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MOMENTO

Terça-feira, 30.09.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Abre-se a manhã como uma concha.

Orvalho, aromas, o sussurro

das marés quebrando longe.

 

Súbito uma voz

desamparada canta.

 

E um pessegueiro entorna sobre mim

a ternura rosada dos seus ramos.

 

Pedro da Silveira

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publicado por picodavigia2 às 09:14

PORTUGAL CAMPEÃO EUROPEU DE TÉNIS DE MESA

Segunda-feira, 29.09.14

Portugal sagrou-se, este domingo, campeão da Europa de Ténis de Mesa por equipas, título alcançado, no Meo Arena, em Lisboa, erosa seleção da Alemanha, no fim de mais de duas horas e meia de jogo.

A Seleção Nacional bateu a sua congénere germânica por 3-1, num feito histórico, tanto maior quando pela frente estava a melhor seleção europeia da atualidade, seis vezes seguidas campeã europeia, uma vez que, desde 2007, a Alemanha tem vencido o Campeonato Europeu.

O título foi conquistado com duas vitórias de Marcos Freitas e uma de Tiago Apolónia. Assim, Portugal entrou a ganhar com uma vitória de Marcos Freitas sobre Steffen Mengel (3-0 em sets), no primeiro encontro. Por sua vez, os alemães igualaram com um triunfo de Timo Boll sobre João Monteiro, também por 3-0. A seleção portuguesa voltou para a frente com a vitória de Tiago Apolónia frente ao número 1 da Europa, Dimitrij Ovtcharov. No último jogo, Marcos Freitas venceu Timo Boll e deu o título europeu a gal

Marcos Freitas, o número 12 do mundo e o melhor português do ranking, venceu desta forma os dois encontros que disputou e celebrou merecidamente o título europeu.

Depois do terceiro lugar no Europeu de 2011, a melhor classificação de sempre do ténis de mesa nacional, e da presença nos quartos de final dos Jogos Olímpicos, esta seleção nacional atingiu o ponto mais alto da história da modalidade em Portugal.

O primeiro-ministro de Portugal, Pedro Passos Coelho, foi um dos espetadores que vibraram no Meo Arena com a vitória da seleção nacional.

 

 

Dados retirados do Site Maisfutebol

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publicado por picodavigia2 às 00:06

OBJETIVO DA ELEIÇÃO

Domingo, 28.09.14

PENSAMENTO DO DIA

“Uma eleição é sempre feita para corrigir o erro da anterior, mesmo que o agrave.”  

Do Blog -  Words Can Change Your Life

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publicado por picodavigia2 às 00:26

PELA PRIMEIRA VEZ NUMA FINAL EUROPEIA

Domingo, 28.09.14

A seleção nacional portuguesa, na modalidade de ténis de mesa, apurou-se pela primeira vez para uma final do Campeonato da Europa, após derrotar a Suécia por 3-1, final que será disputada frente à Alemanha, hoje, pelas 18,00 horas, no Meo Arena, em Lisboa, onde, desde a passada 4ª feira, se disputa o referido campeonato. Por sua vez a Alemanha venceu a Croácia, na outra meia-final. Os portugueses haviam eliminado a Rússia nos quartos-de-final.

Portugal entrou a ganhar os dois primeiros jogos, mas, ao terceiro, Tiago Apolónia não conseguiu superar um aguerrido e até intempestivo Jon Persson, numa partida tensa, em que duas bolas se partiram. O embate entre João Monteiro e Kristian Karlsson, que deu início à jornada, teve um dos sets mais demorados e emotivos, com o marcador a chegar aos 19-17, ficando aí decidida a vitória portuguesa deste primeiro jogo, por 3-1. O atleta português explicou como tentou gerir aqueles momentos finais, declarando: “Ele [Karlsson] esteve bem em todos os matchpoints que eu tive. Eu tentava variar: bola em linha, ele fazia contratop [spin]; se tentava na esquerda, ele pressionava. Não foi nada que eu tivesse falhado, não houve pontos fáceis, foram pontos sempre discutidos e ele jogou muito bem”.

A partida entre Marcos Freitas e Pär Gerell, pareceu ser mais fácil, com a vitória do atleta português por um concludente 3-0, com os parciais de 11-6, 11-8, 11-4. O jogador madeirense voltou à mesa para defrontar e vencer, embora com mais dificuldade, o seu colega de equipa em França, Kristian Karlsson.

A Seleção Nacional, constituída por Diogo Chen, João Geraldo, João Monteiro, Marcos Freitas e Tiago Apolónia, sendo o treinador Pedro Rufino que, neste jogo, efetuou uma troca na ordem dos jogadores, com João Monteiro a ser o primeiro a entrar em campo, frente a Kristian Karlsson.

A vitória por 3-1 empolgou o público, que vibrou com o triunfo categórico alcançado por Marcos Freitas frente a Pär Gerell (3-0), e concretizou o sonho luso de alcançar a final no Campeonato da Europa de Equipas 2014!

Recorde-se que o outro finalista, a Alemanha, é uma seleção poderosíssima, sendo campeã europeia consecutiva desde 2007 e que tem dois jogadores no top 10 mundial, Dimitrij Ovtcharov, n.º 5 do mundo e 1.º da Europa, e Timo Boll, n.º 9 mundial e 2.º europeu.

Pedro Rufino atleta do F. C, do Porto e da seleção nacional, confessou, no final do encontro: “É complicado reagir emocionalmente quando vemos um colega de equipa a um ponto de garantir um resultado histórico. O Marcos demorou um bocadinho a focar-se nas coias que tinha de fazer, mas felizmente recuperou mentalmente a tempo e ajudou Portugal a garantir um resultado histórico. Independentemente do que possa acontecer na final já é um feito histórico. Estes jogadores merecem uma final.” Por sua vez, Marcos Freitas afirmou que “é a primeira vez que estamos numa final europeia e logo a jogar em casa, com o nosso público a ver, e é óbvio que estou muito contente. Agora quero descansar, recuperar bem, para amanhã estar a 100 por cento. No início desta prova o nosso primeiro objetivo era passar o grupo, porque era um grupo muito forte, mas neste momento já estamos mais à frente, apurados para a final. Somos uma equipa muito forte, não sou apenas eu. O Tiago e o João também têm muita experiência internacional, jogamos todos fora de Portugal há sete ou oito anos. Estar numa final de um Europeu de Equipas é um “sonho” e a final ser em Portugal é mais que um sonho. (…) Não queremos desperdiçar esta oportunidade.”

 

NB – Dados retirados do Jornal Publico e do Site da F.P.T.M.

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publicado por picodavigia2 às 00:15

O GIMBRAS

Sábado, 27.09.14

(TEXTO ADAPTADO)

 

O Gimbras era um menino que vivia com o seu irmão Juvenal e não gostava nada de ir à escola. Sempre que conseguia fugir da escola escondia-se do irmão para que este não o castigasse.

Certo dia foi esconder-se em casa da Dulce Quando ela abriu a porta e o viu debaixo  da mesa da cozinha, perguntou admirada:

- O fazes aqui?

- Chiu! – pediu o Gimbras. – Não fale tão alto senão o Juvenal ouve-me!

- O Juvenal? Mas aqui não há nenhum Juvenal!

- Eu também não disse que era aqui que ele estava. Mas está lá fora. E se me encontrar bate-me.

- Se tu saísses daí debaixo e me explicasses isso melhor?

- E se ele me vê?

- Só se ele fosse capaz de ver através das paredes e das portas fechadas. Ele não está aqui.

Alguns segundos depois o Gimbras saiu debaixo da mesa, resmungando:

- Nunca se sabe… Ele é capaz de tudo… No outro dia deu um murro numa tábua  e partiu-a a meio.

A Dulce pode finalmente vê-lo: era um pequeno e fraquito, teria dez ou onze anos…Tinha o cabelo encaracolado, e a pele da cara era morena.

- Agora vais contar-me quem é o Juvenal, e que estás tu a fazer aqui – disse a Dulce.

- O Juvenal é o meu irmão. É com ele que vivo naquela barraca, ali. Está a ver?

- Estou a ver, estou. Estou a ver que fugiste do teu irmão…

- Quem é que aguenta? Não consigo estar na escola. Os outros rapazes andam sempre a fazer queixa de mim ao senhor professor e é sempre a mim que ele castiga. São todos uns queixinhas e depois eu é que pago as favas. E eu não faço nada!...  Mal lhes dou um encosto vão logo fazer queixa ao professor.

- E é por isso que foges, para o teu irmão não te mandar para a escola?

- É claro! Ele quer que eu vá à escola todos os dias. Para quê? Para aturar aqueles palermas? Para estar sempre a levar do professor, porque sou eu que tenho sempre culpa de tudo? Raio de vida… Foi por isso que hoje não aguentei, safei-me assim que vi o Juvenal à minha espera no largo da escola, e enfiei pela primeira porta aberta que encontrei.

 

 Adaptado de um texto de Alice Vieira, Às Dez a Porta Fecha,

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publicado por picodavigia2 às 19:20

SALTITANTE

Sábado, 27.09.14

MENU 53 – “SALTITANTE”

 

ENTRADA

 

Rodelas de cenoura grelhadas, acamadas sobre folhinhas de alface e barradas com creme de queijo fresco e ervas aromáticas.

Crackers grelhadas em azeite perfumado com hortelã e alho, cobertas com pepinos guisados e doce de pimento vermelho.

 

PRATO

Flagelots com salmão, cenoura e tagliatele.

 

SOBREMESA

 

Pera dom gelatina de ananás.

 

******

Preparação da Entrada: Grelhar as cenouras num grelhador borrifado com um pouco de azeite. Colocá-las sobre pedacinhos de alface e barrá-las com o queijo creme. Grelhar as crackers, em azeite perfumado com hortelã e alho, refogar os pedacinhos de pimentos num pouco de cebola, azeite e alho e cobrir as crackers com os mesmos. Borrifar com o doce.

Preparação do Prato – Cozer a massa e o peixe. Refogar a cebola com a cenoura raspada e juntar os flagelots, a massa e o peixe. Envolver com creme de queijo fresco de salmão e servir.

Preparação das Sobremesas – Tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:22

OS EMPREITEIROS

Sexta-feira, 26.09.14

Em meados da década de cinquenta chegaram à Fajã Grande, juntamento com um gigantesco e deslumbrante acervo de maquinaria e material de construção, os empreiteiros que haviam de abrir e construir o troço da estrada que ligaria a Fajã Grande ao resto da ilha. Tratava-se do troço entre o Porto da Fajã e a Ribeira Grande que, depois de construído, acabaria por deixar ficar tudo na mesma, uma vez que o troço seguinte, entre a Ribeira Grande e o Cimo da Rocha da Fajãzinha, só alguns anos depois seria construído, permitindo assim que se pudesse viajar de carro, da Fajã a Santa Cruz.

Os empreiteiros foram recebidos com grande alegria e satisfação pelo povo, por quanto se sabia que trariam um grande benefício para a freguesia. Eram três. O chefe e dono da empresa era o Senhor Santos, natural do continente mas residente na Terceira onde a empresa tinha sede. Era o único casado e tinha um filho. Os outros dois, o Senhor Pedro e o Senhor Valério, eram cunhados do Senhor Santos, seus sócios e colaboradores, sendo, também, os responsáveis pelas obras, cujos trabalhos supervisionavam, diariamente.

Chegados à freguesia, hospedaram-se na Rua Nova, numa casa com torrinha, a meio da rua, que estava vaga. Uma das melhores casas da freguesia e a única, para além da do chileno e da igreja, com torre. Depressa se adaptaram e criaram grande estima e amizade com a população local. Célebre sobretudo as expressões e ditos do Senhor Santos, possuidor de uma monumental barriga e fumador de charutos, ornados com um belo sotaque continental, impondo um respeito considerável. O senhor Pedro mais alegre e folgazão, o senhor Valério mais reservado e sóbrio, mas todos senhores de uma dignidade e de uma educação bem patentes aos olhos de todos.

Desembarcada a maquinaria e o material, vindo de Santa Cruz em batelões puxados por gasolinas, contrataram homens entre a população local e começaram as obras, iniciando-as, em duas frentes: no Porto e no Cimo da Assomada. Rasgaram colinas, esburacaram rochas, atravessaram campos, destruíram casas e construíram outras pagando indemnizações por campos e espaços ocupados.

A maquinaria era constituída por uma camioneta e um conjunto de vagões, com linhas férreas, a instalar, algumas betoneiras, a máquina de alcatroar e várias máquinas de fazer cimento. Tudo novidade na freguesia. O material, para além de malhos e martelos de todo o tipo e tamanho, era constituído pelas célebres “picaretas”, muitas pás, ancinhos, cavilhas, brocas e outro material de perfurar e partir pedra, Chegaram muitos carrinhos de mão, diversas caixas com velas de dinamite e os respetivos fiosques, fatos de oleado e chapéus para proteger da chuva, muitos arcos, pneus e rodas para construir os cilindros, etc. etc., enfim uma panóplia de material que nunca mais acabava.

Dezenas e dezenas de homens da freguesia foram contratados para trabalhar nas obras o que, se por um lado trouxe alguma riqueza, por outro fez com que muitos campos de cultivo começassem a ser abandonados, alterando assim, parcialmente, a vida e os costumes da freguesia.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:05

VOLTO ATÉ QUANDO

Quinta-feira, 25.09.14

(Pedro da Silveira)

 

Mais uma vez estou aqui.

O mesmo mar de outrora,

azul e cor-de-cinza.

Violácea a paisagem.

E esta paz de espelho velho.

 

Desde menino vagabundo,

desde menino indo e tornando…

Longe,

aqui me desejando;

Aqui,

longe e mais longe

o pensamento navegando.

 

Vagas, calai-vos!

Vagas,

deixai-me em paz!

 

Querer poder ficar e não poder pensá-lo.

 

Pedro da Silveira Arte Poética

 

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publicado por picodavigia2 às 15:02

O FILHO DO JOÃO DO PORTO (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Quarta-feira, 24.09.14

Meu pai contava que o avô dele lhe contava – imagine-se aos anos que isto aconteceu – que, antigamente, no lugar onde hoje é o barracão da Firma das Lajes, havia uma casa, pequena e pobre, onde morava um homem conhecido pelo João do Porto. A casa, como ainda hoje se pode verificar, ficava tão próxima do mar, que em dias de grandes temporais, quando o mar ficava muito bravo, as ondas quase lhe entravam pela porta dentro. João do Porto era pescador e vivia ali, na companhia de um filho já homem. Nos dias de grandes temporais fechavam-se em casa, pois não tinham nem terras para trabalhar nem gado para tratar, mas nas noites calmas e de lua cheia sentavam-se fora da porta do velho casebre, olhando para o mar, sonhando com a manhã seguinte quando haviam de regressar ao mar, no seu pequeno barco, para mais um dia de faina da pesca.

Certa noite em que ambos, cansados de mais um dia de trabalho, sentados fora da porta, se haviam calado e já dormitavam, pareceu-lhes ouvir, ao longe, o canto de vozes muito harmoniosas que pareciam vir do mar. Ao princípio cuidaram que estavam a sonhar, mas despertando do marasmo em que jaziam, puderam perceber que afinal aquelas belas vozes eram bem reais.

O rapaz, inicialmente bastante assustado, aos poucos começou a entusiasmar-se e perguntou ao pai, se aquilo não seriam vozes de sereias, sobre as quais já ouvira muitas e belas estórias. O pai disse-lhe que, na verdade, podiam ser sereias mas que era preciso ter muito cuidado e fugir delas porque costumavam enfeitiçar os homens com o seu canto e levá-los para o fundo do mar. Mas o rapaz, cada vez mais entusiasmado, quanto mais o pai o avisava, mais sonhava ir ao encontro das sereias.   

Certa noite de lua cheia, em que o luar brilhava mais do que o habitual, não dando ouvidos aos avisos e conselhos do progenitor, o rapaz, sem que o pai se apercebesse, aproximou-se da beira-mar, a fim de ouvir melhor o canto das sereias e, se possível, para as ver. A noite estava muito calma e clara e dava coragem ao jovem pescador, que se escondeu por detrás de um alto penedo do baixio, junto à Poça do Cobre, à espera que as sereias se aproximassem da costa.

As horas, no entanto, foram passando sem que nenhuma sereia aparecesse, pese embora o rapaz continuasse a ouvir, ao longe, as suas vozes e o seu canto. Já de madrugada, cansado da espera, o rapaz adormeceu. Pouco depois, uma onda, enfurecida, subiu as rochas e pegando-lhe, levou-o consigo para o mar alto. Quando acordou viu-se rodeado de belas mulheres que, da cintura para baixo tinham o corpo semelhante ao dos peixes. A sua beleza era tanta, o seu cantar tão suave e os gestos das suas danças tão harmoniosos que impressionaram tanto o rapaz que ele se deixou encantar. Sem sucesso, tentou apanhar uma das sereias. Elas, porém, vendo um homem a tentar agarrá-las, fugiram com ligeireza e mergulharam para o fundo mar. Na confusão da fuga, uma sereia deixou-se apanhar e, medrosa, começou a chorar e a debater-se para se libertar. O rapaz que nadava que nem um peixe, muito a custo, conseguiu aprisiona-la mas, no momento em que lhe pegou ao colo e a abraçou para a trazer para terra, a sereia deixou cair as guelras e como que quebrando o encanto, transformou-se numa linda e bela mulher.

 O jovem não podia acreditar naquilo que os seus olhos viam e, por isso, não a largou mais, trazendo-a consigo para terra. Passado algum tempo, casaram, mas consta que o rapaz morreu pouco depois, afundando-se o barco e desaparecendo para sempre no fundo do mar, para onde regressou também a mulher, que afinal nunca deixara de ser sereia.

Esta a razão por que ainda hoje se diz que, de u ou de outra, as sereias arrastam sempre os homens para o fundo do mar. Razão tinha, pois, o João do Porto, nos conselhos que dava ao filho.

 

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publicado por picodavigia2 às 22:51

TRANSMONTANO

Quarta-feira, 24.09.14

MENU 52 – “TRANSMONTANO”

 

ENTRADA

Bolas de alheira vegetariana acamadas sobre rodelas de pepino grelhadas, salpicadas com tirinhas de alface, embebidas em vinagre balsâmico. Salpicos de creme de queijo fresco e ervas aromáticas, regados com doce de pepino vermelho.

 

PRATO

Feijoada à transmontana com peito de peru e legumes. Migas de brócolos e caldo da feijoada.

 

SOBREMESA

 

Salada de melão, ananás e pêssego, cofitada em mel e vinho do Porto., salpicada com doce de figo e laranja, Gelatina de ananás e suspiro.

 

******

Preparação da Entrada: Retirar o recheio das alheiras, grelhá-lo e formar pequenas bolas. Grelhar as rodelas de pepino e cobri-las com as bolinhas de alheira. Empratar, entrelaçando com pequenos salpicos do creme de queijo e regar com o doce de pepino

Preparação do Prato – Cozer os legumes (cenoura, repolho, nabo e brócolos) com o peito de peru. Esmagar miolo de pão com um raminho de hortelã e cobrir com o caldo a ferver, Juntar os brócolos e reduzir a papa. Refogar cebola e alho e juntar a carne e os legumes picados e os flagelotes. Misturar bem. Grelhar pedacinhos de alho em azeite e juntar a papa para as migas. Empratar o feijão à transmontana ao lado das migas.

Preparação das Sobremesas – Cofitar pedacinhos das frutas em mel e juntar o vinho do Porto. Empratar com a gelatina e os suspiros, regando com o doce.

 

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publicado por picodavigia2 às 13:29

DIGNIDADE

Terça-feira, 23.09.14

“Toda a vez que um ser humano sofre por falta de respeito pela sua dignidade, toda a humanidade se torna indigna.”

Rogério Carvalho

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publicado por picodavigia2 às 00:42

OS LAVA MÃOS

Segunda-feira, 22.09.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta e nas anteriores, não havia casas de banho, Sendo assim, em todas as cozinhas, geralmente num canto junto do lar, havia um utensílio doméstico muito útil e necessário, o lava mãos.

Os lava mãos eram estruturas formadas por varas de ferro, assentes sobre três pés, de tal maneira organizadas que permitiam suportes para um bacia para a água, um recipiente para o sabão e um estendal para a toalha. As bacias normalmente eram de esmalte, embora as houvesse de louça, e assentavam num vão existente na parte superior da estrutura, Como não havia água canalizada ou fonte anexa ao próprio lava mãos, a bacia, geralmente, continha água, servindo a mesma para sucessivas lavagens, até que alguém apercebendo-se de que já estava muito suja, a despejasse, substituindo-a por outra, fresca e limpa. Por sua vez o sabão, um pedaço retirado duma barra azul, era posado num pequeno prato, também este de esmalte ou metal, pousado num pequeno vão existente a meio da estrutura, pelo que a mesma se comprimia, ficando semelhante a um novelo ou molhe, apertado no meio, Finalmente e por cima da bacia, constituindo as costas do lava mãos, havia um prolongamento da estrutura, com barras de ferro entrelaçadas, por vezes de forma artística, formando uma espécie de grelha onde eram penduradas uma, duas ou mais toalhas.

Atualmente muitos lava mão, sobretudo os que possuíam bacias de louças foram recuperados, restaurados e pintados, sendo guardados como peças de adorno ou de museu

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publicado por picodavigia2 às 15:08

FIM DO BURRO

Domingo, 21.09.14

Um homem caminhava acompanhado de um jumento. Desciam uma vereda muito íngreme e sinuosa que atravessava uma colina. Montado no jumento seguia um rapaz meio tolo. A certa altura, o rapaz, não conseguindo aguentar-se sobre o burro que se inclinava muito ao descer, começou a deslizar ao longo do dorso do animal. Quando chegou ao pescoço do burro, agarrou-se-lhe as orelhas do animal e, voltando-se para trás, muito assustado, pediu ao pai:

 -Pai, dê-me outro burro, porque este está-se acabando.


 

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publicado por picodavigia2 às 17:06

PÔR-DO-SOL NA RIA

Domingo, 21.09.14

Era uma vez uma casa pobre, humilde, modesta e muito antiga. As paredes eram de um branco amarelado mas tão despidas de cal que quase deixavam ver os adobes de barro com que haviam sido construídas, que se assemelhavam a pequenos retângulos moldados em formas de madeira, ligados com argamassa de cal e areia e, que se sobrepunham e entrelaçavam uns nos outros, em camadas simétricas e rendilhadas que iam do chão ao telhado. Circundava-a, pela frente, uma eira, uma espécie de minúsculo terraço, onde se debulhavam, joeiravam e secavam os cereais. A eira comunicava diretamente, através dum alpendre, com o interior do pequeno cubículo. O alpendre era fechado por um telhado suspenso em grossos e toscos esteios de madeira e nele se recolhiam os cereais depois de secados na eira. O interior da casa também era muito pobre, simples, pouco iluminado e compartilhava-se por quatro divisões: uma cozinha e uma sala, vetustas e enormes a contrastarem com a tímida pequenez de dois quartos laterais ao alpendre.

Era nesta casa que morava Alice, com os pais e os irmãos

A casa ficava perto de uma ria, um enorme e quase infinito lençol de águas límpidas e cristalinas, ora calmas e tranquilas ora rebeldes e assediadas por pequenas ondas que, espicaçadas pela ventania, se iam agigantando até se perderem nas margens contra as quais aparentemente se revoltavam. Ao amanhecer, enquanto o crepúsculo se desfazia e o Sol se espreguiçava, lançando os primeiros raios, a ria como que se enchia duma alegria enigmaticamente expectante e as suas águas revestiam-se de um tom alaranjado e fulvo. Durante o dia, se o Astro-rei, mais atrevida e ousadamente, despejava os seus raios com maior força e intensidade sobre a superfície terrestre, as águas da ria matizavam-se de um azul dourado, transformando-se num enorme tapete acetinado, mas se, pelo contrário, surgiam tardes escurecidas e ensombradas, tingiam-se, então, de um pardacento disfarçado onde se desenhavam brumas densas e espessas, retratando tenuemente o colorido esverdeado das margens e das planícies circundantes e, ao cair da tarde, enlevando-se com a penumbra do anoitecer, embelezavam-se de tons de violeta acinzentados. Finalmente, à noitinha, sobretudo nas noites de Lua Cheia, o aspeto da ria assumia-se como uma espécie de gigantesco manto prateado, onde as vedetas se refletiam, salpicando-o de pontinhos dourados, de serenidade e de silêncio.

A avó da Alice havia-lhe ensinado que a ria era uma espécie de ilha ao contrário, isto é, uma grande porção de água rodeada por terra, onde morava uma infinidade de peixes e desabrochava uma vastíssima quantidade de algas. É que a ria era ladeada por uma ampla e esverdeada planície, entrecortada por inúmeras ribeiras e regatos, matizada, aqui e além, por pequenas manchas esbranquiçadas que se aglomeravam, muito aconchegadas, junto das torres sineiras das igrejas, donde, manhã cedo e à noitinha, emanava o toque simples mas solene e doce das Trindades.

Na ria, um enorme sapal, vislumbrava-se um vigor e uma beleza que se refletiam na placidez das suas águas, na imensidade das suas margens, na opulência da sua fauna e na dissemelhança da sua flora. A ria era fecunda, atraente, fértil e serena e, na sagacidade das suas orlas, sentia-se que transbordava uma esperança de tranquilidade quase transcendente e infinita. Havia qualquer coisa de imponente, sublime e harmonizado na lisura reflexiva das suas águas, no seu aspeto lagunar e na lhaneza das suas margens. A ria transportava, quer os que com ela partilhavam as agruras do seu quotidiano quer os que a visitavam esporadicamente, numa contemplação idílica, permanente e bucólica entre o céu e a terra, numa aspiração infinita de sonhos transcendentes e inatingíveis. É verdade que a ria, por um lado, se apresentava como uma espécie de sertão de água, um pantanal ou um brejo, mas por outro, manifestava-se como um recanto ubérrimo, um recinto deslumbrante, onde a paisagem aspergia grandiosidade, onde a beleza se impunha a cada momento e em cada recanto, num comunhão recíproca e única entre a água, a terra e o céu.

Era na ria que o pai da Alice procurava o sustento da família. Era na planície que circundava a ria que mãe extraía da terra o pão de cada dia. A ria e a planície como que se uniam numa simbiose perfeita e recíproca.

O pai, sobretudo nos meses entre Março e Setembro, embrenhava-se na ria, na apanha e recolha do moliço com que se haviam de fertilizar os campos que se estendiam ao longo da planície. Levantava-se alta madrugada, paramentava-se de camisa de estopa esbranquiçada, manaia crua de algodão e barrete de malha preta de lã e partia. Juntamente com os outros homens da companha, ficava na ria horas e horas a fio, arrastando na profundeza limitada das águas os ancinhos presos nos bordos do barco. Quando os homens os sentiam carregados e cheios, retiravam-nos alternadamente de um e outro bordo e colocavam o moliço recolhido no fundo do barco. Voltavam a lançar os ancinhos e o moliceiro deslizava, de novo, ao sabor vento, movido por uma enorme vela branca. Outras vezes, quando não havia vento suficiente ou o fundo da ria se pressentia baixo, empurravam-no à varada, ou puxavam-no à sirga, sobretudo quando era necessário fazê-lo deslizar por entre as passagens dos canais mais estreitos ou junto às margens das ribeiras e regatos que desaguavam na ria, ou até mesmo quando o barco era forçado a navegar contra as correntes ou contra o vento. Amarravam, então, uma das extremidades da sirga aos golfões enquanto a outra era presa e puxada por um ou dois homens que seguiam a pé pelas margens. Os ancinhos eram de novo lançados à água e voltavam a encher-se e a serem recolhidos tantas vezes quantas eram necessárias para que o nível da água se aproximasse o mais rigorosamente possível da fêmea da ré, sinal claro de que o barco estava completamente carregado. O moliço era então retirado e colocado em terra, esperando que os carros de bois, num vai e vem lento e repetitivo, o fossem distribuindo pelos campos mais longínquos e dispersos.

Raramente o mar era o destino laboral do pai da Alice. Apenas quando as tarefas moliceiras o permitiam ou quando a pesca era escassa na ria. Então atravessava as dunas em enorme correria, pisava ao de leve o areal e fazia-se ao mar alto, acompanhando os outros homens nos barcos saveiros, substituindo um ou outro pescador, para que a companha não ficasse depauperada. A Arte Xávega exigia muitos pescadores embora fosse um tipo de pesca artesanal e era um meio de garantir a subsistência da família mais facilmente, embora com maiores riscos e perigos. Ao cair da tarde regressava à praia, com o barco carregado de peixe. Era um barco de fundo chato, com uma proa muito levantada e aguçada para mais facilmente sulcar as ondas e uma ré ou popa cortada para aproveitar a vaga no encalhe. Era movido a remos, com enormes redes lançadas a grande distância para cercar os cardumes de peixe e, depois, puxadas à força de braços ou até com a ajuda de bois.

Ao redor da ria a planície, muito verdinha e alisada, onde se alternavam prados e campos que no Inverno, enquanto aguardavam as sementeiras, tinham um aspeto avermelhado e escurecido mas, na Primavera, revestiam-se com o verde dos milheirais, dos legumes e das vides e no Verão começavam a amarelecer até alourarem por completo no Outono.

Num desses campos, perto da ria, ficava a casa da Alice. Era nele que a mãe, enquanto o pai se ocupava da pesca ou da apanha do moliço, trabalhava de sol a sol porque era dele que tirava o que era necessário para o seu sustento – milho, legumes, batatas e vinho. Em Fevereiro e Março, quando os dias começavam a tornar-se maiores e mais quentes, a mãe e os irmãos mais velhos cavavam e resvalavam a terra, adubada com o moliço extraído da ria e deixavam ficar as leivas e os torrões a secarem e como que a aquecerem-se ao Sol. Depois desfaziam-nos e transformavam-nos em terra fina que alisavam, transformando o campo num enorme e fofo tapete acastanhado. De seguida voltavam a cavá-lo de lés-a-lés, abrindo pequenos sulcos onde a mãe depositava os grãos de milho. Tapavam-nos, alisavam novamente a terra e voltavam a abrir novo sulco, cobrindo sempre muito bem cada grãozinho que ali ficava durante alguns dias, muito bem escondidinho para que assim germinasse mais facilmente, com a ajuda do Sol e da chuva dos dias seguintes. Não tardava muito e era um regalo ver o milho a crescer, a crescer, muito verdinho e espevitado e a espelhar-se nas águas da ria. Nas extremidades do campo e nos lugares mais abrigados pelos bardos das beiradas a mãe semeava o feijão, ervilhas e plantava as couves, as cebolas e os tomateiros. Em Abril e Maio, quando o milho ainda estava miudinho, sachavam-no e retiravam as ervas daninhas e os pés de milho mais bastos para que os outros crescessem à vontade. Nos dias seguintes o campo transformava-se num enorme tapete de folhas verdes, caneladas e pontiagudas, ladeadas pelos canteiros onde floresciam couves repolhudas e as ervilhas e os feijoeiros começavam a trepar pelas estacas que eram espetadas aqui e além. Os milheiros cresciam de dia para dia, as suas folhas entrelaçavam-se umas nas outras e balouçavam como as ondas da ria, ao sabor das brisas matinais e os caules, canelados e esguios, tornavam-se altíssimos, enfeitando-se lá no alto com umas flores estranhas que cobriam o campo com um manto esbranquiçado e fofo. Algum tempo depois nos caules enrijecidos começavam a formar-se espiguinhas cabeludas que iam crescendo e alourando ao Sol do estio. Em Setembro as espigas amadureciam por completo e procedia-se à apanha. A mãe arrepelava dos caules já muito amarelados e envelhecidos as espigas maduras. Alice e os irmãos acarretavam-nas para a eira. Alguns dias depois marcava-se a desfolhada. Para ajudar vinham alguns vizinhos, os tios, a avó e os primos do Bunheiro. O pai escolhia uma noite de Lua Cheia, em que não fosse para o mar ou para a ria. Sentavam-se todos em círculo, na pequena eira, à volta do amontoado de espigas e, enquanto lhes iam arrancando o folhelho a avó contava histórias e acontecimentos de outros tempos. De vez em quando a mãe levantava-se e ia buscar uma caneca cheia de vinho muito vermelho, que todos iam saboreando à vez. Depois de vazia a mãe voltava a enchê-la tantas vezes quantas eram necessárias para que todos bebessem. De seguida voltava-se ao trabalho. De repente e com enorme alarido alguém gritava “Milho-Rei! Milho-Rei!”. A tarefa era suspensa de imediato e fazia-se uma grande festa de regozijo.

Na manhã seguinte o pai partia de novo para a ria e a mãe para os campos enquanto a Alice seguia para a escola. Era uma escola diferente da dos irmãos – a escola feminina - onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Outras vezes a senhora professora mostrava-lhes um mapa afixado na parede onde ela observava a ria, tão azulada como era na realidade mas muito pequenina, sem barcos à vela, sem moliço e sem margens verdes. Ao lado a Murtosa, um pontinho negro, dentro do qual a Alice imaginava a sua casa. Na hora de leitura a senhora professora juntava todas as meninas à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Carmona e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas ajudava a mãe no amanho dos campos e no arranjo da casa, tomava conta do irmão mais novo e fazia as cópias e as contas que a Dona Gracinda mandava. Apenas os domingos e os poucos dias de festa em que os pais não trabalhavam eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com terra e ladeados por casinhas também de barro e por campos onde pastavam as ovelhitas e a que não faltava a ria – um enorme lago feito com um pedacinho de papel prateado e a ladeá-lo leivas de musgo e areia a imitar os campos e as dunas. Mas o que Alice mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite, contrariamente aos outros dias, a mãe punha a mesa cheia de iguarias deliciosas que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam para a missa do galo, na igreja da Senhora da Natividade. O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja cheia de vultos negros, de tossidelas, de bichanar de orações e de cheiro a velas a arder. Sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão viesse tocar uma enorme campainha. Então os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo, separados das mulheres, enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia, vestido de branco e celebrava a missa no altar-mor, todo forrado a ouro. No fim, enquanto se entoavam os cânticos de Natal, dirigia-se para o presépio e balouçava o turíbulo fumegante diante das gigantescas figuras de Maria, José e Jesus, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Alice juntamente com as outras crianças da sua idade, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

Nos dias seguinte o pai voltava à ria, a mãe à planície e a Alice à escola.

Este trabalho contínuo, desgastante e pouco rentável, no entanto, começava a indignar o pai da Alice. É verdade que gostava da sua terra, sentia prazer na faina de moliceiro e adorava o mar e a ria. Mas que aquilo era uma vida miserável, lá isso era, não havia dúvida. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o mísero sustento de cada dia. Era sobretudo a vida de escrava que a mulher levava, conjugando as lides domésticas com o trabalho do campo, que mais o preocupava e não se lhe tirava da cabeça a ideia de abandonar a terra, a ria, a planície e partir para um país onde a vida fosse mais fácil e tivesse melhores condições. Muitas vezes, à noite, juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, dali ao lado, de Pardilhó. E os filhos? Que futuro os esperava? Se ali ficassem para sempre, que condições de vida lhes poderiam dar? Continuarem agarrados aos ancinhos ou ao cabo da enxada para terem uns míseros tostões e um caldo de couves com um bocado de broa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor, sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover de tão melindrosa e sinistra ideia, lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Além disso estava habituada às lides do campo. Desde criança se habituara à lavoura, ajudando os pais. A mãe sempre lhe dissera que não nascera para princesa. Nem sequer a deixara tirar a 4ª classe.

Mas o sonho de partir não se desvaneceu e a persistente obstinação do pai sobrepôs-se e ultrapassou a frágil resistência da mãe. Partiram numa manhã de nevoeiro, de sombras e de incertezas. Para trás ficavam os tons coloridos da ria, as velas esbranquiçadas dos moliceiros, o cais do Chegado, a frescura esverdeada da planície, a casinha da Murtosa feita de adobes de barro, o som dolente das Trindades na torre igreja da Senhora da Natividade, a romaria de S. Paio e o rumorejar roufenho dos barcos a arrastarem-se nas areias das dunas.

Partiram, cheios de esperanças confusas, de convicções ambíguas e de sonhos vazios, voando sobre ilhas e oceanos, sobre desertos e oásis, com a velocidade do vento e a intranquilidade das nuvens. Chegaram a um país longínquo e desconhecido mas opulento e grandioso, onde abundava trabalho e riqueza. Um país onde viviam povos de todas as raças e cores, gentes de diferentes línguas e credos e onde as pessoas não se conheciam apesar de todos os dias se cruzarem nas mesmas ruas e das casas ficarem muito próximas umas das outras. Um país onde as montanhas, cobertas de neve, se confundiam com o horizonte, onde os rios, negros e cinzentos e com enorme caudal, atravessavam vagarosamente as cidades, onde as estradas se entrelaçavam umas nas outras, num constante rodopiar de automóveis e onde nem o vento nem Sol disputavam a intranquilidade dos dias e das noites. Um país onde o tempo era contado ao minuto, ao segundo, onde o trabalho não tinha sabor a maresia, onde se confundia o perfume das flores com o sabor dos frutos e onde o pão era partido em pedaços muito grandes. Fixaram-se numa cidade gigantesca, com prédios altíssimos e praças ornadas com estátuas de aventureiros e descobridores. Uma cidade onde as ruas se chamavam “streets” e o dinheiro “dólares”. Uma cidade onde não se trabalhava numa ria ou num campo mas em fábricas e “estoas”, onde as crianças eram transportadas em autocarros para as escolas e onde, após a missa dominical, as pessoas não ficavam a conversar umas com as outras no adro da igreja. É verdade que não havia amigos, familiares, festas, romarias, desfolhadas ou matanças de porco, mas havia ruas cheias de automóveis, supermercados atafulhados dos mais variados produtos, esplanadas coloridas e adocicadas com gelados tropicais. É verdade que não havia ria, ribeiras e planícies verdejantes, nem moliceiros carregados de moliço, mas havia museus, catedrais, hotéis de luxo e arranha-céus. 

Aí cresceu Alice e se tornou mulher. Percorreu muitas outras cidades, aprendeu línguas diversas, saltou montanhas, atravessou rios e esqueceu-se do mar, da ria, da planície e da casa pobre, humilde, modesta e de paredes brancas feitas de adobes de barro onde nascera.

Mas os anos passaram e os países do mundo tornaram-se mais semelhantes, mais iguais e, sobretudo, mais próximos uns dos outros. E Alice voltou a sonhar como sonhara outrora. E num desses sonhos regressou ao país, à aldeia, à planície e à ria de onde muitos anos antes, ainda criança, havia partido.

Mas a ria já não era tão matizada de tons coloridos como fora nos tempos da sua infância e que lhe pareciam tão distantes. A planície já não refletia o verde dos milheirais, os moliceiros já não deslizavam, carregados de moliço, ao sabor do vento ou da sirga, os carros de bois, em aflitivas chiadeiras, já não carregavam o moliço para os campos e já não se ouvia, à noitinha, o som doce das Trindades, na torre da igreja da Senhora da Natividade. Apenas o Sol continuava a refletir-se e a projetar os seus raios sobre as águas da ria, ora tranquilas ora revoltas, dando-lhe tons alaranjados, azuis, verdes e violáceos.

A ria transformara-se num paraíso fluvial, aprazível e encantador onde confluíam interesses e projetos. As suas águas eram sulcadas por veleiros em que os antigos moliceiros se haviam transformado e as margens e cais que outrora recolhiam o moliço, haviam dado lugar a portos, marinas e praias de veraneio. A planície, aprisionada de um verde esbatido e melancólico, deixava, tão-somente, evidenciar um rastro branco que ora se exprimia em vestígios do vetusto casario ora se agigantava em novos edifícios que projetavam e difundiam as suas formas geométricas e esguias nas águas prateadas da ria.

Apenas ao entardecer, quando o Sol, descendo por entre as dunas da Torreira alourando o firmamento em enorme mancha áurea e opaca, se projetava e refletia sobre as águas lisas da ria, perdendo-se por completo no horizonte, num deslumbramento de magia e alienação, Alice se recordou de uma aguarela, recortada de um calendário antigo, com que a mãe orgulhosamente ornamentava uma das velhas e carcomidas paredes da sala daquela casita pobre, humilde, modesta, de paredes brancas feitas de adobes de barro, onde nascera e que, numa legenda já meio gasta e apagada pelo tempo, dizia simplesmente:

“Por-do-Sol na Ria, visto da Murtosa”.

 

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publicado por picodavigia2 às 05:52

ACORDO ORTOGRÁFICO

Sábado, 20.09.14

Um novo computador traz sempre grandes alterações e mudanças ao que fazemos. A sua durabilidade parece ser cada vez menor. A substituição traz benefícios. Desta feita a grande alteração é que o novo Officer 8 traz, entre muitos outros benefícios, a produção de texto de acordo com o novo Acordo Ortográfico,

Assim o blogue Pico da Vigia 2, a partir de hoje, passará a publicar todos os textos, tendo em conta as novas regras do referido acordo.

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publicado por picodavigia2 às 21:23

A BOLA DE PINGUE-PONGUE

Sábado, 20.09.14

 

(CONTO DE ANTÓNIO TORRADO)

Era uma vez uma bola de pingue-pongue.

Um dia, a bola de pingue-pongue disse assim:

- Já chega de andar aos trambolhões de um lado para o outro: encontrão daqui, safanão ali, toma lá, dá cá e volta ao princípio, numa roda viva entre duas raquetes. Afinal nunca passo da mesma mesa.

Realmente, aquela vida de tão, badalão, e torna e deixa o pingue e pongue e pongue e pingue cansava qualquer um, quanto mais uma bola de pingue-pongue com aspirações a outros voos...

- Ainda se fosse uma bola de futebol - suspirava ela. - Corria o campo de lés a lés e, quando fugisse para dentro das redes, punha tudo a gritar: goooolo! Era mais emocionante.

Mas, mesmo assim, deve haver melhor destino.

É que havia mesmo. E a pequenina bola de pingue-pongue queria conhecê-lo. Ser bola de futebol, de basquetebol não lhe bastava. O que ela queria era correr mundo!

E foi. Saltaricou da mesa para o chão, desceu escadas, escorregou por colinas, e foi ter a um sítio muito especial, que era assim a modos que um centro espacial. Deste centro especial espacial atiravam para os céus bolas e bolinhas, que uma vez lá de cima, a dançar no meio dos astros, lançavam para a terra uns sinais esquisitos - bip! bip! bip! - como se fossem grilos... Mas não eram grilos essas bolas espaciais. Eram satélites dos artificiais

Se as outras conseguem, também eu hei-de conseguir - pensou a bola de pingue-pongue.

Ela que sabia dizer "pingue" e "pongue", e "pongue" e "pingue", depressa aprendeu a dizer "bip!" "bip!" "bip!". Não custava nada.

E lá foi pelos ares, viajante do espaço, à roda do mundo, tão redondo como ela.

- Ena tantas bolas! - exclamou a bola de pingue-pongue, quando se viu lá no alto, a rodar entre planetas. - Afinal somos todas da mesma família. Umas maiores, outras mais pequenas, mas redondas todas. Que seria do mundo, se não fossem as bolas...

E, de contente que estava, soltou um "bip! bip!" mais forte, que atravessou o espaço e atarantou as estrelas lá do fundo.

- Tirem-me de ao pé de mim este satélite maluco. Não consigo dormir em paz - gritou a Lua, que é assim uma espécie de bola de pingue-pongue, mas em grande.

Os sábios fizeram a vontade à Lua e mandaram descer a nossa bolinha de pingue-pongue.

- Estou satisfeita - contou a bola, ao regressar à Terra.

António Torrado

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publicado por picodavigia2 às 15:18

NÂO HÁ ENGANOS

Sexta-feira, 19.09.14

 

Não há enganos.
Os acontecimentos que recaem sobre ti,
por muito desagradáveis que sejam,
são necessários para que aprendas
aquilo que precisas aprender.
Cada passo que dás
é necessário para chegares ao local
que escolheste.

Richard Bach

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publicado por picodavigia2 às 06:47

O MEU PRIMEIRO LIVRO

Quinta-feira, 18.09.14

 

Meu pai sabia ler mas não lia, por uma razão muito simples: porque em minha casa, para alem dos livros escolares que iam passando de mãos para mãos, não havia livros. Em casa da minha avò materna, a única casa da freguesia que frequentávamos com alguma assiduidade, apenas havia um livro e dois manuscritos. O livro era o “Resumo da História Sagrada”, uma espécie de Biblia simplificada e adaptada às famílias onde se narravam algumas dasmais belas estórias do Antigo Testamento, como as deAdão e Eva, Caim e Abel, Jacob e o Anjo, José do Egipto, a Arca de Noé, o Profeta Jeremias, Job, Ester, David e o Golias a que se juntavam muitas outras do Novo Testamento. Eram estórias simples mas interessantes e que, à força de se lerem tantas vezes, já se sabiam de cor. Os manuscritos eram em versos, também muitas vezesouvidos e decorados. Um continha uma boa parte das profecias do Sapateiro Bandarra enquanto o outro narrava, de forma dramática, a morte de El-rei Dom Carlos e do príncepe herdeiro Dom Luís Filipe, ocorridas, na longínqua Lisboa, uns trinta anos antes. De resto apenas se lia uma outra carta vinda da América, os rótulos dos maços de tabaco e das garrafas de laranjada e de cerveja, os disticos das caixas de fósforos e o nome de algum navio que se aproximasse mais da ilha.

Assim como meu pai, viveu toda a sua vida afastado dos livros, eu também passei a minha infância apenas folheando, lendo e relendo os livros da escola, com excepção da Gramática que não tinha graça nenhuma e da tabuada que só continha números. Apenas quando cheguei ao Seminário Menor me veio parar às mãos e assim pude ler o meu primeio livro que obtive através de um concurso de desenho em que fui obrigado a participar. É verdade que não tinha geito nenhum para o desenho, que a tarefa me correu pessimamenre e que borrei a folha toda. Mas, pelos vistos, para o juri, era uma obra de arte que me valeu um prémio. Um livro.! O meu primeiro livro: Louis Pasteur.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:59

CAMPAINHAS DE BADALO

Quarta-feira, 17.09.14

 

Era assim que se chamavam, na Fajã Grande os chocalos,ou seja, uma espécie de cilindros de lata ou metal, achatados, compridos e ocos, geralmente de metal, com uma extremidade aberta e outra fechada, tendo preso no seu interior um badalo de metal. Quando abanados, o badalo ao bater nas bordas da extreemidade aberta. produzem um som, tanto mais forte quanto o tamanho do cilindro e a qualidade do material de que são feitos.

Na Fajã Grande, as vacas, sobretudo as leiteiras, eram ornamentadas com campainhas, penduradas ao pescoço por um estrape. Umas campainhas eram em forma de sino, outras de meia laranja, mas todas feitas de metal sonante, com uma boa têmpera, produzindo, assim, sons harmónicos, harmoniosos e diversificados que, por vezes, identificavam os próprios donos do gado. Por isso e para além do efeito estético, as campsainhas serviam, em muitos casos, para identificar a própria rês. Quando as vacas eram levadas para o mato, no Verão, as campainhas eram-lhes retiradas do pescoço, sendo substituidas pelos chocalhos, caracterizados pelo seu som abrutalhado e pouco harmónico mas forte e, consequentemente, capaz de se uvir a uma considerável distância. As razões desta troca eram, fundamentalmente, duas. A primeira porque nas relvas do mato havia muitos valados e grotões a abarrotar de silvas e queirós que proporcionavam a que os estrapes se rompessem e as campainhas se perdessem. A segunda, porque tendo o chocalho ou campainha de badalo um som muito forte, era mais fácil aos donos dos animais identificar onde se encontravam em dias de brumas densas e de nevoeiros cerrados ou de procurar quando se encontravam caídos nalgum grotão.

Quer as campainhas quer os chocalhos eram mandados fazer ou comprados nas Lajes, embora a maioroia fosse uma espécie de bem de família que se ia transmitindo de geração em geração.

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publicado por picodavigia2 às 10:38

A LENDA DA COALHEIRA

Terça-feira, 16.09.14

 

Segundo uma lenda antiquíssima, há muitos, muitos anos, na Fajã Grande, um homem aproveitou uma bela noite de Lua Cheia para ir pescar, para os lados do Canto do Areal. Havia muito luar, a noite estava muito clara e, por isso, o homem não levou nenhuma tocha de luz consigo. No entanto, ao chegar junto do mar, umas nuvens densas e escuras cobriram uma parte do firmamento, tapando, por completo, a Lua, deixando a noite muito escura. Apesar de ter alguma dificuldade em ver, o homem, olhando para o mar, cuidou avistar a boiar, calmamente, sobre as ondas, em direcção ao rochedo onde se sentara para pescar, um vulto negro. Muito confuso e um pouco assustado, o homem ficou sem saber se era um peixe muito grande ou algum náufrago perdido no mar. No entanto, observando melhor e como a noite clareasse um pouco, o homem pode ver, com absoluta certeza e perfeita convicção, para espanto seu, que se tratava do corpo duma mulher, de longos cabelos louros, que ondulavam sobre as águas e que, com o luar, brilhavam como se fossem ouro. Nua da cintura para cima, o corpo era esbelto e perfeito e o rosto de uma beleza rara.

O pescador, deslumbrado com tão rara e invulgar visão, atirou para o mar os apetrechos que levara para pescar. Espantado e curioso, despiu as roupas e lançou-se-se ao mar com intentos de ajudar a mulher a salvar-se. Porém, quando se aproximou do vulto, apercebeu-se, com um misto de medo e encanto, que o pescoço da mulher parecia que tinha guelras e que da cintura para baixo, o corpo apresentava a forma de um peixe, tendo, em vez dos pés, uma enorme barbatana, semelhante às caudas das baleias. Era, por certo uma sereia! - Concluiu o homem, cada vez mais espantado com o que descobrira.

Perdido entre o medo e a aflição, sem saber o que fazer, e consciente das estórias que se contavam sobre sereias que encantavam os homens e que os levavam para nunca mais serem vistos, o homem pensou que aquilo poderia ser obra do diabo para o levar para os infernos e, por isso, começou a esconjurar a aparição. Tantas foram as maldições que proferiu e tantas as inprecações que vociferou que, de repente, o estranho corpo que se assemelhava a uma sereia se transformou no corpo de uma bela mulher. O homem, então, pegou-lhe com muito cuidado e, nadando na direcção dos rochedos, trouxe-a consigo para terra, cobrindo-lhe a nudez com algumas das suas roupas.

Reza ainda a lenda que, algum tempo depois casaram, tiveram muitos filhos e viveram felizes para sempre, sem nunca se descobrir quem era, como se chamava e de onde viera aquela misteriosa mulhar. Essa a razão por que o homem, não sabendo como chamar-lhe e agradecido por ela lhe ter fortalecido, solidificado a vida e por a ter encontrado naquela noite em que o mar como que parecia coalhado pelo luar, lhe pôs o nome de Coalheira, pelo qual passou a chamar-se, também, aquele local da beira mar, no Canto do Areal, onde a encontrou e que se situa entre o Redondo e a Poça das Salemas, ou seja o lugar da Ponta da Coalheira.



 

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publicado por picodavigia2 às 09:55

A FESTA DA CRUZ

Segunda-feira, 15.09.14

 

No início da década de cinquenta e, provabelmente, nas anteriores, uma das mais emblemáticas e interessantes festas realizadas na Fajã Grande, era a Festa de Cruz. Que tinha lugar precisamente na noite do dia 14 de Serembro, dia em que a Igreja Católica, liturgicamente, celebra e comemora a Exaltação da Santa Cruz ou seja o madeiro em que Cristo foi crucificado.

A freguesia da Fajã Grande, na parte mais a sul fica encastoada entre duas colinas ou pequenos montes, designados, vulgarmente, por outeiros. Do lado do mar tem lugar o Pico, onde se integram o Pico do Areal e o Pico da Vigia e do lado este, o Outeiro propriamente dito,, este prolongando-se na direcção sul-norte, desde a Cabaceira até à Praça, como que a despejar-se sobre o povoado, separando a Assomada da Fontinha. É precisamente nesta divisória das duas ruas, na parte mais alta do Outeiro que se ergue uma enorme cruz branca, altíssima e robusta, junto à qual, nas terças e sextas-feiras quaresmais, um grupo de homens, quer chovesse quer ventasse, ajoelhava entoando cânticos e orações diversas e prolongadas. As suas vozes, ecoando nas encostas dos montes, ressoavam e repercutiam-se sobre os velhos telhados dos casebres. Simultaneamente, em todos os lares, famílias inteiras ajoelhavam também e, em convicta e comunitária oração, uniam-se às preces dos cantores, suplicando perdão para os delituosos e pecadores e beneficência para os infelizes e sofredores. Por sua vez do Outeiro, sobranceiro à freguesia, a que se tinha acesso por uma ingreme e sinuosa vereda, dsesfrutava-se duma vista fantástica. Ao perto, os telhados e frontispícios do casario, mais ao longe os campos verdes e amarelados de couves e milho e, além, separado pela mancha negra do baixio, o oceano azulado e infinito, contrastando com a tímida pequenez da ilha.

A Cruz do Outeiro era uma espécie de ex-libris da Fajã Grande e, para além das cantorias da Quaresma, em Setembro era homenageada com uma enorme festa, celebrada à noite.. Saida da igreja paroquial organizava-se uma espécie de procissão de velas. As pessoas em grande número transportavam uma vela acessa, protegida com uma folha de papel colorido, em forma de funil. Aos que saíam da igreja, jao longo do percurso, untavam-se muitos outros fiéis, zobretudo os mais atrasados e os que moravam entre a igreja e o início da vereda.

Ao iniciar-se a subida, o espectáculo excedia-se em beleza, em cores, em luzes e em sons. Empunhando as velas, os fiéis entoavam cânticos, ao mesmo tempo que as luzes se iam alongando na subida, formando um cordão luminoso e colorido, uma espécie de colar que se ia prolongando pela encosta até se enrroscar ao redor da cruz. Visto de longe, o espectáculo era magnífico. O pároco, envergando uma estola vermelha, que a igreja da Fajã não tinha capa de asperges dessa cor, transportava o Santo Lenho. Ao chegar junto da Cruz, enquanto os fieis, mantendo as velas acesas, rodeavam a Cruz, o pároco rezava algumas orações, cantava salmos e hinos de louvor à Cruz em cantochão, e dava a benção com o Santo Lenho, aos presentes e a toda a freguesia.

Descendo o Oureiro e regressando à Igreja, entre cânticos e luzes, era celebrada a missa da Exaltação da Santa Cruz.

A Festa da Cruz, um momento religioso, pleno de fé e simbolismo, estranhamente ou talvez não, perdeu-se no tempo e até na memória.

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publicado por picodavigia2 às 10:04

A LENDADA GAIA AZUL

Sexta-feira, 12.09.14

 

(LENDA BRASILEIRA ADAPTADA)

 

Numa fria manhã de inverno, a gralha ainda dormitava no galho do pinheiro, quando foi surpreendida por um súbito e seco barulho. Assustada, ela pôde ver um homem a desferir o machado no tronco do pinheiro. A gralha ouviu os gemidos agudos do pinheiro, enquanto que a seiva de dentro dele transbordava em dor.

Com tristeza, a gralha viu os golpes do machado, cada vez mais intensos, a cortar sem piedade o majestoso pinheiro que por muitos anos lhe deu abrigo, tornando-se um amigo. Sabia que o destino de tão bela árvore, que por décadas a natureza tecera o porte que apresentava, seria o de uma serraria, transformada em madeira morta para servir aos caprichos humanos.

Impotente diante da tragédia que se abatia sobre o pinheiro amigo, a gralha voou em direção ao infinito, subindo muito além das nuvens, de modo que não pudesse ouvir os gemidos de dor causados pelo corte fatal do machado. Já na imensidão do céu, a pobre ave pôde ouvir uma voz terna a ecoar:

-O coração das aves é misericordioso, revoltando-se com as dores da mata! Bendita sejas tu, avezinha! Tua bondade faz-te digna do mundo. Volta para os pinhais, a partir de hoje tu serás a minha ajudante. Transformarei a tua plumagem em azul, da cor do céu. Quando voltares para os pinhais vais plantá-los, para que se renove e jamais se extinga.

-Sou apenas uma ave negra, a chorar a dor dos pinheiros mortos.

-Já não serás uma ave negra, já te disse, terás a cor do céu. Quando comeres o pinhão, tirar-lhe-á a cabeça, para com as tuas bicadas, abrir-lhe a casca. Nunca te esqueças de antes de terminar a tua alimentação, enterrares alguns pinhões com a ponta para cima, já sem cabeça, para que não apodreça antes que surja um novo pinheiro dali nascido. Do pinheiro, árvore da fraternidade, nascerá a pinha, da pinha nascerá o pinhão... do teu bico cairá a semente que fertilizará o solo.

Ao ouvir a voz, a gralha viu-se no topo do céu. Olhou para o seu pequeno corpo de ave e apercebeu-se que as penas negras tinham ficado azuis. Até onde os seus olhos pudessem avistar, tornara-se uma ave azul, ao redor da cabeça, onde não podia enxergar, continuou com a plumagem preta.

Ao ver a beleza das suas penas, a avezinha retornou para os pinhais. Encontrou os galhos de todos os pinheiros abertos, a convidar-lhe para pousar em seus galhos, assim ficariam perenemente. Tão alegre estava a gralha com a sua nova plumagem, que o seu canto passou a ser como um alarido a lembrar crianças a brincar. Assim a gralha, ao voltar, iniciou o seu trabalho de ajudante celeste, ajudando aos pinheiros a renascer dos seus pinhões.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:48

OS MAROIÇOS

Quinta-feira, 11.09.14

Os maroiços da Fajã Grande e da ilha das Flores em geral são bastante diferentes dos da ilha do Pico, embora na sua essência tenham muito de semelhante. Sobretudo porque uns e outros são grandes amontoados de pequenas pedras, nas Flores designadas por cascalhos, que foram amontoados entre as paredes de duas ou mais propriedades agrícolas, com a simples intenção de limpar o terreno, ou seja de o tornar não apenas para tornar a terra mais fácil de trabalhar mas, sobretudo, mais produtiva. Mas as diferenças são significativas, sobretudo no que diz respeito à estrutura, à forma e à funcionalidade. Assim, enquanto no Pico, os maroiços se assemelham a monumentais pirâmides de basalto negro que caracterizam a própria paisagem local, com formas, por vezes muito bem delineadas, com semelhanças inequívocas com outras estruturas piramidais encontradas na Ilha da Sicília, em Itália, e na Ilha de Tenerife, nas Canárias, e que, actualmente, constituem atracção turística, os maroiços da Fajã Grande são construções toscas, sem formas definidas, por vezes terrenos abandonados e, geralmente, cobertos de vegetação, nomeadamente de videiras e figueiras. Os maroiços da Fajã Grande são das estruturas mais simples do que os do Pico que evidenciam uma edificação recente, desinteressada e pouco cuidada. Por vezes até parece que foi a própria natureza que os construiu. No entanto, o que mais os caracteriza é o aproveitamento dos espaços no interior para o cultivo, embora descuidado de algumas árvores. Na Fajã Grande era nos maroiços que se apanhavam os figos e colhiam as uvas, uns e outras destinadas, exclusivamente, na alimentação, quer frescos quer transformados em compotas, vulgarmente chamados doces,

Considerados património da humanidade, os maroiços, pela sua beleza característica, os maroiços dos Açores, sobretudo os do Pico, desde sempre despertaram a curiosidade de visitantes e locais. Para Romeo Hristov, professor da Universidade do Texas, não restam dúvidas que a divulgação do estudo realizado até ao momento, e que conta com o apoio da Câmara Municipal da Madalena, vai revolucionar o universo científico, colocando Ilha do Pico no epicentro da investigação arqueológica neste ramo.

É esta rudez dos maroiços da Fajã Grande que os afasta dos louvores da ribalta. Como os do Pico, hoje, considerados paralelos aos de outros pontos do globo e que prometem seduzir os mais cépticos sobre o seu significado histórico, num arquipélago com remanescências lendárias - qual Atlântida perdida - onde a fantasia e a história se entrelaçam de forma tão intensa, que se torna difícil descortinar onde começa a ciência e acaba o mito. 

Eram vários os maroiços que existiam nas terras de meu pai. Mas o que mais me encantava e atraía era o do Cerrado do Porto, um dos maiores, mais belos e mais produtivos maroiços da Fajã Grande. Localizado no extremo Sul do cerrado, fazia fronteira com terras da Caravela e a ele podia aceder por uma vereda que se iniciava a meio da Ladeira do Calhau Miúdo. Se viéssemos pelo Porto e pelo portal do cerrado, situado a noroeste, para aceder ao maroiço teríamos que atravessar o cerrado, calcando ou destruindo as sementeiras. Essa a razão pela qual, quando o nosso objectivo era apenas aceder as figos e uvas do maroiço, deveríamos optar pela vereda da Ladeira do Calhau Miúdo. Que saborosa era a uva do maroiço do Porto e que bons eram os figos que ali havia e que eram de duas qualidades: pretos e bacorinhos.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:46

DIES IRAE

Quinta-feira, 11.09.14

A montanha escondida

entre os estertores duma bruma intrigante

preanuncia sombras desertas.

 

As nuvens

despejam sobre o povoado

um suco desolador

que transforma as ruas desertas

em rios de espuma

 

Há cagarras perdidas, no negro dos baixios.

 

Nas casas,

as janelas abertas,

deixam escapar silêncios amargos.

 

No Alto

-  logradouro  de murmúrios –

todas as vozes se apagaram,

como se fossem velas rasgadas

de barcos a arder

no horizonte.

 

Nos currais a uva apodrece!

(E diziam que ia ser um ano farto.)

 

E da oficina refusada

emana a voz metálica

de um rádio

carregada de notícias:

-  fome, miséria, guerra e morte.

 

Mas

há pássaros que ainda cantam

entrelaçados nos ramos das árvores.

 

(São Caetano do Pico, 7/9/14)

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publicado por picodavigia2 às 09:36

MEMÓRIAS (IV)

Quarta-feira, 10.09.14

8

 

Todo dourado

parece que me fita

o peixe na redoma,

 

9

 

E porque tudo é memória,

como a rapa-da-pedra

deslembremos.

 

10

 

Basta-me este mínimo verde

e a casa diante do mar.

- Bates coração?

 

Pedro da Silveira in Poemas Ausentes

 

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publicado por picodavigia2 às 17:59

INOCÊNCIA

Quarta-feira, 10.09.14

Uma menina todos os dias, vai para escola. Apesar do mau tempo daquela manhã e de haver muitas nuvens ela fez seu caminho diário. Com o passar do tempo, a tempestade aumentou e começaram relâmpagos e trovões.

A mãe pensou que sua filha poderia ter muito medo pois ela mesma já estava assustada com os raios e trovões. Preocupada, a mãe pegou no carro e dirigiu pelo caminho em direcção à escola.

Logo que avistou sua filhinha viu-a andando e a cada relâmpago, a criança parava, olhava para cima e sorria!

Outro e outro trovão e, após cada um, ela parava, olhava para cima e sorria!

Finalmente, a menina entrou no carro e a mãe, curiosa, perguntou-lhe:

- Porque estavas a olhar para o céu e a sorrir, sempre que fazia um relâmpago?

A garota respondeu:

- Porque Deus estava a tirar-me fotografias.

Deixemos que toda inocência floresça nos nossos corações para podermos ver a bela e real felicidade que está nos momentos de simplicidade...

 

Adaptado de um conto brasileiro

 

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publicado por picodavigia2 às 16:47

FRANCISCO RAPOSO DE OLIVEIRA

Terça-feira, 09.09.14

O poeta e jornalista Francisco Raposo de Oliveira nasceu em Ponta Delgada, a 8 de Janeiro de 1888 e faleceu em. Lisboa, em 1933. O local do seu nascimento tem gerado alguma polémica porque os nordestenses reclamam para aquela vila o seu local de nascimento, por os pais serem naturais de lá, ali terem casado e vivido algum tempo. O facto, é que existe um registo de baptismo do mesmo em Ponta Delgada, na freguesia de S. Pedro, com data de 20 de Maio do mesmo ano, e ali viveu até aos 23 anos de idade. Raposo de Oliveira trabalhou como caixeiro, mas desde cedo revelou apetências literárias, publicando o primeiro livro de versos aos 17 anos. Em 1899, começou a trabalhar como redactor no jornal O Heraldo, para fundar e dirigir em 1902, o semanário A Nova. A convite do jornalista António Baptista, partiu para Lisboa, com o objectivo de colaborar na redacção e coordenação do Álbum Açoreano.

A partir de então iniciou a colaboração na imprensa da capital. Acabou por ser redactor de vários jornais. Foi um dos fundadores da «Casa dos Jornalistas», depois integrada no Sindicato da Imprensa.

A obra literária inclui poesia, ficção em prosa e teatro. Pedro da Silveira afirma que «é de entre os poetas açorianos da geração pós-simbolista, o mais açoriano de todos na temática, em especial na Via Sacra, o melhor dos seus livros. Impenitentemente romântico e sentimentalmente idealista, tinha o culto exaltado da mulher, e formalmente era parnasiano». Ocasionalmente enveredou pela poesia de carácter social.

Obras Principais: Ardentias, Natal, Orações de amor, Pão. Lisboa, Via Sacra. Lisboa e O Poeta do Só. Lisboa.

 

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 17:35

PRIMADO DA PANELA

Terça-feira, 09.09.14

- Menina, por que não vens,

Quando passo, à janela?

- Ora, é quando vou à cozinha,

Largar o fogo à panela.

 

Popular - Fajã Grande

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publicado por picodavigia2 às 15:22

FINDA

Sábado, 06.09.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Não ser mais do que um cisco de terra, mas terra viva

poeira

e aragem.

Ter um casaco feito de estrelas e sóis vagabundos

e um pouco de dia nascido dentro do coração.

 

Pedro da Silveira Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 17:05

ATIRO A PORTA

Sábado, 06.09.14

Era uma vez um menino pobre que vivia com sua mãe, nas últimas casas de uma aldeia.
A mãe ia trabalhar, todos os dias, deixando o menino sozinho. Antes de sair recomendava-lhe:

- Não abras a porta a ninguém, nem mostres as nossas verónicas!

O menino dizia-lhe que fosse descansada, porque ele faria conforme ela lhe estava a recomendar.

Mas, certo dia, uns homens, que pareciam boas pessoas bateram à porta e perguntaram ao rapazinho se lá em casa haveria alguma coisa bonita que ele lhes pudesse mostrar.

O menino correu a buscar umas jarras de porcelana, que a mãe guardava na cómoda do quarto. Os ladrões – porque era isso que eles eram – pegando no saco, imediatamente se foram embora.

Pouco depois, chegou a mãe. O menino estava triste e contou-lhe o que se tinha passado. A pobre mulher, vendo-se sem o seu tesouro, lançou mãos à cabeça e começou a correr estrada abaixo, pelo caminho que os ladrões tinham seguido.

Entretanto, gritava para o menino que a queria acompanhar:

- Fecha a po…o…orta…!!!

- Levo a porta, mãe…e…e? – Perguntava o menino.

- Fecha a po…o…o…orta…!!! – Repetia a mãe.

- Levo a porta, mãe…e…e?

Sem entender o que a mãe lhe gritava, cada vez mais distante dele, o menino levantou a porta e começou a correr, com ela às costas, ao encontro da sua mãe.

Já muito longe de casa, muito cansados e sem verem o caminho, porque, entretanto, o sol já se tinha posto, mãe e filho resolveram passar a noite em cima de uma azinheira, carregando, também, a porta.

A altas horas da noite, sentiram passos… e ouviram conversas… por entre as árvores do bosque. E, qual não foi o seu espanto quando, precisamente debaixo da árvore em que eles estavam, se vieram sentar, discutindo, dois homens carregados com sacos e outros objectos. Eram os ladrões, que se preparavam para dividir, entre si, o que tinham roubado.

Então começaram a distribuição:

- Pataca a ti... pataca a mim… Pataca a ti... pataca a mim…

A mulherzinha e o filho, em cima da árvore, nem respiravam. A criança na sua imprudência, murmurava à mãe:

- Atiro a porta, mãe?

A mãe, com um gesto, tapava-lhe os lábios, gelada de medo. O menino continuava:

- Atiro a porta, mãe?

E atirou!

Os ladrões, pensando que era o céu que lhes caía em cima, puseram-se em fuga e não mais voltaram.

Foi assim que mãe e filho puderam recuperar não só as suas porcelanas, como também, ganhar muitas outras riquezas que os ladrões abandonaram no chão, debaixo da azinheira.

 

(Baseado num conto brasileiro)

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publicado por picodavigia2 às 17:02


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