Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



NO FAIAL

Quinta-feira, 19.06.14

Foi esta a Horta que José Pereira de Azevedo encontrou, quando chegou ao Faial, juntamente com a mulher e o filho e onde, a sua vida, não foi fácil. Impedido de entrar no porto da Horta, a quando da sua chegada do Pico, devido aos anunciados contágios provocados pela peste, o batelão em que viajara, juntamente com a mulher e o filho, desde o Lajido até à Horta, fora deslocado para a baía de Porto Pim, situada a este do Monte da Guia, na parte ocidental da vila e onde se ultimavam as obras da nova e moderna Bombardeira que substituíra o antigo Reduto da Patrulha, uma espécie de forte, com uma muralha anexa. Este forte conjuntamente com os de São Sebastião, Creta, Santa Cruz, Bom Jesus e Lagoa constituíam a robusta estrutura defensiva da vila e da própria ilha. As autoridades marítimas haviam questionado a razão da sua entrada no Faial, informando-o de que a situação, na ilha, era dramática. A peste continuava a alastrar-se, o número de pessoas atingidas aumentava assustadoramente, de dia para dia, e a assistência aos contagiados era quase nula. Mas voltar para o Pico tornava-se de todo impossível e Madalena nunca o havia de aceitar. Fixar-se, para já, ali na ilha, num lugar isolado, fora da vila, onde a peste ainda não tivesse grassado, era a solução mais viável para o pesado estigma que carregava José Pereira de Azevedo.

Saltando do batelão para terra com desenvoltura, ajudando a mulher que transportava um cesto à cabeça e ao colo o pequeno António que adormecera durante a viagem e carregando aos ombros dois sacos e duas pequenas cestas, transportados de palanca e que continham os seus parcos haveres, José Pereira de Azevedo chegou, finalmente a terra firme. O forte de Porto Pim começava a erguer-se, ali, numa curiosa modernidade, constituído por uma bateria elevada sobre o extradorso de uma abóbada de dois compartimentos, a que acedida por uma escada de três lanços e com o terreiro, ainda a abarrotar de pedregulhos, paus, tábuas, vigas temões e vestígios de argamassa, a abrir três canhoneiras onde as peças de artilharia, ainda posicionadas sobre o último lance e o pátio superior da escada, permaneciam inertes, à espera do posicionamento que lhes facilitasse e lhes desbloqueasse o seu débil e quase inerte funcionamento.

De seguida, informou-se junto de um sargento da guarda costeira sobre os locais da ilha ou dos povoados pertos da vila e do mar, mais seguros, a evitar contágios e transmissões da famigerada peste, sendo-lhe dito que ali para os lados do Pasteleiro havia sítio mais protegido. Pelo menos, dizia-se à socapa, que muitas pessoas oriundas das várias freguesias da vila e até de fora, ali se tinham refugiado, antes de serem atingidas pelo fatídico contágio, evitando, assim, contactos com infectados. Ele próprio, António Ramos, sargento da guarda costeira, ao serviço de Sua Majestade El Rei D. João e da defesa da ilha, ali se havia refugiado com a família.

Encaminhou-se, pois, José Pereira com a mulher e o filho na direcção do local indicado, caminhando para o lado oeste da vila, atravessando ruas desertas e caminhos despovoados, carregando aos ombros, ele, os dois pesados sacos de serapilheira, onde Madalena, ainda em Santa Luzia, arrumara algumas roupas e os agasalhos julgados necessários para eles e sobretudo para o filho. Ela, por sua vez, com o pimpolho encavalitado em cima de uma das ancas e apertando-o fortemente contra o seu próprio corpo, carregava à cabeça um cesto, com alguns utensílios domésticos e uns nacos de bolo, o pouco que contavam para, nos primeiros dias, alimentar o pequeno António, na esperança de que sobejasse algo para eles próprios.

O Pasteleiro constituía um dos mais importantes lugares dos subúrbios da pequena vila. Fora ali, entre a Baia da Horta e a Enseada de Porto Pim, que, nos primórdios do povoamento da ilha, se havia estabelecido Joss van Hurtere, no longínquo ano de 1467, fundando o sítio de Santa Cruz, que mais tarde dera origem à povoação "de Horta", em homenagem ao seu primeiro habitante. Aos poucos, o povoado foi-se desenvolvendo, crescendo e prolongando, paralelo à baía, até aos contrafortes da Espalamaca, lá para os lados da Conceição. Com o crescer e o desenvolver da vila para este, o lugar do Pasteleiro, que herdara o seu nome do negócio do pastel que por ali se havia desenvolvido em grande escala, decrescera de grandiosidade, de importância e de prestígio. Agora era um pequeno lugar de casas escuras, basálticas, muitas delas ainda cobertas de colmo e de palha e com portas e janelas sem vidraças, no meio das quais se destacava algumas já de alvenaria, uma outra com vestígios de antigo paço senhorial e a ermida de Santa Bárbara, construída anos antes, em substituição da de Santa Cruz, o primeiro edifício religioso construído no Faial e mandada erguer em memória do desembarque dos primeiros povoadores. Nela haviam sido sepultados Joss van Hurtere e sua esposa, Beatriz de Macedo.    

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 20:52

CONSUMIÇÕES

Quinta-feira, 19.06.14

Naquela tarde de sexta-feira, andava ele de um lado para o outro da sacristia em penumbra. Sentia-se cansado. Apetecia-lhe, como nunca, uma hora de sono. Nem que para isso tivesse que se deitar nas escadas do altar-mor... Mas qual quê? Havia de haver sempre uma alma a precisar fosse do que fosse. E ele que não era capaz de se negar a um pedido, viesse de quem viesse, e a qualquer hora. Para mais, e agora que a festa da padroeira se aproximava, faltara-lhe o único seminarista, desistido, já quase no fim do curso, e embarcado por terras do continente. E eram confissões, batizados, missas, enterros, casamentos... Uma eternidade de serviços e biscatos do ofício em tudo o que era curato e paróquia onde faltava padre. A somar a tudo isso (ou diminuir, que ele já andava confuso na matemática do compromisso) eram também as aulas no ciclo, para garantia da reforma e fuga à rotineira Ali estava, desacrescentando, do frenesim em que constantemente vivia, uns minutos para reflectir sobre o que iria dizer nas missas de domingo. Para sua própria desconsolação, nunca se habituara a falar de coração. Sempre o maldito papel a segurar-lhe, pelo colarinho, os entusiasmos. Desde o  domingo em que proferira a primeira homilia, apoderou-  -se dele uma  preocupação medrosa que o tem obrigado a preparar por escrito tudo o que diz aos crentes. Do púlpito abaixo, claro. Que, cá fora, as palavras conversadas com o povo vestiam paramentos de outra tonalidade. Mas, enfim. Lá teria que ser, e o tem-que-ser tem muita força, como lhe dizia um velho amigo. Não fosse o diabo tecê-las, e o bispo acabar por chamá-lo à pedra, e, por via disso, ele, padre-pedro-pedra-pomes (Gostava de se chamar assim, por motivos e razões muito suas.), vir a despir a sotaina. Pelo que, era mister sentar-  -se, e escrever a prédica para o fim de semana que aí estava. Mãos entrelaçadas por detrás da nuca, deu mais duas voltas à sala. Encostou a porta que dava para a capela do Sagrado Coração. Fechou-se no escritório. Porém, o sossego tão apetecido foi sol de pouco dura. Com efeito, ainda mal se sentara à secretária, e já o sacristão batia à porta para o avisar de que ia mandar entrar os primeiros rapazes da comunhão solene que começavam a chegar para a preparação. Diabo, que era verdade! Tinha-se esquecido. Era isso. Andava com muita coisa na cabeça. E, numa toada de quase queixume, pediu ao Ti João que os fosse enxotando para dentro. E agora? O que é que iria dizer à garotada? Lembrou-se de que lhes tinha prometido responder, nesta última sessão preparatória, a uma das muitas perguntas que a miudagem lhe fazia e que, por regra, só tinham a ver com  a verdadeira e real humanidade de Jesus. Choviam questões sobre se Nosso Senhor tinha irmãos, primos, tios. E tinha padrinhos? Eram ricos? Qual era o emprego dele? São José era carpinteiro – isso tinha ficado assente. A mãe não podia ser outra que não a do Menino Jesus. E, o que é que ele comia? Com quem brincara em pequenino? Quem é que lhe tinha arranjado o nome. E que o sô padre Pedro lhes explicasse melhor aquela de Jesus, que era Deus todo-poderoso, nem sequer ter tido um buraquinho para morar com os apóstolos. Então ele não tinha casa? Um puto mais espertalhote até lhe atirara com a difícil questão de os melrinhos do céu terem os seus ninheiros, e Jesus, coitadinho, andar sem eira nem beira. O sô padre Pedro queria então dizer-lhes que Nosso Senhor andava ao deus-dará nas ruas da Terra Santa? Tinha que lhes responder a tudo isso para que não minguasse a pouca fé que já por alí abundava. Com um sorriso condescendente para consigo e a maltinha nova, afastou para o lado toda papelada, ali ao monte, a pedir despacho. Empurrou a cadeira. Curvou-se um pouco mais, até que a cabeça poisou sobre a secretária. Ia-lhes falar sobre a casa, sobre as avezinhas do céu com seus ninhos. E, no silêncio dos santos e das trindades, cansado, cerrou os olhos...

 

J.F.Costa

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 19:24





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Junho 2014

D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
2930