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RIO SECO

Segunda-feira, 24.11.14

Carla nunca entrara no elétrico tão assombrada. A rua parecia-lhe uma nuvem de espuma a desfazer-se entre labaredas de silêncio, as pessoas vultos de árvores sem folhas, o café, onde se encafuara a tarde inteira, um túnel sem luz e sem fluxos de esperança. Encontrava ali, todos os dias, aquele sujeito frio, absorto, distante, a resvalar entre jornais, sem levantar sequer os olhos para a televisão, muito menos para ela. Apenas lhe sorrira uma vez, uma única vez, ao cruzarem-se na porta de entrada. De resto, aquela pasmaceira institucionalizada.

Carla acabara de se escapulir de um casamento curto, amargo, permanentemente ameaçado em desfazer-se. Um pesadelo que lhe trouxera a decisão de não se emaranhar noutro. Mas que diabo, uma mulher é uma mulher, sente, anseia, suspira, deseja, quer. Toda a sua adolescência já suportara o trauma de ser filha de pais divorciados. Isso marcara-a, impingira-lhe uma espécie de carácter sacramental. Apesar de tudo e, talvez por isso mesmo, sonhara sempre com um casamento feliz. Ser mãe. Mas tudo se desfizera e tudo se apagara. Agora, um homem, fosse ele quem fosse, havia de lhe interessar apenas ao convívio, às saídas à noite e até, eventualmente, a uma amizade séria, decente. Mas a verdade é que sexo em condições dignas, não seria de esbanjar

Talvez fosse essa circunstância que a levasse a olhar aquele homem com tanta insistência. Era atraente, simpático, bonito, desejável, mesmo sexy e não tinha aliança. Antes do casamento e do namoro com o Jorge envolvera-se em três relações, profundas, sublimes, mesmo divinais mas que pouco mais tinham do que sexo. O amor, amor verdadeiro viera com o Jorge e dera no que dera. Família, amor, filhos tudo se esmoronara como um castelo de cartas. Talvez se tivesse amado a sério um dos primeiros tudo teria sido diferente. Agora, apenas o trabalho e uma vida fútil, no meio de tantos homens e mulheres que, como ela, batalhavam num viver inócuo, martelado, alvoroçado apenas por uma ou outra aventura momentânea. Pouco a diferenciava de muitas colegas fúteis que conhecera na Faculdade ou daquelas que, cheia de dificuldades, medos e temores, labutavam, dia a dia, na fábrica, em cujo escritório pontificava.

Mas, apesar de tudo, não podia deixar de reconhecer que, no seu íntimo, de vez em quando, parecia subsistir uma névoa esbranquiçada e límpida que se consubstanciava no desejo de constituir uma família sólida, diferente daquela em que fora criada, cheia de ódios, ameaças, discussões, a desembocar num divórcio litigioso. E aquele, o indiferente, o apático, o absorto no jornal, podia muito bem ser o que havia de se transformar no seu novo marido. O seu libertador.

 

Carla foi mãe de um casal, cujo pai foi o homem do café e a sua vida mudou. A fábrica ruiu e Carla mudou de emprego, de casa e até de cidade. Agora havia eu conjugar as exigências da escola com a vida familiar, o marido e os filhos. Apesar de tudo era feliz e amava.

Mas nem a felicidade nem o amor são eternos. Gastam-se, desfazem-se e deixam-se abalroar por sentimentos estranhos e inexplicáveis. No sufoco da escola era o colega de grupo o único que a compreendia, que a ajudava, que a animava, que a fazia sorrir. Com ele partilhava o gosto do trabalho e alegria da profissão, a excelência da vida e a sublimidade da amizade, enquanto o marido ia dando sinais de desgaste, de afastamento, de se sentir preterido. Verdade é que a vida deles como casal havia parado, cristalizado. Tornara-se monótona, morna, desinteressante, com rituais obrigatórios e atitudes convencionais. Carla sentia que o colega, também ele a desmoronar um casamento, permanecia em cada hora, em cada dia, em cada momento, em cada espaço e em cada local, no seu pensar, no seu agir, no seu viver. Tentou inverter a marcha mas não conseguiu. Era tarde, muito tarde.

Outro divórcio era impossível. Havia os filhos e ele, agora parecia ter regressado à pasmaceira do tempo do café, não se importando com nada nem com coisa nenhuma. Conhecia os sentimentos dela, mas pouco se importava. Não havia nem barulhos nem discussões. Apenas havia silêncio. Bastava que ela se mostrasse sua mulher sem o ser, que lhe criasse e educasse os filhos.

Os anos foram decorrendo sem amor, sem felicidade. Carla conformou-se, adaptou-se. Tornou-se uma pessoa diferente. O colega com quem continuava a partilhar vivências e sentimentos estava sempre com ela. Em pensamento. Em casa, na rua, nos fins-de-semana. E era a ele que ela se entregava nos sonhos de amor, como se estivesse voando sobre um rio seco, sem água.

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publicado por picodavigia2 às 10:04





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