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RITA E TEODORO

Sábado, 24.01.15

Nasceram quase no mesmo ano. Ele nos fins de Maio, ela em meados de Fevereiro do ano seguinte. Como se isso não bastasse, os progenitores eram vizinhos. Os dele, no fim da Assomada, os dela, no início da Fontinha. Ambos crianças lindas, airosas que o povo em peso mirava com olhos raiados de inveja. Inevitavelmente, queriam os seus assim. Apesar de tudo cresceram separados. Apenas a escola primária os uniu. Uniu e desuniu. O pai dela há muito que decretara desprezo ao dele e as mães haviam-se desavindo desde muito novas. Circulava nas veias dos progenitores de ambos um travo amargo e crispado de indiferença.

Acabadinhos de sair da escola primária, quis o destino que ambos marchassem para outra ilha. Ela para o Faial, ele para a Terceira. Viagens de férias desencontradas, destinos impostos premeditadamente, apenas se viam de longe. Ela numa caminhada até ao Cimo da Assomada, em demanda do galinheiro. Ele a pavonear-se pela rua Direita como se fosse um lord.

Numa tarde, de agosto, porém, tudo mudou. Ela a ir à casa da senhora Benedita, a costureira-mor da freguesia, onde ele, na qualidade de vizinho predileto passava manhãs, tardes e por vezes até noites. Viram-se, reviram-se e olharam-se como nunca se tinham olhado, beneficiando do beneplácito da irmã da senhora Benedita, a Cremilde, muto incentivadora de namoricos e defensora de folguedos e jactâncias juvenis. Desfizeram-se bloqueios, quebraram-se cadeias, colaram-se destinos. Um sufoco inebriante para ela, um alvoroço demolidor para ele. Segue-se que daí a nada corria falatório gigantesco e polvoroso pela freguesia. Que Deus nos acudisse! Um alvoroço mexeriqueiro como há muito se não vira. Por último encheram-se os ouvidos dos progenitores. Os dela encolheram os ombros. Tanto se lhes dava como não dava. Os dele, um descalabro a que era preciso por cobro.

A Rita, assim era o nome dela, é que, com o aval dos progenitores, não se importou nem quis saber de mexericos. Estava-se marimbando para o que dela diziam. Muito senhora do seu nariz, altiva e descomplexada, com resposta sempre na ponta da língua, depois de cada sarrafusca a que dava azo, passava Assomada acima em direção à terra onde esgaravatavam e debicavam meia dúzia de galinhas e um galo, como se nada fosse. Se achasse necessário e oportuno até dava troco a um ou a outro. Além disso, aspergia graciosidade a garota e, revestindo-se de uma simpatia contagiante, estrebuchava-se em alegria e contentamento. O povo inteiro, incrédulo, rendia-se-lhe aos pés, num sorriso de perdão, de complacência e de carinho. Ele sim, o Teodoro, sobretudo na opinião dos mais velhos, mais experientes e mais sabedores era o velhaco, o bandalho, o atrevido que a devia deixar em paz. Passava a vida ao deus dará, sem fazer a ponta dum corno. Que pouca vergonha! Perdidinho de todo, cheio de mania, um caganita daqueles! Um pobretanas que não tinha onde cair morto, mas que muito dava que falar. Ai se dava! Ainda bem que o Carvalho de setembro se aproximava. Havia de o levar de vez e deixar a freguesia em paz!

Ela, porém, não compartilhava tão vis impropérios, antes, ao ouvi-los, remanescia triste, chorosa, na ânsia de um olhar de perdão, mesmo que fosse de longe.

Partiram! Primeiro ele, depois ela. E o silêncio regressou ao povoado, evaporando murmúrios. Lá longe, de ilha para ilha, apenas uma carta, simples, pequena, concisa, sem deslumbramento. Para ela era intrigante o parco manifestar-se dele. Para ele era desgastante a separação dela. Apenas sonhavam nicas de esperança, como se fossem gotas de chuva saídas de nuvens escuras, deslizantes, sem destino.

Vieram outros verões e o Carvalho a despejá-los, à vez, em Santa Cruz. Nunca os juntara, o maldito. E os ecos sedentos de um grande amor, apenas, a perderem-se nos contrafortes do Outeiro. A senhora Benedita, com o beneplácito da Cremilde, a propósito de aprovar um vestido ou consertar uma bata, ainda ia abrindo, juntamente com uma gateira da porta, uma nesga de esperança. Mas eram encontros frugais, silenciosos, de todo infrutíferos. As ruas cada vez mais desertas e as janelas e varandas cada vez mais fechadas. Até as próprias marés de agosto, tanto ao gosto de um e de outro, se embraveciam, impedindo-os de se banharem no esplendor duma glorificação a valer. Ele mirara-lhe o corpo sedento, meigo e acastanhado mas que estava destinado a permanecer-lhe, apenas, como imagem indelével mas distante. Ela, obcecada pela hesitação que dele parecia emanar, permanentemente, entrelinha-se a entrelaçar desejos e construir castelos de embevecimento.

Foi pela festa da Senhora da Saúde que lhe pareceu que tudo havia de clarificar-se. Ele, finalmente, havia de se declarar, talvez de a beijar, de terminar com aquele sufoco, inaceitável e incompreensível. Mas para isso haviam de ser eles, sozinhos, a pôr cobro àquele amontoado de prémios, bugigangas diversas de pouca utilidade mas, regra geral, bastante vistosos e apelativos, que a ganapada, no domingo anterior, juntara pela freguesia. No reboliço da azáfama, ele mais afoito e experiente, mas mais desleixado e maleável, ela mais sensível e delicada, mais cuidadosa e sensata na escolha, na seleção e no arranjo. Tudo desenvencilhado em diálogos de circunstância, emoções contidas, desejos refreados, a arfar uma inusitada mas recíproca cumplicidade. A obstrução era rainha, numa ternura desmedida, num envolvimento desejado, a esquecer um passado proscrito, amordaçado. Centenas de quadradinhos de papel eram cuidadosamente enrolados, uns após os outros, simetricamente, num insigne e deslumbrante cuidado. O epicentro do desvelo rasgava-se frenético como se fosse uma onda a vir e voltar, tímida, temerosa, talvez mesmo ofegante. E no emaranhado do acerto, despejavam-se, apenas, desejos conciliadores, alvoroçava-se, às escondidas, a unanimidade, convertendo-a numa espécie de ternura sufocante, num simulado desembocar de contrição. Nada mais do que o reparar dos erros, o repor das falhas, o reconstruir de aparência e o acrescentar de sentimentos. Ele, inexplicavelmente e de uma maneira cobarde, atirava ao ar um amontoado gigantesco de desejos. Ela, ansiosa e expectante, repelia os brados estridentes dos estigmas em que ele a envolvera. Uma hesitação dominadora substituía a obstrução inicial e tornava-se rainha.  

E quando a noite, madrasta e perversa, desfazia a magia telúrica e profunda da quermesse da Senhora da Saúde, ela emaranhava-se, alvoroçada, numa aventura, insegura, fútil e destruidora.

Ele partiu no Carvalho seguinte e não mais voltou.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:27





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