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PRIMEIROS POVOADORES DO CORVO

Segunda-feira, 30.06.14

Antão Vaz Homem terá sido o primeiro homem a desembarcar na pequenina ilha do Corvo, a fim de aí se fixar, iniciando o povoamento da mesma. Rezam as crónicas que a ele se seguiram os irmãos Barcelos, mas tanto o primeiro como estes dois últimos não conseguiram atrair mais ninguém para a ilha, nem sequer ali se fixar, pelo que, algum tempo depois, abandonaram a ilha, embora lá mantivessem alguns interesses materiais que, mais tarde, deixaram aos seus descendentes.

Assim os primeiros povoadores efectivos do Corvo terão sido escravos anónimos, para ali enviados pelo seu amo e senhor, Dom Gonçalo de Sousa, capitão-donatário das Flores que para aquela espécie de ilhéu deserto os mandou, a fim de cultivarem a terra e vigiarem e cuidarem os seus muitos gados ali lançados, sobretudo ovelhas, de que extraíam lã e faziam muitos panos. Com eles viviam os arrendatários da ilha durante o tempo de vigência do contrato de arrendamento.

Com o passar dos anos, porém, o Corvo foi-se povoando de outra gente efectiva que acabaria por absorver os escravos. Eram os filhos e os netos dos primeiros povoadores das Flores que, atraídos pelos arrendatários do Corvo, lá foram morar e se multiplicaram a ponto de em 1645, segundo Frei Diogo Chagas, “já haver população a mais no ilhéu”.

Segundo alguns cronistas da época, esta gente era muito humilde, por isso nunca referem os seus nomes. Mas Gaspar Frutuoso fala num João Roiz Serpa, rendeiro da ilha e homem fidalgo que agasalhou os náufragos do galeão maranhense em meados do século XVI, enquanto Frei Diogo Chagas se refere a mais gente, mas ninguém natural da ilha, destacando dois: o primeiro pároco da ilha, Agostinho Ribeiro, natural da Madeira, que, mais tarde, seria o primeiro bispo de Angra e o vigário, Bartolomeu Tristão, natural do Faial.

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publicado por picodavigia2 às 20:42

DULCIFICADO

Segunda-feira, 30.06.14

MENU 47 – “DULCIFICADO”

 

ENTRADA

Saladinha de feijão, couve e pão, Nacos de bolo com queijo creme fresco e bolinhos de pudim de peixe assado.

 

PRATO

 

Naco de carne de porco cozido com feijão, repolho e cenoura. Tagliatelli embebido em creme de queijo fresco e brócolos gratinados com o mesmo.

 

SOBREMESA

 

Pêssego em calda, gelatina de pêssego e suspiro.

 

******

 

Preparação da Entrada: - Cozer ligeiramente a couve e cozer bastante bem o feijão. Moer o pão e depois misturar tudo em azeite perfumado em alho. Cortar os pedacinhos de bolo e barrá-los com o queijo creme. Moer os restos de peixe e misturá-lo em pão embebido em leite e água. Juntar duas claras batidas em castelo e levar ao forno em forminhas. Desenformar e empratar.

Preparação do Prato – Cozer a carne, o feijão, a cenoura e o repolho. Cozer a tagliatelli e misturar-le o queijo. Cozer os brócolos e gratiná-los. Empratar.

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional.

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publicado por picodavigia2 às 18:58

ENTREGA E DEDICAÇÃO

Domingo, 29.06.14

O José Manuel Carvalho nasceu a 8 de Julho de 1948, na freguesia de Ginetes, concelho de Ponta Delgada, residindo, actualmente, nesta cidade. Após completar o Curso de Teologia no Seminário de Angra, em 1972, começou a trabalhar na Secção de Despachantes na Alfândega de Ponta Delgada, no âmbito de uma iniciativa, que na altura ficou conhecida como “ estágio vocacional” e que, fundamentalmente, consistia em proporcionar ao jovem finalista de Teologia um tirocínio que, simultaneamente, lhe facultasse o amadurecimento vocacional e uma aproximação ao mundo do trabalho e das realidades quotidianas. Pertenceu ao primeiro grupo de jovens que levou a efeito essa experiência, mantendo-se ligado ao Seminário por cerca de ano e meio, com acompanhamento, em Ponta Delgada, pelo Olegário e pelo Cassiano, sendo o coordenador, no Seminário de Angra o Dr. Manuel António Pimentel.

Anos mais tarde, licenciou-se em Ciências Religiosas pela Universidade Católica, fazendo também um curso de Conselheiros de Orientação Profissional, resultante de uma parceria entre a Universidade de Évora e o Instituto de Emprego e Formação Profissional. Iniciou a sua carreira profissional como professor no Liceu Roberto Ivens e na Escola Secundária da Ribeira Grande, sendo mais tarde conselheiro de Orientação Profissional do Centro de Emprego de Ponta Delgada e responsável pelos programas de estágio Profissional no Estrangeiro EURODISSEIA da Assembleia das Regiões da Europa e LEONARDO DA VINCI da Comunidade Europeia. Trabalhou também nos Serviços de Emigração da Secretaria Regional do Assuntos Sociais e foi co-fundador da Delegação de Emigração de Ponta Delgada - actual Direcção Regional das Comunidades. Foi também co-fundador do Grupo Recreativo Juvenil dos Ginetes, do Orfeão Edmundo Machado de Oliveira e da Associação Alzheimer-Açores. Fez parte da Comissão Diocesana Justiça e Paz no biénio 2010-2012.

O José Manuel chegou ao Encontro ávido de recordar memórias, esbanjando uma singela simplicidade misturada com uma nobreza de carácter e uma autenticidade sincera e verdadeira. Como muitos outros, excedia uns quilitos a mais do que o José Manuel dos anos sessenta, mas a todos cativou quer com a sua simpatia quer com as suas sábias e oportunas palavras, por vezes aureoladas de um fino humor. Um homem sensato, a revelar uma ternura e uma bondade extremosas, pautando a sua presença por um por sóbrio testemunho de simplicidade, de carinho e de amizade para com todos. Presente em todas as actividades, participou em todos os eventos com interesse desmedido, com uma sobriedade exemplar e com uma presença enriquecedora. Como se isso não bastasse ainda se deu ao luxo de celebrar o seu aniversário natalício no último dia do encontro, tendo jus a que, no jantar de despedida, lhe cantássemos os “Parabéns a Você”. Por tudo isto foi mais um dos “Senhores” do Encontro.

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publicado por picodavigia2 às 22:56

CHEGADA A SÃO JORGE

Sábado, 28.06.14

Alta madrugada, o Carvalho levantou ferro do Cais do Pico e aproou às Velas. O mar estava calmo e a Lua surgia agora na sua máxima força, clarificando a noite e definindo com maior rigor os contornos escurecidos das três ilhas até então confundidas e misturadas com o negrume nocturno. O luar por sua vez, projectava-se no mar, transformando-o num espécie de espelho prateado e cristalino que o Carvalho, impulsionado pelo propulsar das suas potentes máquinas, ia quebrando, num ritmado e ronceiro marulhar.

À medida que o barco se aproximava de S. Jorge, eu cismava com a minha saída naquela ilha. Era lá, nas Velas, que vivia a Dona Hermínia e eu não podia deixar de ir a terra visitá-la.

A Dona Hermínia era alguns anos mais velha do que eu. Saíra das Flores e viera estudar para o colégio de Santo António, na Horta. Ao terminar o quinto ano concorreu para os Correios e foi colocada em S. Jorge, precisamente na vila das Velas, onde já trabalhava havia três anos. No Verão ia sempre passar férias às Flores. Encontrara-a, no mês de Agosto, em casa de uma prima que era costureira e onde ela vinha, de vez em quando, encomendar alguma roupa. Quando no final de Agosto se despediu de mim, antes de partir para São Jorge, ao saber que eu ia viajar, no Carvalho seguinte para S. Miguel, disse-me com convicção:

- Espero por ti em São Jorge. Tens que ir aos Correios das Velas, visitar-me. Não te esqueças.

Já era dia claro quando o Carvalho fundeou na baía das Velas. Debruçado sobre a amurada do convés da primeira classe observava distraída e displicentemente a maior e mais importante vila de S. Jorge, as Velas, um aglomerado de casas muito branquinhas, umas dispostas em anfiteatro junto ao cais, outras mais ao longe, encastoadas nas encostas sobranceiras e misturadas com as pastagens e as terras de mato galvanizadas de um verde muito verde e prolongadas indefinidamente até interior da ilha. O paquete lentamente voltou a popa a Sul e obrigou-me a mudar para estibordo, a fim de continuar a ver a vila e a ilha.

Pouco depois de o navio fundear na enorme e calma baía das Velas, ali mesmo em frente à vila, desci o convés da primeira e aproximei-me do portaló, com a denodada intenção de abalar para terra, logo na primeira lancha. A saída estava facilitada, pois o número de passageiros que pretendiam desembarcar em S. Jorge era reduzidíssimo. Ambicionava assim ver a Dona Hermínia e estar com ela durante todo o tempo possível. De repente lembrei-me que não devia fazê-lo sem primeiro dar conhecimento ou até mesmo pedir autorização ao meu marítimo paraninfo. Voltei ao convés e percorri o navio todo a ver se encontrava o Senhor Natal. Mas nada! Esperei impacientemente mais de uma hora e nada… Logo hoje é que o homem havia de demorar-se… Esperei, esperei, percorri novamente e voltei a percorrer o navio de lés-a-lés. O Senhor Natal continuava sem aparecer. Já passava das dez quando, finalmente, o encontrei. Manifestei-lhe a minha decisão de ir a terra, visitar a Dona Hermínia, a qual de imediato sofreu forte contestação por parte dele. Que nem pensasse numa coisa dessas. Que se vinha ao seu cuidado só sairia para terra quando e onde ele saísse. E que tirasse o cavalinho da chuva que a São Jorge é que ele não havia de ir. Eu, porém, tanto barafustei, tanto gritei e tanto berrei que o homem lá cedeu, mas com uma condição: - Tinha que estar a bordo sem falta, antes do meio-dia.

Voltei ao portaló num ápice e apanhei o primeiro batel que encostou ao navio e parti para terra, investindo quase metade do dinheiro que trazia comigo na compra do bilhete.

Ao chegar ao cais, deparei-me logo com o edifício dos Correios. Tímido e ansioso, entrei. O coração pulou-me de contentamento ao ver a Dona Hermínia do lado de dentro do balcão, juntamente com outras empregadas. Sem que ela me visse aproximei-me do cliché como se fosse comprar selos ou enviar uma carta. Quando chegou a minha vez a empregada que atendia os clientes perguntou-me o queria. Informei-a de que não queria nada ou melhor queria apenas falar com aquela senhora e apontei para a Dona Hermínia que continuava sentada a uma mesa, a ler uns papéis, sem dar conta da minha presença.

Assim que me viu, aproximou-se do balcão, levantou-lhe o tampo, saiu para a parte reservada ao público, beijou-me em ambas as faces, fez-me uma série de perguntas sobre a viagem e, colocando-me o braço por cima do ombro, com muito carinho, conduziu-me para dentro do balcão e apresentou-me às suas colegas de trabalho e à chefe.

- Olhem a encomendinha que me chegou das Flores, no Carvalho – dizia ela, apresentando-me a umas e outras.

Eu, envergonhadíssimo e vermelho que nem um pêro, lá fui respondendo timidamente às perguntas que me faziam, sobre o meu nome, a minha idade, como tinha corrido a viagem, se tinha vomitado muito e se gostava de ir para o Seminário. Uma delas, mais nova e com ar mais atrevidote, atirou-me de rompante:

- Para o Seminário?! Hum! Não tens olho de padre.

Ao lado uma outra comentava:

- Tão perfeitinho! Podes crer que é um desperdício ires para o Seminário.

A Dona Hermínia, porém, não as ouvia. Conversou com a chefe, demorou mais um pouco a arrumar uns papéis dispersos sobre a sua secretária, enquanto a chefe, levantando-se, vinha ter comigo, como que a entreter-me, propondo que, a partir de agora, sempre que passasse por S. Jorge, fosse visitá-las.

Só quando ultrapassámos a porta dos Correios percebi que a Dona Hermínia me iria acompanhar numa visita às Velas. É que a chefe autorizara-a a suspender o seu trabalho por alguns momentos, a fim de estar comigo e me acompanhar até que eu regressasse ao navio.

Passeámos pela vila, visitámos a Matriz e sentámo-nos no Jardim da Praça da República. Depois, adivinhando a fome que eu devia sentir ao fim de dois dias de encerramento naquela maldita terceira classe do Carvalho, levou-me a almoçar a um restaurante da vila, pagou a conta, exigiu que a não tratasse mais por “Dona”, voltou comigo aos Correios para me despedir da chefe e das outras meninas, acompanhou-me até ao cais e, como se tudo isso não bastasse, ainda comprou e pagou o meu bilhete de regresso a bordo. Mas a Dona Hermínia não me parecia uma pessoa muito apressada e, além disso, sabia muito bem a que horas o navio havia de partir para a Graciosa. Por isso demorou-se um tempo sem fim em cima do cais, conversando comigo e pedindo-me que lhe prometesse que havia de visitá-la sempre que por ali passasse. Para cúmulo, enviou-me para bordo precisamente na última lancha, apesar de eu manifestar uma enorme mas simulada preocupação.

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publicado por picodavigia2 às 09:28

ESCRITA

Sexta-feira, 27.06.14

“A escrita, encarada como a exposição de uma parte de nós mesmos, é um risco. É uma espécie de nudez da alma, nem sempre entendida, muitas vezes criticada, a maior parte das vezes dolorosa.”

Blog Escribomaníaca

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publicado por picodavigia2 às 17:32

PREOCUPAÇÃO ACIDULADA

Quinta-feira, 26.06.14

“Se a S A, com 5.800 euros mensais, está preocupada (o ordenado foi reduzido de 11.800 para metade) com o futuro dos três filhos, então as mães com salários de 485 euros e três filhos, deveriam cortar os pulsos?”

In FB

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publicado por picodavigia2 às 19:07

O SAL

Quinta-feira, 26.06.14

O sal teve, desde sempre, uma importância primordial na vida da população da Fajã Grande. Sem outros meios de conservar os alimentos, até à década de sessenta, altura em que chegou a luz à freguesia e, consequentemente, os primeiros frigoríficos, a única forma de conservar os alimentos, sobretudo a carne de porco e o peixe, era salgando-os. Apenas os bifes de lombo e a linguiça eram conservados debaixo de banha, mas mesmo neste caso, o sal era necessário.

Essa a razão por que na década de cinquenta era necessário comprar sal, bastante sal e ter sempre uma reserva do mesmo, em casa, À necessidade de conservar alguns produtos ao longo do ano, juntou-se o hábito de cozinhar os alimentos com algum sal e, nalguns casos, abusava-se deste, o que, obviamente, prejudicava a saúde. A população da Fajã Grande, na década de cinquenta e anteriores, era dependente do sal e, por vezes, abdicava-se de outros gastos mais importantes, para se poder comprar o sal.

Sabe-se que em tempos antigos em que na ilha das Flores rareavam os produtos importados se adquiria o sal aos navios que ali passavam para a pesca do bacalhau, que ali passavam para se abastecer de água, víveres e recolher marinheiros clandestinos. O sal funcionava então como moeda de troca, uma vez que a população, a troco de produtos frescos, nomeadamente carne, recebia sal e de dinheiro.

A falta de sal na freguesia, em tempos idos, era tanta, que naufragando nos laredos do baixio, um barco carregado de açúcar, a população, depois de o recolher, utilizou-o como se fosse sal.

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publicado por picodavigia2 às 10:05

A MONTANHA-RUSSA

Quinta-feira, 26.06.14

A Montanha-russa é uma atracção popular dos parques de diversões modernos, uma vez que a primeira montanha-russa terá sido apresentada ao público em 1885, inventada por La Marcus Adna Thompson. Este divertimento consiste, basicamente, numa estrutura de aço ou por outros materiais similares, formando uma pista composta por elevações semelhantes a montanhas, seguidas de quedas, embora também possam possuir inversões que formem uma volta vertical completa de 360º, impulsionadas pela velocidade proveniente de uma descida ou lançamento rápido, deixando quem está na atracção, momentaneamente, de cabeça para baixo. Possui ainda, a montanha-russa secções e fotos que flagram o momento de descida dos passageiros.

No entanto, há pistas que não são circuitos completos, podendo ter seu início em lançamentos impulsionados por mecanismos ou serem puxados para trás no início e lançados por um percurso que pode terminar em outra estação ou em uma subida de ângulo próximo a 90º e retornarem ao início de costas.

Existem numerosos fãs de montanhas-russas em todo o mundo. Alguns deles vão a parques de diversões, exclusivamente, para se divertir nelas, principalmente, quando há lançamento de uma nova que tenha batido algum recorde de velocidade ou inclinação ou até rapidez no percurso ou duma queda maior e mais abrupta.

Os carros comuns de montanha-russa não são puxados, sendo somente agarrados às pistas para não escaparem. Normalmente são erguidos através de cabos mecânicos sendo soltos ao topo da primeira “montanha” para adquirirem força, transformando a energia potencial em energia cinética, permitindo, assim, que os carros completem o percurso, ou parte dele, através desta força. A energia cinética é novamente transformada em energia potencial enquanto o trem se move novamente para o segundo pico, mas desta vez, dependendo da velocidade restante no início da subida do segundo pico, a energia pode ser convertida no meio da subida e não necessariamente no sopé. Isto é necessário independente da quantidade de energia perdida devido ao atrito. Então o trem desce novamente e levanta e assim por diante.

Entretanto, nem todas as montanhas-russas funcionam desta maneira. O lançamento pode ser ajustado por outros mecanismos. Algumas montanhas-russas vão para trás e para frente através da mesma trilha. São chamadas de Shuttles, algumas das quaissão movidas através de um tipo de locomotiva.

As mais antigas montanhas-russas descendem da Rússia. Os passeios de trenó no inverno prendiam-se em montes especialmente construídos no gelo, principalmente em torno de São Petersburgo.Uma dessas companhias foi a Les Montagnes Russes à Belleville que construiu uma montanha-russa de gravidade em Paris em 1812.

Interessante é o facto de a NASA anunciou que construirá uma montanha-russa para auxiliar o escape de astronautas da almofada de lançamento em uma emergência, aplicando-a, assim, pela primeira vez, em termos profissionais.

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publicado por picodavigia2 às 09:29

COELHODE SOUSA

Quarta-feira, 25.06.14

Manuel Coelho de Sousa nasceu a 30 de Setembro 1924 na Vila de São Sebastião, ilha Terceira, ali falecendo a 2 de Setembro de 1995. Filho de João de Sousa Pacheco e de Maria de Melo Toste, entrou para o Seminário de Angra, em Outubro 1937 onde cursou Filosofia e Teologia, ordenando-se de presbítero em 20 de Junho 1948, precisamente no dia, em que a Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima visitava os Açores.

Foi professor no Seminário de Angra e no Liceu da mesma cidade, jornalista e chefe de redacção de “A União.” Já em plena década de sessenta frequentou o Curso de Filologia Hispânica na Universidade de Salamanca, Espanha, após o que regressou aos Açores, sendo nomeado pároco de São Sebastião, onde permaneceu até à data do seu falecimento. Durante esse período de tempo foi director-adjunto do jornal “A União”, e mais tarde seu director.

Além de pároco, professor e jornalista, Coelho de Sousa notabilizou-se, também, como orador sacro, como poeta, dramaturgo, pintor, encenador e ensaiador, escritor e animador cultural. Da sua vasta obra literária destacam-se, na poesia Poemas de Aquém e Além (1955) e Três de Espadas (1979), e na prosa Na Rota da Emigração Amiga (1983), Migalhas (1987) e Boa Nova (1994).

 

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publicado por picodavigia2 às 18:34

EXCELÊNCIA E COMPETÊNCIA

Terça-feira, 24.06.14

O José Luís Rodrigues nasceu em 26 de Junho de 1941, na freguesia da Maia, ilha de São Miguel e tem repartido a sua residência, após a saída dos Açores, pela Suíça e pela França. Fez a sua formação no Seminário de Angra, completando o curso de Teologia em 1964. Vocacionado desde muito novo para a Música, para a qual revelava uma enorme apetência, ainda aluno, foi regente da Capela do Seminário e de grupos musicais que, no Seminário, actuavam em academias, festas e outras celebrações. Após terminar a sua formação em Angra, rumou a Roma, onde obteve o Bacharelado em Canto Gregoriano e aprofundou os Estudos de Solfejo, Harmonia e Piano, no Instituto Pontifical de Musica Sacra, iniciando assim, a nível superior, uma formação musical que havia de enriquecer e completar nos anos seguintes. Em Paris, frequentou o Institut de Musicologie de l'Université de Paris-Sorbonne e a Schola Cantorum, fez o Curso de Flauta de Bisel no Institut de Musique Liturgique, daquela cidade, iniciando, nessa altura, a licenciatura em Educação Musical, a qual terminou em 1974 e a que se seguiu o Doutoramento em Pesquisas sobre «Le Pentatonisme dans la Monodie Liturgique Latine». Leccionou  Educaçâo Musical na Ecole Meassillone, nos Liceus Collège Rousseau e Collège Sismondi e História da Musica no «Conservatoire Populaire de Musique de Genève». Desde 2008 que é professor de Francês, como lingua estrangeira, na UOG (Université Ouvrière de Genève). Foi o fundador do Côro do « Collège Rousseau » e do quarteto TJQ (Teachers Jazz Quartet, orientando-os como maestro. A excelência da sua competência musical, fez com que dirigisse  também o Coro da Igreja de St Jacques em Paris, para além de muitos outros coros e orquestras, tendo-se notabilizado também como cantor em festas e concertos dos  Conservatoires des V et VII arrodissements de Paris, no «Choeur National de Paris» e «Choeur de l'Orchetre de Paris ». Foi Tesoureiro da Société des Maîtres de Musique de l'Enseignement Secondaire Suisse), tendo sido galardoado, pela competência da sua prática musical, com vários prémios e agraciações.

O José Luís para além da sua simplicidade, alegria, exuberância e simpatia permanentes, trouxe consigo todo este enorme acervo de excelência orfeica, para nos acompanhar nas nossas permanentes, espontâneas e naturais explosões musicais. Como no Seminário, outrora, o canto era uma das actividades em que mais nos embrenhávamos, o Encontro aprimorou-se e encheu-se de música, que o José Luís, coadjuvado por outro excelente maestro, o José Carlos, acompanhou e orientou em cada hora e em cada momento. O epicentro desta nossa intrínseca e quase viciosa dinâmica musical teve lugar na noite do segundo dia, em que o grupo recreou, musical e poeticamente, o orfeão das décadas de 50/60, sob a experiente batuta do José Luís, a deixar descortinar mais do que uma nesga da deslumbrante e inesquecível maestria do saudoso dr Edmundo Oliveira. Nas inúmeras e variadas réplicas musicais, antes e depois do sarau, o José Luís ajudou, orientou, ensaiou e acompanhou-nos com uma paciência infinita e com uma competência deslumbrante, exacerbando-se, na missa do domingo, com um sublime e divinal “Ite missa est”. Por tudo isto foi mais um dos “Senhores” do Encontro. Acresce dizer-se que, tendo como referente os crachás que ostentávamos ao peito com fotografias do tempo de estudantes, as “senhoras” participantes no Encontro, consideraram o José Luís o
“mais bonito”.

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publicado por picodavigia2 às 15:43

A VOLTA DO PINHEIRO

Segunda-feira, 23.06.14

A Volta do Pinheiro é, incontestavelmente e junto com o Cilindro e o seu homólogo do Delgado, um dos mais novos lugares da Fajã Grande, uma vez que a sua criação se reporta aos tempos da abertura da estrada que liga o Porto da Fajã ao Vale Fundo, construída em meados da década de cinquenta, por uma equipa de empreiteiros oriundos da ilha Terceira.

Rasgada quase em linha recta, desde o Cimo da Assomada até ao Vale Fundo, a nova estrada, ao contrário dos antigos caminhos e canadas que constituíam a mísera rede viária da freguesia, tinha poucas curvas e, a maioria eram pequenas e pouco acentuadas, sendo as duas maiores, em primeiro lugar, a que separava o Descansadouro do Delgado de Baixo, conhecida por volta do Delgada e a segunda, a do Pinheiro, denominada Volta do Pinheiro e que se situava entre a Cabaceira de Cima e o caminho, que dava para a Cuada, mas situada a sul, isto é, a mais próxima da Ribeira Grande e da Fajãzinha. O acentuado de ambas estas curvas, dando um traçado irregular à estrada, tornou-as notórias, dando origem à criação de um novo lugar, onde cada uma delas se situava.

No caso da Volta do Pinheiro, o espaço ocupado por este novo lugar, pertencia, anteriormente, à Cabaceira, à Cancelinha, ao Tufo da Cuada, à Pedra Vermelha e ao Vale Fundo. Quando a estrada foi inaugurada, alguns donos de terras ali existentes, foram bafejados pela sorte, uma vez que deixaram de percorrer antigos caminhos ou sinuosas canadas e veredas, passando, nas idas e vindas para as suas propriedades, a utilizar, simplesmente, a estrada, dando, assim, nome aquele novo lugar – Volta do Pinheiro.

Acrescente-se que o topónimo Pinheiro, não existia anteriormente, sendo também originado, nessa altura, pelo facto de ali perto, à beira da estrada, numa propriedade, se localizar um enorme e invulgar pinheiro, e que pela sua altura e sobranceria se distinguia e destacava no meio do arvoredo ali existente.

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publicado por picodavigia2 às 16:08

NA DEMANDA DO PASTELEIRO

Segunda-feira, 23.06.14

O trajecto entre o Porto Pim e o Pasteleiro, embora curto, foi demorado. Para além do cansaço a que arfavam, incondicionalmente, José e Madalena carregavam o peso dos seus parcos haveres. Além disso, o pequeno António, com o reboliço da viagem e a novidade de caminhar no estranho, tornara-se lânguido, birrento e choroso. Vezes sem conta, Madalena parava para encorajar o pequerrucho, incentivando-o, açulando-o, prometendo-lhe, para o alienar do tormento, uma “uma terra bonita” e “um brinquedo novo”, que ela própria nem sabia o que seria. Nesses momentos, porém, as lágrimas vinham-lhe aos olhos. É que voltando-se para atender ao filho e lhe dirigir palavras de ânimo, olhando a criança, pura e inocente, sabia que mais nada lhe poderia dar a não ser o seu intenso e enorme amor. Ao mesmo tempo, a sua dor ainda mais se acicatava, porquanto dava de caras, lá ao fundo, com a imponente montanha do Pico, enevoada e escura, a sombrear o canal, a abafar as encostas verdejantes da Criação Velha e do Monte e como que a proteger as humildes casinhas da Madalena, dos Toledos e da Abarca, por trás das quais uns pequenos cabeços obstruíam por completo a vista dos minúsculos e escuros casebres das Bandeiras e de Santa Luzia, que ela, agora apenas conservava, como uma lembrança ténue e doce.

A tarde descaía sobre a Horta. O silêncio que os rodeava, enigmático e persistente, provocava hesitações, medos e assombros. O vento soprava muito ameno, mas trazia no rastro um cheiro a queimado, a enxofre e a desalento. Ruas e caminhos continuavam desertos, apenas uma ou outra casa mantinham as portas abertas, por onde se emaranhavam alguns vultos, embrulhados em farrapos escuros, agarrados às paredes, a atiçar uma ou outra acha de lenha no lume, símbolo de uma esperança que, aos poucos, parecia fenecer por completo.

De repente, o pequeno António desatou num berreiro compulsivo, intenso e dramático. A mãe num alvoroço desgastante, colocou, de imediato, o cesto que carregava à cabeça, sobre um muro, abraçou-se ao garoto, apertando-o contra si como se fosse um boneco, confortando-o com afectos, fortalecendo-o com palavras e mimando-o com promessas. José, apreensivo, também parara a marcha lenta em que seguia, despertando do marasmo contemplativo em que se imiscuíra. Colocando os sacos no chão e cuidando que o filho se esvaía de fome, retirou do pesado cesto um caneco de leite. António bebeu-o sofregamente, parecendo, no fim, acalmar, parcialmente, a sua desolação. Colocando, de novo, o filho ao colo, a indicação do marido, Madalena de São João, muito lentamente, recomeçou a marcha. O cesto ali ficava. José mais apressado e desenvolto havia de ir colocar os sacos lá adiante, em lugar que se vissem. Depois voltava atrás e carregaria o cesto, levando-o bem lá mais adiante. Caminharia, assim, em “dois caminhos”, transportando, alternadamente, cesto e sacos, enquanto ela, Madalena, levava consigo o pequeno, exausto, cansado e, sobretudo, muito impertinente.

Algum tempo depois começaram a surgir os primeiros casebres do Pasteleiro. Eram, na maioria, construções pobres, rústicas, escuras, feitas de pedra basáltica, cobertas de colmo e palha, a comunicarem com exterior, apenas, por uma porta e por uma ou duas janelas. Não aguentado mais o desespero angustiante que o dominava, uma angústia preocupada em que submergia, José parou, colocou novamente os sacos no chão e bateu à porta de um dos casebres. Como ninguém surgisse ou sequer falasse, José voltou a bater, mais uma, duas e três vezes. Por fim surgiu uma mulher, já de avançada idade. Vestida de negro, com um bioco a tapar-lhe parcialmente a cara e que ela, com a mão esquerda, ia tentando descobrir, indagou:

- Que quereis? Se andam a pedir podem seguir o vosso caminho. A farinha que está na amassaria, apenas dará para hoje. Nada mais tenho do que pobreza, miséria e desgraça. Com as lágrimas dos meus olhos e o calor dos meus braços hei-de alimentar os meus netos que a peste lhes levou os pais. Amanhã?! Amanhã, Deus me ajudará!

José agradeceu, esclarecendo que não vinham pedir nada, nem muito menos alimentos, embora, ele, José, também não os tivesse em abundância. Que Deus a ajudasse e protegesse os seus netos, como havia de o ajudar a ele e à sua família. Apenas queria pedir-lhe que lhe indicasse um lugar, por mais humilde, pequeno e pobre que fosse, onde pudesse passar a noite com a mulher e o filho. Que ele e a mulher se amanhariam em qualquer sítio ou local, mas o menino bem precisava de umas palhinhas para dormir.

A velha, apontando para a única rua que atravessava o pequeno povoado de um extremo ao outro, disse-lhe:

- Estás a ver aquela casinha branca, ao lado da igrejinha de Santa Bárbara? É a casa do Marialva. Bate aquela porta, talvez ele vos arranje um lugar para dormirem.  

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publicado por picodavigia2 às 11:11

COELHO MENDES

Domingo, 22.06.14

Joaquim José Coelho Mendes nasceu em Angra do Heroísmo, a 12 de Junho de 1861, tendo falecido na mesma cidade, em 1890. Poeta e jornalista, cursou apenas o liceu tendo emigrado para o Brasil, em 1887, onde viveu dois anos. No regresso, adoeceu e partiu para a Madeira com o objectivo de tentar a cura. Ali casou, regressando à terra natal. A sua colaboração nos jornais açorianos encontra-se dispersa pelo Atlheta, O Imparcial, A Evolução, Diário de Notícias, Açoriano Oriental e Domingo. Foi director de O Popular, redactor da Aurora Angrense, Operário e Fraternidade Artística. No jornal A Terceira escreveu várias biografias. Foi membro da Sociedade de Astronomia de França e sócio correspondente da Sociedade de Geografia de Lisboa.

Obras principais: Poesia, Crisálidas, Flores Agrestes, O profeta,  e Do berço ao túmulo – sonetos

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 10:38

ADORO TE DEVOTE

Domingo, 22.06.14

A liturgia da festa de Corpus Christi é repleta de textos muito interessantes, tanto no que à forma e composição diz respeito tanto como pela profundeza mensagem teológica que contêm.

Cuida-se que esta festa terá sido instituída no século XIII, quando um padre de nome Pedro de Praga, da Boémia, sentindo uma enorme crise de fé sobre a veracidade da transubstanciação, terá feito uma peregrinação a Roma, a fim de alcançar uma graça para que esta tentação o deixasse. Ao deslocar-se a Bolsena, enquanto celebrava a Missa num altar com as relíquias de S. Cristina, aconteceu o milagre. Após pronunciar a fórmula da consagração, levantou a Hóstia e sentiu escorrer algo quente nas suas mãos. Observando melhor, viu que era sangue a gotejar da Hóstia Consagrada. Para ele, desvaneciam-se todas as dúvidas. A Hóstia Consagrada transubstanciara-se, verdadeira e realmente, no Corpo de Cristo. Reza a lenda, ainda, que o Sangue era tanto que caiu sobre o corporal e sobre o altar até chegar ao mármore e ainda hoje podemos encontrar as suas marcas sobre este.

A Hóstia cheia de sangue foi guardada. Naquela mesma época, a Beata Juliana de Cornillon havia pedido ao Papa Urbano IV a introdução da festa de “Corpus Domini” no calendário litúrgico da Igreja, e o Santo Padre pediu a Deus um sinal para saber se era Deus que queria essa festa ou se era algo humano. Quando o Papa soube do acontecido, deslocou-se a Bolsena. Ao ver a Hóstia cheia de Sangue ajoelhou e disse, simplesmente: Corpus Christi. De seguida, guardou a Hóstia e levou-a para Roma, juntamente com os objectos de culto. Ao regressar a Roma, o Papa colocou a Hóstia, ainda com vestígios do sangue, no ostensório e andou pelas ruas da cidade, em procissão. Para a passagem de Jesus, todos os romanos enfeitaram suas ruas.

No ano seguinte, o Papa promulgou a bula “Transiturus” que instaurava para toda a cristandade a Festa do Corpo de Deus, pedindo a Santo Tomás de Aquino que compusesse um hino, para o ofício de Corpus Christi. O hino chama-se Adoro té e é uma das mais belas composições que compõem o Canto Gregoriano.

 

Adoro te devote, latens Deitas,

Quae sub his figúris vere látitas

Tíbi se cor méum tótum súbjicit

Quia te contémplans tótum déficit.

 

Vísus, táctus, gústus in te fállitur,

Sed audítu sólo tuto creditur

Credo quídquid díxit Dei Fílius

Nil hoc verbo veritátis vérius.

 

In crúce latébat sola Deitas,

At hic látet simul et humánitas

Ambo tamen crédens atque cónfitens,

Péto quod petívit látro paénitens.

 

Plagas, sicut Thomas, non intúeor

Déus tamen méum te confíteor

Fac me tíbi semper magis crédere,

In te spem habére, te dilígere.

 

O memoriále mórtis Dómini,

Pánis vívus vítam praéstans hómini,

Praésta méae ménti de te vívere,

Et te ílli semper dulce sápere.

 

Pie pellicáne Jésu Domine,

Me immundum munda túo sánguine,

Cújus una stílla sálvum fácere

Tótum múndum quit ab ómni scélere.

 

Jesu, quem velátum nunc aspício,

Oro fiat illud quod tam sítio

Ut te reveláta cérnens fácie,

Vísu sim beátus túae glóriae. Amem.

 

Outro hino composto por São Tomás, a fim de enriquecer a liturgia deste dia foi Pange Lingua, cujas duas últimas estrofes são cantadas durante adorações e bênçãos do Santíssimo Sacramento, na Igreja Católica, sendo mais conhecidas por Tantum Ergo.

Tantum ergo Sacramentum

 Veneremur cernui:

 Et antiquum documentum

 Novo cedat ritui:

 Praestet fides supplementum

 Sensuum defectui.

 

 Genitori, Genitoque

 Laus et jubilatio,

 Salus, honor, virtus quoque

 Sit et benedictio:

 Procedenti ab utroque

 Compar sit laudatio.

 Amen.

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publicado por picodavigia2 às 00:30

MORFOLOGIA DO CORVO

Sábado, 21.06.14

O Corvo é uma montanha, que se eleva do mar e cujo ponto mais alto é o Morro dos Homens, com mais de setecentos metros de altitude. No seu interior, a norte, existe uma caldeira com 5,5 quilómetros de circunferência e 250 metros de profundidade conhecida por “o Caldeirão”. Lá dentro pontilham alguns pequenos ilhéus, nos quais muitos acreditam ver pequenas representações ou símbolos das restantes ilhas açorianas. Além desta elevação destacam-se ainda: a Lomba Redonda, a Coroa do Pico, o Morro da Fonte, o Espigãozinho e o Serrão Alto.

Frei Diogo Chagas descreve assim a ilha do Corvo: “É muito alta, e toda descoberta, e redonda como uma bola; pode ter uma légua de grandeza em quadra; é toda um castelo cercado de rochas muito altas, não íngremes a pique mas lançantes, e em poias que vai fazendo, subindo sempre para terra, de modo que faz maior pé do que em coroa; e assim que andando-se em roda por terra em menos de meio dia, por mar há-de se gastar mais de um dia. Não é nestas terras altas toda chã, e plana mas de lombas, ladeiras, e varges. Não tem pico desigual porque toda ela é um pico”.

Na parte sul da ilha ficam umas terras baixas limitadas por duas pontas, uma a nordeste e outra a noroeste. Nestas terras baixas, segundo Diogo Chagas, se estabeleceram os primeiros colonizadores. O acesso a terra é relativamente difícil e praticamente limitado a três pontos: Porto da Casa, Pesqueiro Alto e Boqueirão – e mesmo assim só em dias de mar calmo. Tal como nas Flores, também à volta do Corvo há alguns ilhéus, pontas e baixios. Porém esta ilha é mais pobre em água do que a sua vizinha porque tem poucas ribeiras e fontes. Os seus povoadores tiveram de a conduzir desde a serra até ao povoado cavando um canal para o efeito. No ano de 1645 já o Porto das Casas estava servido dessa água e com ela, segundo os relatos de Diogo Chagas, se abasteciam as naus que ali aportavam para aguada. Em alternativa os navios e as naus também se podiam abastecer da água que brotava de uma rocha para o mar, a norte do Pesqueiro Alto.

A ilha tem de superfície cerca de 17 km², com 6,5 km de comprimento por 4 km de largura e dista cerca de 10 milhas da ilha das Flores. Além desta elevação destacam-se ainda: a Lomba Redonda, a Coroa do Pico, o Morro da Fonte, o Espigãozinho e o Serrão Alto.

Por sua vez, o litoral é alto e escarpado, constituindo o cone central do vulcão, com excepção da parte Sul, onde numa fajã lávica se estabeleceu a Vila do Corvo, a única povoação da ilha. A escarpa oeste, com uma falésia quase vertical com cerca de 700 m de altura sobre o oceano, é uma das maiores elevações costeiras existentes no Atlântico. As terras imediatamente em redor da única povoação da ilha e uma pequena zona abrigadas na costa leste (as Quintas e Fojo) são as únicas em que é possível praticar a agricultura e manter algumas árvores de fruto. As melhores pastagens para o gado ficam mais para norte, nas chamadas Terras Altas, onde se construíram os tradicionais palheiros.

A ilha localiza-se sobre a placa tectónica norte americana, a oeste do rifte da Crista Média Atlântica, edificada sobre fundo oceânico com cerca de 10 milhões anos e dizemos especialistas que corresponde a um vulcão do tipo central, que começou a emergir há cerca de 730 mil anos. O colapso da cratera terá ocorrido há 430 mil anos. Antes da formação da cratera, estima-se que o cone central teria cerca de 1 000 metros de altitude.

O Corvo enfrenta uma erosão contínua provocada pelos ventos dominantes de nordeste e oeste. As vertentes do vulcão encontram-se parcialmente preservadas nos flancos Sul e Leste, muito reduzidas pelo recuo das arribas litorais a norte e completamente ausentes a oeste. O recuo das arribas já alcançou o bordo oeste da caldeira. Na vertente sul, sobressaem cones secundários – Coroínha, Morro da Fonte, Grotão da Castelhana e Coroa do Pico – que se encontram bem preservados da acção erosiva, responsáveis pelo derrames basálticos que formaram a fajã lávica.

A extremidade noroeste da ilha constitui a Ponta Torrais, saliente e notável, em espinhaço aguçado e com cristas pontiagudas, tendo na sua face norte um pequeno ilhéu cónico, o ilhéu dos Torrais. Na costa norte e noroeste existe outro pequeno ilhéu, o Ilhéu do Torrão, e alguns recifes submersos perigosos para a navegação.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:34

CASAS DE PALHA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sábado, 21.06.14

Meu avô nasceu na era de 1800. Meu Deus! Aos anos que isto foi! Ele contava que ouvia o avô dele contar que no tempo em que era pequeno o povo vivia, nesta terra, numa grande pobreza e miséria. Para comer, só tinham o que as terras davam e algum peixe e lapas. Não tinham que comer, nem que vestir, nem cama pra dormir, A pobreza era tanta que a maioria das casas, eram feitas de pedras, com o chão de terra e cobertas de palha de trigo, sem janelas e com apenas uma porta. Havia alguns mais desgraçados que até viviam em furnas, à beira do mar, pois naquele lugar que hoje se chama Furnas, onde há boas terras de milho, antigamente havia muitas furnas encravadas nos rochedos do baixio.

Mas não era só a casa que era uma pobreza desgraçada. Não havia fornos, ou melhor só uma ou duas casas ricas é que os tinham, nem sequer havia tijolos, como os de hoje, para cozer o bolo. Coziam-no em cima de pedras que aqueciam com lume. Havia pessoas que só tinham esse bolo para comer com o leite das cabras ou de uma ou outra vaca.

Meu avó contava, também, que havia um homem a quem chamavam o Tio Palha. Chamava-se assim por era muito hábil em por a palha nos telhados das casas. Mas ele não tinha casa sua, nem mulher, nem filhos. Para dizer a verdade, só tinha a roupa do corpo e esta era rota pois não tinha quem lha remendasse. Era tão pobre que nada tinha para comer e era magrinho e, como não tinha casa, dormia numa furna junto ao mar. Certa noite, enquanto dormia, levantou-se grande temporal e o mar embraveceu, galgando a terra e, entrando na furna, levou o tio Palha. Nunca mais se soube dele. 

 

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publicado por picodavigia2 às 16:07

VÉU DE BRUMA

Sábado, 21.06.14

Entre os soluços duma tarde amordaçada,

Há um manto de fumo branco sobre a terra.

O mar é um cachão de espuma que se verte,

Em dolentes golfadas, sobre o cais deserto.

 

Há gaivotas perdidas em voos lascivos

E o vento perfumou-se d’hortelã e funcho.

No horizonte, um barco desenha ilusões,

Ali, ao sul, a outra ilha é mais distante!

 

As marés deserdaram as rochas da lava

E disseram à Lua que nunca acordasse

Sem o alegre retoiço dum brando marulhar.

 

Atrás, muito longe, há uma sombra, um vulto,

Uma estátua de deusa, de musa ou sereia

Que rasga este véu de bruma, em tarde retesada.

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publicado por picodavigia2 às 07:56

ILUSTRE DESCONHECIDO

Sexta-feira, 20.06.14

Chegou ao Encontro e muitos não o conheciam ou dele mal se lembravam, pois terá frequentado apenas o Seminário Colégio de Ponta Delgada, em finais da década de sessenta e início da seguinte. No entanto e logo no início procurou inteirar-se de tudo e aproximar-se de todos, com uma delicadeza de modos e uma simplicidade de maneiras, imiscuindo-se, com interesse e dedicação no desenrolar de todos os acontecimentos, actividades, conversas e brincadeiras. Lembrava-se de mim nos tempos em que eu vivera no Pico, porquanto é natural da vila da Madalena, ilha do Pico, onde cresceu e estudou, até entrar para o Seminário Colégio e por isso, procurou-me, mantendo, ao longo de todo o Encontro, um agradável convívio. Assim o fez com outros participantes que ele conhecia e até com os que desconhecia. E em breve, o Faria estava tão imerso, tão embrenhado, tão activo e tão participante no Encontro, como se fosse um dos “clássicos”.

Após a quebra da barreira do gelo inicial, empenhou-se em tudo, acompanhando-nos nos passeios, sentando-se ao nosso lado durante as refeições, vivendo as emoções dos reencontros, acompanhando os momentos de reflexão, cantando na recreação do sarau-músico literário, homenageando a memória de professores e alunos, participando na Eucaristia em memória dos falecidos.

Embora residindo na Terceira, lá ao longe a memória do Pico e da Madalena, permanece bem viva e as visitas, à ilha montanha, onde tem raízes, são frequentes.

Afinal não estávamos tão distantes, nem tão separados como eu cuidara inicialmente. Um irmão, ainda a residir na Madalena, fora meu aluno, no Externato daquela vila picoense, no início da década de setenta. Por isso mesmo, à Madalena, em breve, haviam de chegar, pela voz e pelo testemunho do Alberto Faria, os mais belos e sublimes elogios ao nosso Encontro, do qual ele, afinal, também foi um dos “Senhores”. 

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publicado por picodavigia2 às 17:44

PANEGÍRICO

Sexta-feira, 20.06.14

(Texto com adaptações curriculares)

 

Hic humilis et obediens servum nostrum reformatus, autem magister jubilatus maxime illustrum, quem mittet Maria, Regnum Portugália et Algarbis, Lurdes Rodrigues, educatione ministra, in nomine serenissimum ac dulcissimum Sócrates, ille, nunc et semper, vos docebit omnia.

Comer hoje e pedir para comer muitas mais vezes, ilustres, muito nobres e muito simpáticos donos desta casa, comer hoje e pedir para comer muitas mais vezes, se possível ao menos uma vez por semana, é o assunto grande deste dia e o principal motivo da inauguração desta mesa.

Assunto grande chamei ao deste dia, mas não o único, porque também hoje, com tão devidas demonstrações de alegria, se comemora fausta e venturosamente a retirada daqueles notáveis seis pontinhos ao que se julga ser tão grande que nem Portugal o teve igual, mas que o Platini é que o vai tramar!

Mas, comecemos pela mesa, tão grande, tão pesada, tão impossível de subir pelas escadas ou pelo elevador, tão parca daquela fruta com que se deliciaram os árbitros do Porto-Estrela da Amadora e tão invejosa de não poder sentar ao seu redor aquela que o SP trás tão de perto: oh que temerosa desconsolação! É a mesa aquele monstro que se enche de fruta, de café, de chocolatinhos, e onde quanta mais gente se senta à sua volta mais se lixa a O a cozinhar. É a mesa aquele brutal pranchão de madeira, que os desgraçados dos bombeiros de Cete suaram as estopinhas para içar pela janela dentro, que leva mais euros ao C do que a Carol II ao SP,  que se enche com as panelas e os tachos da O, que alimenta a barriga do G e do F e, talvez em um momento, o C bem se lembre de querer sentar ao seu lado a Carol II para, como o pai do Diogo fez à mesa, lhe encher a rachadela de betume. É a mesa aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há algum dos convidados que, ou não se farte de comer em demasia, ou não passe uma fome desgraçada. O G não gosta de feijão verde, a A nem por nada deste mundo come arroz-de-cabidela,  a C está sempre a dizer que tem que fazer dieta e não quer comer mais para não engordar,  o F diz que só come hamburgers de soja mas se não petisca mais é porque não pode, o C só pensa em comer o que come o SP  e até O que devia estar na cozinha a limpar os tachos e as panelas ou a servir os comensais, tem a distinta lata  de se vir sentar à mesa como se fosse uma convidada! A falta, nesta casa, duma mesa grande, era a primeira e a mais viva desconsolação que de há muito padeciam  a O e o C. Tinham uma mesa tão pequena que nem podiam sentar à sua volta metade da família, uma porcaria duma mesa que nem sequer tinha uma rachadela que se visse. Mas que bem o pai do Diogo os consolou dando-lhes esta enorme e descomunal mesa com a sua grande e bonita rachadela! Racham  relinquo vobis,  racham meam do vobis, non quomodo racha  Carolina segunda do vobis. Cristiano: - Deixo-te uma rachadela, dou-te uma rachadela mas tira o cavalinho da chuva porque não é uma rachadela igual à da Carol II.

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publicado por picodavigia2 às 07:05

NO FAIAL

Quinta-feira, 19.06.14

Foi esta a Horta que José Pereira de Azevedo encontrou, quando chegou ao Faial, juntamente com a mulher e o filho e onde, a sua vida, não foi fácil. Impedido de entrar no porto da Horta, a quando da sua chegada do Pico, devido aos anunciados contágios provocados pela peste, o batelão em que viajara, juntamente com a mulher e o filho, desde o Lajido até à Horta, fora deslocado para a baía de Porto Pim, situada a este do Monte da Guia, na parte ocidental da vila e onde se ultimavam as obras da nova e moderna Bombardeira que substituíra o antigo Reduto da Patrulha, uma espécie de forte, com uma muralha anexa. Este forte conjuntamente com os de São Sebastião, Creta, Santa Cruz, Bom Jesus e Lagoa constituíam a robusta estrutura defensiva da vila e da própria ilha. As autoridades marítimas haviam questionado a razão da sua entrada no Faial, informando-o de que a situação, na ilha, era dramática. A peste continuava a alastrar-se, o número de pessoas atingidas aumentava assustadoramente, de dia para dia, e a assistência aos contagiados era quase nula. Mas voltar para o Pico tornava-se de todo impossível e Madalena nunca o havia de aceitar. Fixar-se, para já, ali na ilha, num lugar isolado, fora da vila, onde a peste ainda não tivesse grassado, era a solução mais viável para o pesado estigma que carregava José Pereira de Azevedo.

Saltando do batelão para terra com desenvoltura, ajudando a mulher que transportava um cesto à cabeça e ao colo o pequeno António que adormecera durante a viagem e carregando aos ombros dois sacos e duas pequenas cestas, transportados de palanca e que continham os seus parcos haveres, José Pereira de Azevedo chegou, finalmente a terra firme. O forte de Porto Pim começava a erguer-se, ali, numa curiosa modernidade, constituído por uma bateria elevada sobre o extradorso de uma abóbada de dois compartimentos, a que acedida por uma escada de três lanços e com o terreiro, ainda a abarrotar de pedregulhos, paus, tábuas, vigas temões e vestígios de argamassa, a abrir três canhoneiras onde as peças de artilharia, ainda posicionadas sobre o último lance e o pátio superior da escada, permaneciam inertes, à espera do posicionamento que lhes facilitasse e lhes desbloqueasse o seu débil e quase inerte funcionamento.

De seguida, informou-se junto de um sargento da guarda costeira sobre os locais da ilha ou dos povoados pertos da vila e do mar, mais seguros, a evitar contágios e transmissões da famigerada peste, sendo-lhe dito que ali para os lados do Pasteleiro havia sítio mais protegido. Pelo menos, dizia-se à socapa, que muitas pessoas oriundas das várias freguesias da vila e até de fora, ali se tinham refugiado, antes de serem atingidas pelo fatídico contágio, evitando, assim, contactos com infectados. Ele próprio, António Ramos, sargento da guarda costeira, ao serviço de Sua Majestade El Rei D. João e da defesa da ilha, ali se havia refugiado com a família.

Encaminhou-se, pois, José Pereira com a mulher e o filho na direcção do local indicado, caminhando para o lado oeste da vila, atravessando ruas desertas e caminhos despovoados, carregando aos ombros, ele, os dois pesados sacos de serapilheira, onde Madalena, ainda em Santa Luzia, arrumara algumas roupas e os agasalhos julgados necessários para eles e sobretudo para o filho. Ela, por sua vez, com o pimpolho encavalitado em cima de uma das ancas e apertando-o fortemente contra o seu próprio corpo, carregava à cabeça um cesto, com alguns utensílios domésticos e uns nacos de bolo, o pouco que contavam para, nos primeiros dias, alimentar o pequeno António, na esperança de que sobejasse algo para eles próprios.

O Pasteleiro constituía um dos mais importantes lugares dos subúrbios da pequena vila. Fora ali, entre a Baia da Horta e a Enseada de Porto Pim, que, nos primórdios do povoamento da ilha, se havia estabelecido Joss van Hurtere, no longínquo ano de 1467, fundando o sítio de Santa Cruz, que mais tarde dera origem à povoação "de Horta", em homenagem ao seu primeiro habitante. Aos poucos, o povoado foi-se desenvolvendo, crescendo e prolongando, paralelo à baía, até aos contrafortes da Espalamaca, lá para os lados da Conceição. Com o crescer e o desenvolver da vila para este, o lugar do Pasteleiro, que herdara o seu nome do negócio do pastel que por ali se havia desenvolvido em grande escala, decrescera de grandiosidade, de importância e de prestígio. Agora era um pequeno lugar de casas escuras, basálticas, muitas delas ainda cobertas de colmo e de palha e com portas e janelas sem vidraças, no meio das quais se destacava algumas já de alvenaria, uma outra com vestígios de antigo paço senhorial e a ermida de Santa Bárbara, construída anos antes, em substituição da de Santa Cruz, o primeiro edifício religioso construído no Faial e mandada erguer em memória do desembarque dos primeiros povoadores. Nela haviam sido sepultados Joss van Hurtere e sua esposa, Beatriz de Macedo.    

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publicado por picodavigia2 às 20:52

CONSUMIÇÕES

Quinta-feira, 19.06.14

Naquela tarde de sexta-feira, andava ele de um lado para o outro da sacristia em penumbra. Sentia-se cansado. Apetecia-lhe, como nunca, uma hora de sono. Nem que para isso tivesse que se deitar nas escadas do altar-mor... Mas qual quê? Havia de haver sempre uma alma a precisar fosse do que fosse. E ele que não era capaz de se negar a um pedido, viesse de quem viesse, e a qualquer hora. Para mais, e agora que a festa da padroeira se aproximava, faltara-lhe o único seminarista, desistido, já quase no fim do curso, e embarcado por terras do continente. E eram confissões, batizados, missas, enterros, casamentos... Uma eternidade de serviços e biscatos do ofício em tudo o que era curato e paróquia onde faltava padre. A somar a tudo isso (ou diminuir, que ele já andava confuso na matemática do compromisso) eram também as aulas no ciclo, para garantia da reforma e fuga à rotineira Ali estava, desacrescentando, do frenesim em que constantemente vivia, uns minutos para reflectir sobre o que iria dizer nas missas de domingo. Para sua própria desconsolação, nunca se habituara a falar de coração. Sempre o maldito papel a segurar-lhe, pelo colarinho, os entusiasmos. Desde o  domingo em que proferira a primeira homilia, apoderou-  -se dele uma  preocupação medrosa que o tem obrigado a preparar por escrito tudo o que diz aos crentes. Do púlpito abaixo, claro. Que, cá fora, as palavras conversadas com o povo vestiam paramentos de outra tonalidade. Mas, enfim. Lá teria que ser, e o tem-que-ser tem muita força, como lhe dizia um velho amigo. Não fosse o diabo tecê-las, e o bispo acabar por chamá-lo à pedra, e, por via disso, ele, padre-pedro-pedra-pomes (Gostava de se chamar assim, por motivos e razões muito suas.), vir a despir a sotaina. Pelo que, era mister sentar-  -se, e escrever a prédica para o fim de semana que aí estava. Mãos entrelaçadas por detrás da nuca, deu mais duas voltas à sala. Encostou a porta que dava para a capela do Sagrado Coração. Fechou-se no escritório. Porém, o sossego tão apetecido foi sol de pouco dura. Com efeito, ainda mal se sentara à secretária, e já o sacristão batia à porta para o avisar de que ia mandar entrar os primeiros rapazes da comunhão solene que começavam a chegar para a preparação. Diabo, que era verdade! Tinha-se esquecido. Era isso. Andava com muita coisa na cabeça. E, numa toada de quase queixume, pediu ao Ti João que os fosse enxotando para dentro. E agora? O que é que iria dizer à garotada? Lembrou-se de que lhes tinha prometido responder, nesta última sessão preparatória, a uma das muitas perguntas que a miudagem lhe fazia e que, por regra, só tinham a ver com  a verdadeira e real humanidade de Jesus. Choviam questões sobre se Nosso Senhor tinha irmãos, primos, tios. E tinha padrinhos? Eram ricos? Qual era o emprego dele? São José era carpinteiro – isso tinha ficado assente. A mãe não podia ser outra que não a do Menino Jesus. E, o que é que ele comia? Com quem brincara em pequenino? Quem é que lhe tinha arranjado o nome. E que o sô padre Pedro lhes explicasse melhor aquela de Jesus, que era Deus todo-poderoso, nem sequer ter tido um buraquinho para morar com os apóstolos. Então ele não tinha casa? Um puto mais espertalhote até lhe atirara com a difícil questão de os melrinhos do céu terem os seus ninheiros, e Jesus, coitadinho, andar sem eira nem beira. O sô padre Pedro queria então dizer-lhes que Nosso Senhor andava ao deus-dará nas ruas da Terra Santa? Tinha que lhes responder a tudo isso para que não minguasse a pouca fé que já por alí abundava. Com um sorriso condescendente para consigo e a maltinha nova, afastou para o lado toda papelada, ali ao monte, a pedir despacho. Empurrou a cadeira. Curvou-se um pouco mais, até que a cabeça poisou sobre a secretária. Ia-lhes falar sobre a casa, sobre as avezinhas do céu com seus ninhos. E, no silêncio dos santos e das trindades, cansado, cerrou os olhos...

 

J.F.Costa

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publicado por picodavigia2 às 19:24

HÁ SEMPRE UM LEITOR DESCONHECIDO

Quarta-feira, 18.06.14

Dê-se um texto a ler ou a ouvir a um grupo e, em regra, pelo menos uma pessoa terá qualquer observação inteligente a fazer, por mínima que seja. Basta ver as “cartas ao director” na grande imprensa. Mas não só. Ao meu redor colecciono exemplos. Este é um pequeno pacote com alguns.

Há dias, nas Correntes d’Escritas na Póvoa, encontrei um antigo colega. Perguntou-me o que achava de duas passagens no Mau Tempo no Canal. Numa, o narrador diz que, do Campo Raso, na ilha do Pico, Margarida contemplava a Horta. Garantiu-me que daquele local isso é impossível. Foi pároco nas redondezas e conhece bem a área. E contra essa evidência, que poderia eu contra-argumentar em defesa de Nemésio? A outra: Declara-se que Margarida foi à missa em Sexta-Feira Santa. Impossível! - acrescenta ele, que sabe da poda porque foi padre - esse dia é o único do calendário litúrgico em que não há missa.

Ora toma, meu querido Nemésio. Nenhum dos teus revisores entendia nem da geografia picoense nem de liturgia.

Falei em “pacote” porque estas foram apenas para servir de prefácio à que se segue. Numa das sessões das 10.as Correntes d’Escritas, Gonçalo M. Tavares leu uma das suas inconfundíveis mini-estórias tão sua marca. Eu resumo grosseiramente: um homem vai pedir emprego e cortam-lhe uma mão. Volta mais tarde em nova tentativa, cortam-lhe a outra mão. Não sendo da estirpe de desistir, regressa e volta a pedir emprego. Cortam-lhe a cabeça.

Assisti à sessão no fundo do auditório a abarrotar de gente, dezenas de pessoas sentadas nos corredores. Veio o tempo de perguntas e pedi o microfone. Tinha uma: Aquele final abrupto de estória à Anton Chekhov deixava-me uma enorme curiosidade. Para onde terá então ido trabalhar esse tal indivíduo sem mãos nem cabeça? Terá sido para o Governo?

Depois da chalaça, o diálogo com a mesa prosseguiu sério. Do meio da sala, levanta-se um ouvinte e caminha para a porta de saída. Passa por mim e cochicha-me: Aquele homem não podia nunca ir trabalhar para o governo. Sem mãos, como poderia ele meter dinheiro ao bolso?

Não resisti. Voltei a pedir o microfone e tornei público o comentário daquele anónimo que pelo menos eu desconhecia por completo.

Dia seguinte. No átrio junto ao auditório, os fumadores vingam-se da privação da chucha nos interiores e o recinto torna-se uma ágora grega de trocas de conversas em camaradagem absolutamente horizontal. De repente, uma cara desconhecida, olhar inteligente e expressão escondida por detrás de espessa barba faz-me sinal de aproximação. Quer dizer-me alguma coisa, mas evita ser intrometido. Avanço eu porque lhe reconheço o rosto. Exactamente o mesmo que na véspera passara por mim e mandara aquela boca. Meio entre dentes, explica: Considerei melhor. Aquele personagem sem mãos e sem cabeça, lembra-se?  Eu: Sim, claro. Foi você que mandou aquela forte. Claro que me recordo. Então o meu anónimo continuou: Reconsiderei. O melhor emprego para ele não é no Governo, mas no Banco de Portugal. É que, sem cabeça, obviamente não tem olhos e não precisa deles porque nunca vê nada. Sem mãos, também não tem problema. Os amigos tratam de lhe pôr dinheiro ao bolso.

E desapareceu.

Não resisti a, antes da minha palração pública, divulgar essa emenda do meu comentador anónimo. Tive de fazê-lo, porque corria o boato de que eu inventara a estória. Insisti que não, pois procuro ser fidedigno nos relatos. Se digo que aconteceu, aconteceu mesmo. Como a mãe do garoto da minha terra que foi posto fora da escola. Entra em casa a chorar sem conseguir explicar à mãe a razão. Ela decidiu tomar conta do caso e foi à professora. O meu filho foi mandado para casa porquê? Ouviu então: Porque ele disse que viu a coisinha da Joana. Venta levantada, a mãe reagiu: Saiba a senhora que o meu filho pode ser o que for, mas se ele disse que viu é porque viu mesmo!

Horas mais tarde, outro anónimo veio confidenciar-me a identificação da minha personagem. Director do Varazim (assim, à antiga) Teatro. Deu-me o nome mas, se o meu anónimo falou sempre em voz baixa, se calhar é porque prefere mesmo manter um semi-anonimato.

 

Onésimo Teotónio Almeida

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publicado por picodavigia2 às 23:28

O ENSINO DA FILOSOFIA NO SEMINÁRIO DE ANGRA,

Terça-feira, 17.06.14

Hoje é incondicionalmente aceite que o Seminário Episcopal de Angra, única instituição de ensino pós-secundário, nos Açores até 1976, ano em que foi criada a Universidade, foi um notável e inexaurível alforge de ciência e de cultura, onde se formaram, para além do clero açoriano, de onde emergiram muitas eminentes figuras da igreja católica, grande parte da classe dirigente, da intelectualidade e da cultura açorianas.

Foi sobretudo nas décadas de cinquenta e sessenta que esta instituição atingiu o apogeu da sua notabilidade e da sua génese formadora. Por um lado, o Seminário de Angra possuía, naquelas épocas, um notável lote de professores, homens de letras, de ciência, de grande sabedoria, de profundos conhecimentos e defensores dos mais nobres princípios de humanismo, formados na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, aos quais se juntavam alguns padres que mais se distinguiam na diocese pelo seu conhecimento específico, numa ou noutra disciplina. Por outro lado demandaram o Seminário, nessa altura, muitos jovens dotados de elevada capacidade intelectual, na maioria dos casos oriundos de famílias pobres e, por conseguinte, impedidos de frequentar as universidades do Continente, mas referenciados pelos seus professores primários, como possuidores de excelentes capacidades de aprendizagem e que, após o exame da quarta classe, “seria uma pena não continuarem os estudos”. Uns fizeram-no com enorme sacrifício dos pais, outros com algum mecenas protector que lhes surgiu no caminho e alguns, agregando-se a outras dioceses, como era o caso de Timor, que lhes custeavam os estudos. Eram uma espécie de “banco de inteligências”, nadas e criadas no arquipélago, sedentas de aprendizagens e conhecimentos, que urgia aproveitar. O Seminário de Angra era o seu destino natural e único.

Assim, durante doze anos, o Seminário de Angra disponibilizava, aos que o demandavam, um plano curricular exigente, completo, abrangente e rigoroso, complementado com actividades de índole intelectual e cultural, desde a música ao teatro, passando pelo jornalismo, através de academias, sabatinas, jornais, palestras, reuniões, semanas culturais, etc. Através dessas actividades, os seminaristas iam desenvolvendo e aperfeiçoando as suas capacidades, fortalecendo os conhecimentos adquiridos, enriquecendo e completando as suas aprendizagens, tornando-as mais profundas, mais seguras e sobretudo, mais diversificadas. Além disso era-lhes possibilitado assistir e participar em diversas iniciativas de índole cultural e de formação fora do Seminário. Todas estas actividades, internas e externas, porque privilegiavam a ciência, a cultura, a arte e a literatura, constituíram para muitos como que o dealbar de uma futura formação que mais tarde os tornaria baluartes das próprias letras, da ciência, das artes, da música e da cultura açorianas.

O plano de estudos no Seminário, nas décadas de cinquenta e sessenta estava dividido em três etapas: o ensino preparatório, o curso de Filosofia e o de Teologia. No âmbito desta “memória”, referir-me-ei, apenas, ao curso de Filosofia.

O curso de Filosofia que tinha a duração de três anos, sofreu a sua primeira “reforma curricular”, na década de cinquenta, altura em que a Ética e a História da Filosofia se constituíram como disciplinas autónomas. Nessa altura também se verificaram notáveis alterações, nos programas das várias disciplinas, na própria metodologia do ensino da Filosofia, numa melhor explicitação dos seus conteúdos, privilegiando-se não apenas as capacidades cognitivas dos alunos mas também a pesquisa, a investigação pessoal e o raciocínio. Na origem destas mudanças, como seu estratega e mentor, esteve o Dr. José Enes, com a colaboração do Dr Cunha de Oliveira. Na génese duma segunda reforma, realizada já em plena década de sessenta, que tinha como objectivos principais aproximar os currículos do Seminário aos do ensino oficial, enriquecer cultural e cientificamente a formação dos futuros sacerdotes e proporcionar aos que saíam, uma maior facilidade em obter equivalências, esteve, novamente, o Dr José Enes, na altura “Prefeito de Estudos”, uma espécie de “Director Pedagógico” do Seminário. No âmbito desta reforma, o plano curricular do curso de Filosofia foi enriquecido com as disciplinas de Português Medieval, Matemática, Química, Latim e Psicologia que assim também se separava, como disciplina curricular, da Filosofia.

A partir de então, o plano curricular do curso de Filosofia do Seminário de Angra abrangia as seguintes disciplinas: Filosofia (incluindo Lógica Menor, Lógica Maior ou Teoria do Conhecimento, Metafísica, Cosmologia, Teodiceia ou Teologia Natural); História da Filosofia; Ética; Psicologia (também designada por Filosofia II); Arte/História da Arte; Apologética; Português Medieval; Literatura/História da Literatura; Latim; Latinidade, Grego; História da Civilização Universal; Matemática; Química e Música. (1)

A Filosofia era a disciplina base deste curso, com maior carga horária e leccionada ao longo dos três anos. O compêndio utilizado era o “Cursus Philosophiae” (ad usum seminariorum) de Carolo Boyer, S.I, Desclée de Brouwer, em dois volumes, em latim. No entanto este facto trazia-nos algumas vantagens, pois para além de se aperfeiçoar o latim, obrigava a um estudo mais demorado e cuidadoso, o que, obviamente, facilitava as aprendizagens.

Na globalidade, os professores, dotados de uma competência capaz de mobilizar os parcos recursos pedagógicos disponíveis, na altura, e que quase se limitavam aos manuais, ao quadro e a alguma bibliografia complementar, dominavam com sabedoria os conteúdos programáticos, orientavam as aulas com uma linguagem erudita e motivavam os alunos na defesa não apenas dos valores religiosos e cristãos mas também dos culturais, humanos e morais.

Desde os anos vinte que o ensino da Filosofia foi da responsabilidade do Dr Manuel Cardoso do Couto, detentor de um notável percurso intelectual, filosófico e teológico, marcado pelo aristotelismo de inspiração tomista, sendo substituído, no início dos anos cinquenta pelo Dr Simão Betencourt e pelo Dr José Enes, que embora mantendo o compêndio de Boyer, como estrutura do programa, alterou a metodologia, alargou o debate filosófico a temas mais vastos e actuais, centrando o ensino nos alunos, incentivando-os à investigação, à reflexão e à pesquisa.

Nos anos sessenta o ensino da Filosofia e da História da Filosofia coube ao Dr Caetano Tomás. Em Filosofia, seguia Boyer, com rigor metódico, incentivando o raciocínio e desenvolvendo a memória dos alunos, “obrigando-os” a decorar as mais diversas definições, em latim, muitas das quais ainda hoje perpassam, como em eco, na nossa memória. Em História da Filosofia, através do “Précis d’Histoire de la Philosophie”, de François-Joseph Thonnard, explicava, pausadamente e os alunos tiravam apontamentos. Embora se tratasse duma síntese abreviada, era dada uma visão global da evolução do pensamento filosófico ocidental, desde a passagem do conhecimento mítico ao racional, com os filósofos da chamada escola milésia, até Fitche, Shelling e Hegel, com uma breve abordagem à Filosofia dos Valores de Max Scheller. Lugar de destaque tinha o autor-base da Escolástica, São Tomás de Aquino, o “Doutor Angélico”, sobretudo porque fora ele que fizera da Filosofia, a “ancilla theologiae”. De acordo com as directrizes existentes, na altura, o objectivo primordial desta disciplina, nos seminários, era “preparar os alunos para um posterior estudo da Teologia”. Esta insistência intensiva na Filosofia Escolástica, espelhada aliás em toda a orientação temática e argumentativa do livro de Boyer, dava-nos, no entanto, uma profunda e sólida formação nesta área. Pessoalmente, senti-a, dez anos mais tarde, ao frequentar a cadeira de Filosofia Medieval, no curso de Filosofia da FLUP. Apercebendo-se o professor das minhas persistentes intervenções nas aulas, quer sobre a Patrística quer sobre a Escolástica, perguntou-me, certo dia, se eu havia feito o curso de Filosofia nalgum seminário. Perante a minha afirmativa, convocou-me a dar algumas aulas sobre a Escolástica, tendo eu, então, preparado e apresentado um estudo sobre a Summa Contra Gentiles de São Tomás de Aquino. Na apresentação do mesmo, estavam presentes estudantes que haviam frequentado seminários do norte do país e pude aperceber-me de que, nesta área, a formação deles era, aparentemente, mais limitada.

A Ética, assim como a Literatura, eram leccionadas pelo Dr Francisco Carmo, possuidor duma cultura elevadíssima e duma eloquência exuberante, utilizando uma linguagem rigorosa e erudita. Na disciplina de Ética, sobre cujos temas dissertava com um à vontade e uma segurança científica impressionantes, pese embora seguisse, parcialmente, o compêndio de Boyer, recomendava várias leituras complementares, enquanto em Literatura, para além de leccionar os conteúdos, incentivava os alunos â criação literária - poesia e prosa.

O Dr José Enes, também professor de Filosofia durante uma boa parte das décadas de cinquenta e sessenta, era um estudioso da língua e da cultura portuguesa, tendo posteriormente leccionado em diversas universidades, nomeadamente na dos Açores, da qual foi Reitor, sendo também um dos elementos responsáveis pela sua criação. As suas aulas eram cativantes, atractivas e motivadoras. Com recurso aos Textos Portugueses Medievais  de Correa de Oliveira e Saavedra Machado transportava-nos ao maravilhoso mundo dos primórdios da língua portuguesa escrita, aos remotos tempos da poesia trovadoresca, aos textos do Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende, aos primeiros documentos escritos em português nos séculos XII e XIII, aos Cronicões das ordenações afonsinas e da criação dos mosteiros medievais, aos clássicos dos Príncipes de Avis, a Fernão Lopes, e tantos outros. Além disso, dotado de uma escrita de elevada sensibilidade e excelente qualidade, paralelamente a Francisco Carmo, incentivava-nos na arte de bem escrever, dando complementaridade aos alicerces construídos pelo padre Coelho de Sousa, nos anos anteriores. O Dr José Enes foi ainda o responsável pela reabertura da biblioteca do Seminário e pelo início da sua reorganização, actividade em que se envolveram e colaboraram vários alunos.

O Dr Artur Goulart, substituindo o Dr Garcia da Rosa, em História da Arte, e o Dr Edmundo Oliveira. Substituindo o Dr Antonino Tavares, em Música, exímios conhecedores, quer na teoria quer na prática, dos conteúdos programáticos da Arte e da Música, encantavam com aulas aliciantes, motivadoras, por vezes acompanhadas de audiovisuais, no primeiro caso slides de obras de arte dos vários museus de Roma e de outras cidades europeias e, no segundo, com discos de música diversa, nomeadamente clássica. O Dr Edmundo de Oliveira, por sua própria iniciativa e manifesta vontade, alterou o programa da disciplina de Música, enriquecendo-o com a “História da Música”.

Pela sua humildade e sabedoria primava o Dr José Nunes, o único deste vasto elenco, que ainda exerce a docência no Seminário de Angra. Não resisto a recordar um pormenor das suas aulas de grego, nas quais traduzíamos textos variadíssimos, nomeadamente as fábulas de Esopo. Perante um e outro erro que cometíamos nas traduções, por mais exagerados que fossem, nunca o Dr José Numes nos recriminava com frases condenatórias ou humilhantes. Apenas esboçando um sorriso dizia: “Eu acho que se pode traduzir doutra maneira”. Pessoalmente, confesso que esta atitude me marcou bastante, tendo procurado fazer dela uma espécie de lema do meu percurso pedagógico, como professor. A completar o estudo das línguas clássicas, o Dr Cunha de Oliveira, numa abordagem ao Grego Bíblico e ao Hebraico, realizada já no nono ano, com métodos pedagógicos modernos, profundamente centrados no aluno e com os seus amplos e profundos conhecimentos das Línguas e Ciências Bíblicas, permitia-nos já descortinar o que seriam as aulas de Sagrada Escritura dos anos seguintes. 

O Dr Weber Machado, dotado de grande sabedoria, sempre atento aos problemas dos alunos, trouxe de Lisboa e Coimbra um lufada de ar fresco para a Matemática que até então se ensinava no Seminário, mas com a qual naturalmente terá colidido, tornando difícil as exigentes aprendizagens que a caracterizavam, bem como a assimilação dos conteúdos programáticos que continha.

Acresce dizer-se que em Latim e Latinidade, o padre Jacinto Almeida, com o rigor e a exigência de que não abdicava nas suas aulas, forçava-nos a prepará-las meticulosamente e a estudar com rigor e frequência. Utilizando um método bastante ancestral de “chamar à sorte”, obrigava-nos a nunca ir “em branco” para as aulas, o que geralmente também acontecia em todas as outras disciplinas e que redundava em nosso benefício.

A Psicologia, leccionada pelo Dr José Enes e pelo dr Artur Custódio, permitia-nos entrar no reino do experimental, do empírico e estudar o comportamento dos processos mentais do indivíduo, enquanto a Apologética mais não era do que uma síntese daquilo que, na disciplina de Religião, em anos anteriores, se havia aprendido sobre o Cristianismo, a que o Dr Américo Vieira acrescentava uma interessante síntese da história e dos princípios gerais das grandes religiões da humanidade.

Estas disciplinas, com carga horária diversificada, distribuíam-se ao longo dos dias da semana, excepto às quintas-feiras e domingos, com quatro horas lectivas durante a manhã e uma à tarde. Para prepará-las dispúnhamos de quatro horas diárias de estudo obrigatório, durante o qual reinava um silêncio profundo e absoluto em todo o Seminário. Uma hora de manhã, entre a missa e o pequeno-almoço, duas, intercaladas com um intervalo de quinze minutos, após a aula da tarde e antes do jantar e uma à noite. Assim como as aulas, o seu início e o seu termo eram anunciados por uma sineta ou “cabra” colocada em frente à sala dez e tocada, à vez semanalmente, por cada um dos alunos mais velhos da prefeitura dos “médios”. Era também durante algumas dessas horas e às quintas-feiras que se realizavam as actividades de complemento curricular, nomeadamente ensaios de música, teatro, as sessões académicas e outras reuniões. Às quintas-feiras, também tinham lugar as visitas de estudo, na altura designadas “por passeios grandes”, a formação espiritual, os retiros mensais e outras actividades.

Acresce dizer-se que eram os alunos do 1º ano de Filosofia que dinamizavam e organizavam a festa de São Tomás de Aquino, padroeiro dos filósofos, a maior festa realizada no Seminário.

Foi a competência, a sabedoria, o humanismo e a dignidade destes e de muitos outros mestres que constituíam o corpo docente do Seminário de Angra nas décadas de 50/60, os planos curriculares que eles próprios construíram, os conteúdos programáticos das disciplinas que leccionavam e as diversíssimas actividades culturais, artísticas e até de lazer em que connosco se envolviam e nas quais nos acompanhavam com dedicação, amizade e esmero, que fizeram, daquele punhado enorme de jovens açorianos que naquelas décadas procuraram o Seminário de Angra, e que nele encontravam uma segunda casa e uma segunda família, aquilo que de facto hoje são. É verdade que alguns saíram ao longo do duro e sinuoso percurso de doze anos de estudo. Mas muitos outros chegaram ao fim e ordenaram-se, atingindo o objectivo primordial pelo qual haviam lutado e que constituía o sonho de qualquer simples e humilde família açoriana, na altura – ter um filho sacerdote. Muitos destes, no entanto, alguns anos mais tarde, por isto e por aquilo ou simplesmente porque quiseram, resolveram alterar o destino da sua vida. E, porque haviam armazenado, ao longo do seu percurso no Seminário, uma sólida formação, fizeram-no com dignidade, com convicção, com nobreza de carácter e de acordo com os valores humanos e morais que ao longo dos anos haviam adquirido e que lhes permitiu através da formação académica ali obtida, singrar com êxitos assinaláveis nos mais diversos âmbitos das letras, das artes, da ciência, da cultura, da sociedade e da religião.

Nota:

Também existia Educação Física, vulgarmente designada por Ginástica, mas era mais considerada uma prática do que propriamente uma disciplina, uma vez que não tinha qualquer componente teórica, nem avaliação.

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publicado por picodavigia2 às 10:38

LUÍS CORTES-RODRIGUES

Domingo, 15.06.14

Luís Filipe Cortes-Rodrigues nasceu em Carnaxide, a 16 de Agosto de 1914 e faleceu em Gueifães, Maia, a 28 de Julho de 1991. Filho do poeta açoriano Armando Côrtes-Rodrigues, assinou a sua obra com o pseudónimo de Luís Ribeira Sêca. A sua estreia literária, com A Sombra de Afrodite, em 1950, revela uma poesia marcada por um vago romantismo que ora se orienta no sentido de um idealismo amoroso, ora questiona um Absoluto cuja inacessibilidade suscita no sujeito lírico uma perturbação que, a nível discursivo, se concretiza numa evidente retórica da interrogação. Mas outros procedimentos se registam na sua obra, a partir da inflexão registada em Recanto Tranquilo, onde com frequência o poema se constrói a partir de um dado mais concreto, de um elemento ou facto próximos do quotidiano “observado”: desse registo e onde sobressai o tom nostálgico e melancólico, ante a evidência da passagem do tempo e dos seus efeitos corrosivos.

Para além das obras referidas ainda publicou Um amor... e o outro.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 10:20

COMO UM DE NÓS

Domingo, 15.06.14

Artur da Cunha Oliveira nasceu em 1924, em Lawrence - Massachusetts - USA. Filho de mãe graciosense e de pai micaelense, Cunha de Oliveira veio para a Graciosa, com 7 anos de idade, fixando-se na freguesia de Guadalupe, ficando órfão de pai, ainda muito jovem. Frequentou o Seminário de Angra, concluindo o Curso de Teologia.

O currículo profissional de Cunha de Oliveira é demasiado rico e por demais conhecido para necessitar de qualquer apresentação, além disso está estampado na contracapa de alguns dos seus livros: “Artur da Cunha Oliveira, sacerdote católico dispensado do ministério e casado, licenciado em Teologia Dogmática e Ciências Bíblicas, foi professor no seminário Episcopal de Angra, cónego da Sé, assistente diocesano de vários movimentos, organismos e associações de apostolado e, na sociedade civil, director do diário A União, co-fundador do Instituto Açoriano de Cultura, de cujas Semanas de Estudo dos Açores foi secretário permanente durante vários anos, conselheiro de orientação profissional e director do Centro de Emprego de Angra do Heroísmo, vogal da Comissão Regional de Planeamento e, depois do ’25 de Abril’, presidente da Comissão Administrativa da Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroísmo, Director do Departamento Regional de Estudos e Planeamento dos Açores (DREPA), que fundou, deputado do Parlamento Europeu, presidente da Comissão Diocesana de Justiça e Paz e da Assembleia Municipal de Angra do Heroísmo.” Falta acrescentar que foi agraciado com as Insígnias Autonómicas de Valor e Reconhecimento pelo Governo e Assembleia regionais. Cunha de Oliveira que, segundo afirma com muita emoção, aprendeu com a mãe “a mastigar antes de engolir” considera-se um crente que mantêm um espírito crítico e que olha preocupado para o “divórcio profundíssimo” entre a comunidade cristã e a sociedade científica “ como se houvesse uma oposição tremenda entre a Razão e a Fé”.

Apesar de ser o único participante no Encontro de Antigos Alunos do SEA com o percurso de professor do SEA nas décadas de 50/60, Cunha de Oliveira parecia um de nós. Chegou carregado de sorrisos, alegria, ternura e felicidade por ver e abraçar muitos dos que haviam sido seus alunos. Amparado na sua bengalinha e sempre ao lado da esposa, acompanhou-nos em tudo, viveu connosco todas as emoções e embrenhou-se em todas as actividades (com excepção do jogo de futebol). Cantou connosco, almoçou e jantou na nossa companhia, esteve na visita ao Seminário e ouvia-nos com tamanha atenção como se fosse ele o aluno e nós os mestres. A sua presença transcendeu-se por completo com o testemunho que nos deixou, na tarde de sábado, trazendo-nos à memória do que foram as vicissitudes propagadas na diocese e mais ainda no Seminário, após o Concílio Vaticano II. Cunha de Oliveira mesmo que não estivesse presente no encontro seria um marco do mesmo, porquanto na memória de todos os presentes, permaneciam ecos vivos daquele professor sábio, eloquente, comunicativo e inteligente, que juntamente come Francisco Carmo, Rogério Gomes, José Nunes, Manuel António, Artur Goulart, Caetano Valadão e outros trouxeram lufadas sucessivas de ar fresco à Teologia Dogmática dos velhos compêndios profundamente enraizados nos princípios e axiomas da Escolástica Medieval e acicataram a libertação da Teologia Moral dos meandros da Casuística, fechada e obsoleta.

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publicado por picodavigia2 às 10:17

NAUFRAGIOS

Sábado, 14.06.14

É deveras impressionante o número de naufrágios que, sobretudo no século XIX, ocorreram na ilha das Flores, com particular incidência na sua costa oeste, a fronteira virtual com o continente americano, na qual se inclui, naturalmente, o ilhéu do Monchique, o ponto mais ocidental da Europa. De facto, por todo o litoral da ilha são visíveis vestígios e lembranças de naufrágios, não tanto materiais mas, sobretudo, toponímicos.

Apesar do desfortúnio que os naufrágios significavam para as suas vítimas, muitas das quais morriam, a população da ilha tirou alguns dividendos dos mesmos. Sabe-se que, por essa altura muitas casas da ilha podiam, com toda a propriedade, ser comparadas a “verdadeiros cemitérios marítimos, onde tudo, desde a madeira aos candeeiros, desde a ferramenta aos enfeites, provinha de barcos naufragados”. Na Fajã Grande havia casas com portas recolhidas de naufrágios, assim como camas e outras mobílias.

Um dos maiores naufrágios ocorridos na Fajã foi o da barca francesa Bidart, encalhada em 1915, com 22 tripulantes a bordo, um dos quais morrera na véspera vítima de escorbuto, mas que ainda não fora sepultado no mar Morreram vários, estando alguns sepultados no cemitério da Fajã Grande. Seis, dos 12 tripulantes que trazia a barca italiana Severo, naufragada em 1882, na Lomba, também, faleceram quando esta embateu nos baixios das Flores. Como estes, faleceram muitos outros homens, vítimas mar, sendo que os corpos de alguns nunca foram encontrados. Mas como muitas das de naufrágios, de embarcações acidentadas, que transportavam essencialmente mercadorias. Mas verdade é que os naufrágios sempre constituíram, para a população da ilha, um beneficio, uma vez que eram uma oportunidade suplementar de rendimento, desde que conseguissem chegar primeiro que as autoridades fiscais e arrecadar os mais diversos produtos.

O Natal de 1869 foi célebre para a população da nova freguesia da Fajã Grande! É que, precisamente, no dia 25 de Dezembro desse ano, nos baixios da Coalheira, carregada de açúcar mascavado, um sabor de muitos ainda desconhecido na ilha, e de aguardente, a barca francesa Republique, que o povo logo invadiu, levando tanto açúcar quanto pôde, numa abundância tal que, nas semanas seguintes, até com açúcar se temperaram caldos de couves.

Foram os grandes carregamentos de madeira de pinho resinoso que, de forma mais visível, ajudaram a perpetuar a memória, um pouco por toda a ilha, de algumas dessas já longínquas tragédias marítimas. Pela sua dimensão, o antigo Hospital de Santa Cruz e as Igrejas da Lomba, Ponta da Fajã Grande, Fazenda e Fazenda de Santa Cruz relevam entre as várias obras cujas construções foram essencialmente alimentadas, nas suas mais exigentes necessidades em madeiras nobres, que deram à costa, provenientes de naufrágios, como o da galera Ocean, na Fajãzinha, em Maio de 1876, e da barca Brillant, na Quebrada Nova, em Fevereiro de 1899. Com 180 passageiros e tripulantes, antecipadamente, postos a salvo, em terra, a vila das Lajes das Flores assistiu, nos primeiros dias de Março de 1727, ao afundamento do galeão Nossa Senhora das Angústias e São José, que, rebentadas as amarras e levado para o alto mar, ali foi a pique com quase toda a sua preciosa carga, uma parte do espólio anual de ouro e prata das minas do México e de Potosí, na Bolívia. Em sinal de reconhecimento por se terem salvo, dois desses espanhóis fizeram edificar a Capela de Nossa Senhora das Angústias. A história trágico-marítima nas Flores regista, como últimos grandes naufrágios, o encalhe do paquete holandês Prins der Nederlanden, em Agosto de 1966, na Pedra dos Morros, de onde só muito a custo foi rebocado, e o naufrágio do Papadiamandis, um cargueiro liberiano, de mais de 14 mil toneladas, perdido na Fajã Grande, em Dezembro de 1965.

A quase já cem anos de distância, é o naufrágio do Slavonia, que constitui o maior e mais trágico naufrágio ocorrido nas Flores e ainda hoje, continua presente no imaginário de muitos florentinos, numa memória que lhes é avivada, no Museu das Flores. O papa Pio X, em sinal de gratidão pelo acolhimento que as gentes da ilha haviam dispensado às 597 pessoas que o Slavonia transportava entre Nova Iorque e o porto italiano de Trieste, ofereceu um cálice de prata à Igreja Matriz de Lajes das Flores.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:50

MARÉS DE JUNHO

Quinta-feira, 12.06.14

Sobem pelo cais, destemidas e afoitas, glorificando-se. Ora aparecem ora desaparecem ora se confundem com a inequívoca serenidade do oceano, imenso e infinito. Vêm carregadas, desejosas de lucubração e justiça e, se a ironia as persegue, escondem-se, passivas, temerosas, dispostas a carregar sobre si a amargura perturbante do silêncio eterno. Ao redor, uns sentados nas escadas, outros encavalitados em guindastes, videntes de todas as espécies, orgulham-se, como pavões, ironicamente vitoriosos. Julgam-se dominadores, os déspotas, presunçosos e altivos, arrogantes e sarcásticos. Envolvem-se em sorrisos malévolos, masturbam-se numa sabedoria aparente e ejaculam ignorância apodrecida. São dejectos da mais vil ignomínia.

E elas, as marés de Junho, perdem-se neste marulhar de ironias agonizantes. Vão e vêm. Partem incertas, sem destino e regressam destruídas, desfeitas como se nada mais conhecessem do que a insurgência pútrida daqueles desmazelados facínoras, de convicção errónea, que transmitem um niilismo degradante. Mas é, exclusivamente, a elas que cabe a culpa de quanta insegurança existe na transfiguração passiva de ilhéus, baixios e escolhos. Baías, enseadas, caneiros e poças sem vida porque sem marés de Junho

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publicado por picodavigia2 às 12:56

A VILA DA HORTA

Quarta-feira, 11.06.14

A Horta, no início do século XVIII, apesar de possuir o estatuto de vila desde 1498, através de foral concedido por el-rei D. Manuel I, era uma pequena povoação, plantada na orla sul da ilha do Faial, voltada para montanha do Pico. Embora, nessa altura, já fosse constituída por três paróquias - Conceição, São Salvador e Angústias - a vila resumia-se a um núcleo populacional centrado entre a fortaleza de Santa Cruz e o Porto-Pim, que se prolongava ao longo de uma enorme rua, paralela à baía, sobre a qual a vila se debruçava e que se estendia até à igreja da Conceição, lá para os lados da Lomba do Pilar, a noroeste da baía, já quase nos contrafortes da Espalamaca. Aí se estabelecera, desde há muitos anos, o centro administrativo da vila e era aí também que se situava a igreja da Senhora da Conceição, construída em substituição de uma outra destruída a quando de um ataque à ilha, por corsários ingleses. Esta igreja, uma vez que a freguesia da Conceição constituía o maior e mais importante núcleo populacional, era a mais importante da vila e junto a ela, iniciava-se a construção de uma alta e imponente torre, encimada por um gigantesco relógio.

A vila era circundada por uma baía à qual estava anexo um enorme e importante porto, onde entravam e donde saíam todo o tipo de embarcações de feitio e tamanhos diversos, desde naus, galeões, caravelas, brigues, escumas, patachos, bergantins, escaleres, até às fragatas de guerra, armadas com peças de artilharia ligeira, com três mastros, de velas redondas e usadas, apenas, em missões de defesa, escolta e de reconhecimento. Por ali se escoavam muitos dos produtos que a ilha produzia, nomeadamente trigo, pastel, urzela, laranjas e vinho, este produzido e vindo do Pico, em pequenos batéis que, depois de carregados nos “rola-pipas” de Santa Luzia e das Bandeiras, da Barca, do Calhau, da Candelária e do Guindaste, atravessavam o canal entre Faial e Pico, batéis estes que também acarretavam madeira e gado.

Arrasada pela peste bubónica que ali alastrara no início do século e com muitas das suas igrejas e dos seus monumentos destruídos, quer por crises sísmicas, quer por ataques da pirataria e saques de corsários, a Horta, no início do seculo XVIII, tentava reconstruir-se, levantar-se das cinzas, erguer-se do nada. Por outro lado a chegada de algumas ordens religiosas à ilha, nomeadamente os Jesuítas, os Franciscanos e os Carmelitas, beneficiando de alguma riqueza armazenada no Brasil, iam aos poucos, com a colaboração de um ou outro mecenas, construindo as suas igrejas e os seus conventos, enquanto a vila aguardava por também reedificar os seus palácios, reerguer os seus monumentos e até restaurar muitas das moradias dos seus habitantes.

Os frades Franciscanos, precisamente no virar do século, haviam terminado a construção da Igreja da Senhora do Rosário ou de São Francisco e o convento anexo. Este, porém, passara por muitas vicissitudes ao longo dos anos, sendo frequentemente enfraquecido por terramotos, incendiado por corsários ingleses e, anos mais tarde, destruído, quase totalmente, por um forte temporal. A sua reconstrução era urgente e imperiosa. As obras de restauro da igreja estavam terminadas, mas agora iniciava-se a reconstrução do convento.

Por sua vez as obras de construção da igreja e do convento da Senhora do Carmo, sob a égide dos frades carmelitas, estavam prestes a concluir-se, estando já a igreja aberta ao público. A construção do convento anexo iniciara-se no século anterior, por influência de D. Helena de Boim, esposa do então Capitão-mor Francisco Gil da Silveira. Após a construção de uma capela que foi dedicada à evocação de Nossa Senhora da Boa Nova, D. Helena de Boim, decidiu criar ali um hospício, com o fim de alojar os frades da Ordem dos Carmelitas que escalavam o porto da vila em viagem de ida e vinda para os Estados do Brasil e do Maranhão, uma vez que a Horta se havia tornado um ponto de paragem para os missionários que viajam de e para o Brasil e Ásia. Para prover o convento, D. Helena de Boim viria a doar todos os seus bens à Ordem dos Carmelitas, que nos terrenos junto à capela, dera início, no final do século XVII, à construção de um mosteiro, e mais tarde à Igreja de Nossa Senhora do Carmo que lhe está anexa.

O convento dos frades Jesuítas, junto a uma igreja mandada erigir por estes e já terminada, também estava a ser construído nesta altura. Fora mandado edificar por D. Francisco de Utra de Quadros, Capitão-mor do Faial, e sua mulher, D. Isabel da Silveira. Além disso, ainda continuavam a realizar-se as obras de restauração da Ermida de Santa Cruz, sob as ordens do Bispo de Angra.

Tudo isto, ligado a uma agricultura próspera e florescente, onde pontificavam como culturas dominantes o trigo e o pastel, faziam com que a vila de Horta, no início do século XVIII crescesse e fortificasse e se desenvolvesse, pese embora existisse pouco comércio e quase nenhuma indústria. Era também graças à sua localização, que a vila começava a prosperar, sobretudo como porto de escala de importantes rotas comerciais transatlânticas.

Mas todo este desenvolvimento foi abalado, cerceado e quase destruído com a trágica epidemia que se abateu sobre a ilha, entre os anos de 1717 e 1718. Nesta altura grassou em toda a ilha do Faial uma terrível epidemia que causou muitas mortes. Em Novembro de 1717 morreu grande parte dos moradores dos Cedros e de outras freguesias incluindo as da vila. Inicialmente as vítimas atacada pela peste eram atingidas por febre temporária e expectoração sanguinolenta, a que se seguia uma febre contínua e inchação nas axilas e nas virilhas e os doentes morriam entre os 3 e 5 dias. Esta peste era de tal maneira contagiosa que se propagava rapidamente de uma pessoa a outra; o pai não ia ver seu filho nem o filho o pai; a caridade desaparecera por completo e os doentes morriam abandonados e sós, por vezes nem sendo sepultados. Os que não eram atingidos faziam procissões e preces públicas. A assistência médica era nula e a peste estendia-se aos animais que por sua vez a transmitiam, com muita frequência, aos humanos.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:26

JUNHO AMOROSO

Quarta-feira, 11.06.14

“Abril chuvoso, Maio ventoso e Junho amoroso fazem o ano formoso.”

Mais um interessante adágio, muito utilizado na Fajã Grande, anos cinquenta. Da conjugação das características dos três principais meses de sementeiras – Abril, Maio e Junho – ter-se-iam as condições para um bom ano agrícola. Primeiro a chuva de Abril, para regar e adubar os campos em abundância, tornando-os férteis. Uma vez semeados, as fortes ventanias podiam concentrar-se em Maio, pois como os produtos\ estavam a nascer, o vento não os prejudicava. O que precisavam para crescer e fortificar era da calmaria, do Sol e do bom tempo de Junho, qualidades que o povo considerava como suas amigas e por isso o epitetava de Junho amoroso.

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publicado por picodavigia2 às 17:01

TERÇA FEIRA DE ESPÌRITO SANTO EM SÃO CAETANO DO PICO

Terça-feira, 10.06.14

Assim é designado o dia de hoje em São Caetano, onde, como em todas as outras freguesias do Pico e nas restantes ilhas açorianas, duma ou de outra forma, as festas em honra e louvor do Divino Espírito Santo dominam esta época do ano. Inigualáveis nos seus formatos e transcendentes na sua essência, estas festas sentem-se e vivem-se, ainda hoje, com a mesma intensidade e devoção de outrora e são repletas de sentimentos intensos, de vivências solidárias, de recordações míticas, de extravagâncias deliciosas e de promessas que o tempo não apagou. Além disso, as pessoas que nelas emergem, incluindo os mais jovens, quer responsabilizando-se pela sua concretização, quer ajudando nos seus arranjos e preparativos, bem como as que a elas se ligam apenas como espectadores, fazem-no com uma dedicação inexaurível, com um empenhamento notável, com um espírito de doação e de partilha transcendentes e com uma abnegação infinita. As festas do Espírito Santo, ontem como hoje, fazem parte íntegra do quotidiano dos açorianos, que com elas como que se identificam e se consubstanciam

 Estas festas, para além da parte litúrgica, onde sobressaem a celebração da eucaristia, o terço cantado e a organização de procissões e cortejos, constam, geralmente, da distribuição e da partilha da carne e do pão, outrora apenas junto dos mais pobres, hoje extensiva a todos. Na ilha do Pico, no entanto, e mais concretamente em São Caetano, este sentido de partilha tem um significado ainda mais abrangente e a ela estão ligados rituais e costumes ancestrais, geralmente relacionados com promessas feitas pelos antepassados em momentos de enorme angústia e aflição, em virtude de crises sísmicas, catastróficas, acontecidas na altura, durante as quais o povo solicitava o auxílio divino para travar as correntes de lava que arrasavam a ilha, destruindo habitações, povoados e culturas. Na realidade, os festejos em honra e louvor do Divino Espírito Santo constituem, na ilha montanha, uma genuína tradição muito provavelmente trazida pelos primeiros povoadores e implementada com um cunho religioso e cultural muito forte, mantendo-se, ainda hoje, com rituais e celebrações muito semelhantes às dos tempos antigos, com destaque para um inusitado e interessante cerimonial em que os "imperadores" levam, em procissão, a coroa, até à igreja, com a qual são “coroados” no fim da missa e ainda para a "função" que consiste fundamentalmente na participação colectiva num almoço em que praticamente toda a população da freguesia toma parte, sentando-se à mesma mesa, saboreando as típicas e tradicionais sopas do Senhor Espírito Santo. Mas o que mais revela este sentido de partilha mútua e de comunhão recíproca das festas do Espírito Santo do Pico é o facto de em São Caetano, como em todas as freguesias do Pico e até em alguns lugares da mesma freguesia, também se distribuir por todos os habitantes e também pelos forasteiros massa sovada, numas localidades sob a forma de pão, noutras de rosquilhas e noutras de vésperas.

A freguesia de São Caetano do Pico celebra a sua festa em honra do Divino na terça-feira a seguir ao domingo de Pentecostes, designada por “Terça-feira do Espírito Santo”. Nos meses anteriores “atestam-se” ou “arrolam-se” os irmãos que vão “dar”, a tradicional rosquilha. Cada irmão pode contribuir com um ou com meio açafate, sendo o primeiro de trinta rosquilhas e o segundo de quinze. Quem o entender, normalmente por não ter possibilidade de cozer a massa, pode substituir o açafate do pão por equivalente valor em dinheiro, contribuindo assim para as várias despesas da festa, nomeadamente para a compra das rezes e de outras iguarias destinadas a confeccionar a refeição comunitária que se realiza no dia da festa. É que o almoço conjunto de toda ou quase toda a população da freguesia e alguns convidados constitui um dos momentos altos deste dia.

Durante a semana que antecede a festa, canta-se o terço junto das insígnias, colocadas na sala da casa do mordomo, devidamente ornamentada. Trata-se de um conjunto de invocações ao Espírito Santo, cantadas de forma repetitiva e com uma estrutura semelhante à do terço habitual.

No dia da festa, alta madrugada ouve-se o foguete anunciador do início do cozer da carne. Esta, depois de devidamente temperada, é colocada em mais de uma dúzia de gigantescos tachos, onde vai cozendo lentamente e formando um saboroso caldo com o qual se irá regar o pão partido a meio, acamado em terrinas e coberto com folhas de hortelã. Antes da missa forma-se o cortejo, com destino à igreja, sendo as coroas transportadas por meninas familiares ou convidadas do mordomo, ricamente vestidas e pelo próprio mordomo, enquanto a bandeira é levada conjuntamente por um casal, umas e outras dentro de quadrados formados por varas, seguradas por irmãos. À frente, crianças, aos pares, semeiam o chão de pétalas de flores. Seguem-se conjuntamente os foliões com tambor, pandeiro e insígnias, a filarmónica e o povo. Terminada a missa procede-se à “coroação do mordomo”, rito que consiste na imposição da coroa na sua cabeça, pelo celebrante, ao som do “Veni Creator”, agora numa adaptação vernácula “Vinde Espírito Paráclito”. O cortejo regressa ao local onde é servido, na presença da coroa e da bandeira, a refeição, sendo esta constituída pelas tradicionais sopas, carne assada e arroz doce, tudo regado com vinho de cheiro. Durante o almoço é revelado o nome do futuro mordomo, através de voto secreto de cada irmão.

A festa e o convívio continuam durante o arraial da tarde, com quermesse, concerto da filarmónica e o petiscar das favas guisadas, dos caranguejos, das lapas tudo acompanhado com copos de vinho de cheiro, ainda a transpirar o perfume negro da lava basáltica, durante a qual se distribui pão e carne pelos pobres, doentes e acamados, terminam com o seu ponto alto ou seja, com a distribuição das rosquilhas, uma por cada habitante ou forasteiro que participe na festa ou simplesmente passe, por mero acaso, pela freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 10:04


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