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MÁGOA ALIVIADA

Sábado, 12.07.14

“Mágoa contada é meia aliviada.”

 

Adágio muito utilizado, na plenitude do seu sentido real,  na Fajã Grande, na década de cinquenta, sobretudo pelas pessoas mais idosas.

Na verdade, entendiam as pessoas que era bom e salutar desabafar sobretudo com os amigos. Ficar sozinho a remoer, como se dizia, sobre algo que nos atormenta ou magoa, apenas faz aumentar o sofrimento ou a dor. Ao contrário, tendo alguém com quem se possa desabafar, isto é, partilhar algo que nos atormenta é uma forma de aliviar esse tormento. Por isso uma mágoa contada fica substancialmente aliviada.

Mas atenção, porque num meio pequeno e muito fechado, onde reina o mexerico e prevalece a intriga, era muito difícil encontrar esse alguém… Talvez, por isso mesmo o recurso frequente a\este interessante adágio.

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publicado por picodavigia2 às 11:50

PEDRAS DA VINHA

Sábado, 12.07.14

Pedras da Vinha é um lugar simples, silencioso, afável, mas mítico e misterioso. Plantado à beira-mar, encafuado entre os socalcos que anunciam a rugosidade das montanhas circundantes, projecta-se e prolonga-se como um tapete aveludado de verde, rendilhado, aqui e além, de amarelo, anil e lilás, estendendo-se, sorridente e profundo por entre currais de lava e maroiços de cascalho, recortado por ondulantes e pedregosas veredas.

Terra de homens fortes, permanentemente agarrados ao cabo da enxada, à rabiça do arado ou a redes, canas de pescas e enchelevares, Pedras da Vinha reveste-se, no Verão, duma sublimidade verde e húmida enquanto que, no Inverno, se cobre de um manto amarelado, sereno e acariciador. Terra de mulheres labutadoras, destemidas, ousadas e corajosas, Pedras da Vinha é o local perfeito e adequado a estórias como a que a seguir se relata.

Conta-se que, em tempos antigos, viveu ali, uma mulher possante e robusta, mas pobre e alquebrado por muitas canseiras e desgostos. A mulher tinha uma filha muito bonita e saudável mas muito preguiçosa e irreverente que não ajudava a mãe em nada. Passava as manhãs a dormir e as tardes sentada à janela, a dar conversa a uns e a outros que por ali passavam, ávidos de apreciar tão rara beleza. A boa mãe ralava-se consumia-se com tamanha indiferença e com tão tresloucado desmazelo. Ela com tantos afazeres, labutas e a filha, uma preguiçosa que com nada se ralava, em nada se empenhava e, pior do que isso, nem sequer ajudava a mãe, gastando-lhe, em ninharias, grande parte do pouco dinheiro que a mulher conseguia angariar, como resultado dos diversos trabalhos que realizava.

Certo dia a rapariga foi junto da mãe pedir-lhe mais dinheiro. Pretendia, simplesmente, comprar um vestido novo a um rico comerciante de sedas orientais que por ali passava. Já farta de tantos gastos e sobretudo, de tanta preguiça, a mãe muito chateada, meio furiosa, virou-se contra ela vociferando:

- Vai-te com o diabo que te carregue, rapariga malvada e preguiçosa."

Era um desabafo como tantos outros e ninguém prestou atenção a estas palavras.

Passado algum tempo, porém, a mãe apercebeu-se de que a rapariga não se encontrava em casa. Procurou-a por toda a parte e não a encontrou. Nem à janela, nem na cama, nem noutro lugar qualquer. A moça desaparecera, não deixando rastos. A mulher, muito preocupada e aflita, chamou os vizinhos e amigos e contou-lhes o sucedido. Achando aquilo muito estanho, começaram a procurar a rapariga por todos os cantos e recantos de Pedras da Vinha. Mas da rapariga nenhum sinal. Não a encontraram e ninguém sabia dela ou sequer a tinha visto.

As povoações vizinhas, também foram alertadas para o sucedido e, imediatamente, todos se puseram à procura da rapariga, por todos os lados, de casa em casa, no porto, nos chafarizes, em casa dos amigos, nos moinhos, palheiros, em todos os locais possíveis. Mas nada!

Depois dos povoados, estenderam as buscas aos campos, às pastagens e às montanhas circundantes onde, finalmente, junto a um enorme e fundo grotão, que se dizia ser morada do diabo, encontraram aquilo que poderiam ser os primeiros vestígios da presença da rapariga. Um grupo de homens mais anamudos e destemidos, desceram aquele perigoso e esconso valado. Na descida encontraram as galochas da rapariga, em cima de uma rocha, fazendo com que todas as dúvidas se dissipassem. Estavam no rastro da jovem. Se ela não estava ali, pelo menos devia estar por perto. E se não estava em local visível, só podia estar bem no fundo do temível grotão. Mandaram vir cordas para amarrarem dois homens que descessem lá ao fundo, onde nunca, segundo a memória dos vivos, alguém havia penetrado. Estavam todos ansiosos pois muitos acreditavam que aquele buraco era a entrada do Inferno. Cheios de medo, os de cima foram folgando as cordas e os outros dois descendo pelo buraco negro e medonho.

 Foi lá no fundo que encontraram a rapariga, a tremer de frio e de medo, com um ar muito apático e indiferente. Amarram-na às cordas e foram os três puxados para cima.

Tinham encontrado a rapariga e ela estava viva e saudável. Mas quando lhe perguntaram o que se tinha passado e como tinha ido parar aquele buraco, ela pura e simplesmente não sabia responder. Mas a mãe, muito chorosa e arrependida, lembrava-se da blasfémia que tinha dito ao mandá-la para o diabo, que, pelos vistos e segundo se dizia, em Pedras da Vinha, andava sempre à procura de almas para as levar para o Inferno.

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publicado por picodavigia2 às 10:35





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