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CIRCUNDANDO O ILHÉU DE MARIA VAZ

Quinta-feira, 03.07.14

O São Pedro vogava ronceiro, aproximando-se do ilhéu de Maria Vaz também chamado da Gadelha. O silêncio das ravinas era apenas cortado pelo roncar, trépido, do velho e cansado motor.

- Eh António. O pequeno vai acordado? Aqui, na baía dos Fanais o mar está muito manso. Vou passar com o barco por dentro do ilhéu, para baloiçar menos. Diz ao pequeno que se levante para ver isto. – Propôs mestre Gregório. E o Jacinto logo:

- Para mim é o sítio mais bonito de toda a costa da ilha das Flores

Meu pai, pegou-me com cuidado extremoso, retirando-me do leito em que jazia;

- Álvaro levanta-te, para veres a baía dos Fanais e o Ilhéu de Maria Vaz.

A muito custo lá me levantei, apesar de um pouco tonto.

- Já chegamos a Ponta Delgada, pai!? O barco parece que está parado! – Indagava confuso-

- Não. Estamos na baía dos Fanais. Levanta-te para ver o ilhéu de Maria Vaz. O mar aqui está muito mansinho.

Levantei-me. À minha frente um enorme, descomunal e abrupto ilhéu. Nunca tal imaginara. Por isso. Muito espantado, apontando, exclamei:

- Ih! Que grande. É muito maior do que o ilhéu do Cão. Parece uma ilha. Deve ser quase do tamanho do Corvo.

- Não exageres rapaz. Mas lá que é grande, é?

- O mar está tão mansinho aqui! Vive alguém neste ilhéu, Sr Gregório?

- Não! Antigamente ainda havia cabras e ovelhas. Os donos vinham cá trazê-las de barco. Mas começaram a roubá-las… e agora já ninguém as vem cá por.

- Só se for tolo! Para ficar sem elas…

O Mulato esclarecia:

- Isto aqui é bom é para lapas e para pescar. Ali, no rolo dos Fanais, as lapas são como a palma da minha mão! O pior é descer a rocha para as apanhar.

- E aqui, no ilhéu, os ratos são do tamanho de cães.

Cheio de medo, agarrei-me ainda mais a meu pai:

- Ó pai, é verdade! Eu tenho tanto medo…

Voltando-se para o Manuel da Ana, a rir dos medos, mestre Gregório reprendia-o:

- Oh Manel, para de dizer asneiras e meter medo ao pequeno. Presta mais atenção a essas cordas! – Depois voltando-se para mim tentava acalmar-me; – Olha Álvaro: aqui é um dos locais mais belos da ilha das Flores. Tenho passado aqui muitas vezes e já vim pescar ali para aquelas rochas. Ali, naquelas baixas, há muitas vejas, rateiros, e peixes-reis. Lá dentro, no rolo, também há muita moreia. Antes de andar no mar, vinha pescar para ali com meu pai. Ele descia aquela rocha com os olhos fechados… e ela não é fácil de descer. Conhecia o caminho como a palma das mãos! Vês aquela queda de água, parecida com as da Fajã? É a ribeira da Francela. Lá em cima vêem-se as relvas onde o gado pasta. Aquelas lá ao longe já são de Ponta Delgada, estas de cá são da Ponta.

- Logo, quando viermos para casa, vamos atravessá-las todas. . Corroborou o meu progenitor.

- E de lá de cima vê-se o ilhéu?

- Se viermos com dia… havemos de vê-lo…

Mestre Gregório dava ordens;

- Eh pessoal, a partir da ponta do Albarnaz temos o vento  pela ré. Vamos aproveitá-lo. Mulato, apaga o motor. Manel, içar a vela. Antonho deita o pequeno outra vez. Para além do mar estar pior, a navegação à vela é pior para quem se dá mal no mar. Eh rapazes vamos a isto! Há que aproveitar o vento e poupar o gasóleo.

Voltei a deitar-me. Mas ainda perguntei ao homem do leme;

- Óh senhor  Gregório, daqui a Ponta Delgada ainda demora muito?

- Com a ajuda de Deus e deste vento dentro dentro de meia hora estamos lá. Eh Manel, olha-me essas cordas. Cuidado Mulato, tapa o motor que vai respingar muita água. Olha Antonho, já se avista o Corvo.

Algum tempo depois, meu pai propôs:

- Álvaro, levanta-te para veres o Corvo!

Levantei-me, a muito custo e cambaleando;

- Ui ! Então é verdade o que me dizia o Câncio: do Albarnaz vê-se o Corvo. Ui! Mas é uma ilha tão pequenina. Oh pai, com aquelas nuvens por cima parece um biscoito, saído do forno, ainda a fumegar. Ai! Ai. Quero ir para terra! Esta maldita viagem nunca mais acaba! (Volta a deitar-se.)

- Deita-te, deita-te. Não sabes o que te espera. Daqui até ao porto vai bater um bocado.

M.GREGÓRIO- Pode ser que ele durma. Com estes balanços! Pessoal! Com este vento vamos à vela até Ponta Delgada. Como vão sem fazer nada, podem lançar as linhas e pescar. Isto é mar para serras.

- Já adormeceu!

- Ainda bem Antonho. Com este mar e a navegar à vela até Ponta Delgada, ele ia dar-te que fazer. Linhas prá água! Vamos ver se arranjo ceia p’rà minha Maria e para os meus pequenos.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:48

AS RENDEIRAS

Quinta-feira, 03.07.14

Sendo a freguesia de São Caetano, terra de pescadores e marinheiros, era natural que as mulheres se dedicassem ao fabrico artesanal de rendas, quer por se inspirarem nas próprias redes tantas vezes elaboradas e remendadas pelos pescadores quer, sobretudo, para anestesiar a solidão e a angústia que sentiam, enquanto os homens partiam para o mar, na caça à baleia, na pesca da albacora ou na simples pesca artesanal em pequenos barcos, sujeitos, muitas vezes, a grandes perigos e tormentas.

Ao mesmo tempo que anestesiava a solidão e desfazia a angústia, o fabrico das rendas constituía uma das bases de sustento das famílias da freguesia, geralmente, dependentes duma agricultura de subsistência. Embora se ocupassem das lides domésticas e ajudassem os homens nos trabalhos do campo, as mulheres de São Caetano dedicavam grande parte do seu tempo às rendas. Por isso, estas, desde sempre, representaram uma importante actividade económica para a freguesia. Na realidade as mulheres faziam rendas, aproveitando todo o tempo disponível, para as vender e, assim, ajudar o debilitado orçamento familiar, ajudando na compra de bens alimentares, como o milho e outros bens necessários e de amanho pessoal e do lar.

Nas tardes de verão, as mulheres juntavam-se em grupos, procurando as sombras dos pátios e balcões, para poderem fazer renda sentadas no chão ou em cima de um banquinho. Faziam renda paga à begocha para pessoas que na freguesia, ou nas freguesias vizinhas, tinham o negócio e as iam vender para o Faial, ou as exportavam para o Continente. Também à noite, aos serões, especialmente no Inverno, juntavam-se a fazer serão, nas casas de familiares e amigas, por vezes mais de uma dezena de mulheres à volta de uma mesa, iluminadas apenas por um candeeiro a petróleo. Faziam-se luvas em crochet, blusas, viras de lençol, golas de renda, jogos de naprons, toalhas redondas, etc. Essa renda era artisticamente composta por renda de gancho, com entremeios de amoras, dálias e caçador, olhos, gregas entre outros desenhos, com diferentes designações, todos eles com muita exigência e pormenor. Os trabalhos maiores e mais elaborados, no caso das toalhas, blusas ou viras de lençol, por vezes, englobavam várias pessoas que os faziam como que em série, sendo que as mais habilidosas, as mais velhas e as mais experientes realizavam as partes mais difíceis. Era por assim dizer como que um trabalho em série, feito por várias mãos mas que requeria muita cautela e responsabilidade.

Enquanto faziam a renda conversavam, cantavam e, mais tarde, ouviam notícias, num pequeno transístor a pilhas, encimado por uma rodilha de fios eléctricos, a servir de antena.

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publicado por picodavigia2 às 18:50

A CASA AO LADO DA ERMIDA

Quinta-feira, 03.07.14

Situada no meio dos pequenos casebres, construídos em basalto negro e cobertos de palha, a Ermida de Santa Bárbara era um dos mais antigos edifícios religiosos da ilha do Faial, tendo sido construída no ano de 1500, por iniciativa de Pero Pasteleiro e de sua esposa, Madalena da Rosa, que pretendiam, assim, perpetuar a memória de Joss van Hurtere e de quantos com ele haviam demandado a ilha e nela se haviam estabelecido, cerca de cinquenta anos antes, fundando a povoação "de Horta". Joss van Hurtere e os seus companheiros, algum tempo depois de aportarem à ilha, haviam construído, logo ali junto ao mar, uma pequena ermida. Como não tinham nenhuma imagem de Santo da sua devoção que nela colocassem e que lhe dedicassem por padroeiro, apenas lhe colocaram uma tosca cruz de madeira no seu interior e, por isso, decidiram chamá-la de Santa Cruz. Esta ermida porém, devido à sua fragilidade e pouca consistência, foi destruída a quando da crise sísmica de 1671, que originou o Cabeço do Fogo, mediante o aparecimento, naquele sítio, de um enorme vulcão que entrou em erupção na noite da Vigília Pascal. A crise havia-se iniciado com uma série de sucessivos abalos, ao longo do mês de Setembro desse ano. Os abalos intensificaram-se em Fevereiro do ano seguinte, provocando o pânico entre a população e o desabar de muitas construções primitivas, culminando com um grande sismo, no dia 12 de Abril, a que se seguiu uma sequência de muitos outros, sentidos com mais violência nas freguesias da Praia do Norte e Capelo e que destruíram praticamente tudo o que era construção humana. Além disso, dias depois, começou uma nova actividade explosiva, que se prolongou durante 10 meses, provocando uma considerável efusão de lava basáltica a partir de duas chaminés vulcânicas que se abriram no contraforte do Cabeço do Fogo e no Pincarito. A actividade sísmica serenou no més de Maio de 1672 e, em Setembro seguinte, cessou, por completo. Após a erupção vulcânica, no entanto, sucederam-se uma série de sismos, tendo o mais violento, provocado inúmeros prejuízos e arrasado, quase totalmente, a vila da Horta. Foi então que a Câmara Municipal, além das preces públicas, procissões e outros actos de piedade e devoção que mandou promover e a que incentivou a toda a população a participar numa reunião em que se decidiu, por unanimidade, que todos se haviam de unir para pedir a protecção do Divino Espírito Santo. Essa "protecção" implicava fazer um voto solene por si e pelos seus descendentes "que em dia do Senhor Espírito Santo, todos os anos e enquanto o mundo fosse mundo, sairá sempre uma procissão solene ordenada pelos ditos oficiais da Câmara Municipal, da Igreja Matriz e se recolherá na Igreja da Misericórdia, onde se cantará missa com sermão a que assistirá o corpo da Câmara fazendo-se gastos e despesas à custa dela em acção de graças tanto pelos benefícios recebidos de não ser maior o dano que o dito fogo podia fazer como pelo mais que de todo se espera ver quieto e consumido". No lugar onde existia a ermida de Santa Cruz, foi construída, anos depois, a igreja das Angústias.

A ermida de Santa Bárbara também destruída, mas reconstruída após esta crise, apresentava-se com uma construção simples, mas diferente da primitiva, dotada, do lado direito do frontispício e paralela a este, de um campanário, constituído por uma pequena e baixa sineira, sem torre. O acesso ao campanário fazia-se por uma escada encostada à parede lateral da capela que também dava acesso à porta exterior do coro. Do mesmo lado e junto à capela-mor encostava-se a sacristia.

Pequena e singela, a ermida tinha apenas uma nave de planta rectangular, sendo capela-mor também do mesmo formato e separada da nave por arco triunfal, ligeiramente abatido, em cantaria. O frontispício era muito simples, a imitar as empenas das poucas habitações senhoriais, ali existentes, tendo ao eixo uma porta de verga recta encimada por uma pequena cornija e por cima uma janela. Rematado em forma triangular, sobre cujo vértice estava implantada um grossa e tosca cruz de pedra, a fachada terminava por uma cornija que acompanhava a inclinação das águas do telhado, Sobre os cunhais, de um e outro lado, encastoavam-se dois pináculos. A contrastar com a maioria dos casebres circundantes a ermida era construída em alvenaria de pedra rebocada, pintada de branco e rodeada de um adro murado.

A poucos metros dali ficava a casa que a velha, à entrada do povoado, indicara a José Pereira Azevedo. Era um edifício de dois pisos, de forma rectangular e com dois balcões de acesso ao andar superior, na fachada principal, que se ligavam ente si, pelo fundo de duas escadarias, no termo das quais, se tinha acesso ao edifício, através de um enorme e enferrujado portão de ferro, divido em duas metades, uma das quais estava aberta. Uma das escadarias dava acesso à cozinha e a outra à sala. Assim como o pequeno templo, a casa também era construída em alvenaria de pedra argamassada, excepto um dos balcões da fachada principal, o que dava para a cozinha, assim como a empena do lado desta, que eram de pedra negra. Era essa a Casa do Marialva.

José Pereira de Azevedo, parou junto ao portão de entrada, depôs no chão os sacos que levava aos ombros e, pedindo à mulher que o aguardasse ali, juntamente com o garoto, subiu com alguma desenvoltura os degraus que davam para a cozinha. Antes que atingisse o cimo, surgiu à porta semiaberta um homem já de meia-idade. Vestia calças de cotim cinzento, uma camisa de linho, alvíssima sob um colete acastanhado o que lhe dava um ar de senhorio, mas com um poder e grandeza aparentemente desfeitos e aniquilados pelo tempo. Esboçando um doce sorriso, dirigiu-se para José, incentivando-o de que continuasse a subir.

Ao aproximar-se do homem, José retirando o chapéu e estendendo-lhe a mão, cumprimentou-o. Depois, num razoado hesitante, explicou o porquê da sua presença ali.

O homem, desfazendo o sorriso gracioso com que assomara, inicialmente à porta e que mantivera até àquele momento, pediu-lhe que entrasse. Antes porém haviam de subir a mulher e o filho.

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publicado por picodavigia2 às 11:13





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