

ENTRADA

Acepipes de rodelas de pepino forrados com mortadela de peru e recheados com creme de queijo fresco e pepino

e encimados com tiras de pimento vermelho e verde e outros verdes sobrepostos

 

PRATO

Tranche de pescada assado no forno com puré de batata

 encimado por rodelas de cenoura  

e brócolos gratinados.

 

SOBREMESA

 

Fruta e gelatina de pêssego.

 

Preparação da Entrada: Cortar o pepino às rodelas, retirar a casca e o interior. Forrar o fundo com pedacinhos de mortadela e rechear com uma mistura do pepino, creme de queijo fresco e temperos. Sobrepor tiras de pimento e folhas de salsa.

 

Preparação do Prato – Preparar a tranche e coloca-la numa travessa, temperando-a com alho, azeite, cebola, vinho, tiras de pimentos, pimenta e alecrim. Cozer os brócolos e gratiná-los com creme de queijo fresco. Fazer o puré e empratar.

 

Preparação da Sobremesa - Confecção tradicional.

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publicado por picodavigia2 às 14:53

O NAUFRÁGIO DO GREFFIN

Domingo, 18.05.14

Amanhecia, desassossegado e intranquilo, o dia 26 de Fevereiro de 1866. Uma manhã invernosa e o mar a parecer que queria comer gente, de tão bravo que estavaA maioria dos habitantes da nova paróquia da Fajã Grande, como que ainda comemorava a euforia da sua elevação a paróquia e a freguesia, separando-se, definitivamente, da paróquia da Senhora do Remédios e da freguesia da Fajãzinha, por alvará do bispo de Angra, D. Frei Estêvão de Jesus Maria, datado de 20 de Junho de 1861.

Alvoroçados com silvos estridentes de uma embarcação em apuros, os habitantes levantara-se, sobressaltados e correram em direcção ao mar. Lá para os lados do Areal, entre a ponta da Coalheira e o Redondo, como se previra, estava naufragada uma embarcação. Tratava-se de um patacho de nome Greffin, um barco à vela, de dois mastros, sendo, a vela de proa redonda e a de ré do tipo latina, muito utilizado agora nas viagens de transporte de produtos e mercadorias entre a América e a Europa e que começara a ser utilizado no final do século XVI, altura em que foram construídos os primeiros exemplares. Com um deslocamento variando entre 40 e 100 toneladas, o patacho era utilizado para o transporte de cargas e mercadorias. Fora utilizado, principalmente, pela Armada Espanhola, nos séculos XV, XVI, XVII e XVIIII, como navio de guerra, para a protecção e monitoramento dos territórios do império espanhol no exterior. Pelo seu pouco peso e elevada velocidade de movimento foi utilizado, também, por piratas espanhóis e holandeses para atacar os navios comerciais.

Agora um exemplar, com capacidade para transportar cerca de 98 toneladas, estava ali a terminar os seus dias. Ligava a América à Europa carregado de fardos de algodão.

Com a ajuda da população local, que foram lançando de terra, cordas, cabos, pranchas e tabuões, todos os tripulantes se salvaram, assim como grande parte do carregamento, não havendo feridos.

Durante alguns dias os tripulantes foram alojados em várias casas da freguesia, sendo depois enviados para Santa Cruz, onde aguardaram embarque para a Inglaterra. O algodão recuperado foi vendido na ilha das Flores a 450 reis o quilo.

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publicado por picodavigia2 às 14:50

SUICÍDIO DE SONHOS

Domingo, 18.05.14

Desde pequenina que Josefina queria ser professora. Sonhava com uma vida futura, digna e nobre mas, também, calma e tranquila. Ter um marido que a amasse, filhos que educasse e visse crescer. Construir uma casa com um pequeno jardim, onde pudesse ter um cão e um gato e, sobretudo, flores, muitas flores. Depois, com os filhos já crescidos, viajar, viajar muito.

Sonho legítimo, o da Josefina...

Os anos, porém, foram passando, vácuos e céleres. Josefina foi crescendo e o seu sonho, aos poucos, foi-se desfazendo entre dificuldades e limitações, esfumando entre esperas e incertezas, desconcertando-se entre ilusões e quimeras.

Chegaram os trinta! O destino, aparentemente, fintara Josefina. Mas inda não era tarde para nenhum dos sonhos em que, serenamente, se embalara, se evaporasse, por completo. A nível profissional, porém, não conseguira completar o décimo segundo, nem, consequentemente, tirar um curso universitário e ser professora. Os pais enfermos de há muito, obstruíam-lhe desejos, cerceavam-lhe vontades. O destino levou-me para outros caminhos. Primeiro foi a caixa de um supermercado da pequena cidade onde vivia e, mais tarde, uma perfumaria de um Centro Comercial, a uns quilómetros de distância.

O mardo e os filhos não chegaram. Nunca se lhe deparara o homem ideal que a amasse e estimasse e que com ele partilhasse a sua aventura sonhadora. Começava a pensar que lhe bastaria o marido e os filhos. Era tempo de abdicar do jardim, do cão, do gato e, até, das flores de que tanto gostava. Um apartamento serviria perfeitamente…

Chegaram os trinta e cinco… tudo mais se enevoou, esfumou e como que desapareceu quando o emprego na perfumaria, onde trabalhava, cessou. Declarada falência, regressou a casa sem emprego… A morte dos pais deixou-a desolada. O desemprego trouxe-lhe consumições.

E voltou a abdicar. Primeiro das viagens com que tanto sonhara e, sobretudo, daquilo que mais desejava e com que mais sonhara: os filhos. Restava-lhe uma pequena parcela do sonho inicial - o marido. Um companheiro e amigo com quem comungasse alegrias, partilhasse desilusões e esquecesse sonhos.

Chegaram os quarenta… E o seu último e talvez mais legítimo sonho desvaneceu-se… O companheiro com que sonhara partilhar a vida, não apareceu. Josefina sentiu-se velha, triste, solitária e, sobretudo, sem os sonhos que não conseguira concretizar!

Uma amiga de longa data bem a reconfortava:

- Nunca é tarde para sonhar e nunca devemos deixar de fazê-lo porque se o deixarmos de fazer a nossa vida pára. A tua vida não pode nunca parar. Ninguém consegue realizar todos os sonhos, mas se desiste nada há-de conseguir.

Nada!

Mas no silêncio das madrugadas perturbantes, em que, entontecida, despertava, Josefina, um dia, escreveu:

 

Era a ti que eu queria

era contigo que eu sonhava.

A ti eu me agarrava

e me prendia,

 

Eram os meus sonhos

que te traziam até mim,

desfazendo a escuridão do meu caminho

anulando os destroços

dos pesadelos em que navegava.

 

Tu eras o eco que ouvia,

a luz que me iluminava.

Caminhávamos, lado a lado, de mãos dadas,

Pelos caminhos que eu delineara.

 

Agora, os meus sonhos são quimeras,

desfeitas, assoladas por temporais,

onde me sinto só.

O silêncio do meu corpo

é o eco da sua ausência definitiva.

 

O suicídio dos meus sonhos

transformou o meu sentir

e rodeou-me de escuridão e medo.

 

Vagueio sozinha num tempo,

sem fim, sem sentido e sem ternura…

O meu corpo, dorido, rodopia

num silêncio, estranho, esquisito,

que quebrou e destruiu, por completo,

a minha inocência de menina

os meus sonhos de adolescente,

os meus desejos de mulher.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:43

ANGRA NO FIO DAS PALAVRAS

Domingo, 18.05.14

  «…"Angra", o mais bem conseguido dos dois sonetos que integram a obra (no fio das palavras de Artur Goulart), merece uma atenção especial, tal é a expressividade do jogo conotativo da sua construção. Fiquemo-nos pela primeira quadra. Nesta angra da memória te revejo - angra minusculada sugere que o sujeito lírico revê aquilo que tem guardado na mente, à maneira de uma baía bem protegida; memória dessa Angra que revivo - Angra, agora com maiúscula, a designar a cidade capital da ilha Terceira de que se obtém uma panorâmica junto do obelisco situado na sua zona mais alta conhecido por 'Memória'; cidade atormentada dor - o terramoto destruidor da urbe dera-se não muitos anos antes da escrita do poema; desejo / volúpia de morrer livre e cativo - morrer livre, «Antes morrer livre que em paz sujeito» é divisa do brasão de armas, herança quinhentista inscrita na fortaleza de S. João Baptista incrustada no sobranceiro Monte Brasil. Lembra a variante camoniana duma certa «cativa / que me tem cativo» - chamada Bárbara - «porque nela vivo / é força que viva”.»

Olegário Paz

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publicado por picodavigia2 às 08:54

ILHA DAS FLORES

Sábado, 17.05.14

A Ilha das Flores situa-se no Grupo Ocidental do arquipélago dos Açores, sendo a maior das ilhas que compõem aquele grupo. Ocupa uma área de 141,7 km², na sua maior parte constituída por terreno montanhoso, caracterizado por grandes ravinas e gigantescas falésias. O ponto mais alto da ilha é o Morro Alto, com 914 m de altitude. A população residente, actualmente, é de cerca de 3.500 habitantes, repartindo-se por onze freguesias, agrupadas em dois concelhos: Santa Cruz e Lajes das Flores. A sua ponta mais oeste, na ponta da Coalheira, é o ponto mais ocidental da Europa. A ilha das Flores é considerada como uma das mais belas do arquipélago, cobrindo-se de milhares de hortênsias de cor azul, que dividem os campos ao longo das estradas, nas margens das ribeiras e lagoas.

As Flores e Corvo foram encontradas em 1452, quando do retorno da viagem de exploração de Diogo de Teive e seu filho, João de Teive, à Terra Nova. No início do ano seguinte, D, Afonso V fez a doação das duas ilhas ao seu tio, Afonso I, Duque de Bragança. No documento de doação não é mencionada a ilha das Flores, uma vez que, à época, não tinha um nome. Entretanto era esta a ilha doada, uma vez que a do Corvo era, à época, considerada apenas um ilhéu anexo à primeira. As ilhas seriam posteriormente doadas ao Infante D. Henrique, Mestre da Ordem de Cristo, que, em seu testamento, as nomeia como ilha de São Tomás e ilha de Santa Iria. Com a morte deste passam para o Infante D. Fernando, Duque de Viseu.

A actual toponímia "Flores", em uso desde em 1474 ou 1475, deve-se à abundância de cubres que recobriam a costa da ilha, cujas sementes possivelmente foram trazidas por aves migratórias desde a península da Flórida, na América do Norte.

O primeiro capitão do donatário destas ilhas foi Diogo de Teive, passando a capitania a seu filho, João de Teive. Este, em 1475, cedeu-a a Fernão Teles de Meneses. Com a morte acidental de Teles de Meneses, a viúva deste, D. Maria Vilhena, que as administrava em nome do seu jovem filho, Rui Teles, negociou estes direitos com Willem van der Haegen. Desse modo, este nobre flamengo que por volta de 1470 havia chegado com avultada comitiva à ilha do Faial, de onde passara à ilha Terceira, fixou-se nas Flores por volta de 1480, cuida-se que junto à foz da Ribeira de Santa Cruz, cuja povoação começou a se formar, iniciando o cultivo do pastel, planta tintureira em cuja cultura era experimentado. Aí permaneceu durante cerca de dez anos, findo os quais resolveu deixar a ilha, motivado pelo isolamento e pela dificuldade de comunicações da mesma, indo fixar-se na ilha de São Jorge.

Mais tarde, el-rei D. Manuel I fez a doação da capitania-donataria a João da Fonseca, que retoma o povoamento com elementos vindos da Terceira e da Madeira, aos quais se juntou nova leva de indivíduos de várias regiões de Portugal, com predomínio dos do norte do país. Este povoamento distribuiu-se ao longo da costa da ilha, com cada família ou grupos afins ocupando a terra que lhes coubera, com base na cultura de trigo, cevada, milho, legumes e na exploração da urzela e do pastel. Desse modo, ainda no século XVI recebem carta de foral as povoações de Lajes das Flores e de Santa Cruz das Flores, assim elevadas a vilas. Data de 6 de agosto de 1528, a confirmação régia da posse da Capitania a Pedro da Fonseca, filho de João da Fonseca. Com o falecimento de Pedro da Fonseca, e do seu filho mais velho, João de Sousa, D. João III faz a doação da capitania-donataria da ilha a Gonçalo de Sousa.

Nos séculos seguintes, um grupo reduzido de habitantes manter-se-ia isolado em várias partes da ilha, recebendo raras visitas das autoridades régias, e de embarcações de comércio das ilhas do Faial e Terceira em busca de azeite de cachalote, mel, madeira de cedro, manteiga, limões e laranjas, carnes fumadas e, por vezes, louça, deixando, em troca, panos de lã e linho e outros artigos manufacturados e outras embarcações que ali faziam aguada e adquiriam víveres.

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publicado por picodavigia2 às 22:18

SEM BELICHE

Sábado, 17.05.14

Realizava a minha primeira viagem no Carvalho Araújo.

Logo de pois de embarcar, dirigi-me, juntamente com meu pai que me acompanhava no embarque, para a sala de jantar da terceira classe. Logo ao entrar, deparei com uma enorme fila. na direcção do senhor Artur, que, sentado a uma das mesas, ia registando o número dos beliches e dos camarotes nos bilhetes dos que haviam chegado primeiro. Ainda nem tinha atendido metade dos que estavam à minha frente, quando se levantou e anunciou em tom autoritário e definitivo:

- A partir de agora não há mais beliches para os homens. Só há para senhoras e vou dar prioridade às que têm crianças de tenra idade.

Estarreci. Não havia rigorosamente nada a fazer. Meu pai ainda tentou aproximar-se do homem, mas sem sucesso. Os meus olhos encheram-se de lágrimas. Das Flores a S. Miguel eram três dias e três noites de viagem e eu sem ter onde me deitar ou uma cama para dormir… Meu pai apercebendo-se da minha aflição, tentando ocultar a sua mágoa, explicou-me que a partir da meia-noite, depois dos passageiros de primeira se deitarem nos seus camarotes, ficavam sempre no convés daquela classe algumas cadeiras vagas, onde me poderia encostar e dormir. Normalmente a tripulação, a essa hora, já era mais condescendente e não expulsava de lá os das outras classes.

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publicado por picodavigia2 às 19:46

SALVADORES

Sábado, 17.05.14

“Os partidos políticos portugueses, sobretudo em época de eleições, assemelham-se à Igreja Católica algumas décadas atrás. Cada qual se julga senhor e dono absoluto da verdade, da bondade, da honestidade. Cada qual cuida que é o único detentor do verdadeiro projecto de salvação para o país.”

 

Autor desconhecido

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publicado por picodavigia2 às 19:23

TRADIÇÕES E SUPERSTIÇÕES

Sábado, 17.05.14

Na Fajã Grande, antigamente, à boa maneira açoriana, havia muitas tradições, por vezes aliadas a superstições quer sobre os alimentos quer sobre a forma de os tomar. Enquanto alguns alimentos eram malignos, como por exemplo, a melancia que não devia comer-se sobre vinho, pois era mortal ou as laranjas que à ceia ou ao serão não se deviam comer, outros havia que tinham efeitos salutares, quase mágicos. Assim devia comer-se salsa em jejum, pois desenvolvia a memória e sopa de funcho na Sexta-Feira Santa, pois ele era mais doce nesse dia. É que Nossa Senhora, enquanto subia o Calvário, ia comendo funcho. Com muitas e variadas frutas e ervas se devia fazer chá, como o limão, o funcho, a macela, o poejo, a erva-nêveda, a cidreira, etc. Outros chás serviam para lavar e curar partes do corpo, como por exemplo o de mestrunços para dores nos ossos e o de malvas, muito bom para curar hemorróides. As papas de linhaça também eram óptimas para curar inchaços e maleitas. Alguns frutos deviam ser colocados ao sol para se tornarem mais saudáveis e a própria aguardente tinha efeitos medicinais, pois, misturada com mel curava a gripe e queimada com açúcar fazia bem à tosse e as dores de garganta

Algumas outras crenças. Relacionadas com o credo religioso católico, proibiam dizer nomes feios à mesa e fora dela, comer despido, ou com boné, boina ou chapéu, por acreditar que fosse uma ofensa a Jesus, ao Anjo da Guarda ou a algum santo que estivesse presente durante as refeições. Ainda, por razões religiosas, não se deviam sentar treze pessoas à mesa, durante uma refeição porque, assim como na Última Ceia, um havia de morrer em breve.

Enquanto se cozinhavam os alimentos, não se devia acender o lume com papel nem apaga-lo com água atiçá-lo com objectos metálicos. Algumas pessoas mais idosas cuidavam que atirando alho para o lume afugentava o diabo.

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, ainda se acreditava em feiticeiras, cuidando-se que andava em bailados nocturnos. Havia um calhar denominada das Feiticeiras, onde estavam marcados os seus pés. Dizia-se que subiam e desciam de manhã e à noitinha. Depois de atirarem por lá abaixo as almas penadas, vinham busca-las para voltar a atirá-las outra vez. Também se acredita em transfigurações do diabo, sob a forma de cão preto ou outro animal. As invocações dos mortos, a levantarem-se dos túmulos e regressarem ao mundo eram frequentes. Cuidava-se que as almas do outro mundo andavam por toda a parte e todos delas tinham medo Detrás das portas faziam-se cruzes com terebintina para afugentar o diabo. Os cogumelos, talvez por alguns serem venenosos eram considerados os pães das feiticeiras.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:48

SUMA CONTRA GENTILES

Sábado, 17.05.14

A Suma Contra os Gentios é uma das duas grandes obras filosóficas de São Tomás de Aquino. Nela, uma espécie de compêndio de Teologia Natural, o Doutor Angélico, fundamentalmente, explica que existem três modos pelos quais o homem pode, racionalmente, conhecer Deus e aceder às coisas divinas. Além disso, São Tomás, como bom conhecedor da psicologia humana, relembra, nesta obra, o princípio fundamental de que a alma humana tende, naturalmente, para se encontrar com Deus.

Assim, São Tomás demonstra os três conhecimentos do homem referentes às coisas divinas: “o primeiro, enquanto o homem, mediante a luz natural da razão e pelas criaturas, sobe até o conhecimento de Deus; o segundo, enquanto a verdade divina que excede o intelecto humano, desce até nós pela revelação, não para ser vista como por demonstração, mas para ser crida como pronunciada por palavras; o terceiro, enquanto a mente humana é elevada à perfeita intuição das coisas reveladas”.

Na realidade e segundo o autor, homem, mediante a luz natural da razão e através das criaturas, pode atingir o conhecimento de Deus. O ser humano, na realidade, mediante a luz natural da razão e através da obra da criação pode obter o conhecimento de Deus. Num trecho da obra, São Tomás faz uma analogia entre Deus e a arte, ao afirmar que: “Pela meditação sobre as obras podemos admirar de algum modo e considerar a sabedoria divina: as coisas realizadas pela arte são representativas da arte, porque são realizadas à sua semelhança” Podemos tirar daqui uma espécie de metáfora interessante que pode exemplificar um pouco como o homem conhece a Deus pela luz natural da razão e pelas obras divinas. Quando vemos um belo quadro de arte, pintado minuciosamente nos seus mais belos detalhes e aspectos, vemos nessa bela pintura todos os traços produzidos pelo artista e entrevemos um pouco como é a psicologia do pintor. Ora Deus, pela sua sabedoria, deu o ser às coisas, razão por que é dito: Tudo fizestes com sabedoria (Sl 103,24). Daí podermos, pela consideração das obras, recolher a sabedoria divina, que está como que espelhada nas criaturas por certa comunicação da sua semelhança”. A metáfora referida permite-nos uma outra conclusão: Se o artista produziu uma magnífica obra é por que a sua capacidade tem que ser tida como superior às coisas que ele fez. É o que diz o livro da sabedoria: “Se ficam admirados (os filósofos) da sua potência e das suas obras (isto é, do céu, das estrelas e dos elementos do mundo) compreendam que quem as fez é mais poderoso que elas” (Sb 13,4). Assim podemos concluir que Deus criou de tal maneira o universo deixando ao homem vestígios para que este pudesse contemplar os inefáveis reflexos de seu Autor. Como, no entanto, o bem perfeito do homem consiste em conhecer a Deus de algum modo, e para que uma tão nobre criatura não fosse considerada totalmente vã por não poder atingir o seu fim, foi-lhe dado um caminho pelo qual pudesse elevar-se ao conhecimento de Deus, a saber: como todas as perfeições das coisas descem de Deus ordenadamente, de Deus que é o vértice supremo de todas elas, também o homem, partindo das coisas inferiores e subindo gradativamente, deve progredir no conhecimento de Deus, pois também nos movimentos corpóreos há caminho pelo qual se desce e o caminho pelo qual se sobe, distintos em razão do princípio e do fim

De modo que através dos objectos sensíveis que nos circundam, podemos subir gradativamente até Deus. Pelas criaturas conhecemos o seu Criador.

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publicado por picodavigia2 às 11:23

MUNDO MELHOR

Sábado, 17.05.14

A vida do homem é breve sobre a Terra e a sua lembrança quási sempre se desvanece da memória dos conterrâneos se estes não têm algum suporte visível que avive essa lembrança. (…) Por outro lado, o Amor que deve encher o coração de todos os humanos, é um verdadeiro motor para a construção de um Mundo melhor em todos os aspectos da vida humana, tornando os homens mais felizes, sobre a Terra dando-lhes motivos de alegria e bem-estar, destacando-se os aspectos culturais, sociais e vivenciais.”

José A. Trigueiro

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publicado por picodavigia2 às 08:02

DEPUTADOS EUROPEUS

Sexta-feira, 16.05.14

Os deputados portugueses eleitos para o Parlamento Europeu, nas eleições de há cinco anos são 22. Destes, 8 foram eleitos pelo PSD, 6 pelo PS, 3 pelo Bloco de Esquerda e 2 pela CDU e, também, dois pelo CDS. Os deputados do PSD e do CDS integram o Grupo do Partido Popular Europeu (Democratas-Cristãos), enquanto os deputados do PS integram o Grupo Aliança Progressista dos Socialistas.

 

O Parlamento Europeu, actualmente é constituído por 766, mas o Tratado de Lisboa, que entra em vigor nestas eleições que terão lugar no próximo dia 25, determina que o número de deputados passará a ser de 751. No caso de Portugal, o número de deputados a eleger será de 21.

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publicado por picodavigia2 às 20:00

FILIPE DE QUENTAL

Sexta-feira, 16.05.14

Filipe de Quental nasceu em Ponta Delgada, em 24 de Maio de 1824, tendo falecido em. Coimbra, em 1892. Foi professor e poeta. Filho segundo de André da Ponte de Quental, percorreu o primeiro quartel da sua vida na sua cidade natal, sem grandes preocupações de sobrevivência. A chegada de Augusto Feliciano de Castilho a Ponta Delgada acabou por alterar o rumo da sua vida. Com a presença do poeta aumentou o seu entusiasmou pelas actividades culturais e foi dos primeiros professores a leccionar pelo método de «leitura repentina». Ligado a várias associações culturais, promoveu sessões de teatro e organizou serões literários. Incentivado por Castilho, partiu para Coimbra. Estudou Filosofia, mas formou-se em Medicina e foi lente universitário. Apesar das suas origens socais aristocráticas, defendeu as doutrinas democráticas e esteve ligado à fundação da Sociedade de Instrução dos Operários, onde leccionou gratuitamente. Membro da maçonaria, esteve ligado à loja Pátria e Caridade e fundou a loja Liberdade, de que foi venerável, através da qual combateu a influência dos jesuítas. Embora só tivesse voltado a S. Miguel uma vez, ainda no tempo de estudante, foi eleito deputado pelo círculo de Ponta Delgada, de 1865 a 1868, sem ter mostrado grande apetência para o cargo. Preferia a actividade docente e as intervenções de carácter cultural, em torno do teatro, mantendo o espírito folgazão e irreverente cultivado na cidade natal. Na tese de doutoramento, a única obra publicada, condenou o modo de cultura dos arrozais por ser atentatório da higiene e saúde pública. Como poeta, fez parte da geração romântica, com poemas dispersos pela imprensa micaelense.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 19:07

A VELHA E OS PIRATAS

Sexta-feira, 16.05.14

Em tempos de outrora a Fajã Grande, assim como toda a ilha das Flores, era, frequentemente, assaltada por navios de piratas, os quais, a maioria das vezes, roubavam, violavam as mulheres, destruíam as habitações e até matavam as pessoas. Uma ou outra vez, porém, a população salvava-se, graças à astúcia e esperteza de um ou outro dos seus habitantes. Dessas singulares façanhas, contavam-se, antigamente, muitas estórias, uma das quais era a seguinte:

Há muitos e muitos anos, havia um casal que morava numa casa muito isolada das restantes da freguesia, lá para além das margens da Ribeira das Casas, num lugar chamado o Rego do Burro. O casal não tinha filhos e havia construído a sua casa ali, por não ter terreno noutro sítio. Além disso assim ficavam mais perto das suas terras para melhor e mais fácil deslocação, a fim de as tratarem, de maneira que, produzissem muito e, também, por ficarem junto dos seus animais que ali podiam pastar. E naquele lugar, apesar de ermo, viviam na paz de Deus, sem medos nem consumições, tudo seguindo conforme os seus planos.

Certa noite de inverno, quando já toda a freguesia dormia, o homem e a mulher ainda estavam acordados. Tinham acabado de jantar, o homem tinha ido ao palheiro dar comida e cama às duas vaquinhas que tinha. De seguida, rezaram o terço e deitaram-se na paz de Deus, adormecendo, descansadamente. No entanto, pela noite dentro, a mulher acordou e ouviu um barulho muito estranho, fora da porta da sua casa. Espreitando por uma pequena fresta, viu um barco ancorado ali por fora, na direcção da Baixa Rasa e um grupo de homens, com roupas estranhas e com armas, fora da sua porta. Percebendo logo que era um barco de piratas e que estes se preparavam para os assaltar, despojar dos seus bens e matá-los, a mulher encheu-se de coragem, abriu logo a porta e, dirigindo-se aos homens, pediu-lhes, delicadamente, que entrassem, disponibilizando-lhes não só casa para descansar mas também, comida para se alimentarem. Decerto que àquela hora, aqueles senhores, vindos de longes terras, deveriam estar cheios de fome. Sem se perturbar, perante o pasmo dos piratas, a mulher abriu-lhes a porta, pedindo-lhes que se sentassem à vontade, que lhes iria preparar uma bela refeição, pois, àquela hora da noite, deviam estar esfomeados. Com esta hospitalidade, os piratas tentaram acomodar-se o melhor possível, deixando as armas na cozinha, empilhadas junto ao lar, onde a velha acendera o lume, cuidando que haviam de aproveitar primeiro para comer o que aquela estúpida velha lhes oferecia e então, depois, haviam de a roubar, retirando-lhe tudo o que tinha e até matá-la, antes que ela chamasse por alguém e pedisse socorro. Alegando ir buscar uma galinha para matar e preparar uma boa ceia, a mulher foi ao quarto onde o marido, que por nada dera e ainda dormia, avisá-lo de que saísse pela porta de trás, sem ser notado, insistindo para que, às escondidas, se dirigisse à Ponta, o lugar povoado mais próximo, chamar homens que os viessem socorrer. O homem assim fez.

No entanto, enquanto cozinhava a galinha, aproveitando a distracção dos piratas que riam e conversavam muito contentes, sem se aperceberem da astúcia de velhota, foi deitando para dentro dos canos das armas, canecos e canecos de água, com o fim de impedir o seu uso aquando da chegada dos homens que haviam de vir bem armados com varapaus e cães. Quando os piratas já se regalavam a comer a apetitosa ceia que lhes havia sido preparada, chegou um magote de homens. Os piratas, surpreendidos, ao ouvir o barulho dos homens e dos cães, sacaram das amas, que de nada lhes serviram, pois não disparavam por estarem todas encharcadas. Começaram então a fugir, mas alguns ainda levaram umas boas pauladas e outros, dentadas dos cães, até que chegaram ao barquinho que tinham deixado preso no Rolo, fugindo assim dali, como o diabo da cruz. Pouco depois o barco pôs-se em marcha, zarpou dali, na direcção das Américas e a esperteza da velha foi muito falada por toda a freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 17:19

O DESCANSADOURO DA CUADA

Sexta-feira, 16.05.14

Na década de cinquenta, o lugar da Cuada, um dos três lugares habitados na freguesia da Fajã Grande, teria cerca trinta habitantes residentes, distribuídos por sete fogos, correspondentes a outros tantos agregados familiares. Um lugar pacato, silencioso, com as ruas, habitualmente, desertas, no que aos moradores dizia respeito. No entanto, muitos habitantes da Fajã tinham terras para aqueles lados, nomeadamente, no Tufo, Fajã das Faias, Eira da Cuada e na própria Cuada, Assim o fluxo de transeuntes e até de um ou outro carro de bois ou corsão, avoluma-se, por ali, durante o dia. Nas suas idas e vindas para os campos que ali possuíam, muitos homens da Fajã passavam, diariamente, pela Cuada, geralmente, vergados ao peso de molhos de incensos ou de lenha, cestos de milho ou sacos de inhames, bem precisavam de descansar. Além disso, como em muitas dessas terras, juntamente com o milho, semeavam forrageiras, no tempo do oitono, tinham, por ali, o gado amarrado à estaca, o que ainda, sobretudo antes da ordenha, os obrigava a procurar lugar para descansar, fumar, falquejar e conversar. Daí a criação de um descansadouro por ali, uma vez que o mais próximo era muito distante, no Delgado – o descansadouro de Santo António.

Ora o local que, para tal, oferecia melhores condições era precisamente o centro da localidade, onde, na confluência das três pequenas ruas que a Cuada possuía – uma na direcção da Fajã, outra que ligava ao Calhau de Nossa Senhora, no Caminho da Missa e, finalmente a última na direcção do Vale Fundo e Lavadouros, desembocando no Bezarraçado - havia um enorme lago. Era o local ideal para um descansadouro! Possuía paredes circundantes para colocar as cargas, nomeadamente, os muros do pátio de tia Glória, dispunha de banquetas, onde se incluíam os próprios degraus do pátio, água e, sobretudo da companhia dos cuadenses que, habituados a viverem só, viam ali um excelente contubérnio, para conviverem, conversarem e se informarem dos acontecimentos da freguesia.

Assim, os homens que vinham das paragens circundantes, carregando pesados molhos ou sacos tinam ali uma excelente ocasião não só para descansar, como também para matar a sede e dar dois dedos de conversa aos habitantes locais, que normalmente só se deslocavam â Fajã para cumprir o preceito dominical e, no caso das crianças, para virem à escola. De resto a Cuada tinha tudo: casa de Espírito Santo, máquina de desnatar leite, sapateiro e até uma pequena loja, onde se vendiam o indispensável.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:48






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