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MARCAS DO PASSADO

Segunda-feira, 23.02.15

Danila era muito jovem, bonita e decidida nos seus anseios e aspirações. Não vivia acorrentada ao passado mas, também não o esquecia, nem se iludia com a deslumbrante fragrância dos seus sonhos. Acreditava, sim, no futuro. Num futuro que ela própria havia de construir sem olvidar as marcas e os estigmas que o passado lhe deixara. Sabia que nunca havia de eliminar aquele pedaço da sua vida que, no meio de uma ou outra alegria, lhe trouxera tantos dissabores e a carregara de dor, de sofrimento e de sacrifício. Sofrera até à exaustão!

Em pequenina irradiava simpatia e aspergia confiança. Novos e velhos deslumbravam-se a vê-la correr pelas ruelas e veredas, saltitar por muros e barrancos espargindo uma alegria deslumbrante, um contentamento fulgente, um encanto maravilhoso. Cabelos compridos e soltos ao vento, rosto alongado, sorriso mavioso e dois olhos verdes, a brilharem como pérolas. Durante a meninice e a mocidade contagiava de fascínio quantos dela se aproximavam e com ela conviviam. Alta, airosa, corpo elegante e desenvolto, impunha-se pela delicadeza dos seus modos, pela sinceridade das suas palavras, pela honestidade dos seus atos. Qualquer coisa de invulgar a dominava. Qualquer coisa de singelo a possuía. Qualquer coisa de especial a preservava. Cedo se tornou mulher. Bela, atraente, desejada. Além de ser bonita, era alegre, comunicativa, modesta, engraçada no falar. Era também muito sensata e estimada por todos. Ninguém a difamava, ninguém lhe apontava um defeito. Os rapazes olhavam-na com respeito e enlevo. As raparigas com um misto de admiração e inveja.

Contrariando os pais, Danila não quis frequentar a universidade. Ficou-se pelo décimo primeiro incompleto. Cedo enveredou pelo mundo do trabalho. Primeiro numa tipografia, depois, num stand de automóveis e, mais tarde, numa escola de condução., onde conheceu Gervásio, filho do gerente e que ali trabalhava como instrutor. Julgaram-se apaixonados. Daí ao casamento foi um triz. Algum tempo depois uma filha. Linda como a mãe.

Cedo, porém, Danila sentiu a fragilidade da sua harmonia conjugal. A gravidez inesperada obrigara-a, por parte dos pais, a um casamento apressado e pouco solidificado. Gervásio, inacreditavelmente, não só mantinha como até cultivava todos os vícios e leviandades de solteiro. E não eram poucos. Saídas noturnas, dormidas fora de casa, gastos excessivos em festas, farras e noitadas. Tinha direito a divertir-se, cuidava ele. Ela em casa com a filha, noites seguidas. Muitas vezes lavada em lágrimas. Ele na boémia. Conciliar estas duas formas de vida, simplesmente impossível e inaceitável. Sentia-se ludibriada. Perante o carracismo dele - nem saía de casa nem mudava de vida - foi ela a abandonar o lar. Divórcio litigioso e o tribunal a entregar, a ele e aos pais dele a custódia da filha. Um sufoco. Quase ensandeceu.

Mas o fulgor da sua meninice e o arrojamento da sua juventude haviam de renascer e toldar-lhe de luminosidade a esperança. Ressurgiu de entre lágrimas e estigmas. Sobre os seus erros havia de construir a solidez do seu futuro. Sobre as amargas cicatrizes do passado havia de edificar a nobreza da sua dignidade. Depois de muita luta o tribunal aumentou-lhe o tempo em que lhe era permitido ter consigo a filha e, mais tarde, outorgou-lhe, por completo a sua custódia. Vencera! Alugou casa, conseguiu novo emprego, comprou carro e, o mais importante de tudo, reencontrou André.

Desde há muito que se conheciam. Muitas vezes passava em frente ao stand onde ela trabalhava. Olhavam-se e admiravam-se, sem falarem. Ele, mais audacioso, um dia decidiu entrar. Aproveitou a companhia de um amigo que comprara um Ford. Havia também de comprar um. Não sabia quando. Falaram, conversaram, riram e ficaram amigos. A partir de então, muitas vezes, ao passar em frente ao stand, entrava, conversavam, riam e sonhavam. Num dia de forte chuvada, ela encontrou-o pelo caminho. Parou, deu-lhe boleia e levou-o a casa.

Passado algum tempo, no entanto, deixou de a ver. Admirado, vezes seguidas, passava em frente ao stand. Mas nada. Um dia, dois dias, muitos dias. Entrou a informar-se. Que já não trabalhava ali. Arranjara um lugar na Bom Condutor.

Foram meses a atravessar o deserto. Finalmente quebrou-se o silêncio. Quando soube que ela casara com aquele tratante, o filho do dono da escola, sufocou. Sentia-se culpado sem ter culpa. Ela, aparentemente, colocara uma tremenda ilusão sobre a sua dignidade. Novamente um deserto. Agora mais doloso e sem oásis. Via-a apenas de longe. Acompanhava-lhe o destino. Inicialmente parecia que enlouquecera de felicidade. Não demorou muito o êxtase do vigor inicial. Aos poucos começou a derrocada. Ele, Gervásio para um lado, ela, Danila para o outro. Não andavam juntos, não saiam juntos. Parecia que nem se falavam. Percebia-se que o fosso aumentava. Substancialmente. E de que maneira. E André, inadvertidamente, sentiu uma pequena alegria, uma espécie de vitória, quando, ao fim de quatro anos, soube que aquela imprudente loucura abortara. Que o castelo que ela imprudentemente construíra, se desmoronara. Estavam, finalmente, separados. Mais tarde arrependeu-se. Quando a encontrou ferida, desfeita, trucidada por uma solidão tremenda. Tentou redimir-se, adocicando-lhe as marcas terrivelmente destruidoras que esse passado horroroso lhe deixou. O sofrimento dela comoveu-o e galvanizou-o numa exagerada tentativa de lhe prestar ajuda. Mas era tarde, muito tarde. O sofrimento dela não era só de lágrimas As marcas da dor calejaram-na e deram-lhe força, coragem e discernimento. Sobretudo discernimento. Agora era senhora do precioso dom de escolher, de aceitar, mas também de recusar, de dizer não. Tornara-se insensível. Mas também lhe haviam ressurgido forças que a faziam ser ela própria. Só amizade. André era simpático, atraente, bom companheiro, mas simplesmente só podia ser amigo. Ele insistia. Ela contrariava. As razões que apresentava eram sempre as mesmas: as terríveis marcas que os quatro anos de casada lhe haviam deixado. As marcas. Sempre as marcas. Aquelas terríveis marcas entravam-lhe pelos ouvidos dentro, destruindo-lhe os sonhos. Aniquilando o amor que sentia por ela.

Danila, porém, nunca soube da grandiosidade desse amor. Nunca o percebeu. Aquelas terríveis marcas do passado haviam-na impedido. Para sempre.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:20





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