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VIL INDIFERENÇA

Terça-feira, 24.03.15

Ricardo amava Aurora desde de criança. Sem ser uma paixão profunda, uma desmedida loucura, sentia por ela um encanto maravilhoso, uma admiração deslumbrante, um amor sublime. Conheciam-se desde a escola primária. Cresceram, aprenderam, estudaram lado a lado. Ele a admirá-la, a contemplá-la, a amá-la num silêncio magoado. A conter-se, a fechar-se, a esconder os sentimentos. Enfiado no casulo da sua timidez, perseguia-a, seguia-lhe os passos, auscultava-lhe os desejos, antevia-lhe os sentimentos. Ela forte, destemida, alvoroçada, espraiando-se em cometimentos fúteis, adivinhava-lhe os sentimentos, retribuindo-lha com uma vil indiferença. A conviver com todos, sem, no entanto, se entregar a nenhum. Isso, para além de o intrigar, obrigava-o a fechar-se ainda mais, a ocultar-se em sombras mistificadas, a perder-se em desertos de silêncio. Por vezes aparentava querer fugir dela. Por outras simulava afastar-se. Mas não. Queria sim, estar com ela, envolver-se nas suas vivências, partilhar os mesmos espaços, respirar o mesmo ar, talvez moldar-lhe os sentimentos. Ela não percebia, ou melhor, fingia não perceber. Talvez até o julgasse um crápula, um perverso que, simplesmente, pretendia assediá-la. Por isso, em resposta, parecia desfazer-se em desinteresse contínuo, em desatenção permanente. Por vezes rondava a indiferença. Uma verdadeira e vil indiferença. Perdida, entre divertimentos e brincadeiras parecia olvidar os tempos de outrora, marginalizando-o, retirando-lhe, em absoluto, a vontade de querer estar a seu lado, o direito de se aproximar dela, de se tornar companheiro, de se integrar no seu quotidiano. Para Aurora, Ricardo tornara-se uma espécie de ténue brisa, desfeita pela ousadia com que, persistentemente, pretendia toldar-lhe os passos, envolvê-la em cometimentos ousados, depravados. Havia de encaminhá-lo a esquecer os primórdios do seu relacionamento. E foi assim que novos amigos vieram abalroar-lhe o destino. Os seus padrões sentimentais e afetivos alcandoravam-na a um patamar muito alto. As suas atitudes acediam a um mundo de sonhos, de deslumbramento. O seu instinto parecia segredar-lhe que jamais voltaria a sentir o que ele cuidava que ela havia sentido. Ele, cada vez acabrunhado, mais derreado, mais abalroado pelo seu afastamento, mais aniquilado pelo seu aparente desprezo, pela sua enigmática frieza.

Foram meses e anos a construir esta espécie de indiferença simulada. Ele a tentar, a querer impor-se, a desejá-la. Ela a fugir, a afastá-lo a outorgar-lhe, com recompensa, indiferença. Simplesmente indiferença. Por vezes, o empenho dela em desmoronar-lhe os sonhos era tal que o ambiente que os rodeava se tornava quase insustentável. Outras atingia limite.

Aurora era uma mulher forte, afoita e corajosa. Sem ser bonita era bela, sem ser elegante era atraente, sem ser deslumbrante era corajosa. Era enfática, lutadora, sacrificada. Enigmática e, por vezes, contraditória. Caminhava na dúvida mas cheia de certezas. Chorava de alegria e sorria com a tristeza. Acreditava quando ninguém mais acreditava, sonhava quando mais ninguém sonhava, esquecia quando alguém a lembrava. Módica em palavras extravasava de emoções. Escondia-se na sombra dos sentimentos e manifestava-se no encobrimento das atitudes. Parecia assenhorear-se de um suave e enigmático deslumbramento. Vivia com empenho desmesurado e dignidade excessiva, apesar dos dissabores, das desilusões, das traições e das deceções que a rodeavam. Era uma mulher de sonho.

Caminharam, lado a lado, meses e anos pontuados de encontros vácuos, inócuos sem qualquer envolvimento físico. Muitas vezes sem uma palavra, sem um gesto, sem uma atitude. Depois, um afastamento inusitado durante o qual, ela, sem se dar conta, foi esquecendo o que percebera e o que sabia que Ricardo sentia por ela, enquanto ele no deserto da ausência sonhava com aquele corpo forte, túmido, deslumbrante e, terrivelmente atraente. Ele cada vez mais preso ao capricho duma paixão irreal, ela reduzindo-o a um simples, banal e desinteressado amigo.

O tempo passou deixando-lhes marcas indeléveis. Nela aumentando o deserto do esquecimento, da indiferença, nele diminuindo o fulgor da paixão, do amor. Às vezes Aurora tinha dúvidas. Do que significou para si tanta indiferença e os estilhaços caídos sobre Ricardo. Depois recuava e tentava ressarcir-se. Umas vezes tarde de mais, outras, sem ele saber. Um dia quis o destino que se reencontrassem. Foi na festa do Patrocínio. As ruas cheias, a igreja a abarrotar. Depois a procissão, a filarmónica, o arraial e o jantar de encerramento para o qual ambos foram convidados. Nenhum sabia da presença do outro. Estavam sós. Parecia que ao redor, ninguém os conhecia. Sentaram-se juntos â mesa. Um em frente do outro. Conversaram, falaram, mandaram às urtigas bloqueamentos, desertos e indiferenças. Só então Aurora se apercebeu de que, em tempos idos desperdiçara a excelência da paixão que emanava dele. Agora, olhava-o enternecida. Afinal, no fim de um longo percurso partilhado mas desértico, tinha começado a sentir que, verdadeiramente, o devia ter amado desde sempre. Desde os primórdios. Como ele a amava. Enfim! Chegara, na verdade, a hora, de perceber quanto ele a amava, quanto a queria, quanto a desejava. Ele empertigado na excelência dum sonho que afinal parecia tornar-se real. Foi uma pausa longa na indiferença. Um pacto de trevas no esquecimento E se nem a amizade, no passado, parecia uni-los, ela agora navegava no deslumbramento duma paixão comum, recíproca.

Mas, inacreditavelmente, sem que o esperassem e muito menos desejassem, uma densa e escura cortina de fumo desdobrou-se sobre o jantar da festa do Patrocínio, separando-os para sempre, tornando ainda mais terrivelmente assustadora, quiçá definitiva, aquela vil indiferença com que ela, desde sempre, excetuando aquela noite, o obsequiara.

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publicado por picodavigia2 às 00:03





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