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SUPLÍCIO

Sexta-feira, 20.02.15

Era no café. Único no bairro. Por volta da uma e meia, que ela entrava para o serviço às duas menos dez. Todos os dias. Nunca falhava. À hora habitual, lá estava. Entrava, serena, solitária e deslumbrante. Olhava ao redor e sentava-se. Sempre na mesma mesa. Lá ao fundo, de onde, sem se movimentar, observava todas as outras mesas, de modo muito especial, a que ficava defronte da janela, onde ele se sentava. Também todos os dias. Também à mesma hora. Também sempre na mesma mesa. Também de modo a observar todas as outras mesas, de modo muito especial aquela lá ao fundo, do lado oposto, onde ela se sentava.

Sem se conhecerem e, sequer, sem se aperceberem, quando menos esperavam, estavam a olhar um para o outro. No início, um olhar de relance. Apenas olhavam, distraidamente, ou talvez não. Quando perceberam que olhavam um para o outro com maior insistência, quando sentiram que os seus olhos se cruzavam e continham uma inebriante e profunda mensagem, ela começou a desviar o olhar. Mas apenas e somente quando se apercebia que ele estava a olhar para ela. Quando ele se distraía ou quando de propósito desviava o olhar, ela, de imediato, voltava a fixá-lo. Passados alguns dias, semanas, talvez meses, perderam o pejo. Ela começou a olhar para ele, subtilmente. Ele para ela, descaradamente. O tempo a correr e o que inicialmente era um simples olhar, a transformar-se num tremendo fascínio. Recíproco. Delirantemente sublime. Do fascínio à paixão foi um triz! Sólida e gigantesca paixão. Amavam-se. Não havia dúvida. O café a arrefecer sobre a mesa, o açúcar a derramar-se fora da chávena, o olhar distante, a fuga simulada dela aos olhares desejados dele, a persistência dele em olhar para a ela, a inquietação e o sufoco de ambos quando um chegava tarde… Tudo os denunciava. Tudo se refletia numa cumplicidade recíproca. Se ele ainda não chegara ela esperava, ansiosa, quase aflita. Se ela se atrasava, ele empertigava-se, inquietava-se, quase desanimava. Depois, o murmúrio da timidez dela, a denúncia do atrevimento dele. Por fim o diálogo dos olhares. Sempre o diálogo dos olhares. O dela, levemente, esperançoso, o dele, exageradamente, reconfortante. Afinal, apesar de afastados, distantes, dispersos, estavam muito perto. Unidos. Só o amplo e, por vezes, vazio, espaço do café e os sorrisos maliciosos do empregado os separava. Detestável, o muro plantado à sua frente.

Ela era nova. Ele andaria nos quarenta. Ela era bela, suave, elegante e, aparentemente, tímida. Ele forte, alegre destemido e, exageradamente, expansivo. A sua íntima inquietação perturbava-os e a sua inconformada incerteza confundia-os. Entendiam-se um ao outro sem se ouvirem. Ouviam-se um ao outro sem falarem. Falavam sem palavras, sem murmúrios, sem silêncio. Falavam sem falar. Ouviam sem ouvir. Entendiam-se de verdade. Cresciam-lhes na alma sentimentos verdadeiros, puros, profundos. Sonhavam com o encanto duma palavra, com a sublimidade dum encontro, com o enlevo duma entrega, com a ternura de um abraço, quiçá com a magia de um beijo. E no entanto, nada mais do que aquilo. Aquele inquebrantável cristal de gelo, E o tempo de cada café, porque nada mais havia para além duma chávena de café, a evaporar-se, rápido e fulgurante, como um raio ou uma rajada de vento. Nenhum tivera a ousadia de se levantar, de se dirigir e de se aproximar da mesa do outro. Ele, amofinado de angústia, a despejar desejos. Ela aureolada de timidez, a esmiuçar anseios. Profundamente enleados. Cada um no seu canto.

E assim permaneceram, dias, semanas, meses, talvez mais de um ano. Conservando-se distantes, mas muito pertos, silenciosos mas ouvindo-se reciprocamente, hesitantes mas envolvendo-se um ao outro. Em comunhão plena. Passava-lhes pelos olhos um relâmpago de magia. Entonteciam sob a chama da esperança. Colavam-se um ao outro, como se a razão da sua proximidade fosse verdadeira e a condescendência dos seus destinos vindoura.

Um dia, sobre ele desabou um desânimo brutal Uma temporal terrível! Uma catástrofe descomunal! Ela, simplesmente, não apareceu. Um dia, dois dias, três dias. Muitos dias. Desolador. Ele quase feneceu, definhou mesmo. Pior. Não havia forma de reagir. Começou a miná-lo uma angústia profunda, desoladora, mortal. A tristeza em que jazia e a loucura em que se emaranhara minavam-lhe o peito, retiravam-lhe as forças, outorgavam-lhe um desânimo telúrico, uma inquietação demolidora. Passava os dias deitado numa relutância bastarda, numa indefinição tremedal, numa obstrução plena do encanto, da solicitude e da esperança, em que navegara, nos tempos em que se sentava na mesa do café, junto à janela.

Foi uma amiga de sempre, obcecada pelo infortúnio, que veio romper tão opaca frouxidão. Referia-se a ela como se a conhecesse de sempre e em plenitude:

- Uma cabra! Uma sem vergonha. Meteu-se com o patrão e destruiu-lhe a família.

Destruida, desfeita, vingava-se, com injúrias, aleives e difamatórios. Já não lhe bastava ver a sua casa a arder… ateava fogo à de outros. Ele, num sufoco, quase perdido, defendeu-a. Impossível. Continuava a ouvir a megera como se as palavras lhe furassem a carne como farpas pontiagudas. A recalcada insistia com palavras cada vez mais frias, carregadas de ódio e de desprezo. Mas há muito que lhe olvidara a voz. Só se lembrava da sublimidade dos olhares que ela lhe dirigia no café. Depois afastou-se, a tentar esquecer tudo quanto, na sua amargura, a infeliz ali despejara. Nunca acreditaria em tão torpes e vis suspeitas. A ternura daquele olhar sobrepunha-se a tais vitupérios, desfazendo chagas, quebrando as terríveis amarras a que aquela denúncia o tentava prender.

Foi num shopping que algum tempo depois a encontrou. Pálida, macambúzia, olhou para ele e sorriu. Sorriu como nos tempos do café. Mas menos ousada. Esteve quase a aproximar-se, a falar com ela, mas limitou-se a responder-lhe com um acenar de cabeça. Vendo-a de perto pode observá-la a melhor. Era linda! Os olhos acastanhados transbordavam ternura. Os lábios, embora um pouco trémulos, emanavam uma aquiescência sublime. O rosto moreno exalava uma dignidade nobre e dulcificada. O sorriso como sempre. Terno, meigo e comunicativo deixava emergir, mesmo que ela o tentasse impedir, serenidade e alegria.

Mas uma estranha mudança parecia ter-se operado na sua alma. Transparecia-lhe no rosto, misturada com a ternura, uma dolente nostalgia. Estava triste, bastante triste e isso não conseguia disfarçar. Uma dor profunda parecia ter-lhe nascido e estar crescer-lhe no peito. Talvez o arrependimento do erro cometido? Talvez a aceitação pacífica e humilde da injustiça que desabara sobre ela? Talvez a consciência dolente do aviltamento injusto?

Ele não sabia. Pior. O estranho suplício da ignorância havia de desabar-lhe em cima, domando-o, desfazendo-o aniquilando, tornando-o, definitivamente, incapaz de algum dia vir a saber.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:09





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