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FESTAS DO ESPÌRITO SANTO NA FAJÃ GRANDE DAS FLORES

Domingo, 08.06.14

Na freguesia da Fajã Grande, ilha das Flores, nos anos cinquenta, existiam seis impérios: quatro do Espírito Santo e dois de São Pedro. Os impérios eram espécies de associações ou agremiações de mordomos ou seja, de pessoas que constituíam um império. Qualquer pessoa, mesmo que não residisse na freguesia, poderia ser mordomo num ou em mais do que um dos impérios.

Os impérios do Espírito Santo, destinavam-se aos adultos e os de São Pedro às crianças, distinguindo-se, apenas, pela coroa que, no caso dos segundos, era bem mais pequenina do que a dos primeiros. Eram os seguintes, os impérios fajãgrandense: Império do Espírito Santo da Casa de Cima; Império do Espírito Santo da Casa de Baixo; Império do Espírito Santo da Ponta; Império de Espírito Santo da Cuada; Império de São Pedro da Fajã Grande; Império de São Pedro da Ponta.

Apenas os quatro impérios do Espírito Santo tinham sedes próprias, denominadas casas do Espírito Santo. Eram edifícios amplos, semelhantes a ermidas, mas embora tendo altar, não era celebrada missa e que estavam disponíveis para outros fins. A casa do Espírito Santo de Baixo foi escola durante dezenas de anos e a de Cima sede da Filarmónica, servindo também como salão de visita e de sala VIP da freguesia.

Cada império tinha os seus símbolos, os seus foliões e outros bens. Os símbolos eram a coroa (uma ou duas por império) e as bandeiras. Estas eram brancas e vermelhas, sendo que a branca simbolizava o pão e a vermelha a carne. Cada império tinha apenas uma bandeira branca e várias vermelhas. A bandeira branca era menos importante do que a vermelha: seguia à frente dos cortejos, era transportada por uma criança sem varas laterais e ficava à porta da igreja, enquanto as vermelhas eram transportadas por meninas, dentro de quadrados de varas e eram colocadas junto ao altar, ao lado da coroa, durante a missa. Para além destas bandeiras ambulantes, havia as fixas, bem maiores, mas também uma vermelha e outra branca, colocadas no mastro, em frente à casa

Cada império tinha os seus foliões que acompanhavam os cortejos e cantavam as alvoradas, nas terças, quintas e sábados que antecediam a festa. O canto dos foliões era acompanhado de um tambor e dos pratos e, nalguns casos, da pandeireta. Além disso, cada império tinha as varas e outro material, destinado à matança do gado, ao partir da carne e do pão e à organização da festa.

O objectivo principal de cada império era louvar o Divino Espírito Santo, sobretudo através da partilha da carne e do pão pelos mordomos e pelos pobres que não podiam ser mordomos, ou que, sendo-o não podiam pagar a carne. Este objectivo concretizava-se através da realização duma festa em cada ano, no dia de Pentecostes ou nos domingos subsequentes. Os impérios de São Pedro faziam-na no dia liturgicamente dedicado ao santo, ou seja 29 de Junho, na altura, dia santo abolido.

Os cabeças eram os responsáveis, em cada ano, pela festa que tinha três momentos importantes: o matar do gado, na sexta-feira, o benzer da carne e a sua distribuição pelas casas dos mordomos acompanhados da coroa, bandeiras e foliões, no sábado e a festa no domingo. Esta consistia num cortejo solene para a igreja, missa festiva e o regresso à casa, onde se prolongavam os festejos profanos por toda a tarde, com jogos, bailes, arraial e distribuição gratuita de fatias de massa sovada, vinho abafado e licores a todos os presentes. Ao anoitecer, antes de encerrar a festa, eram deitadas as sortes para escolher os cabeças para o ano seguinte. O processo de escolha processava-se de forma muito peculiar: eram colocados dentro da coroa os nomes de um conjunto de  mordomos, excluindo doentes, velhos, mulheres, emigrantes e outros julgados incapazes ou indisponíveis. Depois de ali colocados, uma criança retirava três papéis, que eram abertos e lidos na presença de todos, revelando os nomes dos sorteados. Mas se os cabeças do ano em curso tivessem feito uma festa que tivesse agradado à maioria dos mordomos, alguém, à socapa e sem que os cabeças se apercebessem, enquanto realizavam esta operação, pegava numa das bandeiras e tentava cobri-los com ela. Se o conseguisse com sucesso, a operação parava de imediato, ficava sem efeito e eles seriam os cabeças no ano seguinte.

De seguida realizava-se o último acto das festas: Levar as sortes. Organizava-se um novo cortejo, já de noite, com foliões, coroa, bandeira e os mordomos, com destino a casa dos novos cabeças, com o objectivo de lhes anunciar o mandato recebido através das sortes.

Durante a semana que precedia a festa, à noite; cantavam-se as alvoradas e o povo juntava-se na casa, convivendo através de jogos, bailes e, no sábado. com distribuição de fatias de massa sovada, vinho abafado e licores por todos. Os foliões tinham músicas específicas para cada momento ou cortejo. Esclareça-se também que em todos os domingos entre a Páscoa e o Pentecostes, as coroas e bandeiras de cada império, em cortejo separados deslocavam-se à igreja para a missa. Aguardavam uns pelos outos, à porta da igreja e eram recebidos pelo pároco que as acompanhava até aos altares laterais, onde eram colocadas, enquanto entoava o “Veni Creator”. Apenas as bandeiras brancas ficavam ao fundo da igreja.

Acrescente-se também que num desses domingos, de tarde, os cabeças, em cortejo, com os foliões e os símbolos, percorriam as casas dos mordomos, a fim de saber a quantidade de carne que pretendiam, pois cada um é que pagava a sua, e se davam ou não davam pão de trigo. Só feitas as contas escolhiam as reses a abater. O pão oferecido pelos que o tinham e o excedente de carne era distribuído pelos mordomos pobres ou pelos pobres da freguesia que nem mordomos eram.

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publicado por picodavigia2 às 16:31





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