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RUE LAMARK

Quarta-feira, 18.03.15

O comboio das oito era um caos, uma babel. Carruagens havia onde não cabia mais um cabelo. Nem sardinha dentro de lata. Homens, mulheres, jovens e crianças, uns com destino ao emprego outros à escola, amontoavam-se, apertavam-se, acotovelavam-se, empurravam-se na tentativa de ganhar uma nesga de espaço que lhes permitisse viajar com algum desafogo. Impossível! Ao sufoco e ao congestionamento aliavam-se a indignação e os protestos. Mas nada havia a fazer. Era correr, empurrar, puxar, agarrar, escapulir, na mira de conseguir um lugar, mesmo que fosse de pé, agarrado a um varão ou preso aos barrotes das portas. Em dias de feira tudo piorava. Um martírio, um tormento. As carruagens apinhavam-se e até pareciam rolar mais lentas, carregadas com aquele amontoado de pessoas, a que se juntavam cestos, sacos, malas e muitas outras bugigangas. O comboio deslizava, imerso numa espécie de turbilhão, arrastado, vagaroso, quase morto, a matutar como um imbecil, aos solavancos, sobre os carris, atirando ao ar rolos de fumo enegrecido, intercalados com gemidos roufenhos.

Era na viagem das oito que Eduardo viajava todos os dias. Levantava-se, vestia-se, lavava-se à pressa e corria para a estação na demanda daquele inferno. Um turbilhão a que, com muito custo, se fora habituando. Atrasar-se, impossível. Só de verão havia um pouco mais de espaço e um ou outro assento vago. De resto, aquela inconcebível e hedionda barafunda.

Numa manhã, porém, atrasou-se e deu de chofre com a carruagem em que tentava, a todo o custo viajar, cheia que nem um ovo. A abarrotar pelas costuras. Tentou entrar, sem sucesso. Um valente empurrão e a porta, automática, rígida, implacável, a fechar-se. Trancada a sete ferros! Incapaz de se reabrir. De dentro um sorriso meigo, doce, compreensivo, do tamanho do mundo. Um sorriso de compaixão que lhe veio anestesiar a angústia da perda. Na manhã seguinte apressou-se, esperou na gare e deu de caras com ela, a mulher do sorriso da véspera. Que a desculpasse, que tinha feito o possível e o impossível a fim de que a porta não se fechasse... Esforços inúteis. Nessa manhã, foram dos primeiros a entrar na carruagem da frente. Sentaram-se lado a lado.

Era uma mulher bela! Acompanhava cada frase que proferia com um sorriso de ternura, invulgar e cativante. Chamava-se Isaura, Isaura Nogueira. Fontenelas, por casamento. E para espanto de ambos, trabalhavam no mesmo hospital. Nunca se haviam cruzado, obviamente. Ela fora transferida, uma semana antes, para o Santa Eulália. Trabalhavam em serviços diferentes, mas lado a lado. Regozijaram-se. Haviam não só de viajar juntos mas de conviver em muitos momentos, muitos dias. Todos os dias. Riram como loucos.

No regresso do primeiro dia não viajaram juntos. Mas Isaura não lhe saiu do pensamento. Durante toda a noite. Na manhã seguinte, lá estavam, na gare, bem cedo, à espera um do outro, cumprimentando-se de beijo como se desde há muito se conhecessem e fossem grandes amigos.

Os dias e os meses foram fluindo e consolidando uma amizade sólida, gigantesca e tremendamente deslumbrante. Enquanto aguardavam o comboio, durante as viagens, à hora do almoço, nos momentos de pausa do trabalho. Não havia nada nem ninguém capaz de os separar. Mantinham-se lado a lado, numa comprometedora comunhão de sentimentos, num fascinante partilhar de emoções, num recatado comungar de intimidades. Isaura deslumbrava-se com a pacatez de atitudes dele, com os valores que defendia, com os sentimentos que o domavam. Mas quem mais se empolgava em tão inebriante contubérnio era ele. Admirava-a física e moralmente. Fascinava-se com o elegante perfume do seu corpo, encantava-se com a doçura do seu sorriso, confundia-se com a sua dignidade de mulher, a sua postura, a sua verticalidade, numa palava: ela atraía-o. Avassaladoramente. Isaura era uma mulher de sonho. Um encanto, um deslumbramento. Idolatrava-a. Desejava estar, permanentemente, com ela, sonhava com a sua presença dia e noite, amava-a apaixonadamente. E, em boa verdade, ele também não lhe era indiferente.

Um dia em que saíram mais cedo, rumaram ao shopping mais próximo. Dali a casa dela, um triz. Era um apartamento pequeno, decorado com gosto, ladeado por um exíguo terraço ao lado da cozinha. A sala repleta de fotos. Dos pais, dela, quando criança e quando jovem. Fotos do filho, do casamento e uma, apenas uma, do sacripanta do marido. Homem de negócios e de muitos relacionamentos. Alguns a cravarem-lhe amargos estigmas. A convivência entre eles já passara por melhores momentos. O biltre ausentava-se dias, semanas a fio e, o pior, é que isso já não a incomodava.

Era quase noite quando Eduardo abandonou o apartamento e voltou a casa. Estava feliz mas confuso. Mais. Dominava-o um estranho e duvidoso arrependimento. Fora ingénuo, inseguro, talvez tímido. Podia tê-la abraçado, beijado, possuído. E ela? Rejeitá-lo-ia? Permanecia imerso numa dúvida monumental e tormentosa. Com um crápula daqueles a desprezá-la, talvez até ousasse vingar-se. O facínora tinha cara de cabrão. A cabeça ardia-lhe, atulhada, confusa. Talvez tivesse sido melhor assim. Poupá-la a um leviano atrevimento. A uma ousadia irrefletida. Caso contrário, poderia ter posto termo à enorme amizade que os unia. Desesperado meteu-se no duche e deixou a água escorrer-lhe pelo corpo, reavivando-lhe as estranhas sensações daquela tarde. Embora ela não estivesse ali presente, sentia a fusão íntima dos seus corpos a unirem-se numa sublime-me pulsão. Sem a ter amou-a como se a tivesse. Entregou-se em sonho! Na manhã seguinte, lá estava ela, na gare, à espera dele, com o suave sorriso de sempre, deixando-o imaginar que afinal ela talvez o tivesse possuído da mesma forma como ele a possuíra durante o banho da noite anterior.

Seguiram-se dias de enlevo, empolgantes e resplandecentes. Estar na presença dela, partilhar um momento que fosse, era, para ele, uma sensação algo divina, tal o enorme bem-estar que ambos sentiam, quando se encontravam. Ela também se aventava cada vez mais. Só quando floresceram os primeiros murmúrios entre colegas, ela decidiu aquietar-se, chamando-o para uma conversa séria, fria. Sabia muito bem o que ele sentia por ela. Ele não sabia disfarçar. Mas havia de cuidar-se. Não devia manifestar-se de forma tão contundente e denunciadora. Já se comentava à boca cheia. Haviam de moderar o seu relacionamento. Pulhas! Que não o abandonasse, agora. Inevitavelmente não poderia viver sem ela. Imoral? Mas imoral para quem? Onde estava a imoralidade de ser abalroado por uma avassaladora paixão? Sem ter culpa. Há sentimentos que nos devoram e que não podemos domar. Ela a tentar demovê-lo. Ele num mar de dor e sofrimento.

Dobrado o cabo das tormentas, tudo se reavivou. Apesar dele, nos primeiros dias, muito a custo se encafuar, mais cuidadosa e disfarçadamente, nos meandros daqueles encontros cada vez mais cativantes e envolventes. Mas não conseguiu. Ao fim duma semana, tudo se reavivou e voltou a resplandecer. Meses depois um amigo emprestou-lhes a casa. Não estavam sós. Foi um banho na piscina da luxuosa mansão que permitiu a Eduardo ver e apreciar-lhe o corpo esbelto, acetinado, macio, suavemente bronzeado. Cresceu o fascínio. Aumentou a paixão, aureolada com o sofrimento de saber que ela, afinal, não era sua.

Isaura conhecia-lhe os sentimentos, adivinhara a paixão que ela própria lhe despertara. Sentia-se lisonjeada. Era uma mulher alegre, divertida. Adorava festas e convívios. O sacripanta já lhe propusera o divórcio. Mas ela, em vez de se dilacerar, libertara-se mais. Divertia-se à brava. Extravasava, enquanto ele se fechava cada vez mais no casulo da sua timidez. Maldito divórcio! Enquanto a ela lhe permitia reconquistar a liberdade perdida, exorbitando em devaneios e farras, deixava-o a ele, numa profunda e dilacerante letargia. Sofria com as loucuras que a domavam, com as estravagâncias em que se envolvia. Sensível ao sofrimento dele e a quanto isso lhe trazia de amargo e doloso, Isaura como que se deixava abalroar por uma inequívoca loucura. Sem que ninguém o pressentisse decidiu partir para longe. Emigrar. No início do novo ano seguiria, definitivamente, para Paris. Afastados, ele havia deixar desmoronar, lentamente, a loucura que o perseguia, a paixão que o subjugava.

Eduardo estarreceu! Não podia acreditar! Entrou numa medonha depressão, com laivos de loucura misturados com raiva. Os dias, para ele, tornaram-se negros, o tempo desajustado, o trabalho fútil, a vida sem sentido. Ela apercebendo-se de iminente derrocada, dum colapso brutal, bem o tentava acalmar. Haviam de falar, de ver-se pelo Skype. Além disso, Paris estava cada vez mais perto. Os low cost da Ryanair haviam de a trazer. Talvez o levassem até lá. Mas ele não se continha. Nada o aliviava da sua mágoa, do seu desalento. Simplesmente, lhe pedia, repetidamente, que não fosse, implorava-lhe, ardentemente, que ficasse.

Mas Isaura não se demoveu da sua decisão. E numa tarde fria, negra, asquerosa e degradante partiu. Eduardo chorou, amargamente, a tarde inteira. Ainda lhe telefonou, uma última vez, a tentar demovê-la. Nada. Nas noites e dias seguintes, entre sorvos de amargura e tragos de sofrimento, a imagem dela perseguia-o, aniquilando-o, destruindo-o por completo. Não se contendo, meses depois rumou a Champ d’Ór, à Rue Lamark, unindo-se a ela num longo e profundo abraço. Regozijaram-se, envolveram-se e regressaram, por um dia, às vivências empolgantes das viagens de comboio e das pausas de trabalho no Santa Eulália. Eduardo, tímido voltou a hesitar. Recuou, transformando o que poderia ser uma entrega amorosa, quiçá definitiva, numa simples visita, num vulgar encontro de amigos. Tudo efémero, a exigir um segundo encontro, dois meses depois. Partia, desta feita determinado, plenamente convencido de que o mais sublime e inebriante havia de acontecer. Seria o início da vivência com que há tanto sonhara.

Eduardo, na verdade, ia decidido. Profundamente persuadido. As mensagens e os telefonemas trocados, desde há muito, revelavam que ela também o amava. Chegara o momento. Foi mais fácil encontrar o 1324 C da Rue Lamark. Era a segunda vez que por ali vagueava. Tocou a campainha. Nada. Voltou a tocar. Nada. Apreensivo, tocou mais uma, duas, três vezes. Por fim chegou a voz dela. Sonolenta, confusa e, aparentemente, apreensiva. Que esperasse. Dez minutos. Iria arranjar-se e descer. Que aguardasse no café, em frente.

Eduardo achou estranho! Amedrontado, perplexo, entrou no café. Esperou dez, vinte, trinta… Mais de uma hora. Por fim ela desceu, mas não vinha só.

 

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