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ENCONTROS

Domingo, 22.03.15

Foi num julho sem aulas e sem sol. Os placards enchiam-se de cartazes, anúncios e avisos. Punham a escola viva, fresca, desassossegada. Em polvorosa. Professores empurravam-se e acotovelavam-se na tentativa de descobrir e decifrar as tarefas que, por decisão irrefutável do Conselho Diretivo, lhes tinham sido atribuídas e lhes haviam de preencher os dias enquanto aguardavam o almejado agosto, recheado de férias, de descanso e de dias amarelados. Era segunda-feira. Ele aguardava sereno, despreocupado, atrás dos últimos. Aceitava com desfastio qualquer lengalenga trivial que lhe traçasse o destino. Um abalroamento desinteressante a que já se habituara, em anos anteriores. Ela, entre os primeiros da frente, aflita, nervosa, preocupada em saber não apenas o que lhe caberia em sorte mas também os parceiros de tão fúteis tarefas. Perfilava-se na emergência de um dececionante desencantamento. Uma preocupação exageradamente desmedida, desajustada, ingénua e vácua. Não lhe apetecia rigorosamente nada ser emaranhada nalguns daqueles aberrantes e inúteis dinamismos. Muito menos partilhar efémeras e simuladas jactâncias pedagógicas, aliar-se a bajuladores, misturar-se com fiéis servidores, enfim, perder tempo ou imiscuir-se em futilidades. Infelizmente, não se podia excluir daquela lírica empreitada. Os nomes passavam, as tarefas atulhavam-na, as folhas esgotavam-se. No último canto da grelha - Álvaro Belchior, Solange Franco e Sofia Pinto:

- Sortuda! Ficas sozinha com o Belchior! A Solange Franco pisgou-se. Forjou uma escapadela… Vai para uma formação…

Durante os dois anos que ali tinham estado juntos, pouco haviam convivido. Horários trocados. Ela sempre expedita e apressada, pouco conversadora e pouco dada a funçanatas. Ele experiente, desinquietado, por vezes, tímido. Mas cedo dera por tão cativante presença, a que, estranhamente, nunca se aliara. Há muito que a via, que a admirava que sonhava com uma oportunidade de estar com ela, de sublimar a sua presença. Agora, inesperadamente, unia-os o destino. Juntava-os a ocasionalidade. Era justamente a altura de se ressarcir do deserto criado, de lhe dizer tudo o que de há muito sentia e que ela, por certo, não imaginava.

Agendaram, frugalmente, o horário da manhã seguinte. Ele regressou a casa incapaz de a tirar do pensamento. Tivera sorte. Aguardava, com ansiedade, as vivências, os trabalhos dos dias seguintes. Apetecia-lhe perpetuá-los por todo o verão.

- Às dez! – Repetira ela, com um doce sorriso e uma profunda convicção. – Às dez! Não te esqueças.

E ficou-lhe, na ideia, um ténue presságio de que ela também estava feliz por saber que o seu nome tivesse ficado no canto daquela página, ao lado do dele e sem a Solange.

Para além de simpática e atraente era muito bonita. De pele morena, cabelos sedosos e olhos acastanhados, impunha-se sobretudo, pela sua singularidade, pela sua ternura, pela sua sensibilidade. Ao seu lado, como que tímida e desencorajada, ainda o impressionava mais. Os buraquinhos cravados em ambas as faces quando esboçava um sorriso e a inocência do seu olhar davam-lhe um ar de criança grande. Os seios, finamente cobertos por uma leve blusa, pareciam outeiros de virgindade. O corpo, macio, fino, acetinado aureolava-se duma dignidade vertiginosa. Toda ela consubstanciava uma pureza invulgar e inaudita.

Imiscuíram-se nos trabalhos que o cabeçalho do último canto da grelha lhes impusera, com alegria, prestígio e brilho. Em três dias tudo pronto… Na tarde do último dia, como lhes sobrasse tempo, tiraram uma pausa para o lanche. Ela desabafou:

- Tinha sido tão bom trabalhar com ele e só com ele!

Ufanou-se! Aquilo dito por ela, com tamanha convicção e sinceridade, arrasava-o. Estilhaçava-lhe o coração, açudava-lhe o instinto. Como a agradecer-lhe colocou-lhe a sua mão direita sobre a esquerda dela. Estremeceu. Uma estranha energia fluía do seu corpo, atormentando-o em dulcificado sentimento. Amava-a, de verdade e ele também não lhe parecia ser indiferente.

Foi com muita mágoa e grande dor que se despediram… Até um setembro longínquo. Pelo meio, havia que atravessar um agosto moroso, infinito. De saudade.

No início de setembro ela regressou trazendo um enorme e doce abraço misturado com uma trágica notícia. Aguardava colocação e as probabilidades de não ficar por ali eram muitas. Caíram numa mágoa recíproca. Avassaladora. Ao drama da separação juntava-se o infortúnio do incerto. Separados, viveram dias negros, obscuros, dramáticos. Por fim veio a melhor das piores notícias:

- Fora colocada, sim senhor, mas a mais uns cinquenta quilómetros!

Ele sufocou! Agora que se conheciam, que se amavam, que se queriam tanto um o outro, o destino, perverso e pérfido, separava-os. Apetecia-lhe pedir destacamento. Seguir-lhe as peugadas. Ela bem o tentava demover de tão atroz cometimento. Nas idas ou nas vindas, havia de parar, haviam de encontrar-se, reparando os estigmas da separação. Mas isso seria pouco, muito pouco. Sabia muito bem que era o fim do princípio com que tanto sonhara. Era um destino cerceado pela inacessível presença dela. Os projetos delineados no julho da descoberta, da destruição das sombras e das hesitações abalroavam-se, agora, por completo, deixando-os, estarrecidos, num abandono desditoso e prematuro.

Restava-lhes apenas cravarem, reciprocamente, as imagens de um no outro, e de tal modo se aquietarem, disfarçadamente, inundados no resplendor da esperança de novos e frequentes encontros:

- Sempre que possível!

- Não! Sempre! Sempre! Mesmo quando impossível.

Ela sorriu e partiu triste, muito triste.

Foi pelos Santos que ela lhe telefonou. Propunha-lhe um almoço, a sós. Ela vinha mais doce, mais meiga, mais ternurenta, mais bela e, sobretudo, mais apaixonada.

No enlevo em que ficara, nem atinou com o local. Foi ela que sugeriu. Aceitou de bom grado. Mais do que o repasto agradou-lhe a presença dela. Mais atraente, mais sensível, mais alegre, mais sublime, mais amorosa. Ela própria também desejara muito aquele encontro. Admirava-o, regozijava-se com a sua presença, ufanava-se da sua amizade, amava-o. Os minutos reservados ao almoço tornaram-se escassos e a tarde sumiu-se depressa. Despediram-se, com mágoa, arquitetando novos encontros. Perto da nova escola. Se pudessem aproveitar um furo, um resto de tarde, quiçá uma manhã livre…

E, na verdade, seguiram-se repetidos encontros. Frugais e breves, mas ternos, meigos e muito desejados. No mesmo café, na mesma mesa, no mesmo canto, no mesmo deslumbramento. Pena estarem-lhes cerceados os sonhos, os desejos, a vontade de entrega recíproca. Quando um silêncio intempestivo, contemplativo não os domava, falavam de tudo. Era sempre ela a começar, como no dia em que viram os seus nomes juntos, num dos cantos do placard da escola. Por mais que desejasse, nunca ele se atrevera a dar o primeiro passo. Só quando ela quebrava a soturnidade ele extravasava num contentamento desmedido, novo e puro.

Era outra vez julho. Mas não havia mais nenhum placard cheio de cartazes, a anunciar as tarefas que lhes haviam de preencher os dias enquanto aguardavam o mais terrível agosto de sempre, o agosto da separação definitiva, seguido de muitos outros agostos, setembros, todos os meses do ano, definitivamente, vazios de encontros.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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