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LINGUIÇA COM INHAMES

Sexta-feira, 27.03.15

Uma das iguarias mais comum na maioria das casas da Fajã Grande, na década de cinquenta, sobretudo nos meses seguintes à matança do porco, era a saborosa e apetitosa linguiça, geralmente acompanhada com inhames, uns de água, das lagoas das Covas, da Figueira, da Alagoinha, das Águas e dos Paus Brancos, outros secos, das terras da Cabaceira, Delgado, Lameiro, Lombega, Moledo do Grosso e de tantas outras. Embora muito poupada, com um pedacinho repartido a cada um dos elementos do agregado familiar, por vezes muito numeroso, a linguiça era uma preciosidade. Como se aproveitava quase toda a carne do porco, em cada casa fazia-se muita longuiça. O processo de a fazer era fácil. Picava-se a carne, procedia-se ao seu tempero de forma semelhante à dos torresmos de vinha-d’alhos. Três dias depois, se fosse necessário, pica-se a carne ainda em bocados mais miúdos com que se enchiam as tripas delgadas que no dia da matança haviam sido muito bem lavadas. Depois de cheias com o auxílio das engorladeiras atavam-se, ambos os extremos com um fio, começando, primeiro, por amarrar um dos lados. Depois, apertando-se bem a fim de que a carne se adaptasse à tripa e se enchesse, ia-se espetando uma agulha para aquela perder o ar. Mas a agulha deveria ter enfiada e estar presa a uma linha, para que não deslizasse e, assim, se perdesse entre a carne, o que seria fatal. Terminada esta tarefa, amarrava-se a outra extremidade e penduram-se no fumeiro, enfiadas numa pau próprio, o pau das linguiças até ficarem bem curadas e louras. Só depois se cortavam aos pedaços e se colocavam nas talhas de barro de baixo de banha, extraída dos torresmos de toucinho do porco. Nos dias em que se coziam inhames, bastava ir à talha e tirar um ou dois toros e fritá-los na própria banha que lhes vinha agarrada. Estava o almoço pronto. E que delicioso que era, sendo normalmente reservado aos domingos ou dias de festa. Em casos de maior aperto e falta da dita cuja, comiam-se os inhames apenas encharcados na banha, onde se podia encontrar um ou outro vestígio da saborosa linguiça. Mas o sabor lá estava e o cheiro também. Às vezes quase se comia apenas ao cheiro da dita cuja.

A propósito do cheiro, contava-se que um homem se havia ido confessar por altura da desobriga. O confessor perguntou-lhe se havia comido linguiça durante as sextas-feiras da Quaresma. Como o homem respondesse afirmativamente, o padre mandou-o, como penitência, colocar uma moeda de escudo na caixa de esmolas da igreja. O homem prometeu cumprir a penitência imposta e foi absolvido. De seguida aproximou-se da caixa das esmolas, tirou do bolso uma moeda de escudo e começou a rodá-la junto à caixa onde devia ser colocada. Como demorasse algum tempo, o padre admirado com aquele gesto, perguntou-lhe:

- Então?! Por que não colocas a moeda dentro da caixa?

Ao que homem respondeu:

- Senhor Padre, eu apenas comi os inhames com o cheiro da linguiça. Por isso a caixa deve apenas cheirar a moeda.

   
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publicado por picodavigia2 às 11:18





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