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TORTAS DE MUSGÃO

Quarta-feira, 15.10.14

Em tempos idos comiam-se na Fajã Grande, com muita frequência, tortas de ovos, algumas vezes simples, outras misturando os ovos com os mais diversos produtos. Era o que acontecia com as chamadas tortas de musgão, feitas com farinha e ovos, a que se juntava a chamada erva patinha, vulgarmente conhecida por erva do calhau ou musgão.

Para as confecionar juntava-se aos ovos batidos com a farinha, nalguns casos, simplesmente aos ovos, o musgão picado, adicionando alguns temperos e às colheradas fritavam-se em banha de porco sendo, geralmente, comidas com bolo do tijolo.

Hoje, estas tortas parecem ter ressuscitado e regressado como prato típico da ilha das Flores.

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publicado por picodavigia2 às 11:08

DOM FREI ALEXANDRE DA SAGRADA FAMÍLIA

Quarta-feira, 15.10.14

Alexandre Ferreira da Silva nasceu na Matriz da Horta, em 22 de Maio de 1737 e faleceu em Angra do Heroísmo, em 23 de Abril de 1818. Foi ordenado presbítero em 1758. Quando professou adotou o nome de Alexandre da Sagrada-Família. Estudou num convento em Brancanes, Setúbal, tornando-se um sacerdote erudito e um orador de fama. De Setúbal rumou a Coimbra e estudou na Universidade, onde se formou em Teologia e Direito Canónico e Civil.

Tornado conhecido na corte, foi provido bispo de Malaca e Timor por D. José I, e sagrado em 24 de Fevereiro de 1783. Todavia não seguiu esse destino mas sim o de Angola e Congo, em 1784, antes de ser executada a bula que o confirmava bispo daquela diocese do Extremo Oriente. No entanto, e devido a desentendimentos com o capitão-general de Angola, o governo português foi adiando, sucessivamente, a execução da bula de nomeação. Desgostoso, Dom Frei Alexandre regressou a Lisboa.

Anos mais tarde, veio juntar-se ao irmão, João Carlos Leitão, juiz de fora, e à cunhada na ilha Terceira. O desejo de prover à situação financeira de parentes e de amigos fê-lo deslocar-se duas vezes ao Brasil a fim de obter do Príncipe Regente benesses que, geralmente, lhe foram concedidas, e o Príncipe elegeu-o bispo de Angra, em 1812, cargo de que só viria a tomar posse em 1816, devido à oposição do cabido angrense.

Tem sido destacada a sua personalidade intelectual e Pedro da Silveira que incluiu em antologia o seu poema «À meninice», considera que «D. Frei Alexandre não é poeta só nos versos, já que de puro poeta é muitas vezes a prosa dos seus sermões e pastorais».

Em 4 de Novembro de 1863, a Câmara Municipal da Horta, presidida por António José Ferreira Rocha, deu o seu nome ao Largo do Paúl, daquela cidade. Era tio de Almeida Garrett, por via paterna. Foi o primeiro bispo de Angra natural dos Açores e o único até à nomeação do atual.

Obras principais: Manuscritas: Cartas a António Ribeiro dos Santos, Diário da jornada para o Loreto, Diário da viagem de Cadiz a Genova, Manifesto justificativo que fez D. Fr. Alexandre Missionario de Brancanes, e bispo de Malaca, a Soberana quando elle se achava governador do Bispado de Angola fazendo as vezes de seu proprio bispo, Notas que se hão-de juntar aos Diários das suas viagens, Noticias de Tibuli extrahidas de Crochiante e de Fabio Croce,. Sermão na Entrada e profissão de hua religiosa, Sermão que pregou na profissão de hua religiosa do Convento de Jesus de Setuval (...) offerecido a Madre Soror Anna ... Religiosa do mesmo Convento, Sermão de Santa Anna, Sermão sobre a penitência.

Impressas: A Alcipe [poesia, com o pseudónimo Sílvio, dedicada a marquesa de Alorna, de quem foi director espiritual]. Cântico de Moisés, Devoção das Dores da Virgem Mãi de Deos por hum seu devoto, Pastoral, Stabat Mater e Historia do culto de Nossa Senhora em Portugal.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 10:46

FILOSOFIA E DEDICAÇÃO

Terça-feira, 14.10.14

O Cipriano Franco nasceu a 13 de Novembro de 1945 na freguesia de São Pedro do Nordestinho, concelho do Nordeste, Ilha de São Miguel e reside, actualmente, em Ponta Delgada. Em 1957 entrou no Seminário de Ponta Delgada, continuando os seus estudos no de Angra, até completar o Curso de Teologia, em 1969, altura em que foi ordenado presbítero. Ao longo do seu percurso no Seminário revelou-se um aluno educado, cumpridor, muito estudioso e dotado de uma inteligência extraordinária, embora a sua humildade o arredasse de protagonismos fantasiosos e exagerados.

Após a ordenação foi colocado como coadjutor na paróquia de Santa Cruz da Praia da Vitória, sendo transferido, anos depois, primeiro para a Salga e, mais tarde, para a Fazenda de Nordeste. Paralelamente, leccionou Língua Portuguesa em escolas do Ensino Oficial. Mais tarde, licenciou-se em Filosofia pela Universidade dos Açores e, em 1996, partiu para Roma, doutorando-se, na Pontifícia Universidade Gregoriana. Ao regressar aos Açores, dedicou-se novamente ao ensino, como professor de História da Filosofia, de Estética e Teologia no Seminário de Angra, onde foi, simultaneamente, Director Espiritual, leccionando, também, História da Filosofia Medieval, no polo angrense, da Universidade dos Açores. Actualmente é Vigário Episcopal da ilha de S. Miguel e coadjutor na paróquia de S. Pedro de Ponta Delgada, cargos, por ele, já exercidos, anteriormente. É o actual presidente do Instituto de Cultura Católica e a ele se deve o facto de a Universidade Católica se ter disponibilizado a se estender, durante algum tempo, à ilha de São Miguel, permitindo a licenciatura em Ciências Religiosas, habilitando, assim, vários leigos e padres para a leccionação da disciplina de E. M. R. C.

Sacerdote, extremamente dedicado, o Cipriano chegou ao Encontro e a Angra revestido duma juventude, duma jovialidade, duma boa disposição e de um espírito de convívio e camaradagem invejáveis. Senhor dum notável acervo de sobriedade e dignidade nos momentos de maior solenidade ou nos encontros destinados à partilha de testemunhos e de reflexão, extravasava uma estravagância alegre e um envolvimento prazenteiro nas horas de convívio e de lazer, que ornamentava com sonoras e sentidas gargalhadas. Passeou, saltou, conversou, recordou, cantou e juntou-se a nós em tudo, com uma vontade sincera e uma satisfação verdadeira. Foi, sobretudo, num dos momentos mais solenes e emotivos do Encontro - a celebração da Eucaristia lembrando os professores e alunos falecidos a que o Cipriano presidiu - que revelou uma inequívoca dignidade, uma solene e profunda simplicidade. Por tudo isso tornou-se mais um dos “Senhores” do Encontro dos Antigos Alunos do Seminário de Angra.

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publicado por picodavigia2 às 22:12

LER

Terça-feira, 14.10.14

“A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde.”
André Maurois

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publicado por picodavigia2 às 15:58

O CAVALO DE SERRAR LENHA

Terça-feira, 14.10.14

Na Fajã Grande a lenha era fundamental na via e nos costumes da população, como que fazia parte do seu quotidiano. Quer o acender do lume, duas ou três vezes por dia, quer o dia semanal, geralmente a sexta-feira, em que se acendia o forno para cozer pão, quer por altura da matança, das festas e de outras ocasiões especiais, usava-se muitíssima lenha, de faia, de incenso, de pau branco, loureiro, sanguinho ou até de cedro ou de queiró. Por vezes até os garranchos de incenso retirados da manjedoura, após as vacas lhe comerem as folhas, bem como os milheiros e os sabugos eram utilizados como lenha.

Uma boa parte da lenha, trazida para junto de casa e armazenada em local próprio, era delgada, pelo que era, facilmente, partida à mão, se seca, ou, simplesmente picada com o machado. No entanto, muita lenha era resultante dos troncos e ramos de grossas árvores, cortadas para o efeito ou abatidas por já serem velhas, pelo que tinha que ser serrada e depois aberta, isto é, feita em lascas, a fim de que coubesse nas grelhas dos lares e, também, para que ardesse melhor.

Antes de ser picada com o machado os grossos troncos tinham que ser serrados em pequenos toros, para o que era necessário, para além da serra, um suporte especial, chamado cavalo de serrar lenha.

O cavalo de serrar lenha era uma estrutura de madeira, simples e primitiva mas muito funcional. Com quatro paus grossos, com cerca de um metro de cumprimento, formavam-se dois xis, sendo que o cruzamento deveria ficar numa das extremidades. Era esta parte que ficava para cima, enquanto as pontas mais compridas faziam de pés. Os xis eram ligados um ao outro, com tiras laterais de modo que tivessem grande resistência. Uma vez colocado em pé, o cavalo, o tronco que se pretendia serrar era colocado sobre os vês voltados para cima e resultantes dos dois xis, de forma a permitir que saísse uma num dos lados, ou seja, o pedaço do pau que se pretendia serrar e cujo tamanho se podia regular.

Na Fajã quase todas as casas tinham o seu cavalo de serrar lenha, construído, geralmente, pelo próprio proprietário. Quem o não tinha, quando precisava, pedia-o emprestado a um vizinho que nunca negava o empréstimo.

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publicado por picodavigia2 às 10:01

SAVE ENERGY

Segunda-feira, 13.10.14

A embalagem do meu novo chá, da Tetley – Cidreira Infusion – com novo visual, nova embalagem, adquirida numa excelente promoção de lançamento do produto num grande superfície, aqui ao lado, junto às instruções traz- um conselho importantíssimo e em que urge pensar:

“Help save energy remember to only boil as much water as you need.”

Na realidade, com este pequeno pormenor de se medir a água antes de a ferver, para além de poupar eletricidade, como é óbvio, também poupamos água.

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publicado por picodavigia2 às 22:50

O PESCADOR E A SEREIA

Segunda-feira, 13.10.14

(JOSÉ JORGE LETRIA)

 

Um dia, quando o mar estava encapelado e ameaçador, veio uma onda e atirou para terra uma bela sereia de escamas reluzentes na metade inferior do corpo e pele muito branca e macia na metade superior. Fosse como peixe, fosse como mulher, era uma criatura invulgarmente estranha e atraente.

Quando recuperou os sentidos, a sereia descobriu que estava deitada em cima duma rocha, não tendo qualquer forma de regressar ao mar, que era o seu meio natural. Fora dele não teria muito tempo de vida.

Apareceu então na praia um jovem pescador que era pobre e triste e que nem dinheiro tinha para comprar um barco e se aventurar nas águas. Como não podia encher as redes de peixe, andava pelas rochas a apanhar mexilhões e caranguejos. Quando cumpria essa monótona tarefa de todos os dias, levantou ligeiramente a cabeça e viu a bela sereia que o olhava, implorando ajuda.

- Quem és tu e o que fazes aqui? – Quis saber o pescador, entre fascinado e amedrontado com tão inesperada visão.

- Eu sou uma sereia do mar e fui atirada para cima desta rocha por uma onda grande e feia que tinha inveja da minha beleza. (…) Se me puseres depressa dentro da água, eu virei todas as semanas, num dia certo, aqui à praia, para trazer-te ouro e prata. Será essa a recompensa do favor que me vais fazer.

O jovem pescador, que era pobre e tinha irmãos mais novos para sustentar, não pensou duas vezes: pegou na sereia ao colo e lançou-a à água, não sem que antes combinasse o dia o dia e a hora em que ela o visitaria todas as semanas.

Durante anos, a bela sereia cumpriu o que prometera. Sempre que se encontrava na praia com o pescador, entregava-lhe quantidades consideráveis de metais preciosas, que ele ia aplicando em negócios vários. Não foram necessários muitos encontros para que ele pudesse considerar-se um homem rico.

Os anos passaram, e o pescador sentiu no corpo o peso da cidade. Envelhecera. A sereia, porém, mantinha-se inalteravelmente jovem e bela, demonstrando pertencer ao mundo das coisas eternas.

Um dia, o pescador, que já possuía casas, barcos, automóveis e outros bens que lhe dariam para viver regaladamente o tempo de várias vidas, interrogou-se: “Será que eu venho à praia todas as semanas para receber a minha recompensa ou para ver a sereia?” Não tardou a perceber que era a presença da sereia e a sua beleza que o faziam percorrer aquele caminho, fizesse chuva ou sol. Ao ouro e à prata, já pouca atenção dedicava. Se um dia ela desaparecesse, a sua vida deixaria de ter sentido.

Apesar de ter muitas pretendentes, o pescador nunca chegou a casar-se, e no dia em que a sereia, considerando cumprida a sua promessa, deixou de aparecer na praia, sentiu que se apoderava dele uma grande tristeza e que nem toda a riqueza do mundo o voltaria a fazer feliz. Para a recordar mandou erguer sobre a rocha, onde muitos anos antes a encontrara, uma bela estátua de bronze, que ali permaneceria como homenagem à sua beleza.

 

José Jorge Letria, Lendas do Mar e da Terra

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publicado por picodavigia2 às 10:12

A MORTE INESPERADA DO NESTOR

Segunda-feira, 13.10.14

O Nestor foi o melhor jogador de futebol, de sempre, da Fajã Grande e fez parte da equipa de futebol desta freguesia, que, nos anos trinta, deu início à prática do futebol, na mesma. Nessa altura, os jogos realizam-se num campo situado no Estaleiro, entre o Porto e o Calhau Miúdo, num serrado que ali existia e que, posteriormente, foi dividido por “malhões” dado que pertencia a três donos: ao Laureano Cardoso, ao António Barbeiro e ao Chileno. Foi esta equipa, de que o Nestor era, sem sombra de dúvida, o melhor jogador, que efetuou o primeiro jogo oficial de futebol, na freguesia mais ocidental da Europa, sendo a partida disputada contra uma equipa das Lajes, o “Nacional Sport Club”, tendo-se realizado no dia 24 de Julho de 1939, data em que o campo também foi oficialmente inaugurado. O clube se chamava-se “Fajã Grande Sport Clube”, equipando com camisola azul e calção branco, o qual originaria, mais tarde, o Clube da Fajã Grande, que revê o seu apogeu na década de cinquenta.

Este e alguns outros jogos fez o Nestor, defendendo as cores do team fajãgrandense. Dizia, quem ainda o viu jogar, que era o melhor jogador de sempre da Fajã Grande. Um excelente avançado centro e um grande marcador, A tragédia, no entanto, havia de o atingir, tendo o Nestor falecido bastante novo e a sua morte deveu-se a um, perfeitamente, evitável acidente ligado ao próprio futebol. Durante um jogo, disputado já no campo das Furnas, a bola terá ido parar ao mar. Como só havia uma, o jogo parou e coube ao Nestor ir buscá-la, para o que teve que se atirar à água. Era Inverno e esta estava muito fria e o Nestor muito suado. O contacto com a água gelada ter-lhe-á provocado uma constipação, seguida de uma pneumonia e depois uma tuberculose que lhe foi fatal.

A sua morte e o acidente que a provocou foram uma enorme tragédia para a freguesia, sendo presente na memória de todos, sobretudo porque prematura e inesperada, durante décadas.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:50

AS SNAIPAS

Domingo, 12.10.14

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, era costume perguntar-se aos outros, sobretudo aos mais tontos e mais distraídos, se iam às snaipas. As snaipas, pura e simplesmente, não eram coisa nenhuma, nem sequer existiam. Era, no entanto, um costume muito frequente, mandar alguém às snaipas. O objetivo era o de confundir o interlocutor, sobretudo se fosse ingénuo. Na Fajã Grande e na ilha das Flores, “Ir às snaipas“ era de alguma forma o equivalente à expressão continental “Ir aos gambozinos”.

Esta palavra, muito provavelmente, terá a sua origem no inglês snipe, espécie de ave com características muito específicas, entre as quais a dificuldade em se deixar caçar, por quanto possui nas suas penas uma camuflagem que lhe permite passar despercebido aos caçadores, nas regiões pantanosas onde têm o seu habitat. Mesmo quando voa, os caçadores têm dificuldade em acertar-lhe. As dificuldades na caça do snipe deram origem uma frase que sugere uma missão de tolos, ou uma tarefa impossível: “Going on a snipe hunt".

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publicado por picodavigia2 às 22:20

OS DOIS PÁSSAROS

Domingo, 12.10.14

(TEXTO ADAPTADO)

 

Era uma vez dois pássaros que viviam numa árvore e contavam histórias. Um contava histórias para meninos que gostam de histórias que acabam mal e outro contava histórias para meninos que gostam de histórias que acabam bem. Todos os dias contavam histórias e viviam muito felizes.

Um dia, chegou à árvore da sabedoria um menino que não gostava de histórias, nem das que acabam bem nem das que acabam mal

Os pássaros da árvore da sabedoria ficaram desorientados. E uniram-se contar ao menino uma história que não acabasse bem ou mal, mas que acabasse assim e assim

E, pela primeira vez, chegaram a acordo sobre o final duma história.

 

Adaptado de um conto dos irmãos Grimm, Contos e Lendas

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publicado por picodavigia2 às 00:06

PALAVRAS, EXPRESSÕES E DITOS UTILIZADOS NA FAJÃ GRANDE (XVII)

Sábado, 11.10.14

Abantesma – Pessoa desajeitada e bruta.

À boca do forno – Em frente `porta do forno quando este está aceso.. As mulheres ficavam muito quentes quando estavam à boca do forno,

Acabado – Envelhecido, doente.

Achado – Objeto encontrado no mar: garrafa, fardo de borracha, boias, bolas de vidro, etc.

Babosão – Pessoa que diz asneiras.

Bijagodes – Simplório. Pessoa sem importância.

Bordejar – Passear de barco junto à costa.

Calafate – Forma de amarrar o lenço com as pontas atadas atrás da cabeça, a fim de não deixar cair cabelos quando se amassava o pão ou o bolo.

Cambrela – Queda., trambolhão.

Caneca da merda – Recipiente de madeira guardado na retrete e destinado a receber as fezes humanas.

Canela fina – Canela em pó, moída.

Desinçar – Arrancar ervas daninhas de entre as plantações

Dia Forrado – Dia coberto de denso nevoeiro.

Esprim – Mola.

Estrambólico – Fora do normal, extravagante.

Fisgote – Ferro pontiagudo para apanhar polvos.

Focho – Pequeno pedaço do ramo de uma árvore. Pequeno pau..

Fuderente – Depreciativo de criança. Pessoa fraca e com pouco valor.

Gadelha – Cabelo comprido.

Ganhoa – Gaivota.

Gueste – Grande festa.

Injarroba (botas de) – Borracha (Botas de borracha).

Mal amanhado – Desajeitado. Mal feito.

Mamulão – Grande inchaço.

Marquinhas – Diminutivo de Maria, atribuído a mulheres de mais idade.

Marrã – Porca.

Marvalha – Cisco de madeira que entra nos olhos. Ripa de madeira.

Matéria – Pus amarelado das feridas

Mecha – Fósforo.

Meio dia rachado ou está rachando meio dia – Meio dia em ponto.

Ovelhas (do mar) – Espuma branca das ondas do mar quando este está crispado, (Na Fajã Grande, junto ao mar, havia um local chamado Rolinho das Ovelhas.

Paspanão – Grande parvo.

Raite – Passeio.

Rezingar – Chorar sem razão, barafustar sob a forma de choro.

Sirigaita – Rapariga pequena e desavergonhada.

Ter bico doce – Ser muito guloso.

Testos – Pratos de metal sonante que os foliões usam para acompanhar o tambor.

Toitiço – Cabeça.

Trouxa – Pessoa desajeitada.

Uma Niquinha - Muito pouco.

Uma pisquinha – Pouco, quase nada

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publicado por picodavigia2 às 09:13

EDUARDO BRUM

Sábado, 11.10.14

Eduardo Jorge da Silva Brum nasceu em Rabo de Peixe, ilha de S. Miguel, em 10 de Setembro de 1954. Estudou no Seminário de Angra durante nove anos, mas desistiu do sacerdócio e abandonou aquela instituição em 1974. Estudou algum tempo na Faculdade de Direito de Lisboa, participando na agitação política da época, integrado num grupo do MRPP.

Emigrou para os Estados Unidos da América, onde viveu na Nova Inglaterra durante cinco anos. Aí começou a escrever, primeiro, poesia e depois ficção, usando o pseudónimo de Vital Furão. Regressou a Portugal em 1980 vivendo em Lisboa, voltando à Universidade, mas desistiu de viver na capital e em 1989 regressou a Ponta Delgada, decidido a fundar uma empresa de publicidade. Abraçou o jornalismo, fundou um jornal, o Jornal de Ponta Delgada, mais tarde transformado em Jornal de S. Miguel e depois ainda em Expresso das Nove. É hoje, certamente, o mais conhecido jornalista açoriano, praticando um jornalismo de investigação e de crítica. É um crítico impiedoso da sociedade, dos meios literários e um defensor acérrimo das minorias e das marginalidades.

A sua poesia, que abandonou, é essencialmente experimentalista e de combate e a sua ficção, a que se dedica cada vez mais, segue a mesma linha, tendo como tema o homem, a liberdade e as difíceis relações entre as pessoas.

As principais obras literárias são: Viviana o Princípio das Coisas, O Beijo, Sem Coração e Amor Com Sapatos.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 08:42

PRESSA LENTA

Sexta-feira, 10.10.14

“Em tudo o que fizeres apressa-te lentamente.” (C. Augusto)

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publicado por picodavigia2 às 11:22

MOMENTO

Sexta-feira, 10.10.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

A baía, o Monchique o outeiro, as casas…

Batidas do vento as canas são vagas verdes.

 

Mas o que eu vejo não é a paisagem, bela ou feia.

 

O que eu vejo

são estas mulheres vestidas de preto,

o rosto escondido num lenço preto,

as mãos deformadas de cavar a terra.

Novas, velhas, sem idade.

 

Sem culpas nem pecados

Resignadas.

 

Pedro da Silveira

 

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O CORVINO

Quinta-feira, 09.10.14

Corvino é o nome do bote baleeiro adquirido pela Câmara Municipal do Corvo, é que e obra de Tomaz Vieira, construído na ilha do Pico, após uns meses de muito trabalho, além disso envolvendo muitas outras pessoas, algumas delas especialistas na arte de construção naval. O bote em questão, agora guardado em recinto construído para o efeito, arqueia o nome de “O Corvino”, cuja construção data de 1965, tendo como oficial de construção José Vieira Goulart, mais conhecido por José da Ponta, que era oficial baleeiro (mestre da arrais) e que era um artista multifacetado, tendo entre as suas artes e ofícios: músico, maestro, regente, pedreiro, carpinteiro, baleeiro, etc.

 “O Corvino” ancorou na ilha do Corvo, faz agora precisamente um ano, com toda a dignidade e verticalidade, próprias de quem exemplarmente levou uma vida de maresias, com a balouçante faina à baleia que durante décadas foi responsável pela sobrevivência de muitas famílias em muitas das nove ilhas açorianas e pode ser visitada no centro da Vila do Corvo, na Casa do Bote.

A aquisição do Corvino pela edilidade corvense é, de veras, uma iniciativa de grande interesse histórico e cultural, dada a importância que a baleação teve em todas as Ilhas dos Açores, incluindo a mais pequena, o Corvo.

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publicado por picodavigia2 às 11:00

TELHA CANDELHA II

Quinta-feira, 09.10.14

Una, Dulha, Telha, Candelha, Semeca Marreca, Velha Velhão Cabeça de leão Já dez Aqui estão

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publicado por picodavigia2 às 09:55

MEALHEIRO DE OUTUBRO

Quarta-feira, 08.10.14

“Em Outubro vai ao celeiro e enche o mealheiro.”

Significativo adágio este, utilizado na Fajã Grande e a querer lembrar que Outubro é o mês após as colheitas em que há abundância de produtos agrícolas. A palavra celeiro, no entanto, nunca foi usada na Fajã Grande, com o sentido de local onde se guardam as colheitas agrícolas, nem com nenhum outro sentido. Na Fajã as maçarocas de milho guardavam-se, cobertas com a casca e presas em cambulhões, no estaleiro, Se descascado, o milho era guardado em cestos ou sacos nas casas velhas ou de arrumos, sendo, por vezes, pendurado nos tirantes da cozinha que geralmente não eram forradas. Isto prova que este provérbio terá sido importado ou trazido pelos primeiros povoadores.

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publicado por picodavigia2 às 11:01

NO ENSAIO

Quarta-feira, 08.10.14

Há sempre

Alguém que desafina

Há sempre

Alguém que se perde (na pauta),

Há sempre

Alguém que destoa,

Há sempre

Alguém que se apaga…

 

Mas o maestro,

sábio,

pachorrento

e dócil,

corrige,

repete,

ensina

e afina.

 

E, em êxtase de glória

surge

diatónica

telúrica

e pétrea,

a harmonia.

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publicado por picodavigia2 às 00:02

PEIXE DE ÁGUAS TROPICAIS ENCONTRADO NA FAJÃ GRANDE, ILHA DAS FLORES

Terça-feira, 07.10.14

Há tempos foi um pássaro, desta feita um peixe. Na verdade, parece haver sempre algo de estranho e diferente nestas magníficas e sui géneris ilhas do grupo ocidental açoriano no atlântico norte. De facto alguns órgãos de comunicação açorianos assim como o Forum Ilha das Flores anunciaram que investigadores da Universidade dos Açores e da Universidade de Estugarda, em conjunto, estão a estudar o aparecimento de um peixe de águas tropicais e subtropicais ao largo da ilha das Flores. O peixe com 14,84 kg, cuja espécie ainda não foi identificada, foi capturado na tarde do dia 30 de Julho, numa cavidade de uma baixa da costa da Fajã Grande, a cerca de 10-12 metros de profundidade, pelos caçadores submarinos Pedro Lima e Sílvio Gonçalves.

Nem os caçadores, nem os pescadores da zona conseguiram identificar a espécie, concluindo que se tratava de uma captura inédita. Através de pesquisas na internet foi possível perceber que se tratava de um peixe do género pargo-luciano, mas a espécie em concreto ainda está a ser estudada pelos investigadores João Pedro Barreiros, João Gonçalves e Ronald Fricke, que se preparam para publicar um artigo sobre esta matéria numa revista da especialidade.

Segundo João Pedro Barreiros, há duas hipóteses que podem justificar o aparecimento deste peixe adulto nos mares dos Açores, mas a resposta exige uma monitorização dos investigadores: “Pode ser uma ocorrência esporádica ou pode ser que haja mais indivíduos já instalados”, explicou. É por isso que já foi lançado um apelo aos caçadores submarinos para que estejam atentos ao aparecimento de espécies diferentes.

Este ano, outro peixe deste género foi apanhado nas Canárias e pouco tempo depois foi capturado este nos Açores”, frisou o investigador. Esta foi a primeira vez que se registou um peixe desta família na Região, mas não é a primeira vez que aparecem espécies de águas tropicais. Ainda assim, segundo João Pedro Barreiros, é especulativo falar de um eventual processo de “tropicalização faunística”. Por isso, é preciso continuar a monitorizar as espécies que existem no mar dos Açores, até para “conhecer melhor a biodiversidade marinha”.

 

Dados retirados do Forum ilha das Flores e jornal Correio dos Açores

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publicado por picodavigia2 às 07:07

NOVO LOOK DO SAPO

Terça-feira, 07.10.14

Anunciava-se há muito que aí vinham mudanças. Radicais! Mesmo assim surpreendeu, e até confundiu um pouco, quando o Sapo, na madrugada da quinta-feira passada, se apresentou com uma nova imagem, nova homepage, novos conteúdos, nova ajuda e novos Blogs. A mudança naturalmente trouxe alguma desorientação perante tantas e tão imprevisíveis novidades. Mas os utentes, no geral alegraram-se e ufanaram-se e assim, em muitos blogs, houve declarações de amor ao novo logotipo do Sapo, elogios ao novo editor e a uma nova área de Leituras. O Sapo também se apresentou-se, no mesmo dia, com um novo look para os blogs, mas mais para os próprios autores do que para os visitantes, uma vez que a apresentação ao público apenas sofreu pequenas alterações, tais como a mudança de logotipo e novos templates. O que, também, mudou substancialmente foi a área de gestão redesenhada, agora, em moldes diferentes e, pelo menos para os utilizadores mais experientes, mais fácil de utilizar em todos os dispositivos, repleta de novidades ao nível da Edição e Personalização. Para além de tudo isso inclui um novo design para os blogs.

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publicado por picodavigia2 às 00:52

O PINHEIRO VAIDOSO

Segunda-feira, 06.10.14

Era uma vez um pinheiro que não estava satisfeito com a sua sorte. ”Oh! dizia ele, como são horrendas estas linhas uniformes de agulhas verdes, que se estendem ao longo dos meus braços! Sou um pouco mais orgulhoso do que os meus vizinhos, e sinto que fui feito para andar vestido de outro modo. Ah! Se as minhas folhas fossem de oiro.”

O Génio da montanha ouviu-o, e no dia seguinte pela manhã acordou o pinheiro com folhas de oiro. Ficou radiante de alegria, e admirou-se, pavoneou-se todo, olhando com altivez para os outros pinheiros, que, mais sensatos do que ele, não invejavam tão rápida fortuna. À noite passou por ali um judeu, arrancou-lhe todas as folhas, meteu-as num saco e foi-se embora, deixando-o inteiramente nu dos pés à cabeça.

“Oh! disse ele, que doido eu fui! Não me tinha lembrado da cobiça dos homens. Despiram-me todo. Não há agora em toda a floresta uma planta tão pobre como eu. Fiz mal em pedir folhas de oiro: o oiro atrai as ambições.”

“Ah! Se eu conseguisse um vestuário de cristal! Era deslumbrante e o judeu avarento não me teria despido.”

No dia seguinte acordou o pinheiro com folhas de cristal, que reluziam ao sol como pequeninos espelhos. O pinheiro ficou outra vez todo contente e orgulhoso, fitando desdenhosamente os seus vizinhos. Mas de repente o céu cobriu-se de nuvens e o vento rugindo, fortemente, quebrou todas as folhas de cristal.

“Enganei-me outra vez, disse o jovem pinheiro, vendo por terra, feito em bocados, o seu manto cristalino. O ouro e o cristal não servem para vestir bosques. Se eu tivesse a folhagem acetinada e tenrinha das aveleiras, seria menos brilhante mas viveria descansado.”

Cumpriu-se a sua última vontade e, apesar de ter renunciado às vaidades primitivas, julgava-se ainda mais bem vestido do que todos os outros pinheiros seus irmãos. Mas passou por ali um rebanho de cabras, e vendo as folhas tenrinhas e frescas, comeram-lhas todas sem lhe deixar uma única.

O pobre pinheiro envergonhado e arrependido, já queria voltar à sua forma natural. Consegui ainda este favor do Génio da montanha e nunca mais se queixou da sua sorte.

Guerra Junqueiro, “Contos Para a Infância”

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publicado por picodavigia2 às 10:33

DEBUTANTE

Segunda-feira, 06.10.14

MENU 55 – “DEBUTANTE”

 

ENTRADA

Galetes de arroz recheadas com atum de conserva, com cebola, pimentos, alho, salsa e hortelã, envolvidos com creme de queijo fresco de ervas aromáticas e um pouco de maionese, salpicadas com alface picada.

 

PRATO

 

Peixe com pipetes, cenoura, pimentos, cebola e alho com creme de queijo fresco e doce de pimentos vermelhos.

 

 

SOBREMESA

 

Rodelas de ananás, com gelatina de pêssego e suspiros..

 

******

 

Preparação da Entrada: Picar finamente todos os elementos do recheio e juntar o creme de queijo e a maionese. Misturar muito bem, parar as galetes e cobrir com tirinhas de alface.

Preparação do Prato – Cozer o peixe e a massa. Refogar juntamente com a cebola e o alho, os pedacinhos de pimentos e a raspa de cenoura. Juntar o creme de queijo e envolver. Empratar, regando com pequenas colheradas de doce de pimentos vermelhos.

 

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:09

ESTRANHOS BARRIS

Domingo, 05.10.14

Corria o ano de 1884. Vinte e três anos antes, uma das canoas baleeiras então existente na Fajã Grande caçara, pela primeira vez, uma baleia na ilha das Flores, a qual rendeu 80 barris de azeite vendidos para o Faial, Por essa altura, terminara a construção da Casa do Espírito Santo de Baixo e, mais importante do que tudo isso, o lugar da Fajã Grande, juntamente com os lugares da Ponta e da Cuada, fora elevado a paróquia e a freguesia.

Numa manhã escura e enevoada de Março desse ano, a freguesia foi alarmada por um acontecimento estranho. Uma enorme quantidade de barris de petróleo, durante a noite, havia dado à costa, enxurrando toda a zona do Canto do Areal, desde a Poça das Salemas até à Rocha do Pico. Inicialmente intrigada e sem saber o que fazer, a população depressa se apercebeu de que, muito provavelmente, se tratava dos despojos de um navio naufragado e que possivelmente se havia afundado, deixando, ao sabor das ondas, uma parte da sua carga. Algumas pessoas muniram-se de vasilhame diverso, no qual recolheram todo o petróleo que puderam, enquanto outras, sem sucesso, tentavam levar os barris cheios para as suas casas. Cedo porém chegaram as autoridades, incluindo a guarda costeira, nomeadamente os militares dos fortes do Estaleiro e do Vale do Linho, impedindo que continuassem a recolher mais petróleo. Os barris foram guardados e levados para Santa Cruz, sendo leiloados.

Quatro anos antes, ou seja em 1880, no mês de Junho, já haviam aparecido nos baixios da Fajã, alguns barris semelhantes, mas em pequena quantidade, não sendo possível trazê-los para terra. Mas nessa altura, porém, foram retirados do mar muitos paus de pinho, alguns dos quais foram guardados pelos homens que os retiraram do mar. sendo posteriormente usados na construção de algumas habitações.

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publicado por picodavigia2 às 08:40

O MAR, SEMPRE

Sábado, 04.10.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

 

Água: mar: lonjura…

Sangue e força

da vida!

Meu caminho às avessas,

desaguado em terra.

 

Não reneguei.

Hei-de tornar.

 

Pedro da Silveira in fui ao mar buscar laranjas

 

 

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publicado por picodavigia2 às 17:12

EXCELSO

Sábado, 04.10.14

MENU 54 – “EXCELSO”

 

ENTRADA

Migas de pimentos com requeijão, hortelã, ervas aromáticas e compota de pimento vermelho

 

PRATO

Supremos de pescada no forno com sumo e raspa de laranja, hortelã e mel.

Noisets com molho de cebola, alho, salsa e azeite com grelos salteados em alho.

 

SOBREMESA

 

Pera cofitada em compota da mesma, suspiro e gelatina de pêssego.

 

******

Preparação da Entrada: Regar o pão desfeito com caldo onde entre outros se tenham cozido, parcialmente as tiras de pimentos verde, amarelo e vermelho. Reduzir a puré e temperar com uma colher de creme de queijo de ervas aromáticas. Empratar com tiras de requeijão intercaladas com montículos da compota de pimento vermelho.

Preparação do Prato – Misturar a raspa e o sumo da laranja e marinar, nesse molho, a pescada, depois de ligeiramente cozida. Levar ao forno. Levar também ao forno as noisets e cobri-las com o molho. Cozer os grelos, picá-los e salteá-los em azeite e alho. Juntar ao caldo, para o engrossar, um pouco de maisena dissolvida em ága e formar um milho espesso. Empratar, colocando folhas de hortelã sobre o peixe

Preparação das Sobremesas – Tradicional  e empratar dispondo a pera alternada com a gelatina, ao redor do suspiro.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 14:54

O PROMONTÓRIO DOS COXOS (EM SÃO CAETANO)

Sexta-feira, 03.10.14

Caminho sem destino, ilha fora, em direção incerta. Emerjo de entre uma floresta jovem, repleta de faias, incensos, urzes, sanguinhos e paus-brancos, entrelaçados com figueiras raquíticas e abandonadas. Encontro o mar, num vai e vem contínuo e caricioso, de ondas suaves e maviosas, a baterem nos baixios e escolhos, que do alto do miradouro avisto. O espetáculo, encafuado numa paisagem maravilhosa, é belo, doce e sublime. Ao redor o silêncio dos rochedos negros e o odor das figueiras a definharem, amordaçadas e perdidas entre silvados arrogantes. Apenas o mar domina o mundo, ligando-o ao universo do silêncio, quebrado pelo esvoaçar erótico das gaivotas em cio. Lá longe, muito longe, um pequeno ponto entre o céu e o mar - um barco a perder-se no horizonte - reflete, num mítico raio de luz, sonhos duma esperança infinita e enigmática.

Desiludido com o inatingível do distante, concentro-me na inflexibilidade do perto e procuro a pujança duma visão rígida, serena e real. Este mar não pode ser feito só de espuma amordaçada, nem de ondas entontecidas, nem de reflexos de raios de sol perdidos no horizonte. Neste mar de ilha há uma rigidez tremenda, uma força telúrica, jatos de lava adormecida, rochedos que as gaivotas escolheram como habitat. O mais mítico e emblemático de todos é o metamorfoseado em promontório, a que deram nome dos Coxos, a emergir do seio da ilha, como se fosse um falo, na sua exuberância pubescente.

Já o vira inúmeras vezes quer como ubérrimo e fertilíssimo recanto de pesca, quer como inexaurível e indelével marco de um roteiro, sob a forma de trilho tortuoso e íngreme, mas inebriante e sonhador. Nessa altura evitei as palavras que agora me são ditadas pela emoção de ter emergido do meio daquela floresta, outrora inexistente, resultante da desertificação dos vinhedos primitivos, originais e puros, agora florescente, cativante e atrativa mas sem utilidade ou proveito. Emoção forte e vibrante, conjugada com a serenidade do oceano.

As lembranças envolvem-me como sonhos suaves duma história apenas contada mas que não deixa de ser verdadeira, somente por não ser escrita. Os rumores do passado reclamam ali, outrora, um cais natural, desenhado no recorte das falésias, patrocinado pela rigidez milimétrica das formas, estampado nos posicionamentos da lava basáltica. E assim, na inebriante penumbra das escarpas enegrecidas, vejo, como se existissem, vultos de homens de albarcas, calças de cotim e chapéus de palha, a subir e a descer, a carregar pipas de vinho, molhos de lenha, sacos de trigo, rolos de couro, o que a terra ressequida mas trabalhada produzia. Lá em baixo, batelões vazios, à espera de serem carregados com todo aquele entulho lávico e que depois partem na direção do Faial: pão, vinho, bolo do forno, peixe salgado, fruta, e uma ou outra garrafa de bagaço. Tudo rasteja e se esgana por entre as pedras negras, tingidas com excrementos de gaivotas.

Nunca me sentei sobre o rochedo dos Coxos, saboreando o prazer da sua essência, ou circulando os rebordos das suas extravagâncias, mas postei-me ali, tantas e tantas vezes, sonhando como se tivesse partido para terras distantes. Para lá do oceano, há uma América imensa e sempre sonhada. Há os que, prisioneiros do sonho partiram na luta por uma vida melhor. Apenas sorvem, nos momentos em que filtram o barulho das festas e o tédio do trabalho, a saudade, imensa, infinita e perene da sua ilha.

Volto ao promontório e observo-o, na sua magnífica e vivencial exuberância. Dali terão partido baleeiras americanas, a abarrotar de fugitivos, calejados com a rudez da lava, abalroados pelo cheiro do enxofre, sufragando uma insustentável coragem de enfrentar a aventura do sonho, onde tudo é tido e possuído. Mas hoje definharam todos os sonhos nos abismos deste rochedo/promontório, onde há a magia necessária para tentar construir um futuro sustentável, apesar de inverosímil e cerceado pelas agruras do destino. A proposta, apresentada à edilidade, de ali se construir um marco turístico e histórico já foi engavetada. Cuidei que era o dono deste rochedo, que o envolvia num cometimento ousado e perturbador, que o purificava do abandono e o edificava como baluarte eterno e infinito dos meus sonhos de deficitário pescador ou caminhante perdido. Sou descendente de sonhos naufragados, destruídos pela lava dos vulcões, mas sou herdeiro dos que tentam preservar as memórias não escritas, dos que decalcam a tradição, dos que despejam, em vasos de terra adubada, as lendas que se perderam ao desbarato.

Não sei se no promontório dos Coxos, existem vestígios de tesouros, colónias de recifes multicolores, restolhos de navios naufragados ou magia de destinos perdidos. Mas nas forças lávicas dos seus laredos existem lendas e memórias vivas de um passado escrito com lágrimas, embalsamado com sofrimento, galvanizado de honra e dignidade.

E se de nome ouve assim, talvez a sua génese esteja gravada na gesta dos que ali, sob o olhar e proteção de Santa Catarina que ainda hoje o espreita pela janela da sua capelinha, subiam e desciam, vergados às estravagâncias da lava vulcânica, a coxear, não porque fossem “coxos” mas apenas e tão só, porque pareciam “coxos”, devido aos pesados carregamentos que transportavam e às íngremes agruras do trilho. Nem sempre o que parece é.

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publicado por picodavigia2 às 09:02

O CEDRO

Quinta-feira, 02.10.14

O cedro era uma das árvores mais comuns na ilha das Flores, não apenas nos matos da Fajã Grande mas também por quase toda a ilha, tendo, inclusivamente, dado origem ao nome de uma das suas onze freguesias da ilha. Era sobretudo nas zonas da Água Branca, Burrinha, Pontas Brancas, Morro Alto e muitas outras que proliferava o cedro, perfumando os ares com os aromas das suas flores, pintando a paisagem com o verde das suas folhas e o castanho, revestindo rochedos e ravinas, cobrindo a ilha de uma inabalável beleza e de uma inebriante rigidez. Ontem como hoje o cedro, inclusive a nível mundial, é considerado uma das árvores mais bela, mais graciosa e de grande desenvolvimento, em quase todas as regiões do universo. A sua utilidade prende-se, especialmente, com a qualidade da sua madeira e do seu fácil desenvolvimento, como árvore de grande porte, podendo atingir cerca de 30 metros de altura. As suas flores são brancas e originam um fruto muito característico, as bagas que apenas tem utilidade de embelezamento. Pelo contrário, a sua madeira, para além de um delicioso cheiro, tem grande utilidade, sendo empregada em trabalhos de marcenaria de luxo e obras de entalhe, assim como na construção naval. Na Fajã era muito utilizada em móveis e utensílios agrícolas, sobretudo cangas, rodas de carros e rabiças de arados, devido à forma, por vezes sinuosa, do seu tronco bem como pela sua rigidez. Também muitas imagens religiosas e não só são esculpidas em cedro. Os charutos são envolvidos numa película finíssima de cedro, para tomar-lhe o aroma, e as caixas que os contém são confecionadas com esta madeira. O cedro ainda tem uma outra importante utilidade industrial, porquanto uma parte da sua madeira, submetido à destilação, fornece óleo – óleo de cedro. A bíblia refere com religiosidade os cedros do Líbano. Infelizmente, a ilha das Flores, em termos de exportação, nunca beneficiou tanto quanto era de esperar da sua riqueza em cedros, exportando-os. No entanto há relatos de que as Flores terá exportado madeira de cedro para a Terceira e que a madeira do teto da igreja de S. Francisco na cidade da Horta, também seria originária de cedros da maior ilha do grupo ocidental açoriano. O cedro ainda é considerado uma espécie com alto potencial para reflorestamento, seja para restauração de ambientes degradados, sequestro de carbono, paisagismo ou plantios com fins econômicos, devendo o plantio ser feito misturando-se o cedro com outras espécies, de preferência também nativas, dependendo da finalidade do plantio. O seu nome científico é Cedrela Fissilis Vell e apresenta espécies, como o cedro rosa, cedro vermelho, cedro branco, cedro batata, cedro-amarelo, cedro-cetim, cedro –da –várzea. Na Fajã Grande, o cedro, de tão abundante que era, também era utilizado como lenha, sendo cortado no mato e atirado pela rocha através das vergas ou arames. Era com troncos de cedros que os transeuntes entre a Fajã e Santa Cruzam jangadas para atravessar a Caldeira da Água Branca, com o objetivo de encurtar e descansar. A fama dos cedros das Flores, outrora, foi tal que consta que, em 1800, por aviso régio, a rainha D. Maria I, ordenou que o Capitão General remetesse ara o reino um caixote com sementes de cedros produzidos na ilha. Consta que as ordens foram cumpridas.

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publicado por picodavigia2 às 16:50

NONSENSE

Quarta-feira, 01.10.14

Lá vem nascendo a Lua,

Redonda como uma bengala.

Quem se deita em camas curtas

Acorda com os pés de fora.

 

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publicado por picodavigia2 às 23:13

ALBUM DA CASA MIMOSA

Quarta-feira, 01.10.14

Um Álbum comemorativo do século e meio do Seminário de Angra, num excelente layout, formato quadrangular, ótimo papel, publicado pelo Instituto Açoriano de Cultura de Angra do Heroísmo. Colaboraram 40 autores, quase todos antigos alunos do seminário, dos quais três assumiram a coordenação do projeto que optaram por narrativas de experiências e testemunhos pessoais, e naturalmente estabeleceram a dimensão da colaboração, 240 páginas e fizeram a seleção fotográfica. Resultado, uma coletânea  com muito interesse e relevância para os Açores, no entanto, o espaço cedido a certas divagações particulares poderia ter dado lugar a um olhar retrospetivo mais abrangente, incluindo a situação política-religiosa dessa altura, na minha opinião, merecedora de uma honesta e sincera apreciação. Numa obra deste género em que fomos construtores e protagonistas dum momento histórico bastante consequente, teria sido apropriado e creio mesmo útil um olhar intrépido ao desempenho do nosso papel, embora uma autoavaliação, quase sempre, corra o risco de ser preconceituosa. No entanto, com cerca de meio século de distância, seria mais que suficiente para um olhar imparcial sobre o que se passou e nos marcou para todo o sempre, e que até contribuiu para que a gente dos Açores fosse o que é hoje. Se investigarmos atentamente estas duas décadas, 50-70, o Seminário de Angra apesar da sua influência incontestavelmente positiva no meio ambiente açoriano, não deixou de ser bastante indiferente, mesmo cúmplice no consórcio igreja-estado que marcou profundamente a segunda metade do século XX.

O espólio intelectual, cultural, musical e artístico da história do Seminário de Angra que o Álbum bem expressa poderia ter sido mais completo e útil com uma componente política/religiosa que nessa altura pesava sobre todo o país e também sobre a Igreja Católica pré e pós-conciliar. Uma região e um país subjugados a uma longa ditadura e a uma cruel guerra colonial, e uma igreja que continuava a rezar em latim, voltada para a parede e de costas para o povo, alimentando-se, sobretudo, da devoção de Fátima e do medo do inferno. Consciente ou inconscientemente, o assunto passou ao lado do Álbum.

Nesse cenário político e religioso que se viveu em Portugal e nos Açores, entre as muitas vítimas do regime político-religioso, não quero deixar de relembrar o grande homem e padre, já falecido há 10 anos, o Dr. Manuel António Pimentel que, neste capítulo, deu corajoso testemunho de vida, que muitos outros não tiveram coragem para o fazer. Nessas duas décadas, a todos os níveis da hierarquia eclesiástica portuguesa havia advertências e ameaças ao clero, para que se mantivesse à margem do problema, e poucos foram os que tiveram a coragem para desobedecer. Eu ainda me lembro bem das admoestações do próprio cardeal patriarca de Lisboa, nas suas passagens frequentes pelo Colégio Português de Roma, nos anos do Concílio Vaticano II, afirmando que não permitiria que padre algum criticasse o bom entendimento entre a igreja e estado em Portugal, pois ele próprio era um crónico subserviente ao Estado Novo. A própria tese de doutoramento em filosofia do então reitor do colégio, e a seguir bispo do Funchal e de Coimbra em destaque na biblioteca, versara o pensamento político de Salazar!

Ao regressar de Roma em 1965, fui, no meu primeiro e único ano letivo do Seminário Maior de Angra, nomeado prefeito dos teólogos, professor de Teologia Moral e de História do Cristianismo. Deixei de lecionar pelos compêndios tradicionais e desatualizados das respetivas disciplinas e passei a dar as aulas pelas minhas sebentas pessoais; eliminei igualmente o cargo do intermediário das compras da prefeitura dos teólogos, e em sessão de conjunto com os alunos da prefeitura pusemos fim ao cofre dos dinheiros comuns, ficando cada teólogo responsável pelas suas contas pessoais, livros, material escolar e propinas, etc. Pela primeira vez, celebrámos em convívio festivo e agradável, a passagem do velho para o novo ano civil, à meia noite, com champanhe e música. (Ninguém se embriagou ou atentou contra a dignidade da instituição!)

E ainda mais, e com gravidade acrescida, tomei a ocasião para anunciar que a minha resolução pessoal para o novo ano de 1966, seria não tomar parte no Te Deum de ação de graças ao Estado Novo que todos os anos se celebrava na Sé de Angra com missa solene e sermão, deixando à liberdade de consciência dos alunos a mesma prerrogativa. O pregador, antigo professor e então colega do seminário nunca mais me falou e o bispo, no fim do ano letivo, ofereceu-me o passaporte para o Seminário-Colégio de Santo Cristo, em Ponta Delgada, onde exerci os últimos anos da minha docência e do meu múnus sacerdotal, nos Açores.

Apesar de tudo, já estava bem consciente de que teria sido muito mais cómodo, olhar para o lado, fazer que não via e prosseguir o carreirismo eclesiástico!

 

 

Caetano Valadão Serpa, Ph. D.

Boston, Massachusetts  

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publicado por picodavigia2 às 09:27


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