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A LUA E O MARINHEIRO

Quinta-feira, 07.08.14

“Lua deitada, marinheiro em pé.”

Interessante adágio muito utilizado, outrora, na Fajã Grande, pese embora não fosse terra de muitos e briosos pescadores e marinheiro. Assim e muito naturalmente, não se aplicava apenas no sentido real, isto é, aos homens que tiravam do mar o seu ganha-pão e que, consequente, tinham que iniciar a sua faina diária muito cedo. Deviam partir para o mar de madrugada, ainda antes do dia nascer ou de a Lua já não iluminar a noite. O adágio aplicava-se, no sentido figurado, a todos os que trabalhavam os campos, agricultores criadores de gado. É que a vida agrícola, na mais ocidental freguesia açoriana, era dura, árdua e sem tréguas, por isso e assim como os marinheiros, deviam iniciá-la antes de amanhecer. Levantar cedo, por vezes ainda no escuro, para a safra agrícola quotidiano, era mais do que uma necessidade, uma obrigação. Este adágio recordava-a.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:53

MANUEL DE ARRIAGA

Quinta-feira, 07.08.14

Manuel de Arriaga Brum da Silveira, primeiro presidente da República Portuguesa terá nascido na Horta em 8 de Julho de 1840 e faleceu em Lisboa, a 5 de Março de 1917. Foi advogado, professor, político e escritor. O local certo do nascimento de Manuel de Arriaga continua por desvendar. O facto de ter sido baptizado na Horta levou os biógrafos a registar o seu nascimento nesta cidade, mas há testemunhos da época que referem ter nascido na ilha do Pico, na localidade do Guindaste, na casa de veraneio da família. Viveu a infância e a juventude no seio de uma família aristocrática e legitimista, mas o seu espírito romântico e liberal foi-se formando com as leituras orientadas por uma educadora americana. Na Universidade de Coimbra, onde se formou em Direito, em 1865, distinguiu-se como estudante de elevada craveira e, desde logo, propagandeou os ideais republicanos. Dificuldades económicas e desavenças políticas com o pai levaram-no a recorrer ao ensino para angariar os meios necessários ao seu sustento. Exerceu com prestígio a actividade de advogado em Lisboa, conjuntamente com a de professor de Inglês, no Liceu, depois de ter sido preterido nos concursos que fez para ingressar no magistério superior. Como pedagogo, fez parte da comissão encarregada da reforma da instrução secundária, em 1876. Reconhecido pelas suas qualidades, chegou a ser convidado por D. Luís para perceptor dos príncipes, mas recusou o convite por razões ideológicas. Empenhado, desde cedo, na vida política, andou ligado, em Coimbra, aos grupos de Antero de Quental e Teófilo Braga e, em Lisboa, continuou a sua militância destacando-se como orador brilhante. Participou na criação dos primeiros centros republicanos; foi um dos signatários do programa das Conferências Democráticas do Casino Lisbonense, em 1871; foi deputado pelo círculo do Funchal, nas legislaturas de 1882-84 e 1890-92; fez parte do Directório do Partido Republicano em 1891-94 e 1897-99. Em 5.10.1910, Manuel de Arriaga contava 70 anos de idade e não tomou parte activa no movimento que derrubou o regime monárquico. Foi incluído nas listas de deputados para a Constituinte, tendo sido eleito pelo Funchal, e exerceu os cargos de reitor da Universidade de Coimbra e de procurador-geral da República. Nas eleições para a Presidência da República não tomou a iniciativa de apresentar candidatura, mas também não recusou a proposta feita pelos seus apoiantes. Acabou por ser eleito, por escassa maioria, com os votos do Bloco Conservador, em 24.8.1911. Exercendo o mandato num período agitado da vida nacional e internacional, foi obrigado a renunciar ao cargo de presidente em 26 de Maio de 1915, na sequência de um movimento revolucionário. A atitude conciliadora que manifestou ao longo do mandato nem sempre foi bem sucedida, num período de forte luta política pela conquista do poder, em que se sucederam golpes, contragolpes e governos de várias tendências políticas. A situação agravou-se quando nomeou Pimenta de Castro para chefe do governo e este iniciou uma ditadura. A revolta contra Pimenta de Castro, acabou por atingir o presidente da República, que foi obrigado a demitir-se. No relatório/memória sobre a sua passagem pela Presidência procurou justificar as atitudes tomadas, mostrando-se bastante desgostoso com a vida política portuguesa. Revelou-se, também, como escritor e poeta, desde a sua juventude. Nas obras de poesia e prosa estão patentes as marcas da insularidade, a influência positivista, romântica e o seu espírito religioso e idealista. Obras principais: Sobre a Unidade da Família Humana debaixo do Ponto de Vista Económico, Renovações Históricas, Canto ao Pico, Cantos Sagrados, Irradiações, Na Primeira Presidência da Republica Portugueza, Literatos dos Açores, Grande Dicionário da Literatura Portuguesa e de Teoria Literária, A Ordem Pública, História de Portugal, etc.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 09:44

3º DIA - EH! CARAPAU

Quarta-feira, 06.08.14

E no terceiro dia Deus fez os peixes do mar e, como se isso não bastasse, disse ao homem que os pescasse e comesse. Por isso, é que no Cais de São Caetano existem carapaus, sargos, prumbetas e muitos outros peixes, em abundância, à espera da safra. E por isso e talvez por outras razões é que São Caetano sempre foi terra de muito peixe e de bons pescadores. Desde os primórdios do povoamento que a população local cedo se voltou para o mar, procurando na água a abundância que escasseava em terra. A extensa costa de que a freguesia desfruta, a enorme baia em que se localiza e a grande variedade e abundância de espécies de peixes, caranguejos e lapas existentes no mar que a circunda fizeram com que, grande parte dos seus habitantes fizesse da pesca a principal fonte de rendimento, por vezes até assumindo-a como profissão, tornando-se pescadores destemidos valorosos, exímios e competentes. Quando a terra não tinha condições de trabalho era no mar que o homem encontrava o seu sustento. Esta vocação marítima reflecte-se nos usos e costumes, na tradição e na cultura e até na gastronomia, onde não faltam os famosos caldos de peixe e caldeiradas de congro. E neste terceiro dia, de manhã, como a terra não tinha condições para ser trabalhada, o destino foi o mar. Quando amanheceu uma chuva persistente e miudinha cobria o sul do Pico, cerceando assim a possível e inexperiente actividade agrícola. É verdade que pouco depois cessou a chuva, mas o dia não clareou, o Sol não chegou e ficaram, no terreno, as marcas aberrantes desta manhã peçonhenta. A inesperada presença da chuva, durante a madrugada, molhara plantas, árvores, arbustos e ervas, deixando-as assim durante o dia. E o mar tornou-se o destino mais acetado, improvisando-se uma hora de pesca: Como sobrara uma batatinha branca da véspera, depressa a ela se juntaram sobras de migas de atum, ainda existentes e ala para o mar que se faz tarde. Havia muito carapau, pequenino mas o mais desejado. Boa pesca! Numa hora duas dúzias de carapaus, três sarguinhos e duas prumbetas, vulgo cabras.

Após a pescaria e com a terra aparentemente mais seca, havia que voltar à agricultura. Esta Iniciou-se com a apanha de maçãs. Tantas maçãs! É verdade que sendo muito ácidas e ainda um pouco verdoengas não se mostram atraentes, mas decerto se transformarão numa excelente e apetitosa compota. Depois atravessou-se com muito cuidado a vinha, primeiro para não atropelar os belos cachinhos, que amadurecem a olhos vistos e, em segundo lugar, porque as folhas das vides ainda estavam excessivamente húmidas. O “Canto” da vinha do Cabeço a norte, quem diria, transformou-se numa bela e fértil horta. O que era e o que é! Milho já adiantado com as maçarocas a explodir, feijão, batata-doce e, pelo meio, ainda uns enormes pés de batata branca. Ao lado duas belas árvores e a velha e seca macieira a pedir serrote. As daninhas não eram muitas, mas as maiores tiveram naquele momento o fim dos seus dias.

Carapau frito, depois de palitado, com batata branca cozida e embebida em cebola, salsa, alho e azeite! Hum! Um almoço de se lhe tirar o chapéu”. Depois um dos momentos mais desejados do dia e ainda não usufruído, nos anteriores – uma bela sexta, no remanso silencioso da adega, precedida de dois dedos de conversa à vizinha do lado, agora de férias…

O Sol que durante toda a manhã se escondera, tentou reaparecer, após a sexta e, quiçá, durante a mesma, emergindo da triste nostalgia em que se imiscuíra durante toda a manhã. Não era de desprezar mais uma banhoca no oceano. Mas nada que se parecesse com a dos dias anteriores: cais abandonada, poça deserta, maré seca e água fria, muito fria. Optou-se pelo plano B, sendo a Poça o destino. Porém o único objectivo atingido terá sido o de enfiar na água o Aquiles.

Regresso à agricultura, desta feita à Funda, onde tudo cresce e floresce a olhos vistos. O último tratamento dado aos inhames pareceu ter-lhes proporcionado uma óptima oportunidade de crescerem e se desenvolverem. As bananeiras orgulham-se dos seus belos cachos. Antes, porém, uma vinda à Ribeira apenas para ver a tão falada melancia… Mas nada! Teve esta ida à Ribeira, no entanto, o condão de proporcionar um interessante workshop teórico e sobretudo prático, de como se deve virar a rama da batata-doce. Todas as raízes dos nós da rama devem ser arrancados, caso contrário a planta está alimentar a rama em prejuízo da batata que assim se desenvolve menos. Mesmo as raizes falsas que se desenvolvem junto ao pé, devem ser arrancadas. Seguiram-se demonstrações e exemplos práticos uma vez que esta mini acção de formação se processou num belo terreno de batatas do formador, ali ao lado. Nada de novo porque, trouxe-me à memória o que, em criança, via fazer o meu próprio pai.

O serão foi doce ou melhor, destinado a fazer doce de maçã. Ficou excelente e com uma cor maravilhosa. Assemelha-se, quer na cor quer na textura, a marmelada. Parece ser este o destino mais adequado das maçãs dos cabeços, muito verdes e ácidas. E ainda sobraram muitas… Hão-de guardar-se e talvez, dentro de três semanas estejam mais maduras.

Durante a tarde, no cabeço, ouviam-se os sinos de São Mateus e à noite pareciam seguiam chegar aqui os sons, as luzes e os perfumes do arraial, pese embora caísse uma chuva miudinha. Parecia ser tentadora a ida à festa. Mas o cansaço era muito e o Aquiles fraquejava. Àquela hora, o destino mais adequado e desejado parecia ser Vale de Lençóis… E foi!

Mas como no dia anterior, voltaria a ter, ao deitar-me, por companha duas indesejadas senhoras! Muito a custo e com a ajuda do insecticida e de um dos chinelos dei cabo delas.  

 

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publicado por picodavigia2 às 09:20

ATLÂNTICO

Terça-feira, 05.08.14

MENU 51 – “ATLÂNTICO”

 

ENTRADA

 

Rodela de queijo fresco acamada sobre alface. Mortadela de peito de peru recheada com pimentos e creme de queijo fresco. Rodelas de pepino grelhadas e cobertas com rodelas de ananás.

 

 

PRATO

 

Açorda de peixe com creme de salmão e hortelã.

 Salada de alface, pimentos, pepino, cebolas e picles.

 

 

SOBREMESA

 

 

Bolo lêvedo recheado com doce de chila, gelatina de ananás e suspiros.

 

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Preparação da Entrada: Colocar, no centro de um prato, a rodela de queijo fresco sobre as folhas de alface, devidamente lavadas e ao redor, dois rolos de mortadela, recheados com tiras de pimentos embebidas em creme de queijo fresco alternados com rodelas de pepino grelhadas e cobertas com rodelas de ananás.

Preparação do Prato – Cozer o peixe em água devidamente temperada com cebola, alho, salsa e outros temperos. Esmiolar um pedaço de pão e perfumá-lo com raminhos de hortelã, cobrindo-o com água de cozer o peixe, a ferver. Tapar. Retirar o peixe e limpá-lo da pele e das espinhas. Misturar pedacinhos de peixe, no pão, misturar e desfaze tudo muito bem. Colocar um fio de azeite num tacho e juntar um pouco de alho picado miudinho. Juntar o preparado anterior e envolver muito bem, juntando uma colher de sopa de creme de queijo com sabor a salmão. Empratar e servir juntamente com salada de alface, pepino, pimentos, picles e cubinhos de queijo fresco e temperar com azeite e vinagre do Pico.

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:45

2º DIA – RIBEIRA, EPICENTRO DE UM PRECÁRIO E DÉBIL ENVOLVIMENTO AGRCOLA

Terça-feira, 05.08.14

A Ribeira é pedaço de chão fértil e verdejante à espera de semeaduras, um torrão lávico atapetado de fertilidade e deslumbramento. Ali crescem em simultâneo legumes, hortaliças, pequenos arbustos e projectos de árvores de fruto, à mistura com silvados, beldroegas, milhã, junquilho, urtigas, bredos e outras daninhas que marfam, angustiam e desequilibram, por vezes até cerceiam por completo, o alegre e desejado crescer das primeiras. Umas atrevidas e invejosas estas ervaçais que, aproveitando as épocas de acalmia e tréguas, não cessam de crescer, de galgar, de se atirarem contra as outras, usurpando-lhes a força e o vigor da terra que as fortifica. Urge impor, ali, a ordem e o respeito, aniquilando as daninhas para que as outras possam crescer, desenvolver-se e frutificar.

Mas a manhã nasceu muito escura e cheia de brumas. O Sol de ontem, pareceu arrepender-se do fulgor que lançara por aqui e decidiu-se por descambar para os lados da Madalena e do Faial, deixando São Caetano e arredores numa espécie de abismo, incerto e inseguro, friorento e desagradável, aureolado duma indefinida incerteza, convidando, mesmo, ao remanso de Vale de Lençóis. Mas foi célebre o envolvimento matinal desta bruma que, cedo se desfez, é verdade que aos poucos, abrindo-se a novas aventuras, prevendo-se, no entanto, uma manhã menos escaldante do que a do dia anterior. Puro engano!

Mas que se cuidem as daninhas da Ribeira que, pela certa, vão levar desbaste. E não é que levaram mesmo…

Primeiro uns bons regos de feijão e milho. Havia que aproveitar, porque a madrugada, junto com as brumas com que se revestira, trouxera um chereno muito húmido, que aos bocejos que ainda se sentem de chuvas anteriores, pareciam tornar a terra fértil e produtiva. Urge aproveitar e os pequenos sulcos depressa se encheram de grãos de feijão e de milho, ávidos de se envolverem com o húmus e brotarem do solo, enchendo o chão de vida e de esperança verde. Ali ficarão a germinar, por alguns dias.

Depois a monda dos caculos das batatas-doces. As malditas daninhas exageraram no seu empolgamento, crescendo em demasia, sobrepondo-se, quase aniquilando a pobre rama que com elas se confundia. Levaram pela certa, as malditas, agora a secar e a apodrecer sobre o maroiço ao lado. A rama da batata-doce a agradecer. É verdade que, inicialmente, parecia, ligeiramente, insegura e triste. Imiscuíra-se naquele florescente ervaçal, habituara-se a ele, com quem crescia à porfia e agora até parecia que sentiam tristeza pela destruição das inimigas. Mas qual o quê! Depressa se ergueram e se ufanaram da vitória com que saíram desta espécie de contenda entre o bem e o mal. Agora parecem um “Banco Novo”, e as outras as venosas, as sobras do mal. O milho ao redor das batatas-doces, de tarde, também foi despejado das malditas que o cercavam e lhe obstruíam o crescimento. Agora restam ali, a exigir justiça, apenas as abobrinhas da entrada e pouco mais. E a safra também começou. Primeiro, três rechonchudos, vermelhos e bem maduros tomates, um repolhinho para a sopa e um pezinho de alface bem tenrinha para a salada.

Com tão grande esforço impunha-se um bom almoço. Braços, pernas, mãos, costas,Aquiles tudo dói! Mas lá estava o peixinho vermelho, cântaro, à espera para uma apetitosa açorda, acompanhada com uma salada e ala para a Madalena, onde se acumulavam algumas urgentes tarefas. Adivinhara, porque, na verdade, ali estava o Sol demasiado quente, claro e bronzeador que na véspera andara mais a Sul. Das impressões digitais nem vestígios! Perderam-se por completo ou desfizeram-se, numa incómoda desvantagem de ter que andar mais algum tempo sem Cartão de Cidadão. Há Coliveda no Dutra em abundância e papel filme numa loja,ali ao lado. Mas para adquiri-lo alguma turbulência. A menina que se apresenta ao balcão de vendas, pelos vistos é alfacinha de gema e está ali só para tomar conta. De nada sabe! Telefona e volta a telefonar, chegando, finalmente à conclusão de que há mesmo o dito papel, não sabe é onde. Convida-me a dar uma volta ou a ir fazer outras coisas que tenha a fazer, até o procurar. Como mais nada tenho para fazer, dou por ali umas pequenas voltas. Mas o Aquiles não ajuda e não o quero molestá-lo mais, até porque ando a fazer-lhe mezinhas com água do mar. Entre no Porto, para dois dedos de conversa e usufruir da sua sempre constante boa disposição. Regresso à loja do papel de filme e fico feliz porque dou com o dito cujo, semelhante em tudo, até no peso, como os rolos do Bricomarchê e penso que tudo está resolvido. Uma ova!... A menina agora não sabe o preço e, muito simpática e sorridente, manda-me dar mais uma volta. Home essa! A sorte dela é que, pelos vistos este é o único estabelecimento comercial madalenense que vende este produto. E agora? Para onde vou dar a volta. Como o calor e a sede apertam, vou ali a um bar e zás! Uma coca-cola marcha, inteirinha. Como há por ali “Ilha Maior” em abundância, aproveito para ler… finalmente lá veio o papel filme. Um grande rolo que há-de chegar para muitas malas e caixotes.

A água do Cais de São Caetano continua tentadora. O mar manso e a água deliciosamente boa para mais uma banhoca.

Regresso à Ribeira, que assim se tornou, neste dia, uma espécie de epicentro do envolvimento agrícola, para terminar as tarefas da manhã. O Sol ainda queima, mas já há sombras por ali. Mais uma hora e há que regressar a casa porque a sopinha ficou ao lume, embora no mínimo.

Bendito sejais Senhor, por esta excelente sopa, onde imperam os produtos nascidos da lava e do trabalho do homem!

 

 

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publicado por picodavigia2 às 07:44

CORTARAM O SANTO PINDIÃO

Segunda-feira, 04.08.14

Na década de sessenta, era por demais falada e conhecida a imponente e grandiosa procissão do Senhor dos Passos, que se realizava na freguesia da Ribeirinha, ilha Terceira. Nessa procissão incorporavam-se, para além de várias imagens, alguns símbolos religiosos adequados à solenidade, com destaque para um enorme guião de cor roxa, tendo na parte superior, a amarelo, as iniciais que os imperadores romanos gravavam nos estandartes dos seus vitoriosos exércitos – S P Q R - Senatus Populus Que Romanus, que a igreja cristianizou, adoptando-as nos guiões das festas de Passos, interpretando-as da seguinte forma “Salvai o Povo Que Remistes” e que o Padre Jacinto de Almeida, em tom jocoso, numa aula de Latim, ainda traduziu de outra maneira “Senhor Padre Quero Rosquilhas.

Pois o guião ou pendão do Senhor dos Passos da Ribeirinha, um ex-libris daquela freguesia terceirense, era, senão o maior, um dos mais agigantados dos Açores. Era tão grande e tão pesado que, para o transportar, era necessário escolher o homem mais valente da freguesia, o que, na verdade, constituía uma honra para o eleito. Durante o préstito e para aliviar o gigantesco esforço despendido, era tradição as mulheres cozerem ovos e, depois de os descascar, enfiá-los, na boca do portador do emblemático guião, que não se havia de livrar duma valente crise de fígado, rezando a seguinte jaculatória;

- Para que Nosse Sinhiô te dê forças para levares o Santo Pindião.

Por estes dias tive o privilégio de tomar café, com o actual pároco da Ribeirinha, o padre António Henriques, de passagem pelo Pico, a pregar o novenário da festa do Senhor Bom Jesus. Tomei então a liberdade de lhe perguntar se ainda se fazia a festa do Senhor dos Passos, se ainda levavam o célebre guião, se ainda escolhiam o homem mais forte da freguesia para o transportar e se se mantinha a tradição das mulheres lhe enfiarem os ovos cozidos na boca. Respondeu-me que realmente ainda realizavam a procissão, mas que, quanto ao resto já não faziam, por que já tinham cortado um bom pedaço do pendão que assim, para além de mais curto, ficou mais leve.

Ai, os homens de outros tempos, que eram bem mais fortes do que os de agora!

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publicado por picodavigia2 às 15:42

MADALENA FÉRIN

Segunda-feira, 04.08.14

A poetisa e escritora Madalena Velho Arruda Monteiro da Câmara Pereira Férin nasceu em Vila Franca do Campo, ilha de S. Miguel, em 22 de Julho de 1929, tendo-se licenciado em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

O seu primeiro livro publicado, Poemas, foi agraciado com o Prémio Antero de Quental, do Secretariado Nacional de Informação. Seguiram-se outros livros de poesia: Meia-noite no mar, A cidade vegetal, O anjo fálico, Pão e absinto, Prelúdio para o dia perfeito e Um escorpião coroado de açucenas.

Além da narrativa Dormir com um fauno, no género ficcional publicou até agora três romances: O número dos vivos, Bem-vindos ao caos e África Annes.

Madalena Ferin está representada em várias antologias, em especial relativas à insularidade, e tem artigos publicados na Revista Ocidente e Revista de Portugal. Com Sophia de Mello Breyner Andresen e Maria Natália Duarte Silva colaborou na programação da colecção juvenil «Nosso Mundo», na qual figuram alguns livros que também traduziu.

Segundo os críticos e analistas, a sua obra pertence à linhagem do Romantismo que se desenvolve no Surrealismo e participa do Modernismo português. Embora esta modernidade se desvincule de processos narrativos lineares e de mimetização da realidade, é forte e reconhecível a imagem dos Açores na sua obra, caso de África Annes, romance que resulta até de pesquisa em documentação histórica. Maria Estela Guedes

Obras principais: Poemas, Meia-noite no mar, A cidade vegetal e outros poemas, O anjo fálico, O número dos vivos, Bem-vindos ao caos, Dormir com um fauno, Prelúdio para o dia perfeito, África Annes: o nome em vão e Um escorpião coroado de açucenas.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 15:31

1º DIA - DEUS CRIOU A ÁGUA DO MAR

Domingo, 03.08.14

No primeiro dia Deus criou a água do mar, pelo menos a do Cais de São Caetano. Na verdade estando assim muito quente e mansinha, só pode ser obra da criação Divina. Pelos vistos, a Câmara da Madalena, roída de inveja, tentou imitar a Deus e também criou a água da piscina. Mas parece que Deus, para castigar tamanha inveja, transformou-a, tornando-a em água bem mais fria e desagradável.

No primeiro dia Deus também criou o sono. A noite do dia de ontem fora destinada, quase na totalidade a não dormir. Apenas meia hora de sono, no avião, entre Lisboa e Ponta Delgada. Havia que recuperar e, por isso, Deus disse ao homem:

- Deita-te e dorme todo o tempo que quiseres e que te apetecer!

E homem aproveitou e dormiu. Dormiu até às oito. Mas como o dia já ia avançado e o calor abrasava, Deus disse ao homem que não trabalhasse nesta manhã do primeiro dia.

E homem aproveitou e, logo no primeiro dia, dormiu. Dormiu e descansou. De manhã apenas um pouco de tempo, a fim de completar o desbravar, iniciado ontem, dos ervaçais e outras mondas, junto às pequenas “faeiras”, umas bem verdinhas e muito espevitadinhas, outras secas que nem bacalhau, a fenecer. Durante esta tarefa uma outra Alda, vizinha, havia de assomar por ali. Já ouvira barulho e movimento em casa e desconfiara que ali não havia gato. O calor apertava, intensificava-se. Previa-se um excelente dia de praia! Limpezas dentro de casa, onde o calor não fere e ala para a Madalena. Basta molhar os pés para se perceber, de imediato, que a água daquela piscina só pode ser obra da criação humana. Fria, muito fria. A vantagem é que, estando o mar ao lado, sempre se pode aproveitar…

Santa Catarina patrocinou o almoço! Há novidades, por aqui, em termos de produtos conserveiros, oriundos da fábrica jorgense. Quatro ou cinco variedades, aliciantes, convidativas, embora um pouco caras. A opção foi: posta de atum com batata doce. Em conserva, pois claro. Delicioso manjar, apenas como senão da dose ser pequena, mas que sai de medida perfeita para quem toma alimentos ao peso. Com uma boa salada de produtos, na maioria locais – produção própria – é de aproveitar. De tarde a visita imprescindível do clero. Se é tão maravilhosa a criação divina, o clero não havia de cá vir! E veio e gostou! E logo o pregador do novenário do Senhor Bom Jesus. Quem diria! Simplicidade, alegria, bom convívio e bemestar para um café e uma aguardente especial. Requiem por um lagarto! Sentados na mesa da rua, em amena cavaqueira, a apreciar, numa tarde clara e limpa, uma das mais belas vistas que existem na ilha do Pico. Um espanto, tão grande variedade de aguardentes. Coisa nunca vista. Se Deus criou a água do Cais tão quentinha, Nossa Senhora criou esta aguardente tão docinha! No regresso de São Mateus foi enfiar o fato de banho e ala prá costa!

Um bando de mar como há muito se não vira. Se Deus, logo no primeiro dia, criou esta água tão calma e tranquila e se a tornou tão quentinha, havia que aproveitar. E o homem aproveitou, saltou e pinchou, sem sequer ter que ir molhando o corpo aos poucos, como é seu timbre. E logo duas vezes, com alguma demora e com a vantagem de ter sido um banho, aparentemente, com efeitos terapêuticos, O Aquiles parece já não se ressentir tanto do esforço que se lhe exige no andar.

À tardinha, há que aproveitar uma sombra, para o trabalho. Os dias são poucos e muitas tarefas reclamam ser compridas. Ali junto à alta parede, virada a oeste, com o Sol já a descambar para os lados do Faial. È o sítio perfeito para trabalhar sem brandes calores. A terra parece ainda estar húmida e as ervas saem muito bem. Dúzia e m,eia de cebolas, com alguns alhos à mistura. Bem necessários serão para o caldo e açorda de amanhã… È que da Madalena veio um vermelhinho de se lhe tirar o chapéu!...

E que dizer, ao fim do dia, ao jantar, de uma belíssima salada gourmet, no Multiusos. Queijinho fresco acamado sobre folhas de alface, ladeado com salsichas de soja grelhadas e rodelas de mortadela (que a há muito boa no Pico) recheadas com tiras de pimento e creme de queijo fresco, e com canapés doces e salgados. Os doces feitos com bolo lêvedo barrado com doce de chila e os salgados com pedacinhos de pão torrado barrados com creme de queijo e ervas e rodelas de pepino grelhadas cobertas com creme de queijo e pedacinhos de ananás. Uma maravilha. A acompanhar (numa adega do Pico, onde há uma pipa não de dinheiro, mas de vinho) só poderia ser coca-cola…

Finalmente, foi-se o dia, veio a noite. Acenderam-se as luzes do Pico, na Terra do Pão, nas Lajes e até a da Lua, em Quarto-Crescente… E foi o fim do 1º dia

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publicado por picodavigia2 às 23:01

STATUS QUO

Domingo, 03.08.14

Aqui ao lado, logo em primeiro lugar e ao sair de casa, ou junto à porta, corre uma fonte. Não será uma Fonte Sacra, mas dela, quando aberta, corre água, pelo que torna a rega neste espaço, relativamente fácil. Primeiro a vinha da latada. Está vistosa e substancial. As uvas, embora já com alguns bagos caídos, na sua maioria, estão ainda muito verdes. Mas vislumbra-se que um ou outro cacho já está a caminhar para o maduro. Os Ancestrais kwiwis crescem, crescem, mas nada de fruto, enquanto os araçazeiros florescem viçosos. Indiferentes a secas, sem quaisquer preocupações. O chão, cobre-se de muitas ervas, à espera de serem arrancadas, entrelaçadas com as enormes árvores, também elas a crescerem e os bardos do muro circundante, aguardam uma boa poda.

No que diz respeito à expansão desta propriedade junto de casa, ou seja daquela parte com muros de cimentos mais novos, há que destacar, primeiro, a Lauta faia, muito antiga e suculenta, mas grande, muito grande e viçosa. Ao lado, também já há algum tempo plantadas, as irmãs, ou seja as outras pequenas faias, lamentavelmente rodeadas, de destruidoras, gananciosas e malévolas ervas daninhas. Impõe-se limpá-las. As bananeiras, altivas e orgulhosas dos seus belos frutos, sobretudo os de outrora produziam, hoje estão quase secas. O enorme limoeiro, firme e elegante, está carregadinho de belos limões, à espera da safra. No fundo as couves, Giestas de belas sopas, outrora definhadas e raquíticas, agora surgem viçosas e atraentes.

Na Adega, quase senti “ais”! Que espectáculo! Primeiro a velha figueira, é verdade que célica mas hesitante, ora a querer brindar-nos com belos figos, ora a, aparentemente, revoltada e revoltosa, a atirá-los ao chão. Atrás tudo floresta. Arautos da beleza as madressilvas entrelaçadas com vinha e a deslumbrante e belíssima videira, encostada à empena da adega. Enorme, bela e altiva! Ao lado outras não menos maravilhosas vides de uva de mesa, também elas deslumbrantes, vaidosas. Como que a simularem vergonha e a olharem, em aparente soslaio, o sol que as aquece e fortifica. As plantas ornamentais, com destaque para a néveda, florescem viçosas, alegres, alheias à confusão.

Já na Funda. Primeiro, as vinhas, plantadas de novo. As do lado, zelosas da sua verdura, belas e florescentes, desejosas de darem os seis cachos, e as do meio, alegres e generosas, outrora envergonhadas, agora a mostrarem-se desejosas de dar os seus frutos. As pequeninas macieiras do lado, Dinâmicas na sua aparência, muito belas, mas ainda sem frutos a competir com a velha e forte árvore de nome estranho, muito forte e portentosa. A última, intrigante. Dela pouco se sabe e o seu futuro, manifesta-se, aparentemente incerto. S. José nos acuda. Alhos, Ledos e perdidos, outrora elegantes e briosos, amigos e leais, perdem-se entre ervas daninhas. Batatas Inebriantes. Feijões Tristes mas prometedores. Alfaces à espera da safra. Frenéticas aguardam a Safra. Tomateiros repletos, alguns quase Perdidos, a mostrar que querem ser colhidos. Depois o enorme amplo inhamal. Melhores inhames não há. Foram tão bem mondados. Tudo se retirou, por isso permanecem agora, veteranos e silenciosos. O castanheiro, augusto e generoso, finalmente deu um ouriço, e as bananeiras, Claras e lúcidas, ostentam os seis cinco cachos. Na belga as Nogueiras, solenes parecem Pereiras. Lá no alto, perdidas, as videiras esmorecem.

A segunda parte, inicia-se nas Pias, nos Cabeços, na estrada nacional. A vinha, incorporada em cinco espaços. Cachos ainda verdoengos, ansiosos de amadurecerem, muitos ainda verdoengos, zelosos do seu suco. A Macieira do lado carregadinha de sumarentas maçãs Na encosta, qual Castelão antigo, agora a antiga Macieira, com muitos frutos e a outra, uma espécie de árvore helénica, aparente desfeita e desinteressada de dar frutos. No chão duas belas e orgulhosas e bonitas árvores. O milho a fazer inveja, pela sua beleza e altivez Batatas e feijões a Excederem-se em qualidade. No Dilúvio, Saibel. Belos cachos, densos vinhedos, esperançosa colheita. Pelo meio mondas e ervaçais. Junto à Parede norte, vinhas novas, brejeiras as primeiras, Pacíficas as segundas, aguardando a enxertia as outras, mais longe. A figueira, tem figos, mas Só três. O araçazeiro carregadíssimo. Na Ribeira, estão boas as abóboras rosáceas. Laranjeiras, Ansiosas de dar fruto, pequenos arbustos, Imponente pessegueiro e as pequeninas bananeiras. Depois e junto à parede Queimada, milho elegante, batata adocicadas, feijões, tomates, tudo â espera de ser trabalhado.    

 

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publicado por picodavigia2 às 09:46

DA CORDOARIA A PONTA DELGADA

Sábado, 02.08.14

Por volta da uma da madrugada, nestas noites de Agosto, mesmo quando escuras e húmidas, embora não totalmente despidas de calor, a Cordoaria, na cidade do Porto, batalha-se numa irregularidade invulgar, numa lufa-lufa desusada. Tentam-se angariar viagens à última hora, procuram-se os autocarros dos destinos já traçados, saboreia-se a remanso das esplanadas, ressuscitam-se emoções, envergam-se os mantos da pureza original, passeiam-se noites de aventura e, pelos vistos, até se enrola um ou outro charrito, sem contenção nenhuma.

O meu destino é Lisboa, mais concretamente o aeroporto. Aflige-me a confusão por quanto se agiganta ao mesmo tempo que nela imergimos, atrasando, inquietando, baralhando e confundindo. Tenho horário muito apertado. É impreterível estar no aeroporto por volta das cinco. Mas tudo se complica e o autocarro, para engolir os passageiros, até muda de local, o que acaba por trazer alguns benefícios. Tudo arrumado e arrolado e ala que se faz tarde. A cidade é densa, muito densa de nevoeiro, de tráfego e de pessoas.

A paragem na Feira consubstancia mais um atraso notório, mas injustificável. Faço contas e tudo parece arrepiante. O controlo dos que entram é rigoroso, mas muito barulhento e desusado. Pessoas e mercadorias amontoam-se e enchem, agora, o que sobrava do autocarro, no que a assentos e bagageiras, diz respeito. Depois é circular, circular, circular. A A1 é enorme, esconsa e tétrica. Acresce-se-lhe uma angústia galopante. Umas vezes sente-se um angustiante atraso, enquanto outras, parece que se ganha algum tempo. A chegada à Portela há-de coincidir com as cinco. Tudo parece normalizar-se, até que a famigerada paragem na estação de serviço de Leiria volta piorar tudo e a por o futuro do percurso em causa tudo. “Estamos um pouquinho atrasados – reconhece o motorista. Mas por volta das cinco havemos de lá estar. Lembro-me do benefício que foi não trazer bagagem de porão e fazer o check-in em casa. Na paragem, ainda há quem se dê ao luxo de ultrapassar, sensivelmente, o tempo imposto e demoram, demoram… O homem agora segue numa vigem lenta e vagarosa. Resolve telefonar, vagando, significativamente, a marcha. Ainda irá a outra estação, para dar boleia ao amigo.

Finalmente o aeroporto! O tempo, o controlo e o embarque. Quase quatro horas desde da Cordoaria ao Aeroporto. O embarque é longo e farto, mas rápido. Sobrevoam-se as nuvens, Santa Maria ao longe e aqui ao lado, as vilas plantadas a sul de S. Miguel: Povoação. Vila Franca, Lagoa e por fim Ponta Delgada. 

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publicado por picodavigia2 às 22:07

NO REINO DAS PIPOCAS

Sexta-feira, 01.08.14

Era uma vez,

Uma casa redondinha

Onde estavam bem juntinhos        

Os travessos milhozinhos.

 

Brincavam de rolar

Todos juntos amarelos

Depois começavam pular

E não usavam seus chinelos.

 

E naquela bagunça toda

O telhado se mexeu

Todas já ficaram brancas

E a garotada apareceu

 

Um cheirinho bem gostoso

Um gostinho especial

Quem não gosta de pipoca,

Vai brincar lá no quintal.

 

 

Claudia Liz

 

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publicado por picodavigia2 às 18:40

A GOSTO

Sexta-feira, 01.08.14

Aí está mais um! O oitavo! Meu Deus, como eles passam depressa. Assim como os meses, os anos. Este nasce tristonho e não parece que nos há-de correr lá muito a gosto. Não será um agosto a gosto.

É tempo para caminhar em trilhos metamorfoseados. São doze, assim como os míticos pares da Inglaterra que a história imortalizou em doze damas acusadas por doze cavaleiros de falta de virtude, honra e nobreza. As damas insultadas pediram aos seus parentes que lhes defendessem a honra e a dignidade, mas a reputação dos difamantes, que guerreiros valorosos, esmoreceu qualquer vontade de defender a honra das senhoras, por parte das respectivas famílias inglesas, por isso as damas injuriadas recorreram ao rei de Portugal, D. João I, para que as ajudasse a encontrar defensores para o pleito. O pedido foi, imediatamente, aceite por doze cavaleiros portugueses, que se propuseram a partir, o mais cedo possível, em defesa das damas inglesas. O navio que transportou os doze portugueses partiu do Porto, no entanto, um dos cavaleiros, D. Álvaro Gonçalves Coutinho, o Magriço, decidiu ir por terra, para ter oportunidade de alcançar grandes glórias e fama, e juntar-se, mais tarde, aos companheiros. No dia do combate, em Inglaterra, os cavaleiros portugueses, quando se alinharam perante os doze cavaleiros ingleses, reparam na desigualdade entre os dois partidos, pois Magriço ainda não tinha chegado. Estava a justa para iniciar-se, quando a população começou a produzir grande burburinho pela aproximação do Magriço, que se juntava, então, aos companheiros. Primeiro combateram a cavalo e, depois, a pé, terminando a contenda com a vitória dos Portugueses que, perante a sociedade inglesa, recuperaram a honra e a nobreza das damas.

Mas os trilhos não têm em comum com os portugueses de Inglaterra, apenas o número. Assim como os cavaleiros lutaram a gosto, os trilhos também se percorrem a gosto, neste mês em que o gosto se arrasta, indefine e entristece com o permanente tiroteio entre Israelitas e Palestinianos, apesar de balizado agora por 62 horas de um desejado cessar-fogo, os conflitos no Médio Oriente, a guerra na Ucrânia, na Síria, na África e em tantas outras paragens do universo, o rapto de dezenas de jovens, os maus trato de crianças e idosos, a fome, o abandono e a solidão de tantos humanos, o terrorismo e o recente abatimento de um avião das linhas aéreas da Malásia, para não falar do desaparecido há uns meses e do qual nada se sabe. Chamem cavaleiros portugueses para repor a ordem e a paz no mundo e os últimos dias trazem-nos à memória a incompreensível soma de 3.577.000.000 de euros, misteriosamente desaparecidos. Ninguém é capaz de explicar melhor o que está em causa, como se chega a um prejuízo destes, a um buraco tamanho, nem muito menos, onde foi parar esta verdadeira “pipa de massa”.

Pelo meio o Benfica vai continuando a perder, não a gosto meu, porquanto outros em subterfúgios espanhóis parecem ir despertando lentamente, mas a gosto.

Nunca se abre, a gosto, uma janela, se ela não estiver voltada para o mar. É isto o agosto a gosto, dos doze trilhos metamorfoseados.

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publicado por picodavigia2 às 10:13

A PEDRINHA

Sexta-feira, 01.08.14

A Pedrinha era um outro interessante lugar dos matos da Fajã Grande. Interessante não tanto pelo que significava para a população, em termos de aproveitamento económico, mas pelo nome. Como grande parte deste lugar era atravessado pelo trilho que ligava a Fajã Grande a Santa Cruz, ali havia uma pedra que, apesar de pequena, possuía um excelente aba que servia de abrigo milagroso a quantos passavam por ali, em dias de chuva. Era pois um lugar mítico, quase milagroso para os transeuntes, uma vez que os protegia de uma molha que haviam de suportar durante o resto do dia.

A Pedrinha ficava para além da Burrinha e da Água Branca, já quase no concelho de Santa Cruz e era terreno de ninguém, isto é não havia ali propriedades privadas. Era concelho. Do seu solo apenas nascia erva, mas de fraca qualidade, até porque cheia de montes de musgo e de burrecas. Essa a razão por que quase ninguém para ali se deslocava a não ser os que, por necessidade, tinham que se deslocar a Santa Cruz.

A Pedrinha, assim como a Burrinha e outros lugares ao redor serviam de pastagens das ovelhas bravas que andavam soltas, a pastar nos matos e que eram recolhidas apenas nos dias de fio. Era nestes que por ali passavam muitos homens, acompanhados por cães, a recolhê-las no curral, a fim de as tosquiar.

Pedrinha, mais um antigo lugar da Fajã Grande perdido, no tempo, quiçá no espaço e na memória das gentes.

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publicado por picodavigia2 às 09:33

DE OLHOS NEGROS

Sexta-feira, 01.08.14

Apesar de ter pesquisado junto de alguns colegas, não consegui nenhum dado sobre este “Senhor” presente no Encontro. Não lhe querendo deixar-lhe a página em branco, transcrevo um poema de Miguel Ramos Carrión, dedicado a todos os “estorninhos” que, mesmo sem “ojos negros” passearam pelas ruas de Angra, nas década de 50/60: El Seminarista de Olhos Negros:

“Desde la ventana de un casucho viejo

 abierta en verano, cerrada en invierno

 por vidrios verdosos y plomos espesos,

 una salmantina de rubio cabello

 y ojos que parecen pedazos de cielo,

 mientas la costura mezcla con el rezo,

 ve todas las tardes pasar en silencio

 los seminaristas que van de paseo.

 

Baja la cabeza, sin erguir el cuerpo,

 marchan en dos filas pausados y austeros,

 sin más nota alegre sobre el traje negro

 que la beca roja que ciñe su cuello,

 y que por la espalda casi roza el suelo.

                                                                                        

Un seminarista, entre todos ellos,

 marcha siempre erguido, con aire resuelto.

 La negra sotana dibuja su cuerpo

 gallardo y airoso, flexible y esbelto.

 Él, solo a hurtadillas y con el recelo

 de que sus miradas observen los clérigos,

 desde que en la calle vislumbra a lo lejos

 a la salmantina de rubio cabello

 la mira muy fijo, con mirar intenso.

 Y siempre que pasa le deja el recuerdo

 de aquella mirada de sus ojos negros.

 Monótono y tardo va pasando el tiempo

 y muere el estío y el otoño luego,

 y vienen las tardes plomizas de invierno.

 

Desde la ventana del casucho viejo

 siempre sola y triste; rezando y cosiendo

 una salmantina de rubio cabello

 ve todas las tardes pasar en silencio

 los seminaristas que van de paseo.

 

Pero no ve a todos: ve solo a uno de ellos,

 su seminarista de los ojos negros;

 cada vez que pasa gallardo y esbelto,

 observa la niña que pide aquel cuerpo

 marciales arreos.

 

Cuando en ella fija sus ojos abiertos

 con vivas y audaces miradas de fuego,

 parece decirla: —¡Te quiero!, ¡te quiero!,

 ¡Yo no he de ser cura, yo no puedo serlo!

 ¡Si yo no soy tuyo, me muero, me muero!

 A la niña entonces se le oprime el pecho,

 la labor suspende y olvida los rezos,

 y ya vive sólo en su pensamiento

 el seminarista de los ojos negros.

 

En una lluviosa mañana de inverno

 la niña que alegre saltaba del lecho,

 oyó tristes cánticos y fúnebres rezos;

 por la angosta calle pasaba un entierro.

 

Un seminarista sin duda era el muerto;

 pues, cuatro, llevaban en hombros el féretro,

 con la beca roja por cima cubierto,

 y sobre la beca, el bonete negro.

 Con sus voces roncas cantaban los clérigos

 los seminaristas iban en silencio

 siempre en dos filas hacia el cementerio

 como por las tardes al ir de paseo.

 

La niña angustiada miraba el cortejo

 los conoce a todos a fuerza de verlos...

 tan sólo, tan sólo faltaba entre ellos...

 el seminarista de los ojos negros.

 

Corriendo los años, pasó mucho tiempo...

 y allá en la ventana del casucho viejo,

 una pobre anciana de blancos cabellos,

 con la tez rugosa y encorvado el cuerpo,

 mientras la costura mezcla con el rezo,

 ve todas las tardes pasar en silencio

 los seminaristas que van de paseo.

 

La labor suspende, los mira, y al verlos

 sus ojos azules ya tristes y muertos

 vierten silenciosas lágrimas de hielo.

 

Sola, vieja y triste, aún guarda el recuerdo

 del seminarista de los ojos negros...”

 

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publicado por picodavigia2 às 07:11


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