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TERÇA FEIRA DE ESPÌRITO SANTO EM SÃO CAETANO DO PICO

Terça-feira, 10.06.14

Assim é designado o dia de hoje em São Caetano, onde, como em todas as outras freguesias do Pico e nas restantes ilhas açorianas, duma ou de outra forma, as festas em honra e louvor do Divino Espírito Santo dominam esta época do ano. Inigualáveis nos seus formatos e transcendentes na sua essência, estas festas sentem-se e vivem-se, ainda hoje, com a mesma intensidade e devoção de outrora e são repletas de sentimentos intensos, de vivências solidárias, de recordações míticas, de extravagâncias deliciosas e de promessas que o tempo não apagou. Além disso, as pessoas que nelas emergem, incluindo os mais jovens, quer responsabilizando-se pela sua concretização, quer ajudando nos seus arranjos e preparativos, bem como as que a elas se ligam apenas como espectadores, fazem-no com uma dedicação inexaurível, com um empenhamento notável, com um espírito de doação e de partilha transcendentes e com uma abnegação infinita. As festas do Espírito Santo, ontem como hoje, fazem parte íntegra do quotidiano dos açorianos, que com elas como que se identificam e se consubstanciam

 Estas festas, para além da parte litúrgica, onde sobressaem a celebração da eucaristia, o terço cantado e a organização de procissões e cortejos, constam, geralmente, da distribuição e da partilha da carne e do pão, outrora apenas junto dos mais pobres, hoje extensiva a todos. Na ilha do Pico, no entanto, e mais concretamente em São Caetano, este sentido de partilha tem um significado ainda mais abrangente e a ela estão ligados rituais e costumes ancestrais, geralmente relacionados com promessas feitas pelos antepassados em momentos de enorme angústia e aflição, em virtude de crises sísmicas, catastróficas, acontecidas na altura, durante as quais o povo solicitava o auxílio divino para travar as correntes de lava que arrasavam a ilha, destruindo habitações, povoados e culturas. Na realidade, os festejos em honra e louvor do Divino Espírito Santo constituem, na ilha montanha, uma genuína tradição muito provavelmente trazida pelos primeiros povoadores e implementada com um cunho religioso e cultural muito forte, mantendo-se, ainda hoje, com rituais e celebrações muito semelhantes às dos tempos antigos, com destaque para um inusitado e interessante cerimonial em que os "imperadores" levam, em procissão, a coroa, até à igreja, com a qual são “coroados” no fim da missa e ainda para a "função" que consiste fundamentalmente na participação colectiva num almoço em que praticamente toda a população da freguesia toma parte, sentando-se à mesma mesa, saboreando as típicas e tradicionais sopas do Senhor Espírito Santo. Mas o que mais revela este sentido de partilha mútua e de comunhão recíproca das festas do Espírito Santo do Pico é o facto de em São Caetano, como em todas as freguesias do Pico e até em alguns lugares da mesma freguesia, também se distribuir por todos os habitantes e também pelos forasteiros massa sovada, numas localidades sob a forma de pão, noutras de rosquilhas e noutras de vésperas.

A freguesia de São Caetano do Pico celebra a sua festa em honra do Divino na terça-feira a seguir ao domingo de Pentecostes, designada por “Terça-feira do Espírito Santo”. Nos meses anteriores “atestam-se” ou “arrolam-se” os irmãos que vão “dar”, a tradicional rosquilha. Cada irmão pode contribuir com um ou com meio açafate, sendo o primeiro de trinta rosquilhas e o segundo de quinze. Quem o entender, normalmente por não ter possibilidade de cozer a massa, pode substituir o açafate do pão por equivalente valor em dinheiro, contribuindo assim para as várias despesas da festa, nomeadamente para a compra das rezes e de outras iguarias destinadas a confeccionar a refeição comunitária que se realiza no dia da festa. É que o almoço conjunto de toda ou quase toda a população da freguesia e alguns convidados constitui um dos momentos altos deste dia.

Durante a semana que antecede a festa, canta-se o terço junto das insígnias, colocadas na sala da casa do mordomo, devidamente ornamentada. Trata-se de um conjunto de invocações ao Espírito Santo, cantadas de forma repetitiva e com uma estrutura semelhante à do terço habitual.

No dia da festa, alta madrugada ouve-se o foguete anunciador do início do cozer da carne. Esta, depois de devidamente temperada, é colocada em mais de uma dúzia de gigantescos tachos, onde vai cozendo lentamente e formando um saboroso caldo com o qual se irá regar o pão partido a meio, acamado em terrinas e coberto com folhas de hortelã. Antes da missa forma-se o cortejo, com destino à igreja, sendo as coroas transportadas por meninas familiares ou convidadas do mordomo, ricamente vestidas e pelo próprio mordomo, enquanto a bandeira é levada conjuntamente por um casal, umas e outras dentro de quadrados formados por varas, seguradas por irmãos. À frente, crianças, aos pares, semeiam o chão de pétalas de flores. Seguem-se conjuntamente os foliões com tambor, pandeiro e insígnias, a filarmónica e o povo. Terminada a missa procede-se à “coroação do mordomo”, rito que consiste na imposição da coroa na sua cabeça, pelo celebrante, ao som do “Veni Creator”, agora numa adaptação vernácula “Vinde Espírito Paráclito”. O cortejo regressa ao local onde é servido, na presença da coroa e da bandeira, a refeição, sendo esta constituída pelas tradicionais sopas, carne assada e arroz doce, tudo regado com vinho de cheiro. Durante o almoço é revelado o nome do futuro mordomo, através de voto secreto de cada irmão.

A festa e o convívio continuam durante o arraial da tarde, com quermesse, concerto da filarmónica e o petiscar das favas guisadas, dos caranguejos, das lapas tudo acompanhado com copos de vinho de cheiro, ainda a transpirar o perfume negro da lava basáltica, durante a qual se distribui pão e carne pelos pobres, doentes e acamados, terminam com o seu ponto alto ou seja, com a distribuição das rosquilhas, uma por cada habitante ou forasteiro que participe na festa ou simplesmente passe, por mero acaso, pela freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 10:04





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