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AS SENHORAS MENDONÇAS

Sábado, 31.01.15

Na rua da Assomada, a uns escassos metros da minha casa, um pouco mais acima, na década de cinquenta, viviam três mulheres, conhecidas pelas “Senhoras Mendonças”. A mais velha, chamava-se Luísa, a segunda, em idade, Anina e a mais nova Rosária. Viviam sozinhas, porquanto as duas mais novas eram solteiras e a mais velha, familiarmente, tratada pela “Senhora Luisinha Mendonça”, era viúva. Esta senhora, de nome completo, Luísa Matilde Mendonça da Silveira, casara com, José Lourenço da Silveira, no entanto ficara viúva, havia alguns anos. É verdade que desse casamento nasceu um filho, Pedro Laureano e Mendonça da Silveira, escritor, jornalista, poeta, crítico literário e ensaísta, considerado hoje como um dos maiores vultos da cultura literária açoriana no século XX. No entanto, Pedro da Silveira, possuidor de uma inteligência privilegiada e rara, cedo abandonou a terra natal, fixando-se em Angra, onde fez os estudos liceais, vivendo, posteriormente, em Ponta Delgada e, a maior parte da sua vida, em Lisboa. Raramente e apenas no verão visitava a Fajã, pelo que as três senhoras viviam sozinhas.

A Senhora Rosária, pese embora fosse a mais nova, queixava-se de algumas maleitas e padecimentos, pelo que mais se reservava para as tarefas domésticas. Era a senhora Luísa e, sobretudo, a senhora Anina que se dedicavam aos trabalhos dos campos, pois era deles que viviam, cavando, sachando, mondando, ceifando fetos e cana roca, cortando lenha, acarretando-a para casa, criando galinhas e porcos.

Eram senhoras de uma educação esmerada, respeitadoras de todos, carinhosas, muito atenciosas e favoráveis. Lembro-me de ir, em criança, a casa delas e era recebido com muito carinho e amizade. Ofereciam-me sempre uma fatia de pão com doce. Em frente à sua casa, havia um pequeno largo e neste um fontenário público, onde eu ia buscar baldes de madeira cheios de água, pois nesses tempos, na minha casa não havia água canalizada. Por vezes, os baldes eram pesadíssimos e eu aflito para os carregar. Sempre que me via em tais dificuldades a senhora Anina ajudava-me a trazer os baldes. Lembro-me, também, de que ela era muito amiga da minha mãe e, sobretudo, durante a sua doença, visitava-a com muita frequência, sempre muito prestável e disposta a ajudar no que ela precisasse.

A senhora Luísa, apesar de muito velhinha, ainda se deslocava aos campos não apenas para os trabalhar mas também para, no regresso, trazer sempre à cabeça um molhinho de lenha ou de couves, um saco de batatas ou um cesto de inhames. Mas, na verdade, o braço forte da casa era a senhora Anina, sempre forte, sempre rija, a desempenhar com grande esforço e competência invulgar todas as atividades agrícolas comuns a qualquer casa de lavrador da freguesia. E era uma casa farta, a das Senhoras Mendonças e as suas donas muito generosas, pois contribuíam sempre em peditórios e derramas e quando, nós crianças, lá íamos cantar os Anos Bons ou os Reis, tínhamos sempre uma moedinha branca, o que era raro acontecer noutras casas.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 11:32

A FUGA

Sexta-feira, 30.01.15

A Bernarda era a rapariga mais bonita da freguesia. Não havia homem que, ao vê-la atravessar as ruas ou vielas do pequeno povoado, elegante e desenvolta, não a desejasse. Ela porém, apesar de sempre generosa e solícita para com todos, repelia piropos lascivos e repudiava galanteios maliciosos. Umas vezes enchia-se da raiva e apetecia-lhe atirar-lhes à cara umas valentes bátegas de insultos, outras cuidava que o silêncio e o desprezo eram a melhor arma contra tais afrontas Mas sempre firme nos seus sentimentos de rejeição, alheia aos ultrajes e ignomínias daqueles crápulas, seguia adiante, como se nada fosse. Ficar presa a emoções negativas e de revolta não conduziam a coisa nenhuma. Era um desperdício. Aquela cambada não merecia sequer o seu desrespeito. O único, na freguesia, que granjeara a sua simpatia e lhe despertava uma enorme afeição fora o Júlio Moleiro. Foi junto à aba de uma das altivas e hirtas paredes que delimitam os caminhos do Batel que se encontraram a sós, pela primeira vez. Foi aí que ela se declarou. Afirmou, sobre jura, que o amava-o e era com ele que havia de casar. O rapaz ouviu-lhe a jura desconfiado. Sabia bem o que sobre ela se dizia, recordava os olhares lascivos dos que estavam sentados à Praça e que, ao vê-a passar, desembuchavam um rosário de lérias e galanteios maledicentes. Além disso, dizia-se à boca cheia pela freguesia, que ela se havia envolvido com o José Castro, carpinteiro de profissão, e que este já a fora pedir aos pais. Ele que sim. Ela que não. Grande mentira! Puro aleive. Mexericos não faltam nesta terra. Estavam roídas de inveja as que haviam inventado tal despautério. E logo ela, com um canalha daqueles que desgraçara a filha do Timóteo. Nunca havia de ter sequer uma nesga da sua amizade, muito menos a plenitude do seu amor. Era a ele e só a ele que ela amava. Era unicamente ele que ela queria. Fez-se silêncio. A chuva a cessar e um sol brilhante e primaveril a ressurgir, desenhando um emblemático arco-íris, na Rocha da Ponta.

Bernarda de Lemos era muito jovem. Andava pelos vinte e cinco anos. Era loura e tinha os olhos azuis, mais brilhantes do que estrelas do céu quando disfarçadas de pérolas. O rosto bem delineado, de faces macias e a tez coberta por uma madeixa de cabelos sedosos, desleixadamente penteados. Para além de um olhar terno e meigo, possuía um sorriso inebriante e comunicativo. Um deslumbramento! No entanto, o que Júlio mais apreciava nela era aquele seu ar imponente, altivo, destemido e elegante, permanentemente, enlaçado com uma ternura desenvolta e descomplexada. De porte deslumbrante e andar expedito, aspergia simpatia, aureolava-se em dignidade, sorria com ternura. As suas palavras, embora parcas mas comedidas, saíam-lhe da boca límpidas, quentes e solenes. O seu pensamento era cristalino e puro e as suas atitudes e vontades pautavam-se pela hombridade, pela honradez e pela dignidade.

O segundo encontro, menos parco em hesitação mas mais lauto em ousadia, aconteceu para os lados do Areal, numa tarde de outono. Ele na ceifa do restolho do trigo, ela de cestinha no braço, com meia-dúzia de ovos, vindos de um curral que o pai possuía, à beira-mar, onde esgravatava e debicava uma dezena de galinhas. Ele mais tímido e indeciso do que da primeira vez. Ela mais desenvolta e ousada. Falava-lhe com todo o respeito, e, tão certo como dois e dois serem quatro, amava-o. Não, havia dúvidas nenhumas a tal respeito. Amava-o e muito. Animou-se o rapaz. Da sinceridade que aquelas palavras revelavam não podia duvidar. Ele também a amava. Nos últimos meses Bernarda não lhe saía do pensamento, nem por um segundo. Pensava nela noite e dia. Deslumbrava-se quando a via, enlouquecia se a sua ausência era prolongada. Queria-a só para si e, por isso, irritava-o a forma como os outros a olhavam, como se referiam a ela, os piropos malévolos que lhe atiravam, as mentiras que diziam a seu respeito.

Mas naquela tarde, não. Naquela tarde, aureolada por um sol outonal, ela estava ali presente, junto dele. Sua, só sua. Talvez por isso, parecia-lhe mais doce, mais meiga, mais atraente e, sobretudo, mais sincera. Entrelaçado entre as pavias de restolho, tinha-a tão perto de si como nunca, o que lhe permitiu reparar melhor nela e apreciar com maior esplendor, a doçura do seu olhar, a ternura dos seus lábios, a elegância divinal do seu corpo. Mas a sua presença, ali a seu lado, também lhe trazia um pânico, tremendo e gigantesco, que lhe despertava os mais íntimos afetos. Primeiro uma espécie de tição de fogo, um vulcão a despertá-lo. Depois um raio invisível a digladiar-lhe o peito, um calafrio medonho a desfazê-lo por completo. Queria falar mas não tinha palavras, queria abraçá-la mas não conseguia, queria possuí-la mas não tinha força. Ela, ali tão perto, à sua frente, meiga, sublime, aberta, disposta a ouvi-lo, capaz de o aceitar. Sentia o seu respirar, ouvia o bater do seu coração, recebia o halo da sua entrega. Ele nada. Uma vela apagada, uma flor murcha, um diadema sem brilho.

Perante a indecisão dele e num ímpeto de justificar o injustificável, de o libertar de complexos e inseguranças, Bernarda abriu as mãos e mostrou-lhas. Estavam ásperas, doridas, secas e, consequentemente, incapazes de o abraçar. Júlio, sem perceber o enigma daquela obstrução, ao ver-lhe as mãos naquele estado, no seu íntimo condoeu-se. Não entendia como um corpo tão suave, meigo e aveludado possuía umas mãos tão rugosas carregadas de tanta dor, de tanto sofrimento. Procurava, no seu íntimo, uma palavra que fosse mas não conseguia dizer nada. Ela também não. Ficaram os dois estáticos, inquietos, gerando um silêncio de tal modo profundo que, apenas, lhes permitia ouvir, com clareza, os rugidos roufenhos que assolavam o interior das suas almas. Um silêncio inexplicável e sem sentido que lhes obliterava evocações dilacerantes Um silêncio que lhes permitia olhar, ver e compreender a impossibilidade da sua paixão.

Um denso nevoeiro se formava, agora, entre ambos, O sol caíra de vez e sumira-se no horizonte. A lua, no vazante, tentava delinear-se no céu brumaceiro, muito vaga, esparsa. A mancha negra da Rocha, desde as Águas ao Curralinho definia-se emanando um negrume estonteante e vertiginoso, que parecia tornar a tarde mais escura. O mar, revolto, retorcia-se em extensas ondas que, ao chegarem junto à costa, se desfaziam nos rochedos do baixio, produzindo um rugido roufenho e vesano, desenhando rastros de espuma que ora se encolhiam ora se alastravam, numa tentativa frustrada de galgar a terra. De cima, do alto das Courelas, chegava um rumor abafado de vozes humanas. Das encostas do Pico ecoavam murmúrios alegres e frenéticos de pássaros em cio.

Não houve mais tempo. Nem naquele fim de tarde nem em nenhum outro. Tantos sonhos perdidos, tantas lágrimas derramadas, tanta confidência dispersa. Cada dia, para Júlio, transformava-se num império de desespero. Para Bernarda, num desmoronar de sonhos.

E numa manhã Bernarda partiu, em direção a uma América distante, longínqua e indefinida. Uma América da qual nunca mais voltou.

Todas as manhãs Júlio sentava-se, sozinho, sobre um maroiço do cerrado do Areal, onde já não havia restolho de trigo e onde a tivera à sua frente, pela última vez. Dali, olhava o mar azul e infinito, na direção do horizonte. Sabia muito bem que era naquela direção que ficava a América, onde cuidava que ela estaria escondida, talvez perdida.

 

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publicado por picodavigia2 às 12:17

DE PASSAGEM

Quinta-feira, 29.01.15

Nasceu na freguesia de Santa Bárbara, ilha Terceira, entrando para o Seminário de Angra em 1955, onde estudou durante um período de tempo muito reduzido. Actualmente reside na segunda mais populosa ilha açoriana, a Terceira, ilha com uma história muito rica e cativante que resultou num importante legado cultural, com sólidas e arraigadas tradições e que possui muitas belezas arquitectónicas e naturais assim como muitos locais de interesse a visitar.

Assim como a estadia no Seminário foi curta, a sua presença no Encontro também foi passageira, limitando-se a participar, como assistente, na recriação do sarau-músico literário e numa ou outra actividade. Antes do sarau, porém, encontrou-se com alguns dos participantes, nomeadamente com os que conhecia ou dos que se lembrava, mas também com os outros a quem foi apresentado, revelando-se uma pessoa simples, humilde, simpática e acolhedora. Mas porque esteve realmente presente no Encontro, embora de passagem e como espectador, talvez porque desconhecesse muitos dos participantes, merece aqui uma referência especial. Deve-se realçar o reconhecido mérito e reconhecimento da sua presença, sendo, por isso mesmo, também considerado um dos “Senhores” do Encontro.

 

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publicado por picodavigia2 às 13:24

A VOZ DO MAR

Quarta-feira, 28.01.15

A voz do mar traz amargura,

vem carregada de dor

e perde-se entre os labirintos dos baixios..

 

A voz do mar traz mágoa

vem carregada de tristeza,

e espalha-se sobre o cais deserto.

 

A voz do mar…

atormenta.

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publicado por picodavigia2 às 22:35

O SILÊNCIO DAS PEDRAS

Terça-feira, 27.01.15

Aproximou-se da borda do velho batel e vomitou pela quinta vez. O Faial ainda ali, bem perto. As Flores, a milhas. Uma noite infinita à sua frente. Cambaleava, entontecido. Fez um esforço de recuperação e voltou à cadeira que, anteriormente, ocupara. Embora ardesse em enjoo, tentou acalmar os nervos e dormir. Só pela noite dentro o conseguiu. Quando acordou, o sol projetava-se em arco-íris sobre as Flores coberta, a norte, por uma chuva miudinha e persistente. Enfim! Depois duma intrigante viagem, entre o constante marulhar do oceano e a ronçaria do velho batel, chegava ao seu destino.

Oficial de pedreiro, oriundo de Vila Franca do Campo, esperava-o a gigantesca tarefa de erguer um templo em honra de São José, debaixo daquelas rochas, envoltas, permanentemente, em brumas e nevoeiros. Ali ficaria encurralado, invernos a fio, verões atrás de verões, impedido duma fuga até à ilha natal, simplesmente, a ver crescer, a passo de caracol, aquela obra monumental, à espera de que lhe chegasse o fim! Dessa, sim! Depois de pronta, dela havia de ufanar-se! Pela primeira vez, abdicara dos pequenos casebres de pedra negra, de Ponta Garça e da Ribeira das Tainhas, a fim de se dedicar a uma obra gigantesca, histórica. Nado e criado naquela que foi, durante o primeiro século de povoamento açoriano, a mais importante povoação da ilha de São Miguel, nela se fixando as principais instituições oficiais, como a Alfândega e a Ouvidoria, de onde o epíteto de "primeira capital micaelense", vagueava, sempre que lhe apetecia, à Lagoa, a Ponta Delgada, por vezes, até à vizinha ilha de Santa Maria. Mas ali, entre mar e rochas, estava numa espécie de jaula, preso como um condenado, sujeito ao isolamento, à solidão.

Não demoraram muito as agruras deste sufoco. Enganara-se. Por sorte ou por destino celeste, em frente ao enorme cerrado, onde se desenhavam os alicerces do novo templo, uma pequena casa, de pedra negra, ombreiras de tufo avermelhado, coberta de palha, mas de portas e janelas sempre abertas. Ela, a dona, a Júlia, sempre meiga, sempre sorridente, sempre conversadora, sempre disposta a vir trazer um velho jarro de barro cheio de água, fresquinha e apetitosa.

Júlia era o de que mais belo e atraente havia no povoado. Júlia era uma mulher ainda jovem, duma beleza rara aliada a uma bondade extraordinária e a uma generosidade inédita. Além disso era uma mãe extremosa, uma esposa dedicada, sempre pronta a ajudar o marido nas lides agrárias e nas sementeiras. Embora, aparentemente, imbuída de uma ar sério e de uma postura sóbria, Júlia era divertida, afável, enfim, um belo exemplo de virtudes e de dignidade. No entanto, o que mais, estranhamente, a caracterizava era o facto não apenas saber ler e escrever mas, sobretudo, ser possuidora duma cultura invulgar. Fora o vigário que, quando criança, a iniciara nas letras, despertando-lhe um interesse inusitado pela leitura. Quando jovem devorou, num ápice, quantos livros o vigário possuía na sua pequena biblioteca, desde os velhos manuais de teologia e das vidas de santos até aos mais interessantes clássicos da literatura mundial.

Foram os Miseráveis de Victor Hugo, a última novidade que o vigário adquirira, um excelente livro, daqueles que se leem duas ou mais vezes que moldou o coração de Júlia e a tornou extremamente sensível ao sofrimento dos outros. Era uma extensíssima narrativa, um romance interessantíssimo que Júlia devorou em menos de um mês e onde a ficção se envolvia com a história, com a filosofia, com a moral, com a religião. Narrava a vida de Jean Valjean e de variadíssimos personagens que com ele enriqueciam a narrativa, testemunhando a miséria e a pobreza da sociedade francesa da altura. Júlia leu-o três vezes. Leu-o e assimilou, na perfeição, a mensagem.

Enquanto isso, as paredes do novo templo iam-se erguendo lentamente. João Rodrigues, apesar de tolhido pelo cansaço, a abarrotar de calor e de sede, deslumbrava-se com a figura enigmática de Júlia que, apesar de, inequivocamente, o perturbar, aliviava-o mais do que a frescura da água do cântaro que ela trazia para lhe matar a sede. Um gesto inebriante de ternura, o dela. Um reconfortante auxílio para ele, que simplesmente ao vê-la estremecia e meneava como se fosse a chama duma vela acicatada pelo vento. Inicialmente, apreciava-a como mulher atraente, bela, generosa e solidária. Mais tarde, passou a vê-la como amiga solícita, íntima, sincera, desinteressada com quem partilhava tristezas, alegrias, solidão e conforto. Por fim um enorme tufão, vindo não sabia de onde, moldou-lhe a alma e atirou-o para uma paixão incontrolável, desmedida, infinita. Amava Júlia como nunca amara ninguém. E agora? Estava encurralado num beco do qual dificilmente sairia. E ela? Também o amava? Não sabia. Uma dúvida tremenda destruía-o, minava-o, assolava-o por completo. A porta sul do templo já se erguia destemida e arrogante, mas a obra emperrava num contínuo e desmesurado insucesso. Como o constante rugido do vento norte, em noites de invernia, amedrontava-o a enorme paixão que por ela sentia. Mais. Aniquilava-o, desfazia-o por completo. É verdade que as visitas e encontros se sucediam, mas eram rápidos e vagos, balanceados entre um sorvo de água, uma conversa incompleta, um olhar de compaixão, um desejo infinito de a possuir, de a amar. Mesmo quando ausente a sua imagem trespassava-o, turvando-lhe o olhar, entontecendo-lhe o espírito, apertando-lhe o coração.

Os dias passavam, ora amargos a quando da ausência dela, ora dulcificados com a sua presença. A fachada principal do templo já tomava forma e a torre sineira delineava-se, firme e altiva como que perfurando os ares, como que unindo a terra ao céu. Ele cada vez mais apaixonado, mais louco, mais desfeito não tanto pelo cansaço da obra mas, sobretudo, pela incerteza duma paixão, cuja correspondência era uma enorme indefinição. A sua alma sentia-se, em cada manhã, inundada de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com cada gole de água fresca que ela lhe oferecia e que fruía com uma esperança inusitada. Abandonado à casualidade de frugais encontros saciava mais a agrura da paixão da alma do que a funesta sede do corpo. Era feliz, mergulhando apenas na esperança de mais um sorvo de água fresca que as visitas dela lhe proporcionavam. Se pudesse, ao menos, exalar, sequer, um pequeno afluxo de quanto lhe ia na alma, atingiria a plenitude. Mas pelo contrário, sempre que ela se aproximava com um ar de aparente indiferença, ele afrouxava, desfalecia, sucumbia perante a força do descalabro de mais uma visão.

Se algum dia ela não aparecia, invadia-o um silêncio profundo, uma mágoa lúgubre, um entorpecimento estranho. Nos dias em que ela sorridente e feliz, se aproximava de cântaro apoiado na cintura, João Rodrigues tentava em vão encontrar no instinto confuso dos seus sentimentos, na profundidade da sua paixão, a força necessária para abrir a sua alma e anunciar o seu sufoco. Subitamente, obstruía-se-lhe a voz, como se estivesse sob um pesado alçapão, uma laje basáltica, semelhantes às que agora alçava nas roldanas e muito a custo colocava nos degraus interiores da torre sineira.

Uma sascadela tremenda! Uma pedra enorme tricara-lhe o ombro, entrando-lhe na carne viva, provocando-lhe uma enorme ferida. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto., espargindo um grito de agonia. E foi a dor que lhe trouxe a coragem. Na manhã seguinte, quando Júlia, depois de muito hesitar, lhe bateu à porta do velho casebre, confessou, sem lhe dar tempo de retorquir ou sequer de se opor. Com quanto ímpeto pôde, lançou-se-lhe tudo quanto lhe ia na alma. Uma paixão do tamanho do mundo. Amava-a, com nunca amara ninguém. Pensava nela todo o dia, toda a hora, todo o momento e a sua imagem acompanhava-o durante a noite inteira. Quando a encontrava ele sentia-se na presença duma deusa. Feridas dolorosas lhe causavam a sua ausência. Eram farpas duras que lhe rasgavam o peito. Erguia-a, como soberana, no seu quotidiano. Impunha-se como senhora do seu destino. Adorava-a, como deusa, em cada momento. Soluços escarlates esmagavam-lhe o rosto. Ela, apática, indiferente, como se nada fosse.

Passada a turbulência da inédia confissão, João Rodrigue enxugou duas lágrimas que lhe corriam dos olhos e olhou-a. Então?! Como não recebesse qualquer resposta, recuou solitário à leviandade da sua ousadia. Mas era tarde. Ainda esperou, ansioso, uma derradeira resposta, uma reação final. Nada. Por fim, Júlia, com uma normalidade arrepiante, esclareceu. Sabia, desde há muito. Os seus gestos, as suas atitudes, os seus olhares, as suas palavras… Tudo o denunciava. Sabia muito bem que ele vivia sob um sufoco, enfeitiçado com a diabólica loucura duma paixão que nunca havia de ser correspondida, paixão que o cegava e lhe perturbava o entendimento, que o impedia de ter consciência dos seus gestos, das suas atitudes. A verdade, porém, é que ela não o amava, nem nunca haveria de o amar. Apreciava-o muito, tinha por ele uma enormíssima amizade. Nada mais.

João Rodrigues insistiu, continuou a despejar sobre ela quanto lhe ia na alma. As palavras, porém, fugiam-lhe. Hesitava e voltava a avançar de novo. O peito ardia-lhe, a cabeça já lhe andava à roda e parecia-lhe não sentir o próprio corpo. Envergonhado, desejava que aquele momento nunca tivesse existido. Mais duas lágrimas rolaram-lhe pelo rosto num sofrimento sem limites. Ela, insensível, fria, como se nada fosse. Condenava-o, recriminava-o, tentava afastá-lo.

Num ímpeto, João Rodrigues afastou-se. Ela fora muito clara: Não se importaria de continuar a visitá-lo, de acompanhá-lo, mas somente como amiga. Se pudesse até dava uma volta ao mundo na sua companhia, mas não o amava e, por certo, nunca havia de amá-lo. Como um náufrago no alto mar, João Rodrigues percebeu que a salvação só lhe viria do acaso. Afastou-se, desesperado, angustiado, a abarrotar de sofrimento e angústia. Apenas ouvia o silêncio sepulcral e aterrador das pedras que amontoadas em frente à fachada do templo aguardavam que as colocasse lá bem no alto, onde haviam de permanecer, silenciosas, para sempre.

 

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publicado por picodavigia2 às 12:09

OS QUE PASSAM POR NÓS

Segunda-feira, 26.01.15

“Aqueles que passam por nós não vão sós, deixam um pouco de si e levam um pouco de nós."

Antoine de Saint-Exupéry

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publicado por picodavigia2 às 10:26

RITA E TEODORO

Sábado, 24.01.15

Nasceram quase no mesmo ano. Ele nos fins de Maio, ela em meados de Fevereiro do ano seguinte. Como se isso não bastasse, os progenitores eram vizinhos. Os dele, no fim da Assomada, os dela, no início da Fontinha. Ambos crianças lindas, airosas que o povo em peso mirava com olhos raiados de inveja. Inevitavelmente, queriam os seus assim. Apesar de tudo cresceram separados. Apenas a escola primária os uniu. Uniu e desuniu. O pai dela há muito que decretara desprezo ao dele e as mães haviam-se desavindo desde muito novas. Circulava nas veias dos progenitores de ambos um travo amargo e crispado de indiferença.

Acabadinhos de sair da escola primária, quis o destino que ambos marchassem para outra ilha. Ela para o Faial, ele para a Terceira. Viagens de férias desencontradas, destinos impostos premeditadamente, apenas se viam de longe. Ela numa caminhada até ao Cimo da Assomada, em demanda do galinheiro. Ele a pavonear-se pela rua Direita como se fosse um lord.

Numa tarde, de agosto, porém, tudo mudou. Ela a ir à casa da senhora Benedita, a costureira-mor da freguesia, onde ele, na qualidade de vizinho predileto passava manhãs, tardes e por vezes até noites. Viram-se, reviram-se e olharam-se como nunca se tinham olhado, beneficiando do beneplácito da irmã da senhora Benedita, a Cremilde, muto incentivadora de namoricos e defensora de folguedos e jactâncias juvenis. Desfizeram-se bloqueios, quebraram-se cadeias, colaram-se destinos. Um sufoco inebriante para ela, um alvoroço demolidor para ele. Segue-se que daí a nada corria falatório gigantesco e polvoroso pela freguesia. Que Deus nos acudisse! Um alvoroço mexeriqueiro como há muito se não vira. Por último encheram-se os ouvidos dos progenitores. Os dela encolheram os ombros. Tanto se lhes dava como não dava. Os dele, um descalabro a que era preciso por cobro.

A Rita, assim era o nome dela, é que, com o aval dos progenitores, não se importou nem quis saber de mexericos. Estava-se marimbando para o que dela diziam. Muito senhora do seu nariz, altiva e descomplexada, com resposta sempre na ponta da língua, depois de cada sarrafusca a que dava azo, passava Assomada acima em direção à terra onde esgaravatavam e debicavam meia dúzia de galinhas e um galo, como se nada fosse. Se achasse necessário e oportuno até dava troco a um ou a outro. Além disso, aspergia graciosidade a garota e, revestindo-se de uma simpatia contagiante, estrebuchava-se em alegria e contentamento. O povo inteiro, incrédulo, rendia-se-lhe aos pés, num sorriso de perdão, de complacência e de carinho. Ele sim, o Teodoro, sobretudo na opinião dos mais velhos, mais experientes e mais sabedores era o velhaco, o bandalho, o atrevido que a devia deixar em paz. Passava a vida ao deus dará, sem fazer a ponta dum corno. Que pouca vergonha! Perdidinho de todo, cheio de mania, um caganita daqueles! Um pobretanas que não tinha onde cair morto, mas que muito dava que falar. Ai se dava! Ainda bem que o Carvalho de setembro se aproximava. Havia de o levar de vez e deixar a freguesia em paz!

Ela, porém, não compartilhava tão vis impropérios, antes, ao ouvi-los, remanescia triste, chorosa, na ânsia de um olhar de perdão, mesmo que fosse de longe.

Partiram! Primeiro ele, depois ela. E o silêncio regressou ao povoado, evaporando murmúrios. Lá longe, de ilha para ilha, apenas uma carta, simples, pequena, concisa, sem deslumbramento. Para ela era intrigante o parco manifestar-se dele. Para ele era desgastante a separação dela. Apenas sonhavam nicas de esperança, como se fossem gotas de chuva saídas de nuvens escuras, deslizantes, sem destino.

Vieram outros verões e o Carvalho a despejá-los, à vez, em Santa Cruz. Nunca os juntara, o maldito. E os ecos sedentos de um grande amor, apenas, a perderem-se nos contrafortes do Outeiro. A senhora Benedita, com o beneplácito da Cremilde, a propósito de aprovar um vestido ou consertar uma bata, ainda ia abrindo, juntamente com uma gateira da porta, uma nesga de esperança. Mas eram encontros frugais, silenciosos, de todo infrutíferos. As ruas cada vez mais desertas e as janelas e varandas cada vez mais fechadas. Até as próprias marés de agosto, tanto ao gosto de um e de outro, se embraveciam, impedindo-os de se banharem no esplendor duma glorificação a valer. Ele mirara-lhe o corpo sedento, meigo e acastanhado mas que estava destinado a permanecer-lhe, apenas, como imagem indelével mas distante. Ela, obcecada pela hesitação que dele parecia emanar, permanentemente, entrelinha-se a entrelaçar desejos e construir castelos de embevecimento.

Foi pela festa da Senhora da Saúde que lhe pareceu que tudo havia de clarificar-se. Ele, finalmente, havia de se declarar, talvez de a beijar, de terminar com aquele sufoco, inaceitável e incompreensível. Mas para isso haviam de ser eles, sozinhos, a pôr cobro àquele amontoado de prémios, bugigangas diversas de pouca utilidade mas, regra geral, bastante vistosos e apelativos, que a ganapada, no domingo anterior, juntara pela freguesia. No reboliço da azáfama, ele mais afoito e experiente, mas mais desleixado e maleável, ela mais sensível e delicada, mais cuidadosa e sensata na escolha, na seleção e no arranjo. Tudo desenvencilhado em diálogos de circunstância, emoções contidas, desejos refreados, a arfar uma inusitada mas recíproca cumplicidade. A obstrução era rainha, numa ternura desmedida, num envolvimento desejado, a esquecer um passado proscrito, amordaçado. Centenas de quadradinhos de papel eram cuidadosamente enrolados, uns após os outros, simetricamente, num insigne e deslumbrante cuidado. O epicentro do desvelo rasgava-se frenético como se fosse uma onda a vir e voltar, tímida, temerosa, talvez mesmo ofegante. E no emaranhado do acerto, despejavam-se, apenas, desejos conciliadores, alvoroçava-se, às escondidas, a unanimidade, convertendo-a numa espécie de ternura sufocante, num simulado desembocar de contrição. Nada mais do que o reparar dos erros, o repor das falhas, o reconstruir de aparência e o acrescentar de sentimentos. Ele, inexplicavelmente e de uma maneira cobarde, atirava ao ar um amontoado gigantesco de desejos. Ela, ansiosa e expectante, repelia os brados estridentes dos estigmas em que ele a envolvera. Uma hesitação dominadora substituía a obstrução inicial e tornava-se rainha.  

E quando a noite, madrasta e perversa, desfazia a magia telúrica e profunda da quermesse da Senhora da Saúde, ela emaranhava-se, alvoroçada, numa aventura, insegura, fútil e destruidora.

Ele partiu no Carvalho seguinte e não mais voltou.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:27

A CORDA

Sexta-feira, 23.01.15

Conta-se que na igreja duma pequena aldeia, certo dia, estava um padre a pregar um sermão. Dirigindo-se, emotivamente, aos fiéis, para que estes tivessem consciência dos pecados que haviam cometido e deles se arrependessem, através da confissão, a fim de obterem o perdão de Deus, a dada altura, entre outras, proferiu a seguinte exortação:

- Acorda, pecador!

Entre os fiéis que enchiam o templo, havia um velhote que se confessara uns dias antes. No entanto, durante o sermão dormitava. Despertando do sono, precisamente, na altura em que o padre proferiu aquela frase, logo exclamou em voz alta e para espanto de todos os presentes:

- A corda? Já a fui entregar ao dono, Senhor Padre!

Consta que, tendo-se confessado uns dias antes, o velhote, entre os pecados enumerados, terá referido o de ter roubado uma corda a um agricultor seu vizinho. No entanto, antes de lhe dar a absolvição, o confessor tê-lo-á aconselhado a devolver ao dono a corda que roubara.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:47

ALHO, ARRUDA E LOUREIRO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Quinta-feira, 22.01.15

Contava o meu avô uma estranha estória. Se bem me lembro, era mais ou menos assim: Há muitos anos, nesta localidade que, na altura, ainda nem freguesia era, contava ele que numa noite de verão, em que estava muito calor, um tio dele não conseguia dormir. Para espairecer e apanhar um pouco de ar fresco, veio sentar-se numa varanda da sua casa a ver se conseguia dormir ao fresco, pois o ar parecia que sufocava. De repente e sem nada o fazer esperar, já muito pela noite dentro, apareceram três mulheres que ele não conheceu porque traziam a cabeça coberta com lenços, se aproximaram dele e disseram:

— Se não fosse o alho, a arruda e o loureiro, não havia ninguém vivo neste mundo!

— E porquê raparigas? — Perguntou o tal tio do meu avô, apesar de muito admirado com aquele dito das três mulheres que ele cuidou que viriam de fazer serão da casa de alguma amiga.

E elas responderam:

— Cala o bico, pois se souberes morres e nunca digas a ninguém que nos viste que ouviste isto.!

Queriam elas dizer que ele não havia de contar nada do que vira naquela noite, nem contar a conversa que ouvira. Mas elo, pelos vistos, não tomou aquele aviso muito a sério. Ele ficou sem saber o que elas queriam dizer com aquilo e, por isso andou, no dia seguinte a contar a toda a gente. E contava, a minha mãe, que ele não durou muito tempo. Começou a ficar doente, a definhar de um dia para o outro e que morreu pouco tempo depois. Aquelas mulheres eram feiticeiras que lhe fizeram o bruxedo.

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publicado por picodavigia2 às 10:40

DAGBA

Quarta-feira, 21.01.15

Dagba é um deus celta, irlandês, patrono da terra e dos acordos, que governa sobre a vida e a morte. Dagda, que significa deus bom, é um dos mais proeminentes deuses celtas, mestre da magia, guerreiro amedrontado e hábil artesão. Dagda é filho da deusa Danu, e pai da deusa Brigit e o deus Aengus Mac Oc. Morrigan é a sua esposa, com quem acasala, somente, nos dias de Ano Novo.

Dagda é retratado como possuidor tanto de uma força sobre-humana como de grande apetite. Normalmente os símbolos que o acompanham são um caldeirão com comida inesgotável, uma harpa mágica e um enorme porrete, com o qual podia matar 9 homens, mas com um outro restitui-lhes a vida. Dagba também é possuidor de 2 maravilhosos porcos que podiam ser comidos várias vezes e que, depois de comidos, voltavam a viver e ainda era dono de um pomar que, independente da estação, dava frutos o ano todo.

Dagda pode ser considerado o patrono do panteão celta e o rei e pai dos deuses, a muitos dos quais deu origem. Através da sua filha Danna, Dagba originou uma tribo da qual se tornou juiz.

Dagba também é considerado pelos celtas o deus da magia, da poesia, da música, da abundância e da fertilidade. Muitos contos irlandeses descrevem Dagda como uma figura de força imensa, armado de uma clava e associado a um caldeirão, o tal caldeirão da abundância. Entre os celtas, o caldeirão era um dos objectos carregado de simbolismo mágico e mítico, pois, para além da comida inesgotável, no seu fundo guardavam-se as essências do saber, da inspiração e da extraordinária taumaturgia, com o qual alimentava, intelectualmente, todas as criaturas. Os humanos que se aproximavam e comiam do caldeirão de Dagba não só ficavam satisfeitos de forma material, mas também, sentiam saciadas as suas apetências de conhecimento e sabedoria. Era também neste caldeirão que Dagba banhava, durante a noite, os guerreiros que morriam em batalhas durante o dia para que recuperassem a vida ao amanhecer do dia seguinte. O mesmo caldeirão também era fonte inesgotável de alimentos para suas tropas.

Outra qualidade do deus Dagda era a sua relação directa com a música e com o seu poder evocador. Um dos seus atributos era precisamente a harpa, instrumento que manejava com habilidade e arte e que lhe servia para convocar as estações do ano. Arrancava também tão suaves melodias deste instrumento que muitos mortais passavam deste mundo para o outro como num sonho, e sem sentir dor alguma, ou sem se aperceberem da morte.

Da união de Dagda com Boann, a mulher do deus das águas, Nechtan, nasceu Angus, ou Mac Og. Mais tarde, a sua mãe violou a proibição de visitar a fonte de Nechtan e, em consequência disto, apareceu afogada. Og metamorfoseou-se com o objectivo de se transformar no Boyne, ou seja, o rio-modelo da mitologia irlandesa.

Os celtas, acreditando no poder deste deus, por meio dos seus sacerdotes, os druidas, criaram uma festa como forma de celebrar o pacto com Dagda, a fim de que protegesse o povo celta de todos os males que poderiam acometê-los caso o deus fosse desagradado. Por isso, foi criada em cada fim de ano, a festa de Samain, durante a qual todas as pessoas saíam de suas casas e apagavam todas as fontes de luz a fim de permitir que os mortos visitassem os seus familiares. Para tanto, misturavam num grande caldeirão as bebidas mais fortes e os frutos mais doces. Ferviam-nos até que a mistura atingisse a consistência de um licor - chamado de “queimada”. Depois bebiam este licor até não mais aguentarem. Este ritual era celebrado com música e dança. Ao amanhecer, acordavam e levavam consigo uma brasa incandescente provinda do resto da fogueira da festa e que era usada para reacender os braseiros e velas que iluminavam as casas. Pretendia-se, assim, glorificar Dagda e pedir que eliminasse os efeitos nocivos dos mortos.

Hoje, cuida-se que foi esta festa de Samain que deu origem à data folclórica do Hallowenn. Daí o costume de, nesta festa, visitar as casas solicitando “doces ou travessuras”.

(Dados retirados da Net)

 

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publicado por picodavigia2 às 11:45

A GALINHA ESTOUVADA

Terça-feira, 20.01.15

Era ma vez uma galinha que, apesar de parva como são todas as galinhas, diferenciava-se de todas as outras por ser muito estouvada. Saltava da cerca com facilidade, pulava para os currais dos vizinhos, depenicava as sementeiras e punha os ovos onde bem queria e entendia. Numa palavra, nunca parava em ramo verde. Pior do que isso, para além de comer os seus ovos ainda depenicava e dava cabo dos das companheiras.

Certo dia, a dona farta de tanta leviandade e tanta estroinice que punha, permanentemente, o galinheiro em alvoroço que até parecia contagiar as outras galinhas, até então sempre mansas e submissas, resolveu enterrar, no meio do curral, uma estaca a que prendeu uma corrente com um suevo a meio, à qual amarrou a galinha por um dos pés. Assim o mundo da galinha, outrora tão grande e amplo ficou reduzido a um pequeno círculo onde ela, mesmo esticando o pé, podia chegar Ali, permaneceu dia e noite, meses a fio, cacarejando, ciscando, comendo, dormindo e pondo os ovos. De tanto andar, de tanto ciscar, de tanto depenicar formou-se, ao redor da estaca um círculo perfeito e muito bem delineado.

Passado algum tempo, a dona, cuidando que a galinha já se tinha emendado das suas estroinices e estravagâncias resolveu soltá-la, deixando-a livre. Reparou, então, que ela, apesar de solta, não saía do círculo que ela própria havia desenhado durante o seu cativeiro. Só circulava dentro do seu limite imaginário. Olhava para o lado de fora mas não tinha coragem suficiente para se aventurar a ir até lá. E assim foi até ao fim dos seus dias.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:37

FRANCISCO VIEIRA GOULART

Terça-feira, 20.01.15

Francisco Vieira Goulart nasceu na Horta, a 8 de Março de.1758 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1830. Estudou na então vila da Horta e foi destinado pelo pai à vida eclesiástica. Partiu para Coimbra onde se doutorou em Filosofia viajando de seguida pelas cidades da Europa. Regressou ao Faial em 1807, a convite do juiz de fora Joaquim Gaspar de Almeida Cândido. Elaborou com ele uma memória sobre o Faial com especial destaque para a agricultura.

Aberto concurso para a vigararia da matriz hortense apresentou-se a concurso, mas o bispo opôs-se a que fosse provido, alegando incompetência para o cargo por ser surdo. Contudo, sempre se suspeitou que a verdadeira causa eram os ideais liberais do concorrente. Desgostoso, emigrou para o Rio de Janeiro onde foi bem recebido por D. João VI que o nomeou chantre da Sé de Angra, o encarregou da direcção do Jardim Botânico e do Laboratório Químico da Corte e o fez fidalgo capelão. Foi ainda sócio correspondente da Real Academia das Ciências de Lisboa.

Poeta neoclássico, da sua poesia só se salvaram poucas composições por terem sido publicadas postumamente no jornal O Grémio Literário, da Horta. Foi também tradutor.

Obras poéticas: Poesia Completa «Antigualhas» In Boletim do Núcleo Cultural da Horta, e «Memória sobre a construção de nitreiras».

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 10:14

A MULHER AMBICIOSA

Segunda-feira, 19.01.15

(CONTO POPULAR)

 

Era uma vez uma mulher pobre mas um pouco estouvada e muito ambiciosa. Vivia sozinha, distante do povoado e, segundo se dizia pelos arredores, tinha poderes estranhos. Muita gente aterrorizava-se ao passar em frente ao pobre casebre onde ela morava.

Na mesma localidade vivia um velho muito rico que ficou viúvo. A mulher, aos poucos e com muita astúcia e não menos artimanha, foi-se aproximando dele, tentando enfeitiça-lo, a fim de que ele se apaixonasse por ela. Se bem o pensou melhor o fez e, ao fim de algum tempo, casaram.

Mas as intenções da mulher não eram as melhores e, pouco tempo depois de casar, comprou veneno que, dia após dia, ia colocando, em pequenas quantidades, nas refeições do velho, a fim de que ele não morresse de repente e, assim, não desconfiassem dela. No entanto e para que pudesse herdar a fortuna do velho decidiu-se por adotar uma criança. A tarefa não foi fácil e, só ao fim de alguns meses e depois de lhes pagar muito dinheiro, consegui adotar uma menina, filha de pais muito pobres.

Depois de adotar a criança a mulher decidiu reforçar a dose do veneno, pelo que o velho, algum tempo depois esticou o pernil.

Nos dias seguintes a mulher não parava de apregoar aos quatro ventos de que era senhora e dona de uma enorme fortuna. Logo lhe rondaram a casa e bateram à porta muitos pretendentes. Houve um que a conquistou e, assim, voltou a casar.

Mas o homem estava interessado era na fortuna e não na mulher, pelo que decidiu matá-la. No entanto, ao saber que a mulher tinha uma filha, cuidando que a pequena, após a morte da mulher, lhe roubaria metade da herança decidiu matá-la também.

Mas um vizinho apercebendo-se das intenções do velhaco, avisou os pais da menina que logo a vieram buscar, salvando-a da morte certa. O falso padrasto ficou muito satisfeito, cuidando que assim, sem ter que matar a menina, a herança seria toda sua. Matou, então, a mulher, que assim teve destino igual ao que ela havia dado ao velhote.

Os pais da menina, sabendo do sucedido, reclamaram justiça, sendo-lhes entrega toda a herança do velho, pelo que ficaram muito ricos, vivendo felizes com a sua filha, enquanto o falso marido e malvado padrasto passou o resto dos seus dias na cadeia.

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publicado por picodavigia2 às 12:18

AS FONTES

Segunda-feira, 19.01.15

(POEMA DE SOPHIA DE MELLO BREYNER)

 

Um dia quebrarei todas as pontes

Que ligam o meu ser, vivo e total,

À agitação do mundo do irreal,

E calma subirei até às fontes.

 

Irei até às fontes onde mora

A plenitude, o límpido esplendor

Que me foi prometido em cada hora,

E na face incompleta do amor.

 

Irei beber a luz e o amanhecer,

Irei beber a voz dessa promessa

Que às vezes como um voo me atravessa,

E nela cumprirei todo o meu ser.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

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publicado por picodavigia2 às 10:17

A LENDA DO SANTO ROSÁRIO

Domingo, 18.01.15

Em casa dos meus avós, todos os dias, ao serão, se rezava o terço. Depois da morte do meu avô, foi a minha avó que passou a presidir à reza. No fim do terço seguia-se a Salve Rainha que ela rezava em latim de forma interessantíssima, após a qual enumerava uma série de padre-nossos, uns por alma dos familiares falecidos, outros por intercessão de um ou outro santo da sua devoção. Um dos santos que nunca era esquecido nestas invocações, para além de Santa Rita, a sua santa predileta, era São Domingos que ela anunciava como “instituidor e pregador” do Santo Rosário. Certo dia, já mais crescidote, perguntei-lhe se ela sabia como é que o São Domingos tinha inventado ou instituído o Santo Rosário. Afinal ela sabia e muito bem. Foi então que me contou a seguinte lenda a qual ela considerava ser uma história verdadeira: Segundo ela me contou, havia, há muitos, muitos anos, num convento, um fradinho que não sabia ler nem escrever, e por isso não podia ler os Salmos nos Livros Sagrados, como era costume nos Mosteiros de antigamente. Ora, o bom fradinho, quer quando se levantava, de manhã, quer quando terminava o seu trabalho, à noite, pois ele era o jardineiro do convento, ia para a igreja que havia no convento, ajoelhava diante da imagem de Nossa, e recitava 150 Ave Marias atrás umas das outras, pois ele sabia que 150 era o número de Salmos que Deus nos deixou na Bíblia Sagrada mas que ele não conseguia ler como os outros frades. Depois retirava-se para a sua cela, afim de dormir. Certa manhã, como de costume, o fradinho levantou-se cedo, e foi para a capela rezar as 150 Avé Marias a Nossa Senhora. O Superior do convento que desde há muito o observava aquela devota atitude, nesse dia, ao chegar à igreja para celebrar a missa da manhã com todos os outros frades, sentiu que havia no ar um cheiro maravilhoso de rosas muito frescas. Mas ele sabia que no dia anterior não haviam sido colocadas nenhumas rosas frescas a enfeitar os altares. Perguntou a todos os frades se algum deles ou alguém tinha colocado rosas frescas nos altares. Mas as respostas foram todas negativas. Ninguém, naquela manhã, nem no dia anterior trouxera flores para enfeitar o altar da Virgem. Isto repetiu-se por vários dias, durante os quais ninguém colocava rosas na capela. Mas de manhã e à noite a capela estava sempre cheia de um perfume tão agradável como se estivesse cheia de rosas. Certo dia o tal fradinho adoeceu gravemente e o perfume a rosas deixou de se fazer sentir na igreja. Os outros frades cuidaram, então que deveria ser ele a colocar as rosas escondidas em lugar que eles não as vissem. Mas onde e como? Ninguém jamais o havia visto deixar o convento e tampouco sair para comprar as belas rosas. Numa manhã, porém, quando já estava melhor, todos os frades do convento viram o tal fradinho dirigir-se para a igreja e, ajoelhado diante da imagem da Virgem, recitar as 150 Ave-Marias. Para espanto de todos, cada vez que ele rezava uma Avé Maria a Nossa Senhora, aparecia, milagrosamente, uma rosa num vaso do altar. Nesse dia, como estava muito fraco, depois de rezar as 150 Avé-Marias e do altar se encher de rosas e a igreja de perfume, o fradinho caiu morto aos pés da Virgem. Comovido, o superior do concento que era São Domingos, ordenou que, a partir de então, os frades daquele convento, seguindo o exemplo do fradinho, rezassem à Virgem Maria as 150 Avé-Marias, que passaram a chamar Rosário. Dizia a minha avó que quando era criança ouvira um fradinho que viera pregar as Endoenças à Fajãzinha, contar esta estória.

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publicado por picodavigia2 às 22:23

Nº 13 MARIA

Sábado, 17.01.15

“Aos treze dias do mez de Abril do anno de mil oitocentos e oitenta e cinco, nesta egreja Parochial de Sam José, freguesia da Fajã Grande, concelho da vila das Lages, Diocese de Angra, baptisei solenemente um indivíduo do sexo feminino a quem dei o nome de Maria, e que nasceu nesta freguesia pelas dez horas da noite do dia doze do dito mez e anno filho legítimo primeiro do nome de António Lourenço Fagundes, proprietário natural desta freguesia da Fajã Grande deste concelho e Diocese e de Maria de Jesus Fagundes de ocupação doméstica, naturaes, recebidos, parochianos e moradores na rua d’Assomada, neto paterno de José Lourenço Fagundes e de Mariana Joaquina de Jesus e materno de António Joaquim Fagundes e de Policena Joaquina da Silveira Foi padrinho Francisco Joaquim Fagundes, solteiro proprietário e madrinha Policena Joaquina da Silveira, casada e agricultores os quais todos sei serem os próprios. E para constar lavrei um duplicado deste assento e que depois de ser lido e conferido perante os padrinhos, não assignam estes por não saberem escrever. Era ut supra.

Pároco José Francisco de Moraes.”

À margem do assento está colada uma estampilha de sessenta reis.

 

Este é o registo de batismo da irmã mais velha de meu pai, João Joaquim Fagundes. Os meus avós haviam casado, três anos antes, mais concretamente em 30 de Novembro de 1882.

 

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publicado por picodavigia2 às 22:33

SALMO DORIDO

Sexta-feira, 16.01.15

Rasgavas, com a enxada, o escuro das madrugadas

E adormecias com a foice ao lado do travesseiro.

 

Fazias do machado a tua bandeira de vitória

E gravavas no teu brasão os sulcos do arado em terra ressequida.

 

Lutavas, destemido, contra os rugidos do vento norte

E caminhavas, seguro, por entre nevoeiros e tempestades.

 

Levantavas-te, sonolento e destroçado, a meio da noite

E à tardinha, aguardavas, com um sorriso, o pôr-do-sol.

 

As tuas mãos, calejadas, encerravam uma sabedoria infinita

E as tuas pegadas eram marcos de honestidade e de justiça.

 

Trazias estampado no rosto o travo amargo da angústia

E carregavas sobre os ombros doridos as vicissitudes da penúria.

 

Transformavas a pobreza em dignidade e virtude

E os esteios da verdade atraiam-te, numa procura permanente.

 

Foste pai e companheiro, retalhado de dor e de amargura

Mas ocultavas os lamentos sob o manto áureo da resignação.

 

Partiste, no silêncio escuro, depois de um longo sofrimento

Mas a tua memória brilha como estrela que nunca se apagará.

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publicado por picodavigia2 às 17:18

RODRIGO RODRIGUES

Quinta-feira, 15.01.15

Rodrigo Rodrigues nasceu em Ponta Delgada, ilha de São Miguel. Após os estudos primários e secundários em Ponta Delgada e os estudos preparatórios para a Escola Naval em Lisboa, em 1896 ingressou na repartição de Finanças de Ponta Delgada, tendo sido seu diretor efetivo desde 1926 até à reforma, em 1943. Segundo o Dr. Côrtes-Rodrigues, Rodrigo Rodrigues: «situa-se na sua geração como figura que mais caracteristicamente a sintetiza, dentro da variedade de aspetos de que esta se aparenta».

Interessou-se pela Literatura, Astronomia, Matemática, Física e Filosofia. Tendo sido professor de várias destas disciplinas na Escola Normal Primária de Ponta Delgada. A sua paixão pela música levou-o a ser cofundador da Academia Musical de Ponta Delgada, em 1923. Foi um dos fundadores e principal colaborador da revista «Exoterismos». Colaborou no semanário «A Palavra», sob o heterónimo de Gaspar do Sol. Mas a sua principal tendência era a investigação. Com qualidades natas de paleógrafo investigou códices dos mais diversos cartórios e arquivos. No seu espólio encontra-se a maior parte da sua obra, ainda inédita: «Extratos dos livros da Misericórdia de Ponta Delgada»; «Cópia dos Registos Paroquiais de S. Miguel»; «A Toponímia de Ponta Delgada». É autor dos 14 cadernos de «Notas Históricas»; cópias integrais dos manuscritos, então inéditos, Espelho Cristalino, de frei Diogo das Chagas, a Fénix Angrense, do padre Maldonado e As Crónicas da Província de S. João Evangelista, de frei Agostinho de Mont?Alverne, que serviu para a publicação, pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada, da sua edição, em 1986. Foi um dos promotores da comemoração do quinto centenário do nascimento de Gaspar Frutuoso (1922) e o principal responsável pela publicação dos 3 volumes do Livro IV das Saudades da Terra, relativo a São Miguel.

Foi sócio fundador do Instituto Cultural de Ponta Delgada; Sócio honorário do Instituto Histórico da Ilha Terceira; Sócio correspondente do Instituto Genealógico Brasileiro; Sócio honorário do Instituto Histórico e Genealógico de São Paulo (Brasil) e Membro da Associação de Arqueólogos Portugueses. Fez parte da «Comissão de Toponímia» da Câmara Municipal de Ponta Delgada e do «corpo da redacção do Anuário da Nobreza Portuguesa».

Obras Principais: Paul Verlaine, Semanário «Preto no Branco», Notícia Biográfica do Dr. Gaspar Frutuoso, Livro III das Saudades da Terr, A Ermida do Paço dos Donatários desta Ilha, em Ponta Delgada e a desaparecida Igreja de S. Mateus da mesma cidade, O Licenciado António de Frias e Rua de Sant?Ana, A Morgadinha de Cracas e o seu apressado casamento em 1767, O padre António Vieira em S. Miguel, Notas sobre Toponímia de Ponta Delgada, Equívocos que é conveniente desfazer, Equívocos que é conveniente esclarecer, Quem é Gaspar do Rego Baldaia, o remetente para Ponta Delgada do Alvará Régio que a fez cidade, em 1546, Domus Municipalis de Ponta Delgada, Insulana, A Família Marcondes do Brasil ? Suas ascendências em Portugal, Boletim do Instituto Histórico e Genealógico de São Paulo, O mais antigo documento escrito na ilha de S. Miguel, até agora conhecido, Escritura de venda feita  em Vila Franca do Campo a 20 de Junho de 1492 e Certidão passada em Londres pelo Embaixador António de Castilho, a 20 de Abril de 1582.

Em fase de publicação: Genealogias de S. Miguel e Santa Maria.

 

In Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 10:45

O FAROL

Quarta-feira, 14.01.15

Na ilha das Flores, assim como nas restantes ilhas açorianas, existem muitos faróis, marcos orientadores na frequente navegação que ao redor daquelas ilhas tinham e têm lugar, que hoje como que já fazem parte da história do arquipélago. No entanto e para além de serem testemunhos históricos e marcos necessários e indispensáveis a quem anda no mar, os faróis dos Açores contribuem, indiscutivelmente, para a caracterização paisagística de que as ilhas disfrutam, tornando-se, muitos deles, verdadeiros ex-libris das localidades onde se situam.

No entanto, estes faróis, uns muito grandes e potentes, outros pequenos e titubeantes, são, na generalidade, relativamente recentes, sendo o da Ponta do Arnel, em São Miguel, cuja construção teve lugar no ano de 1876, o mais antigo dos existentes nas nove ilhas. Por sua vez, na ilha das Flores dos dois grandes faróis existentes, um a norte e outro a sul da ilha, o da Ponta das Lajes, na parte sul da ilha, é o mais antigo, tendo sido construído 1910, enquanto o da Ponta do Albarnaz, no extremo norte, é um pouco mais recente, tendo sido construído em 1925. Na Fajã Grande existia, apenas, um pequeno farolim, situado no antigo Caminho do Porto, entre o Cais e o Porto Velho.

O farol da Fajã Grande era uma pequena construção, caiada de branco e debruada a vermelho, em forma de torre, com a parte inferior da mesma formando uma pequena cabine. Nesta cabine, para além de outros objetos, guardava-se durante o dia uma enorme lanterna que, depois de acesa, à noitinha, subia através de uma espécie de elevador manual, até ao alto da torre, onde havia uma espécie de pequeno varandim circular, descoberto e com um gradeamento de ferro ao redor. Era aí que encaixava a lanterna e era aí, também, que a mesma permanecia acesa até de manhã. Nessa altura, voltava a descer, sendo então apagada e guardada na cabine inferior, até à noite. A lanterna ficava voltada a oeste e, desse lado da torre, havia umas pequenas escadas em ferro que, em caso de necessidade, permitiam a subida à parte mais alta do farol. A torre e a cabine ficavam dentro de um pequeno quadrado, construído em cimento sobre o baixio, com um muro ao redor e com um portão de acesso. De resto mais nada. Uma simplicidade pura, genuína mas prática.

A luz do farol era pouco potente e destinava-se apenas às embarcações costeiras. A navegação no mar alto guiava-se pelo farol do Albarnaz, cujos raios eram bem visíveis na Fajã Grande, por de trás da Rocha da Ponta. O farol da Fajã teve sempre um faroleiro a quem competia a tarefa diária de o acender à noite apagar de manhã. No entanto e para além destas atividades diárias, o faroleiro era também o responsável pela manutenção do mesmo, nomeadamente, pelo olear de roldanas, cabos e manivelas, limpeza e asseio do interior da cabine, abastecimento do combustível para a lanterna, pintura de gradeamentos e escadas, etc..

Na Fajã, na década de 50 o faroleiro era o senhor Arnaldo, viúvo de um primeiro casamento e casado em segundas núpcias com a senhora Luciana Gonçalves. Curiosamente, o pároco, o professor e o faroleiro eram consideradas as pessoas mais ricas da freguesia, com melhores casas e com estatuto social superior,

O farol da Fajã deu nome ao lugar onde se situava, sobretudo na zona do baixio, onde havia uma poça, chamada Poça do Farol e que servia de piscina natural e de aprendizagem de natação aos mais pequeninos. Além disso era um local acolhedor e fascinante sobretudo aos domingos e nas tardes de verão, durante as quais muitas senhoras da freguesia davam passeios até ao farol, sentando-se no murete, observando o mar, a baía, o rolo e a maravilhosa paisagem que dali se disfruta De facto, o farol da Fajã Grande, tendo com cenário oposto a Rocha das Águas e a cascata da Ribeira das Casas, enquadrava-se numa espécie de aguarela viva em que a natureza estava mais viva e mais próxima, dando-nos a sensação de estarmos a ser “embalados” na presença do infinito.

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publicado por picodavigia2 às 00:19

O CARRO DE BOIS VAZIO

Terça-feira, 13.01.15

Era uma vez um pai que pretendia dar uma lição de vida ao seu filho. O jovem era um pouco estouvado e arrogante, falava muito alto, cuidando que a razão estava sempre do seu lado e tratava os outros com prepotência e desprezo.

Certa manhã, o pai, cuidando que assim lhe havia de dar uma grande lição, convidou-o a dar um passeio pelo campo, onde muitos lavradores circulavam nas suas lides agrícolas diárias. Naquela manhã, porém não andava ninguém pelos campos nem se ouvia barulho algum, a não ser o canto matinal dos pássaros. O pai, no meio daquele estranho silêncio, ouviu mais algum ruído, por isso, perguntou ao filho:

- Além do cantar dos pássaros, ouves algum outro barulho?

O filho, muito amirado, parou, a fim de que o ruído dos seus passos não o confundissem e pudesse dar ao pai uma resposta verdadeira, apesar de não perceber o que ele pretendia com aquilo. Depois, voltando-se para o pai, respondeu:       

- Ouço, ouço o barulho do rolar de um carro de bois sobre o pedregulho do caminho.

-Tens razão – disse o pai – realmente ouve-se o rolar das rodas de um carro de bois, mas trata-se dum carro vazio, sem carga.

Muito admirado e cada vez mais confuso, o filho perguntou:

- Como sabe, se não o vê, que o carro está vazio?

O pai, de imediato, respondeu:

- É muito fácil saber se um carro está vazio ou cheio de carga, por causa do barulho que ele faz ao rolar no caminho. É que quanto mais vazio o carro está, maior é o barulho que faz sobre a calçada onde rola. Por sua vez, o carro cheio, torna-se mais pesado e faz menos barulho. – E concluiu o velho e sábio pai: - Assim como os carros de bois também as pessoas. Quanto mais vazias são, mais gritam e mais barulho fazem.

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publicado por picodavigia2 às 10:42

SALTO NA BURRA

Segunda-feira, 12.01.15

Meus irmãos mais velhos, dedicadíssimos às atividades agrícola e pecuária que não apenas lhe garantiam a subsistência como também lhe permitiam amealhar alguns troquitos, em determinada altura, decidiram comprar uma burra. Era uma enorme mais-valia para os seus carregos e tarefas. A bicha aliviava-lhes as cargas e ainda a montavam nas suas idas e vindas para os campos mais distantes do Pocestinho e dos Lavadouros. A burra era forte, mansa e afeiçoara-se a eles, cumprindo ordens e adquirindo hábitos que só eles conheciam.

No verão seguinte, ao regressar de férias, fascinou-me a burra. E num dos primeiros dias decidi-me por um passeio a cavalo. Pretendia iniciar-me numa inédita aventura de cavalgar no lombo da jumenta. Mas a famigerada era teimosa que nem um burro e sonsa como um touro. Além disso, tinha hábitos que eu desconhecia.

Soltei-a do palheiro, trouxe-a para o caminho e tentei saltar. Impossível! A burra era muito alta e eu de perna curta. Mudei de plano. Aproximei o estafermo de um muro que havia em frente da minha casa. Eu a puxar para a frente ela para trás. Quando a consegui aproximar do muro, coloquei-me em cima dele e zás. Atirei-me de rompante para o dorso do animal. O que havia de passar pela cabeça da maldita, enquanto eu jimpava pelos ares, para me encavalitar? Aproximar-se do muro, como, pelos vistos, era seu hábito. Só que eu, como já impulsionara o corpo com a força que julgava necessária para atingir-lhe o lombo, fui estatelar-me quase inconsciente, do outro lado, sobre o pedregulho da calçada.

E enterraram-se ali os meus sonhos de cavalgar toda a sela.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:37

A LOMBEGA

Domingo, 11.01.15

Para além de deslumbrante, exótico e muito fértil, o lugar da Lombega era excelente para o cultivo de inhames. Inhames secos, diga-se em abono de verdade, porquanto os de água floresciam sobretudo nas belgas e enclaves das encostas, junto à Rocha, a beneficiarem de terremos enlamaçados ou alagados pelo precioso líquido que corria, abundantemente e durante todo o ano, das ribeiras, grotas, veios e nascentes que proliferavam por todo aquele alcantil, escarpado e abrupto, desde o Curralinho até à Rocha do Vime, já quase na Ponta. A Lombega porém, apesar de não beneficiar de tais privilégios, pois a única água que a regava era a da chuva, produzia inhames, em qualidade e em quantidade, capazes de ombrearem e até, aparentemente, ultrapassarem os inhames dos terrenos alagadiços das fronteiras inferiores da Rocha. Para além dos inhames, a Lombega ainda era fértil em árvores de fruto, especialmente laranjeiras e macieiras. Mais do que isso, apenas uma outra terra de mato.

O acesso à Lombega, um pequeno espaço espalhado pelos contrafortes de um planalto,  fazia-se por um dos principais, melhor e mais importante caminho da freguesia, aquele que ligava o Cimo da Assomada aos Lavadouros, pelo que, muitos dos produtos dos seus terrenos podiam ser acarretados em carros ou corsões, com exceção dos inhames, geralmente, carregados em cestos, transportados à cabeça pelas mulheres ou às costas, no caso dos homens. O objetivo deste transporte da responsabilidade dos humanos prendia-se com a necessidade de os inhames não se machucarem uns contra os outros, com os baloiços de corsões a arrastarem-se sobre calhaus e pedregulhos, e, assim apodrecerem mais facilmente. O transporte à cabeça ou às costas, cuidadoso e cauto, valorizava a qualidade do produto. A fruta, por sua vez, era trazida em cestas ou cabazes de mão, tarefa, geralmente, atribuída às crianças que aproveitavam o longo trajeto até aos seus cardenhos, não apenas para, às escondidas dos progenitores, saciar a fome mas também aliviar o carrego.

Situada para além da Cabaceira e da Cancelinha, a Lombega tinha uma superfície pequena e uma forma arredondada, tendo a norte o Espigão, a leste o Moledo Grosso e o Lameiro, a sul também o Lameiro e a leste a Pedra Vermelha. Para o seu interior, uma vez que o caminho de acesso apenas se limitava a ladear, o acesso aos vários terrenos do interior, aos do sul e aos de leste era feito por duas canadas. Uma mais pequena e estreita, a leste, situada no início da ladeira que recebera o nome do lugar e uma outra, a principal, chamada canada da Lombega, cuja entrada se situava no cimo da mesma ladeira e que também servia de fronteira entre a própria Lombega e o vizinho Moledo Grosso e que também dava acesso a este e ao Lameiro.

A origem deste topónimo prende-se com o significado do nome comum lomba, ou seja, um terreno situado num monte ou num lugar mais alto, mas sem ter a forma de morro. Neste caso tratar-se-ia duma pequena lomba, uma vez que o sufixo ega, na linguagem popular, parece ter um sentido diminutivo. Assim e porque este lugar teria ou pareceria ter a forma ou o aspeto de uma pequena lomba, ter-lhe-á sido atribuído, o nome de Lombega.

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publicado por picodavigia2 às 00:32

UM BÊBADO

Sábado, 10.01.15

(POEMA DE L-AKHTAL - POETA ÁRABE 630-710)

 

Um bêbado

      Abatido em combate pelo vinho

      a custo ergue a cabeça, bebe e berra,

      pesam-lhe os ossos, mexem de mansinho

      as juntas do seu corpo que se emperra...

      Sustemo-lo entre nós sempre tombando,

      arrastamos-lhe o corpo feito morto,

      alheio nem parece ir-se lembrando

      de que pensava e não andava torto...

      Colado ao chão, como se lapa fosse,

      levantá-lo é torná-lo mais pesado,

      levá-lo para o quarto, nem a couce,

      mas vai como lixo em saco arrastado.

 

Tradução de Camilo Martins de Oliveira, in blog “7 Anos de Cultura

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publicado por picodavigia2 às 11:06

PRIMEIRO ÓBITO

Sexta-feira, 09.01.15

Reza assim o registo do óbito referente ao primeiro enterro verificado na paróquia de São José da Fajã Grande, ilha das Flores. Trata-se duma criança de nove meses cujos pais residiam na Cuada:

“A dezassete dias do mês de Fevereiro de mil oitocentos e sessenta e dois, às seis horas da tarde, na casa número duzentos e quarenta e três, no ugar da Coada, desta freguesia e concelho da villa das Lajens, Distrito Eclesiástico da cidade da Horta, diocese de Angra, faleceu Francisco de idade de nove meses, parochiano desta freguesia, filho de José Caetano Gabriel e de Mariana Margarida do Coração de Jesus, neto paterno de António Caetano Gabriel e de Maria de Freitas e materno de Domingos José do Conde e de Catharina Margarida. E para constar lavrei este assento em duplicado que assignarei. Era ut supra. O Phresbytero António José de Freitas.

 

Por sua vez, o segundo óbito foi de uma mulher natural e residente na Ponta, de nome Floripes Luciana da Silveira, de quarenta e quatro anos casada com João de Freitas Fraga e que deixou quatro filhos.

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publicado por picodavigia2 às 11:35

MEDOS

Sexta-feira, 09.01.15

(TEXTO DE ABEL NÓIA GONÇALVES VIEIRA)

 

Je ne suis pas Charlie!

Em português chão, sou Abel Noia Gonçalves Vieira, apenas um dos sete biliões de seres humanos que diariamente rolam no planeta à volta do sol, como é científica e universalmente reconhecido desde Galileu, uma das vítimas do fanatismo na forma católica da época.

Nem precisaria deixar por escrito que me associo a todos os seres humanos que condenam o abominável atentado de Paris, como todos os outros que nem chegam a ser notícia.

Também tenho medo, apesar do recente reforço de fechaduras aqui por casa, incluída a porta do pequeno espaço onde trabalho, uma precaução elementar que recomendo a todos mas pouco resolverá nas próximas décadas. As minhas inseguranças têm outras causas e outras armas bem mais sofisticadas.

Tenho medo da perda de consciência da dignidade da pessoa e dos mais elementares direitos humanos, curiosamente com marco histórico no contexto da sangrenta revolução francesa.

Tenho medo do empobrecimento das relações humanas quando, deixando de ser fundamentadas na paternidade amorosa de Deus, perdem em fraternidade, solidariedade, respeito e apoio na debilidade que toca a todos.

Tenho medo tanto do poder do dinheiro como da falta dele para uma vida humana digna, na proliferação das pobrezas que atentam contra a coesão social dos povos e favorecem a violência.

Tenho medo dos 10% de portugueses que ficaram mais «podres de ricos» em 2014, ano em que se aprofundaram as desigualdades sociais com 25% das famílias no limiar da pobreza.

Tenho medo da degradação galopante das famílias, remendadas nos mais diversos modelos, onde faltam o pão e os afetos, onde se aprende a violência no meio de lágrimas incontidas, onde as novas gerações vão crescendo sem referências de valores que os comentadores enfatuados dizem fazer parte da nossa cultura.

Tenho medo das escolas onde generosos e competentes professores ensinam cada vez mais coisas mas sentem, como eu, a mesma incapacidade de educar para uma vida mais humana e culta, solidária e empenhada na transformação da sociedade.

Tenho medo do que se escreve para vender jornais mais do que para fazer pensar, uma aprendizagem com poucos candidatos. Precisamos debater muitas coisas sem espaço televisivo na comunicação social que temos e repensar quase tudo nesta mudança de época e paradigma, como se diz com total propriedade de linguagem.

Tenho medo dos que nos desgovernaram, desgovernam e desgovernarão nos próximos tempos, oriundos das «jotinhas» do arco da governação mas sem perfil de estadistas e permeáveis a todo o tipo de interesses pessoais e de grupo, como vemos.

Tenho medo das discotecas transformadas em catedrais, da programação das festas das nossas cidades que promove a degradação de adolescentes e jovens, ao trocar as noites pelos dias, mergulhados na «curtição» e no consumo de dependências que não humanizam nem preparam para a vida.

Até tenho medo de uma Igreja que se delicia a contar pelos dedos os cardeais que falam português e se enfeita como outras «dignidades eclesiásticas» como arcebispos, monsenhores e cónegos - nomes que não encontro no meu Novo Testamento por mais voltas que lhe dê - mas não sabe como fazer cristãos nem levar a boa notícia de Jesus Cristo a todos. Quase nos limitados a arrastar práticas e estruturas desfasadas da realidade nua e crua.

Penso que ainda tenho outros medos mas falta-me o tempo, antes de voltar a tarefas administrativas que também me causam receito como atentado à sanidade mental dos pastores da Igreja, preparados para uma missão que nada tem a ver com funcionalismo.

Que estes meus medos possam ajudar a repensar muitas coisas quando precisamos, mais do que nunca, cultivar um pensar global para um agir local.

 

Abel Noia Gonçalves Vieira, in FBo

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publicado por picodavigia2 às 10:24

OS COMPADRES (DIÁRIO DE TI'ANTONHO)

Quinta-feira, 08.01.15

Uma outra estória que eu ouvia contar quando miúdo era a seguinte:

Era uma vez um casal que tinha vários filhos e um compadre de quem eram muito amigos. A mulher, para além de muito religiosa, era muito íntima do tal compadre. O marido, inicialmente, não se apercebeu do caso, mas com o tempo veio a perceber a embrulhada e, por isso, começou a pensar na maneira como havia de os desmascarar.

Teve então uma ideia: quando a mulher fosse à igreja rezar aos santinhos da sua devoção, ele escondia-se e atrás do altar. Assim o fez. No dia seguinte, aguardou que a mulher saísse de casa para ir rezar e, correndo à sua frente, foi esconder-se atrás do altar. A mulher entrou na igreja, ajoelhou, rezando a seguinte oração em voz alta:

- Ó meu Santo cegai o meu marido.

O marido ouvindo isto responde-lhe lá de trás do altar, distorcendo a voz, como se fosse o Santo:

- Ó minha Senhora, dai-lhe bastante de comer e beber que ele há-de cegar pouco a pouco.

A mulher saiu da igreja e, convencida de que tinha sido o santo a ouvir a sua oração e a aconselhá-la, quando o marido se sentou à mesa, para almoçar, disse-lhe:

- Ó homem, come e bebe bastante que eu quero-te bastante forte e saudável.

Nos dias seguintes a mulher voltava à igreja para rezar e o marido, escondido atrás do altar, respondia-lhe como se fosse o Santo:

- Dá-lhe bastante comer e beber que ele há-de cegar, por completo.

Passados uns dias, ao almoço, o homem disse para a mulher:

- Ó mulher, não me deves dar tanta comida. Não vês que me anda a dar uma estranha cegueira.

A mulher toda contente diz-lhe:

- Ó homem, come e bebe, pode ser que te ponhas melhor.

No dia seguinte, voltou a mulher à igreja para ir rezar ao Santo da sua devoção. Ela a rezar a mesma oração e a voz disfarçado do marido, como se fosse o Santo, a dar-lhe o mesmo conselho. Alguns dias depois, o homem ao almoço voltou a dizer:

- Ó mulher, não sei o que se passa comigo. É que eu já não vejo mesmo nada.

- Ó homem, não te preocupes - retorquiu a mulher muito contente - os nossos filhos hão-de ajudar-te nos trabalhos.

Convencida de que o milagre tinha acontecido e de que o homem estava mesmo cego, a mulher deixou de ir à igreja e, passados alguns dias, convidou o compadre para jantar na sua casa, como se fosse comemorar o acontecido. O marido, muito convencido, dizia, ironicamente, à mulher:

- Ó mulher, come e bebe a ver se também ficas cega como eu.

A mulher nem desconfiou e, no fim do bródio, ficaram todos sentados à mesa, a conversar. Diz então o homem para o compadre:

- Ó compadre, o que mais me custa não é ter ficado cego. A minha maior tristeza é saber que o meu compadre e a minha mulher mesmo sem comer e beber muito ainda estão mais cegos do que eu.

Como não o entendessem, mas muito admirados, o homem voltando-se para a mulher, pediu-lhe;

- Ó mulher, traz-me a espingarda que eu, embora cego, ainda sou capaz de atirar certeiro.

A mulher, cada vez mais confusa, trouxe-lhe espingarda. O homem voltando-se para um dos filhos, pediu-lhe que lhe colocasse uma garrafa a uns bons metros de distância. Depois pegando na espingarda, fez-lhe pontaria, acertando-lhe em cheio.

Perante o espanto da mulher que, assim se sentia descoberta, o homem concluiu:

- Na garrafa, acertei-lhe de cifrada e aos que nos enganam atira-se a matar.

O compadre, cheio de medo, fugiu dali a sete pés, a mulher pediu perdão ao marido e este, pediu a um dos filhos que lhe guardasse a arma.

E o Santo, pelos vistos, nunca mais teve orações daquela mulher.

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publicado por picodavigia2 às 14:47

DINIS DA LUZ

Quarta-feira, 07.01.15

Dinis da Luz de Medeiros. Nasceu na freguesia de S. Pedro do Nordestinho, na ilha de S. Miguel, a 8 de Setembro de 1915 e faleceu na mesma freguesia, em 20 de Janeiro de 1988. Foi sacerdote, poeta e jornalista. Enquanto aluno do Seminário de Angra, colaborou no jornal A União. Foi ordenado sacerdote em 1938 e trabalhou como prefeito num colégio de Ponta Delgada. Pelas capacidades jornalísticas evidenciadas, partiu para Lisboa, a mando da diocese com o objectivo de adquirir experiência. A hipótese de regressar aos Açores ficou inviabilizada por pressão do director do jornal católico A Voz, onde trabalhou como redator entre 1940-1970. Por motivos de doença e mudanças no jornal, que se transformou no órgão da União Nacional, com novo título, regressou ao Nordeste. Mesmo assim, naquele período não deixou de colaborar nos mais variados periódicos açorianos e do continente.

No campo literário escreveu poesia, contos e ensaios, inserindo-se no panorama literário do modernismo, com expressão formalmente clássica. O seu primeiro livro de poesia apresenta textos escritos entre os 13 e os 16 anos. Foi membro do Instituto Cultural de Ponta Delgada e condecorado com a medalha da Liberdade do rei Jorge VI de Inglaterra e com o grau de Oficial da Ordem de Leopoldo II, da Bélgica. Faz parte da toponímia do Nordeste.

Obras principais: Ponta da madrugada, Antes de vir a noite, De Deus e do Homem (antologia de Pascal com tradução, prefácio e notas), Grandeza e miséria, Asas de Natal e mais sete poemas, A sereia canta nos portos, Coisas da censura e um artigo para «inquietar» toda a gente e Destinos no mar.

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

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publicado por picodavigia2 às 16:35

NOVO ANO

Terça-feira, 06.01.15

(POEMA DE MIGUEL TORGA)

 

Recomeça…

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

 

Miguel Torga

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publicado por picodavigia2 às 17:07

JANEIRO TERREADO

Terça-feira, 06.01.15

“Em janeiro sobe ao outeiro, Se vires verdejar põe-te a chorar, se vires terrear põe-te a cantar”.

Este interessantíssimo adágio era muito usado na Fajã Grande, na década de cinquenta, por altura do mês de janeiro, geralmente, um mês de muito mau tempo na mais ocidental freguesia da Europa. Ouvi muitas vezes, a minha avó, muito douta nestas questões, anunciá-lo. Se o mau tempo não grassava em Janeiro era uma grande preocupação para ela. Era muito interessante, neste adágio, o recurso à palavra terrear, uma palavra com a qual se pretendia expressar o estado dos terrenos sem vegetação e, portanto, com um colorido semelhante a terra, mas que não era de uso corrente. Ora segundo a sabedoria popular, um janeiro terreado era um bom sinal para as culturas que viriam nos meses seguintes. Janeiro, na verdade, era um mês de grandes tempestades, de fortes geadas e salmouras que, além de destruir tudo que era verde, cuidava-se que como que purificava a terra e preparava-a para que, na primavera seguinte, desabrochassem em plenitude as sementes e as plantas. Pelo contrário, o verdejar, isto é as plantas crescerem e cobriram os campos de verde, em janeiro, significava que os rigores do inverno estavam para vir mais tarde, dando cabo das colheitas, originando um ano de fraca produção agrícola. Era pois motivo para chorar.

Na Fajã Grande este adágio, no que ao outeiro diz respeito, tinha um significado muito próprio, uma vez que o centro da freguesia era ladeado a sul por um outeiro, chamado precisamente “Outeiro” e encimado por uma enorme cruz, donde se disfrutava de uma interessante vista sobre quase toda a freguesia, pelo que este adágio se enquadrava na perfeição. O adágio refletia-se perfeitamente no cenário paisagístico da freguesia.

Ia muitas vezes, em criança, ao Outeiro para brincar, cortar verduras ou até na festa da Cruz. Sempre que lá ia, no Inverno, ao olhar, lá do alto os serrados, belgas e currais, parecia-me ouvir a minha avó, mais uma vez, a cantarolar: “Em janeiro sobe ao outeiro, Se vires verdejar põe-te a chorar, se vires terrear põe-te a cantar”.

 aa

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publicado por picodavigia2 às 10:52

A LENDA DOS REIS MAGOS

Terça-feira, 06.01.15

Conta uma lenda muita antiga que os três Reis Magos - Baltazar, Gaspar e Belchior - quando seguiam a estrela que indicava a Gruta, encontraram um pastor que acendia uma fogueira. Ao vê-lo os reis pararam, cuidando que o pastor estava ali, apenas para se aquecer.

Baltazar foi o primeiro a falar, perguntando-lhe:

- Que fazes aqui, pastor?

- Acendo e tomo conta das fogueiras que servem para iluminar o caminho para os que vão visitar o Deus Menino.

- É pena que não nos possas acompanhar-nos - disse Gaspar.

- Temos que seguir viagem, o caminho é longo – disse, por fim, Belchior, enquanto montava de novo o seu camelo.

- Adeus, pastorzinho! Até breve! - Disseram os três Reis Magos, pondo-se, de novo, em marcha, a caminho de Belém.

- Adeus! Adeus! - Respondeu o pastor, acenando com a mão tristonho.

De repente, o pastorzinho teve uma ideia: colocava muita lenha nas fogueiras a fim de estas se manterem toda a noite acesas. Depois, se corresse muito, ainda havia de apanhar os Reis Magos e acompanhá-los até à gruta de Belém.

Se bem o pensou, melhor o fez e, quando chegou ao estábulo, ficou feliz por ver o Menino Jesus, mas ao mesmo tempo, triste, por ver os Reis Magos oferecerem ouro, incenso e mirra e ele sem ter nada para oferecer.

- Que posso oferecer ao Menino se não tenho presentes assim tão preciosos? –

Porém, ao voltar o rosto, cheio de lágrimas, viu, ao seu lado, uma flor branca. Correu para ela, mas ao colhê-la ficou de novo triste. Como arranjar coragem para oferecer um presente tão simples?!

De longe, Nossa Senhora viu-o e chamou-o:

- Vem, meu filho, estamos à espera do teu precioso presente.

E, perante os olhos comovidos de Maria, de José e dos Reis Magos, o pequeno pastor entregou, feliz, a flor ao Deus Menino.

É essa a razão por que a margarida, no meio das suas pétalas brancas, tem uma coroa de ouro.

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