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ALVOROÇO

Sábado, 28.02.15

Olhos grandes e esverdeados, a quererem engolir o mundo. Cabelos serpenteados e loiros a desafiar o vento. Boca acetinada a desenhar-se em sorrisos sublimes e um rosto ligeiramente moreno, perfumado a alecrim e a poejo, a confundir-se com o despertar das madrugadas florescentes. Corpo esbelto, elegante no andar, radiosa no trato, de fina sensibilidade ao exprimir-se, numa palavra – uma doçura.

Dera-lhe cabo da inocência o estafermo do José do Grotas, ao catrapiscar-lhe o olho. Era ela ainda muito nova. Ele? Um pulha! Barba por fazer, bigode espesso a cair-lhe da cara. Um barra botas mal-amanhado! Já fizera vinte e aguardava as sortes. Por certo que havia de ficar dentro e bater com os costados no Faial ou na Terceira. Pelo menos uma dezena de meses, talvez dois anos, havia de por lá ficar. O diabo era se fosse mobilizado para o Ultramar.  

E do ano dele foram todos apurados! No Carvalho de maio marchou para a Terceira. Assentou praça no Castelo de São João Batista, no Monte Brasil.

Ao princípio ela sentiu falta dele e, no dia do embarque, até chorou. Afeiçoara-se ao magano, apesar dos mexericos pouco abonatórios que sobre ele corriam na freguesia. Mexericos são mexericos… Mas do estatuto de malandro, de grandessíssimo preguiçoso é que não se livrava. O pai a ceifar, a mondar, a lavrar. Cestos e molhos às costas a cada hora do dia, a trabalhar como um mouro e o filho da manha, sentado à Praça, a falquejar, de cigarro na boca. Um sem não fazer nada! A tropa havia de o meter na linha… Ai se havia.

Passado algum tempo, no entanto, os estigmas da separação cicatrizaram. Cada Carvalho trazia uma carta e levava outra. Não fazia ideia de quando regressaria. Era tempo de guerra e, muito provavelmente, depois da recruta em Angra, seguiria para as Caldas, fazer a especialidade. Depois seria o que Deus quisesse… Mas decerto que o seu destino era Angola ou a Guiné.

Ela, Eulália, apesar de desolada, sem o amar muito, possuía contudo uma fleuma de confiança. Ocupava o tempo ajudando a mãe nas lides da casa, uma demão ao pai nas semeaduras, algumas tardes de costura junto da Tia Bernarda que a ensinava com paciência e sabedoria. Com mais quatro horas, duas de manhã e duas à tarde, na máquina, a assentar o leite, ia passando os dias. Aos poucos, a amargura e a tristeza iniciais foram-se desvanecendo. Foi-se diluindo a dor no lento esquecimento do filho do Grotas. Aos domingos ensinava catequese, cantava na capela e enfeitava a igreja. Passada meia dúzia de meses já não sentia a sua falta. Havia Carvalhos em que ela não recebia carta. No seguinte, pagava-lhe com a mesma moeda.

No verão chegou à freguesia, de férias, o Ilídio Salgado. Andava a estudar Medicina em Coimbra. Os pais e os irmãos haviam debandado para a América. Anuíram em deixar o rapaz em Portugal. Não queriam que ficasse com o curso a meio. Havia de formar-se e depois decidiria. Médico feito, talvez continuasse na terra que o vira nascer, talvez se fixasse no Continente, ou então juntar-se-ia a eles nos States, onde, decerto, também teria uma carreira brilhante. Um orgulho para os pais. O diabo era onde havia de ficar, durante as férias de verão. Foi o compadre Jesuíno que, de imediato, se prontificou. O rapaz havia de se hospedar em sua casa, havia de tratá-lo como um filho. E não se falava mais no assunto. Era verdade que a sua casa era pequena. Mas mesmo ali ao lado, paredes meias, morava a Tia Bernarda. Tinha um casarão enorme e vazio. Vivia praticamente sozinha. O marido e uma única filha haviam morrido há muitos anos, no desastre do Corvo. Não se importaria nada de o rapaz lá pernoitar. Sempre a queixar-se de doenças e achaques, havia de aproveitar a presença do futuro médico. Comida e roupa lavada eram por conta da sua Josefa, muito escoimada e uma excelente cozinheira.

Já de avançada idade, a tia Bernarda ainda cirandava sozinha durante o dia, mas à noite precisava de quem lhe fizesse companhia. Aquela maldita guerra de Angola levara-lhe o sobrinho de peito. Eulália fora a eleita para o substituir. De noite, apenas, porque de dia Bernarda Lisandra ainda se amanhava muito bem sozinha.

O futuro médico, não se fez rogado, nem se incomodou nada em ir dormir a casa da tia Bernarda, nem coisíssima nenhuma. Ia lá aborrecer-se… Nem pensar. Além do mais, a velhota levantava-se cedíssimo. Podia dormir até às tantas. Além disso sabia que a senhora Bernarda, desde pequenino, lhe manifestara sempre muita afeição e carinho. E na primeira noite, logo após uma opípara ceia em casa do seu anfitrião, lá foi, saindo pela porta da cozinha que desembocava no balcão da tia Bernarda. Sem o esperar, deu de caras com Eulália. A moça ao primeiro relance ruborizou. Germinavam ainda recordações e amizades de infância. Na escola, na catequese e na festa da Senhora do Carmo. Acrescia que ele, agora, estava mais forte, mais belo, mais homem. Ela também estava diferente, muito bonita. Poder-se-ia dizer que encarnava a suprema beleza. Alvoraçados, perturbados e, aparentemente, nervosos, pouco falaram. Mas nos dias seguintes, nas horas em que ele percebia que ela andava por ali, a janela do senhor Jesuíno era um nicho estuante. E ela, vezes sem conta e sem precisão nenhuma, muito generosa e muito solícita, vinha, durante o dia, a casa da tia Bernarda, simplesmente para saber se ela precisava de alguma coisa. Se a janela do senhor Jesuíno estava deserta, Eulália demorava-se na entrada, nos degraus, no pátio, à porta, onde quer que fosse, até que ele aparecesse. Ele não se fazia rogado. Adivinha-lhe a presença e postava-se à janela. Ela também exagerava ao simular encobrir os seus sentimentos. Não se coibia. Sabia que ele a queria ver. Desejava, também, ser vista. E vê-lo. Sobretudo vê-lo. Também nela se enraizara um supremo deslumbramento. Queria mostrar-se à luz do seu olhar, bela, ditosa, atraente. E não precisava de se esforçar muito. Era-o por natureza.

A tia Bernarda, apesar da sua provecta idade, reparou que a moça, era agora muito mais devota de sua casa. Regozijou-se sem perceber o verdadeiro motivo de tal mudança. Visitava-a durante o dia, adorava limpar-lhe os pátios, sacudir-lhe os capachos, estender-lhe os cobertores à janela e, sobretudo, chegava bem mais cedo, ao serão. Até os pais estranharam! Mal ceava, pisgava-se para casa da tia Bernarda numa precipitação desusada. E de manhã ficava no quarto, tanto tempo quanto podia, enquanto a pobre da tia Bernarda, madrugadora por natureza, caminhava na demanda de uma mancheia de couves, de uns garranchos de lenha, dumas maçarocas de milho. Ela, Eulália a cirandar da cozinha para a sala, ansiosa, a tentar perceber se ele vigilava. Ele acordado, a ouvir-lhe os passos e a imaginá-la na sua elegância deslumbrante. Manhãs e noites a fio. Ela ansiosa por persenti-lo, ele desejoso de a contemplar.

Finalmente, numa manhã dourada de sol encontraram-se. Ela erguera-se cedo. Fora e voltara. Ele em férias não tinha horas. Levantava-se quando queria. Saudaram-se com palavras triviais. Trocaram olhares recheados de emoções. Geraram, sem o perceber, uma cumplicidade amorosa recíproca. Na manhã seguinte a conversa prolongou-se e, à noitinha, ele perseguia-lhe os passos. Ela demorava a caminhada. Aguardava entrar, esperando por ele, de forma a acompanhá-lo, como se fosse uma casualidade. Certa noite, a tia Bernarda, mais por cortesia do que por vontade, foi deitar-se. Deitava-se cedo! Deixou-os na sala, com as paredes repletas de fotos antigas. Ilustres antepassados. Ele de imediato se declarou apreciador de tais preciosidades. Ela orgulhosa de lhas mostrar. De lhe explicar quem eram… Aos anos que haviam vivido… Nesse vai e vem os seus corpos tocaram-se. Uma, duas, várias vezes. De propósito. Por vontade dele e aquiescência dela. Nessa noite quase não adormeceram.

Seguiram dias de encontros, diálogos e até pequenos passeios. Um fascínio! Um alvoroço! Mas um inesperado falatório rebentou quando a Pintassilga deu com os dois sozinhos, enfiados no Caneiro do Porto, no banho e não teve papas na língua. Ela, pelos vistos, não sabia nadar e o gajo, no dizer da Pintassilga, para a ensinar, punha-lhe as mãos por baixo. Parecia que lhe apalpava tudo.

Ameaçada pelos pais, que consideravam aquilo de ir tomar banho para o Caneiro do Porto, com um estranho, não ficava bem a nenhuma menina, muito menos a quem tinha o namorado ausente, Eulália aquietou-se, enquanto ele, manifestava ganas de dar cabo do estupor da Pintassilga. E o pior foi quando as suspeitas daquela cabrona chegaram aos ouvidos, primeiro do compadre Jesuíno e, depois, aos da velha Bernarda. Jesuíno, inicialmente preocupou-se. Se os pais soubessem, o que haviam de pensar? Mas depois aquietou-se, iluminado pelo ditado popular ó vizinha acautele a sua galinha que o meu galo é solteiro. E não se incomodou mais com coisíssima nenhuma. Mas tia Bernarda, sim. Ficou muito nervosa e entrou num dilema tremendo. Gostava tanto daquele menino que por nada do outro mundo o punha fora de casa… Mas se os pais proibiam a rapariga de ir lá pernoitar, o que seria dela, sobretudo nas noites longas do inverno? E se acontecia uma desgraça. Experiente e sensata, resolveu mandar às urtigas o diz-se diz-se e vai de bendizer e proclamar em alto e bom som, a bondade do menino Ilídio e o respeito que ele tinha pela sua sobrinha. Depois, era uma questão de estar mais atenta. Sabia muito bem como eram os verdores da juventude.

Depressa se esqueceram as suspeitas da Pintassilga que também não era boa bisca. Além disso, agosto caminhava a passos largos para o fim e o Carvalho era no princípio de Setembro.

No verão seguinte Ilídio poi passar as férias à América e, quando dois anos depois, regressou a casa do compadre Jesuíno, Eulália já tinha partido com os pais, também para a Améria.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:52

A FEITICEIRA DA RIBEIRA DAS CASAS (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Sexta-feira, 27.02.15

Antigamente não havia água canalizada nesta freguesia e as mulheres tinham que ir lavar a roupa à Ribeira. Umas iam para os lados da Ribeira de Cima, no início da canada que dá para a Rocha mas a maioria procurava a a Ribeira das Casas, no Caminho da Ponta, pois aí havia um lago maior e mais pedras a servirem de lavadouro. As mulheres iam a pé com os cestos ou as trouxas da roupa à cabeça. Costumavam ir de manhãzinha, muito cedo, para apanharem um lavadouro livre, para terem a água limpa, para aproveitarem o fresquinho da manhã e para evitarem o calor do Sol. Muitas combinavam ir juntas.

Contava meu avô que certa vez, duas mulheres vizinhas que moravam na Tronqueira tinham combinado de véspera ir juntas lavar a sua Roupa à Ribeira das Casas. A que acordasse primeiro chamava pela outra. Aconteceu que uma delas acordou e, como viu tudo muito claro, pensou que já era de dia e que a vizinha se tinha esquecido de a chamar. Vestiu-se à pressa, pôs a trouxa à cabeça e caminhou apressada para a Ribeira das Casas. Foi andando, sempre muito lesta. Estava tudo claro como se fosse de dia. Depois de descer a ladeira do Calhau Miúdo e de passar o Lago do Sargaço viu que já havia uma grandeza de roupa branca estendida a corar na relvas do lado do Rolo e uma grande quantidade de outra de cor, posta a secar sobre as paredes de pedra, como era costume as mulheres fazerem. Dali não podia ver quem estava a lavar na Ribeira. Mas como viu tanta roupa a secar pensou que deviam estar muitas mulheres a lavar e que de certeza já não apanharia lavadouro livre onde pudesse lavar a sua roupa.

Continuou a andar, ainda mais depressa pôr julgar que já ia atrasada e que ia ter de esperar muito tempo para ter um lavadouro livre. Levava colchas e cobertores e tinha que apanhar um lavadouro desocupado porque só assim podia lavar à vontade. As galochas batiam nas pedras do caminho e faziam um barulho seco e cadenciado que ecoava ao longe. Já muito próximo da Ribeira viu uma mulher de costas para ela a lavar a roupa. Julgando que era a vizinha, chamou:

 - Ó vizinha, esqueceste-te de chamar por mim ou que foi!?

A mulher, sem nunca virar a cara, retorquiu:

 - A sorte que tu tens é que te confessaste e comungaste no domingo passado, senão já ias comigo. Ficavas encantada e eu acabava o meu encantamento.

Depois levantando-se começou a recolher a roupa que estava estendida na relva, a juntar a que estava sobre as paredes e a fugir na direção da ladeira das Covas, talvez para se esconder nalguma furna.

Vendo isto, a lavadeira ficou cheia de medo e desatou a correr para casa com tanta força que parecia que um pé não apanhava o outro. Ao chegar a casa, viu que era só uma hora da manhã e que aquela claridade era da lua. Com certeza que aquela mulher era uma feiticeira.

A notícia espalhou-se pela freguesia e daí por diante as mulheres só iam lavar para a Ribeira, depois do Sol nascer, com medo das feiticeiras que viviam encantadas por aqueles lados. Contava-se que não era a primeira vez que ali apareciam. Um homem, noutros tempos, tinha visto uma com os pés iguais aos das cabras. Precisamente na ladeira das Covas. E toda a gente dizia que uma feiticeira só quebrava o seu encanto quando conseguisse levar uma outra mulher consigo.

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publicado por picodavigia2 às 06:48

A ALIMENTAÇÃO

Quinta-feira, 26.02.15

Na Fajã Grande, até à década de cinquenta a alimentação era muito limitada. Embora houvesse abundância de alguns produtos, nomeadamente, pão, leite, ovos, carne de porco, fruta, etc., outros rareavam e muitos, simplesmente não existiam. A ceia, à noitinha, era, geralmente, reduzia a pão migado no leite. Eram as tradicionais Sopas de Pão e Leite. Algumas vezes o bolo ou as escaldadas substituíam o pão, quando este faltava ou abolorava. Outras vezes eram as papas misturadas no leite. As habituais feitas de farinha fina, ou as grossas feitas do milho verde, abruptamente moído num moinho caseiro. Às vezes enriquecia-se este mísero cardápio com uma sopa de agrião ou de couve. Uma colherada de pão e leite alternada com uma de sopa. Às vezes um pedacinho de queijo, sobretudo nas alturas em que havia crostes, o leite que as vacas davam após o parto e que não era levado para a máquina, para desnatar, aproveitava-se para queijo. Isto à ceia, à noite, porque ao meio dia, ao jantar a ementa era mais completa: batatas cozidas, brancas ou doces, por vezes inhames a acompanhar peixe frito, tortas de ovos, linguiça, torresmos e pão de milho. Geralmente não se bebia vinho e era uma boa tigela de café que substituía o vinho. Por vezes o cardápio do almoço era enriquecido com maçarocas de milho verde e tenro que se coziam junto com as batatas, ou, separadamente, em água com funcho. Outras vezes fatias de abóbora também cozidas com as batatas brancas. Outras vezes eram as batatas-doces assadas no forno depois de cozer o pão, que de tão saborosas que eram até se comiam sem nada. Às vezes mesmo ao jantar, ao meio dia comia-se, uma sopa de couves ou de agrião ou de feijão com uma bela talhada de toucinho. Outras vezes era o peixe frito. O feijão assado com pedacinhos de linguiça só aparecia nos dias mais importantes. Lapas em tortas ou guisadas também serviam de conduto, sendo comidas com pão ou bolo, pois havia muitas mulheres que se aventuravam a ir apanhá-las para os lados do Areal, enquanto alguns homens iam pescar, sobretudo vejas, sargos, polvos e moreias pretas. O café era de mistura com cevada, chicória e até favas torradas e com pouco ou sem nenhum açúcar. Muitas vezes as mulheres ou as crianças iam levar o jantar aos homens, que andavam a trabalhar nos campos e costumava ser peixe frito ou conduto de porco, pão de milho e café, sempre café. Não havia sobremesa, a não ser arroz doce pelo Natal, filoses pelo Carnaval e pão adubado pelo Espírito. A fruta, geralmente, comia-se nos intervalos das refeições, muitas vezes na própria terra onde havia árvores, carregadinhas da dita cuja. Pela Páscoa comiam-se os folares e na Sexta-feira Santa sopa de funcho.Um prato que se fazia quando não havia conduto era o mangão, feito à base de batata branca cozida e esmagada, misturada e bem envolvida num refogado de graxa de porco, cebola e alho. Outras vezes eram as migas simples, feitas de pão fervido e misturado na banha. Quando não havia conduto também era o queijo feito em casa que o substituía. Por vezes, sobretudo as crianças comiam o pão barrado com a graxa da linguiça. Raramente se matava uma galinha. Só em caso de doença e pelo entrudo. Muitos homens e crianças bebiam uma boa tapa de leite na altura em que ordenhavam as vacas.

Carne e pão de trigo, só pelas festas do Espírito Santo ou quando algum americano dava um jantar ou ainda pelos casamentos, mas neste caso só para convidados. Os dias de matança do porco eram uma exceção a tudo isto.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:07

A ESTÓRIA DO MILHO

Quarta-feira, 25.02.15

(CONTO TRADICIONAL)

 

Era uma vez uma galinha que morava sozinha com seus pintainhos no meio do monte. Era pobre e não tinha como sustentar os filhotes.

Certo dia ela encontrou uma espiga de milho e ficou muito contente. É que tanto ela como os filhos gostavam muito de milho. Ela ficou contente porque tinha encontrado alimento para si e para os filhos. Preparam-se todos para comer a espiga. Mas depois a galinha pensou melhor e concluiu:

 - Afinal se comermos o milho agora matamos a fome hoje. E amanhã o que comeremos?

Então ela pensou, pensou e, apesar de ser galinha, chegou à conclusão que se o semeasse seria melhor, pois quando estivesse crescido, maduro, pronto para colher, ela teria muito mais milho e assim podia ter alimento, não apenas para um dia, mas muitos os dias. Se o semeasse teria muita e boa comidinha para si e para os seus filhos. Para além de comerem os grãos do milho, ainda podia fazer um delicioso pão de milho. Todos iam gostar!

Mas era muito difícil e cansativo trabalhar o milho. Ela sabia muito bem que para semear o milho e para fazer o pão ela tinha muito, muito trabalho. Tinha que adubar e lavrar a terra e prepará-la muito bem. Depois tinha que semear o milho, sachá-lo e arrancar as ervas daninhas. Mais tarde havia que colher as espigas, descascá-las e debulhá-las. Só então levaria o milho ao moinho para o moer e transformar em farinha e assim aquecer o forno, amassar e cozer o pão.

Era muito trabalho! Era trabalho muito pesado. Além disso ela precisava de bastante milho para o pão. Sozinha não conseguiria. Decidiu ir procurar alguém que a ajudasse. Mas quem é que a podia ajudar a preparar a terra, adubar, lavrar gradar e alisar? Quem a podia ajudar a semear o milho? Quem a podia ajudar a sachar e arrancar as ervas daninhas? Quem podia ajudá-la a colher a espiga de milho no pé? Quem ajudaria a debulhar todo aquele milho? Quem levaria a pesada saca ao moinho e ajudaria a moer o milho para fazer a farinha? E, finalmente, quem a podia ajudar a cozer o pão?

Foi pensando nisso que a galinha se encontrou com os seus amigos que viviam ali por perto, numa quinta, ao lado.

Quem me pode ajudar a lavrar e a preparar o terreno para poder semear o milho para fazer um delicioso pão?

- Eu não, - disse o gato. - Estou com muito sono.

- Eu não, - disse o cão. - Estou muito ocupado.

- Eu não, - disse o porco. - Acabei de almoçar, tenho que dormir.

- Eu não, - disse a vaca. - Está na hora de ir para os campos tratar dos meus filhotes.

E a galinha coitadinha lá foi sozinha preparar a terra, adubar, lavrar gradar e alisar. A seguir tinha que semear. Mas estava tão cansada de lavrar, adubar e preparar a terra que resolveu novamente ir pedir ajuda aos amigos para que a ajudassem a semear o milho.

- Quem me pode ajudar a semear o milho para fazer um delicioso pão?

- Eu não, - disse o gato. - Estou com muito sono.

- Eu não, - disse o cão. - Estou muito ocupado.

- Eu não, - disse o porco. - Acabei de almoçar, tenho que dormir.

- Eu não, - disse a vaca. - Está na hora de ir para os campos tratar dos meus filhotes.

E a galinha coitadinha lá foi sozinha semear o milho para que ele crescesse depressa e ela pudesse fazer um saboroso pão.

A seguir tinha que sachar e arrancar as ervas daninhas para que o milho crescesse. Mas estava cansada de o semear que resolveu novamente ir pedir ajuda aos amigos para a ajudarem a sachar e a mondar.

- Quem me pode ajudar a sachar o milho e arrancar as ervas daninhas para eu fazer um delicioso pão?

- Eu não, - disse o gato. - Estou com muito sono.

- Eu não, - disse o cão. - Estou muito ocupado.

- Eu não, - disse o porco. - Acabei de almoçar, tenho que dormir.

- Eu não, - disse a vaca.- Está na hora de ir para os campos tratar dos meus filhotes.

E a galinha coitadinha lá foi sozinha sachar e arrancar as ervas de entre o milho para que ele crescesse depressa e ela pudesse fazer um saboroso pão.

A seguir tinha que colher as espigas. Mas estava tão cansada de o sachar e arrancar as ervas que resolveu novamente ir pedir ajuda aos amigos para a ajudar a colher as espigas.

- Quem me pode ajudar a colher as espigas para eu fazer um delicioso pão?

- Eu não, - disse o gato. - Estou com muito sono.

- Eu não, - disse o cão. - Estou muito ocupado.

- Eu não, - disse o porco. - Acabei de almoçar, tenho que dormir.

- Eu não, - disse a vaca. - Está na hora de ir para os campos tratar dos meus filhotes.

E a galinha coitadinha lá foi sozinha colher as espigas do milho para que pudesse fazer um saboroso pão.

A seguir tinha que descascar e debulhar o milho. Mas a galinha estava tão cansada de o apanhar que resolveu novamente ir pedir ajuda aos amigos para a ajudar a descascar e debulhar.

- Quem me pode ajudar a descascar e debulhar o milho para eu fazer um delicioso pão?

- Eu não, - disse o gato. - Estou com muito sono.

- Eu não, - disse o cão. - Estou muito ocupado.

- Eu não, - disse o porco. - Acabei de almoçar, tenho que dormir.

- Eu não, - disse a vaca. - Está na hora de ir para os campos tratar dos meus filhotes.

E a galinha coitadinha lá foi sozinha descascar e debulhar as espigas do milho para que pudesse fazer um saboroso pão.

A seguir tinha que levar o milho ao moinho a fim de o moer. Mas estava tão cansada de o descascar e debulhar que resolveu novamente ir pedir ajuda aos amigos para a ajudar a moer. Mas todos se recusaram outra vez.

E a galinha coitadinha lá foi sozinha moer o milho para que pudesse fazer um saboroso pão.

A seguir a galinha tinha que cozer o pão. Mas estava tão cansada de o moer que resolveu, mais uma vez, ir pedir ajuda aos amigos para a ajudarem a amassar e a cozer o pão. Mas todos se recusaram, de novo e a galinha coitadinha lá foi sozinha amassar e cozer um saboroso pão.

A galinha preparou a terra, lavrou, semeou, sachou, mondou, colheu, debulhou, moeu, amassou e cozeu o pão, sozinha. Mas ao cozê-lo os amigos sentiram um cheirinho muito bom, Começaram todos a correr, a sentir água na boca, pois todos queria comer o pão que a galinha cozeu.

Então a galinha disse-lhes:

- Quem foi que me ajudou a adubar os campos, a lavrar, a sachar, a mondar, a colher as espigas, a debulhar, a moer a amassar e a cozer o pão?

Todos ficaram bem caladinhos. É que ninguém tinha ajudado nada.

- Então – disse a galinha - quem vai comer este delicioso pão de milho sou eu e meus pintainhos. Vocês podem voltar para as vossas casas ou ficar aí a olhar.

E assim foi: a galinha e seus pintainhos fizeram uma grande festa, comeram o delicioso pão e nenhum dos preguiçosos foi convidado.

 

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publicado por picodavigia2 às 10:25

O ACIDENTE DO POIO

Terça-feira, 24.02.15

No dia 18 de Janeiro do longínquo ano de 1887, mais um trágico acidente assolou a população da Fajã Grande, quando o povoado, com pouco mais de duas décadas de existência como freguesia, se solidificava e fortalecia. Pelas 4 ou 5 horas da tarde, não se sabe bem ao certo, foi encontrado morto um jovem de 18 anos, de nome José Cristiano Rodrigues Júnior.

O malogrado José era filho único de José Cristiano Ramos e de Margarida Jacinta Rodrigues, residente na rua das Courelas, na casa que fora dos seus avós paternos, sendo viva, na altura apenas a avó Margarida de Jesus. Estes são os dados que se podem retirar do registo de óbito deste jovem. No entanto, como foi opai deste jovem, José Cristiano Ramos que adotou a minha avó materna, depois de ela ficar órfã de mãe, ouvi, muitas vezes, em criança ela contar esta história. Os pais sofreram um desgosto tremendo. O rapaz havia ido para o mato tratar de gado terá sido atingido por uma pedra caída duma encosta.

Consta que a falta causada pela perda do filho foi a principal razão pela qual ele e a esposa adotaram a minha avó, que não se poupava em louvar e bendizer a bondade deste casal, sobretudo dele, porque a esposa enlouqueceu algum tempo depois, tendo-lhe dado muito trabalho. Pai Cristiano, como era familiarmente tratado, era um homem, bondoso, honesto, trabalhador e consta que muito religioso. Faleceu repentinamente quando, já doente, resolveu ir cortar uma árvore numa terra que tinha no Cabeço da Rocha, perto da Silveirinha.

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publicado por picodavigia2 às 00:36

MARCAS DO PASSADO

Segunda-feira, 23.02.15

Danila era muito jovem, bonita e decidida nos seus anseios e aspirações. Não vivia acorrentada ao passado mas, também não o esquecia, nem se iludia com a deslumbrante fragrância dos seus sonhos. Acreditava, sim, no futuro. Num futuro que ela própria havia de construir sem olvidar as marcas e os estigmas que o passado lhe deixara. Sabia que nunca havia de eliminar aquele pedaço da sua vida que, no meio de uma ou outra alegria, lhe trouxera tantos dissabores e a carregara de dor, de sofrimento e de sacrifício. Sofrera até à exaustão!

Em pequenina irradiava simpatia e aspergia confiança. Novos e velhos deslumbravam-se a vê-la correr pelas ruelas e veredas, saltitar por muros e barrancos espargindo uma alegria deslumbrante, um contentamento fulgente, um encanto maravilhoso. Cabelos compridos e soltos ao vento, rosto alongado, sorriso mavioso e dois olhos verdes, a brilharem como pérolas. Durante a meninice e a mocidade contagiava de fascínio quantos dela se aproximavam e com ela conviviam. Alta, airosa, corpo elegante e desenvolto, impunha-se pela delicadeza dos seus modos, pela sinceridade das suas palavras, pela honestidade dos seus atos. Qualquer coisa de invulgar a dominava. Qualquer coisa de singelo a possuía. Qualquer coisa de especial a preservava. Cedo se tornou mulher. Bela, atraente, desejada. Além de ser bonita, era alegre, comunicativa, modesta, engraçada no falar. Era também muito sensata e estimada por todos. Ninguém a difamava, ninguém lhe apontava um defeito. Os rapazes olhavam-na com respeito e enlevo. As raparigas com um misto de admiração e inveja.

Contrariando os pais, Danila não quis frequentar a universidade. Ficou-se pelo décimo primeiro incompleto. Cedo enveredou pelo mundo do trabalho. Primeiro numa tipografia, depois, num stand de automóveis e, mais tarde, numa escola de condução., onde conheceu Gervásio, filho do gerente e que ali trabalhava como instrutor. Julgaram-se apaixonados. Daí ao casamento foi um triz. Algum tempo depois uma filha. Linda como a mãe.

Cedo, porém, Danila sentiu a fragilidade da sua harmonia conjugal. A gravidez inesperada obrigara-a, por parte dos pais, a um casamento apressado e pouco solidificado. Gervásio, inacreditavelmente, não só mantinha como até cultivava todos os vícios e leviandades de solteiro. E não eram poucos. Saídas noturnas, dormidas fora de casa, gastos excessivos em festas, farras e noitadas. Tinha direito a divertir-se, cuidava ele. Ela em casa com a filha, noites seguidas. Muitas vezes lavada em lágrimas. Ele na boémia. Conciliar estas duas formas de vida, simplesmente impossível e inaceitável. Sentia-se ludibriada. Perante o carracismo dele - nem saía de casa nem mudava de vida - foi ela a abandonar o lar. Divórcio litigioso e o tribunal a entregar, a ele e aos pais dele a custódia da filha. Um sufoco. Quase ensandeceu.

Mas o fulgor da sua meninice e o arrojamento da sua juventude haviam de renascer e toldar-lhe de luminosidade a esperança. Ressurgiu de entre lágrimas e estigmas. Sobre os seus erros havia de construir a solidez do seu futuro. Sobre as amargas cicatrizes do passado havia de edificar a nobreza da sua dignidade. Depois de muita luta o tribunal aumentou-lhe o tempo em que lhe era permitido ter consigo a filha e, mais tarde, outorgou-lhe, por completo a sua custódia. Vencera! Alugou casa, conseguiu novo emprego, comprou carro e, o mais importante de tudo, reencontrou André.

Desde há muito que se conheciam. Muitas vezes passava em frente ao stand onde ela trabalhava. Olhavam-se e admiravam-se, sem falarem. Ele, mais audacioso, um dia decidiu entrar. Aproveitou a companhia de um amigo que comprara um Ford. Havia também de comprar um. Não sabia quando. Falaram, conversaram, riram e ficaram amigos. A partir de então, muitas vezes, ao passar em frente ao stand, entrava, conversavam, riam e sonhavam. Num dia de forte chuvada, ela encontrou-o pelo caminho. Parou, deu-lhe boleia e levou-o a casa.

Passado algum tempo, no entanto, deixou de a ver. Admirado, vezes seguidas, passava em frente ao stand. Mas nada. Um dia, dois dias, muitos dias. Entrou a informar-se. Que já não trabalhava ali. Arranjara um lugar na Bom Condutor.

Foram meses a atravessar o deserto. Finalmente quebrou-se o silêncio. Quando soube que ela casara com aquele tratante, o filho do dono da escola, sufocou. Sentia-se culpado sem ter culpa. Ela, aparentemente, colocara uma tremenda ilusão sobre a sua dignidade. Novamente um deserto. Agora mais doloso e sem oásis. Via-a apenas de longe. Acompanhava-lhe o destino. Inicialmente parecia que enlouquecera de felicidade. Não demorou muito o êxtase do vigor inicial. Aos poucos começou a derrocada. Ele, Gervásio para um lado, ela, Danila para o outro. Não andavam juntos, não saiam juntos. Parecia que nem se falavam. Percebia-se que o fosso aumentava. Substancialmente. E de que maneira. E André, inadvertidamente, sentiu uma pequena alegria, uma espécie de vitória, quando, ao fim de quatro anos, soube que aquela imprudente loucura abortara. Que o castelo que ela imprudentemente construíra, se desmoronara. Estavam, finalmente, separados. Mais tarde arrependeu-se. Quando a encontrou ferida, desfeita, trucidada por uma solidão tremenda. Tentou redimir-se, adocicando-lhe as marcas terrivelmente destruidoras que esse passado horroroso lhe deixou. O sofrimento dela comoveu-o e galvanizou-o numa exagerada tentativa de lhe prestar ajuda. Mas era tarde, muito tarde. O sofrimento dela não era só de lágrimas As marcas da dor calejaram-na e deram-lhe força, coragem e discernimento. Sobretudo discernimento. Agora era senhora do precioso dom de escolher, de aceitar, mas também de recusar, de dizer não. Tornara-se insensível. Mas também lhe haviam ressurgido forças que a faziam ser ela própria. Só amizade. André era simpático, atraente, bom companheiro, mas simplesmente só podia ser amigo. Ele insistia. Ela contrariava. As razões que apresentava eram sempre as mesmas: as terríveis marcas que os quatro anos de casada lhe haviam deixado. As marcas. Sempre as marcas. Aquelas terríveis marcas entravam-lhe pelos ouvidos dentro, destruindo-lhe os sonhos. Aniquilando o amor que sentia por ela.

Danila, porém, nunca soube da grandiosidade desse amor. Nunca o percebeu. Aquelas terríveis marcas do passado haviam-na impedido. Para sempre.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:20

A IDA AO MOINHO

Domingo, 22.02.15

A agricultura, juntamente com a pecuária, pelo menos até à década de cinquenta, foram, como é sobejamente conhecido, os pilares fundamentais da economia da Fajã Grande, bem como de todas as freguesias das Flores e dos Açores. Tradicionalmente, nesta como em quase todas as freguesias açorianas a agricultura tinha o seu epicentro no cultivo e na produção do milho.

A importância do milho na economia da Fajã Grande era tão grande que, nas décadas de cinquenta e sessenta do século passado, este era frequentemente utilizado como moeda de troca e como meio de pagamento de serviços de vária, num contexto, marcado por uma economia de subsistência. Pagava-se um dia de trabalho com um alqueire de milho ou o equivalente ao seu preço. Da mesma forma se pagava o culto e outros serviços.

Terra que produz milho terá que ter moinhos. E a Fajã não era exceção. Havia-os junto às ribeiras do Cão e das Casas, sendo que eram sobretudo os que se situavam nas margens da Ribeira das Casas, que serviam a população da Fajã, enquanto a Ponta beneficiava dos da Ribeira do Cão. Por sua vez os habitantes da Cuada levavam as suas moendas aos moinhos da Alagoa, já em território da Fajãzinha.

Os moinhos da Ribeira das Casas eram três. Dois pertenciam ao Tio Manuel Luís e o terceiro, conhecido por Moinho do Anjinho, mas que deveria ser uma deturpação popular de Moinho do Engenho, pertencia a uma sociedade, constituída por vários donos. Construídos em locais de rara beleza, um deles foi transformado, recentemente, em vivenda, e, necessariamente junto a um curso de água com um potente caudal, os moinhos tinham o inconveniente do relativo isolamento e da distância das habitações. Além disso, as veredas de acesso não era as melhores e as moendas, nas idas e vindas tinham que ser carregas às costas ou à cabeça. O transporte dos cereais para os moinhos, como se pode verificar em escritos e imagens ou até em poemas como o da Moleirinha de Guerra Junqueiro, nas mais diversas regiões do país, era normalmente feito a dorso de burros. Na Fajã Grande, porém, era às costas dos homens ou cabeça das mulheres.

As idas ao moinho, tarefa quase exclusiva das mulheres e das crianças, no entanto, por vezes transformavam-se em espécies de romarias, ora cruzando-se uns que iam, outros que vinham, ora cavaqueando enquanto esperavam, no próprio moinho, que a moenda estivesse moída. Assim podia dizer-se que ida ao moinho era uma espécie de ritual, e o moinho um espaço de convívio social de eleição, não sendo rara a circunstância de muitas vezes as pessoas, sobretudo da mesma rua, se juntarem a fim de se deslocarem em grupo.

Uma vez no moinho, cada moenda era identificada e pesada, pelo moleiro, geralmente, na presença dos donos, pesagem que seria determinante para a definição da maquia a que o moleiro tinha direito.

As épocas de maior actividade nos moinhos coincidiam com as colheitas, particularmente nos meses de setembro, outubro e novembro, altura em que se verificava uma afluência muito considerável de pessoas aos moinhos. Na Fajã Grande e nas Flores, contrariamente, a outras ilhas do arquipélago, não havia moinhos de vento. A água era abundante e suficiente para os mover. Pelo contrário, o vento era forte de mais.

Na Fajã Grande existiam, na maioria das casas, pequenos moinhos manuais utilizados para moer o milho, mas em pequenas quantidades, quando este estava verde. A farinha ficava muito grossa e servia apenas para fazer papas. Eram as chamadas Papas Grossas. Na Fajã Grande também não havia atafonas

Ir ao moinho era fundamental na Fajã Grande, pois todo pão era cozido em casa. E não era pouco. O milho era levado ao moinho em sacas de pano que vinham da América, trazendo as encomendas. O pano destas era muito bom e já continha em grandes letras o nome do dono. Competia a cada agricultor ou a um membro da sua família levar a sua própria moenda ao moinho, mas geralmente as raparigas gostavam de ir ao moinho. É que sendo estes longe do povoado, beneficiavam de uma saída de casa que, geralmente, aproveitavam quer para por em dia a conversa com os namorados quer para iniciar um primeiro namorico. Na ocasião em que se entregava a moenda era combinado com o moleiro o dia em que estaria pronta.

Ao moleiro competia apenas moer o milho, pagando-se ele próprio do seu trabalho através da tal maquia de farinha que retirava de cada uma das moendas. Como geralmente não a utilizava para uso pessoal, dado que ele próprio também tinha as suas terras de milho, vendia-a compensando assim todo o trabalho que tinha e as horas que passava no moinho, onde geralmente pernoitava, pois a substituição de cada moenda era manual.

Hoje, os moinhos são relíquias de um passado longínquo, que encerra muitas histórias humanas de sacrifícios e sofrimento do trabalho árduo para obter o pão de cada dia. Infelizmente os moinhos da Fajã parecem não ter sido conservados da melhor forma, contando as histórias que se perderam no tempo.

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publicado por picodavigia2 às 10:09

QUINHENTOS ANOS DA PARÓQUIA E DO CONCELHO DAS LAJES

Sábado, 21.02.15

O povoamento da atual vila das Lajes das Flores terá começado no primeiro decénio de Quinhentos, à volta de uma pequena Ermida em louvor do Espírito Santo, que, segundo alguns relatos históricos, estaria localizada “ao sair do porto, que é uma calheta em que abicam barcos”. No entanto, as frequentes investidas e ataques da pirataria obrigaram a população a afastar-se do porto e de próximo do mar, deslocando-se para um local mais afastado e onde foi construída uma nova igreja, a primitiva matriz das Lajes, conhecia por Igreja das Sete Capelas, no local onde se situa atualmente o cemitério. Sabe-se, todavia, que a paróquia já era de invocação a Nossa Senhora do Rosário em meados do século XVII, e que entre 1763 e 1783 terá sido construída a atual igreja matriz, Consta que em 1587 as Lajes das Flores já teria cerca de 300 habitantes e, em finais de Seiscentos cerca de 1.200, sendo então considerada o maior centro populacional da ilha. Em finais do século XVII a paróquia das Lajes das Flores desmembrou-se, isto é dividiu-se originando outras paróquias. Desse primeiro desmembramento surgem duas novas paróquias, uma de invocação a Nossa Senhora dos Remédios, nas Fajãs, em 1676, outra em louvor de São Caetano, na Lomba, provavelmente em 1698. Por duas vezes mais, as Lajes das Flores volta a ser alvo de desanexações, daí resultando a criação das paróquias de Nossa Senhora dos Milagres, no Lajedo, em 1823, e do Senhor Santo Cristo, na Fazenda, em 1959, sendo, sendo esta já freguesia desde 1919

Entretanto, nas Fajãs cuja extensíssima paróquia englobava, desde 1676, os lugares da Ponta, Fajã Grande, Cuada, Fajãzinha, sede da freguesia, Caldeira e Mosteiro e ainda alguns lugares então habitados, a Fajã dos Valadões, a Ribeira da Lapa, o Pico Redondo e os Pentes, todos hoje abandonados, dá-se idêntico fenómeno, à entrada da segunda metade do século XIX, com a ereção das paróquias da Santíssima Trindade, no Mosteiro, em 1850, e de São José, na Fajã Grande, em 1861.

Sabe-se também que as Lajes da Flores já era vila, em 1515, ou seja há quinhentos anos. A primeira alteração à delimitação do concelho terá ocorrido em 1676, na sequência da criação, na costa Oeste da ilha, da paróquia de Nossa Senhora dos Remédios, nas Fajãs. Nessa data, com efeito, o lugar da Ponta, até então pertencente à freguesia de Ponta Delgada, termo da vila de Santa Cruz das Flores, foi desanexado daquela e passou a integrar, em definitivo, a segunda mais antiga paróquia do concelho de Lajes das Flores, com sede na Fajãzinha.

A mudança imediata na linha que divide os dois concelhos da ilha ocorreu também na costa Leste, em 1757, quando o bispo frei Valério do Sacramento decidiu desanexar a povoação da Caveira da Matriz de Santa Cruz das Flores e integrá-la na paróquia de São Caetano do lugar da Lomba, pertencente ao concelho de Lajes das Flores. A medida, que somente vigorou até 1833, data da independência administrativa da Caveira como paróquia, teve como justificação a conveniência, tanto espiritual como corporal, dos habitantes desta pequena povoação, os quais ficavam mais próximos, e com bem melhores caminhos, da Igreja de São Caetano do que da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Santa Cruz.

Se a Rocha do Risco, a Oeste, e a Ribeira da Silva, a Leste, depressa acabaram por se impor como marcos naturais na demarcação entre os dois concelhos, já o mesmo não sucedeu no interior da ilha, onde, com alguma frequência, se entrecruzaram os interesses das duas câmaras que entre si disputavam mais baldios e logradouros que pudessem arrendar, e o dos cobradores das rendas do real Fisco que, no entender daquelas, persistiam, de forma abusiva, em cobrar dízimos e rendas de terras que a tais encargos não estavam obrigadas. Anos depois as duas câmaras municipais voltaram a desentenderem-se por causa da interpretação da linha divisória dos concelhos, mais concretamente quando a câmara de Santa Cruz resolveu arrendar a Caldeira Seca, que a edilidade lajense reclamava como sua pertença.

O concelho de Lajes das Flores foi temporariamente suprimido, com a consequente anexação dos seus serviços ao de Santa Cruz das Flores, entre 1895 e 1898.

Assim neste ano de 2015 o concelho de Lajes das Flores comemora cinco séculos da sua fundação. A Câmara Municipal das Lajes realizou ontem, dia 20 de Fevereiro, pelas 20 horas, no Museu Municipal, uma sessão solene que assinalou o início das comemorações desta efeméride. Estão a decorrer igualmente este ano as comemorações dos 500 anos da Paróquia de Nossa Senhora do Rosário, pelo que as celebrações destas importantes datas serão efetuadas em conjunto. As comemorações estendem-se ao longo do ano com um conjunto de eventos a serem realizados envolvendo diversas entidades, organizações e coletividades do concelho das Lajes, dignos desta importante efeméride e que permitam prestigiar o município lajense.

 

NB – Dados retirados da Net e Forum Ilha das Flores

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publicado por picodavigia2 às 08:57

SUPLÍCIO

Sexta-feira, 20.02.15

Era no café. Único no bairro. Por volta da uma e meia, que ela entrava para o serviço às duas menos dez. Todos os dias. Nunca falhava. À hora habitual, lá estava. Entrava, serena, solitária e deslumbrante. Olhava ao redor e sentava-se. Sempre na mesma mesa. Lá ao fundo, de onde, sem se movimentar, observava todas as outras mesas, de modo muito especial, a que ficava defronte da janela, onde ele se sentava. Também todos os dias. Também à mesma hora. Também sempre na mesma mesa. Também de modo a observar todas as outras mesas, de modo muito especial aquela lá ao fundo, do lado oposto, onde ela se sentava.

Sem se conhecerem e, sequer, sem se aperceberem, quando menos esperavam, estavam a olhar um para o outro. No início, um olhar de relance. Apenas olhavam, distraidamente, ou talvez não. Quando perceberam que olhavam um para o outro com maior insistência, quando sentiram que os seus olhos se cruzavam e continham uma inebriante e profunda mensagem, ela começou a desviar o olhar. Mas apenas e somente quando se apercebia que ele estava a olhar para ela. Quando ele se distraía ou quando de propósito desviava o olhar, ela, de imediato, voltava a fixá-lo. Passados alguns dias, semanas, talvez meses, perderam o pejo. Ela começou a olhar para ele, subtilmente. Ele para ela, descaradamente. O tempo a correr e o que inicialmente era um simples olhar, a transformar-se num tremendo fascínio. Recíproco. Delirantemente sublime. Do fascínio à paixão foi um triz! Sólida e gigantesca paixão. Amavam-se. Não havia dúvida. O café a arrefecer sobre a mesa, o açúcar a derramar-se fora da chávena, o olhar distante, a fuga simulada dela aos olhares desejados dele, a persistência dele em olhar para a ela, a inquietação e o sufoco de ambos quando um chegava tarde… Tudo os denunciava. Tudo se refletia numa cumplicidade recíproca. Se ele ainda não chegara ela esperava, ansiosa, quase aflita. Se ela se atrasava, ele empertigava-se, inquietava-se, quase desanimava. Depois, o murmúrio da timidez dela, a denúncia do atrevimento dele. Por fim o diálogo dos olhares. Sempre o diálogo dos olhares. O dela, levemente, esperançoso, o dele, exageradamente, reconfortante. Afinal, apesar de afastados, distantes, dispersos, estavam muito perto. Unidos. Só o amplo e, por vezes, vazio, espaço do café e os sorrisos maliciosos do empregado os separava. Detestável, o muro plantado à sua frente.

Ela era nova. Ele andaria nos quarenta. Ela era bela, suave, elegante e, aparentemente, tímida. Ele forte, alegre destemido e, exageradamente, expansivo. A sua íntima inquietação perturbava-os e a sua inconformada incerteza confundia-os. Entendiam-se um ao outro sem se ouvirem. Ouviam-se um ao outro sem falarem. Falavam sem palavras, sem murmúrios, sem silêncio. Falavam sem falar. Ouviam sem ouvir. Entendiam-se de verdade. Cresciam-lhes na alma sentimentos verdadeiros, puros, profundos. Sonhavam com o encanto duma palavra, com a sublimidade dum encontro, com o enlevo duma entrega, com a ternura de um abraço, quiçá com a magia de um beijo. E no entanto, nada mais do que aquilo. Aquele inquebrantável cristal de gelo, E o tempo de cada café, porque nada mais havia para além duma chávena de café, a evaporar-se, rápido e fulgurante, como um raio ou uma rajada de vento. Nenhum tivera a ousadia de se levantar, de se dirigir e de se aproximar da mesa do outro. Ele, amofinado de angústia, a despejar desejos. Ela aureolada de timidez, a esmiuçar anseios. Profundamente enleados. Cada um no seu canto.

E assim permaneceram, dias, semanas, meses, talvez mais de um ano. Conservando-se distantes, mas muito pertos, silenciosos mas ouvindo-se reciprocamente, hesitantes mas envolvendo-se um ao outro. Em comunhão plena. Passava-lhes pelos olhos um relâmpago de magia. Entonteciam sob a chama da esperança. Colavam-se um ao outro, como se a razão da sua proximidade fosse verdadeira e a condescendência dos seus destinos vindoura.

Um dia, sobre ele desabou um desânimo brutal Uma temporal terrível! Uma catástrofe descomunal! Ela, simplesmente, não apareceu. Um dia, dois dias, três dias. Muitos dias. Desolador. Ele quase feneceu, definhou mesmo. Pior. Não havia forma de reagir. Começou a miná-lo uma angústia profunda, desoladora, mortal. A tristeza em que jazia e a loucura em que se emaranhara minavam-lhe o peito, retiravam-lhe as forças, outorgavam-lhe um desânimo telúrico, uma inquietação demolidora. Passava os dias deitado numa relutância bastarda, numa indefinição tremedal, numa obstrução plena do encanto, da solicitude e da esperança, em que navegara, nos tempos em que se sentava na mesa do café, junto à janela.

Foi uma amiga de sempre, obcecada pelo infortúnio, que veio romper tão opaca frouxidão. Referia-se a ela como se a conhecesse de sempre e em plenitude:

- Uma cabra! Uma sem vergonha. Meteu-se com o patrão e destruiu-lhe a família.

Destruida, desfeita, vingava-se, com injúrias, aleives e difamatórios. Já não lhe bastava ver a sua casa a arder… ateava fogo à de outros. Ele, num sufoco, quase perdido, defendeu-a. Impossível. Continuava a ouvir a megera como se as palavras lhe furassem a carne como farpas pontiagudas. A recalcada insistia com palavras cada vez mais frias, carregadas de ódio e de desprezo. Mas há muito que lhe olvidara a voz. Só se lembrava da sublimidade dos olhares que ela lhe dirigia no café. Depois afastou-se, a tentar esquecer tudo quanto, na sua amargura, a infeliz ali despejara. Nunca acreditaria em tão torpes e vis suspeitas. A ternura daquele olhar sobrepunha-se a tais vitupérios, desfazendo chagas, quebrando as terríveis amarras a que aquela denúncia o tentava prender.

Foi num shopping que algum tempo depois a encontrou. Pálida, macambúzia, olhou para ele e sorriu. Sorriu como nos tempos do café. Mas menos ousada. Esteve quase a aproximar-se, a falar com ela, mas limitou-se a responder-lhe com um acenar de cabeça. Vendo-a de perto pode observá-la a melhor. Era linda! Os olhos acastanhados transbordavam ternura. Os lábios, embora um pouco trémulos, emanavam uma aquiescência sublime. O rosto moreno exalava uma dignidade nobre e dulcificada. O sorriso como sempre. Terno, meigo e comunicativo deixava emergir, mesmo que ela o tentasse impedir, serenidade e alegria.

Mas uma estranha mudança parecia ter-se operado na sua alma. Transparecia-lhe no rosto, misturada com a ternura, uma dolente nostalgia. Estava triste, bastante triste e isso não conseguia disfarçar. Uma dor profunda parecia ter-lhe nascido e estar crescer-lhe no peito. Talvez o arrependimento do erro cometido? Talvez a aceitação pacífica e humilde da injustiça que desabara sobre ela? Talvez a consciência dolente do aviltamento injusto?

Ele não sabia. Pior. O estranho suplício da ignorância havia de desabar-lhe em cima, domando-o, desfazendo-o aniquilando, tornando-o, definitivamente, incapaz de algum dia vir a saber.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:09

A CAMBADA

Quinta-feira, 19.02.15

Cambada, estranhamente, é o nome de um lugar da Fajã Grande, situado ente a Via d’Água e a Tronqueira, sendo ainda ladeada a sudoeste pela Caravela e a norte pelo Porto. A Cambada é uma afirmação contundente dum lugar mas desafiador da sua origem e génese. É um lugar cuja origem do nome não parece ser fácil.

Na língua portuguesa a palavra cambada que pode ser nome ou adjetivo e o verbo cambar têm os seguintes significados: cambada, substantivo feminino, tem dois significados. Significa porção de coisas enfiadas e dependuradas do mesmo cordão, gancho, etc e no sentido figurado grupo de pessoas consideradas desprezíveis ou de mau carácter, sendo, neste caso sinónimo de canalha, corja, súcia. Não parece que nenhum destes significados esteja na origem deste topónimo. Por sua vez, cambar, verbo intransitivo, significa mudar, transformar, mudar de rumo ou de direção, sendo que em náutica se utiliza com o significado de mudar de um bordo para outro (vento, escota das velas, etc.).Por sua vez, como verbo transitivo trocar. No entanto o significado mais vulgar de cambar é o de andar com as pernas tortas, estar coxo, coxear, entortar ou ficar torto. Neste caso o adjetivo formado a partir do participo passado, cambado significa que ou quem tem as pernas tortas, que está coxo, torto ou acalcado.

O mais provável é que este último significado seja o que estará na origem deste topónimo. Como o lugar da Cambada se situa perto de locais onde hoje existem moradias, noutros tempos poderá ter existido ali, como existiu no Areal, no Porto e noutros lugares, pelo menos uma casa onde, eventualmente, moraria uma mulher que tivesse um defeito nas pernas ou coxeasse. Neste caso aquele lugar passaria a identificar-se como o lugar da cambada e que passou a ser “A Cambada”.

Enquanto não germinar um esclarecimento mais perfeito, talvez de maior rigor com o objetivo de melhoria os primórdios originais e a origem do nome deste lugar, a eugenia lexical vai dando lugar a estes devaneios.

A Cambada situa-se um pouco distante quer do Caminho da Tronqueira, quer do da Via d’Água, pelo que o seu acesso se fazia através duma Canada com o mesmo nome e que ligava este lugar à Tronqueira. No pouco que consigo recordar, a canada localizava-se entre as casas do Tobias e de José Inácio Jorge, bem lá no fundo da Tronqueira. No entanto, havia quem fosse para a Cambara pela canada do Calhau Miúdo, que dava para o Porto, ou mesmo atravessando algumas terras dos lugares circundantes, Do alto do maroiço dum serrado que meu pai possuía no Porto, chegava-se facilmente à cambada. Por ali perto existiam outros dois lugares com nomes também muito interessantes: a Caravela e o Estaleiro. Na sequência do vizinho Porto era um excelente lugar agrícola, com bons terrenos onde florescia, sobretudo, milho, batata branca e couves.

O nome Cambada nos Açores, não é monopólio da toponímia fajãgrandense, uma vez que noutras ilhas existem lugares com o mesmo nome. Como é o caso do Pico do Cambado um monte localizada na ilha de São Miguel. Trata-se de um acidente geológico que tem o seu ponto mais elevado a 304 metros de altitude acima do nível do mar e localiza-se nas imediações da freguesia do Cabouco, da Mata das Feiticeiras e do Pico do Castelhano. Há também várias localidades onde existem ruelas designadas por canada do Cambado.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:22

PAISAGEM (COM BICHOS)

Quarta-feira, 18.02.15

(PEDRO DA SILVEIRA)

 

Só as aves não sabem

Que este lugar é um ermo

Só as queirós e o vento

Desconhecem que é triste.

 

Uma cabra, metódica,

Roça os olhos das silvas.

 

Pedro da Silveira in Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 17:00

NUNCA DESISTIR

Quarta-feira, 18.02.15

 

Aos meus netos

 

Era uma vez um menino que passeava num bosque, olhando as árvores e admirando a natureza. A determinada altura parou e viu algo que o deixou maravilhado. Era uma bela e apetitosa fruta bem lá no cimo de uma árvore. Mas não era uma fruta comum, era a fruta mais brilhante e mais bonita que já alguma vez vira. Muito admirado disse para consigo:

- Tenho que apanhar aquela fruta. Não me parece nada difícil. É só subir a árvore.

E com firmeza, começou a escalar a árvore.

Quando já estava quase a meio da subida, um ramo da árvore quebrou-se e ele caiu. Então ele disse:

- Não prestei atenção... Agora, desta vez, vou subir com mais cuidado!

Decidido, resolveu subir outra vez. Nesse momento, começou a cair uma chuva muito forte seguida de trovões. De repente fez um grande relâmpago, e um raio muito brilhante caiu muito perto dele. Apanhou um grande susto e voltou a escorregar e a cair da árvore abaixo. Depois de passar o susto, disse:

- Afinal não é fácil apanhar aquela fruta Mas, como ela me parece deliciosa, e a chuva já passou, vou tentar apanhá-la, de novo. E mais uma vez começou a subir a árvore.

Quando já tinha subido um bom pedaço, o vento começou a soprar muito forte, impedindo-o de continuar a subir. Escorregou de novo e caiu no chão, mas, mesmo assim não desistiu:

- Acho melhor subir com uma corda.

Fez um laço numa corda, atirou-a ao ar e o laço prendeu-se num dos ramos da árvore. Preso à corda, tentou nova subida. Mas a meio da subida, a corda rebentou e ele caiu uma vez mais.

Parou então e pensou um pouco:

- Até parece que aquela fruta é mágica e não quer que eu a apanhe e a coma! Mas agora farei diferente. Vou construir uma escada, e subo por ela acima. E assim fez. Com ramos secos e fios de espadana construiu uma escada. Depois de terminar, encostou a escada à árvore e subiu. Sorrindo disse:

- Com a escada tudo parece mais fácil. Acho que dessa vez consigo. Lá vou eu...

E assim conseguiu apanhar a fruta que tanto desejava comer.

Muito contente, com a fruta na mão, exclamou:

- Valeu a pena o trabalho que tive.

E assim aquele menino percebeu que só com muito trabalho e esforço conseguimos o que desejamos.

 

NB-Baseado num conto brasileiro.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:43

AS FREGUESIAS DOS AÇORES

Terça-feira, 17.02.15

Nos Açores existem 19 concelhos, com um total de 155 freguesias. São as seguintes as freguesias açorianas, ordenadas por ilha e concelho. Assim, em Santa Maria existe apenas um concelho, Vila do Porto 5 freguesia: Almagreira, Santa Bárbara, Santo Espírito, São Pedro e Vila do Porto. São Miguel, para além de maior é a ilha mais povoada e com maior número de freguesias. São seis os concelhos micaelenses: Lagoa, Nordeste, Ponta Delgada, Povoação, Ribeira Grande e Vila Franca do Campo. O concelho da Lagoa tem cinco freguesias: Água de Pau, Cabouco, Rosário, Ribeira Chã e Santa Cruz, o de Nordeste, nove: Achada, Achadinha, Algarvia, Lomba da Fazenda, Nordeste e Lomba da Pedreira, Salga, Santana, Santo António de Nordestinho e São Pedro de Nordestinho, e o de Ponta Delgada o maior concelho açoriano, vinte e quatro: Ajuda da Bretanha, Pilar, Arrifes, Candelária, Capelas, Covoada, Fajã de Baixo, Fajã de Cima. Fenais da Luz, Feteiras, Ginetes, Livramento, Mosteiros, Pilar da Bretanha, Relva, Remédios, Santa Bárbara, Santa Clara, Santo António, São José, São Pedro, São Roque, São Sebastião, São Vicente Ferreira e Sete Cidades. O concelho da Povoação tem cinco freguesias: Água Retorta, Faial da Terra, Furnas, Remédios, Povoação e Ribeira Quente, o da Ribeira Grande tem catorze: Calhetas, Conceição, Fenais da Ajuda, Lomba da Maia, Lomba de São Pedro, Maia, Matriz da Ribeira Grande, Pico da Pedra, Porto Formoso, Rabo de Peixe, Ribeira Seca, Ribeirinha, Santa Bárbara e São Brás, o de Vila Franca seis e que são: Água de Alto, Ponta Garça, Ribeira das Tainhas, Ribeira Seca, São Miguel e São Pedro.

Na ilha Terceira existem dois concelhos: Angra do Heroísmo e Praia da Vitória. O concelho de Angra tem dezanove freguesias: Altares, Cinco Ribeiras, Doze Ribeiras, Feteira, Conceição, Porto Judeu, Posto Santo, Raminho, Ribeirinha, Santa Bárbara, Santa Luzia de Angra, São Bartolomeu dos Regatos, São Bento, São Mateus da Calheta São Pedro, Sé, Serreta, Terra Chã e São Sebastião. Por sua vez o concelho da Praia abrange onze freguesias: Agualva, Biscoitos, Cabo da Praia, Fomnte do Bastardo, Fontinhas, Lajes, Porto Martins, Santa Cruz, Quatro Ribeiras, São Brás e Vila Nova. Na Graciosa há apenas o concelho de Santa Cruz constituído pelas quatro freguesias da ilha: Guadalupe, Luz, São Mateus da Praia e Santa Cruz. São Jorge esta divido em dois concelhos e o Pico em três. Em São Jorge o concelho da Calheta tem cinco freguesias: Calheta, Norte Pequeno, Ribeira Seca, Santo Antão e Topo enquanto o das Velas tem seis: Manadas, Norte Grande, Rosais, Santo Amaro, Urzelina e Velas. No Pico, o concelho das Lajes é constituído por seis freguesias: Calheta de Nesquim, Lajes do Pico, Piedade, Ribeiras, Ribeirinha e São João, o da Madalena também por seis: Bandeiras, Candelária, Criação Velha, Madalena, São Caetano e São Mateus, e o de São Roque por cinco: Prainha, Santa Luzia, Santo Amaro, Santo António e São Roque. Ainda no que ao grupo central diz respeito, o Faial constitui apenas um concelho o da Horta que abrange treze freguesias: Angústias, Capelo, Castelo Branco, Cedros Conceição, Feteira, Flamengos, Matriz da Horta, Pedro Miguel, Praia do Almoxarife, Praia do Norte, Ribeirinha e Salão.

A ilha das Flores, uma das menos povoadas dos Açores, divide-se em dois concelhos: Lajes e Santa Cruz. O concelho das Lajes tem sete freguesias: Fajã Grande, Fajãzinha, Fazenda, Lajedo, Lajes das Flores, Lomba e Mosteiro, enquanto o de Santa Cruz tem apena quatro: Caveira, Cedros, Ponta Delgada e Santa Cruz. A ilha do Corvo é constituída apenas pelo concelho de Vila Nova do Corvo, não tendo nenhuma freguesia, caso único no país.

Dos 19 concelhos em que se dividem as nove ilhas do arquipélago 12 (Vila do Porto, Lagoa, Nordeste, Povoação, Ribeira Grande, Angra do Heroísmo, Lajes do Pico, São Roque do Pico, Horta, Lajes das Flores e Santa Cruz das Flores) têm freguesias com menos de 500 habitantes., sendo a mais pequena de todas o Mosteiro das Flores, com apenas 43 habitantes. Por sua vez, o concelho das Lages das Flores é o que tem maior número de freguesias com menor população. Para além do Mosteiro, a Fajãzinha tem apenas 76 habitantes, o Lajedo 93, a Fajã Grande 202, a Lomba 206 e a Fazenda 257. Na mesma ilha, no concelho vizinho de Santa Cruz das Flores, mais três freguesias não ultrapassam os 500 habitantes: a Caveira com apenas 77, os Cedros com 128 e Ponta Delgada 359. O Nordeste, na Ilha de S. Miguel, é o segundo concelho com mais freguesias de idêntica dimensão. A Achada com 436 habitantes, a Salga com 488, Santana com 475, a Algarvia com 290 e Santo António de Nordestino com 273. No concelho da Povoação a freguesia de Água Retorta tem 489 habitantes e o Faial da Terra 359. No concelho Ribeira Grande a Lomba de S. Pedro tem 284 moradores e no da Lagoa a freguesia mais pequena e a Ribeira Chã com 396.

Algo de semelhante acontece na Ilha do Pico. No concelho das Lajes a Calheta de Nesquim tem 343 habitantes, a Ribeirinha 374 e São João 423. Em São Roque Santa Luzia tem 422 habitantes e Santo Amaro 288. Na Horta, Ilha do Faial, a freguesia do Capelo tem 486, Praia do Norte 250, Ribeirinha 427, e o Salão 401., não atingem os 500 habitantes. Em Santa Maria a freguesia de Santa Bárbara tem apenas 405 pessoas.

Segundo o Censos 2011, 40 freguesias açorianas têm 500 e os mil habitantes., enquanto 43 têm ente mil e mil e quinhentos. Com mais de dois mil e menos de cinco mil habitantes contam-se, na Região Autónoma dos Açores 39 freguesias. Em todo o arquipélago apenas duas freguesias ultrapassam os 10 mil habitantes: Vila Franca do Campo com 11229, em S. Miguel e Praia da Vitória, na Terceira com 21035.

 

NB – Dados retirados dos sites Açores e ANAFRE

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publicado por picodavigia2 às 00:31

A MANHÃ DO DIA SEGUINTE

Segunda-feira, 16.02.15

Todos os anos, no verão, chegavam à freguesia muitos visitantes. Uns vinham do continente, outros do Faial ou da Terceira, alguns de São Miguel e muitos, a maioria, da América. Quase todos eram antigos habitantes. Uns haviam partido há muitos anos, outros há pouco. Mas todos regressavam de visita, para matar saudades, para mostrar aos filhos ou netos as belezas da terra onde haviam nascido e, no caso dos americanos, geralmente para pagar uma promessa ao Senhor Espírito Santo.

Um verão houve, em que entre outros, chegou à freguesia um casal vindo de Lisboa. Visitavam a terra dos seus avós. Pela primeira vez. Hospedaram-se na casa de uns parentes e vinham acompanhados duma filha. A menina devia rondar os vinte anos. Chamava-se Elizabete, nome muito esquisito e estranho na freguesia. Elizabete era muito bonita. Rosto macio, alvo de neve a esboçar, permanentemente, um delicioso, meigo e ternurento sorriso. As faces eram rosadas e os olhos esverdeados. O cabelo muito sedoso e quase louro. Prendia-o na nuca com uma enorme prisão, acentuando-lhe um cariz juvenil, pleno de graciosidade. O seu corpo, o seu andar, todos os seus movimentos se envolviam, permanentemente, num manto de simplicidade, fluidez e elegância. Muito delicada e comunicativa, sorria a quantos com ela se cruzavam, mesmo que lhe fossem totalmente desconhecidos. Resplandecia alegria, irradiava elegância e beleza e falava com toda a gente. Sem vaidade, sem orgulho. A rapaziada da freguesia não se continha! Entrou num frenesim, não disfarçando olhares, desejos e vontades. Numa palavra, encantaram-se com a menina. No entanto quem mais se empolgou e fascinou com Elizabete foi o filho do João Cambado, o Bernardo.

Bernardo era um pobre diabo! Tinha tudo para ser desafortunado e infeliz. A natureza dotara-o de uma fealdade telúrica, duma hediondeza profunda. Um Quasimodo sem corcunda! Além disso, coroara-o uma calvície prematura e enraizara-se-lhe uma acentuada falta de visão, corrigida, parcialmente, com uns óculos de ares redondos e lentes grossíssimas que lhe tornavam os olhos minúsculos, quase invisíveis. Para atenuar as limitações visuais, colocava, frequentemente as mãos sujas e gretadas sobre os olhos e assim ficava, por momentos, a olhar fixo para o que quer que fosse, numa tentativa de descortinar melhor o que pretendia ver. A casa uma lástima e a família um desmazelo. O pai um pobretanas que não tinha onde cair morto. Não tinha terras e quase não trabalhava para fora, que ninguém o queria, nem a dias nem muito menos de empreitada. A mãe uma desleixada que nem da casa ou das roupas cuidava. Viviam numa miséria aberrante. Sustentava-os a caridade dos vizinhos e algum alqueire de milho que o rapaz conseguia ao dar dias para fora. Mais pela generosidade de quem o contratava do que pelo trabalho que produzia. De resto, pão de milho rijo que nem um corno, por vezes bolorento, migado num café de favas era cardápio diário em casa do Cambado. Pai e filho a pingar lama, mãe a cramar das aduelas e a casa que nem se poderia entrar. Um louvar aos céus!  

Certa tarde, porém, ao regressar a casa, Bernardo decidiu passar frente à casa onde moravam aqueles senhores do continente que tinham uma filha muito bonita. Vira-a, dias antes no arraial da Casa de Baixo e ficara fascinado. No momento em que passava, Elizabete surgiu à janela. Viu-o e sorriu. O mais belo sorriso que Bernardo, apesar da sua genética cegueira, alguma vez vira. Mais se fascinou e mais se empolgou pela rapariga. Não se conteve e foi desabafar com o Câncio. Estava apaixonado.

- Quem é a feliz contemplada? – Indagou o Câncio, com ar de gozo.

Ao princípio embatucou. Mas como o Câncio insistisse, muito envergonhado lá desembuchou. Ui! Que sortudo! E ela, e ela?

Mas o Câncio não era de se calar com o que quer que fosse, muito menos com tão deslumbrante segredo do Cambado. Um cesto de penas de galinha atiradas do cimo da Rocha, em dia de vento, não se espalhariam mais depressa. No dia seguinte toda a malta a meter-se com o palhoco do Bernardo.

Ele envergonhíssimodo. Vermelho que nem um pero. Uma chacota como nunca se vira.  

Mas nem por isso o Bernardo acobardou e, apesar, dos risos, dos gracejos e até dos insultos de alguns dos mais velhos, continuava a passar, sempre que podia, em frente à casa onde morava Elizabete. Contentar-se-ia em vê-la de longe, em saber que ela estaria perto de si. Por vezes, enganava-se. Confundia-a com outras mulheres, quando de mãos sobre os olhos, como se fossem palas a evitarem-lhe o sol, olhava apalermado para qualquer sítio onde cuidasse que ela estivesse.

Ela, no entanto, continuava a aparecer à janela, a andar por aqui e por ali. A lançar-lhe, na sua inocente simplicidade, sorrisos atrás de sorrisos. E ele, tentando alienar-se da chacota de que era vítima, começava a cogitar em qual seria a melhor forma de se aproximar dela, talvez de lhe entrar pela porta dentro, a fim de a ver melhor, de a observar de perto. Encheu-se de coragem. Um punhado de maçãs da horta do Rosa. Apanhar do caminho não é roubar. Além disso, não eram para ele. Eram para ela. Muito a medo, lá foi, com as maçãs. Ao lusco-fusco e pela porta da cozinha para que os ui monços não o vissem. Ninguém havia de fazer pouco dele. Bateu, esperou um pouco e ficou lívido. Era a mãe. A menina não estava. Numa segunda tentativa foi mais feliz. Levava-lhe uns cachitos de uva… Sabia que ela estava. Tentou entrar. Aproximou-se, mas a voz entupiu-se, o rosto avermelhou-se e corpo tremia-lhe. Ela muito aflita sem saber o que dizer ou o que fazer.

Nos dias seguintes amainou, pese embora soubesse que não conseguiria aproximar-se dela. Contentava-se em vê-la de longe, de saber onde ela estava. Depois, lá lhe foi batendo à porta, vezes sucessivas. Três cachos de uva, uma cestinha de batatas-doces e até dois ovos que a vizinha Glória oferecera à mãe. Não entrava. Tinha vergonha. Além do mais, ela nem o convidava para entrar. Sempre fora da porta, sempre sem grandes conversas, sempre com agraciamentos e um não se havia de ter incomodado. Por fim aquele sorriso que, desde a primeira vez que a vira, o cativara. Podia ser pobre, tosco, cegueta, mas tinha coração. Ai se tinha! Gostava dela! Amava-a de verdade. Uma paixão infinita e incontrolável como nunca tivera. Mas era uma existência negra a sua. Sabia que ela nunca havia de o amar e sabia que o verão estava a chegar ao fim, e ela, em breve, havia de regressar a Lisboa. Nunca mais a veria. Só lhe restava esta mágoa, este desgosto!

Quando na primeira noite depois de ela partir, ao deitar sobre aquele amontoada de casca de milho, coberto com uns cobertores avermelhados e muito sujos, os olhos toldaram-se e grossas lágrimas perderam-se nos negrumes dos cobertores. Lá fora a noite escurecera por completo. Um nevoeiro denso, incomodativo que de tarde cobria apenas meia rocha, agora descia molhado sobre o povoado. Com ele viera um vento suave, quase impercetível. Fora da porta ouviam-se vozes. Mais distante o roncar emperrado do motor de um automóvel. Ao longe o silvo de um navio. Navegava à deriva. Sem mastros, sem velas, sem luzes e sem marinheiros. Transportava um único passageiro. Reconheceu-a. Era ela. Num ímpeto tresloucado lançou-se ao mar. Começou a esbracejar como se nadasse com quantas forças tinha, na mira de alcançar o navio, de a salvar. Impossível! Ondas altivas e alterosas impediam-no de nadar e uma bruma negra e densa não lhe permitia enxergar o que quer que fosse. Além de que a chuva, o vento e o frio, que se juntaram naquela hora, enregelavam-no por completo. Tremia dos pés à cabeça. Apesar de içado do meio de ondas alterosas tremelicava gemia, suspirava e aos poucos parecia que se perdia, por completo, no meio daquele enorme turbilhão. De repente, uma mulher de uma beleza rara e invulgar mas de mãos enormes, muito peludas e cheias de rugas impedia-o de se afogar. Aos poucos a escuridão desvanecia-se por completo. A chuva, também amainava. A mulher das mãos grandes e peludas partira. Bernardo acordou, sobressaltado. Era o início da manhã do dia seguinte.

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publicado por picodavigia2 às 09:55

O PADRE, O CÃO E A CESTA COM A CHAVE DO SACRÁRIO

Domingo, 15.02.15

Tio Francisco Inácio era um dos homens mais respeitados e dignos de crédito da freguesia. Pai de dois sacerdotes e de mais de meia dezena de filhos, todos muito muito respeitadores e educados, era consultado em demandas, chamado a impedir desavenças, procurado em malogros e, além disso, sempre disposto a ajudar e a dar conselhos a quem mais precisava ou lhos pedia. Todos acreditavam nas suas sábias palavras, aceitavam os seus bons conselhos e tinham por ele uma imensurável consideração.

Certo dia Tio Francisco Inácio deslocou-se, sozinho a Santa Cruz. Partiu de madrugada, ainda noite escura que a caminhada era longa. Calcorreou o Caminho da Missa, atravessou a Fajãzinha, subiu a Rocha da Figueira e chegou aos Terreiros. Aí, rumou a norte, tomando o caminho que dava para Santa Cruz, atravessando os matos da ilha, de lés-a-lés. Em Santa Cruz, a tratar de assuntos aqui, uma ou compra acolá, conversa com algum conhecido à Praça e ter-se-á demorado mais do que estava previsto, abandonando a vila bastante tarde. Quando anoiteceu, mal tinha acabado de subir a ladeira da Ventosa, pelo que atravessou os matos da ilha, no regresso à Fajã, já pela noite dentro. A noite, porém, estava muito escura e os matos cobertos de um denso nevoeiro. Tio Francisco Inácio pouco via à sua frente, pelo que ainda mais atrasou a sua caminhada.

Ao chegar aos Terreiros já passava da meia-noite. No entanto, o nevoeiro era menos intenso, permitindo-lhe visionar com mais facilidade quer os obstáculos do caminho quer animais que pastavam na fresca alfombra daqueles descampados.

Foi precisamente nos Terreiros, antes da vereda que dava para a Caldeira e para o Mosteiro que tio Francisco Inácio foi surpreendido por uma estranha visão: à sua frente, em passos lestos, atravessou-se um padre, acompanhado de um cão e este levava uma cesta na boca, dentro da qual estava uma chave. Aparentemente seria a chave do sacrário, pois estava presa com uma fita, na qual estavam gravados símbolos religiosos. Tio Francisco Inácio, inicialmente, cuidou que fosse o pároco da Fajãzinha, que tivesse sido chamado a meio da noite para sacramentar algum moribundo da Caldeira ou do Mosteiro e chamou por ele. O padre, porém, não lhe deu ouvidos e parecia que quanto mais Tio Francisco Inácio o chamava mais ele fugia. Ainda tentou numa corrida, alcança-lo, mas nada conseguiu. O padre andava muito lesto e sumira-se por entre o nevoeiro, no negrume da noite, deixando tio Francisco Inácio atónito e num grande sufoco. Mais se espantou ainda quando, ao chegar à Fajãzinha, soube que o pároco dormia descansadamente na sua cama e não fora chamado para administrar os Sacramentos da Santa Madre Igreja a nenhum moribundo. Caindo em si, percebeu que aquilo só poderia ter sido uma visão. Uma alma do outro mundo que lhe aparecera. Na verdade, sabia-se que um padre que há muitos anos paroquiara na Fajãzinha deslocava-se, com muita frequência, ao Mosteiro, que nessa altura ainda não era paróquia, sempre acompanhado do seu cão. Tio Francisco Inácio vira alguém que morrera há muitos anos. Como era um homem muito sério, ninguém duvidou das suas palavras. A partir de então, muitas pessoas da freguesia tinham um medo enorme de passar naquele lugar, onde tinha aparecido o padre e o cão com a cesta na boca, contendo a chave do sacrário

Segundo a hipótese mais provável e a ser verdadeira a visão de Tio Francisco Inácio, tratar-se ia do padre Alexandre Pimentel de Mesquita, natural de Santa Cruz e que em 1750 já era cura na Fajãzinha, sendo, mais tarde, vice vigário da mesma paróquia, cargo que manteve até falecer em 11 de Março de 1786.

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publicado por picodavigia2 às 00:19

O LUGAR DO TANQUE

Sábado, 14.02.15

Muito diversa e variada era a toponímica da Fajã Grande. Muitos eram os lugares com nomes interessantes e curiosos. Um deles era o lugar do Tanque.

O lugar do Tanque encastoava-se nos contrafortes do Outeiro e localizava-se à direita de quem subia a Fontinha, entre a casa de Tio José Teodósio e o Cruzeiro onde existia a fábrica da Manteiga. Era um lugar muito pequeno mas muito airoso e também muito fértil. Um recanto de verdura um tapete de produtividade! A ele tinha-se acesso por uma pequena e mal desenhada canada, conhecida pela Canada do Tanque, cujo percurso se iniciava no início da reta, finda a qual se situava aquela fábrica, uma espécie de zona industrial da freguesia, constituída por três edifícios de tamanho diferente. O maior destinado ao fabrico da manteiga, o médio à carpintaria, onde eram construídas as caixas para o transporte das latas e a mais pequena, do lado do Alagoeiro, para armazém de arrumos. O acesso ao lugar do Tanque, que só se poderia fazer por aquela canada, no entanto, não era muito fácil porquanto a canada fora edificada quase toda ela sobre uma espécie de maroiço, sob a forma de muralha, construída sobre as paredes dos terrenos circundantes e sem nenhuma muro ou bardo circundante, que protegesse os transeuntes ou a que estes se amparassem. Assim, em dias de vento forte era quase impossível transpô-la. Os animais estavam impedidos de ali transitar e as pessoas, sobretudo quando carregadas com molhos ou sacos, deviam percorrê-la com muito cuidado e cautela.

O lugar do Tanque era ladeado a norte pela Fontinha, a Oeste pelo Cruzeiro, a sul pela Bandeja e a oeste pelo Outeiro. Era um local de terras de cultivo muito férteis como eram as da Fontinha e nelas cultivava-se, sobretudo, batata-doce, milho, favas feijão e de couves. Lugar pequeno, as propriedades ali existentes também eram minúsculas, até porque todos os trabalhos de cultivo, uma vez que ali não transitava gado, tinham que ser feitos com o sacho e a enxada e os produtos acarretados aos ombros, pelo menos até ao caminho da Fontinha.

A origem deste nome parece estar ligada ao facto de, outrora, ter existido por ali algum chafariz ou tanque, utilizado como local para reserva de água para as habitações ou para lavagem de roupa, uma vez que a hipótese de alguma vez ali ter passado ou permanecido um tanque de guerra está total e absolutamente posta de lado. Uma outra hipótese, bem menos provável, é de alguém com o nome ou apelido de Tanque ou outra palavra próxima, tenha ali vivido ou possuído propriedades.

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publicado por picodavigia2 às 21:10

SUBSIDIOS AOS RESIDENTES NOS AÇORES PARA AS VIAGENS DE AVIÃO AO CONTINENTE

Sábado, 14.02.15

O Conselho de Ministros aprovou ontem (dia 12-2-2015) o diploma que regula o subsídio social de mobilidade para os residentes nos Açores, que assegurará a quem vive nas ilhas que uma viagem ao continente lhes custará, no máximo, 134 euros.

Assim, os residentes, equiparados e estudantes nos Açores vão passar a receber um subsídio do Estado para as viagens de avião ao continente e à Madeira, a atribuir diretamente aos beneficiários mas só depois de comprado o bilhete.

"O auxílio social é variável por viagem e a sua atribuição vai ser feita 'a posteriori', sendo primeiro pago o bilhete e depois levantado o apoio", disse o ministro da Presidência, Marques Guedes, após o Conselho de Ministros.

Uma portaria conjunta dos ministros com a tutela das Finanças e do transporte aéreo, após audição do Governo da Região Autónoma dos Açores, irá definir o montante de ajuda e os respetivos apoios.

"O auxílio é criado no âmbito da revisão do modelo das referidas ligações aéreas, prevendo-se ainda a liberalização dos serviços aéreos regulares nas rotas Lisboa/Ponta Delgada/Lisboa, Lisboa/Terceira/Lisboa, Porto/Ponta Delgada/Porto e Porto/terceira/Porto", acrescenta o Governo, no comunicado divulgado no final da reunião do Conselho de Ministros.

A liberalização destas rotas entra em vigor a 29 de março e resulta de um acordo entre o Governo da República e o executivo regional dos Açores, fechado no ano passado, que prevê, por outro lado, que os residentes no arquipélago pagarão um máximo de 134 euros pelas viagens a Lisboa ou ao Porto.

Se a companhia aérea lhe cobrar mais do que aquele valor por um bilhete, os residentes nas ilhas são depois reembolsados da diferença, sendo este o chamado subsídio social de mobilidade.

Até agora, o Governo indemnizava diretamente as companhias aéreas pelos bilhetes vendidos com tarifas para os residentes nos Açores.

A revogação das obrigações de serviço público nas ligações aéreas entre as ilhas de São Miguel e Terceira e o continente (Lisboa e Porto) foram publicadas a 27 de janeiro no Jornal Oficial da União Europeia, depois de terem sido enviadas para Bruxelas pelo Governo português, para autorização e publicação pela Comissão.

A aprovação e regulamentação do subsídio social de mobilidade para os residentes nos Açores permite, assim, operacionalizar na totalidade o novo modelo das ligações aéreas entre o arquipélago e o resto do país.

O novo modelo levará à entrada das chamadas 'low cost' (companhias de baixo custo) na região autónoma. Atualmente, só a TAP e a SATA voam para os Açores. A EasyJet e a Rayanair já anunciaram que vão voar, pelo menos para, São Miguel (Ponta Delgada). Mas a SATA, também, já revelou que vai continuar a voar para São Miguel e aumentar as ligações que faz entre a Terceira e Lisboa.

 

NB- Dados retirados da RTP Açores

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publicado por picodavigia2 às 10:54

A JORNALISTA

Sexta-feira, 13.02.15

Foi num congresso de jornalistas que se conheceram. Ele do Informar, ela da conceituada revista Presente. Dias antes, Jacinto Belchior telefonara à redação da Presente. A ideia era saber se a revista estaria presente no congresso e, em caso afirmativo, quem a representaria. Era crucial. Muitos jornais e revistas já se haviam associado, em ordem a se unirem, na apresentação e aprovação de algumas medidas importantes para o jornalismo a que a Federação e o Governo se opunham. Que sim, que a revista faria jus ao seu nome. Estaria presente e far-se-ia representar pela jornalista Eduarda Borges.

Jacinto Belchior foi o primeiro a comparecer no hotel, aguardando, com impaciência, a chegada da colega. Sentado no hall de entrada, entretinha-se a observar dezenas e dezenas de congressistas que, à medida que iam entrando, se dirigiam à mesa do secretariado a fim de oficializar a sua acreditação. Muitas mulheres eram-lhe desconhecidas e era entre estas que procurava Eduarda Borges. Mas nada. Por momentos, cuidou que não seria capaz de a identificar, face aos elementos que lhe tinham fornecido. Esperou mais algum tempo. No seu pensamento trespassavam imagens diversas, confusas, indefinidas. Por fim, já cansado de tanto esperar, dirigiu-se à mesa do secretariado. Por feliz coincidência, precisamente no momento em que a representante da Presente recebia uma pasta com a documentação e o crachá.

Eduarda Borges já não era muito nova mas era possuidora duma beleza estonteante e duma graciosidade demolidora. Andaria nos quarenta. Morena, de semblante jovial, cabelo ondulado, olhos grandes e plenos de graciosidade. Falava com uma desenvoltura desusada, era senhora duma comunicabilidade avassaladora e, além disso, possuía um currículo invejável. Uma mulher distinta, uma jornalista notável. Os seus textos semanais na Presente, sobre os mais polémicos temas da atualidade, eram de um rigor acentuado e duma clareza impressionantes. Cativavam os leitores. Fundamentava as suas opiniões, confrontava, sem receio, as dos outros e formulava sínteses com clareza, rigor e determinação sobre os mais diversos e mais polémicos temas da atualidade.

Recebeu a prestabilidade do colega do Informar com alegria. Que lhe desculpasse o atraso. Havia de o ressarcir do tempo perdido. Depois ria, atirava-lhe frases cheias de sentido, galhofas de bom gosto, numa palavra envolvia-se com ele com se há muito tempo se conhecessem.

Jacinto Belchior ficou fascinado. Na companhia dela, o congresso seria muito mais alegre, vantajoso, benéfico, talvez mesmo mais divertido. Sim porque ficar três dias ali encurralado, a maior parte do tempo a ouvir larachas e coisas sem importância, seria uma chatice. Assim trocariam ideias, discutiriam propostas diversas, envolver-se-iam na discussão dos temas com mais entusiasmo e, sobretudo, com maior utilidade. bem que o destino acabara por dispor as coisas de maneira a que se conhecessem. Na verdade envolveram-se, lado a lado, no debate de alguns dos temas do congresso como jornalismo e sociedade, diagnóstico do jornalismo no país, jornalistas em defesa do trabalho e da democracia, o poder feminino nas redações, sensibilização da opinião pública para a degradação das condições de trabalho dos jornalistas e as suas consequências para a liberdade de imprensa e para a qualidade da democracia, o problema da formação, etc. etc.. Enfim uma panóplia de problemas que nunca mais acabava. Mas um congresso não se faz só de sessões, de debates e fóruns. Após os trabalhos havia que desfazer o cansaço, derrubar o entorpecimento, dar largas à diversão. Eram jantares longos e demorados, noitadas em bares, passeios pela cidade. Ela sempre ao lado dele como que a protegê-lo, a ajudá-lo, a aconselhá-lo e até, uma vez, uma única vez, a impedi-lo que bebesse de mais. Uma maravilhosa companheira! Um delicioso enlevo!

No regresso a casa Eduarda pediu-lhe boleia. Tinha vindo com um amigo que seguira viagem e agora não tinha como regressar. Deixasse-a onde lhe fosse mais conveniente. Depois havia de se haver. Era o que faltava. Havia de a ir levar a casa. As reuniões e os debates, no último dia, prolongaram-se mais do que era esperado, pelo que partiram já tarde.

Teria talvez passado uma hora de viagem quando resolveram parar para comer qualquer coisa. Falaram, riram, conversaram e desabafaram. Aquela carta que meteram debaixo da porta do quarto dele. Uma vergonha! Há pessoas que vêm aos congressos para isto! Esquece, rasga. Aquele dar nas vistas do Primeiro de Dezembro! E as imbecilidades do presidente. Metia dó. Começava a admirá-la cada vez mais. A segurança das suas opiniões era, deveras, convincente, a serenidade das suas palavras conciliadora, a clareza das suas atitudes fascinante. Os seus diálogos eram sábios, as suas ideias úteis, os seus escritos atrativos. Sentia-se fascinado e ela percebeu-o. Pudera ele, ali, em pleno restaurante, pegar-lhe nas suas mãos e havia de levá-las à boca para as beijar. Talvez ela não reagisse negativamente. Hesitou.

Fizeram o resto da viagem em alegre cavaqueira. Ela falava, ria e ouvia-o com atenção. Por vezes até lhe parecia querer aconchegar-se no seu ombro. Chegados à porta da sua casa, convidou-o a entrar. Ele embasbacado, hesitou. Ela percebendo o embaraço, adiantou de imediato:

- Talvez seja melhor não. Já é muito tarde.

Seguiram-se dias, semanas de silêncio! Não se continha. Arrochado pelo suplício da sua ausência, definhava. Fora um fraco! No restaurante, na viagem e sobretudo à porta de casa dela. Agora ressuscitava. Nenhum temor havia de o entupir quando estivesse na presença dela. Telefonou-lhe a combinar encontro. Gostava de a ver… de conversar. Tinha muito gosto, mas ela engenhosa e determinada, marcou encontro num café, longe de sua casa. Tudo veio à baila. Ecos do congresso, recordações dos convívios noturnos, o último artigo que publicara, projetos futuros, problemas da classe… Tudo, menos o que ele pretendia. Seguiram-se outros encontros. Sempre no café. Sempre sobre jornalismo. Dias e dias enfarruscado em encontros monótonos, sempre iguais, mas plenos de emoções. Bastava-lhe que estivesse na sua presença. A arfar ânsia, mas a nadar em enlevo. Era hora de mudar de estratégia. Convidou-a a visitar o Informar. Um dia levou-a ao jornal, apresentou-a ao diretor e teve a distinta lata de a propor como colaboradora. Referenciou-a como uma excelente jornalista. Os seus escritos atraíam leitores. O jornal ganharia com a colaboração dela. O diretor acabou por aceitar. Teria à sua disposição uma coluna semanal.

Durante quase um ano Eduarda Borges visitava com alguma frequência as instalações do Informar. Jacinto Belchior esperava, ansiosamente, a sua chegada e acompanhava-a com enlevo, enquanto ela ali permanecia. Trabalhavam lado a lado. No fim, apenas um café em conjunto, às vezes um lanche. Sentia que ela adorava a sua companhia mas percebia que todas as demais hipóteses, para além duma amizade recíproca, estavam arredadas. Apenas uma miragem indecisa, ténue.

Certo dia o diretor chamou-os ao seu gabinete. Achava que profissionalmente se completavam. Considerava-os capazes de orientar um projeto de formação de jornalistas. A ideia agradou-lhes. Para além da valorização que tal projeto lhes havia de trazer a todos os níveis, para ele era uma excelente oportunidade de a encontrar com mais frequência, de estar com ela mais vezes, de partilhar dias, talvez noites. A proposta não podia ser melhor. Orientar um curso de formação de jornalistas implicava um trabalho conjunto, quase diário. Decerto que se aproximariam muito mais, emocionalmente. E aproximou. Sobretudo a ele que de dia para dia mais se fascinava, mais se enlevava, mais se apaixonava.

Certa tarde, após mais um encontro de trabalho, ele levou-a até à porta de casa. Com o mesmo à vontade com que o fizera na noite em que regressavam do congresso, ela convidou-o para entrar. Ele aceitou. Subiram. Sentado na sala, o filho via televisão.

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publicado por picodavigia2 às 10:26

A RIBEIRA GRANDE II

Quinta-feira, 12.02.15

Paredes meias com a Fajã Grande ficava a freguesia da Fajãzinha. A separá-las o imenso e por vezes intransponível caudal que era Ribeira Grande. Apesar de vizinhas, na década de 50, as duas freguesias ainda ficavam, muitas vezes, sobretudo o inverno, separadas, sendo impossível deslocar-se de uma para a outra. As crianças e os mais idosos que se aventuravam sair de casa e percorrer o Caminho da Missa, a fim de irem esperar os americanos e outros passageiros vindos no Carvalho, ficavam pela Eira da Cuada, junto ao Calhau de Nossa, lá no alto, no início da descida da ladeira do Biscoito.

Na verdade, a Ribeira Grande, com o seu imenso caudal sólido, embora constituísse uma benesse para as duas freguesias, era uma ameaça e um estorvo, sobretudo para a Fajã Grande. Por vezes, a força do seu caudal era tão grande e tão forte que era sempre muito difícil construir pontes capazes de resistir às enxurradas em que era fértil. Uma das muitas tentativas ocorreu em 1789, sob a orientação do juiz de fora José Gonçalves da Silva, sendo então construída uma ponte de pedra sobre a Ribeira Grande, construção formidável para a época, mas que ficou como a ponte da má memória, pois nas palavras do padre Camões.

Reza a história que em 1794, quando a Fajã Grande ainda era um simples lugar, pertencente à freguesia das Fajãs, houve uma grande inundação e uma enchente que derrubou a velha e frágil ponte ali existente de modo que nem sequer ao menos della ficou o menor vestigio, sem rasto, saindo de seo leito natural a dicta ribeira que no desembocar no mar deixou um areal largo em maior distancia de 300 braças com uma perda inextimavel dos pobres lavradores que possuião terras a ella contiguas, que todas ao mar foram derregadas.

Igual destino tiveram várias tentativas de outras pontes para atravessamento, todas elas destruídas por caudalosas torrentes. A penúltima derrocada aconteceu em 1964, com a destruição da ponte de madeira ali colocada alguns anos antes. Finalmente, mm Novembro de 1996, o forte caudal da Ribeira Grande destruiu a ponte da estrada que liga a Fajãzinha à Fajã Grande, junto à Ladeira do Pessegueiro. Pouco depois foi construída, a jusante da antiga, uma grande e moderna ponte em betão, com um vão dezenas de vezes superior ao anterior.

A Ribeira Grande é, na realidade, a maior torrente da ilha das Flores, que, apesar de bela e majestosa com as suas gigantescas cascatas, das quais a maior tem cerca de 300 m de altura, provocou, através dos tempos, através das suas monumentais enxurradas, inúmeras inundações que muitas vezes prejudicaram a própria freguesia da Fajãzinha e impedindo os habitantes da Fajã de a atravessarem, numa altura em que grande parte da sua vida, sobretudo religiosa, como batizados, casamentos e funerais eram celebrados na Fajãzinha. Conta-se que nessas ocasiões, os habitantes da Fajã Grande, impossibilitados de atravessar a Ribeira para assistir, ficavam no alto da Eira da Cuada, de um lugar de onde viam a igreja da Fajãzinha. Essa a razão por que existia lá um calhau chamado Pedra da Missa.

O Padre Camões descreve a Ribeira Grande nestes termos: Passado aquela povoação encontra-se logo a Ribeira Grande, que divide a freguesia, (…) e se encareceo a sua força e impetuosidade que certamente é grande. Cai a dicta ribeira de uma formidavel cachola, eminente à freguesia da Fajanzinha, a que dão de altura 200 braças: e caida; vem successivamente encorporar-se e ajuntar-se a ella todas as agoas da rocha, que serve de demarcação à freguesia, desde leste a sueste, e vem a ser a Ribeira dos Ferreiros, 4 grotas, sem nome na rocha chamada – a Rocha do Velho, a grota do Enchente, cujas águas engrossão e infurecem tanto que de inverno, e ainda mesmo havendo chuvas, de verão a fazem invadeavel.

O local por onde corre a Ribeira Grande é uma zona de relevo marcado pela presença de grandes falésias e enormes rochedos expostos, formando, no entanto, uma paisagem de grande beleza e, além disso, por mais de quatro séculos abasteceu de aguadas a navegação que sulcou os mares entre o Velho e Novo Mundo.

Acredita-se que a zona das Fajãs, embora a última parte da ilha das Flores a ser povoada, terá começado a ser desbravada em meados do século XVI, com os primeiros núcleos populacionais estáveis a surgirem nas primeiras décadas do século seguinte. Assim cuida-se que o lugar das Fajãs já estaria estruturado como povoado no início do seculo XVII, uma vez que o lugar da Fajãzinha foi em Julho de 1676, por provisão do bispo de Angra D. frei Lourenço de Castro, desanexado da vila das Lajes das Flores, à qual pertencia apesar da grande distância e maus caminhos, e erecto na paróquia de Nossa Senhora dos Remédios das Fajãs, então com sede na igreja de Nossa Senhora dos Remédios, com jurisdição que abrangia toda a costa oeste da ilha, desde a Ponta da Fajã até ao Mosteiro, englobando assim os lugares de Ponta, Fajã Grande, Caldeira e Mosteiro e outros, na década de 50 já despovoados, como a Fajã dos Valadões. a Ribeira da Lapa, o Pico Redondo e os Pentes.

 

NB – Alguns destes dados foram retirados da net.

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publicado por picodavigia2 às 10:31

É IMPERIOSO

Quarta-feira, 11.02.15

As nossas ações, mais do que as nossas palavras, são o que melhor nos caracterizam e definem.

É imperioso, em cada dia, fazermos o melhor. E o melhor deve ser pautado, sempre, pelo critério do bem. Bonum est faciendum, malumque vitandum, que significa devemos praticar o bem e evitar o mal é o princípio fundamental da Ética. Infelizmente a humanidade, mesmo ajudada por uma panóplia de religiões, onde este princípio é largamente proclamado, esqueceu-o.

E o homem tornou-se o pior inimigo do homem. Tanto mal!

Bastaria que cada homem seguisse este princípio e o mundo seria muito diferente. Para melhor. Bastariam as catástrofes naturais, inevitáveis para nos desolar e fazer sofrer.

Pratiquemos o bem, façamos o nosso melhor e, certamente o mundo será bem melhor e diferente.

É imperioso a humanidade dedicar-se à prática o bem!

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publicado por picodavigia2 às 11:23

O SOPRO DO VENTO

Terça-feira, 10.02.15

Em pé, no cais povoado de vultos em constante corrupio, esperava-o, olhando o oceano deslumbrantemente infinito. O Sol começava a espalhar-se sobre o casario em aguarela matinal, perfumada com o bafo dos incensos e das faias, ornada com o verde dos canaviais e o amarelo das giestas em flor. Um bando de gaivotas, em voos frenéticos e ciosos, derramava uma estranha melodia.

Não demorou muito e o Ilha Azul encheu a baía com um enorme buzinão, pondo as gaivotas em alvoroço. Um eco roufenho, mas possante e decidido, encastoou-se nos contrafortes da encosta. Depois, aos poucos, como um estertor dolente, foi-se diluindo pelos montes e escarpas circundantes, até se perder no horizonte. Como uma onda a desfazer-se no areal. Finalmente o ferry encostou ao cais e, ajudado por uma infinidade de cabos, guinchos e roldanas, abriu os enormes portões. Saíram pessoas e carros. Ele, na véspera, avisara-a de que faria ali uma curta escala. Gostava de a ver. Era imperioso encontrarem-se. Ela anuiu, com agrado.

Com destreza, desenvencilhou-se entre os primeiros passageiros, desabando, sobre ela a memória embevecida de um passado muito distante mas bem vivo. É verdade que haviam atravessado um terrível e longo muro de silêncio. Agora, por momentos, redimiam-se. Derrubavam-no, incrédulos, incapazes de dizer o que quer que fosse, para além do trivial. Uma pequena multidão, ao redor. Uns festejavam a alegria da chegada, outros aguardavam, impacientes, o embarque. Dentro em breve, teria que regressar ao Ilha Azul. Ela voltaria a estar só. Por detrás das rugas e dos cabelos esbranquiçados ficar-lhe-ia, mais uma vez, estampado no espírito o sabor amargo de um novo deserto.

Fora há muitos anos. Uma irmã dela, colega dele na universidade, aproximara-os. Depois, enquanto se abreviava a amizade da colega, agigantava-se a paixão por ela. Não era muito alta, nem deslumbrantemente airosa, mas consubstanciava um misto de ternura e de encanto. Atraía-o, fatalmente. Rosto macio, olhar doce, sorriso encantador. Uma beleza original e pura refletida na fluidez da sua essência e, sobretudo, no esplendor do seu caráter. Reinventava-se em cada momento, resplandecia em cada determinação, exaltava-se em cada atitude. Mulher menina perdia-se no que procurava e envolvia-se no que desejava. Era gota de água, orvalho, tormenta, enxurrada. Um mar de desejos, um oceano de entregas. Tudo e nada. Ele, refugiado no seu casulo, sempre tímido, hesitante, à espera do incerto, do indefinido. Encobria o bafo da paixão com o escapulário da inocência. Diante dela, refugiava-se, como um búzio, no seu esconderijo de lava. Cerceava tentativas, desmantelava aspirações, desfazia desejos e assolava paixões. Um tolo!

Um dia, porém, mandou às urtigas as hesitações. Ergueu-se em herói. Transformou-se em guia de uma longa subida. Por entre veredas sinuosas e escarpas íngremes subiram até ao cume de um pequeno outeiro. Lado a lado. A subida iniciou-se com determinação. Caminhavam como se não tivessem medo. Deslizavam por entre o soluçar do vento, arrastados pelo arfar de um contentamento disfarçado de cansaço. Primeiro o amarelado dos fetos, dos silvados, dos choupos a enfeitiçá-los. Depois o avermelhado dos tufos secos, seculares a tolher-lhe os passos. Alguns quase míticos. Ele conhecia na perfeição aqueles andurriais. Explicava-lhe o simbolismo de cada pedregulho, o misticismo de cada tufo e despertava-a para beleza da paisagem envolvente. Finalmente, já no alto, o verde das pastagens, o cheiro fresco da alfombra, a quietude das paredes circundantes, o reforço do ar puro da pequena montanha. Unia-os um ar envolvente, fresco e conciliador. E o cimo do pequeno outeiro, metamorfoseado em cúpula do mundo, a presenteá-los com uma vista maravilhosa. Aquém os telhados e frontispícios do casario do pequeno povoado, mais ao longe os campos verdes e amarelados de couves e milho e, além, separado pela mancha negra do baixio, o oceano azulado e infinito. E quando, no regresso, após a descida, atravessavam impávidos e destemidos o povoado, uma pequena multidão, aparentemente adormecida, como que acordou, erguendo-se contra ele, num contínuo vomitar de afrontas e insultos. Ela enfureceu.

- Canalha! Bando de invejosos! Corja de vadios!

Que não se incomodasse. Nada o afetava. E no domingo seguinte visitava-a, cada vez mais impaciente com a instantaneidade de cada encontro, com o aproximar-se do desmoronamento de cada sonho. Mas continuava entupido nas suas decisões, ancorado nos seus preconceitos. Grande palerma! Podia arrancar-lhe um beijo, um abraço, um carinho sequer. Mas nada! Era aquela estátua estratificada de desejos, corrompida de medos, aboborada de temores. Pouco depois ela partia, levando consigo a pérfida esterilidade das entregas de que haviam abdicado. Ele por medo, ela por compaixão. Agora e mais uma vez, mergulhavam numa separação que nem a um nem a outro agradava. Desfazia-os. Quase os amortalhava. De longe, apenas ecos dos sonhos vividos. Às vezes, um postal, uma carta, raramente um telefonema, a libertá-los do torturante pesadelo que o afastamento lhes causava.

Um dia decidiram subir ao céu! Quebraram amarras, destruíram grilhões e ele prometeu visitá-la. Ela esmerou-se em preparativos. Havia de o receber como um príncipe. Não fossem as bocas do mundo e ele havia de ficar na sua casa, dormir ao seu lado. Partilhariam momentos de intimidade. Mas não. Sucumbiu! É que, mais uma vez, foi trazido pelo sopro do vento norte, forte e intempestivo. Havia de atiçar labaredas descomunais. Indomáveis. Ele, açudado por um envolvimento desusado, vinha excitado. Ela estranha, confusa, mas disposta a tudo. Simulou doença e recebeu-o no leito. Comprometedora simulação que o atirava para bem junto dela. Que se sentasse na beira da sua cama, que enxugasse a cara com a sua toalha, que lavasse os dentes com a sua escova… Que a beijasse, que a amasse. Que fizesse tudo o que desejasse. Estranha hesitação a dele. Olhando-a, fixamente, apenas sonhou possuí-la como se de facto a possuísse.

Saíram na mira do almoço. Pela rua abaixo, mais uma vez, enlaçados pelo sopro do vento norte, agora mais calmo e sereno. Partilhavam uma cumplicidade íntima e recíproca. Ele nervoso, inquieto, a braços com desejos confusos, que se recusavam a sair-lhe do pensamento e ela, indignada, a aceitar com raiva aquela hesitação, aquele inequívoco desperdício de uma oportunidade que jamais voltaria. Seguiram-se três dias de sonhos desperdiçados, de esperanças atiradas ao ar, de decisões adiadas. Sustentavam, em vão, uma luta contra forças que eles próprios haviam cultivado, um inexplicável embate entre dois seres que sabiam que se amavam, mas não o queriam dar conhecer um ao outro. E assim ficariam a sonhar, de olhos cravados no infinito.

Agora que o ferry se afastava, com um buzinão ainda mais roufenho do que o que emitira à chegada, ela voltou a sentir um novo sopro de vento, uma enorme lufada de ar a toldar-lhe o rosto. Mas era um ar quente, amorfo e pestilento Estava só.

 

 

 

 

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publicado por picodavigia2 às 00:23

SILVINA SOUSA - IRACEMA

Segunda-feira, 09.02.15

Silvina Carmen Furtado de Sousa nasceu na Horta, em 19 de Janeiro de 1877, tendo falecido na mesma cidade, em 6 de Setembro de 1973. Distinguiu-se como poetisa, professora de música e impulsionadora da cultura. Fundou o colégio Insulano, onde eram lecionadas diversas disciplinas, nomeadamente Língua e Literatura Francesas, Música e Dança, e colaborou com Lídia Furtado na fundação do Salão Teatro Éden que se manteve em atividade por cerca de 25 anos e por onde passaram diversas récitas teatrais e filmes da época.

Nascida numa uma família de músicos distintos, era sobrinha-neta de José Leal Furtado, foi pianista de qualidade reconhecida e, tal como seu tio, também mestrina da capela da Matriz da Horta. Mas foi como poetisa, sempre com o pseudónimo de Iracema, que mais se distinguiu. Deixou alguma poesia recolhida no livro Saudade e outra dispersa pelos jornais do Faial e do Pico, onde também deixou alguns contos. Desses poemas, Ruy Galvão de Carvalho incluiu nove na Antologia Poética dos Açores e sobre a autora escreveu: «[...] neste género literário [o soneto] temos de confessar que a poetisa faialense é geralmente feliz, vazando em forma trabalhada à moda dos poetas parnasianos, todo o lirismo da sua alma idealista e nostálgica». Em 1965, foi galardoada com as insígnias de Cavaleiro da Ordem de Instrução Pública.

Obra:  Saudade, (prefácio de Rui Galvão de Carvalho).

 

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 00:40

AFETUOSO

Domingo, 08.02.15

M 58 – “AFETUOSO”

 

ENTRADA

Canapés de bolacha Cream Crakers com recheio de carne de peru alternado com creme de queijo fresco

PRATO

Arroz de salmão, cenoura, pimentos e flageoletes, temperado com ervas aromáticas e salsa

SOBREMESA

Maçã e Gelatina de Pêssego

Confeção da Entrada: - Reduzir a puré as sobras de carne assada, juntando salsa e temperos. Barrar as bolachas, alternadamente, com a carne e o creme.

Confeção do prato: - Num tacho, colocar o azeite, o alho e a cebola picados. Deixar alourar e juntar as lascas da cenoura, os pimentos picados e o ramo de salsa picada. Juntar o salmão, os temperos e ervas e a água necessária para a cozedura do arroz e deixar apurar. Adicionar o arroz e envolver. Retificar temperos. Quando o arroz estiver pronto, juntar a restante salsa fresca e deixar repousar 5 a 7 minutos até o arroz terminar de abrir. Servir bem quente e ainda caldoso.

Sobremesa - Tradicional

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publicado por picodavigia2 às 15:50

AS ENGORLADEIRAS

Domingo, 08.02.15

Na Fajã Grande, chamava-se engorladeira a uma espécie de pequeno funil, feito de lata e que servia para encher as linguiças. O tubo ou parte inferior da engorladeira, contrariamente à dos funis, era cilíndrico e, portanto, com a mesma espessura quer na base, quer no cimo, a fim de que a carne por ali enfiada entrasse na tripa com facilidade e sem grande esforço. Por sua vez, a parte superior da engorladeira também não era rigorosamente igual à do funil, uma vez que o seu bordo não era equidistante do buraco da base, isto é, a sua borda não era homogénea, facilitando assim o manuseamento enquanto se enchia e se ia rolando a tripa e calcando a carne dentro desta.

As engorladeiras eram encomendadas ao latoeiro da freguesia, o Antonino de tio Francisco Inácio que as fazia com perfeição, embora do seu fabrico não resultasse grande negócio, uma vez que elas, usadas duas ou três vezes por ano, tinham uma longa duração.

Em todas as casas havia engorladeiras que eram usadas por altura das matanças, no dia de encher as linguiças, trabalho, habitualmente, destinado às mulheres. No entanto, na maioria dos casos, o número de engorladeias que cada família possuía não era suficiente, pelo que se pediam emprestadas aos amigos, vizinhos ou parentes, sempre solícitos e emprestar e ajudar.

O estranho nome dado a este útil e interessante utensílio doméstico poderá muito bem, estar ligado ao verbo engolir, na sua forma deturpada engorlir, pelo que engorladeiro ou engorladeira, seria aquele ou aquela que engole. No entanto a palavra não se aplicaria a pessoas mas sim a objetos que engoliam ou eram utilizados para engolir. Neste caso, aquela pequena peça era colocada numa das extremidades da tripa (a outra era tapada com um focho falquejado, semelhante aos atuais palitos de madeira) com o objetivo de engolir a carne ou como se dizia encher a linguiça.

Muito interessante era a imaginação dos nossos antepassados a inventar e criar palavras que usavam no seu quotidiano. Engorladeira parece ser patente exclusiva da Fajã Grande, porquanto não vem referida o livro Falares de Outro Arquipélago (Flores e Corvo) de J.M Soares de Barcelos, nem em nenhum dicionário ou enciclopédia. No entanto, na língua portuguesa existe o verbo engorlar que significa cozer mal, deixar encruado. Não parece, no entanto, a julgar pelo seu significado, que tenha a ver com as engorladeiras das linguiças da Fajã Grande. Existe ainda o verbo engorolar que significa mal pronunciado, pronunciado de forma ininteligível e no sentido figurado, uma vez que quem pronuncia mal é porque engole as palavras, significa engolir. Pode, na verdade, ser esta uma outra explicação para origem daquela palavra, só que neste caso seriam engoroladeiras, que mais tarde, muito naturalmente, terão evoluído para engorladeiras, na habitual tendência de simplificar e abreviar as plavras.

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publicado por picodavigia2 às 09:30

MAIO MORNO

Sábado, 07.02.15

Não havia nas redondezas mulher mais esbelta e perfeita. Uma brasa! Aspergia amor, bondade e encanto, à mistura com um pouco de melancolia e amargura. Uma doce harmonia! A rapaziada do lugarejo ajoelhava-se à sua passagem, ao vê-la, os pássaros entoavam cantos mais alegres, o mar, toldado, a marulhar contra os rochedos, ao senti-la quedava-se e até a lua parecia ficar de sentinela a noite inteira, à sua espera, somente, para iluminá-la. Altiva e sublime, desenvolta e graciosa parecia que se ufanava-se do enlevo que sabia movimentar-se ao seu redor. Um hino à natureza!

Do rosto, aparentemente, amargo, transpareciam uns olhos grandes e envergonhados, uma boca rasgada, um sorriso inibido e um ar crespado. O cabelo caia-lhe espesso sobre a tez, cobrindo-a, parcialmente. Revelava, contudo, uma serenidade de costumes, uma ousadia de deslumbramento, um certo ar de menina inocente e pura.

E dela mais nada sabia o Crespo, a não ser que todas as tardes ia buscar os filhos ao infantário, aos sábados de manhã frequentava o mercado de fruta e, de vez em quando, visitava uma amiga que morava numa rua, junto da igreja. Nem o nome. Por isso e como o seu semblante lhe trazia à memória uma velha amiga de juventude, alcunhara-a com o mesmo nome – Cassilda.

E a apócrifa Cassilda, num ápice, tornou-se a senhora do seu destino, a dona do seu pensamento, a destruidora da sua quietude. Turvava-se-lhe o espírito quando a encontrava, palpitava-lhe o coração quando a via, desmaiava de deslumbramento quando a sentia perto de si. Os encontros que, intencionalmente, programava e premeditava, apesar de parcos e momentâneos, pareciam eternizarem-se. Persistente e sonhador, imperava-lhe na mente que um deles, um dia, havia de transformar-se em momento diálogo. Havia de arranjar maneira de meter conversa, de se envolver em partilha de sentimentos. A sua vontade era ouvi-la, o seu desejo escutá-la, saborear-lhe a presença, numa troca recíproca de emoções. Uma única palavra que fosse…

Foi num sábado, no mercado. Esperou que ela aviasse as compras. Seguia, atentamente, os seus passos, acompanhava os seus movimentos. Estava prevenido para o assalto. Uma lata de salsichas bastava para lhe ir no encalce, na caixa. Mal ela se posicionou na fila, à espera de vez, ele atrás, imediatamente atrás. Tão atrás que, com a mão esquerda, roçou-lhe, levemente, as costas. Sentiu um arrepio. Parecia que um raio lhe entrara pelo corpo dentro. Ela sentindo-o, voltou-se e sorriu, suavemente. Ele pediu desculpa e, juntando à socapa um pacote de café que ficara por ali, aproveitou:

- Isto não é seu?

Que não, que não era dela. Agradeceu-lhe com um novo sorriso e saiu apressada. Bem lhe apetecia atirar a lata de salsichas para os quintos dos infernos e correr atrás dela, segui-la até a casa. Ao menos saberia onde morava. Mas o quê!? A mocita da caixa demorou uma eternidade e ela desapareceu.

Foi uma tarde de setembro que a trouxe de volta. Chovia como Deus a dava. Quando o Semedo, displicentemente, entrava no café da Praça, deu de caras com ela, sozinha. Melhor oportunidade não lhe poderia ser oferecida. Ajustou-se na mesa ao lado, de forma que a visse e que fosse visto por ela. Por onde começar. Hesitou e voltou a hesitar. Por fim, prevendo que ela estava prestes a levantar-se, disparou ao acaso:

– São horas de ir buscar os filhotes?!

Ela, simplesmente, assentiu com a cabeça, levantou-se e saiu deixando, em cima da mesa, a chávena vazia e, ao lado, uma moeda. Apeteceu-lhe pegar na chávena, lambê-la… mas o empregado chegou primeiro.

Enquanto ela ali estivera, observara-a minuciosamente. Parecia-lhe uma mulher triste, talvez sofredora. O marido, ou lá com quem vivia, sim porque se tinha filhos alguém lhos havia feito, devia ser um perfeito crápula, um misantropo, uma palerma de alta qualidade, pois nunca a acompanhava. Sempre sozinha, como se não tivesse ninguém. Depois aquele ar amargo, talvez mesmo triste, aquela aparente solidão, aquele constante olhar para algo perdido. Tudo o confundia e atormentava.

E foi no auge de um sacrílego tormento que o Semedo despertou. Raios! Havia de a encontrar um dia, de estabelecer conversa, de lhe dizer tudo o que lhe ia na alma, do que sentia por ela, de quanto a amava…

Passaram, dias e meses. Nada! Ela sempre sozinha, sempre de ar triste e acabrunhado, a resplandecer beleza e graciosidade. O Semedo a desfazer-se entre programações de encontros, passagens por onde cuidava que ela andaria, tentativas, na maioria frustradas, de se deparar com ela, no mercado, à saída do colégio, na rua da igreja. Falas mansas e parcas e uma chusma de desejos, uma avalanche de sonhos. Mas nada. Apenas, de vez em quando, a via. Ela sempre igual. Atirava-lhe um sorriso, um bom dia, umas falas mansas, umas frases curtas. Diálogos de ocasião. Nada mais para além da frustração e do desespero com que voltava a revestir-se. Despejava tantos esforços em vão, o Semedo.

E foi num maio morno, chuvoso, sem flores e sem alegria. Num maio tolo, desalmado, despido de sol, daqueles que não deixam saudades. Ele, mais uma vez no mercado de sábado, emerso num enorme eirado de esperança. Desesperado. Num desassossego desestabilizador. Vem? Não vem? Talvez viesse…

E veio. Ao lado um gorila, barbudo, tinhoso, pançudo e ascoso. Um bicho do mato. O mundo nunca parira tal monstruosidade. Um espantalho de tentilhões ao seu lado era um príncipe. Tivesse vergonha, o tratante, de se por ao lado de tamanha beldade. Apetecia-lhe ir aos queixos, partir-lhe o focinho, pôr-lhe a cara num coicel. Mas o pior é que ela, a apócrifa Cassilda, parecia que andava vidradinha no estafermo. Tudo segredos, tudo sorrisos, tudo alegria. O pulha tinha-a enfeitiçado. Tantas loas lhe cantara, o safardana, tantas juras lhe fizera, o mariola, tantas promessas vãs, tantas aldrabices e outras tantas mentiras e a pobre caíra como uma papalva nas garras do infame. Ela, uma virgem inocente e bela. Ele um canalha asqueroso e perverso.

Saiu desolado, o Semedo. Aguardou que eles também saíssem, na tentativa de os seguir. Mas, no emaranhado dos vultos que entravam e saíam, perdeu-lhes o rastro. Que fossem para os quintos dos infernos. Ela também. Como enfrentava dia e noite um mostrengo daqueles? Como fora embrenhar-se com um cara de cu daqueles. Um turbilhão imenso de revolta assapava-lhe o pensamento. Desfazia-o. Aniquilava-o. Não podia fazer nada.

Calou-se muito calado, virou-lhes as costas. Dois meses depois, revoltado, partiu para a América.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:40

DÍVIDAS E PROMESSAS

Sexta-feira, 06.02.15

“Ao rico não devas ao pobre não prometas.”

Mais um interessante adágio muito usado na Fajã Grande, sob a forma de conselho. No entanto não se pode considerar como exclusivo da freguesia, da ilha ou do arquipélago, sendo muito utilizado em todas as regiões do país e até no Brasil. Como muitos outros, este provérbio terá sido trazido para a Fajã Grande pelos primeiros povoadores. Com ele pretendia-se alertar os que nos eram próximos para o risco que era ficar a dever a quem tem muito. Na verdade as dívidas submetem os pobres aos ricos e, por vezes, quase os tornam escravos. Prometer aos pobres também não parecia ser muito aconselhável, pois a promessa exigia o cumprimento e a consequente sujeição a quem nunca poderia devolver o emprestado, pois fazia parte da honra de qualquer fajãgrandense honrar as promessas. A confiança que os outros depositavam em cada um de nós dependia, necessariamente das promessas e do seu cumprimento assim como da fidelidade aos contratos estabelecidos. Na Fajã Grande a confiança nos outros construía-se através não só da disponibilidade que as pessoas tinham para fazer promessas mas também e sobretudo da capacidade que tinham para as cumprir. A melhor maneira de destruirmos a nossa imagem e arruinarmos o nosso relacionamento com os outros é não pagar as dívidas ou não cumprir as promessas.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:40

COMO UMA DEUSA

Quinta-feira, 05.02.15

Quando entrou na sala, pela primeira vez, ostentava um modelo de perfil, aparentemente, austero, ríspido e altivo mas ornava-se duma beleza estonteadora, duma elegância deslumbrante e dum porte gracioso. Uma deusa a substituí-la não se manifestaria com maior esplendor.

Lúcia era uma bela mulher. Tinha um corpo perfeito e esbelto, um olhar profundo e comunicativo, um sorriso terno e mavioso, uma postura nobre e fascinante, embora se adivinhasse nas suas atitudes e nos seus gestos uma estranha e desconcertante melancolia.

Nascera numa família muito modesta onde nem pai nem mãe foram alfabetizados. Apesar de tudo, olharam sempre de bom grado para a ambição da filha em querer estudar e haviam-se empenhado, com excessivo zelo, na sua formação, proporcionando-lhe a obtenção de um curso universitário. Ela reconhecia o sacrifício dos pais e ficara-lhes imensamente grata, mas optara por abandoná-los, emancipando-se ainda muito nova. Eles não compreenderam e, pior, nunca lhe perdoaram esse devaneio. Consideravam que a sua obrigação era ajudá-los e ampará-los, agora que o rolar dos anos lhes pesava, perene em achaques e maleitas. Na Universidade, Lúcia conheceu Rodrigo, filho de um poderoso industrial. O rapaz pouco se interessava por estudar e cedo se empenhou na senda empresarial do progenitor. Foi um namoro longo e prolongado, com avanços e recuos. Por fim e depois de muita hesitação, casaram. Lúcia tornou-se rica, passou a viver numa bela vivenda, com todo o conforto com que sempre sonhara. Mas não amava Rodrigo, de verdade. Empenhava-se, melancolicamente, no sacrifício de um amor parco que tinha como recompensa o excesso de conforto quotidiano em que vegetava. Na verdade, para ela, as excelentes condições de vida que o marido lhe proporcionava, justificavam uma aceitação, mesmo amarga, daquele casamento.

Na escola onde agora lecionava todos a respeitavam, porque a todos cativava. Mas era o Silveira, o colega que a recebera e acompanhara desde o primeiro dia em que ali chegara, que mais lhes despertava a atenção. Era uma amizade, verdadeira, transparente e desinteressada, pese embora já tivesse percebido que o Silveira não se ficava só pela simples amizade. Sabia muito bem que ele a apreciava de forma desmedida e exorbitante, cativado e encantado pela sua beleza. Isso lisonjeava-a. No primeiro dia em que a vira, solitária, sentada num banco, de perna elegantemente alçada, fora sentar-se junto dela. Deslumbrado e sem saber como iniciar o diálogo saiu-se com esta:

- É dos Açores? Disseram-me que estava cá colocada, este ano, uma colega açoriana.

Ela, percebendo a marosca, abanou a cabeça com um sorriso e ele, pedindo desculpa fez simulada intenção de afastar-se. Ela que nada havia a desculpar. Podia ficar e sentar-se à vontade. Foi um tempo deslumbrante para o Silveira, o que se seguiu. Ela a procurar a aproximar-se em cada hora e em cada momento, a jurar que fora o único que se aproximara no primeiro dia, que a recebera com amizade, que lhe dedicara um momento de carinho. Nunca havia de o esquecer. Ele deslumbrado e embevecido.

E, no fim do ano foi com muita satisfação que ele soube que ela continuava na escola. Dobrado um agosto dolente, um verão de saudades, a escola era um mar de serenidade e consolo. Mudara-se tudo. Uma colega nova havia de se lhes juntar. Três! Uma amizade, profunda e verdadeira, a delas. E o Silveira sempre, babado, embevecido, a acompanhá-las para aqui e para acolá. Muito de conversas, muito de segredos. Agora, porém, mais afastado da Lúcia. Era forçado a partilhá-la. E ela, de dia vpara dia, a emaranhar-se mais e mais com a nova amiga.

Foi num dia primaveril, cheio de sol e bonança, que a Lúcia faltou. Há dias que a ideia de faltar lhe obcecava o espírito. Avisara os amigos do tiro. Nem um nem outro estranhou. Era normal. O marido ausente no estrangeiro há quase um mês. A abarrotar de saudades, ia esperá-lo ao aeroporto. Quis o destino que amiga recebesse um telefone do marido. Também ele estava no aeroporto, juntamente com a Lúcia. Se não estranho pelo menos curioso. Decidiu pôr-se à alerta. Recorreu à própria memória, onde não foi difícil relembrar meia dúzia de episódios, aparentemente normais, mas sub-repticiamente comprometedores para lhe demonstrar que ali havia gato. Oh! Se havia. E num ápice despejou todas as suas dúvidas e suspeitas sobre o Silveira. Ele que não. A Lúcia era senhora de uma nobreza de carácter, de uma dignidade de costumes que nunca havia de trair, de forma tão vil, uma amiga. Mas do Silveira, cada vez mais embeiçado por ela, tudo menos mexer-lhe na honra. Enfeitiçado, não via um boi! Destemida e arrojada tornou-se mais astuciosa. Simulou conversas, proporcionou escorregadelas, desvendou enigmas. Nada lhe escapava. Dormia de caçadeira encostada ao travesseiro. Era claro como água. Estavam envolvidos e desde há muito. Hesitou! Como havia de proceder? Senhora dos seus passos, seria fácil apanhá-los em flagrante. Mas isso nunca. Preferiu a alternativa de alargar os olhos a outros recursos Somente aquém do aceitável, não do humilhante, do indigno e muito menos do arruaceiro. De resto, não se sentia já com força anímica para grandes façanhas que lhe atribuíssem o galardão de vítima. Optou por confrontá-los, num encontro a três. O Silveira ainda se ofereceu para estar presente, na qualidade de amigo e confidente de ambas. Seria o mediador. Nem pensar. Uma coisa é a amizade outra as questões com terceiros.

Apertados por terrível arrocho, confessaram. Primeiro ele. Canalha! Ela ainda teve a distinta lata de lhe atirar à cara o seu relacionamento com o Silveira. Mas aquilo era uma ignomínia. O Silveira não era para ali chamado. Depois as desculpas do costume. Nada. Não havia nada! Não era o que ela pensava. Mas como arrocho se avolumasse e o marido começasse a descoser-se cada vez mais, ela começou a meter os pés pelas mãos, a definhar. Mas num impulso final reergueu-se e ressuscitada, imponente e arrogante confessou. Tudo acontecera muito rápido e quando lhe quis confessar, já era tarde. Agora que se aviesse. Seriam um para o outro.

Embrulhada num manto de tristeza, veio de novo aninhar-se junto ao Silveira e despejar-lhe quanto ódio lhe ia na alma. Não tanto pelo marido, um pulha, já não novato em semelhantes proezas. Ela sim, a amiga que a enganara. Era dela que sofria a maior ofensa da sua vida. E ele, o Silveira, havia de cuidar-se…

Mas não se cuidou o Silveira. No seu íntimo, estranhamente, continuava a ver a Lúcia como a amiga de sempre, como uma deusa que deveria adorar. À medida que ia pondo na balança as justificações dos seus desejos contra uma traição a que era alheio, o Silveira via a mesma Lúcia que vira pela primeira vez, senhora dum corpo perfeito esbelto, dum olhar profundo e comunicativo, dum sorriso terno e mavioso, dona de uma postura nobre fascinante. Uma espécie de deusa que ostentava um perfil austero, ríspido e altivo e que, permanentemente, se ornava duma beleza perturbante, duma elegância aliciante e dum porte gracioso.

- Como uma deusa!...

 

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publicado por picodavigia2 às 00:44

OS MONTES DA LUA

Quarta-feira, 04.02.15

Uma interessante estória, contada aos serões, na Fajã Grande, na década de cinquenta, sobre as manchas que se veem na lua quando cheia era a seguinte:

Havia um homem muito descrente, que não temia a Deus, nem obedecia aos seus mandamentos, nem respeitava as leis da Santa Madre Igreja, por isso, às escondidas, trabalhava aos domingos como se de outro dia se tratasse.

Num certo domingo, resolveu ir roçar umas silvas que cresciam numa relva que possuía no mato. Era longe do povoado e ninguém havia de vê-lo. Apesar de alguns amigos e vizinhos, ao verem-no de machado ao ombro e foice na mão, lhe lembrarem que o domingo era um dia consagrado ao Senhor, durante o qual não se deviam fazer trabalhos pesados, o homem, fazendo ouvidos de mouco, lá foi, pois entendia que aquele era o dia ideal para cortar o silvado da sua relva, pois nos dias seguintes, agradavam-no muitos outros trabalhos. Além disso, o seu terreno ficava num barroco, longe dos olhares mais reprovadores do povo. Ninguém o veria a cortar silvado. E se assim pensou melhor o fez.

Enquanto roçava as malvadas silvas, apareceu-lhe um estranho que lhe perguntou:

- Que fazes aqui ao domingo?

O homem respondeu que roçava umas silvas e que não havia qualquer problema, pois ali ninguém o via a trabalhar em "dia santificado".

- Pois agora - respondeu o estranho - vais para um sítio onde todos te vão ver, enquanto o mundo for mundo!

Então, como castigo, aquele homem foi colocado na lua onde ainda hoje se pode ver, dedicando-se a roçar as silvas, formando, a sua imagem aquela espécie de montes que se observam da Terra.

Aquele "homem estranho" era afinal Nosso Senhor que andava pelo mundo e que assim castigou o homem que roçava silvas ao domingo.

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publicado por picodavigia2 às 10:02

A LIÇÃO DO SILÊNCIO

Terça-feira, 03.02.15

Início de mais um ano lectivo. Turma A. Cerca de trinta alunos irrequietos e barulhentos entram, de rompante, pela sala dentro e acomodam-se ao deus dará, arrastando mesas e carteiras, colocando a sala em polvorosa

Interrogo-me de como serei capaz amansar aquele irrequieto batalhão, de como poderei aquietar aquela chusma de rebeldes. Grito, não grito? Berro não berro? O barulho aumenta, assustadoramente, a cada momento e a confusão impera, sem limites. Há lutas por lugares, empurrões por querer ficar junto à janela, atropelos para ficar à frente e choramingas por não se conseguir o lugar almejado. Há um barulho terrível, gritos ensurdecedores. Penso melhor no que vou fazer, na forma ideal e perfeita de por cobro a tão aberrante agitação e cuido que só há uma forma de desfazer, com eficiência, o turbilhão que, à minha frente, se avoluma a cada momento.

Coloco-me em pé e em silêncio absoluto, de braços cruzados, no meio da sala, a olhar para eles com uma atenção desmesurada e um cuidado excessivo. Permaneço assim, somente a olhá-los com o rigor duma primorosa e condenatória observação.

Não demora muito, um deles, um dos mais calmos e atentos, olha para mim muito admirado e logo faz sinal a um colega. Toca-lhe no braço e, com um gesto de rosto, aponta para mim. Ele cala-se, sossega e senta-se. O colega a quem ele tocara no ombro segue o seu exemplo. São menos dois a fazer barulho. Pouco depois, o primeiro aluno, voltando a encarar comigo, resolve fazer o mesmo com um terceiro colega. O outro que já se aquietara imita-o. Já são quatro os que desembraveceram. Depois mais dois e outros dois. O barulho diminui lentamente e a confusão de decresce, aos poucos. Eu não desarmo. Permaneço igual, parado, de olhar atento, concentrada no que observo. Como pedras de dominó, que vão caindo à medida que umas tocam nas outras, eles também se vão tocando uns nos outros, calando e sossegando, sucessivamente. Metade da turma já tomou consciência da sua atitude incorreta. Corrigiu-se. Agora os que se apaziguaram avisam os outros. A estratégia é sempre a mesma: tocam-se, apontam, olham, tomam consciência do descalabro em que navegam e, por fim, calam-se, pacificam-se. Agora são apenas três que ainda se inquietam e fazem barulho. A maioria recrimina-os, avisa-os, incentiva-os a se acomodarem. Eles apercebem-se do que fazem. Finalmente, apenas, dois que, um pouco envergonhados, parecem não querer dar o braço a torcer. De seguida, pasmam, sem perceber muito bem o que se passa. Permaneço em silêncio, de braços cruzados, em pé no meio da sala, a olhar para eles. Eles, os dois retardatários, por fim, também resolvem aquietar-se. Agora há um silêncio absoluto e total na sala. Trinta alunos! Todos sentados à minha frente, silenciosos, atentos, a olhar para mim.

Eu, finalmente, quebro o silêncio:

- Bom dia!

Em uníssono, com dignidade e aprumo, embora em alta gritaria, respondem:

- Bom dia, senhor professor.

Senti, então, que esta tinha sido a minha primeira grande lição, a lição do silêncio.

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publicado por picodavigia2 às 10:06

QUEM VAI AO AR...

Segunda-feira, 02.02.15

Uma das brincadeiras, embora não muito frequentes, com que as crianças, na Fajã Grande se ocupavam, na década de cinquenta, era a de Quem vai ao ar perde o lugar. O temo era muito e a maneira de o ocupar deveria ser o mais variada possível. Quando não se trabalhava brincava-se.

As crianças que pretendiam participar nesta brincadeira formavam uma roda, mas ficavam viradas para fora, costas para o interior e juntas umas das outras, ombro a ombro. Deviam estar muito atentas pois o jogo exigia rapidez de ação. Uma criança começava a andar ao redor roda. Quando bem entendia batia, de leve, no ombro de um dos que formavam a roda, dizendo:

 - “Quem vai ao ar, perde o lugar”!

Depois de dizer estas palavras iniciava uma corrida rápida, na mesma direção em que estava caminhando. A outra criança que fora tocada começava a correr na direção oposta. Se a criança que, inicialmente, estava fora da roda chegasse primeiro ao lugar daquela que tocou, substituía-a na roda, passando a outra a ficar de fora. Ao contrário, se fosse a outra criança a chegar primeiro ao lugar, permanecia na roda, enquanto a outra continuava a correr, fora da roda e havia de tocar numa outra criança, ou até na mesma, se assim o entendesse, até conseguir ocupar um lugar vago na roda.

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publicado por picodavigia2 às 10:54


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