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Nº 36 JOÃO

Sexta-feira, 31.10.14

“Aos dezoito dias do mez de Outubro do anno de mil novecentos e dois, nesta egreja Parochial de São José da Fajã Grande, concelho das Lages, ilha das Flores, Diocese de Angra, baptisei solenemente um indivíduo do sexo masculino  quem dei o nome de João, e que nasceu nesta freguesia ás três e meia horas da manhã deste mesmo dia dezoito do dito mez e anno filho legítimo primeiro do nome de António Lourenço Fagundes, proprietário e de Maria de Jesus Fagundes de ocupação doméstica, naturaes, recebidos, parochianos e moradores na rua d’Assomada, neto paterno de José Lourenço Fagundes e de Mariana Joaquina de Jesus e materno de António Joaquim Fagundes  de Policena Joaquina da Silveira Foi padrinho José Lourenço Fagundes do Nascimento, casado proprietário e madrinha Maria do Céu Fagundes Cardozo solteira, os quais odos sei serem os próprios. E para constar lavrei um duplicado deste assentoe que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, comigo assigna a madrinha e não assigna o padrinho por não saber escrever. Era ut supra.

Maria do Céu Fagundes Cardoso (assinatura)

Adiante vai paga a estampilha fiscal o valor de cem reis devido por este assento.

O Vice-Vigário Joaquim Ferreira de Campos”.

 

Este é o registo de batismo de meu pai, João Joaquim Fagundes.

O documento encontra-se, juntamente com milhares de outros, respeitantes às paróquias açorianas, que em boa hora foram guardados no site da Secretaria Regional da Educação e Cultura – Cultura Governo dos Açores – Inventário Genealógico, onde estão reproduzidas cópias dos assentos paroquiais até 1910, altura em que os nascimentos passaram a ser feitos no Registo Civil.

Neste ano de 1902, nasceram na Fajã Grande 47 crianças, trinta e quatro do sexo masculino, doze do feminino e uma morta à nascença, esta do lugar da Ponta. Uma boa safra, invejada nos dias de hoje.

Embora ainda não tendo lido todos os registos, reparei nalgumas outras curiosidades. O nome José é o mais comum, atribuído a 13 crianças, João a 9, assim como Maria também a 9. Seguem-se os nomes de António, Pedro, Francisco e Ana, cada um a duas crianças e apenas a uma foram dados os nomes de Augusto, Manuel, Nestor, Joaquim, Abílio e Lucinda. Uma outra curiosidade interessante: meu bisavô materno, José Fagundes da Silveira, juntamente com a sua terceira esposa, Mariana de Freitas foram padrinhos de um dos batizados.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:13

A HORTA DO SENHOR COSTA II

Sexta-feira, 31.10.14

O Senhor Costa tinha uma horta. Tinha uma horta o Senhor Costa. Horta pequena, simples, modesta, singela mas muito fértil e produtiva, porque muito bem trabalhada, extremamente cuidada e ainda melhor zelada pelo Senhor Costa, que ali passava grande parte dos seus dias, a sachar, a mondar, a cavar, a podar e a semear

Na horta do Senhor Costa havia de tudo, mas apenas tudo o que, normalmente, há, em qualquer horta. No entanto, o que mais produzia a horta do Senhor Costa eram frutos. Frutos de várias qualidades, de tamanhos diversos, de formas e feitios diferentes e de paladares diversificados, que enchiam a sua casa de perfumes e sabores estonteantes. Frutos coloridos, maduros, apetitosos com os quais o Senhor Costa se regozijava e que faziam crescer água na boca a quantos passavam, caminhavam, rodopiavam e cirandavam junto à horta do Senhor Costa, sem poder lá entrar ou sequer colher um único fruto que fosse. É que o Senhor Costa, para a proteger dos assaltantes, construíra um alto e robusto muro ao redor da sua horta. Mas para além dos frutos, a horta do Senhor Costa também produzia legumes, hortaliças e muitos outros produtos de excelente qualidade, com os quais o Senhor Costa se alimentava a si e à sua família.

O Senhor Costa vivia feliz, com a sua horta. Passava lá os seus dias, não apenas a cavar, a sachar, a arrancar ervas e a juntar pedregulhos mas sobretudo a cuidar dos legumes, das hortaliças e das árvores de fruto, a podar umas, a adubar outras, a chegar-lhes terra e estrume e, sobretudo a defendê-la da fúria destruidora de vendavais e intempéries. Depois, nos dias de bonança ou quando não era necessário cavar, limpar ou mondar, o Senhor Costa sentava-se à sombra das árvores da sua horta, a saborear a frescura reconfortante das suas folhas, a deliciar-se com o perfume adocicado das suas flores, a deleitar-se com o colorido aveludado dos seus frutos, a saborear a sua doçura ou simplesmente a ouvir o sibilar melódico do vento nos seus ramos.

A horta do Senhor Costa era uma verdadeira maravilha! Um éden, um paraíso!

Mas um dia, o dia mais triste da sua vida, o Senhor Costa, como tantos senhores Costas e muitos senhores com outros nomes, impelido pela necessidade de dar uma vida melhor aos seus filhos, foi obrigado a partir, para longe, isto é, a emigrar, para a América. E a partir desse dia, a horta deixou de pertencer ao Senhor Costa. Vieram senhores Pereiras, senhores Silvas e senhores Machados e vieram senhores com outros nomes, mas nenhum deles cuidou da horta como cuidava o Senhor Costa. E com o passar do tempo e dos anos, na horta dos senhores que não eram Costa, as árvores foram murchando, as folhas amarelecendo, as flores caindo, os frutos apodrecendo, os legumes definhando e as hortaliças desaparecendo. A horta nunca mais voltou a ser como era nos tempos em que o Senhor Costa a trabalhava e dela cuidava.

Passaram-se muitos anos e, finalmente veio um Senhor que também se chamava Costa, mas que não era nem parente nem amigo daquele Senhor Costa que no início desta história era o dono da horta, e tão mal cuidou e tanto se desinteressou e tão pouco protegeu a horta que outrora fora do outro Senhor Costa, que ela embraveceu, encheu-se de ervas daninhas, de mondas, de silvados, de cana roca, de faias e de incensos e desfigurou-se por completo e de tal maneira que, passados muitos anos, quando o Senhor Costa regressou da sua prolongada estadia na América, à sua terra natal, podre de rico e cheio de vaidade, já nem sequer reconheceu o local onde outrora se situava a sua horta, a tal horta que tinha sido sua, que cuidara com desvelo e dedicação, que estava sempre a abarrotar de hortaliças, legumes e de árvores carregadinhas de frutos coloridos, maduros, apetitosos com os quais se regozijava, naqueles tempos em que ainda nem sonhava com a América.ff

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publicado por picodavigia2 às 09:18

CHEQUES

Quinta-feira, 30.10.14

Como é que os bancos portugueses se poderão salvar da bancarrota total e absoluta, perante o que dois dos nossos deputados afirmaram hoje na AR?

É que um deputado, pertencente a um partido no poder, afirmou que os senhores do outro partido, que foi governo antes deste, passaram um cheque em branco ao país, ao que um deputado desse segundo partido retorquiu que os senhores do partido do governo passaram um cheque sem cobertura ao país.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:26

A UNIVERSIDADE DOS AÇORES

Quinta-feira, 30.10.14

Fundada em 9 de Janeiro de 1976, a Universidade dos Açores é hoje um motivo de orgulho de todos os açorianos, porquanto tem contribuído para o desenvolvimento, científico, cultural, económico e social do arquipélago. Trata-se duma universidade, com sede na cidade de Ponta Delgada. A sua fundação surgiu, muito naturalmente, na sequência da implantação do regime autonómico nos Açores e da política de expansão do ensino superior em Portugal, sendo o seu objetivo primordial dar resposta às múltiplas necessidades de formação de quadros dos Açores, elevar o seu nível cultural e promover o seu desenvolvimento científico e tecnológico.

Hoje em dia, o grau de desenvolvimento que se alcançou nos Açores encontra na ação desenvolvida pela Universidade uma das suas principais fontes de dinamização. As várias áreas de ensino e investigação cultivadas na Universidade ampliaram profundamente o conhecimento da complexa realidade do mar, da terra, da vida, da história, da sociedade e, em geral, da cultura das ilhas.

A mais prestigiada instituição de ensino açoriana de sempre apresenta uma estrutura tripolar, com polos nas cidades de Ponta Delgada (onde se localiza a sede, os principais serviços e a reitoria), de Angra do Heroísmo (Ilha Terceira) e Horta (Ilha do Faial). A sua orgânica assenta numa lógica de departamentos e escolas, que são unidades destinadas à realização continuada do ensino e da investigação. A Universidade integra, ainda, o ensino superior politécnico, que contempla as Escolas Superiores de Enfermagem de Ponta Delgada e de Angra do Heroísmo. Desde a sua fundação, a Universidade já teve cinco reitores, entre os quais o Dr José Enes Pereia Cardoso, um dos mais insignes professores que integrou a equipa formadora do Seminário de Angra nas décadas de cinquenta e sessenta. Atualmente ocupa este cargo o professor Jorge Manuel Rosa de Medeiros

Com a finalidade de prover efetivamente serviços educacionais para a população regional, a Universidade foi estabelecida em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel, em Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, e na Horta, na Ilha do Faial, estando organizada em dez departamentos e duas escolas superiores para, essencialmente, prover instrução e pesquisa. Enquanto no campus principal, em Ponta Delgada, são ministrados cursos em várias áreas, os outros especializaram-se nos domínios das ciências agrárias e da oceanografia.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:14

O DESCANSADOURO DO TUFO DA CUADA

Quinta-feira, 30.10.14

A meio do caminho que separava a Cuada do Vale Fundo e que deste lugar seguia para os Lavadouros, no local onde se iniciava a canada que dava para a Fajã das Faias, havia um enorme Tufo. Tratava-se de uma grande calhau, egro e abrupto, como que nascido da terra, com uma constituição muito porosa, naturalmente originado a partir da consolidação antigos detritos vulcânicos. A sua exuberância e saliente postura fizera com que desse nome ao lugar. Por sua causa, também se alargara ali o caminho, não apenas formando um pequeno largo mas tendo também originado um minúsculo descansadouro, um dos menores da freguesia, porquanto servia apenas os poucos moradores existentes na Cuada e a um outro da Fajã, ou seja aos homens que possuíam propriedades na Fajã das Faias, de onde apenas retiravam, incensos, fetos e cana roca.

As altas paredes ao redor do largo onde estava encravado o tufo serviam para colocar os molhos e um ou outro cesto e a bancada, onde os homens se sentavam a descansar eram os rebordos do próprio calhau.

O que mais caracterizava este descansadouro era o silêncio, a calma e a pacatez que se faziam sentir ao seu redor. Por isso era mtico, sublime e transcendente sentar-se ali, até porque algumas estórias maribulantes que se contavam, tinham aquele local como cenário.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:53

O TRIUNFO DA PAZ

Quarta-feira, 29.10.14

Se eu pudesse

dar alguma coisa

ao mundo

apenas

lhe daria

o triunfo da paz.

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publicado por picodavigia2 às 15:54

DOIS MIL

Quarta-feira, 29.10.14

Dois mil ou 2000 é o número de postes, até ao momento, colocados no Pico da Vigia 2, relatando pessoas, acontecimentos, costumes, objetos e algumas tradições e outros acontecimentos relacionados com a freguesia da Fajã Grande, ilha das Flores bem como muitos outros temas açorianos e não só. No Pico da Vigia 2, o número dois mil que agora se atinge é o número do esforço e da persistência, uma espécie de símbolo místico, mas, simplesmente algo obtido pelo seu autor.

Como é evidente, a evocação desta efeméride nada mais é do que uma espécie de vitória moral sobre uma sobrevivência estática e inerte, uma conquista que se prefigura, exclusivamente, pessoal.

Certamente que este número é fruto duma mudança radical no antigo blogue que armazenava vários textos, pese embora também fosse detentor de tempos vácuos. Com o avanço da criação do novo blogue, foi feita a trânsfuga de, praticamente, todos os textos antigos, mas muitos outros foram criadas e colocados neste novo blogue. Por isso se atingiu o número dois mil em ano e meio. Imagino o que seria se me encaminhasse, agora, para a criação de um terceiro blogue, alternativo ao Pico da Vigia 2, por este se dissimular ou fenecer, o que espero não aconteça. O Sapo é fixe!

Voltemos aos números. Esta cavalgada, aparentemente, só é possível Pico da Vigia 2 é um blogue dinâmico, ou seja, um site cuja estrutura permite uma atualização permanente, rápida, coerente, determinada e segura a partir de acréscimos dos chamados artigos, ou postes, que depois de escritos, pura e simplesmente se colam, em décimas de segundos. Depois é só dar-lhes corda, isto é forma e pô-los em movimento, ou seja tagá-los e postá-los. Os postes, organizados de forma cronológica inversa, tendo como foco a temática proposta no subtítulo, são escritos apenas por um autor, embora existam três tags com textos de outros autores: um com este título, outro sob o nome pensamentos e um terceiro dedicado à divulgação de poemas de Pedro da Silveira.

O percurso de Pico da Vigia 2, agora que terminou poe completo a trânsfuga de textos será, por certo, bem mais moroso. Três mil é aproxima meta, mas por certo, demorará bastante mais tempo.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A CANADA DO PICO AGUDO

Terça-feira, 28.10.14

A meio do caminho entre a Escada-Mar e a Alagoinha havia um enorme largo, conhecido como Largos dos Paus Brancos. Era precisamente desse largo que partia uma estreita e sinuosa canada, quase em ziguezague, que dava acesso às terras e propriedades do lugar do Pico Agudo. A canada, obviamente, herdara-lhe o nome, sendo conhecida pela Canada do Pico Agudo.

A canada era tão estreita, tão apertada e tão atrofiada que por ela passava apenas um homem de cada vez. Como as propriedades ali existentes eram terras de mato, não passava gado pela mesma e os campos que a ladeavam e para onde ela se encaminhava pouco produziam, pelo que a canada era muito pouco movimentada, exceção à época da ceifa dos fetos e da cana roca, que por ali eram transportados às costas, para depois de colocados e empilhados no largo, serem transportados em corsões até aos palheiros ou casas velhas, onde eram guardados, no caso dos fetos, para cama do gado. O mesmo acontecia com a lenha seca ou com os incensos verdes, embora uns e outros fossem trazidos às costas, até às moradias.

A canada iniciava-se no largo e a ela se tinha acesso subindo dois ou três de degraus. Inicialmente como que dava continuidade ao próprio largo, afunilando-se logo de seguida por entre paredes singelas, em pequenas retas, intercalada com algumas curvas. Aqui e além, as paredes eram substituídas por pequenos portões, tapados com pedras e que permitia acesso às propriedades ali existentes, sendo que por vezes, era necessário atravessar umas para ter acesso às outras.

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publicado por picodavigia2 às 20:15

AMANHECER VÁCUO

Terça-feira, 28.10.14

A noite revoltou-se envolta em bruma!

Mas o limiar da manhã - sonsa invernia -

Ressurge, fantasiado de magia...

Expelindo alvoradas, uma a uma.

 

O mar, o céu, a terra e o vento em suma

Trazem o doce som da maresia.

Se há rastro de tormenta ou lavadia

Do canto das gaivotas nasce espuma.

 

Quebra o silêncio o Sol a dealbar,

Anunciando que a safra vai seguir.

Fecunda? Já há barcos a partir,

 

Velas brancas as ondas a rasgar.
Levam sonhos, esperanças e vontade…

…No regresso? Balouçam vacuidade.

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publicado por picodavigia2 às 07:02

BOM DIA, SENHOR

Segunda-feira, 27.10.14

O sorites é um tipo de silogismo ou um raciocínio lógico composto por uma série de proposições encadeadas e ligadas entre si de maneira que o predicado de uma se torne o sujeito da seguinte, e assim até se chegar à conclusão, que tem como sujeito o sujeito da primeira e como predicado o predicado da última proposição, imediatamente anterior à conclusão.

Como todos os silogismos, o sorites também pode ser falacioso e induzir-nos em erros gravíssimos, nas conclusões que deles tiramos.

Como exemplo desta enorme possibilidade de erro através do recurso ao sorites, o meu professor de Filosofia, no 6º ano, exemplifica com a seguinte estória:

Um fulano cruzou-se na rua com um desconhecido e saudou-o nestes termos:

- Bom dia, senhor

O desconhecido era filósofo. De imediato, recorrendo ao sorites, raciocinou e concluiu:

- Bom dia, senhor!

Senhor dos Passos,

Passos do concelho

Conselho de ministros,

Ministros da guerra,

Guerra da França,

Da França vêm os meninos.

Os meninos bebem leite,

O leite vem vacas,

As vacas tem cornos.

Este tipo chamou-me corno!

 

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publicado por picodavigia2 às 09:52

RURALIDADE ABSOLUTA

Domingo, 26.10.14

Hoje é domingo. No meu caminhar diário, por vezes cerceado ou até bloqueado por imperativos avoengos, decido abster-me do percurso urbano, habitual, mais tranquilo e envolvente, tomando como alternativa o rural, mais abrupto e sinuoso, mas mais delirantemente puro. Cinjo-me a este pedaço de Douro que me é disponibilizado usufruir e atravesso um monte fronteiro e que me conduz à Bouça. Outrora monte ermo e solitário, povoado de denso arvoredo onde imperava o pinheiro e o eucalipto, hoje é um espaço rasgado por ruas e vielas, parcialmente alcatroadas e ladeadas de pequenas vivendas, encastoadas em férteis quintais ou courelas a abarrotar de legumes e hortaliças, protegidas por densas latadas, agora, já aureoladas com as cores do outono.

Chego à Bouça, onde o perfume da ruralidade se torna mais intenso. Emerjo entre velhos casebres, de portas abertas a exalarem o fumo dos lares, velhos alpendres de mesas postas, caminhos rendilhados de silêncio, aqui e além ornados com uma ou outra cadeira à espera de um velhinho que vai passar ali a tarde, talvez sem sentir coisa nenhuma, a não os rumores do abandono. Mais além são os esqueletos de casas, outrora belas e recheadas de pessoas e de fartura, hoje reduzidas à sua forma pétrea, com telhados caídos, cheias de tédio e de abandono. Ao lado castanheiros a desfazerem-se dos ouriços com que atapetam o chão, vinhas de caules despedidos a abdicarem das folhas já amareladas mas a oferecem uma ou outra ripinha que ficou esquecida da safra, milheirais ressequidos e, aparentemente, abandonados, silvados despidos de amoras, macieiras perdidas entre o folhedo alfeiro.

Volto a uma viela onde predominam antigas casas reconstruídas, uma outra nova, prédios alegres e coloridos, entrelaçados entre cerrados de pencas à espera da grande noite… Tudo é silêncio e a madrugada parece prolongar-se estática, indiferente à força e ao vigor do astro-rei. Apenas uma mulher a estender roupa, um velho a refrescar-se no sossego da manhã, um cão a ladrar inutilmente e um ciclista a quebrar a rotina semanal. Dois homens passeiam como se fossem namorados.

Finalmente o monte que separa Vila Cova de Mouriz. Um torrão de verdura na sua vertente leste, com o Sol a açapar-lhe em plenitude. O que mais me encanta é o ribeiro que o atravessa. Fascina-me o murmúrio da água a esbarrar-se contra os pedregulhos, a elegância dos choupos a delimitar-lhe as margens, as fugas de rega aparentemente mortas, a força verde das ervas ao redor e o espantoso silêncio do arvoredo lá no alto. Este caminho, inseguro, irregular, abrupto e intragável a automóveis e quejandos, onde um homem mija destemido e sem complexos, bem podia ser transformado numa avenida onde o casario seriam os muros arqueados sobre o silêncio e os prédios as árvores elevadas por entre os raios do Sol. Chego, apreensivo à casa dos fantasmas. Inquieto-me porque embora não acreditando, ao redor há um silêncio impressionante e assustador. Além disso a casa é um monstro desfeito e amortecido. Estórias antigas e fantasmagóricas se desenharam ali. Talvez disputas de herdeiros… Mas verdade é que dela nada usufruíram e as ruínas permanecem ali, mudas como se fossem os restos de um navio naufragado. Ao redor só há silêncio, abandono, tédio, destruição e deserto. Mais além, já na descida da encosta, outras seguem-lhe exemplo, no abandono das suas paredes, na destruição das suas formas de que apenas permanecem os esqueletos. Uma terá sido deslumbrantemente bela, casa solarenga, ornada de varandas, beirais e pináculos, com os restos de uma capelinha, ao lado. Ao redor campos forrados de fartura. Ao longe o resto deste pedaço de Douro, onde há de tudo: montes, serras, árvores, florestas, vinhedos, caminhos, casas, prédios, fábricas e até uma autoestrada.

Neste oásis de ruralidade pura e absoluta, apenas falta o mar! 

                                                                                                  

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publicado por picodavigia2 às 16:45

PACÍFICO

Domingo, 26.10.14

MENU 56 – “PACÍFICO”

 

ENTRADA

Cream Crakers cobertas com creme de pimentos dulcificados em geleia, com queijo creme fresco e perfumados com hortelã. Retalhos de queijo simples.

 

PRATO

Posta de Salmão grelhada com puré de batata e salada de pimentos e alface.

 

SOBREMESA

Rodelas de ananás e pêssego, com gelatina de morango e suspiros.

 

******

 

Preparação da Entrada: Cozer os pimentos em geleia Depois de cozidos juntar o creme de queijo fresco e triturar. Recobrir as bolachas e servir intercaladas com farripas de queijo de barra.

Preparação do Prato – Grelhar o peixe depois de temperado com alho, pimenta e orégãos. Fazer o puré de acordo com as instruções. Empratar juntando a salada de  cebola, pimentos, pepino e cenoura picados ou raspados.

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 15:10

HOJE È DOMINGO

Domingo, 26.10.14

Hoje é Domingo

Toca o sino,

O sino é de oiro,

E o touro é bravo.

 

Hoje é domingo

Toca no sino

Deixá-lo tocar

E o galo cantar

 

O galo é francês

Pica na rês

A rês é mansa

Vai pr'a França

 

Se ela voltar

Volta a picar

Pica na burra,

Que é casmurra

 

Pica no jarro

Que é de barro

Pica no sino

O sino é de oiro

 

Pica no toiro

O toiro é valente

Mete três homens

Na cova de um dente.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:59

O SAQUE DA MADRE DE DEUS

Sábado, 25.10.14

A nau portuguesa Madre de Deus foi o maior navio do mundo no seu tempo. Tinha 50 metros de comprimento e 14,5 de largura, pesava 700 toneladas e possuía capacidade para transportar 900 toneladas de carga. Dispunha de 7 conveses, estava equipada com 32 canhões e a sua tripulação variava entre os 600 e os 700 homens. Uma obra monumental, o orgulho da coroa portuguesa, na altura. Fora construída na Ribeira das Naus, em Lisboa, em 1589 e destinava-se a fazer a Carreira da Índia. Em agosto de 1592, quando viajava com destino a Lisboa, na sua viagem de regresso da Índia, carregada de valiosíssimas mercadorias, foi atacada e capturada por uma frota inglesa, composta por seis navios, na baía de Santa Cruz, na ilha das Flores. A captura da Madre de Deus pelos piratas ingleses, constituiu um dos maiores saques da História.

Sabe-se que nessa viagem, a Madre de Deus, transportava um valiosíssimo pecúlio. Entre as várias riquezas trazidas a bordo, contavam-se baús cheios de pérolas e joias preciosas, moedas de ouro e prata, âmbar, rolos de tecido da mais alta qualidade, tapeçaria diversa, 425 toneladas de pimenta, 45 toneladas de cravo-da-Índia, 35 toneladas de canela, 25 toneladas de cochonilha, 15 toneladas de ébano, 3 toneladas de noz-moscada e 2,5 toneladas de benjamim (uma resina aromática usada em perfumes e medicamentos). A bordo da Madre de Deus havia ainda incenso, sedas, damasco, tecido de ouro, porcelana chinesa, presas de elefante entre outros artigos. Mas o mais precioso tesouro que a Madre de Deus transportava e os ingleses haviam adquirido, era um documento impresso em Macau, em 1590, que continha informações preciosas sobre o comércio português na China e no Japão e que vinha muito escondido, pois estava fechado numa caixa de cedro, enrolado 100 vezes por um fino tecido, oriundo de Calecute.

A frota atacante inglesa, violando acordos anteriormente estabelecidos, entre Portugal e Inglaterra, era liderada pelo Comandante Sir John Burrough, ancorou, alguns dias antes, ao largo das Flores, à espera de caçar navios mercantes espanhóis que vinham das Américas com mercadorias várias, e que paravam na ilha para se abastecerem de água e víveres. Por azar, surgiu, inesperadamente, a Madre de Deus que regressava da sua segunda viagem da Índia e os ingleses, não hesitaram, capturando-a como se fosse um navio espanhol, atendendo a que, nessa altura Portugal era governado por um monarca espanhol. Os ingleses atacaram, massivamente, a Madre Deus, assaltaram, roubaram e, sob ameaça de tortura, conseguiram também obter a informação de que havia mais naus a caminho, vindas da Índia. Após um longo dia de batalha vários marinheiros portugueses perderam a vida, os conveses ficaram cheios de sangue e havia corpos dos marinheiros espalhados um pouco por todo o navio. O comandante inglês, no entanto, poupou a vida do capitão português Fernão de Mendonça Furtado, assim como as dos feridos, enviando-os para a ilha, onde foram recebidos e tratados

Segundo o uso na época, quando um navio fosse capturado, procedia-se ao transbordo da carga e o navio apresado era incendiado e afundado. Contudo, os corsários ingleses ficaram tão impressionados com a espetacularidade e excelência da Madre de Deus que resolveram rebocá-la para Inglaterra.

A ilha das Flores ficou assim na história. É claro que devido a um triste acontecimento, uma vez que testemunhou aquele que constituía ao tempo um dos maiores saques da História.

 

NB - Dados retirados do Site da Marinha Portuguesa.

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publicado por picodavigia2 às 10:13

OS DEDOS E O OVO

Sexta-feira, 24.10.14

O mindinho achou um ovo,

O seu vizinho pô-lo a assar,

O pai de todos deitou-lhe sal,

O fura-bolos provou-o

E o mata-piolhos papou-o.

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publicado por picodavigia2 às 21:50

A CASA DE TODOS OS SILÊNCIOS

Sexta-feira, 24.10.14

Quando eu era criança, aquela casa, branca e altiva, encastoada a meio da colina, para mim, era como que o centro do mundo. Palco insubstituível dos meus sonhos, circo imperturbável dos meus desejos, baluarte latente dos meus anseios e aspirações, era nela que plantava todas as minhas cumplicidades tímidas e envergonhadas, era nela, nas suas paredes caiadas de branco, que eu desenhava o brilho estonteante das estrelas e era nela que eu depositava todas as minhas, aparentemente, idolatradas fantasias, os meus inocentes anseios de um mundo diferente, embora indefinido.

E as portas da casa, branca e altiva, plantada a meio da colina, abriam-se todos os dias, destemidas e acolhedoras, como que a lembrar que a luz da madrugada trazia um rio de sons, de cores, de perfumes, rio que aos poucos, transcendendo as margens, se transformava numa enorme enxurrada de vidas, de encontros e de memórias permanentes.

A casa, branca e altiva, plantada a meio da colina, ficava sobranceira ao povoado e era enorme, acolhedora, deslumbrante, destemida e sobretudo bela, muito bela. Estava sempre repleta de gente, de vozes, de encontros e de barulhos. Além disso estava envolta em véus de claridade e, assim como as portas, também as janelas, de onde se via o mar, o voo das gaivotas, o pôr-do-sol e o rumo dos navios no horizonte, estavam sempre abertas. Quando entrávamos, a casa regurgitava memórias inconfundíveis, imagens fascinantes, sons maravilhosos. A claridade entrava de mansinho, enchia-a de brilho e o vento afagava-a com deslumbrante desassossego.

A casa branca e altiva, encastoado a meio da colina era da minha avó e estava sempre repleta de tios e tias, de primos e primas e de muita outra gente. À noite, com a claridade duma luz trémula mas acolhedora, enchia-se de cardas, de fusos, de novelos de lã e até de rezas e orações, em serões fascinantes, acompanhados de estórias maravilhosas. De manhã ouvia-se o crepitar do lume na grelha, o despejar da água na chaleira e o roncar roufenho do moinho de moer o café, a chicória e a cevada. De fora chegavam o ladrar dos cães, o cantar dos galos, o mugir das vacas na procura das crias e até o sonido acutilante dos grilos em cio.

E a casa como que crescia e se empinava contra os ventos do norte e as tempestades de oeste. Acariciada pelas brisas matinais, purificada pelo sabor da maresia, a casa como que navegava e florescia embalada com o deslumbrante brilho das estrelas, adocicada com o permanente cantarolar dos tentilhões e acicatada com o sublime perfume das roseiras, em anos de prosperidade e alegria, em idílios de ternura e devaneio, em ondas de serenidade, em eflúvios de deslumbramento, em pináculos de grandiosidade.

E depois?… Depois vieram anos desertos, tempos de desmoronamento, momentos de destruição, fugas para a América e a casa perdeu-se, apesar de continuar plantada a meio da colina. A claridade das madrugadas, embora disposta a ressuscitar a inocência dos silêncios, dispersou-se em ondas de abandono e sobrou, fortemente, no tempo, abalroando-a como se fossem os destroços de um navio naufragado.

E as portas da casa, branca e altiva, plantada a meio da colina nunca mais se abriram e até as janelas, outrora sempre abertas sobre o mar, se cobriram de uma enorme cortina de abandono e escuridão.

E agora quando a revejo, quiçá pela última vez, todas as portas e todas as janelas se fecharam, apenas as paredes, inconscientes, despidas de todos os ornamentos e, desastradamente, desertas, respiram o silêncio. Os rugidos persistentes, roufenhos e aterradores do vento norte amortalharam-na, definitivamente, transformando os encontros e as vozes de outrora em cinzas dispersas sobre os musgos amortecidos do telhado. O bater da chuva nas vidraças perdeu-se entre os resíduos dos fumos que, soltos e libertos, se evadiram pelas frestas do soalho. Até o velho “Asónia”, trazido da América por meu bisavô, arqueado sobre uma prateleira encastoada na parede e que outrora martelava as horas dia e noite, está destroçado. Não tem ponteiros e já nem se houve o bater de horas, nem muito menos o seu tiquetaque contínuo, aflitivo mas gracioso.

O reboliço contínuo e permanente da taramela da porta da cozinha, outrora sempre aberta ao relento das madrugadas e à fúria das tempestades, perdeu-se entre o rastro dos remoinhos das gretas das janelas.

Até os ecos roufenhos do ranger das dobradiças da porta da sala se calcinaram como se fossem cristais de gelo afundados num lago desértico.

Enfim, as vozes, os gritos, as rezas e até os ecos das discussões calaram-se para sempre porque a casa plantada a meio da colina, com vista sobre o mar, tornou-se deserta, dona de todos os silêncios e metamorfoseou-se num enigmático e terrível ermitério.

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publicado por picodavigia2 às 09:53

EMIGRAÇÃO CLANDESTINA

Quinta-feira, 23.10.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta ainda se se recordavam e contavam muitas estórias de fugitivos que, partindo da freguesia, clandestinamente e correndo graves riscos, embarcavam em baleeiras americanas que demandavam a ilha na procura de água, de víveres e de baleeiros, partindo, assim, para a América, numa estranha e não menos arriscada aventura. De facto, nos finais do século XIX, muitos habitantes da Fajã Grande como de toda a ilha das Flores, embarcaram, às escondidas da noite e clandestinamente, viajando nas baleeiras americanas às quais pagavam a viagem até à costa leste dos Estados Unidos, com o seu trabalho diário a bordo e eram deixados à sua sorte, mal encontrassem a terra do Tio Sam, onde cuidavam que o ouro corria a jorros. Na Fajã Grande, a fim de que a fuga não fosse detetada pelos militares que vigiavam nos vários fortes, fugiam durante a noite, escondendo-se nas margens das ribeiras. Quando os marinheiros desciam com vasilhames carregados de água, os fugitivos, imitando-os, seguiam-nos e aproveitavam para escapulir nas chatas, muitas vezes sob os tiros dos militares, que, embora tardiamente, se apercebiam da marosca. Eram aceites a bordo como marinheiros, trabalhavam como escravos e as viagens demoravam meses, por vezes, quase anos, uma vez que as baleiras tomavam rumos diversos, aproveitando as viagens para a caça aos cachalotes e baleias.

Uma vez chegados à costa leste americana, onde desembarcavam seguiam o seu destino, por sua conta e risco. Muitos, levados pelo sonho do ouro, demandavam a costa oeste, atravessando o continente americano de lés-a-lés, até chegar à Califórnia. Aí, cerceado o sonho do ouro, tornavam-se pastores na serra de Nevada, agricultores no Vale de São Joaquim, operários nas obras dos portos e das pontes de São Francisco ou na edificação da cidade do Fresno e de muitas outras urbes da Califórnia. Apenas um grupo, mais afoito e audacioso, partia para o norte, na procura de trabalho nas minas, sobretudo nos condados de Siskyou, Del Norte e Modoc.

Sabe-se hoje, que esta aventura americana marcou uma geração de habitantes da Fajã Grande, influenciando usos e costumes e até o falar da freguesia. Uma dessas influências terá sido na caça à baleia, pois foram estes homens, após regressar dos Estados Unidos, ou os seus descendentes transformaram a Fajã Grande no maior e mais importante local de caça à baleia, depois das duas vilas: Lajes e Santa Cruz. Na verdade, a Fajã Grande foi terra de grandes baleeiros, sobretudo marinheiros e trancadores, porquanto os oficiais, geralmente, eram importados do Pico. Embora a época da caça à baleia se verificasse apenas nos meses do verão ela modificou a vida e os costumes da população, assim com a sua muito fraca economia, reduzida a uma simples agricultura de subsistência e à criação de gado, em muito pequena escala.

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publicado por picodavigia2 às 21:12

BOM POEMA

Quinta-feira, 23.10.14

"Um bom poema é aquele que nos dá a impressão de que está lendo a gente... e não a gente a ele.”

Mario Quintana

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publicado por picodavigia2 às 09:20

O PADRE HORÁCIO NORONHA

Quarta-feira, 22.10.14

Horácio Manuel da Silveira Noronha nasceu a 30 de Abril de 1934, na freguesia do Topo, ilha de São Jorge, sendo seus pais Manuel Joaquim Noronha e Emília da Silveira Brasil. Como a maioria das crianças açorianas, na altura, fez os estudos primários na sua freguesia, após os quais partiu para Angra, matriculando-se no Seminário Diocesano, em setembro de 1946, onde se formou e completou o curso de teologia, tendo sido ordenado presbítero a 15 de julho de 1958. Nesse mesmo ano foi colocado como professor e prefeito dos médios, no Seminário de Angra, substituindo o padre Jacinto da Costa Almeida que durante décadas ocupara aquele cargo.

Quando cheguei ao Seminário de Angra, frequentando a prefeitura dos miúdos, o padre Horácio ainda era prefeito dos médios e, além disso, não o tive como professor, nesse ano, tendo, por isso, privado muito pouco com ele. No ano seguinte, porém, foi nomeado Diretor Espiritual dos miúdos, sendo também meu professor de História Universal, nesse ano e no seguinte.

Foi então que pude observar, compreender e sentir a simplicidade, a bondade, a humildade e a grandeza de alma deste homem. Senhor de um diálogo simples, genuíno e marcante, dono de um sorriso dócil e duma serenidade conciliadora, o padre Horácio atraía e cativava os que com ele conviviam, aconselhava com discernimento os que demandavam os seus conselhos, encaminhava-os com ternura e bondade, ensinava com rigor e persuasão.

Do Seminário transitou para a paróquia de Santa Luzia, acompanhando e orientando grupos de Ação Católica Operária. Depois de um percurso pelos padres do Prado, como padre operário, onde aprendeu, segundo ele próprio confessa “que o principal da minha vida de padre se resume nos quatro verbos tão caros ao P. Chevrier: conhecer, amar, seguir e anunciar Jesus Cristo” fixou-se na diocese de Setúbal, onde foi pároco na Quinta do Conde, em Nossa Senhora da Conceição, no Pinhal Novo e no Pragal, sendo, também diretor espiritual do seminário. Atualmente, para além de pároco do Pragal, é Vigário Forâneo da Vigaria de Almada, Membro do Conselho de Presbíteros, Membro do Colégio de Consultores e Presidente da Comissão de Consulta de Apoio ao Bispo na Gestão do Fundo do Clero da diocese. Acrescente-se que a vigaria de Almada compreende as paróquias de Almada, Cova da Piedade, Cacilhas, Laranjeiro – Feijó e Pragal.

Passados muitos anos, reencontrei-o no Mucifal há alguns anos e voltei a encontrá-lo no passado domingo, partilhando com ele alguns momentos de conversa. Mantém a mesma simplicidade, a mesma alegria de conversar, a mesma delicadeza no trato com todos, os mesmos dons de saber ouvir e de se entusiasmar mais com os sucessos alheios do que com os próprios. Apesar dos seus 80 anos, mantem uma jovialidade invejável, uma alegria contagiante, uma comunicabilidade atraente, uma áurea de juventude surpreendente. Juntamente com Monsenhor José Nunes, este professor no Seminário de Angra, é o mais idoso sacerdote açoriano em atividade paroquial.

Não resisto a transcrever aqui, o interessantíssimo testemunho de um colega e amigo seu, Fernando Castro Martins, escrito por altura da celebração das suas bodas de ouro sacerdotais, sob o título: - Padre Horácio Noronha - Um Nobre ao Serviço dos Pobres e Oprimidos:

“Como eu gosto de pessoas assim: eruditos dos livros, estudam eternamente na escola dos pobres. Sabem latim e grego, conhecem as mais remotas etimologias das palavras caras, e, ainda assim, sabem falar com os excluídos de um modo que estes vêem mesmo do que lhes falam.

Estes homens não gritam lá de cima a dizer libertai-vos; e muito menos a dizer tende paciência. São um fermento, dando qualidade e esperança à massa dos espoliados; são estrelas de luz, sinalizando caminhos.

Ontem estive ao pé de um homem desta dimensão. Ao todo seríamos duzentos: admiradores, discípulos, companheiros. Fazia cinquenta anos de Padre. Fomos todos ter com ele para celebrar. Não levámos presentes, porque os não julgávamos necessários, não levámos palavras caras porque as não tínhamos. Estávamos com ele. Estávamos presentes. Éramos o seu presente.

Foi um dia inteirinho de celebração que culminou com uma celebração maior, a da partilha do Pão e do Vinho, e todos saímos dali saciados e fortalecidos. Nos olhos dos presentes - e o meu sentimento quero aqui dize-lo - estava uma expressão coletiva de que a Igreja pode precisar de padres, mas do que ela precisa mesmo é de padres deste modo.

Peço a sua bênção, Padre Horácio de Noronha.”

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publicado por picodavigia2 às 22:18

AS FONTES E O CHAFARIZ

Quarta-feira, 22.10.14

Na década de cinquenta e após o abastecimento de água no início da mesma, existiam na Fajã Grande onze fontes de fornecimento de água ao público, sendo que uma delas se apresentava com formato de chafariz, uma vez que possuía mais do que uma torneira. Paralelamente existiam apenas quatro bebedouros para o gado, possuindo todos eles fontes, sendo que uma delas, no Alagoeiro, corria permanentemente, pois não tinha torneira.

As fontes estavam assim distribuídas pelas ruas da freguesia: duas na Assomada, duas na Fontinha, duas na Rua Direita, uma nas Courelas, uma na Rua Nova, uma na Tronqueira e duas na Via d’Água. Estas fontes eram muito procuradas para abastecimento de água porquanto eram poucas as casas que, na altura, estavam abastecidas com água. Mas as fontes também eram lugares de encontro, descanso, conversas, namoricos e até de brigas e ajuste de contas.

Algumas destas fontes tinham um formato antigo, uma espécie de furna ou nicho construído em argamassa e possivelmente seriam fontes antigas, anteriores à construção da rede pública de água, sendo abastecidas por canalizações muito rudimentares ou por alguma nascente que existisse ali por perto. Era o caso de uma fonte existente a meio da Fontinha, conhecida por Fonte Velha. Uma outra semelhante existia na Assomada, denominada apenas por Fonte. As outras, no geral, eram construções simples, em pedra e cimento, em forma de quadrado, com uma superfície lisa e apenas com uma peanha na base, onde se colocava o vasilhame, enquanto enchia. Para além desta Fonte antiga, existente na Assomada, no cruzamento que dava para a primeira canada do Pico e em frente à casa das Senhoras Mendonças, existia uma oura, no cimo da rua, logo abaixo da bifurcação que dava para o Caminho da Missa e junto à casa do Francisco de José Luís. Na Fontinha, para além da Fonte Velha, existia uma segunda, lá bem no cimo da Rua, por detrás da casa do tio Britsa. O único chafariz existente na freguesia era privilégio da Rua Direita, era a única fonte de abastecimento de água com duas torneiras, possuindo alguns ornamentos no frontispício e situava-se no largo da entrada para a Casa do Espírito Santo de Cima. Curiosamente a segunda fonte existente na principal e mais aristocrática rua da freguesia localizava-se na empena sul da Casa do Espirito Santo de Baixo, edifício onde também funcionava a escola. As fontes das Courelas, Tronqueira e Rua Nova situavam-se mais ou menos a meio das respetivas ruas. Na Via d’Água uma das Fontes também se escarrapichava a meio da viela, enquanto a segunda ficava lá mais para baixo, no início do Porto.

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publicado por picodavigia2 às 08:56

OS MAIS ILUSTRES ALUNOS DO SEA

Terça-feira, 21.10.14

Os alunos do Seminário de Angra, ordenados sacerdotes, que mais se distinguiram na hierarquia da igreja católica foram: João Paulino de Azevedo e Castro, José da Costa Nunes, Manuel Medeiros Guerreiro, José Vieira Alvernaz, Jaime Garcia Goulart, José Pedro da Silva e Paulo José Tavares.

Dom João Paulino de Azevedo e Castro foi o 19.º bispo de Macau, tendo governado a Diocese entre 1902 e 1918. Nasceu nas Lajes do Pico, a 4 de Fevereiro de 1852, frequentou o Liceu da Horta, onde completou os estudos preparatórios, o Seminário de Coimbra e mais tarde o de Angra. Matriculou-se posteriormente no curso de Teologia da Universidade de Coimbra, na qual se formou. Foi ordenado sacerdote pelo bispo D. João Maria Pereira do Amaral e Pimentel e colocado na cidade de Angra do Heroísmo, onde iniciou funções como professor do Seminário Episcopal de Angra. Homem de saber eclético, foi encarregue da lecionação de várias disciplinas do curso do seminário, entre as quais teologia dogmática, direito canónico, geografia, história, filosofia e francês. Em 1889 foi apresentado cónego da Sé de Angra e em 1890 foi elevado à dignidade de tesoureiro-mor da mesma Sé. Em 1891 foi apresentado para prelado de Macau. A sagração episcopal ocorreu a 27 de Dezembro de 1902, na Igreja de Nossa Senhora da Guia do extinto Convento de São Francisco de Angra, imóvel onde então se encontrava instalado o Seminário Episcopal, sendo a primeira sagração episcopal realizada nos Açores.

Manteve sempre o desejo de regresso aos Açores, mas faleceu em Macau. Em 6 de Fevereiro de 1923 foram os seus restos mortais solenemente trasladados para a vila das Lajes do Pico, onde hoje é lembrado na toponímia e onde existe um monumento em sua memória. Também é lembrado na toponímia de Macau.

Dom José da Costa Nunes, nasceu na Candelária do Pico, 15 de Março de 1880. Estudou no Liceu da Horta e ingressou então no Seminário Episcopal de Angra em 1893.

Em 1902, quando frequentava o último ano de Teologia do Seminário e se preparava para a ordenação, foi convidado pelo vice-reitor daquele estabelecimento D. João Paulino de Azevedo e Castro, então eleito bispo de Macau, a acompanhá-lo como seu secretário particular, deslocando-se para aquela diocese, onde foi ordenado presbítero em 26 de Julho de 1903. Foi professor no Seminário de S. José, Vigário Geral da Diocese de Macau e Timor, governador do bispado e vice-reitor interino do Seminário.

Em 1920 foi eleito Bispo de Macau. A sua ordenação episcopal realizou--se na Matriz da Horta e entrou solenemente na sua diocese, a 4 de Junho de 1922, governando-a até 1940.

Em 11 de Dezembro desse ano, aos 60 anos de idade, foi nomeado pelo papa Pio XII para o lugar de arcebispo de Goa e Damão e arcebispo-titular de Cranganor, Primaz do Oriente, com o título de Patriarca das Índias Orientais. Partiu de Macau para a sua nova diocese a 25 de Novembro de 1941, possivelmente, devido à Segunda Guerra Mundial, cujos efeitos já se sentiam em Macau.

Entretanto, a 13 de Julho de 1953, a Santa Sé nomeara-o presidente da Comissão Permanente do Congresso Eucarístico Internacional, na Cúria Romana e o Papa João XXIII elevou-o a cardeal da Santa Igreja, com o título de cardeal-presbítero de Santa Prisca, a 19 de Março de 1962, impondo-lhe o barrete cardinalício a 22 de Março do mesmo ano. A 23 de Junho desse ano foi agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique, pelo governo português.

Dom Manuel de Medeiros Guerreiro  nasceu em Santa Cruz, Lagoa, São Miguel, a 12 de Abril de 1891 e ingressou no Seminário de Angra, onde concluiu a sua formação, sendo ordenado presbítero a 24 de Agosto de 1913. Formou-se em de Filosofia e de Teologia na Universidade Gregoriana, em Roma e foi professor de Teologia e prefeito do Seminário Diocesano de Angra do qual, também, foi vice-reitor.

Em 1937 foi eleito bispo de São Tomé de Meliapor, tendo sido sagrado na Catedral de Goa. Em 1952, foi transferido para a Diocese de Nampula em Moçambique, que governou até 30 de Novembro de 1966. Faleceu a 10 de Abril de 1978, com 87 anos de idade

Dom José Vieira Alvernaz, nasceu na Ribeirinha do Pico, frequentou o Seminário de Angra e foi ordenado padre em 1920. Formou-se em Roma e foi professor e Reitor do Seminário de Angra, onde fora aluno brilhante. Em 1941, foi nomeado bispo de Cochim e em 1950, arcebispo-titular de Anasartha, arcebispo-coadjutor de Goa e Damão e patriarca-coadjutor das Índias Orientais. Em 1953, sucedeu a Dom José da Costa Nunes como Patriarca das Índias Orientais, cargo que exerceu até 1975, quando retirou-se do patriarcado e tornou-se arcebispo-emérito de Goa. Em 1961, depois da invasão indiana dos territórios portugueses, fugiu do território, regressando aos Açores, fixando-se em Angra onde viveu durante muitos anos, visitando com frequência o Seminário

Dom Jaime Goulart nasceu na Candelária do Pico, 10 de Janeiro de 1908 e faleceu em Ponta Delgada, 15 de Abril de 1997. Foi primeiro bispo da Diocese de Díli, que governou como administrador apostólico entre 1940 e 1942 e como bispo entre 1945 e 1967

Dom José Pedro da Silva nascido na freguesia de São Tomé, em São Jorge, frequentou o Seminário Episcopal de Angra, completando os seus estudos em Roma, na Faculdade de Teologia da Universidade Gregoriana, onde se licenciou. Foi ordenado sacerdote a 24 de Abril de 1943 na Basílica de São João de Latrão. Regressado a Angra, foi colocado como professor de Teologia no Seminário, sendo em 1953 nomeado diretor do jornal A União, órgão de imprensa propriedade da Diocese de Angra. Prosseguindo uma carreira eclesiástica brilhante, foi em 1955 nomeado vigário geral da Diocese de Angra e elevado a cónego da Sé, no ano imediato. A 31 de Julho de 1956 foi eleito bispo titular de Tiava e nomeado bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, cargo que exerceu até 13 de Fevereiro de 1965, data em que foi eleito bispo de Viseu, cargo que manteve até ser aceite a sua resignação, por ter ultrapassado os 70 anos de idade, a 14 de Setembro de 1988.

Faleceu, em Viseu, onde vivia como bispo resignatário da diocese, no dia 23 de Maio de 2000. A Universidade Católica Portuguesa dedica-lhe no seu Centro Regional das Beiras uma biblioteca D. José Pedro da Silva, em homenagem ao seu labor em prol da expansão daquela universidade em Viseu.

Dom Paulo José Tavares, nasceu em Rabo de Peixe, ilha de S. Miguel, a 25 de Janeiro de 1920 e faleceu em Lisboa, a 12 de Junho de 1973. Foi ordenado sacerdote em Roma, onde se formou e onde permaneceu após o seu doutoramento em Direito Canónico, desempenhando uma longa carreira diplomática na Secretaria de Estado da Santa Sé de 1947 a 1961, sendo o primeiro açoriano a desempenhar um cargo neste importante dicastério da Santa Sé. Mais concretamente, desempenhou os cargos de adido, secretário, auditor e conselheiro de Nunciatura Apostólica. Considerado muito próximo do futuro Papa Paulo VI, Paulo José Tavares foi nomeado Bispo de Macau no dia 24 de agosto de 1961 pelo Papa João XXIII. Foi sagrado bispo na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma, no dia 21 de setembro de 1961.

 

Depois de ir aos Açores despedir-se da sua família, chegou à então colónia portuguesa de Macau, no dia 27 de novembro de 1961, juntamente com o seu irmão e secretário particular, o padre Manuel Alfredo Tavares. Mas, rapidamente se ausentou de Macau para tomar parte em todas as sessões do Concílio Vaticano II, de 1962 a 1965. Durante o seu bispado, registou-se um desenvolvimento espetacular na área da assistência social aos necessitados e da educação da juventude dirigida pela Diocese de Macau. Mais concretamente, impulsionou a construção e ampliação de pelo menos vinte estabelecimentos assistenciais e de instrução católicos e criou o Conselho das Escolas Católicas.

Está sepultado no cemitério da sua freguesia natal, Rabo de Peixe, num sepulcro-capela mandado construir pela família. O seu nome está presente na toponímica de Rabo de Peixe.

 

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publicado por picodavigia2 às 11:14

TERESINHA DE JESUS

Segunda-feira, 20.10.14

A Teresinha de Jesus

Deu uma queda, foi ao chão

Acudiram três mancebos

Todos de chapéu na mão

 

O primeiro foi seu pai

O segundo seu irmão

O terceiro foi aquele

Que a Teresinha deu a mão

 

Teresinha levantou-se

Levantou-se lá do chão

E sorrindo disse ao noivo

Eu te dou meu coração

 

Dá laranja quero um gomo

Do limão quero um pedaço

Da morena mais bonita

Quero um beijo e um abraço.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:48

A MENINA E A ILHA

Segunda-feira, 20.10.14

(TEXTO DE FÁTIMA MEDEIROS)

 

Era uma vez uma menina muito faladora e risonha. Numa bela manhã de início de Julho a menina saiu de casa de seus avós na Rua da Alegria, sua casa também, e entrou num carro de praça com os pais. Os avós, as primas da casa em frente e os restantes vizinhos vieram todos à janela dizer adeus. Havia lágrimas e sorrisos.

O carro foi até ao cais onde o Carvalho Araújo esperava para largar. Para trás ficou o Campo de São Francisco, onde todos os dias, ao fim da tarde, a menina aprendia sons, cores, aromas, descobria pessoas, flores, pássaros.

No cais havia mais gente entre lágrimas e sorrisos. E a menina a entrar no navio com os pais e a acenar, a acenar até que o cais se transformou numa linha no horizonte que o mar engoliu. E a menina a guardar tudo dentro de si, num clarão de luz.

Tinha dois anos e meio mas esse clarão luminoso nunca mais se apagou dentro dela. Quando voltou a espreitar para fora do navio o cais mudara, o céu era diferente, a luz tinha outro brilho.

- Lisboa, olha Lisboa! - Disse o pai.

Passados uns dia depois de uma viagem numa espécie de centopeia barulhenta, a mãe anunciou: Chegámos a Faro!

Volvidos dois anos a menina descobriria Setúbal, onde iria crescer, estudar, amar, casar, ter filhos, ter netos, viver.

Lá longe, no meio do Atlântico, estava São Miguel, a sua ilha, embrulhada em bruma, ilha mítica que os pais evocavam constantemente. A saudade era uma canção dolente entoada ao serão.

Em São Miguel era tudo mais fácil, era tudo perfeito. Lá, estavam as avós, as tias, os primos. A ilha guardava as Furnas, as Sete Cidades, os Mosteiros e muitos outros lugares mágicos de que os pais tanto falavam. De lá vinham a massa sovada, os bolos lêvedos, o milho torrado e outras maravilhas que só se encontravam no “continente” quando a mãe as fazia. Mas de maneira nenhuma sabiam tão bem como as que vinham de barco, em caixote de madeira. Abri-lo… que sensação inesquecível! Às vezes vinham também inhames, anonas, maracujás. E roupa nova. E livros, livros maravilhosos, escolhidos pelo cuidado da tia Leonor.

O sotaque dos pais era diferente. Lá em casa havia hábitos, devoções, sabores e até palavras de que os setubalenses desconheciam o significado. A mãe dizia com orgulho: nós não somos de cá, somos micaelenses. A menina cresceu a gostar dessa diferença, a sentir que lhe pertencia e que fazia parte dela.

A vida era complicada naqueles anos de 1960. A menina sonhava. Mas o dinheiro era à conta, nunca sobrava para a desejada viagem.

Certo dia a menina olhou-se ao espelho e era já uma jovem mulher de vinte e um anos que acabara de conhecer um homem, imagine-se, natural de São Miguel. Foi amor à primeira vista, à primeira conversa, ao primeiro toque. Casaram e como nos contos de fadas tiveram filhos e viveram felizes… até à morte dele.

Quatro anos após o casamento, já com dois filhos pela mão, a menina-mulher-mãe concretizou o seu sonho: finalmente regressou à sua ilha. Perdeu-se pelo Pico da Vara, mergulhou no Pópulo, escorregou nas pedras da Fajã do Calhau, bebeu água nas fontes das Furnas, foi a Santa Clara escutar os passos dos antepassados, encheu o olhar de verde e azul, guardou para o futuro uma mão cheia de terra do Campo de São Francisco.

Voltou várias vezes. Teve também oportunidade de sentir outras ilhas açorianas. Nem um só dia deixou de se sentir ilha, de se sentir da ilha. Assim viveu e vai vivendo a sua açorianidade que sempre considera deficitária, tentando remediar esse défice através da leitura e da música que avidamente vai desvendando e guardando em si e nas estantes de casa.

Hoje, já mulher madura, deseja que os seus seis netos saibam sempre sentir o perfume dessa terra, reconhecendo o húmus onde se agarra a sua raiz, trazendo sempre a ilha consigo para a entregarem, intacta no seu verde, aos que lhes virão a seguir.

 

Fátima Ribeiro Medeiros, in Mundo Açoriano

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publicado por picodavigia2 às 15:08

ENCALHADO NA PONTA

Domingo, 19.10.14

Segundo alguns registos, um dos vários naufrágios verificados ao longo dos anos nos mares da Fajã Grande, ter-se-á verificado por fora do lugar da Ponta, no dia 3 de Fevereiro de 1869. Os registos, no entanto, são poucos e incompletos, sabendo-se apenas que se tratava de um lugre, com bandeira francesa, que navegava entre a América e a Europa. Estando a ilha coberta de nevoeiros, a embarcação muito provavelmente, entrou pela baía dentro sem qualquer visibilidade, indo encalhar nos baixios da Ponta, junto ao ilhéu do Cão. Sabe-se que se salvou um dos seus tripulantes.

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publicado por picodavigia2 às 22:43

MUCIFAL, OUTRA VEZ

Domingo, 19.10.14

Mucifal é um lugar da freguesia de Colares pertencente ao concelho de Sintra. Graças à disponibilidade, carinho, hospitalidade e excelente capacidade organizativa do Agostinho Simas e da Aldina, o Mucifal foi ontem, mais, uma vez, palco de congregação de um bom punhado dos muitos antigos alunos que nas décadas de cinquenta e sessenta viveram e se formaram na “Casa Santa e Mimosa de Deus” o Seminário de Angra.

Presente o Horácio Noronha que, para além de aluno, foi prefeito dos médios, professor de História Universal e Diretor Espiritual dos miúdos no Seminário de Angra e, posteriormente, pároco de Santa Luzia, há muitos anos a trabalhar na diocese de Setúbal, sendo, atualmente, pároco do Pragal. Com ele outros que frequentaram aquele “astro a sorrir de bonança” e que assim se puderam, mais uma vez, encontrar e conviver, agora quase todos já reformados, depois de terem percorrido caminhos e rumos diferentes e dispersos e, em muitos casos, bem alterados e diferenciados pelo destino, mas todos encastoados entre o sucesso, a dignidade e um nobre profissionalismo. É no Mucifal que se revivem memórias, se recordam estórias e aventuras de vida, se relembram os outros que ali não estão mas que, permanentemente, são trazidos pela memória e amizade dos participantes, com destaque muito especial para os que, infelizmente, já partiram. Pelo meio trazem-se à tona acontecimentos mirabolantes, estroinices, aventuras, façanhas, cometimentos desmedidos e partidas. Depois canta-se porque era isso talvez o que de mais belo se fazia, recordam-se horas e horas de amizade recíproca, de vivência em comum, de ternura partilhada e de esperanças conjugadas. Ao lado as esposas e companheiras, também elas a partilhar, assimilar e a viver todos estes sentimentos e vivências e a conviverem em sã alegria e amizade, como se também tivessem vivido em conjunto desde sempre

Para além do Horácio Noronha, do curso de 1958, estiveram presentes: de 1960, o João Esaú, de 1962 o Agostinho Quental, de 1964 o Luís Medeiros, de 1966 o Olegário Paz, de1967, o Andrade Moniz e de 1970 e o Carlos Fagundes. Estiveram ainda presentes o Manuel Nóia, o Agostinho Simas, o Mário Carmo e o Bartolomeu Dutra, os quais, embora não chegando a completar o curso teológico, com exceção do Bartolomeu, nos anos que permaneceram no Seminário, da mesma forma que os outros, se entranharam nos mesmos ideais, se empenharam na mesma formação e se embeberam em vivências e partilhas comuns. Presente ainda a esposa do Manuel Pereira, Fátima Medeiros. A maioria dos presentes fez-se acompanhar pelas respetivas esposas e, nalguns casos, até por filhos.

Este encontro destinou-se também a homenagear a memória de dois antigos alunos do Seminário que passaram pelo Mucifal, que se envolveram nestes encontros e que, recentemente, nos deixaram: o Manuel Pereira de Medeiros e o Noé Borges Carvalho. Essa a razão por que o encontro foi precedido pela celebração de uma missa, na própria residência do Agostinho Simas, presidida pelo padre Horácio Noronha. Na altura da homilia, foi ocasião de se partilharem alguns testemunhos sobre estes dois antigos alunos do Seminário de Angra. Relativamente ao Manuel Pereira, o Agostinho Simas recordou-o como grande amigo e um dos pioneiros e grande entusiasta destes encontros aos quais nunca faltava e leu alguns poemas da autoria do mesmo. Fátima Pereira também leu alguns poemas da autoria do marido, textos relacionados com estes encontros e, no momento mais sentido do seu testemunho, declarou que o Manuel Pereira, dois dias antes de falecer lhe dissera: - “Pede aos meus amigos do Mucifal que nunca me esqueçam.”. Por sua vez o Noé foi recordado, através dos testemunhos de um dos monitores nos médios, o Andrade Moniz e pelo único colega de curso presente Carlos Fagundes, como um excelente aluno, muito dedicado e estudioso, trabalhador, um bom colega e, mais tarde, como digno e brilhante profissional, tendo desenvolvido um excelente e nobre percurso a nível da banca nos Açores e na Madeira.

Recorde-se que estes encontros se iniciaram-se há vinte e quatro anos Daí que já tenha sido lançado um alerta, a fim de que o próximo, em 2015, tenha tum significado muito especial, por ser o 25º. Nele deverão ser recordados todos os que por ali passaram ao longo destes 25 anos, com destaque para alguns dos seus propulsionadores, participantes efetivos e grandes dinamizadores, que infelizmente já faleceram: o Raimundo Correia, o Manuel António, o Artur Pereira, o Artur Martins e o Avelino Soares.

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publicado por picodavigia2 às 08:35

AMANHÃ. NOVO ENCONTRO NO MUCIFAL

Sexta-feira, 17.10.14

Mucifal é um lugar da freguesia de Colares pertencente ao concelho de Sintra. Protegido a Sul pela Serra de Sintra, encimada pelo seu emblemático palácio e bafejado, a Oeste, pelas Praias Grande e das Maçãs e a Leste por Nafarros. Mucifal, um recanto ubérrimo e idílico, repleto de simbolismo e de serenidade, onde se reflectem os tons do verde colorido da Serra de Sintra, onde se estampam respingos de espuma azulada do oceano, onde o cantar dos pássaros ainda atulha as madrugadas de magia, onde o Sol, ao pôr-se, se tinge de um azul amarelado, um local onde os ventos chegam carregadinhos de perfume duma abrupta e descarada maresia.

Deste há mais de vinte anos que Mucifal, graças à gigantesca disponibilidade, à desmedida hospitalidade e à excelente capacidade organizativa do Agostinho Simas e da Aldina, tem congregado muitos dos que outrora viveram e se formaram na “Casa Santa e Mimosa de Deus” da velhinha leal e sempre constante Angra.

Amanhã realizar-se-á novo encontro, precedido duma missa, em memória de dois dos que já por ali passaram e, infelizmente já nos deixaram: o Manuel Pereira e o Noé Carvalho. Presidem à celebração da Eucaristia o Horácio Noronha e o António Rego.

Lá estarei, partindo aqui do Norte, de Paredes, às sete da matina, fazendo quase 700 km.

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publicado por picodavigia2 às 23:33

A ERMIDA DE NOSSA SENHORA DO PILAR

Sexta-feira, 17.10.14

Na cidade da Horta, ilha do Faial, existe uma pequena ermida, dedicada a Nossa Senhora do Pilar. A ermida situa-se num miradouro natural, na encosta da Espalamaca, voltado para a cidade e para o mar, com o Pico e São Jorge ao fundo. Segundo reza a história, a ermida foi erguida em 1701 pelo padre Felipe Furtado de Mendonça, vigário da paróquia da Conceição, às próprias expensas e à custa de esmolas recolhidas para esse fim, e onde pediu para ser sepultado, existindo, ainda, a lápide da sua sepultura, colocada dentro do templo na parede do lado do Evangelho.

Sabe-se, no entanto, que a ermida primitiva foi destruída por um incêndio e esteve muitos anos abandonada, sem portas nem cobertura, tendo sido reconstruída em 1729, por uma Irmandade então criada. Possuí na sua fachada o Brasão de Armas da monarquia portuguesa.

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publicado por picodavigia2 às 13:54

O NÁUFRAGO II

Sexta-feira, 17.10.14

O Semedo chegou à porta de casa e levantou a taramela num sufoco. Na cozinha, a mulher e a filha seroavam entre cardas, fusos e resmas de lã, admiradas pelo tardio da chegada A Deolinda foi a primeira a insinuar com suave ironia:

- Só agora?! A estas horas, meu pai há muito que havia de estar na cama.

E como o Semedo embatucasse por completo, a mulher, sem levantar olho das cardas:

- Boa coisa não andaste a urdir! – E, levantando o rosto, sem esmorecer a cardação, prosseguiu – Credo, home! Que cara é essa?! Parece que viste o Eiramá!...

O Semedo, a crescer numa tremulação que acicatava, cada vez mais, o pasmo das duas mulheres, lá foi desembuchando: Fora ali, para os lados do Rolinho das Ovelhas… Ele, o Bosseca, o Zé de Mateus e o Caboz, na mira dos caranguejos, do Canto do Areal ao Rolinho. Eis senão quando avistaram uma embarcação a aproximar-se de terra, junto ao Rolinho. Eles a correr que até parecia que deitavam os bofes pela boca fora… mas qual o quê?… Quando lá chegaram, a maldita tinha zarpado. Apenas uma pequena chata, abandonada, a balancear no vaivém da maré. Ao voltarem, deparam-se com gemidos angustiantes. Um vulto de homem, sabia-se lá de onde, que nem americano falava, enfiado na aba de uma pedra, a chorar e a gemer… Pelos vistos tinha sido ali abandonado. Trouxeram-no e, ao chegar ali, bonito serviço! Os outros a pisgarem-se, cada um para seu lado e ele a ficar só, com o homem… fora da porta… Haviam de lhe dar guarida, lá em casa.

A mulher e a filha nem queriam acreditar!... Meter em casa um homem, sabia-se lá de onde e de que religião… Àquelas horas da noite... Nem pensar!

Mas no dia seguinte toda a freguesia louvava o Semedo. Fosse da Cochinchina, fosse do Japão, fosse de onde fosse, aquilo era um ser humano. Um gesto muito bonito, o do Semedo.

Mas os rumores não tardaram. Aquele homem devia ser um ateu, um criminoso, um facínora, semelhante ao que, há muitos anos, também ali desembarcara e, de tão mau que fora, após a morte, por castigo, fora atirado para o Poço do Bacalhau. Que o tivesse deixado, o Semedo, onde o encontrou. Havia de morrer à fome, que é o destino dos criminosos e dos sacripantas! E depois… com uma filha solteira lá em casa… Hum! Não havia de sair coisa boa, dali.

Porém, em casa do Semedo, todos se afeiçoaram, depressa, ao suposto náufrago. O homem era delicado, correto, submisso e de trato afável. Apenas um senão: ninguém o entendia e ele não percebia patavina do que lhe diziam e tinha a estranha mania de, todos os dias, tracejar um risco no muro da cerca do porco. Sabia-se apenas que se chamava Dimitri e que, muito provavelmente, devia ser russo e não acreditava em Deus.

Os dias passaram e o Semedo via em Dimitri, o filho que nunca tivera e Deolinda apaixonara-se, como nunca. Pior. Dimitri, agora já a balbuciar as primeiras palavras em linguagem que se entendesse, também se declarava em juras de amor, enquanto pela freguesia, cada vez mais, se comentava, à socapa, que ali havia marosca.

O Semedo, apavorado, foi bater à porta do Vigário. Havia que casá-los, quanto antes. Mas para o prebendado, o casamento não servia para encobrir poucas vergonhas e aquele homem era um ateu, vindo de um pais onde a religião católica era odiada. Além disso, não tinha papéis que demonstrassem o seu batismo. Que tirasse o cavalinho da chuva o amigo Semedo que casamento é que não havia de haver.

E não houve, o que não foi obstáculo a que Dimitri e Deolinda se envolvessem, às escondidas dos progenitores, em desvelos e fascinações.

E quando Deolinda não mais pode ocultar a gravidez, o falatório transformou-se em aleivosias insultuosas. A mãe definhou de vergonha e o pai pô-los porta fora, injuriando-os, ameaçando-os, deserdando-os. Poucos dias demorou a ira do Semedo e a debilidade da sua consorte. Foram os primeiros a acudir aos vagidos de um pequerrucho que, numa tarde de Setembro, lhes quebrava o veneno do desgosto e lhes despertava o bálsamo da ternura.

E o pequeno Gervásio crescia entre o enlevo dos pais e a ternura dos avós. O vigário não lhe pode negar o batismo. A alegria, o encanto e a felicidade reinavam em casa do Semedo e na freguesia já ninguém se lembrava que o pai do pequeno Gervásio era, afinal, um náufrago abandonado na ilha, talvez um criminoso, com quem a Deolinda do Semedo vivia amancebada.

Numa noite, porém, o inesperado aconteceu. Dimitri saiu de casa e nunca mais regressou. De manhã, o Cardoso, afirmava a pés juntos, que um bergantim se havia aproximado da enseada do Rolinho das Ovelhas e nele, tinha visto, embarcar um homem. A partir do dia seguinte, todas as tardes, depois do pôr-do-sol, a Deolinda do Semedo, lavada em lágrimas, sentava-se sobre um rochedo, à beira mar, com o filho ao colo, apontando-lhe um horizonte indefinido

 

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publicado por picodavigia2 às 00:04

O QUE DIZEM OS DEDOS

Quinta-feira, 16.10.14

 

O dedo mindinho diz que quer pão

O seu vizinho diz que o não tem

O pai de todos diz que o vá comprar,

O fura-bolos diz que o vá roubar

E o mata-piolhos diz que lho vai dar.

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publicado por picodavigia2 às 09:57

A GOLDEN GATE

Quinta-feira, 16.10.14

Já tive por duas vezes a quase insustentável emoção de atravessar a famosa Golden Gate e, numa delas de a observar do miradouro de Ford Scott Field, em Sausalito. Surpreendente, estranhamente emocionante, como se fosse feita de ouro, a ligar a mega cidade de São Francisco a Sausalito, na região metropolitana daquela enormíssima cidade da Califórnia, sobre o estreito do mesmo nome e que, aliás, o transmitiu à ponte. A Golden Gate, para além de ligar a 101 de norte a sul daquele estado americano da costa oeste, constitui-se como excelente ex-libris, constituindo-se como principal cartão postal da cidade, tornando-se numa das mais conhecidas e imponentes construções dos Estados Unidos, sendo considerada uma das Sete maravilhas do Mundo Moderno pela Sociedade Americana de Engenheiros Civis.

Reza a história que no início do século XX, após o Terremoto de 1906, que arrasou quase por completo a cidade de São Francisco, esta passou, como muitas vezes acontece após grandes catástrofes, por um período de enormíssima ascensão econômica, surgindo, de imediato, a necessidade de se construírem pontes, ligando-a com as regiões vizinhas a fim de desenvolver a economia nas cidades ao redor da grande baía, uma vez que a cidade de São Francisco é totalmente cercada de água por quase todos os lados, o que faz dela uma espécie de península. A necessidade de se conectar com as regiões vizinhas implicou a construção de uma perfeita e ousada estrutura rodoviária.

Assim, em 1916, nasce a ideia de se construir uma ponte cruzando o estreito de Golden Gate, representando, contudo, um grande desafio para o estado da Califórnia, dado que o estreito de Golden Gate era, frequentemente, assolado por fortes ventos e correnteza.

Mas o projeto concretizou-se, sendo o nome da ponte escolhido em 1927, quando MM O'Shaughnessy, importante engenheiro de São Francisco mencionou a ponte como Golden Gate Bridge, referindo-se ao estreito. A dificílima tarefa de projetar tal estrutura ficou a cargo do alemão Joseph Strauss. Embora não tivesse nenhuma experiência com pontes suspensas, Strauss fechou contrato com a prefeitura e projetou a ponte que começou a ser construída em Janeiro de 1933 e concluída em 1937.

Apesar da necessidade da construção de uma ponte ligando São Francisco com o norte da Califórnia, Joseph Strauss enfrentou muitas críticas e oposições em relação ao projeto que desenvolveu. A primeira controvérsia vinha do próprio Departamento de Defesa Americano, alegando que a construção da ponte iria dificultar o acesso de navios à baía e os nevoeiros, muito densos e frequentes na zona, iriam, juntamento com os fortíssimos ventos, impedir a circulação de viaturas na ponte.

Tudo não passou de suposições e a ponte lá está, desde 1937, firme, hirtam, imponente, bela e emocionante, sobretudo por quem a atravessa pela primeira ou pela segunda vez. A Golden Gate Bridge tem 2737 metros de comprimento total, incluindo os acessos, e 1966 metros de comprimento suspenso, sendo a distância entre as duas torres de 1280 metros. Estas torres de suspensão, por sua vez, erguem-se a 227 metros acima do nível do mar.

A Golden Gate tem o seu lado negro, porquanto é considerada o local dos Estados Unidos onde mais pessoas se suicidam e o segundo em todo o Mundo. A queda dos que dela se atiram para por fim à própria vida dura, aproximadamente, quatro segundos, a uma velocidade de 120 km/h. Em 2013, 46 pessoas morreram ao saltar da ponte. No ano em curso as autoridades de S. Francisco, após muitos anos de debate, decidiram instalar uma rede anti suicídio.

Rezam as estatísticas, que apesar dos ventos e nevoeiros, desde que foi terminada, a ponte já foi interditada seis vez

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publicado por picodavigia2 às 09:54


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