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OS NOSSOS AVÓS

Sexta-feira, 28.11.14

As mãos sangravam,

Em terra ressequida.

 

Nos olhares,

Havia restolho de penúria.

 

O chão que pisavam

Era perfumado a enxofre,

O vento norte

Até faias arrancava

E o mar trazia

Uma salmoura aniquilante.

 

Mas, mesmo assim,

Teimaram em ser nossos avós.

 

Mas nunca os poderemos ressarcir.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:55

A REVOLUÇÃO DA GADANHA

Sexta-feira, 28.11.14

A Fajã Grande era terra de muita erva e muitos fetos, inclusivamente, no caso da primeira a exigir uma ceifa quase diária. A erva, a crescer, desmedidamente, entre as nascentes de água das lagoas, exigia uma ceifa quase diária, destinando-se a alimento fundamental das vacas leiteiras ou das que estavam à engorda para o embarque. A ceifa da erva, assim como a dos fetos era feita com uma simples foice de mão, formada por uma lâmina de ferro, de forma circular, com minúsculos dentes no lado do corte e encaixada num pequeno cabo de maneira, adequado à forma e tamanho duma mão humana. Para ceifar exigia-se que o trabalhador se colocasse de cócoras e, atirando a foice com uma das mãos apanhava os feitos ou a erva cortada com a outra, num esforço exigente, cansativo, desgastante e demolidor de aduelas e cadeiras. Essa a razão porque muitos homens de tanto ceifar diziam-se derrados das costas. A erva, depois de ceifada, era colocada às mancheias, umas sobre as outras, até formar um molho que, amarrado com uma corda, era acarretado às costas, até aos palheiros onde se encontrava o gado, obrigando assim a um enorme esforço, suplementar ao da ceifa. Como a erva estava molhada, para além de mais pesada escorria uma enorme quantidade de água sobre o corpo o transportador, alagando roupas, penetrando até aos ossos.

Na década de cinquenta este duplo e degradante esforço foi, em muitos casos, ultrapassado. Por um lado começaram a aparecer os burros que acarretavam os molhos em vez dos homens e, para aliviar o esforço da ceifa, surgiu a gadanha que trouxe uma autêntica revolução quer na ceifa da erva nas lagoas quer no corte dos feitos, tanto dos que eram considerados daninhos nas relvas quer os que floresciam nos terrenos baldios, uns e outros destinados a cama para o gado nos palheiros.

A gadanha era uma ferramenta que permitia ceifar mais rapidamente e com menor esforço, quer a erva quer os feitos. Consistia numa enorme lâmina, muito afiada, presa na extremidade de um cabo de madeira ou metálico de aproximadamente 170 cm, um pouco curvado, com duas pegas amovíveis, perpendiculares ao cabo e no extremo oposto à lâmina. As pegas eram colocadas, por um lado, de maneira a se ajeitarem a uma e outra das mãos e, por outro, a permitir controlo e força sobre a lâmina, de forma a esta cortar ou ceifar com maior performance. A lâmina era bastante larga e tinha, aproximadamente, 70 cm, com um formato curvilíneo, ficando perpendicular ao cabo, ao qual se prendia por um encaixe devidamente aparafusado. Para manusear a gadanha, o trabalhador segurava as duas pegas do cabo de forma a deixar a lâmina paralela ao chão e, movimentando-a de um lado para o outro, ceifava a erva com maior facilidade e mais rapidez, pese embora esta tarefa exigisse bastante cuidado, pois o perigo era iminente.

Cuida-se que a gadanha terá surgido na Europa entre os séculos XII e XIII, mas só foi introduzida em Portugal no começo do século XIX, chegando à Fajã Grande apenas em meados do seculo XX, introduzindo uma verdadeira revolução na ceifa da erva e dos fetos. Poucos cereais e forrageiras se ceifavam na mais ocidental freguesia portuguesa.

Apesar de tudo, nem todos os agricultores da Fajã aderiram de imediato ao uso da gadanha. Primeiro porque era bastante cara e, além disso muito perigoso, Muitos homens, sobretudo os de mais avançada idade, não se adaptaram a este novo instrumento que, apesar de tudo ainda tinha outros dois inconvenientes: a erva ceifada ficava espalhada e exigia a subsequente tarefa de a juntar e o seu porte, sobretudo, para quem trazia um molho às costas, tornava-se muito incómodo.

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publicado por picodavigia2 às 10:22





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