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BONITEZA

Segunda-feira, 02.03.15

“Boniteza não põe mesa.”

Era um douto adágio este, cujo objetivo principal, ao ser utilizado, era combater a vaidade. Era geralmente utlizado quando alguém, direta ou indiretamente, se ufanava da sua beleza descuidando os aspetos práticos da vida, nomeadamente o trabalho do qual dependia a subsistência de cada pessoa

Este provérbio é universal, no entanto na Fajã Grande teria uma versão um pouco diferente da que acima se refere. Assim em vez do comum "A beleza não põe mesa" substitui-se beleza por boniteza, o que é bastante semelhante, uma vez que da mesma forma se condena uma espécie de padrão de beleza não-produtiva. A boniteza não pode ser encarada apenas como algo que a pessoa quer ter apenas por gostar, como algo de fútil e, sobretudo, improdutivo, algo que é agradável de se possuir mas não supre qualquer necessidade básica humana, como, por exemplo, a comida.

Com este provérbio pretendia-se, pois, alertar para que não nos devemos centrar na beleza, na aparência como valores primordiais, porque são supérfluos e vazios, destacando a sua inutilidade como fonte de vida e de saúde. Por sua vez, e em detrimento da beleza, a alimentação ganha destaque como elemento essencial à sobrevivência, à saúde, à energia e ao bem-estar. É verdade que a beleza atrai bastante e pode até te dar alguma vantagem sobre outros aspetos da vida, mas são as qualidades e a personalidade humana que definem a dignidade de um homem ou mulher. A boniteza é superficial, apesar de gostosa, mas não é fundamental, nem define a qualidade o ser humano.

 

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publicado por picodavigia2 às 07:26

DAR A VOLTA

Segunda-feira, 02.03.15

No início de um novo ano lectivo, logo na primeira aula, entrou-me pela sala dentro uma aluna já espigadote, com ar displicente, revelando desinteressada motivação, mas bonita, elegante e sedutora, que depois de dar de caras comigo e de se sentar numa carteira vaga, sussurrou, indignada, para a colega do lado:

- Não me faltava mais nada! Eu a cuidar que havia de ter um professor novo, jeitoso, um borrachão…e sai-me este velho, careca, com ar de chato! Em má hora vim para esta turma e, além disso, detesto Português…

A outra encolheu os ombros e, talvez desconfiando que eu tivesse ouvido o repulsivo elogio, sorriu docemente, como que a implorar que a perdoasse, enquanto a primeira, a que se havia indignado com a minha figura, continuava, displicente, alheada de tudo, olhando o infinito, através de uma das janelas, como se nada tivesse acontecido.

Foram feitas as apresentações, estabeleceu-se um diálogo interessante e de seguida apresentei, sucintamente, o que seriam as minhas aulas, insinuando que, mais do que um professor pretendia ser um amigo, uma espécie de colega mais velho, que talvez soubesse mais algumas coisas do que eles, fazendo-os sentir que eles, alunos também sabiam muitas coisas que eu não sabia e que o interessante seria partilhá-las uns com os outros. Pedi-lhes que viessem sempre alegres e que cada aula se transformasse num momento de felicidade e de prazer para eles e para mim.

E as aulas continuaram, de acordo com a metodologia que desde há alguns anos adotara e que privilegiava o trabalho de grupo, a colaboração e a partilha de saberes. Para isso organizei em blocos os conteúdos da disciplina que lecionava, Língua Portuguesa. Os blocos, com duração variável, eram constituídos por vários tempos letivos, na altura de noventa minutos cada, nos quais programava e realizava, primeiro a apresentação do programa das atividades que havíamos de realizar no bloco e expunha de forma clara que incluía registos por parte dos alunos de novos conteúdos, de novos métodos ou técnicas de trabalho. Esta era, segundo lhes dizia, a minha parte. A segunda seria a deles, pois nela cada grupo realizava os vários tipos de trabalhos que lhe eram propostas e que se relacionavam sempre com os conteúdos que lhes havia apresentado. Por fim, havia uma terceira parte, que eu apelidava de nossa e que consistia na apresentação, à turma, dos trabalhos realizados por cada grupo. Claro que não podia descuidar a criação de instrumentos de avaliação, entre os quais e realização de uma para toda a turma. No fim, abolindo o rotineiro e maçador sumário de cada aula, e elaborávamos, coletivamente, um sumário gigante, respeitante a todo o bloco. Os grupos eram pequenos, heterogéneos e de livre escolha. Realizámos sete blocos durante o ano, nos quais todos os alunos se empenharam de forma interessada e admiravelmente participativa. As aulas decorriam alegres, felizes e velozes como o vento.

O ano aproximava-se do seu termo. No fim duma aula a Matilde, assim se chamava a aluna que no início do ano, me atirara aquele pouco dignificante piropo, um pouco tímida e hesitante, deixou-se ficar a sós comigo na sala, depois dos outros saíram. Eu sabia do interesse que ela revelara nas minhas aulas, do bom desempenho que tivera e de quanto gostava delas. Dirigindo-se a mim, compulsivamente, atirou-me de chofre:

- Professor, as suas aulas são as de que mais gosto nesta escola e aquelas para as que eu venho mais contente. Também gosto muito de si.

Abracei-a e agradeci-lhe.

Ainda hoje, ao cruzar-se comigo na rua, o que muito raramente acontece, ela vem, com muita alegria cumprimentar-me e dispara:

- O senhor foi o professor de que mais gostei.

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publicado por picodavigia2 às 00:03





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