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Nº 29 JOAQUINA

Quinta-feira, 20.11.14

“Aos septe dias do mez de Novembro do anno de mil oitocentos e noventa, nesta egreja Parochial de São José da Fajã Grande, concelho das Lages, ilha das Flores, Diocese de Angra, baptisei solenemente um indivíduo do sexo feminino quem dei o nome de Joaquina, e que nasceu nesta freguezia ás cinco horas da tarde do dia dois do dito mez e anno filha legítimo primeiro do nome de José Maria de Souza, jornaleiro e de Maria José Theodósio, serviço doméstico, naturaes, recebidos, parochianos e moradores no logar da Quada, neta paterna de avô icógnito e de Maria de Jesus e materna de Francisco António Vallente e de Anna de Jesus. Foi padrinho José António de Freitas Lourenço casado proprietário e madrinha Joaquina Emília da Glória, casados, proprietários, os quais todos sei serem os próprios. E para constar lavrei em duplicado este assento e que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, comigo assigna a madrinha e não assignando o padrinho por não saber escrever. Era ut supra.

Joaquina Emília da Glória (assinatura)

Adiante vai paga a estampilha fiscal o valor de cem reis devido por este assento.

O Vigário Francisco José Constantino Flores”.

Este é o registo de batismo da minha avó materna Joaquina Fagundes de Sousa. À margem do assento foi averbada a seguinte nota:

“Não vae selado por falta de meios dos interessados e por terem sido gratuitos os actos a que este assento se refere. C. Flores.”

O documento encontra-se, juntamente com milhares de outros, respeitantes às paróquias açorianas, guardados no site da Secretaria Regional da Educação e Cultura – Cultura Governo dos Açores – Inventário Genealógico, onde estão reproduzidas cópias dos assentos paroquiais até 1910, altura em que os nascimentos passaram a ser feitos no Registo Civil.

Neste ano de 1890, nasceram na Fajã Grande trinta crianças, dez do sexo masculino, com os nomes de José dez, Augusto, Manuel, João, Fernando e Francisco As outras vinte crianças eram do sexo feminino e dezasseis receberam o nome de Maria. Às restantes foram postos os nomes de Joaquina, Clara, Ermelinda e Ana

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publicado por picodavigia2 às 20:52

VIRGEM

Quinta-feira, 20.11.14

Imaculadamente virgem, Aurora saiu de casa dos pais, com destino à igreja. No altar, esperava-a o padre Silvestre, o Chico do Ferreiro e uma enorme angústia.

Chegara a hora de se aviar a piquena. Era a mais velha e a casa do Rebimbas rebentava pelas costuras. Filhos e filhas, a roçar a dúzia, atarracavam-se em disputas e desejos incontidos, atropelavam-se nos dias invernosas e, à noite, sobretudo na hora de lavar os pés, ameaçavam-se reciprocamente, em murmúrios desgovernados e hostis. Um sufoco!

Primogénita, agora com vinte e dois, Aurora era a candidata natural ao primeiro desbasto e, desde há muito, que o Chico do Ferreiro lhe catrapiscava o olho. Ela nada. Aquela pasmaceira, indiferente e fria, habituada ao trabalho, educada entre rezas e jaculatórias, alheia aos mais simples prazeres da vida. Virgem de corpo e ingénua de alma entendia que casar era um destino normal e comum, mas sem significado e importância. Era como ir lavar um cesto de roupa à Ribeira. Casar era, apenas, partilhar a casa com um homem, cozinhar, lavar, arrumar, ter filhos e ajudar nos campos. Pior. Casar era um martírio, um sacrifício, uma ignomínia a roçar a indignidade.

Simples a cerimónia, pobre a boda. Os tempos eram de miséria e a vida cerceada por limitações. E à noitinha, depois de desertarem os convidados, lá partiu Aurora, com o Chico, a caminho da Via d’Água, onde lhe haviam montado um pequeno, pobre e humilde casebre.

Aurora acendeu o lume, aqueceu água, lavaram-se à vez, na cozinha, numa selha de madeira, e deitaram-se. O Chico, ainda tentou uma, duas e três vezes, procurar-lhe o corpo, acariciando-lhe as mãos e os braços nus. De seguida, galvanizado pela suavidade daquela pele, acicatado pela doçura daquele corpo, incendiado por desejos lascivos, tentou afagar-lhe os seios. Aurora, de imediato, se esquivou, apavorada, expelindo uma inequívoca rejeição. Nem por sombras havia de se deixar ser tocada por um homem. O Chico insistiu. Mas as respostas vinham sempre tão abruptas, tão inveteradas, transformando-se em recusas radicais. E a noite a transformar-se numa aflição para ela e um agastamento para ele. Com o intuito de lhe afastar as tentações, Aurora pegou no terço que a mãe lhe dera como prenda de casamento e começou a dedilhá-lo com acentuado fervor. O Chico, embora convulsivo e revoltado, aquietou-se. Não queria molestá-la, nem muito menos fazê-la sofrer, embora sonhasse, desde há muito, com aquela noite, terna, maviosa, envolvente e sublime, durante a qual se entregaria, total e plenamente, à mulher que escolhera por companheira. Durante o namoro, conciso e intervalado, nunca lhe arrancara sequer um abraço, nem, muito menos, um beijo. Herdara as esquisitices da mãe, sempre a ameaçar, sempre a meter medo com tolices que haviam provocado aquela cegueira com que ela, mesmo agora, depois de casada, o afastava de carinhos e enlevos. Os fantasmas e as palermices que lhe havia arrolhado na cabeça é que a impediam de se entregar na sublimidade e na doçura daquela noite. Se quisesse podia força-la, obrigá-la... Talvez ela, ao sentir-se forçada, cedesse e acabasse por descobrir o prazer da entrega e da paixão e, assim, apagasse as cicatrizes dos medos, das interdições, das ameaças, dos castigos, do inferno. Voltou-se num impulso instintivo, quase animalesco. Ela, acicatada pelo sono, já abdicara do terço e deslizava, agora, sobre o travesseiro, cuidando que ele se aquietara do seu ousado atrevimento. Mas não. Ele, apenas, por momentos, descera ao abismo do silêncio escuro. Mantinha-se vigilante, resistente, disposto a lançar-se numa investida, que protagonizasse todo o seu vigor. Era tão grande a ânsia de desfazer aquele afastamento, anular aquela recusa, ultrapassar aquela oposição. A luz de petróleo há muito que se apagara e o quarto permanecia numa escuridão mórbida e silenciosa. O Chico encostou, parcialmente, o seu corpo ao dela que permanecia apática, indiferente, despegada de desejos e prazeres. Fortes pulsões pediam-lhe uma rapidez de movimentos que ela, antecipadamente, não percebesse. Ardendo em desejos, o Chico esvoaçava aspirações. Uma instintiva pujança diluiu-lhe o corpo, consubstanciando-se numa posse rápida e eficiente, numa comunhão não partilhada pela amante gélida, fria, estática, incapaz de identificar uma nesga que fosse do píncaro do prazer. Num ápice o Chico explodiu…

Aurora levantou-se, confusa, estonteante e indignada. Acabava de pecar, gravemente. Por isso, nenhuma razão tinha para continuar ali, nem fora para isso que viera. Não havia de colocar-se, todos os dias, ao lado daquele homem, com lágrimas, dor, sofrimento e remorsos. Nunca mais havia de consentir que voltassem a pecar.

O Chico, agastado de sublimidade, de um cansaço doce e extasiante, aquietara-se da agitação subsequente ao enlevo, adormecendo. Aurora levantou-se, juntou as suas parcas roupas e, enrolando-as num xaile, fez uma trouxa.

Madrugada, ainda noite escura, a mãe, após toda uma noite alvoraçada, ouviu um leve arranhar de mãos na porta da cozinha. Veio à janela e, de fora, ouviu uma voz trémula e assustada:

- Abra, mãe. Sou eu, a Aurora.

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publicado por picodavigia2 às 09:00





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