Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



EM PROL DA CULTURA POPULAR

Terça-feira, 22.07.14

O João de Brito pertenceu ao curso que entrou para o Seminário Menor de Santo Cristo, em Ponta Delgada, no ano lectivo de 1957/58, integrando o segundo grupo de alunos que frequentou aquela instituição de ensino, sediada no antigo Colégio dos Jesuítas. Dois anos depois, passou a frequentar o SEA, completando e terminando a sua formação académica em 1969, ano em que se ordenou. Exerceu o cargo de secretário particular do Bispo de Angra, D. Manuel Afonso de Carvalho e paroquiou, ao longo da sua vida, em várias freguesias da ilha Terceira. Actualmente exerce a sua actividade sacerdotal nas paróquias de Santa Bárbara e Cinco Ribeiras da mesma ilha.

Aluno responsável, estudioso, disciplinado, íntegro, verdadeiro, empenhado e autêntico ao longo do seu percurso no Seminário, o João de Brito tem exercido o seu múnus sacerdotal com muita sobriedade, grande eficiência, acentuada dignidade e nobre discrição, ao mesmo tempo que se assumiu, paralelamente, como professor de Religião e Moral. Também exerceu, durante alguns anos os cargos de Ouvidor Eclesiástico da ilha Terceira e tem dedicado grande parte da sua actividade em prol da cultura popular, nomeadamente ao apoio, incremento e desenvolvimento dos grupos de música regional açoriana, especialmente no que aos ranchos folclóricos diz respeito, tendo estado mesmo na criação de alguns.

O João de Brito foi dos vários sacerdotes terceirenses ou em exercício na ilha Terceira que frequentou o SEA, que se dignou participar no Encontro do passado mês de Julho. Embora não podendo estar presente em todas as actividades, devido ao exercício do seu múnus apostólico, mais acentuado aos fins-de-semana, participou na maioria das reuniões, passeios e encontros, tornando-se um elemento importante, porquanto, tendo vivido permanentemente na ilha Terceira, nos ia dando um notável apoio e oportunos esclarecimentos, sobre as mudanças e evoluções mais acentuadas ao longo destes anos, sobretudo no SEA. Por tudo isso e muito mais a sua presença foi muito importante, quer na visita inicial ao Seminário, quer nos passeios pela velhinha Angra, incluindo os mais curtos, entre o hotel e o Seminário. Um excelente guia e um notável cicerone. Jantou e almoçou connosco, ensaiou e cantou connosco, acompanhou-nos e apoiou-nos, tornando-se, por tudo isso também um notável “Senhor” do Encontro.

Recorde-se ainda que foi junto “sua” à igreja paroquial de Santa Bárbara que o grupo de alunos da década de cinquenta sessenta, cantou o “Juravit Dominus” em homenagem a um neo-sacerdote que ali celebrava a sua “Missa Nova”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:13

O CABEÇO DO CÃO SANTO

Terça-feira, 22.07.14

Conta uma lenda muito antiga que no mato da Fajã Grande, para os lados da Caldeirinha, antigamente, existia um pequeno cabeço, hoje impossível de se ver devido à vegetação que ali existe, em cima do qual existia uma pedra cuja forma fazia lembrar, em tudo, um enorme cão.

Ora, naqueles tempos, aqueles terrenos eram muito férteis e neles existiam boas e verdejantes pastagens que eram de todos mas não eram de ninguém. Assim os moradores dos lugares da Fajã, da Ponta e até da Cuada, levavam para ali as suas ovelhas, misturando-se as de uns com as dos outros.

Os animais viviam ali dia e noite, alimentando-se e reproduzindo-se. Os donos iam lá de vez em quando, para lhes tirar o leite, a lã, matando um ou outro para se alimentarem com a sua carne.

Os animais tinham nas orelhas marcas que identificavam a quem pertenciam, mas alguns moradores, no entanto, eram maus e ladrões, pelo que matavam animais que não eram seus e, por vezes, às escondidas, até tiravam leite e lã aos que não lhes pertenciam. Algumas vezes, sendo apanhados a roubar, provocavam zaragatas, bulhas e guerras entre uns e outros.

Mas tudo isso acalmou e deixou de haver homens a roubar ovelhas ou a tirar leite e lã às que não eram suas, porque, segundo contavam os que ali iam, sempre que o tentavam fazer, o cão começava a uivar em altos berros e atirava-se a eles, impedindo-os de assenhorear do que não era seu.

Essa a razão, ao que parece, por que começaram a chamar àquele lugar o Cabeço do Cão Santo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:58

MEMÓRIAS VIVAS DO DANIEL

Segunda-feira, 21.07.14

Recordo-me de meia dúzia de estórias que, quando criança, ia ouvindo aos mais velhos e, algumas, que lia. Apenas tenho o exame da quarta classe feito nas Lajes, em 1941, Todos os meus irmãos mais velhos também o fizeram, assim como as minhas irmãs, com excepção da mais velha. A minha mãe, nascida na última década do século XIX, frequentou a escola primária, que na altura era paga, por isso lia e escrevia muito melhor do que eu. Por sua vez, o meu pai apenas sabia escrever o seu nome e pouco mais.

Recordo-me, também, que, na Fajã Grande, antigamente, havia alguns pessoas que nem o nome sabiam escrever mas eram os que mais se ufanavam e vangloriavam, os que mais erguiam o pescoço, considerando-se os maiores, os mais importantes e os mais inteligentes. Também havia alguns “patrões” que cuidavam que sabiam tudo, governando-se com que era alheio, sendo seu hábito berrar e gritar com os que lhes eram submissos e que tremiam só de ouvi-los. Foram mal desenhados e pintados de noite.

O meu pai ficou órfão da mãe, Maria José Teodósio, aos seis anos, a vossa avó com dois  e a tia Glória da Cuada, com dez dias. O nosso bisavô, José Maria de Sousa, residente na Cuada, aos 41 ficou viúvo e com 11 filhos. O facto de ficar órfão em criança, afecta e marca as pessoas para sempre. O meu pai, mesmo assim, era um homem forte e trabalhador, como diziam alguns de língua solta, que ele andava a trabalhar já sem poder, pois dezasseis meses antes de falecer ainda foi ver umas ovelhas que tínhamos na Tapada, a relva mais próxima ao Morro Alto.

Mas já tudo vai longe! Estão todos petrificados e não foi nenhum deles que inventou a Álgebra, pois nem sequer sabiam o significado do Cosmo. A vossa avó foi criada por aquele casal que tinha perdido o filho com dezanove anos, num acidente, na rocha, por volta do ano de 1890. O meu pai também foi entregue pelo pai a pessoas estranhas, passando a viver com pessoas de duas famílias, que ainda eram primos dele. Destas famílias, houve um filho emigrou para o Rio de Janeiro mas morreu pouco depois e três outros rapazes da mesma família emigraram para a América e de lá voltaram tuberculoses, nas décadas dos 60 e 70 do século XIX. Todas estas pessoas com quem meu pai foi criado viviam com tristeza e já eram velhas. O homem que criou a vossa avó, chamava-se José Cristino Ramos e era primo em primeiro grau com o avô do Urbano, José António Ramos e com um outro irmão que vivia um pouco mais acima da Fonte Velha. José Cristiano também era primo, embora afastado, com Manuel Coelho Ramos que era o avô do José Caetano Pimentel, conhecido por “Coelho”. Este homem regressou da América, em 1930, com muito dinheiro. Comprou terras e construiu uma casa, gastando grande parte do que havia ganho. No entanto uma certa família, considerada muito importante na freguesia, fez com que ele gastasse algum no Tribunal. A matriarca dessa família era oriunda de S. Miguel ou de Sta. Maria. O pai do Coelho era de S. Miguel e era o melhor pedreiro da Fajã. José Cristiano tinha sido excelente homem do mar, sendo baleeiro, pescador, apanhador de lapas, etc. Ele adorava contar lendas, algumas inventadas por ele. Ia ao peixe num barco que possuía, juntamente com o primo Manuel Coelho Ramos. Por sua vez o outro primo, José Ramos também possuía uma lancha de pesca, indo juntos para o mar. Outro notável pescador da freguesia, naqueles tempos era o avo do José Pereira, António Augusto da Silva, possuidor de um barco e natural do Faial. Este era de meu tempo. Outro bom pescador, ainda do meu tempo era tio José Caetano, conhecido pelo Tesoureiro, vizinho de José Cristiano e, mais tarde dos vossos avós.

Vou descrever, agora, o pouco que sei a cerca da família do meu primo Pedro da Silveira. Nasceu a 5 de Setembro de 1922 e faleceu a 13 de Abril de 2003. Era filho de José Laureano da Silveira, e de Luísa Matilde Mendonça. José L. da Silveira nasceu a 27 de Abril de 1864 e faleceu em 1931. A esposa, minha tia Luísa, nasceu em 1893 e faleceu a 8 de Maio de 1969. José L. da Silveira era filho de José Laureano da Silveira e de Maria Claudina da Silveira. Casaram em 1862, ele com 35 anos e ela com 29. Ele faleceu em 1901 e ela, alguns anos, depois. Era neto paterno de Laureano José da Silveira e de Inácia de Jesus. Dizia o Pedro que os Silveiras eram todos parentes dele, os da Fajã, alguns da Ponta, outros da Fajazinha e alguns de St. Cruz. Estes eram os Armas da Silveira, entre eles o Dr. Armas, o irmão Roberto, o Fernando e outros. Dizia, também o Pedro, que o seu pai tinha emigrado para a América com 15 anos, juntamente com os irmãos. Aa chegar à Califórnia, como tantos outros, foi guardar rebanhos de ovelhas no local onde, hoje se está edificada a cidade de Fresno. Porém, após receber o primeiro salario, pôs-se a caminho da cidade de São Francisco, onde passou a trabalhar. Contava ele que o pai talvez tivesse emigrado para a América umas 5 ou 6 vezes e cada vez que regressava à Fajã vendia uma terra, certamente porque tinha muitas. O pai do meu primo Pedro foi às Flores ver a mãe e uma irmã, esta já casada, isto na primeira década do seculo 20. A irmã era casada com Joaquim Oliveira, que tinha ido para as Flores como Grumete da Armada, sendo de S. Miguel. Tiveram dois filhos que também emigraram. O mesmo aconteceu com o pai do António Vieira e o pai do José Eduardo, mas havia muitos outros homens residentes na Fajã, onde casaram, oriundos do continente, da Madeira e de outas ilhas. O Pedro tinha dois tios, irmãos do pai. Um também se chamava Pedro e vivia no Oakland. Teve um jornal e faleceu em 1943, com 74 anos. O outro chamava-se António e era casado com uma senhora de apelido Fagundes, descendente de gente da Fajã e que terá morrido por volta de 1930. O pai do Pedro confiara 30 mil dólares ao irmão António para ele investir da melhor forma, mas, a mulher gastava demasiado, e consta que terá gasto todo este dinheiro. Assim José Laureano perdeu não só todo este dinheiro mas ainda mais mil dólares que emprestou a um homem da Fajãzinha, o qual nunca mais lho pagou. O Pedro dizia que a família do pai era oriunda do Pico e do Faial e um dos seus trisavôs era do Corvo.

O pai do Pedro, na Califórnia, tinha um negócio com um amigo, natural da Arménia, negócio que seria uma Pensão ou Clube, muito possivelmente um bordel. Por sua vez, José Laureano tinha um filho que morreu em combate com os alemães na Itália, em 1918. A mãe seria Flamenga e tinha uma outra filha, duma mulher de Santa Maria. Ela mais o marido andaram na Segunda Guerra Mundial e foram presos no Pacifico, pelo que o Pedro, segundo dizia, que perdeu o contacto com eles. José Laureano terá ido para as Flores em 1920, para casa da irmã que era dona da casa que, mais tarde, o Francisco Tome comprou. A irmã faleceu em 1930. Os filhos morreram novos, na Califórnia.

Isto, o pouco que me recordo acerca de José Laureano. Toda a família morreu com doenças do coração. O Pedro também sofria do coração, mas foi operado em 2000, viveu mais alguns anos. Casou duas vezes. A primeira mulher era natural de Macau. Faleceu derivado um acidente de automóvel. A segunda mulher era de Angola, filha de pai Grego.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 12:09

DESERTO

Segunda-feira, 21.07.14

A cidade esta manhã era um deserto. Apenas ecos de um limitadíssimo foguetório, de um pimba altíssima, aberrante e muito desordenada e das sirenes a chamar clientes aos carrocéis e baloiços.

De resto, apenas a frota completa da equipa de recolha de lixo camarária, um ou outro transeunte, mais idoso, a comprar o jornal no quiosque aberto mais próximo, umou outro corredor matinal, objector de consciência a festejos e diversões, os que trabalham fora do concelho que hoje comemora o seu feriado e equipas de calceteiros, Vodafone, nos, sediadas noutras paragens.

O silêncio implantado, o espaço rasgado por clareiras, o ar matinal refrescante, o Sol semi acariciador e a inédita vontade de derrubar os vestígios de duas estúpidas e gordoentas fartura que, juntamente com uma mini transformada em panaché, garantiram de um momento para o outro, nada mais do que 800 gramas. Quase um quilo!

Havia que desfazer este acervo de calorias adquiridas quase inconsciente. Uma marcha tornada mais rápida e desgastante com a cumplicidade deste deserto em que emergi e que me galvanizou.

Pela primeira vez tive a oportunidade de correr, como um louco, pelo meio da cidade, sem que a polícia municipal, também ela vigilante, me multasse ou até prendesse, por cuidar que esta a fugir, depois de participar num assalto. De facto muitas eram, sobretudo na avenida, as barracas, para tal disponíveis. Já tinha presenciado várias vezes os muitos corredores e corredoras, mas mãos jovens, mais experientes, com currículo e perfil muito bem delineado. Eu corria à brita, como um selvagem pouco desenvolto e era isso que me intrigava, ao cruzar-me com um polícia.

De um momento para o outro 5 K, mas apenas menos 300 gramas. Um pequeno rombo na enorme monstruosidade do efeito farturas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:39

PASSAGENS A 134 EUROS

Segunda-feira, 21.07.14

Segundo informou o próprio presidente do Governo Regional, os residentes nos Açores vão passar a pagar o valor máximo de 134 euros nas suas deslocações ao Continente, quer para Lisboa quer para o Porto, ou seja menos da metade do que pagam habitualmente

Esta é uma das principais novidades do novo modelo de obrigações de serviço público nas ligações aéreas entre os Açores e o Continente e entre os Açores e a Madeira, revelado pelo presidente do Governo Regional dos Açores, que também prevê a liberalização das rotas Lisboa-Ponta Delgada, Lisboa-Terceira, Porto-Ponta Delgada e Porto-Terceira e a autorização da realização de voos low-cost.

Com o novo modelo de transporte de passageiros, que deverá estar em pleno funcionamento no Verão de 2015, estas rotas estarão abertas à entrada de qualquer companhia aérea, incluindo as low-cost, prevendo-se que a concorrência neste sector gerará benefícios no que respeita ao preço das passagens e na qualidade do serviço prestado.

 Quanto à passagem ida e volta para um residente nos Açores que se desloque ao Continente, Vasco Cordeiro explicou que os 134 euros correspondem ao preço final "sem restrições", incluindo a tarifa, todas as taxas aeroportuárias e de emissão de bilhete, bem como a taxa de combustível. "Este preço de 134 euros é garantido através do pagamento direto aos residentes do subsídio, nos casos em que o preço praticado pelas companhias aéreas ultrapasse 134 euros, mediante a apresentação após a viagem dos comprovativos da mesma", salientou aquele governante.

As novas obrigações de serviço público contemplam a melhoria das condições de encaminhamentos de passageiros no interior da Região, do transporte de carga por via aérea e a "proteção diferenciada dos residentes e estudantes açorianos", os quais, neste último caso, passam a pagar um valor máximo de 99 euros nas suas deslocações ao Continente.

 "Registe-se que os preços máximos atrás referidos, que significam uma redução de cerca de 50% em relação aos valores atuais, são aplicáveis em todas as gateways dos Açores, independentemente do regime das respetivas rotas. Ou seja, é um preço máximo garantido a todos os açorianos de todas as ilhas nas ligações com o Continente, utilizem eles os voos a partir de Santa Maria, de São Miguel, da Terceira, do Pico ou do Faial", esclareceu Vasco Cordeiro.

Nada se esclareceu, no entanto, relativamente aos voos entre ilhas, aliás bastante altos.

 

NB - Dados de: «Forum Ilha das Flores», «TeleJornal» e «Açoriano Oriental».

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 02:15

PAI

Domingo, 20.07.14

(POEMA DE JOSÉ RÉGIO)

 

 

Foste simples, banal,

Bom, com defeitos, jovial,

E tão pegado à vida,

Que ainda, velho, velho, a não podias crer vivida.

 

Viveste para as coisas deste mundo,

Que seria melhor

Se o pudesses fazer conforme o teu humor.

 

Não é por ser teu filho que sou triste,

Demoníaco, angélico, diferente,

Descontente, nevrótico, perverso.

 

Mas se algo, em mim, resiste

De humildemente humano,

Amigo de viver conforme vai

Vivendo a gente consoante o ano...

 

A ti o devo, pai!

A ti o devo, se nasci.

E a ti o devo, se inda não morri.

 

José Régio in Colheita da Tarde

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 18:07

CRIAÇÃO DA PARÓQUIA DAS LAJES OU A PRIMEIRA DA ILHA DAS FLORES

Domingo, 20.07.14

O lugar onde se situa a actual Vila das Lajes das Flores terá começado a ser povoado, talvez ainda no primeiro decénio de Quinhentos, à volta de uma pequena Ermida em louvor do Espírito Santo, construída no porto, próximo do mar. A constituição da mesma vila como paróquia, no entanto, remonta aos primeiros anos do século XVI, ou seja, praticamente pouco depois do povoamento daquele lugar. A paróquia das Lajes, cuja data mais provável da sua constituição é 1676, no entanto já era de invocação a Nossa Senhora do Rosário em meados do século XVII, altura em que estava a ser construída a actual Igreja Matriz.

Diogo das Chagas refere o referido lugar nestes termos; “ao sair do porto, que é uma calheta em que abicam barcos”.

Sendo o primeiro local da ilha a ser habitado, as Lajes também foi durante os dois primeiros séculos de povoamento, a localidade da ilha mais importante e com mais população, uma vez que, na mais antiga estimativa da população da ilha, em 1587, o cosmógrafo Luís Teixeira atribui-lhe 300 habitantes, enquanto frei Agostinho de Monte Alverne, em finais de Seiscentos, situa na mesma vila 320 fogos com 1.200 almas. Esta uma das razões porque as frequentes investidas da pirataria se centralizavam ali, com destaque para a que foi porventura a mais devastadora de sempre, acontecida em 1587, quando cinco navios ingleses enganosamente entraram na ilha, pelo porto das Lajes, “destruindo quanto acharam, queimando os templos todos e assolando as casas, sem ficar nem uma só”

No último quartel do século XVII, porém, Lajes das Flores desmembra-se e essa a razão por que em 1717, segundo o padre António Cordeiro, já era a “segunda vila” da ilha, ainda que “em nada sujeita” à florescente vila de Santa Cruz das Flores.

Dessa divisão nasceram duas novas paróquias, uma de invocação a Nossa Senhora dos Remédios, nas Fajãs, em 1676, outra em louvor de São Caetano, na Lomba, provavelmente em 1698. Por duas vezes mais, a paróquia das Lajes volta a ser alvo de desanexações, daí resultando a criação das paróquias de Nossa Senhora dos Milagres, no Lajedo, em 1823, e do Senhor Santo Cristo, na Fazenda, em 1959. Isto significa que à data da sua formação, a paróquia da Senhora dos Remédios das Lajes, possuía um extensíssimo território, precisamente o que abarca o actual concelho, com excepção do lugar da Ponta que pertencia a Santa Cruz, vindo a integrar, a quando da sua criação, a paróquia de Ponta Delgada, a terceira mais antiga da ilha, depois das Lajes e Santa Cruz.

A actual igreja Matriz começou a ser construída em 1763, ficando concluída cerca de vinte anos depois. Sabe-se que foi construída no local onde existiu uma antiga ermida, sobre a invocação do Espírito Santo e que para ali fora transferida do porto e destinou-se a substituir a velha Matriz, que o vulgo conhecia por Igreja das Sete Capelas e que se situava no local onde se situa actualmente o cemitério.

Hoje, no entanto o orago da paróquia das Lajes é a Senhora do Rosário.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 17:14

FASCINANTE

Domingo, 20.07.14

M 49 – “FASCINANTE”

 

ENTRADA

 

Bolinhos de galetes de arroz com creme de queijo fresco e ervas aromáticas, acamados sobre folhinhas de alface. Montículos de requeijão com compota de figo.

 

PRATO

 

Empadas de salmão e legumes com salada de alface, cebola e pimentos temperada com azeite e vinagre balsâmico.

 

SOBREMESA

 

Ameixa branca e geleia de morango.

 

 

 

******

 

Preparação da Entrada: - Escaldar três galetes de arroz com caldo de peixe a ferver. Desfazer e amassar. Juntar uma colher de sopa de creme de queijo fresco com ervas aromáticas e misturar bem. Moldar pequeninos bolos do tipo croquete e coloca-los sobre pedacinhos de folha de alface. Intercalar com colheres de chá de requeijão e cobri-las com compota de figo.

 

Preparação do Prato –Para a massa das empadas seleccionar 80 gramas  de farinha de trigo,1 colher de sopa de azeite, um pouco de Margarina e a clara de ovo. Envolvem-se todos ingredientes e mistura-se bem, não necessitando juntar água. Amassar. Se necessário para a massa não pegar às mãos, juntar um pouco de farinha. Deixar descansar cerca de 20 minutos, esta massa deve. Para o recheio, cozer o salmão e desfazê-lo num refogado de azeite, cebola, alho e pimentos. Juntar um pouco de maizena dissolvida em água e temperar. Estender a massa, cortar quadradinhos e colocar-lhes colheradas de recheio. Formar as empadas da forma que se entender, pressionar as bordas. Levar ao forno e empratar com a salada

 

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 16:12

MUDEI DE RUMO

Sábado, 19.07.14

Era dia de Páscoa! A cidade metamorfoseara o seu ritmado viver quotidiano, enchera-se de música, de sons, de cores, de vultos brancos. As varandas abarrotavam de curiosos expectantes, Por isso ao iniciar a minha caminhada diária, decidi mudar de rumo, trocando o habitual trajecto ornado de asfalto, cimento armado, a abarrotar de cheiro a combustível e a sons automobilísticos, pela serena pacatez dos campos, embora percorrendo caminhos eivados de pó, veredas encharcadas de lama e trilhos atafulhados de pedregulhos e pedras soltas.

Ao iniciar o percurso, em vez de circular pela bem desenhada, asfaltada e sequenciada estrada que rodeia a cidade, decidi, logo ao sair de casa, voltar à esquerda e atravessar o pequeno monte que se ergue ao lado do meu prédio, com rumo à freguesia vizinha, que percorri de lés-a-lés.

Logo ao entrar no monte, viveiro de pinheiros e eucaliptos de mistura com silvados e outras daninhas, circulando por uma escadeada e íngreme vereda, onde o pó é rei, dei, de imediato, com uma enorme clareira, onde o pinheiral foi abatido para dar lugar a nada. É verdade que parece projectar-se ali uma futura zona habitacional, até porque, mais além já se vê uma ou outra “maison” mas requintada e moderna, do que as velhinhas que se espalham por ali. Algumas abandonadas, a desfazerem-se. De resto tudo se assemelha ao universo, antes da criação das criaturas. Depois, penetrei na zona mais antiga e talvez a mais pobre da localidade e arredores. Com casas velhas e antigas, com portões abertos a deixar ver resíduos de antigas “cortes” de vacas e porcos, paredes meias com cozinhas a fumegar e alpendres, já com mesas postas, Tentando fintar os caminhos eivados de socalcos e pedregulhos, rumei por veredas estreitas ente campos muitos deles a abarrotar de batais, cebolas e latadas de videiras a desabrochar. Depressa cheguei ao antigo e agora novo bairro, epicentro de um falsa modernidade de que o edifício escolar, recente obra de orgulho da municipalidade local, é o mais claro exemplo. Casas reconstruidas, prédios antigos reconstruídos e modernizados. Uma destes a simular testemunhos históricos notáveis.

Logo abaixo, o sussurro da água fresca e corrente. Um açude a transbordar de frescura, espelho linear das margens circundantes, verdes e ofegantes. A água a evadir-se em aqueduto e, no outro lado, a lançar-se em barulhenta catarata em miniatura.

O trilho seguia por entre arvoredos e arbustos, ora sombrio ora iluminado, pleno de pedregulhos e enigmas. Além a enigmática e mítica casa dos espíritos. Ali, houve, em tempos idos, mistérios, bruxedos, crendices em demasia. Hoje até os bruxedos são ruínas. Logo adiante a descida do monte, agora por entre campos, enormes cerrados de vinhedos e batatais, com couves, alfaces pelo meio. De tudo um pouco. E o mais emblemático solar da zona, com capela e brasão de armas sobre a porta principal Tudo num degradante e aflitivo estado de degradação…

Para cumulo, o supermercado, que demandei quando prestes a terminar o percurso, estava fechado. Pois é. Era domingo de Páscoa e, assim, livrava-se de receber o toque da música e o zumbir das campainhas que continuavam a encher a cidade de sons e cores…

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 19:53

MINZIM, MINZIM

Sábado, 19.07.14

Um interessante e original jogo realizado pelas crianças, na Fajã Grande, era o “Minzim, Minzim”. O jogo consistia em colocar as crianças sentadas num banco, ficando uma a orientar o jogo. O objectivo era descobrir qual seria a última a sair do jogo, depois de todas as outras serem sucessivamente eliminadas.

Para tal o orientador, batia com a mão uma parte do corpo de cada um, enquanto pronunciava cada sílaba da seguinte cantilena;

 

Minzim, Minzim,

Casou, casou.

Por causa de ti,

Cáscadam.

Minderlim,

Triclá

Um fora.

 

Era o que fosse tocado na altura em que o orientador pronunciava “fora” que era eliminado, até ficar só um, o vencedor que passava a próximo orientador.  

Os adultos ou as crianças mais velhas, por vezes faziam este jogo com os mais pequeninos. Neste casa cada criança ia perdendo, sucessivamente, a boca, o nariz, um olho, uma mão, etc.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 19:03

PALAVRAS, EXPRESSÕES E DITOS UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (XVI)

Sábado, 19.07.14

Andar a apanhar bonés – Não fazer nada.

Apastorear tentilhões – Espantar os tentilhões para não comerem as sementes do trevo

Apoitado – Fundeado (barco).

Caculo – Pequeno monte de terra. Parte alta da cabeça..

C’má folha do álamo – Vira casacas, pessoa inconstante.

C’ma quê?  – Como?

Chaboco – Pessoa desajeitada .

Curtume – Vegetais conservados em frascos com vinagre.

Curral – Terreno muito pequeno.

Descaldear – Por as coisas em ordem. Esclarecer,

Dia descoberto – Dia com céu sem nuvens e com sol.

Estar de faxina – Não trabalhar e estar, simplesmente, a ver os outros trabalharem.

Estar despachado – Estar estragado. Estar sem esperança de cura.

Fácele – Fácil.

Facho – Archote artesanal, feito com uma lata amarrada a um pau para apanhar caranguejos. A lata era cheia com petróleo e um pavio. Também se chamava facho aos raios de luz que emanavam do farol do Albarnaze que se viam por de trás da rocha da\Ponta.

Faia-do-Norte – Plata cujo nome científico parece ser Pittosporum Tobira, com que se faziam bardos nas terras para as proteger dos ventos e da salmoura.

Guindastre – Guindaste.

Incha – Medida correspondente a uma polegada.

Íngua – Inchaço na pele.

Levada – Corrente de água para mover um moinho.

Lintilhas – Sardas no rosto.

Mar espelhado – Mar manso e liso.

Mudar o gado – dar nova cordada ao gado quando amarrado à estaca, nas forrageiras,

Música – Filarmónica. Banda musical.

Música de cana – Instrumentos feitos de canas pelas crianças, a imitar as filarmónicas  

Navio sem alastro – Pessoa desajeitada.

Perregilde – Planta que nasce no baixio e usada nos frascos de curtume.

Põe-te na alheta – Desaparece.

Por no rol – Comprar sem pagar, sendo a compre registada pelo comerciante.

Rabanada de vento – Grande rajada de vento.

Rabujar – Barafustar, protestar em voz baixa.

Rabujento – Que barafusta muito.

Salseirar – Transbordar pela borda de um recipiente água ou outro líquido,

Soevo – Peça de ferro ou metal, colocadas a meio das correntes que prendiam os animais, constituída dor duas argolas, presas uma à outra de a rolarem e impedirem que a corrente se enrole.

Talisca – Pequena tira de madeira.

Vaca dando – Vaca que não teve cria e fica a dar leite, embora pouco, durante mais um ano.

Vagar – Ter muito tempo.

Vai c’ma canela fina – Come-se ou faz-se algo num instante.

Vara d’imparar – Vara comprida, geralmente, com um gancho na ponta, para aproximar ou afastar os barcos do cais.

Zape – De repente. Num instante.

Zarpar – Sair, imediatamente, de um sitio.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 18:32

OS PALHEIROS DA FAJÃ GRANDE

Sábado, 19.07.14

A Fajã Grande era terra onde, antigamente, havia grandes cuidados com o gado bovino, dado que este constituía a principal e, nalguns casos, única fonte de receita de uma pobre e rudimentar economia de subsistência. O que mais prejudicava os animais, sobretudo as vacas leiteiras era o estado do tempo. No verão dias de calor horrível, quase insuportável. No inverno noites geladas, por vezes acompanhadas de ventos, chuvas torrenciais e trovoadas. Para proteger os animais era necessário resguardá-los em sítios onde não fossem vítimas do irregular estado do tempo, o que prejudicava sobretudo, o que de mais importante forneciam – o leite.

Para os proteger dos malefícios do tempo existiam os palheiros. Estes eram de três tipos: uns, construções de raiz, destinadas exclusivamente a este fim, outros, antigas casas de habitação ou casas velhas, para tal adaptadas e uns terceiros não chegavam a sê-lo porque eram pura e simplesmente, as lojas das moradias, permitindo assim que pessoas e animais habitassem, conjuntamente, no mesmo edifício: as pessoas no piso superior e os animais, na loja.

Os palheiros de raiz e que para tal haviam sido construídos, eram, geralmente, situados numa plataforma elevada em relação à rua onde estavam edificados. O acesso fazia-se por um caminho pedonal, parcialmente, em escada. Estes tipos de palheiros eram construídos em alvenaria de pedra à vista, semelhantes às casas primitivas, mas, contrariamente a estas, cobertos em duas águas e com telha de meia-cana tradicional, oriunda da Graciosa, tendo como as moradias, um telhão na cumeeira e um beiral simples. Junto a eles, em frente à porta do piso inferior situavam-se os montes onde, ao longo do ano, se ia guardando e acumulando esterco dos animais. Os palheiros de dois pisos, geralmente, tinham planta rectangular, com uma porta de acesso ao piso inferior encimada por uma pequena janela na fachada principal e uma porta de acesso ao piso superior, numa das empenas laterais ou nas traseiras. O acesso ao segundo piso fazia-se por esta porta, aproveitando, geralmente o desnível do terreno, embora muitos tivessem apenas a porta da frente e o acesso ao piso superior se fizesse por uma escada interior com alçapão. Nestes palheiros, os animais ficava no piso inferior, enquanto o superior servia de arrumos, sendo, também, nele que se guardava a comida do gado que, assim era atirada directamente para as manjedouras, através de alçapões colocados sobre estas e que, presos por dobradiças, abriam e fechavam facilmente.

No piso inferior eram colocadas junto a uma das paredes a manjedoura onde se deitava a comida dos animais e às quais estavam amarrados com uma corda, pela cabeça. A meio do palheiro e paralelo â manjedoura havia um rego, destinado a recolher os excrementos e a urina dos animais. A urina era armazenada, através de um orifício que existia no rego, numa poça, construída no próprio chão do palheiro, num dos cantos mais recônditos. Os excrementos, misturados com a cama feita com fetos secos e restos de comida deitada debaixo de cada animal, transformavam-se no esterco que deveria ser retirado e padejado com um garfo, pelo menos dia sim, dia não, para o monte que existia fora da porta do palheiro, onde era devidamente arrumado e guardado. No lado oposto ao da poça, geralmente tapada com uma prancha, colocavam-se os molhos de comida, erva, incensos, couves, ramas de batata, espiga de milho, etc. Em todos os palheiros, para além de cordas, bordões e aguilhadas, havia um banquinho para a ordenha. Os animais ocupavam sempre os mesmos lugares que eles próprios já conheciam, sozinhos ou agrupados aos pares, em espaços separados por divisórias construídas com paus e ripas de madeira, chamadas repartiamentos. Alguns palheiros mais sofisticados, no andar superior e sobre as manjedouras tinham alçapões que se abriam quando se pretendia deitar a comida aos animais, a qual, nestes casos era guardada no piso superior.

No caso dos palheiros adaptados das antigas casas de habitação, chamadas casas velhas, tudo era rigorosamente igual, embora fossem geralmente só de um piso, servindo, por isso, neste caso, simultaneamente, como local de arrumos. O mesmo acontecia nas lojas das casas que serviam de palheiros, nas quais, num canto, ainda havia a tradicional caneca, para recolha e armazenamento da urina e fezes do agregado familiar. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 08:50

ESCRITOR E POETA

Sexta-feira, 18.07.14

Não será surpresa para ninguém referir-se a alegria que todos e cada um dos participantes no recente “Encontro” ou os “Senhores” do mesmo sentiram ao depararem-se, cara a cara, com antigos colegas, amigos e companheiros de jornada, muitos dos quais não se viam, nem se haviam encontrado desde os tempos de alunos no SEA. Também não será surpresa para ninguém, salientar-se, que essa alegria ainda se tornou maior, diria mesmo agigantou-se de uma forma emocionante e emocionada, quando os “reencontrados” eram colegas de curso ou até de anos mais próximos, que haviam partilhado prefeituras, nalguns casos até aulas e, por tudo isso, muito mais carregados de vivências mais íntimas, de percursos mais paralelos, de camaradagens mais identificadas ou amizades mais sentidas e densamente vividas. Aconteceu, precisamente tudo isso, ao reencontrar, entre muitos outros participantes e grandes amigos, o Zé Costa, meu colega de curso, embora, posteriormente, os nossos percursos de vida se tenham distanciado em demasia no espaço e se tenham perdido em mais de quarenta e dois anos, no tempo. Daí que nosso reencontro tenha sido um momento único, inolvidável e de grande emoção, de enorme alegria e deslumbrante contentamento. Na realidade o Zé Costa foi sempre um excelente camarada, um manancial de compreensão e estima, um amigo sincero e verdadeiro.

 Mas a mais bela imagem que eu tinha do Zé Costa, para além de colega compreensivo, companheiro solidário, era a de que ele, enigmaticamente possuía e, naturalmente, ainda possui o dom de ser um conselheiro que não “dá conselhos” mas confronta, abana e ajuda a identificar os problemas e dificuldades alheias, assemelhando-as, aceitando-as, comparando-as e, sobretudo, sublimando-as, diria mesmo inserindo-se nelas como se fossem suas. Não é muito vulgar esta forma de ajudar os outros! 

E o Zé Costa veio para o encontro, assim, coma sua simplicidade, com o seu espírito jovial, sempres disponível para tudo e para todos, carregado de alegria, a abarrotar contentamento e ainda por cima trazendo dois livrinhos de poesia, de que é autor e que, gentilmente, me ofereceu, sendo que um deles, “Ficou-me na Alma este Gosto” havia sido apresentado, quinze dias antes, na Livraria Culsete, por Leonor Simas-Almeida, Senior Lecturer na Brown University, em Providence e com a leitura de alguns poemas por Olegário Paz.

Para além de poeta, José Francisco Costa, também é contista, escritor doutras áreas e professor. Fixou-se nos Estados Unidos, desde de 1978, onde tem feito uma brilhante carreira como professor de Língua Portuguesa.

Foi este Zé Costa, sempre alegre e folgazão, dos poucos a equiparem-se a rigor, para o jogo de futebol, ou melhor de “arrastar de barrigas”, que surgiu em Angra como mais um dos “Senhores” do Encontro. Participando em todas as actividades com uma envolvência sempre sublime, activa, vivificante e ternurenta, distinguiu-se sobretudo no sarau músico-literário, porquanto para além de serem recitados poemas seus, ele próprio recitou poemas de outros autores, também eles, antigos alunos do SEA.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 17:04

DELEITÁVEL

Sexta-feira, 18.07.14

MENU 48 – “DELEITÁVEL”

 

ENTRADA

 

Bolacha de arroz barrada com queijo creme de ervas aromáticas. Rodelas de pepino grelhadas e barradas com creme queijo de salmão. Cubinhos de queijo freco envolvidos em mel.

 

PRATO

 

Robalo grelhado, recheado com um misto de salmão e pimentos. Migas grelos.

 

SOBREMESA

 

Cerejas com geleia de morango, suspiros e montinhos de requeijão cobertos com geleia de marmelo.

 

******

 

Preparação da Entrada: - Barrar a bolacha com o creme, grelar as rodelas de pepino e barrá-las, cobrir os pedacinhos de queijo com o mel e empratar.

Preparação do Prato – Limpar o robalo de espinhas e peles, temperá-lo com alho, ervas e sumo de limão e grelhar os filetes de ambos os lados. Fazer o creme para o recheio com um refogado de cebola, alho, pimentos e cenoura raspada a que se junta o salmão cozido e esmagado. Temperar com um pouco de vinho do porto e misturar duas colheres de queijo creme fresco para dar plasticidade ao creme. Acamar os filetes e recheá-los com o creme, como se fosse uma sandwich. Cozer os grelos. Desfazer o pão na água dos mesmos e juntá-los. Juntar esta mistura em azeite perfumado com alho. Empratar.

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional. Empratar com gosto.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 16:37

O CASADO ARREPENDIDO

Quinta-feira, 17.07.14

«Meu sogro, quero falar-lhe, mas é muito em particular,

Quero hoje sem demora, consigo desabafar.»

«Das seis horas em diante, nã tenho nada a fazer.

Assim com tanta urgência o que tem para me dizer?

Se é para pedir dinheiro, escusa de tempo perder.»

«Não é para pedir nada, o que eu quero contar;

Se nã leva muita pressa, eu já le posso falar.

Eu casei com a sua filha, mas não la posso aturar.»

«Para mim é novidade, o que m’estas a dizer.

Se não la pode aturar, antão que hei-de fazer.

Eu também com sua sogra, custa-me muito a viver.»

«Antão já vem de família, nã há nada que estranhar,

Mas eu nã estou resolvido com ela me incomodar.

Para não fazer uma asneira, é melhor me desquitar.»

«Venha cá, senhor finório, nã faças coisas no ar,

É que ele é muito nova, o que lhe falta é pensar,

Nunca fez certos trabalhos, é preciso a ensinar.»

«Com vinte’oito anos de idade não tem o pensar devido?

Mas sabe ela a toda a hora, maltratar o seu marido.

Entes quebrasse uma perna do que a ter arrecebido.»

«Sim senhor, diz muito bem, mas eu não fui o culpado,

Se casou com a minha filha, por ninguém foi obrigado.

E se ela casou com você, nunca foi do meu agrado.»

«Se eu sabia o que sei hoje, nunca casava com ela,

Que o serviço que ela faz, é deitada ou à janela.

Tem tudo o que é de mau, até toma a sua piela».

«Um home que assim fala nã é home cavalheiro.

Se nã qu’ria ser casado, porque nã pensou primeiro?

Mas você gostou dos dez contos que ela levou em dinheiro.»

«Tivesse eu tanto de santo como estou d’arrependido,

Nem com cem contos de dote, nunca a tinha arrecebido.

   ( …)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 22:50

REVOLTANTE

Quinta-feira, 17.07.14

A TAP, a companhia aérea nacional que apoia todos os portuguese e muitos estrangeiros, tem, muito bem escarrapachadas na sua página oficial, no site http://www.flytap.com/Portugal/pt/Homepage?GORMPTJUL1&gclid=COjVxtqIzL8CFQjItAod0GAARg, excelentes promoções para a Europa e Norte de África, com destaque para Milão 56 euros, Nice 67, Londres 73, Viena 102 e Marraquexe 279. No entanto, do Porto para o Pico, com viagens que poderiam ser de cinco a seis horas, incluindo as escalas necessárias, a demorarem muito mais e a obrigarem a pernoitar numa segunda ilha, o mais barato que se consegue são 342 euros (trezentos e quarenta e dois euros) por uma viagem de ida e volta.

Por sua vez a SATA, radicada nos Açores e transportadora aérea para todos os açorianos, espalhados pelas nove ilhas e na diáspora, embora um pouco mais módica, obriga a pagar, na mesma viagem Porto/Pico 315 euros. Como sou seu cliente assíduo, os seus prestigiosos serviços, têm a gentileza de me enviar emails, onde me disponibilizam e oferecem voos Açores/Madrid e Açores/Gran Canária, quer um quer outro, apenas por 199.euros, mas com as imagens bloqueadas e que só eu posso abrir: para proteger a sua privacidade, as imagens desta mensagem foram bloqueadas Mostrar imagens.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 15:36

PRIMÓRDIOS DO POVOAMENTO DAS FLORES

Quinta-feira, 17.07.14

Hoje sabe-se que o verdadeiro e efectivo povoamento da ilha das Flores só se terá dado por volta de 1500, pese embora, cerca de 50 anos após o seu achamento por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, provavelmente no verão de 1452, o flamengo Guilherme da Silveira e seus companheiros, terem ocupado a ilha, segundo se crê, entre 1480-90. Esta ocupação, porém, não se tornou efectiva nem muito menos definitiva, porque Guilherme da Silveira  “não achou a terra a seu gosto”  , nem descobriu os metais que alegadamente procurava, por isso depois de ali estar algum tempo, abandonou a ilha, trocando-a por São Jorge. Assim considera-se que o primeiro e efectivo povoador da ilha foi João da Fonseca, dado que, uma vez que lhe foi confirmada a doação da ilha, por carta régia de 1 de Março de 1504, depois de a ter comprado, juntamente com o Corvo, a D. Maria de Vilhena, viúva de Fernão Teles, para ali partiu, ocupando-a de facto e iniciando o seu povoamento. Assim, pode concluir-se que entre a descoberta da ilha e o seu povoamento efectivo medeiam mais de 50 anos.

Tudo indica que, à semelhança do já haviam feito Guilherme da Silveira e os colonos que com ele trouxera, durante a sua efémera presença nas Flores, também os homens e as mulheres levados para as Flores por João da Fonseca se tenham dispersado, por vários núcleos, ao longo da costa da ilha, com cada família ou grupos afins a ocupar uma parte aqui outra além, parte que lhes coubera na distribuição inicial de terras. A própria toponímia da ilha parece sustentar a tese de uma ocupação dispersa da ilha, pois são várias as fajãs, os ilhéus e até alguns lugares com nomes de primitivos povoadores, como Lopo Vaz, Pedro Vieira, Valadões, os ilhéus de Álvaro Rodrigues, de Maria Vaz ou os lugares de Mateus Pires que perpetuam o nome de alguns dos primeiros colonos ou dos filhos desses.

Mas o povoamento foi lento e moroso, uma vez que, em finais de Quinhentos, ainda só existiam três paróquias na ilha, sendo a primeira criada a das Lajes, depois Santa Cruz e, a terceira, Ponta Delgada. É verdade que estavam muito afastadas umas das outras, mas já existiam alguns colonos noutros lugares da ilha, como nos Cedros, nas Fajãs, no Lajedo e nas outras fajãs, acima referidas, o que mostra que, a par dos principais e mais antigos povoados, pequenos núcleos haviam, desde cedo, cobrindo gradualmente toda a ilha, dando assim origem às futuras paróquias.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:04

LUTA CONTRA A MORTE

Quinta-feira, 17.07.14

Eu vi fugir a morte e ausentar-se

A angústia de ficar, um dia, inerte...

Obstruído sonhar!... Mas que desperte,

Que continue em mim, a perpetuar-se.

 

Vi angústia da morte evaporar-se,

Envolvendo-se em sombra que se verte,

Se dispersa, evapora e até se perde,

Num oceano de espuma, a balouçar-se.

 

Eternamente ser... Na solidão

Do cosmos. Que deserto!... Que tormento!...

Que a morte nunca seja a ilusão

 

De ser somente dor ou sofrimento

E eu eterno, imortal, rio ou vulcão,

Ou apenas um simples pensamento.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 01:07

IMPOSIÇÃO DO ESCAPULÁRIO DA SENHORA DO CARMO

Quarta-feira, 16.07.14

Nossa Senhora do Carmo é um título ou invocação da Igreja Católica consagrado à Virgem Maria. Este título apareceu com o propósito de relembrar o convento construído em honra da Santíssima Virgem Maria nos primeiros séculos do Cristianismo, no Monte Carmelo, em Israel. A principal característica desta invocação mariana é apresentar o Escapulário do Carmo, símbolo que representa o acto de se estar, permanentemente, ao serviço de Deus e que, em contrapartida, acarreta muitas indulgências, graças e outros benefícios espirituais a quem o traz ao peito ou vestido, no caso da Ordem Maior.

Na Fajã Grande, sobretudo no lugar da Ponta, havia grande devoção à Senhora do Carmo e era costume muitas pessoas usarem o escapulário, sobretudo mulheres e crianças, pois acreditava-se que Nossa Senhora acompanharia e livraria de males e perigos quem o utilizasse. Na igreja paroquial, num nicho lateral do altar do Coração de Jesus ou do lado da Epístola, havia uma pequena imagem da Senhora do Carmo. Mas a grande e mais conhecida e venerada imagem da Virgem sob essa invocação, não só na freguesia mas em toda a ilha das Flores, encontrava-se na igreja da Ponta da qual era a Padroeira. A sua festa litúrgica era celebrada no dia dezasseis de Julho, mesmo que este não coincidisse com um domingo, transformando, assim, esse dia num verdadeiro dia Santo na freguesia. Mais tarde a festa passou a realizar-se no domingo de Julho mais próximo daquele dia.

Era no dia da festa, antes da missa do dia que, em cerimónia solene, presidida pelo pároco, com mandato canónico para tal, que se procedia à imposição do escapulário, constituído por duas pequenas tiras de pano castanho, uns com a imagem em plástico da Senhora do Carmo, presas uma à outra com dois elásticos que devíamos colocar ao pescoço de forma visível apenas no dia da festa e nos restantes dias por debaixo da roupa. Uma tira devia ser colocada sobre o peito e a outra nas costas. Isto no caso de se aderir apenas à Ordem Menor, porque mulheres havia que, aderindo à Ordem Maior, teriam que andar vestidas com um vestido castanho sobre o qual usavam o escapulário, também imposto numa cerimónia ainda mais solene. Neste caso, as tiras, também de cor castanha, eram muito maiores cobrindo-lhes o corpo quase por completo como se fosse um avental ou uma bata aberta nos lados. Na Ponta havia muitas mulheres que se vestiam assim, permanentemente, fruto de promessas que haviam feito.

O Escapulário, como era explicado pelo pároco durante a cerimónia de imposição, era um sinal de aliança com a Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa mãe e exprimia a consagração a Ela dos que aceitavam usá-lo em Seu louvor.

Afirmava o pároco nas prédicas dos dias de tríduo preparatório, que, poucos anos antes, em 1951, por ocasião da celebração do 700º aniversário da entrega do Escapulário, o Papa Pio XII escrevera aos Superiores Gerais das duas Ordens carmelitas, afirmando que: "… o Santo Escapulário, que pode ser chamado de Hábito ou Traje de Maria, é um sinal e penhor de protecção da Mãe de Deus". Depois concluía que o uso do Escapulário do Carmo, havia sido recomendado por vários Papas e que muitos Santos o haviam utilizado durante toda a sua vida.

E nós inocentes e crédulas criancinhas, logo após a idade da\razão, lá íamos, à festa da Senhora do Carmo da Ponta, em romaria, receber o escapulário ou usá-lo, com maior solenidade naquele sai, colocando-o, ostensivamente, sobre a roupa.   

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 15:38

O SENHOR JOÃO FAGUNDES

Quarta-feira, 16.07.14

O Senhor João Fagundes morava no Cimo da Assomada, precisamente na última casa, no Caminho que dava para as hortas, terras de mato e Lavadouros. Na verdade, a rua da Assomada, a primeira que demandava quem vinha dos lados da Fajãzinha, ou seja do Sul da ilha, tinha a forma de um ípsilon, isto é, no seu cimo, ramificava-se em duas vielas ou caminhos. À direita de quem a subia, a Assomada como que continuava através do Caminho da Missa, com destino à Eira da Quada, à Fajãzinha e às outras freguesias e vilas da ilha. Mas se, pelo contrário, voltássemos à esquerda, a dita rua prolongava-se pelo início do caminho que dava para as terras de cultivo, de mato, para as relvas, para o Covão e Outeiro Grande, para O Delgado e Quada, para os Lavadouros e terminava no Curralinho.

Ora era precisamente deste lado que se situava a casa do Senhor João Fagundes, a última de quem subia e a primeira de quem descia este caminho, um dos mais importantes e mais frequentados da freguesia. Para aqueles lados se situavam as melhores relvas, as mais férteis terras de cultivo do Vale da Vaca, as excelentes hortas do Delgado e Cabaceira, para não referir o lugar da Cuada, na altura habitado por cerca de trinta pessoas. Essa a razão pela qual passavam ali, diariamente dezenas e dezenas de pessoas e animais, embora a casa ficasse com a frente voltada para o lado contrário ao caminho. A casa situava-se muito próximo da Ladeira do Covão e como que abrigada pela encosta da Pedra d’Água.

O senhor João Fagundes, um homem já de provecta idade, com o nome rigorosamente igual ao de meu progenitor, razão pela qual meu pai, por ser mais novo, assinava o seu nome sempre seguido de Júnior. Assim não havia confusão, não tanto pelas cartas que estas traziam remetente, mas sobretudo pelos avisos amarelos, anunciadores das encomendas da América ou daqueles que eram para pagar dízimas e impostos e que não continham remetente. O senhor João Fagundes era um homem muito trabalhador e respeitado na freguesia, tendo exercido alguns cargos de responsabilidade e era irmão da mãe do José Nascimento e de minha tia Adelina, casada com um irmão de meu pai. Muito sério nos seus contratos, honesto nas suas atitudes, não se metendo na vida de uns e de outros. Raramente se vinha sentar à Praça, porque a sua casa ficava muito distante do centro da freguesia. Imagine-se o que seria percorrer toda aquela distância de noite, sem iluminação nas ruas. Por isso e pelo seu feitio e temperamento, o Senhor João Fagundes era um homem muito caseiro. A sua postura, digna, nobre e séria, impunha respeito. A sua bondade e simplicidade auferiam-lhe o apreço, a consideração e a estima de todos, Vivia com a esposa e os dois filhos mais novos, dado que os restantes já haviam casado. O João ingressou na Guarda-Fiscal, deslocando-se, mais tarde, para Santa Cruz, juntamente com a mulher, enquanto a filha casou e partiu para o Canadá.

Dada a situação da casa, muitos homens que vinham das terras, cansados, carregados com molhos e cheios de sede, paravam ali para pedir água. Assim, o largo que existia junto ao palheiro que ficava ao lado da casa como que se transformara numa espécie de descansadouro.

Com a abertura da estrada, no final da década de cinquenta, a frente da casa ficou voltada para esta e, por isso o acesso passou a fazer-se pela nova estrada.

É esta casa, a primeira da freguesia a ser visitada pela coroa do Senhor Espírito Santo, por altura da distribuição da carne, a primeira em que íamos cantar os Anos Bons e os Reis, que actualmente está à venda

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:11

MENINOS DE TODAS AS CORES

Quarta-feira, 16.07.14

(UM CONTO DE LUÍSA DUCLA SOARES)

 

Era uma vez um menino branco, chamado Miguel, que vivia numa terra onde todos os meninos eram brancos e, por isso, ele pensava que todos os meninos do mundo eram brancos. Brincavam todos juntos, faziam desenhos de meninos brancos, e, juntamente com os todos os meninos brancos, o Miguel dizia:

 

É bom ser branco

Porque branco é o açúcar, que é tão doce

Porque branco é o leite, que é tão saboroso

Porque branca é a neve, que é tão linda e fofinha. 

 

Mas certo dia, os pais do Miguel resolveram viajar e o Miguel partiu, com eles, num grande num barco. A viagem demorou muitos dias, porque os barcos andam devagar, mas o Miguel, finalmente, chegou a uma terra onde, ficou muito admirado porque todos os meninos eram todos pretos.

Passado pouco tempo, fez-se amigo de um menino que era caçador e tinha um nome muito estranho, chamava-se Lumumba. Ele e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos pretos, brincavam todos juntos,  faziam desenhos de meninos pretos,  e, juntamente com todos aqueles meninos pretos o Miguel dizia:

 

Afinal, é bom ser preto

Porque preta é a noite, durante a qual nós dormimos tranquilamente,

Porque pretas são as azeitonas que são tão saborosas,

E pretas são as estradas onde andam os carros.

 

O Miguel, passado algum tempo fez uma outra viagem de camioneta e chegou uma outra terra  onde todos os meninos eram castanhos. Tornou-se amigo de um menino que fazia corridas de camelos e se chamava Ali-Babá. Ele e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos castanhos, brincavam todos juntos, faziam desenhos de meninos castanhos, e, juntamente com todos o Miguel dizia:

 

É bom ser castanho

Porque é castanha a terra do chão que nos dá as ervas e as plantas,

Porque castanhos são os troncos das árvores que nos dão a madeira,

Porque castanho é o chocolate que é tão doce…

 

O menino branco ainda fez uma outra viagem de avião, e só parou numa terra onde todos os meninos eram vermelhos e estavam a brincar aos índios. Tornou-se amigo de um menino chamado Pena de Águia e com ele também aprendeu a brincar aos índios. Então o Pena de Águia e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos vermelhos, brincavam todos juntos, faziam desenhos de meninos vermelhos,  e, juntamente com eles, o Miguel dizia:

 

É bom ser vermelho

Porque vermelhas são as fogueiras que são tão quentinhas

Porque vermelhas são as cerejas que são tão apetitosas

E vermelho é o sangue que dá vida ao nosso corpo.

 

Finalmente o Miguel fez uma viagem de barco, de camioneta e depois de avião para uma terra muito, muito distante onde todos os meninos eram amarelos. Tornou-se amigo de um menina chamada Flor de Lotus. Ela e o Miguel juntaram-se a todos os outros meninos amarelos, brincavam todos juntos,  faziam desenhos de meninos amarelos,  e, juntamente com todos o Miguel dizia:

 

É bom ser amarelo

porque é amarelo o Sol que nos dá a luz e o calor,

porque é amarelo o girassol que é uma linda flor

e porque é amarela a areia da praia, para onde vamos tomar banho nas férias.

 

Depois, quando o Miguel voltou à sua terra, a terra onde todos os meninos eram brancos, brincava com todos os seus amigos que eram brancos e todos juntos, faziam desenhos de meninos brancos, pretos, castanhos, vermelhos e amarelos e, juntamente com os todos os meninos brancos, o Miguel dizia:

 

É bom ser branco como o açúcar

É bom ser preto como as azeitonas

É bom ser castanho como o chocolate,

É bom ser vermelho como as cerejas

É bom ser amarelo como o Sol.

 

E, a partir desse dia, na escolinha do Miguel, todos os meninos brancos pintavam em folhas brancas desenhos de meninos brancos, pretos, castanhos, vermelhos e amarelos, todos muito felizes e sorridentes.

 

Luísa Ducla Soares (adaptado)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 08:55

DE MORGAN HILL A ANGRA

Terça-feira, 15.07.14

O José Maria Ávila nasceu nos Rosais, ilha de São Jorge e estudou nas Velas. Entrou para Seminário de Ponta Delgada em 1958, continuando no de Angra, durante mais três anos, até à altura em que abandonou os estudos naquela instituição de ensino. Pouco tempo depois, em 1965, emigrou para a Califórnia, residindo actualmente na cidade de Morgan Hill, embora visite os Açores e, mais concretamente São Jorge, com frequência.

Profissionalmente, trabalhou, durante os primeiros vinte e dois anos da sua estadia na Califórnia, numa das maiores companhias de Supermercados daquele estado norte-americano, com mais de 1500 sucursais espalhadas por todo o estado, ocupando nos últimos doze, desses anos, o cargo de gerente geral. Devido à sua capacidade de trabalho, competência e vocação para o empreendedorismo, a partir de 1987, decidiu estabelecer-se por conta própria, montando uma empresa “Store & Sign Shop” que actualmente mantém e dirige. Trata-se de uma agência que trabalha para uma companhia de transporte de cartas e encomendas para todo o mundo. Paralelamente está relacionado com a produção e venda de artigos de artes gráficas.

O José Maria Ávila encheu-se de contentamento com a sua participação no “Encontro” de Angra”, espalhando aos quatro ventos a sua fascinação: “Gostei muito de me encontrar com todos, em Angra, 49 anos depois”. Apesar desta tão longa separação, no espaço e no tempo, nada nem coisa nenhuma fez diminuir ou sequer amarfanhar a enorme amizade, carinho, respeito e camaradagem e consideração entre o José Maria Ávila e os outros “Senhores” do Encontro. Participou em tudo com entusiasmo, imiscuiu-se em cada pormenor, reacendeu-se-lhe o peito de jubilação em cada actividade, extravasou-se numa enorme vontade de todos abraçar, de dialogar com cada um, numa partilha de memórias e recordações. A sua presença foi notória no celebérrimo jogo de futebol em que, assumindo a guarda de uma das balizas, executou um bom punhado de defesas. Por tudo isto foi mais um dos “Senhores” do Encontro.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 10:36

SILÊNCIO

Terça-feira, 15.07.14

Este silêncio,

Despejado sobre o cais deserto,

Não sabe a maresia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:45

LUÍS RIBEIRO

Terça-feira, 15.07.14

O etnógrafo Luís da Silva Ribeiro nasceu em Angra do Heroísmo, em 4 de Janeiro de1882 e faleceu na mesma cidade em 24 de Fevereiro de1955. Concluídos os estudos secundários em Coimbra, bacharelou-se em Direito, em 1907, tendo declinado o convite para se doutorar. Regressado à Terceira, obteve, por concurso, o cargo de Delegado-Procurador da Coroa na Relação dos Açores, embora por recomendação do Partido Regenerador. Foi também Administrador do Concelho e Comissário da Polícia de Angra, Juiz Administrativo, Chefe da Secretaria da Câmara Municipal de Angra e professor do Curso Complementar de Letras e de Canto Coral, no Liceu de Angra.

Devido à sua militância republicana e ligação ao Partido Democrático andou envolvido na administração local, quer por nomeação quer por eleição. Foi nomeado presidente da Câmara de Angra, em 1911; Governador Civil substituto, em 1913; presidente da Junta Geral, em 1914-1915, por eleição; manteve-se como procurador até se desligar do Partido Democrático, do qual havia sido líder. Manteve o seu espírito independente e liberal, embora tivesse colaborado com os organismos locais do Estado Novo, em tarefas muito concretas de carácter cultural. Em 1931, foi punido com 150 dias de suspensão, com perda de vencimentos, por ter sido acusado de facilitar a ocupação de aposentos camarários por parte dos deportados que se haviam revoltado.

Foi membro de várias instituições que reflectiam as suas preferências culturais: sócio da Sociedade de Geografia de Lisboa; membro do Instituto de Coimbra-Academia Científica e Literária; Instituto Português de Arqueologia, História e Etnografia; Sociedade Portuguesa de Antropologia; Consejo Superior de Investigationes Cientificas (Espanha); Instituto de História e Geografia do Rio Grande do Sul; Sociedade Tucumana de Folclore (México); Clube Internacional de Folcloristas (Brasil); Academia de Mendonza (Universidade de Cuyo); Academia de Jurisprudência e de Legislação (Madrid); Instituto Açoriano de Cultura; Sociedade de Estudos Açorianos «Afonso Chaves» e Instituto Histórico da Ilha Terceira. Pertenceu à maçonaria, tendo feito a regularização ainda em Coimbra.

A intensa actividade intelectual de Luís Ribeiro levou-o a desenvolver estudos na área da História, procurando evidenciar a forte ligação histórico-cultural das ilhas açorianas a Portugal continental; sobre a jurisprudência, publicou trabalhos que mereceram referências de autores consagrados; no campo da Etnografia, deixou uma vasta e diversificada obra com análises profundas da vida açoriana. Um trabalho minucioso e seguro que mereceu a consideração de etnógrafos portugueses e estrangeiros. Na área política, publicou variadíssimos artigos onde ficaram expressas as suas discordâncias com os separatistas, pronunciou-se sobre a defesa do regionalismo e alvitrou uma série de propostas administrativas que se distanciavam das provenientes de São Miguel, de cariz autonómico mais alargado. Neste aspecto, Luís Ribeiro foi mais contido: defendeu uma descentralização municipalista, mas como não conseguiu que o projecto se concretizasse, optou pela manutenção das Juntas Gerais Autónomas, dotadas de poderes administrativos, mas fiscalizadas para evitar esbanjamentos. Uma certa descrença na capacidade dos açorianos serem capazes de se governarem a si próprios, levou-o a tomar posições que serviram os objectivos do poder centralizador. Em 1938, recebeu Marcelo Caetano e em boa medida o terá influenciado nas linhas mestras que vieram a integrar o Estatuto Administrativo de 1940.

No Correio dos Açores, jornal fundado em 1920, deixou uma vasta colaboração. Naquele periódico publicou uma série de artigos sobre o açorianismo, a construção da unidade e identidade regional e, em 1936, os Subsídios para um ensaio sobre a açorianidade. Pela lucidez e profundidade do seu pensamento, Nemésio escreveu que era «a alma e consciência da nossa ilha (Terceira) e dos Açores». Parte da sua obra foi reunida em volumes temáticos, mas existem ainda muitas dezenas de artigos dispersos pela imprensa.

Obras principais: Obras I, - Etnografia Açoriana (coordenado por João Afonso), Obras II – História (coordenado por José G. Reis Leite), Obras III, Vária (coordenado por João Afonso e Reis Leite), Obras IV – Escritos político-administrativos (estudo introdutório e coordenação de Carlos Enes).

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:26

O PRÍNCIPE SAPO

Segunda-feira, 14.07.14

Há muitos, muitos anos, quando os desejos ainda funcionavam e os animais falavam, vivia um rei que tinha várias filhas muito belas e formosas. A mais jovem era tão linda que até o Sol ficava atónito sempre que iluminava seu rosto.

Perto do castelo do rei havia um bosque, grande e escuro, atravessado por um pequeno córrego, rodeado de belos prados e de velhas árvores. Nos dias de muito calor, a princesinha ia ao bosque, aproximava-se do regato e sentava sobre a fresca e viçosa erva que crescia nas suas margens. Quando se aborrecia, pegava numa bola de ouro, atirava-a para o ar, recolhendo-a, de seguida. Esta era a brincadeira favorita da princesinha. Porém aconteceu que, uma das vezes em que a princesa atirou a bola, esta não caiu na sua mão, mas sim no solo, rolando, rolando sobre a relva até cair no regato.

A princesa, ao ver que a sua bola se perdera no fundo do regato, começou a chorar. Tanto chorou, tanto se agastou e tanto lamentou a perda do seu brinquedo preferido, que alguém lhe perguntou:

- O que te aflige, princesa? Choras tanto que até as pedras sentem pena de ti.

A princesa olhou para o lugar de onde lhe parecia que vinha a voz e viu um sapo com a sua enorme e feia cabeça fora da água. Disse-lhe, então:

- Ah, és tu, sapo. Estou a chorar porque a minha bola de ouro, com que gosto tanto de brincar caiu no fundo desse regato.

- Calma, não chores - disse o sapo. – Se quiseres posso ajudar-te. Mas o que me darás tu se eu te devolver a tua bola?

- O que quiseres, querido sapo - disse ela, - Dou-te as minhas roupas, ou as minhas pérolas, ou as minhas jóias. Até te dou esta coroa de ouro que trago na cabeça.

O sapo retorquiu:

- Não me interessam as tuas roupas, as tuas pérolas nem sequer as tuas jóias, nem a tua coroa. Deixa-me, simplesmente, ser teu amigo, brincar contigo, sentar-me à mesa a teu lado, comer no teu prato de ouro, beber do teu copo de cristal e dormir na tua cama de marfim e ébano. Se me prometeres tudo isto eu descerei ao fundo do regato e trarei tua bola de ouro.

- Oh, sim - disse ela – Prometo-te tudo o que quiseres, mas devolve-me a minha bola.

O sapo, depois de ouvir aquela promessa, meteu a cabeça na água e mergulhou. Pouco depois voltou e, nadando com a bola na boca, atirou-a para a relva da margem do regato, onde estava a princesinha que, ao vê-la, logo a agarrou, pondo-se, de imediato a correr, fugindo do sapo. Cuidava ela que um bicho como aquele nunca poderia ser amigo de um ser humano.

- Espera, espera - gritou o sapo. - Leva-me contigo. Eu não posso correr tanto como tu.

Mas de nada serviram os gritos e lamentos do sapo. Aprincesa corria cada vez mais, abandonando o pobre sapo que, assim, se viu obrigado a voltar ao riacho.

No dia seguinte, quando a princesa se sentou à mesa com o rei e toda a corte, comendo no seu pratinho de ouro, bebendo do seu copo de cristal, ouviu um barulho que lhe parecia algo a arrastar-se pela escada de mármore que dava para a sala.

De repente o barulho cessou e ela ouviu uma voz muito ténue e suave que dizia:

- Princesa, jovem princesa, abre-me a porta.

Ela, levantando-se, de imediato, correu para ver quem estava lá fora. Quando abriu a porta, viu o sapo que, de imediato, se sentou-se diante dela, Muito assustada e cheia de medo, a princesa bateu a porta e voltou a sentar-se. O rei, apercebendo-se de que algo de estranho se passava, perguntou:

- Minha filha, o que se passa? Por que estás tão assustada? Há um gigante ali fora que te quer raptar?

 - Ah não, - respondeu ela - não é um gigante, mas um sapo.

- E o que quer o sapo de ti? - Indagou o rei, com espanto

- Ah, querido pai, eu ontem, enquanto estava a brincar no bosque, junto ao regato, a minha bola de ouro caiu à água. Eu gritei muito, o sapo ouviu-me e mergulhou na água, devolvendo-me a bola. Comovida, eu prometi-lhe que ele seria meu amigo e companheiro… Mas nunca pensei que ele fosse capaz de sair da água e vir até aqui.
Entretanto, o sapo voltou a chamar por ela;

 - Princesa, abre a porta. Não te lembras do que me prometeste junto ao regato?
O rei era bom e justo e, por isso, disse à filha:

- Minha filha, deves cumprir o que prometeste. Deixa-o entrar.

 Ela abriu a porta e o sapo, de imediato, deu um salto, seguiu-a até sua cadeira, sentou-se à mesa, ao lado dela e pediu-lhe:

- Aproxima teu pratinho de ouro porque devemos comer juntos.

Contrariada, a princesa fez-lhe a vontade e o sapo aproveitou para comer.

- Comi e estou satisfeito, - disse o sapo - mas estou cansado. Leva-me ao teu quarto, prepara a tua caminha de seda, por que vamos descansar e dormir.
A princesa começou a chorar porque não gostava que o sapo fosse deitar-se na sua caminha. Porém, o rei, indignado, recriminou-a:

- Não sejas ingrata! Não deves desprezar quem te ajudou quando tinhas problemas.

Ela, obedecendo ao pai, pegou no sapo e levou para o quarto, atirando-o para um canto, deitando-se, de seguida. O sapo, muito a custo, arrastou-se para junto dela, dizendo-lhe:

 - Eu estou cansado, também quero dormir, deita-me na tua cama senão conto ao teu pai.
A princesa ficou muito aborrecida e, pegando-lhe atirou-o contra a parede.
- Cala-te, bicho odioso e feio - disse ela.

Mas quando caiu ao chão já não era um sapo mas sim um belo príncipe. A princesa ficou estupefacta e arrependia. Por vontade do pai ele seria o seu companheiro e marido.

Finalmente, o príncipe contou como havia sido encantado por uma bruxa malvada e que só ela o poderia livrar do feitiço.

Na manhã seguinte, quando o sol os despertou, miraculosamente, chegou junto ao palácio uma carruagem puxada por oito cavalos brancos com plumas de avestruz na cabeça. Estavam enfeitados com correntes de ouro. Atrás estava o jovem escudeiro do príncipe, que havia ficado pobre e desgraçado quando seu senhor foi convertido em sapo.

A carruagem levou o jovem rei ao seu reino, acompanhado da esposa. Foram recebidos com enorme alegria pelo povo, que passou a governar com muita bondade, sabedoria e justiça, na companhia da jovem e formosa rainha.

 

(Adaptado de um conto popular brasileiro)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 16:02

JOSÉ DE VASCONCELOS CÉSAR

Segunda-feira, 14.07.14

O poeta José de Vasconcelos César nasceu em Ponta Delgada, a 29 de Março de 1906, tendo falecido na mesma cidade em 1991. Estudou na sua cidade natal e foi funcionário de Finanças. É considerado um poeta das coisas simples e de um lirismo espontâneo. Ele próprio compôs e imprimiu os seus livros de versos, tendo, em 1983, reunido a sua poesia em livro.

Também deixou inéditos vários contos, o romance Terra do Corisco e um volume de memórias. Foi, ainda, um dramaturgo muito apreciado. A sua principal obra é Poesias Completas.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:40

DÍSTICO

Segunda-feira, 14.07.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Todas as distâncias são a mesma distância,

ir ou vir o mesmo, se ninguém nos espera.

 

(de Corografias, Perspectivas & Realidades, 1985)

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:12

A POMBINHA DA MATA

Domingo, 13.07.14

(POEMA DE CECÍLIA MEIRELES)

 

Três meninos na mata ouviram

uma pombinha gemer.

 

"Eu acho que ela está com fome",

disse o primeiro,

"e não tem nada para comer."

 

Três meninos na mata ouviram

uma pombinha carpir.

 

"Eu acho que ela ficou presa",

disse o segundo,

"e não sabe como fugir."

 

Três meninos na mata ouviram

uma pombinha gemer.

 

"Eu acho que ela está com saudade",

disse o terceiro,

"e com certeza vai morrer."

 

 

Cecília Meireles

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 10:09

O MARIALVA

Domingo, 13.07.14

O título nobiliárquico de “Conde de Marialva” foi atribuído por el-Rei de Portugal, D. Afonso V, a Dom Vasco Fernandes Coutinho, em 1440, sendo Regente do Reino D. Pedro Infante de Portugal, por aquele ilustre guerreiro se ter destacado, com bravura e valentia, nas campanhas militares no Norte de África. Dom Vasco, nascido 1385, recebeu não apenas o título de 1º Conde de Marialva, mas ainda o de 3º Marechal do Reino de Sua Majestade, Senhor da Vila de Marialva e Alcaide-mor de Trancoso. Descendia de uma linhagem nobre, sendo seu pai Dom Gonçalo Vasques Coutinho, 2º Marechal de Portugal e Senhor do Couto de Leomil.

Dom Vasco Fernandes Coutinho casou, em 1412, com Dona Maria de Sousa, filha legitimada de Dom Lopo Dias de Sousa, mestre da Ordem de Cristo. O seu filho primogénito, D. Gonçalo Coutinho, por morte do pai e porque filho primogénito, herdou o título de 2º Conde de Marialva, assim como os títulos que o seu progenitor possuía e todos os bens de família. Além disso, D. Gonçalo Coutinho pertenceu ao Conselho de El-Rei e foi Meirinho-Mor de Sua Majestade. Casou com Dona Brites de Melo, filha de Afonso de Melo, senhor de Barbacena, alcaide-mor de Évora, Olivença, Campo-Maior e Castelo de Vide e guarda-mor de El-rei D. João I, sendo sua mãe Dona Briolanja de Sousa. Dom Gonçalo, a exemplo de seu pai, também combateu nas campanhas do Norte de África, perdendo a vida na tomada de Tanger em 1464. Foi 3º Conde de Marialva, o seu filho João Coutinho que, a exemplo do pai e do avô, continuou a participar nas lutas no Norte de África, vindo também a falecer, ainda novo e solteiro, na tomada de Arzila, em 1471. Sucedeu-lhe seu irmão Francisco Coutinho que foi o 4º conde de Marialva, o único dos Marialvas que optou por não se envolver nas campanhas africanas. Casou, em primeiras núpcias, com Dona Isabel Ichoa, sendo designado por El-Rei, Senhor de Castelo Rodrigo. Por falecimento de Dona Isabel, casou com a 2ª condessa de Loulé, Dona Beatriz de Menezes. Como não tiveram filho varão, El-Rei Dom Manuel concedeu-lhes autorização para que sua filha, Dona Guiomar Coutinho, herdasse o título de 5ª condessa de Marialva e 3ª de Loulé. Dona Guiomar, no entanto, casou com o D. Fernando duque da Guarda, mas os seus filhos faleceram todos em criança, extinguindo-se assim a nobilíssima casa dos Condes de Marialva, que, no entanto, anos mais tarde, passou a marquesado, por mercê de D. Afonso VI que, em 1675, atribuiu o título de Marquês de Marialva a D. António Luís de Meneses, pelo papel importante e decisivo que teve na Revolução de 1640.

No entanto Vasco Fernandes Coutinho, 1º Conde de Marialva, teve mais dois filhos, para além de D. Gonçalo: D Fernando Coutinho, que foi o 4º marechal de Portugal e que casou em D. Joana de Castro Catarina de Albuquerque e D. Leonor Fernandes Coutinho que casou com Jorge Gonçalves Coutinho, filho Álvaro Gonçalves Coutinho, mais conhecido por “O Magriço”, e que se notabilizou como nobre, honrado e valente guerreiro, sendo um dos “Doze de Inglaterra”, episódio contado numa história narrada por Camões, no canto VI do Lusíadas, que terá acontecido no reinado de D. João I de Portugal e de Eduardo III de Inglaterra e que demonstra a típica conduta da honra e comportamento de acordo com o ideal da Idade Média

Entre os 15 navegadores portugueses, homens de bem, honrados, trabalhadores e valorosos guerreiros que acompanharam o flamengo Joss van Hurtere na sua primeira expedição à ilha do Faial havia um português de nome Alexandre Coutinho, filho de D. Jorge Gonçalves Coutinho e de Dona Leonor Fernandes Coutinho, e que, por ser neto do Conde de Marialva, passou a ser alcunhado por “O Marialva”. Joss van Hurtere, a fim de motivar aquele grupo de homens a acompanhá-lo em tão desconhecida e arrojada aventura, havia-lhes dado a entender e prometido, que os faria ricos, caso o acompanhassem na sua viagem às ilhas do Atlântico, pois a ilha que demandavam era rica em prata e estanho. Joss van Hurtere e seus companheiros desembarcaram pela primeira vez na ilha registada nos portulanos com o nome de ilha de São Luís, no areal da enseada a oeste, onde hoje está situada a Praia do Almoxarife, mas permaneceram na ilha, apenas durante um ano, altura em que, esgotando-se os mantimentos que tinham trazido, decidiram abandonar a ilha. Revoltados por não encontrarem nada do que lhes fora prometido, alguns dos companheiros de Joss van Hurtere, decidiram matá-lo. Valeu-lhe a lealdade do Marialva que o salvou, permitindo que regressasse à Flandres. Como recompensa, Hurtere levou-o consigo, no seu regresso à Flandres

Por volta de 1467, Hurtere regressou à ilha do Faial, numa nova expedição, organizada sob o patrocínio da Duquesa da Borgonha. Novamente trouxe consigo o seu fiel e leal amigo “Marialva”, juntamente com muitos outros homens e mulheres de todas as classes, origens e condições e bem assim alguns frades e tudo quanto convinha e era necessário para que se instaurasse o culto religioso na ilha. Deslocaram-se em vários navios carregados de víveres, de utensílios domésticos e de utensílios necessários à cultura das terras e à construção de casas.

Não satisfeito com o local onde desembarcara a quando da primeira chegada à ilha, Hurtere decidiu, nesta segunda vinda, contornar a Ponta da Espalamaca e desembarcar na baía de Porto Pim. Foi próximo do local de desembarque que, algum tempo depois, mandou erguer a Ermida de Santa Cruz. Para o compensar da sua lealdade, Hurtere doou ao Marialva terras e concedeu-lhe vários benefícios que fizeram dele um dos mais prósperos, ricos e importantes senhores de quantos habitavam a ilha. Quando Joss van Hurtere regressou a Lisboa para se casar com D. Beatriz de Macedo, foi ao Marialva que, provosoriamemte, entregou o governo e o domínio do Faial.

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 09:48

MÁGOA ALIVIADA

Sábado, 12.07.14

“Mágoa contada é meia aliviada.”

 

Adágio muito utilizado, na plenitude do seu sentido real,  na Fajã Grande, na década de cinquenta, sobretudo pelas pessoas mais idosas.

Na verdade, entendiam as pessoas que era bom e salutar desabafar sobretudo com os amigos. Ficar sozinho a remoer, como se dizia, sobre algo que nos atormenta ou magoa, apenas faz aumentar o sofrimento ou a dor. Ao contrário, tendo alguém com quem se possa desabafar, isto é, partilhar algo que nos atormenta é uma forma de aliviar esse tormento. Por isso uma mágoa contada fica substancialmente aliviada.

Mas atenção, porque num meio pequeno e muito fechado, onde reina o mexerico e prevalece a intriga, era muito difícil encontrar esse alguém… Talvez, por isso mesmo o recurso frequente a\este interessante adágio.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 11:50






mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog