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ALMEIDA FIRMINO

Segunda-feira, 09.06.14

O poeta João Júlio Almeida Caldeira Firmino nasceu em Portalegre, em 1934 e faleceu em São Roque, ilha do Pico, em 1977. No liceu de Portalegre, onde não chegou a concluir o ensino secundário, foi aluno de José Régio que acabou por influenciar o seu gosto pela escrita. Nessa altura publicou os seus primeiros poemas e, em 1953, rumou em direcção aos Açores na companhia do pai que foi colocado na secretaria do tribunal de Angra do Heroísmo. Trabalhou na Base das Lajes e após o serviço militar regressou aos Açores. Foi então colocado em São Roque do Pico, como escriturário do tribunal, onde viveu até ao fim dos seus dias. A partir de 1957, iniciou a publicação de vários livros de poesia, que acabaram por ser reunidos, posteriormente, num só volume, com o título de Narcose. É um poeta da geração da Gávea, revista de arte de que foi um dos co-directores, conjuntamente com Emanuel Félix e Rogério Silva. Colaborou em vários jornais e revistas, considerando-se açoriano de opção. Segundo alguns críticos, a sua poesia caracterizad-se por um «idealismo humanitário, de arrepio e inquietação, formalmente de expressão moderna e vanguardista, ao mesmo tempo que pessoal» Obras principais: Saudade Dividida, Novembro, cidade dos crisântemos esquecidos, Ilha Maior, Em Memória de Mim: antologia, Não queremos bombas na cidade. Angra do Heroísmo, Ed. do Autor. (1973), Lápide para a cidade, Tailândia e Narcose, obra poética completa.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

 

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publicado por picodavigia2 às 10:26

AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO EM MAU TEMPO NO CANAL DE VITORINO NEMÉSIO

Segunda-feira, 09.06.14

Vitorino Nemésio, no seu romance “Mau Tempo no Canal”, no capítulo XVIII – “No Tempo da Frol” -, refere-se às festas do Espírito Santo nos Açores, mais concretamente, na ilha do Faial, onde descreve a função da irmã de Manuel Bana, na freguesia do Capelo:

«Em meados de Abril, Margarida andava ocupada com a perspectiva da «função» que a irmã de Manuel Bana ia dar no Capelo.

As festas do Espírito Santo enchem a primavera das ilhas de um movimento fantástico, como se homens e mulheres, imitando os campos, florissem. Da Páscoa ao Pentecostes e à Santíssima Trindade são sete ou oito semanas de ritos de uma espécie de florália cristã adaptados à vida da lavoura, dos pastos carregados de humidade e de trevo no meio das escórias de lava – o «Mistério». Em vão, os bispos de Angra, talvez lembrados do que deviam à sucessão de D. Fr. Jorge de Santiago e à sua douta luta pela pureza da fé e do culto nas sessões do Concílio de Trento, tentavam desterrar da religião insulana aquelas estranhas práticas: o Paráclito entre círios e olhos de raparigas ardentes, o Veni creator cantado ao rés do transepto cheio de vestidos leves. O próprio abuso dos «foliões» trajando a opa dos bobos e dançando a toque de caixa, em plena capela-mor, foi reprimido a custo. A alma do ilhéu é cândida e tenaz: quer um Deus vivo e alegre; chama-o à intimidade do seu pão e das suas ervas húmidas. Deus lhe perdoe…

O Espírito Santo aberto numa pomba de prata ao topo de uma coroa real, liga o Pai do Céu aos seus filhos das ilhas dos Açores como a própria ave que marcava nos portulanos de Maiorca e de Veneza  aquelas paragens mortas: Insula Columbi… Insula Corvi Marini… Primaria sive Puellarum…

… Ou ilha das Meninas. Um bando delas, em filas que semeiam os caminhos de rosas e madressilva, Publicado em 27/05levam o “emblema do divino Espírito Santo” a casa do pobre e do rico. O “alferes da bandeira” desfralda o estandarte de uma realeza de sonho, império de pão dourado. Vêm os “vereadores” com varas de mordomos, o “pajem da coroa” investido na grandeza do reino, a criança ou o pobre de pedir coroados pelo sacerdote. Fecha o cortejo a fanfarra e o esturro bufado dos foguetes. – “Imparador do séisto domingo: Chico Bana!” – tum, tum.

Botas novas, rodadas de rosquilhas e aguardente no giro das bandejas de lata, um trono a arder de círios e rosas abertas no canto da casa térrea. “Vamos a antrar cá pâr’dentro! Toca a gastar, senhores!” – E assim os sete dias.»

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publicado por picodavigia2 às 01:11

FESTAS DO ESPÌRITO SANTO NA FAJÃ GRANDE DAS FLORES

Domingo, 08.06.14

Na freguesia da Fajã Grande, ilha das Flores, nos anos cinquenta, existiam seis impérios: quatro do Espírito Santo e dois de São Pedro. Os impérios eram espécies de associações ou agremiações de mordomos ou seja, de pessoas que constituíam um império. Qualquer pessoa, mesmo que não residisse na freguesia, poderia ser mordomo num ou em mais do que um dos impérios.

Os impérios do Espírito Santo, destinavam-se aos adultos e os de São Pedro às crianças, distinguindo-se, apenas, pela coroa que, no caso dos segundos, era bem mais pequenina do que a dos primeiros. Eram os seguintes, os impérios fajãgrandense: Império do Espírito Santo da Casa de Cima; Império do Espírito Santo da Casa de Baixo; Império do Espírito Santo da Ponta; Império de Espírito Santo da Cuada; Império de São Pedro da Fajã Grande; Império de São Pedro da Ponta.

Apenas os quatro impérios do Espírito Santo tinham sedes próprias, denominadas casas do Espírito Santo. Eram edifícios amplos, semelhantes a ermidas, mas embora tendo altar, não era celebrada missa e que estavam disponíveis para outros fins. A casa do Espírito Santo de Baixo foi escola durante dezenas de anos e a de Cima sede da Filarmónica, servindo também como salão de visita e de sala VIP da freguesia.

Cada império tinha os seus símbolos, os seus foliões e outros bens. Os símbolos eram a coroa (uma ou duas por império) e as bandeiras. Estas eram brancas e vermelhas, sendo que a branca simbolizava o pão e a vermelha a carne. Cada império tinha apenas uma bandeira branca e várias vermelhas. A bandeira branca era menos importante do que a vermelha: seguia à frente dos cortejos, era transportada por uma criança sem varas laterais e ficava à porta da igreja, enquanto as vermelhas eram transportadas por meninas, dentro de quadrados de varas e eram colocadas junto ao altar, ao lado da coroa, durante a missa. Para além destas bandeiras ambulantes, havia as fixas, bem maiores, mas também uma vermelha e outra branca, colocadas no mastro, em frente à casa

Cada império tinha os seus foliões que acompanhavam os cortejos e cantavam as alvoradas, nas terças, quintas e sábados que antecediam a festa. O canto dos foliões era acompanhado de um tambor e dos pratos e, nalguns casos, da pandeireta. Além disso, cada império tinha as varas e outro material, destinado à matança do gado, ao partir da carne e do pão e à organização da festa.

O objectivo principal de cada império era louvar o Divino Espírito Santo, sobretudo através da partilha da carne e do pão pelos mordomos e pelos pobres que não podiam ser mordomos, ou que, sendo-o não podiam pagar a carne. Este objectivo concretizava-se através da realização duma festa em cada ano, no dia de Pentecostes ou nos domingos subsequentes. Os impérios de São Pedro faziam-na no dia liturgicamente dedicado ao santo, ou seja 29 de Junho, na altura, dia santo abolido.

Os cabeças eram os responsáveis, em cada ano, pela festa que tinha três momentos importantes: o matar do gado, na sexta-feira, o benzer da carne e a sua distribuição pelas casas dos mordomos acompanhados da coroa, bandeiras e foliões, no sábado e a festa no domingo. Esta consistia num cortejo solene para a igreja, missa festiva e o regresso à casa, onde se prolongavam os festejos profanos por toda a tarde, com jogos, bailes, arraial e distribuição gratuita de fatias de massa sovada, vinho abafado e licores a todos os presentes. Ao anoitecer, antes de encerrar a festa, eram deitadas as sortes para escolher os cabeças para o ano seguinte. O processo de escolha processava-se de forma muito peculiar: eram colocados dentro da coroa os nomes de um conjunto de  mordomos, excluindo doentes, velhos, mulheres, emigrantes e outros julgados incapazes ou indisponíveis. Depois de ali colocados, uma criança retirava três papéis, que eram abertos e lidos na presença de todos, revelando os nomes dos sorteados. Mas se os cabeças do ano em curso tivessem feito uma festa que tivesse agradado à maioria dos mordomos, alguém, à socapa e sem que os cabeças se apercebessem, enquanto realizavam esta operação, pegava numa das bandeiras e tentava cobri-los com ela. Se o conseguisse com sucesso, a operação parava de imediato, ficava sem efeito e eles seriam os cabeças no ano seguinte.

De seguida realizava-se o último acto das festas: Levar as sortes. Organizava-se um novo cortejo, já de noite, com foliões, coroa, bandeira e os mordomos, com destino a casa dos novos cabeças, com o objectivo de lhes anunciar o mandato recebido através das sortes.

Durante a semana que precedia a festa, à noite; cantavam-se as alvoradas e o povo juntava-se na casa, convivendo através de jogos, bailes e, no sábado. com distribuição de fatias de massa sovada, vinho abafado e licores por todos. Os foliões tinham músicas específicas para cada momento ou cortejo. Esclareça-se também que em todos os domingos entre a Páscoa e o Pentecostes, as coroas e bandeiras de cada império, em cortejo separados deslocavam-se à igreja para a missa. Aguardavam uns pelos outos, à porta da igreja e eram recebidos pelo pároco que as acompanhava até aos altares laterais, onde eram colocadas, enquanto entoava o “Veni Creator”. Apenas as bandeiras brancas ficavam ao fundo da igreja.

Acrescente-se também que num desses domingos, de tarde, os cabeças, em cortejo, com os foliões e os símbolos, percorriam as casas dos mordomos, a fim de saber a quantidade de carne que pretendiam, pois cada um é que pagava a sua, e se davam ou não davam pão de trigo. Só feitas as contas escolhiam as reses a abater. O pão oferecido pelos que o tinham e o excedente de carne era distribuído pelos mordomos pobres ou pelos pobres da freguesia que nem mordomos eram.

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publicado por picodavigia2 às 16:31

A LENDA DA PEDRA VERMELHA

Sábado, 07.06.14

Na Fajã Grande, entre o Vale Fundo e o Espigão, havia um lugar chamado Pedra Vermelha, sobre o qual se contava a seguinte lenda:

Há muitos anos, dois jovens apaixonaram-se perdidamente, um pelo outro. Os pais, inimigos ferrenhos, opuseram-se ao casamento. No entanto, como os jovens teimassem em viver o seu amor, mesmo contra a vontade dos progenitores, estes furiosos, expulsaram-nos de casa, deserdaram-nos e obrigando-os a irem viver para um lugar ermo, bem longe do povoado. Os jovens, abandonados á sua sorte, caminharam até encontrar a enorme pedra em cuja aba se haviam abrigado. É que a pedra assinalava, precisamente, o local hoje chamado Pedra Vermelha, onde dois jovens, anteriormente e às escondidas, se encontravam para viver seu romance, afastados dos pais.

Ninguém sabe os nomes deles, nem muito menos os dos pais e possivelmente, nunca terão existido. Mas diz a lenda que passado algum tempo o pai da jovem, encontrando o rapaz matou-o, apertando o seu corpo junto ao tronco de uma árvore. O jovem morreu sem que ninguém pudesse ajudá-lo. Cuidava o facínora que, assim, a filha havia de regressar a casa. Diz a lenda que a jovem permaneceu escondida, sozinha, sem ninguém lhe por a vista e que chorou tanto, tanto, durante muito tempo sentada todas as noites sobre pedra e, com muito amor, que esta tomou a cor avermelhada que ainda hoje tem e lhe deu o nome. A rapariga dedicou aquele local aos que buscam encontrar o amor verdadeiro, pois muitas vezes, na sua dor, ela fez ali uma oração a Deus, pedindo que cada casal que, sentados naquela pedra, dessem um beijo de amor, passariam a ter a felicidade com a qual ela sonhou e que não conseguiu alcançar.

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publicado por picodavigia2 às 09:13

FESTAS DO ESPÍRITO SANTO

Sábado, 07.06.14

Nos Açores, em todas as ilhas, as festas em honra e louvor do Divino Espírito Santo dominam esta altura do ano, atingindo o seu epicentro no domingo de Pentecostes, estendendo-se, no entanto, não apenas nos dias que o antecedem, mas também nos primeiros dias da semana seguinte, repetindo-se ou prolongando-se, em muitas freguesias, até ao domingo da Trindade. Estas festas, para além da parte litúrgica, onde sobressaem as celebrações da eucaristia e a organização de procissões e cortejos, constam geralmente da distribuição e da partilha da carne e do pão, entre todos e, de modo muito especial, junto dos mais pobres.

Na ilha do Pico este sentido de partilha tem um significado ainda mais abrangente e a ela, muito provavelmente, estão ligados rituais e costumes ancestrais, geralmente relacionados com promessas feitas pelos nossos antepassados em momentos de enorme angústia e aflição, em virtude de crises sísmicas devastadoras ou outras catástrofes dramáticas, durante as quais o povo solicitava o auxílio divino para acalmar as correntes de lava ou os ventos ciclónicos que assolavam e arrasavam a ilha, destruindo habitações, povoados e culturas, por vezes, pondo em causa a sobrevivência das populações.

Na realidade, os festejos em honra e louvor do Divino Espírito Santo constituem, na ilha montanha, uma genuína e fortemente enraizada tradição, muito provavelmente trazida pelos primeiros povoadores mas implementada com um cunho religioso e cultural muito forte entre a actual população de toda a ilha, incluindo os mais jovens, mantendo-se, ainda hoje, com rituais e celebrações muito semelhantes às dos tempos antigos, com destaque para um inusitado e interessante cerimonial em que os "imperadores" levam, em procissão, a coroa, até à igreja, com a qual, após a celebração da Eucaristia, são “coroados”. Realce também para a "função", evento peculiar, genuíno e agregador, que consiste, fundamentalmente, na participação colectiva num almoço em que praticamente se integra toda a população da freguesia, para além de muitos convidados, sentando-se à mesma mesa, saboreando as típicas e tradicionais sopas do Senhor Espírito Santo.

Mas o que mais revela este sentido de partilha mútua e de comunhão recíproca das festas do Espírito Santo, no Pico, é o facto de em todas as freguesias e até em alguns lugares de uma mesma freguesia, se distribuir por todos os habitantes e também pelos forasteiros massa sovada, numas localidades sob a forma de pão, noutras de rosquilhas e noutras de vésperas. Esta distribuição obedece a um calendário rígido, histórico e imutável, permitindo assim que a mesma pessoa possa receber o pão doce, não só em dias diferentes mas até, no mesmo dia, em várias freguesias e localidades da ilha. São milhares e milhares as rosquilhas, os pães e as vésperas cozidos, por estes dias, com o primordial objectivo de, simplesmente, os oferecer em louvor do Divino Espírito Santo, facto, aparentemente, tão transcendente que quase imperceptível por quantos visitam, pela primeira vez, a ilha nestes dias.

É o seguinte o calendário de distribuição do pão, oferecido pelos irmãos e levado em cortejo até à igreja para ser benzido, em louvor do Divino Espírito Santo, sendo que, freguesias há que partilham as suas ofertas em mais de um dia:

Sábado véspera de Pentecostes – Silveira.

Domingo de Pentecostes – Bandeiras, Candelária, S. Mateus, Companhia de Baixo (São João), Ribeira do Meio (Lajes), Santa Bárbara (Ribeiras), Calheta do Nesquim, Ribeirinha, Piedade, São Roque, Santo António e Santa Luzia.

Segunda-feira – Valverde (Madalena). Monte (Candelária), Santa Cruz (Ribeiras), Calheta do Nesquim, Ribeirinha, Piedade, Santo Amaro, Prainha do Norte e Cais do Pico (S. Roque).

Terça-feira – Madalena, São Caetano, (Companhia de Cima (São João) e Santa Cruz (Ribeiras).

Esta distribuição tem lugar junto aos "impérios", pequenas e singelas construções tendo no vértice do telhado a pomba branca do Espírito Santo e no frontispício a coroa e a data da construção e que ao longo dos séculos, foram sendo construídas em todas as freguesias e localidades mais importantes da ilha, constituindo um elemento interessante da arquitectura popular açoriana. Actualmente, ao lado de muitos destes pequenos templos construíram-se amplos salões que permitem uma maior funcionalidade a estes tradicionais e únicos festejos.

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publicado por picodavigia2 às 08:50

MATAR O GADO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 06.06.14

Sexta-feira, 7 de Junho de 1946

“Domingo que vem, ou seja, depois de amanhã vai ser o dia da festa do Senhor Espírito Santo da Casa de Baixo. Como é costume desde há muitos anos, vai ser uma grande festa, uma festa de arromba, para meter inveja aos da Casa de Cima que fizeram a sua festa há quinze dias. Durante a semana cantaram-se as alvoradas. Só fui lá um dia, que tenho pouco tempo, mas gostei muito. Lembrei-me dos meus tempos de criança, quando ia ver e ouvira folia durante toda a semana. Os cânticos são os mesmos de há setenta anos! Tem lá uns velhotes do meu tempo e um ou outro rapaz novo que deitam foliam muito bem, sim senhor. Os mais velhos vão ensinando estas coisas aos mais novos para que não as esqueçam. A Casa, no dia em que lá fui, estava à pinha! Os foliões começaram a folia fora da porta, com o início da Alvorada, logo depois de atirar o foguete. Fora da porta, cantam a "Alvorada Santa", mas não deitam folia. Depois cantam para entrar. Só foliam quando entram para dentro do edifício. Fazem um círculo, no meio da casa, em frente ao altar onde está a coroa, ao lado das bandeiras e começam a folia, saltitando, dançando e cantando diante do Senhor Espírito Santo. Quando o que está na parte da roda que passa em frente ao altar, esse vira-se ao contrário de modo a que fique de frente para o altar e nunca lhe volte o rabo para não desrespeitar o Senhor Espírito Santo. No fim da Alvorada fica muita gente por ali a fazer jogos, sobretudo o do "Anel" e o das "Prendas". Mas isso é bom é para gente nova e solteira. Assim que acabou a Alvorada, dei dois dedos de conversa com uns do meu tempo e vim logo para casa, até porque a minha Maria não quis ir comigo.

Mas como disse no princípio, hoje de tarde foi o dia de matar o gado. Foi à tardinha. Os dois gueixos que abateram foram comprados ao Raulino, foram trazidos para junto da casa e amarrados junto ao pau da bandeira. Pouco depois organizou-se o cortejo para o Porto, descendo a Via d’Água, até ao matadouro. A coroa e as bandeiras foram levadas por familiares dos cabeças. Atrás os gueixos, os foliões e muita gente. O sino repicou durante toda a tarde, sobretudo na ida e na vinda. Uma vez mortos, esfolados e limpos, os animais foram partidos em quatro bons pedaços que foram transportados, de palanca, aos ombros, em cortejo até à casa, sempre acompanhados pelo cantar dos foliões, pelo repicar dos sinos e por muito povo, sobretudo crianças. As mulheres e familiares dos dois cabeças trouxeram as vísceras e o sangue em alguidares transportados à cabeça . As primeiras para limpar, guisar e fazer caçoila, o sangue para fazer o sarapatel. Ao chegar à Casa a carne foi colocada no chão, mas em cima de uma boa camada de folhas de cana roca muito fresca e verdinha, à espera de ser picada durante a noite. Esta parte da casa onde ficou a carne foi dividida com bancos, para que à noite se pudesse fazer a Alvorada e no fim desta, os jogos. Só então, lá para depois da meia-noite, um grupo de homens ficaria a desmanchar a carne e a parti-la, formando os quinhões de cada mordomo, de acordo com o que há umas semanas haviam combinado, quando a coroa andou pelas casa a arrolar os mordomos. Depois escrevem um papel com o nome de cada um e colocam-no sobre o respectivo monte de carne que amanhã será distribuída.”

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publicado por picodavigia2 às 09:33

PRAIA

Quarta-feira, 04.06.14

Tu,

maré-cheia

perdeste-te nesta praia

e eu sem te puder acudir…

 

O que buscas

afinal?

 

o amparo

de um cais,

 

o canto

duma ganhoa,

 

o retorno

ao mar alto,

 

ou o aconchego

desta praia,

onde eu me perco,

também…

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publicado por picodavigia2 às 20:19

A LENDA DO CABEÇO DA ROCHA

Quarta-feira, 04.06.14

Contava minha avó que o pai que a criou era um homem muito justo, bondoso e temente a Deus. Certo dia deslocou-se para uma terra que tinha na rocha, no lugar chamado Cabeço da Silveirinha. De repente foi acometido de uma doença súbita. Sentindo que a morte se aproximava, voltou-se para Deus, pedindo-Lhe perdão dos seus pecados. Nesse momento viu sobre uma pedra, que em meus tempos de criança ainda lá estava, uma imagem de Nossa Senhora que, estendendo-lhe as mãos o tentava ajudar e levar para o Céu. No meio de uma enorme aflição cuidou ele que entregaria ali, a Deus, a sua alma, morrendo naquele local, longe dos que o amavam e que ele também muito amava. De repente e sem que ninguém esperasse, um homem vindo de longe, apesar de acometido por enorme doença, aproximou-se, pegou-lhe às costas e trouxe-o até a casa, a fim de que morresse rodeado da família e dos amigos e sobretudo, se confessasse, comungasse e recebesse o Viático. No seu leito de morte, Nossa Senhora de novo lhe apareceu e, tomando-o, definitivamente,  pela mão, levou-o consigo para o Céu.

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publicado por picodavigia2 às 08:59

TERÇO DO ESPÍRITO SANTO

Segunda-feira, 02.06.14

Desde os primórdios do povoamento das ilhas açorianos que o seu povo, frequentemente, fustigado por crises sísmicas e temporais, implorava o auxílio divino, centrando a sua fé na Terceira Pessoa da Trindade - o Espírito Santo. Assim aconteceu, também, em São Caetano, freguesia onde, na realidade, desde os tempos mais remotos se enraizou uma profunda, convicta e autêntica devoção ao Espirito Santo, a qual tinha a sua expressão mais visível, por um lado, nas funções realizadas ao longo do ano e, por outro, na festa, celebrada na Terça-feira de Pentecostes. As funções consistiam em pagamentos de promessas feitas ao Divino Espírito Santo por um mordomo, geralmente um emigrante, e que consistiam na partilha do pão e da carne pelos mais pobres - em louvor do Paráclito. No final da celebração da missa, o mordomo era, solenemente, coroado, com o principal símbolo do Espírito Santo – a coroa. Por sua vez a festa, para além da celebração eucarística incluía um cortejo em que os irmãos transportavam em açafates ornamentados com toalhas com rendas e bordados artesanais, as suas ofertas de pão, sob a forma de rosquilhas e que seria distribuído por todo o povo. O que também era característico destas festividades era preparação espiritual das mesmas, através das novenas, realizadas antes de cada festa ou função, durante as quais o povo se reunia, em casa do mordomo, para cantar o “Terço do Espírito Santo”. Tratava-se duma celebração ancestral, de caris profundamente religioso e que, muito provavelmente, remontava aos primórdios do povoamento da ilha e aos tempos em que a mesma era abalada por crises sísmicas sucessivas e frequentes, de tempestades violentas e destruidoras, como se pode depreender do conteúdo de alguns dos textos ainda hoje cantados. As novenas tinham lugar em casa do mordomo, em cuja sala de fora era preparado um altar onde se colocava a coroa e o ceptro, ladeado pelas bandeiras e ornamentado com as melhores toalhas e cortinas brancas, geralmente vindas da América, com tecido vermelho, flores da época e esparto. O terço era cantado durante os nove dias que antecediam cada celebração, quer se tratasse da festa ou de uma função e, no final, partilhava-se vinho de cheiro e massa sovada. O terço constava de cinco partes, durante as quais se repetia uma invocação ao Paráclito, dez vezes seguidas, sendo que o orientador da novena cantava a primeira parte e o povo a segunda, situação que se alternava nas invocações seguintes. Acrescente-se que o Terço era cantado por todos os presentes, homens, mulheres, jovens e crianças, com um respeito profundo e uma devoção intensa, uma fé verdadeira e genuína, consubstanciando um acto religioso comunitário, muito digno e autêntico. No final do canto do terço, enquanto se cantava o hino “Alva Pomba”, o ceptro passava de mão, a fim de que cada um dos presentes, o osculasse com o maior respeito e dignidade.

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publicado por picodavigia2 às 10:05

O FORTE DO ESTALEIRO

Segunda-feira, 02.06.14

As ilhas dos Açores desde os primórdios do seu povoamento sentiram a necessidade de se defenderem e protegerem contra os ataques e assaltos de piratas e corsários, atraídos não só por víveres, pela água e pelos bens existentes nas mesmas mas também pelas riquezas das embarcações que ali aportavam, oriundas da África, da Índia e do Brasil. Desde de em meados do século XVI começaram a ser construídas, em todas as ilhas, fortificações ou fortes militares, com o objectivo de proteger as populações e manter as ilhas em segurança.

Assim, ao longo dos tempos, foram-se construindo vários tipos de fortes militares, uns maiores outros menores, em todas as ilhas, nomeadamente, nas do grupo ocidental, mais isoladas e consequentemente mais expostas aos ataques de piratas e corsários. Estes fortes situavam-se nos portos e ancoradouros, chefiados por militares guarnecidos pelas populações locais sob a responsabilidade dos respectivos concelhos.

Cuida-se que nas Flores terão existido cerca de 27 fortes militares, sendo 5 deles na Fajã Grande, a saber: Castelo da Ponta, Vale do Linho, Castelhana, Estaleiro e Portal da Rocha, este já na freguesia da Fajãzinha. Entre estes destacou-se, na Fajã Grande, o Forte do Estaleiro, localizado no lugar a que lhe deu o nome, entre o Porto e o Calhau Miúdo, Em posição dominante sobre um boa parte do litoral e a ampla baía da Ribeira das Casas, constituiu-se como um forte destinado à defesa do ancoradouro ali sediado e do porto adjacente, defendendo um e outro dos ataques de piratas e corsários, outrora frequentes nesta região, virada a oeste e muito mais isolada.

Acredita-se que a toponímia "Estaleiro" se deva a que, primitivamente no local, tenha existindo algum tipo de facilidade, como uma simples rampa, para a reparação naval, pese embora o lugar se estenda por terra dentro abrangendo, para além da costa, um pequeno espaço de terras de cultivo. Foi também aqui que existiu o primeiro campo de futebol da freguesia A região caracterizava-se, pois, por terras de cultivo, nomeadamente de géneros como o milho, a batata, a batata-doce, o feijão, cebolas, e couves. O forte do Estaleiro terá existido activo durante os séculos XVIII e XIX e consistiu numa pequena fortificação junto ao mar, adjacente ao ancoradouro do chamado Porto Novo, sobre a baía da Ribeira das Casas. Dela existe alçado e planta, com o título "Forte do Estaleiro da Fajam Grande", de autoria do Sargento-mor do Real Corpo de Engenheiros, José Rodrigo de Almeida. A "Relação" do marechal de campo Barão de Bastos em 1862 refere-o apenas como "Posto das Fajãs", informando que "Tem uma casa em mau estado". Na década de cinquenta, no entanto,  ainda podiam ser observados alguns vestígios de uma estrutura que não chegou aos nossos dias.

 

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TEIMOSIA LENTA

Segunda-feira, 02.06.14

Manhã sombria,

Porque a noite

Teimou em retirar-se.

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publicado por picodavigia2 às 00:20

O FORTE DO CORVO

Domingo, 01.06.14

As ilhas dos Açores desde os primórdios do seu povoamento sentiram a necessidade de defender-se contra os assaltos de piratas e corsários, atraídos não só por víveres mas também pelas riquezas das embarcações que aportavam às ilhas, oriundas da África, da Índia e do Brasil. Assim, desde de em meados do século XVI se iniciou um esquema de fortificação, apresentado a D. João III de Portugal, em que se reclamava a importância estratégica do arquipélago:

Assim se oram construindo vários fortes militares em todas as ilhas, nomeadamente nas doo grupo ocidental, mais isoladas e consequentemente mais expostas aos ataques de piratas e corsário e que se situavam nos portos e ancoradouros, guarnecidos pelas populações locais sob a responsabilidade dos respectivos concelhos.

No Corvo notabilizou-se um forte conhecido por “Forte de Nossa Senhora dos Milagres” localizado no porto da Calheta, junto à Vila Nova do Corvo, na costa sul da ilha. Em posição dominante sobre este trecho do litoral, tratava-se de um forte destinado à defesa deste ancoradouro contra os ataques de piratas e corsários, outrora frequentes nesta região do oceano Atlântico.

O forte foi erguido em data indeterminada, sabendo-se apenas que terá ocorrido entre os séculos XV e XVIII, muito provavelmente no contexto da Guerra da Sucessão Espanhola, ocorrida entre os de 1702 e 1714. O forte é referido em vários documentos como "O Forte de Nossa Senhora dos Milagres no porto da Calheta." E consta da relação de "Fortificações nos Açores existentes em 1710".

Terá tido parte preponderante na resistência da população ao assalto de piratas da Barbária em 1714. Na ocasião este foi rechaçado com o recurso ao lançamento de um ajuntamento de gado pelas ruas da povoação. A "Relação" do marechal de campo Barão de Bastos em 1862, acerca da ilha diz o seguinte: "Nesta Ilha apenas existem os vestígios d'alguns pontos fortificados. Pela pouca importância militar da Ilha não merece ter fortificações."

Lamentavelmente nem a estrutura deste forte, nem sequer vestígios do mesmo chegaram até aos nossos dias, dispondo-se apenas de referências documentais escritas.

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publicado por picodavigia2 às 16:47

INESQUECÍVEL

Domingo, 01.06.14

MENU 46 – “INESQUECÍVEL”

 

ENTRADA

Rodelinhas de alheiras grelhadas com rodelas de batata doce fritas, salada de feijão frade couve galega e pão e naquinhos de regueifa barrados com creme de queijo fresco.

 

PRATO

 

Tranche de pescada cozida e recheada com creme de salmão, acamada sobre esmagado de batata e grelos nabiças.

Brócolos gratinados com creme de queijo fresco e tirinhas de cenoura.

 

SOBREMESA

 

Pera, gelatina de pêssego e suspiro.

 

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Preparação da Entrada: - Cozer ligeiramente a couve finamente picada. Picar um dente de alho em azeite e misturar o feijão, a couve e o pão esfarelado ou moído. Grelhar as alheiras, descascar a batata, corta-la às rodelas e fritá-las. Guarnecer pedacinhos de regueifa e barrá-los com o creme. Empratar.

Preparação do Prato – Cozer o peixe juntamente com todos os outros ingredientes. Gratinar, no micro-ondas os brócolos barrados cm o creme de queijo. Esmagar a bata com os grelos e temperar. Cortar a tranche a meio e barrá-la com o queijo creme de salmão. Empratar, colocando a tranche sobre o esmagado, ladeando com os brócolos e as tiras de cenoura.

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional.

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publicado por picodavigia2 às 16:08

O BONECO DE SANTO AMARO

Domingo, 01.06.14

- A velha do Corvo trouxe mais um menino para a nossa freguesia! – Gritava a Augusta Moleira, ao portão da sua casa, lá para os lados da Fontinha.  

- Cala a boca mulher! Foi, antes uma bênção Deus para Umblinda que de tanta idade já cuidava que não havia de ser mãe. – Retorquia a Fuinha, de avental ao peito e lenço de clafate a correr para casa da mais recente parturiente da freguesia. – Bem precisa ela de ajuda, coitada.

Foi posto ao menino o mesmo nome do seu pai, Manuel, e como lhe foi acrescentado Inácio Menezes, precisamente igual ao pai, teve que ser Júnior. Nasceu saudável e com a força e a robustez suficientes para sobreviver à mortalidade infantil da época. Mas, para desgosto da progenitora, trazia só um pequeno defeito: na mão esquerda. A meio da falange do dedo mínimo, tinha implantado um outro dedo, pequenino e que não articulava. Era uma excrescência desnecessária e inútil, que no futuro lhe traria até algum desgosto, o que provocava uma enorme angústia na progenitora.

Mal a Fuinha assomou à porta do pequeno cubículo onde se reclinava a Umblinda com o rebento a seu lado e se apercebeu da angústia da mãe e da tumescência que o rebento trouxera consigo ao chegar a este mundo, não se fez rogada. Perante os medos e gritos da Umblina, pegou numa tesoura, desinfectou-a com álcool, procurou o ponto ósseo de inserção do dedo desnecessário e zás. Num ápice cortou cerce o que julgava que estava a mais e que haveria de incomodar o garoto por toda a vida. De seguida fez-lhe um penso com papas de linhaça e embrulhou muito bem a mãozita do pequerrucho.

- Que Deus te cure e conserve. – Profetizou a corajosa curandeira.

- Se o menino escapar – prometia a mãe chorosa e aflita – hei-de fazer um boneco hei-de cozer e oferecer ao Senhor Santo Amaro um boneco de massa sovada do tamanho e do peso do menino.

Mas o garoto era de boa carnadura e, rapidamente, sarou, pese embora os gritos e choros que no momento emitiu. Cresceu saudável, forte e robusto e, pela festa de Santo Amaro do ano seguinte, o maior boneco oferecido a Santo Amaro e a ser arrematado, no adro da igreja, perante o sorriso embevecido da Fuinha, era o da Umblina, que representava o seu Manel.

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publicado por picodavigia2 às 10:35

CRIANÇA

Domingo, 01.06.14

Que um dia,

todas as crianças

abram o livro da liberdade

passeiem no bosque da alegria,

comunguem a ternura dos olhares

e se balanceiem nas ondas da amizade.

 

Que um dia

todas as crianças

sorriam,

não tenham fome

nem frio,

nem dores.

nem tormentos.

 

Que esse dia

seja já amanhã.

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publicado por picodavigia2 às 00:19


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