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ABRIL FRIO E MOLHADO

Quinta-feira, 30.04.15

“Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado.”

 

O mês de Abril, antigamente, na Fajã Grande, era um mês de grande e de intensa atividade agrícola, sendo esta absolutamente necessária e fundamental para a sustentabilidade económica da população daquele pequeno povoado, encastoado entre a rocha e o mar. Na verdade, era em Abril que se plantava e semeava a maioria dos produtos agrícolas. Era em abril que se fazia a sementeira do milho, a maior e mais importante cultura da freguesia, nas terras mais afastadas do mar e que haviam sido trilhadas pelo gado amarrado à estaca, a alimentar-se das forrageiras, trevo ou erva da casta. Era em abril, também, se semeava as batatas o feijão as ervilhas, as abóboras, os bogangos e se faziam os canteiros da coivinha. Era em abril que se plantava a bata doce nas terras junto do mar, assim como as couves, a cebola e os tomateiros. Nas terras junto do mar, nomeadamente, do Areal, Furnas, Porto e Estaleiro iniciavam-se o arrancar das mondas, sachavam-se os campos semeados no mês anterior, calçava-se o milho para o proteger das ventanias e limpavam-se as terras das ervas daninhas. Uma intensa e cansativa atividade se impunha aos agricultores durante este mês. Ora para que tudo isto tivesse sucesso era necessário e fundamental que chovesse e não fizesse muito calor Se se equacionassem estes dois fatores e não houvesse salmoura ou fortes ventanias seria um ano de fartura. Mas era também o sucesso destas culturas e, sobretudo, o florescimento das pastagens, do mesmo modo com o epicentro em abril e que também muito beneficiava com a chuva e com a ausência de calor, fundamentais na alimentação do gado. Dai o adágio. “Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado.”

A chuva, na verdade, tinha um efeito fundamental no sucesso da agricultura. Todas as plantas precisavam de água para sobreviver. Uma seca em abril podia ser fatal para culturas, provocar erosões, destruir o plantado e não deixar nascer o semeado, embora o tempo excessivamente húmido também pudesse causar outros problemas. As plantas necessitavam de quantidades adequadas de chuva e de ausência de calor excessivo para sobreviver. Ainda hoje, mesmo com sulfatos, adubos e quejandos, é assim.

Acrescente-se no entanto que, sob o ponto de vista etimológico, é fácil, concluir-se que este provérbio foi importado, talvez levado pelos primeiros povoadores, o que se pode concluir pelo uso da palavra celeiro, que não consta do léxico fajãgrandense, nem da ilha das Flores, onde o milho, o principal cereal cultivado nesta ilha, era guardado nos estaleiros.

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publicado por picodavigia2 às 09:37

RASTROS DE SOMBRAS

Quarta-feira, 29.04.15

O Parque era o seu destino. Apenas aos fins-de-semana, que os outros dias eram de trabalho árduo e contínuo. No verão, tempo de dias maiores e mais quentes, aproveitava o ar morno dos fins das tardes. Não se descuidava. Na celeridade da sua destreza, na rapidez das suas passadas, na ligeireza do seu caminhar estampava-se o vigor da sua juventude. O sol iluminava-lhe o rosto, a chuva moldava-lhe o semblante, o vento soltava-lhe os cabelos. Os pássaros cantavam à sua passagem, as flores abriam-se e curvavam-se com a sua voluptuosidade e até o rio, no seu lento rastejar por entre arvoredos e alfombra, parecia apressar o correr das suas águas, com o intuito de a acompanhar. De a perseguir. Nada, na natureza, se alheava do seu doce, sublime e veloz caminhar. Ela, indiferente a tudo. Tanto lhe importava a chuva, o vento, o sol ou as brisas matinais. Caminhava ou melhor corria, corria sempre sem se inquietar com o que quer que fosse, que quebrasse, por uma nesga, a violência do seu querer. Elegante, sublime, esbelta, roupas a desenhar-lhe as formas corporais, esbanjava graciosidade, desferrava encanto, emoldurava-se de ternura. Quem a via entontecia, quem ta acompanhava perdia-se, quem a encontrava delirava e como que se exaltava no envolvimento de um estranho enlevo. E não eram poucos. Entre eles o vizinho da casa em frente. O principal, o eleito. Mal o sol nascia ou mesmo quando entrava no ocaso, atravessava impávido e silencioso a multidão e aguardava, impaciente, a sua passagem, o seu caminhar veloz e decidido. Ela, embora absorta no alvoroço da sua desinibição, depressa se apercebeu de tamanha insistência. Cedo compreendeu o impetuoso alento que ele exalava. Embevecida, deleitada, retribuía, simplesmente, com um meigo, terno e gracioso sorriso. Os outros olhavam invejosos, enraivecidos, terrificados. Às vezes, atiravam ao ar impropérios, protestavam com insultos, estarrecidos de inveja. Ela não se coibia e, no dia seguinte, postava-se com mesmo sorriso, com a mesma doçura, com o mesmo olhar doce e inebriante. Para ele. Só para ele, que orgulhoso, sobrepondo-se à força do vento, ao incómodo da chuva ou ao calor do sol, a admirava, venerava, idolatrava. Como se fosse uma Vénus.

Foi no início do outono. Uma tarde de chuva e ventania. Ela entrou no café onde ele costumava ir todos os dias. Sentou-se e olhou na direção onde ele estava. Privilegiou-o com a doçura de um novo sorriso, semelhante aos do parque. Talvez mais terno, mais meigo, mais comunicativo. Vinha excitada do movimento desusado de casa e da maneira inesperada como o encontrara ali. Olhou-o fixamente. Ele, confuso com tão persistente olhar. Duvidou. A muito custo tentou desfazer o enigma do misterioso olhar que o envolvia. Mas não havia dúvida! Era nele que ela cravejava o segredo da sua intimidade. Era nele que ela depositava a excelência dos seus sonhos malfadados. Num rosto nervoso e inquieto, um sonho sublime, a desfazer a intranquilidade de momentos amargos, dolorosos. Pressentimentos confusos, misturados, por vezes, com lágrimas recusavam-se a sair-lhe do pensamento. Encharcavam-lhe a alma de medos, de incertezas, de intranquilidades. Mas o olhar meigo e carinhoso dele, a adivinhar-lhe a excelência das formas corporais que os jeans, muito justos e colados, deixavam transparecer, tolhia-lhe o sofrimento, secava-lhe as lágrimas, sublimava-lhe a dor. Em dias seguintes, sucessivos, repetiu-se o devaneio que, apesar de regrado por um rígido silêncio, os aproximava cada vez mais. Sem nunca se falarem, entendiam-se. Sem nunca se entregarem, desejavam-se, Sem nunca se unirem, amavam-se.

Mas tudo se sombreou como o fumo duma vela que nunca se acendeu. Ou porque, numa manhã cinzenta e tenebrosa, ela decidiu envolver-se na confluência duma cumplicidade macabra ou, simplesmente porque o café, em falência declarada, encerrou definitivamente.

Agora ela já não corre célere, como outrora. Agora as flores, à beira rio, já não sorriem, os pássaros, ao redor do parque, já não cantam. Nem o vento, sequer, lhe solta os cabelos ou a chuva lhe afaga o semblante, Apenas o Sol, triste e enevoado, de vez em quando e como que a medo, se abre a descortinar os rastros daquelas sombras enigmáticas, desenhadas no seu rosto triste, amargurado, sem sorriso.

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publicado por picodavigia2 às 07:36

NOSTÁLGICO LUAR

Terça-feira, 28.04.15

O nostálgico luar de minha vida,

É sonho nobre, dádiva cativa

É esperança de amor, distinta e altiva

Quimera de ilusão imerecida.

 

É ânsia morta, em céus desfalecida,

É sombra que desfeita se cultiva

Se transforma em risonha perspectiva

De ser, não-ser, ou ideia indefinida.

 

É sopro de inconstância acrisolado,

Esforço de sofrer em lentidão

Estagnar de desfeita estagnação.

 

É um não sei quê de uma alma arrebatada,

Que se embala na esperança da saudade,

Se perde. Dolorosa crueldade!

 

Angra, 28 de Abril 1967

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publicado por picodavigia2 às 09:48

MATEUS PIRES E ROLINHO DAS OVELHAS

Segunda-feira, 27.04.15

Na Fajã Grande, como em todas as outras freguesias das Flores e das restantes ilhas dos Açores, existiam diversíssimos lugares, a maior parte dos quais não habitados, mas, alguns deles com nomes muitíssimo interessantes. É o caso, entre muitos outros, de dois lugares da toponímia fajãgrandense: “Mateus Pires” e “Rolinho das Ovelhas”. Como a maioria de muitos outros lugares, estes terão uma pequena história ou lenda, relacionada com a origem e razão de ser do seu nome bem como do motivo ou motivos que os terão originado.

Quanto ao lugar de Mateus Pires, ficava no caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros, mais precisamente integrando um outro lugar, muito maior e mais amplo, chamado Alagoinha. Partindo da Fontinha e Alagoeiro, subindo por aquele caminho em direção aos Lavadouros, a seguir à ladeira do Pico Agudo, começava a Alagoinha. O caminho, no cimo da ladeira, fazia uma curva à esquerda, em direção à Rocha, seguindo depois paralelo a esta, para iniciar logo a seguir a descida da ladeira da Alagoinha. Era precisamente neste sítio e junto à Rocha, que existia um pequeno montículo, no meio da enorme planície da Alagoinha, que ficava o lugar chamado Mateus Pires. Tratava-se de um lugar pequeno, formado por duas ou três terras de mato e uma relva, tendo sido claramente originado por uma ribanceira, em tempos muitíssimo recuados, caída da Rocha. Contavam os antigos que andando por ali um homem de nome Mateus Pires, teve o azar de ser colhido pela ribanceira e ficar soterrado debaixo da mesma, nunca mais sendo de lá tirado o seu cadáver, pois a quantidade de entulho caído da rocha era tanta e tal que não havia meios que o permitissem fazer. Dele apenas ficou a memória assinalando com o seu nome aquele lugar – o lugar de Mateus Pires.

O segundo era o Rolinho das Ovelhas, este situado junto ao mar. Tratava-se de uma espécie de pequeno enclave entrincheirado entre a Baia d´Água, a norte e o Respingadouro, a sul. Por sua vez, a este, o Rolinho das Ovelhas fazia fronteira com o Porto e as Furnas e a oeste com o Oceano Atlântico. A ele tinha-se acesso apenas por um caminho de terra batida e pedregulhos (hoje transformado em marginal) que ficava junto ao mar e ligava o Matadouro ao Areal, passando pelo Campo de Futebol. Uma vez que se situava à beira-mar e sendo um lugar pequeno, uma parte do seu espaço, a que confinava com o mar, era ocupada pelo baixio enquanto o restante era constituído por terras de lavradio onde se cultivava milho, couves, batata-doce e batata branca. Sendo assim o estranho nome, dado a este lugar, teria a sua origem, no que concerne à primeira palavra, no facto de, sendo localizado à beira mar, haver por ali algum pequeno rolo, ou seja uma parte da zona costeira constituída por pequenas pedras soltas e lisas que com o reboliço das ondas do mar se iam alisando ainda mais e mais umas às outras. Mais difícil de explicar, porém, será o nome “das Ovelhas”. É que nunca por ali terão andado ovelhas a pastar ou a fazer outra coisa qualquer, por um lado porque entre as pedras negras do baixio não havia erva e, por outro, porque os terrenos circundantes nunca foram relvas ou pastagens de ovelhas. Assim a explicação parece ser outra. É que na Fajã a palavra “ovelha” também era usada no sentido figurado, significando neste caso, a parte superior ou a crista de um determinado tipo de onda do mar que rebentava em espaços e tempos alternados, formando pequenos amontoados de espuma branca, que se assemelhavam a ovelhas. Assim usava-se a expressão “ O mar hoje está pejado de ovelhas” para caracterizar o estado do mar onde predominava aquela ondulação. Provavelmente que este tipo de ondas deveria ter sido, outrora, muito frequente naquela zona da costa e, por essa razão, muito naturalmente se passou a chamar àquele local o “Rolinho das Ovelhas”

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publicado por picodavigia2 às 00:01

REGISTO Nº 11 – ANO DE 1900

Domingo, 26.04.15

“Aos dez dias do mez de Septembro do anno de mil e nove centos pelas seis e meia horas da manhã na caza numero onze da Rua da Tronqueira desta freguesia de São José da Fajã Grande, concelho das Lages, ilha das Flores, Diocese de Angra, faleceu um indivíduo do sexo masculino por nome Antônio de idade de dois mezes e meio, natural e morador desta freguesia, filho legítimo de António Luís de Fraga e de Maria de Jesus Fraga, proprietários, naturais desta dita freguesia, o qual foi sepultado no cemitério publico. – E para constar lavrei em duplicado este assento que assigno. Era ut supra. O Vice Vigário Joaquim Ferreira Campos.”

Este é o registo de óbito de uma das dezenas e dezenas de crianças que faleceram na Fajã Grande, na segunda metade do século XIX e inícios do século XX. Neste caso trata-se de um filho de António Luís de Fraga, mais conhecido por “Ti’Antonho do Alagoeiro” e, consequentemente irmão do padre José Luís de Fraga, nascido dois anos mais tarde, a 6 de outubro de 1902. Como geralmente acontecia, o nome dos filhos que faleciam eram repetidos noutros que nasciam mais tarde. Casos há em que o nome se repete por três e mais vezes. No caso de Ti’Antonho do Alagoeiro, o nome António também foi atribuído a um outro filho, nascido alguns anos mais tarde.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:13

CORNUS TIBI

Sábado, 25.04.15

Conta-se que antigamente, na ilha do Corvo, os homens, sobretudo os mais novos que os velhos não tinham paciência para se entregarem a tais devaneios, festejavam o dia 25 de Abril, vulgarmente designado por «Dia de Cornos» com um cortejo bastante original, pois segundo consta mão era realizado em nenhuma outra ilha açoriana. Os homens juntavam-se no Outeiro, frente à Casa do Espírito Santo e organizavam um cortejo em que seguia um carro de bois, em cima do qual iam os homens que tinham casado naquele ano e que era puxado pelos que tencionavam casar durante o mesmo. Por sua vez os que estavam namorados mas não sabiam ainda quando haviam de casar, iam à frente, munidos de vassouras, a varrer o caminho para o carro passar. O cortejo percorria as principais ruas da vila e regressava ao Outeiro, onde estava uma coroa enfeitada com chifres, presa a um mastro de bandeira, que descia através duma roldana, com a qual o Mordomo da festa coroava todos os que por ali passavam.

O Mordomo da festa, ao fazer descer a coroa e ao enfiá-la na cabeça do coroando e possível candidato a corno, dizia, em latim macarrónico:

- Cornus tibi.

Ao que o mesmo devia responder:

- Amem.

Embora a maioria dos corvinos se divertisse com esta fantasiosa brincadeira, pelos vistos, alguns homens havia que, naquele dia, não passavam pelo Outeiro para não apanharem com a dita cuja na tola. Lá sabiam eles porquê…

 

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publicado por picodavigia2 às 07:41

DESASTRE NA RETORTA

Sexta-feira, 24.04.15

Mais um acidente trágico acidente aconteceu, nos mares da Fajã Grande, no final do século XIX. Na madrugada do dia 5 de Julho de 1899, mais precisamente às 4 da manhã, uma embarcação de pesca, com a matrícula JC324P terá naufragado na Ponta do Baixio, na Fajã Grande, ilha das Flores, mais concretamente, por fora da Retorta, quase no enfiamento da Poça das Salemas, no Canto do Areal, onde dezasseis anos mais tarde havia de naufragar a barca Bidarta. A bordo da pequena e frágil embarcação seguia apenas um homem de nome António Fraga Cardoso, agricultor, mas que naquela madrugada optou por ir à pesca. António Fraga Cardoso, tinha 65 anos, era solteiro, trabalhador agrícola. Era filho de João de Fraga Mancebo e de Maria de Jesus Cardoso. Pouco mais se sabe sobre o acidente, desconhecendo-se se terá sido por causa da forte agitação do mar ou se devido ao escuro da noite ou a outro motivo qualquer que tenha levado a a embarcação tenha embatido contra algum rochedo ou baixa por ali existente. Outra hipótese a considerar ainda é a de que o sinistrado, eventualmente, tenha sido acometido de alguma doença súbita que tenha provocado o acidente da embarcação. O cadáver foi encontrado e retirado do mar, sendo sepultado no cemitério da freguesia.

Estes dados foram retirados do registo de óbito do falecido, registado no livro de Registo de Óbitos da Paróquia de São José da Fajã Grande, com o nº 13, respeitante ao ano de 1899, elaborado pelo vigário Francisco José Constantino Flores.

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publicado por picodavigia2 às 08:36

TEATRO DA VIDA

Quinta-feira, 23.04.15

“A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso, cante, chore, dance, ria e viva intensamente, antes que a cortina se feche e a peça termine sem aplausos.”

 

Charlles Chaplin

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publicado por picodavigia2 às 16:13

ENTONTECIDA

Quarta-feira, 22.04.15

Joana terminara uma relação muito difícil e dolorosa. Deixara-lhe marcas terríveis. Estigmas vivos. Vivera pouco mais de uma ano com Eduardo com quem casara. Desde cedo cuidava que havia descoberto que tinham varias coisas em comum. Que se amavam. Apesar de tudo, nunca se apaixonara verdadeiramente por ele, mas estava convencida de que era o homem da sua vida, o pai de seus futuros filhos e cuidava que ele também sentia o mesmo. Aparentemente, a felicidade seria plena e o amor puro, integro, perfeito. Anunciados os proclamas, preparado o enxoval e convidados os parentes e os amigos, agendou-se a boda. Simples, pequena e singela. A mãe é que nunca se aquietou com a escolha da filha. O mariola nunca a enganara. Levantara muitas suspeitas e receios. A opção da filha não lhe agradava rigorosamente nada. Alertou-a, aconselhou-a, avisou-a e, por fim, até a ameaçou. De nada serviu. A rapariga cismou que era com ele que havia de casar e casou mesmo. 

Não durou muito o himeneu. Começaram as suspeitas, propalaram-se os mexericos, instalaram-se as invejas, agigantaram-se os ciúmes, avolumaram-se as discussões. Impossível continuar aquela relação. A mãe que, na verdade, desde o início se opusera, radicalmente, a tal envolvimento, quando a filha, desolada, lhe bateu à porta, fechou-lha. Perante o desprezo e o abandono da progenitora e porque não estava disposta a ter que se cruzar com aquele sacripanta pelas ruas e vielas do povoado, Joana pisgou-se da Fajã, refugiando-se na Cuada, em casa duma tia que ali vivia sozinha. Para além de a ajudar e lhe fazer companhia, afastava-se do inexaurível cenário onde se havia gerado a sua própria infelicidade. Retirada naquele ermo, isolada entre o verde das ravinas e o sombreado dos arvoredos, muito raramente o havia de encontrar. Talvez o esquecesse mais facilmente.

Na Cuada Joana envolvia-se num silêncio perturbante, numa pasmaceira entontecedora, numa quietude impertinente. Poucos eram os habitantes daquele pequeno, mas idílico, lugar. Rondariam meia centena. Calmos, tranquilos, dóceis e trabalhadores, iniciavam as lides diárias dos campos muito antes de nascer o sol e nem o crepúsculo os obrigava a largar o trabalho. Regressavam a casa já noite escura. De manhã e de tarde as vielas do pequeno povoado eram um rio de isolamento, um fluxo de ausências inebriante. À noite, não se via viv’alma. Um deserto personalizado. Sozinha, sem amigas com quem partilhar mágoas, Joana imergia num abismo de nada, sem alegria e sem esperança, sentindo-se, apenas moralmente, obrigada a ajudar, nas simples e pobres tarefas diárias, a sua inesperada mas solícita paraninfa.

Corajoso e ávido de trabalho, vindo da Fajãzinha, o Porfírio apareceu, por esses dias, na Cuada, contratado pelo Pimentel. Olhos azulados, rosto risonho, salpicado de um misterioso encanto. Comunicativo e assombrado, emaranhava-se, com facilidade, nos mais estranhos e tétricos meandros da tristeza e da solidão, destruía, com facilidade e ousadia, bloqueios, desencantos e ensombramentos. Integrou-se facilmente, o rapaz, na pacatez monótona e rotineira da Cuada. Nada que estranhasse, por quanto a Fajãzinha que o vira nascer e que o criara, afinal não era uma grande e movimentada urbe. E tanto agradou e a ele tanto se afeiçoou o Pimentel que o fez seu fâmulo, hospedando-o em sua própria casa. Ainda nem um mês passara e o rapaz já era tratado como se fosse da família. Dócil, educado, respeitador e com uma vontade enorme de trabalhar. O que o Pimentel precisava.

Ora a casa do Pimentel, já no enfiamento da canada que dava para a Eira da Cuada e para a Fajãzinha, era paredes meias com a da senhora Gervásia, a tia de Joana, onde ela se hospedara. Cedo pois se apercebeu o Porfírio da presença de tão enigmática e deslumbrante personagem que divisava, vezes sem conta, quer por detrás das cortinas brancas das janelas da vizinha Gervásia, quer junto aos currais e pátios da casa, a limpar, a varrer, a lavar, a estender a roupa na corda e a tratar das galinhas. Sem grande ousadia e desejoso de acautelar a imagem que dele havia ter a rapariga, não se descuidou em exagerados olhares, em imprudentes atitudes. Encantado com tamanha beleza, galvanizado por tão solene elegância, tinha, contudo, uma vontade enorme de se aproximar, de lhe falar. Apetências e desejos, geralmente, cerceados, pelo medo, pela timidez, pelo receio de ser mal compreendido ou interpretado. Aquietou-se, pois, inicialmente, limitando-se a vê-la, a apreciá-la, de longe, cuidando que ela não desse por isso. Impossível! Logo de início, Joana apercebeu-se do alvoroço emocional que domava o moço, quando a via e, consequentemente, não se descuidava, nem muito menos se importava de se mostrar.

O dia de quebrar a timidez que de há muito bloqueava o rapaz, chegou numa tarde de abril em que uma abençoada galinha da senhora Gervásia decidiu saltar a parede do curral e pular para a courela do Pimentel, perante a aflição da rapariga que, na mira de apanhar a maldita, saltara atrás dela. Não podia o Porfírio ter melhor ensejo para iniciar as suas investidas. Uma corrida atrás da galinha havia de o aproximar da sobrinha da vizinha Gervásia que, de há muito, não lhe saía do pensamento. Aproveitava da melhor forma a oportunidade que a simples fuga de um galináceo lhe proporcionava. Pelos vistos, ela também o desejava. O intenso envolvimento que os unia ao correr atrás da galinha, também a denunciava-a. Seguiram-se dias de olhares mais intensos, de encontros mais frequentes, de aproximação mais emotiva. Sem galinha, sem medos, sem timidez e sem ressentimentos. Olhavam-se, viam-se, desejavam-se e conversavam, de forma, reciprocamente, denunciadora, pese embora o Pimentel, inicialmente, começasse a coçar as barbichas, preocupado com tal envolvimento. Mas pouco depois aquietou-se. No fundo, eram maiores e vacinados. E a paixoneta do garrano podia ser uma forma de o prender, de o fixar na Cuada. Talvez fosse a garantia de ele ficar por ali, ao seu serviço, durante mais algum tempo. Avançado em idade, os filhos há muito que haviam partido para a América, deixando-o só com terras e gado por cuidar. O rapaz dava-lhe um jeito do caraças. Se no início condenara aquela, aparente, investida amorosa, agora aplaudia-a incondicionalmente. A Gervásia muito agastada com achaques e maleitas, sempre metida em casa, a queixar-se de dores, é que não deu por nada.

O Porfírio cada vez mais enfeitiçado procurava encontros, junto à fonte onde ela ia encher os baldes de água, ao portão quando ela regressava com uma mão cheia de couves ou quando ela própria, atrevida e denunciadora, pedia licença para ir apanhar um raminho de salsa às bandas do senhor Pimentel. Um dia houve em que, de propósito, enxotou as galinhas da Gervásia para que depois viesse a correr atrás delas para as bandas do Pimentel e caísse nos braços dele, como louca, entontecida, a pedir muitas desculpas. Mesmo se uma galinha não lhe fugisse, havia sempre ensejo para se encontrarem, correrem os dois à porfia, cada vez mais envolvidos, cada vez mais emaranhados, cada vez mais apaixonados. Ela já adivinhava, o momento do dia em que ele se levantava e saía para os campos, de enxada ao ombro e foice na mão, assim como as horas a que regressava para a ceia. Postava-se, estrategicamente, aqui ou além, a fim de que ele a visse, que a olhasse, que lhe desse dois dedos de conversa, ou, se mais apressado, simplesmente lhe desse os bons dias. Ele também não se descuidava de a procurar, de arranjar motivos para dois dedos de conversa. Logo que chegava dos campos, embora cansado de ceifar, lavrar, cavar, sachar, vinha logo postar-se sobre o muro que separava as duas propriedades. O Pimentel bem lhe descobrira a marosca:

- Andas a espreitar as galinhas da Gervásia para veres onde põem ovo?!

O rapaz não se coibia e ela aceitava-lhe, de bom grado, com prazer, os devaneios idílicos e os atrevimentos amorosos. Sobretudo aos domingos, em que o Pimentel era mais tolerante para com o fâmulo, dispensando-o das tarefas agrícolas, passavam horas a conversar, a rir, a divertirem-se no meio daquele gigantesco e descomunal silêncio. Na verdade, a Cuada apresentava-se como cenário primordial e genuíno para a vivência de tão grande e inexorável paixão. Aos poucos Joana como que ia renascendo, emergindo da letargia que inicialmente a dominava. Estava mais alegre, mais comunicativa, mais desembaraçada e, sobretudo, mais feliz. Já nem a massacrava, como outrora, o dramático passado, a dolorosa experiência matrimonial que tanto a atormentara, em tempos idos. Mas verdade é que também não sonhava com nenhum futuro. O seu envolvimento iniciava-se e terminava ali. Preferia estar assim, entontecida por aquela quietude, embebida pelo perfume daquele silêncio, como que anestesiada, a saborear, gulosamente, o sabor adocicado de cada dia que a presença dele lhe proporcionava. Sentar-se à tardinha, nas escadas do pátio, à espera, enquanto ele plissava as belgas com o arado ou desfazia os torrões com a grade, ou se vergava ao peso da enxada, carregando molhos de erva e cestos de batatas, numa azáfama desconcertante, cansativa. Tinha pena dele e desejava, ardentemente, aliviar-lhe o peso dos trabalhos, dulcificar-lhe a azáfama diária. E ele? Chegava suado, cansado, ofegante, estoirado mas vinha sempre solícito, meigo e acolhedor, ter com ela, atirar-lhe uma saudação, dizer-lhe uma graça, contar-lhe uma vivência mais divertida. Ela ria, tresloucava, encantava-se, entontecia de delírio. Eram felizes, muito felizes.

Certo dia chegou uma carta da América para o Pimentel. Trazia novidade. Grande novidade. Para o verão havia de chegar à Cuada um dos filhos. Louco de comoção, o Pimentel deu ordens rigorosas que exigiam e impunham mais trabalho, maiores canseiras que cerceavam encontros e obstruíram os devaneios a que se haviam habituado. Os trabalhos eram muitos e o tempo até à chegada do americano pouco. Havia que cobrir inhames, plantar mais uma belga de batatas-doces, pôr galinhas a chocar, engordar um porco, criar um gueixo, caiar a casa, que, nas vésperas da chegada, havia ser lavada de ponta a ponta. Uma desconsolação de corpo e alma. O americano até era bem-vindo, mas o diabo é que estava a dar cabo do que tinham de melhor. E deu!

O verão não demorou muito e o Carvalho que trazia o Gabriel, o filho mais novo do Pimentel, também não. A Cuada em peso foi esperá-lo. Uns até aos Terreiros, outros até à Eira da Cuada. E a casa do Pimentel encheu-se, de gente, de alegria, de cheiro à América. Mas passado um mês ficou deserta. O rapaz, perante a velhice e o abandono a que o pai fora votado, decidiu-se por, vender as terras e levá-lo consigo para América. O Porfírio, em lágrimas, não tanto por ser abandonado pelo patrão, mas mais por saber que seria afastado dela, foi desterrado, definitivamente, para a Fajãzinha.

Por esses dias a mãe de Joana, não contendo as saudades, veio à Cuada. Como já esquecera e já perdoara, ao regressar, trouxe a filha consigo, para a Fajã. 

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publicado por picodavigia2 às 09:41

DIA DE ANOS

Terça-feira, 21.04.15

(UM POEMA DE JOÃO DE DEUS)

Com que então caiu na asneira

De fazer na quinta-feira

Vinte e seis anos! Que tolo!

Ainda se os desfizesse…

Mas fazê-los não parece

De quem tem muito miolo!

 

Não sei quem foi que me disse

Que fez a mesma tolice

Aqui o ano passado…

Agora o que vem, aposto,

Como lhe tomou o gosto,

Que faz o mesmo? Coitado!

 

Não faça tal; porque os anos

Que nos trazem? Desenganos

Que fazem a gente velho:

Faça outra coisa; que em suma

Não fazer coisa nenhuma,

Também lhe não aconselho.

 

Mas anos, não caia nessa!

Olhe que a gente começa

Às vezes por brincadeira,

Mas depois se se habitua,

Já não tem vontade sua,

E fá-los, queira ou não queira!

 

João de Deus, Campo de Flores

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publicado por picodavigia2 às 08:21

EM VIAGEM

Segunda-feira, 20.04.15

Ainda mal tinha assomado ao portaló e o comandante, no cimo das escadas, já vociferava, berrava, barafustava e bufava por tudo, jurando a pés juntos que eu não sairia em mais nenhuma ilha. Que eu estivera quase a perder o barco… Que se eu tivesse ficado em S. Jorge como é que ia ser… Que tinha saído com obrigação de regressar antes do meio-dia e já eram aquelas horas… Não havia ter-me deixado ir a terra… Que isto e que aquilo… Eu bem argumentava ao contrário e atirava as culpas para os outros, mas que não os contrariara porque eles me tinham tratado muito bem. Além disso o senhor comandante não precisava de se ter preocupado absolutamente nada porque, afinal, eu chegara muito a tempo. Porém, não o demovia da sua relutante impertinência.

Para não o ouvir mais e porque o convés da primeira estava a abarrotar e os tripulantes não condescendiam com a minha presença ali, regressei à terceira classe, conforme indicava o meu bilhete. Por ali fiquei a tarde inteira, junto ao porão do gado, enquanto o navio ronceiro e tranquilo navegava lado a lado com a ilha, na direcção da Ponta dos Rosais, com destino à Graciosa, para na manhã do dia seguinte rumar à Terceira. Sentado em cima dum caixote olhava aquela ilha tão estreita e comprida, que me acolhera e que, aos poucos, se ia tornando mais distante e lembrava-me daquela inolvidável manhã, passada nas Velas, onde fora tratado com tanto carinho e, sobretudo, onde fruíra de amável companhia e granjear a estima e consideração. Não poderia nunca esquecer aquela manhã maravilhosa, pese embora a irritação que havia provocado no senhor comandante. E à medida que o navio se ia afastando de S. Jorge, mais eu recordava aquela manhã em terra firme, sem solavancos, sem balanços, sem enjoos, sem maus cheiros, sem fome e, sobretudo, sem a maldita exacerbação do comandante.

Na Graciosa o Carvalho fez serviço na Praia e ali esteve toda a tarde e grande parte da noite. Apenas de madrugada largou em direcção à Terceira, onde chegou na manhã seguinte, fundeando na baía de Angra e permanecendo ali ancorado durante um longo e enfadonho dia.

Grande parte dos passageiros que viajavam no Carvalho e tinham entrado nas outras ilhas, terminavam a sua viagem na Terceira. Por isso, depois do navio ancorar, a confusão no portaló e corredores anexos era grande. Para desespero meu, o senhor comandante ia terra mas voltava. Desde S. Jorge, nunca mais o vira nem ele me procurou ou dirigiu palavra. Revelando ainda algum ressentimento, veio, no entanto, antes de desembarcar, aconselhar-me o máximo cuidado durante o tempo que ainda me restava de viagem até São Miguel e proibindo-me, determinantemente, de ir a terra, para que não me acontecesse o mesmo que acontecera em São Jorge. Agradeci-lhe, mais uma vez a atenção e decidi ficar a bordo durante mais um longo e pesaroso dia, numa autêntica pasmaceira, sem fazer nada ou coisa nenhuma e, pior do que isso, sem me alimentar, pese embora já sentisse muita fome e uma enorme fraqueza. Na véspera à noite, enquanto o navio fazia serviço na Praia da Graciosa, quis armar-se em forte: entrei na terceira classe, com intenção de jantar. A ementa, afixada num placard, à entrada, era apetitosa e convidativa: bife com puré de batata. Ainda consegui o feito brilhante de me sentar à mesa e ser servido com um prato bem cheiinho do anunciado menu. Levei a primeira garfada à boca… Simplesmente intragável! Além disso comecei a ficar mal disposto devido ao ar sufocante da sala, aos maus cheiros que por ali abundavam, aos óleos fritos da cozinha e ainda porque alguém ao meu lado anunciava, em alto e bom, que aquilo era bife de cavalo. Zarpei dali, numa corrida louca, com uma enorme vontade de vomitar, sem comer uma única dentada, jurando nunca mais voltar àquela espelunca, impropriamente denominada sala de jantar, sobretudo, com o exclusivo intuito de matar a fome. De repente, comecei a sentir uma vasca terrificante e nauseativa. Parecia estar possuído de vibrações caliginosas, aflitivas e angustiantes. Muito a custo, consegui aproximar-me da borda do navio. Num ápice, perante o ricto malicioso dos que por ali passavam, entreguei aos peixinhos, gratuitamente e com uma enorme sensação de dor misturada com alívio, o pouco que no estômago ainda me sobrava do almoço nas Velas.

Passadas algumas horas depois de fundear na baía de Angra, o navio parecia quase deserto. No convés da primeira superabundavam espreguiçadeiras vazias. As pessoas que permaneciam a bordo resumiam-se à tripulação e pouco mais, dado que a maioria dos passageiros em trânsito saíra para terra, visitando a cidade e a ilha. Comecei, pois, a deambular, muito à vontade, para trás e para diante no convés da primeira, ora deitando-me nalguma espreguiçadeira ora assomando à amurada onde me entretinha a observar o Monte Brasil, a Memória, a Igreja da Misericórdia, o Canta-Galo, o Porto de Pipas, enfim, toda aquela maravilhosa cidade que eu apenas conhecia dos livros da escola primária, onde aprendera que tivera um papel preponderante nas lutas liberais, que D. Pedro IV, o Rei Soldado, a apelidara de “Mui nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” e que guardava os restos mortais do irmão de Vasco da Gama, ali sepultado a quando do regresso a Portugal do descobridor do Caminho Marítimo para a Índia. Depois olhava a borda do navio e extasiava-me com aquele frenético vaivém de embarcações que ligavam o navio ao cais da Alfândega, numa árdua e contínua lufa-lufa de transporte de pessoas, animais e mercadorias e que aqui eram bem maiores e mais numerosas do que as chatas das Flores, de S. Jorge ou da Graciosa.

De tarde o navio ainda parecia mais deserto e comecei a sentir uma fome terrível. Desde o almoço em São Jorge, no dia anterior, que não tinha comido rigorosamente nada. Além disso, tinha vomitado uma boa parte dele. Optei, pois, por ficar a bordo. Bem vistas as coisas, indo a terra talvez gastasse nas viagens todo o dinheiro que me sobrava. Por isso decidi que seria preferível investir metade dele no bar da segunda, poupar o restante para se precisasse ao chegar a São Miguel e ficar a bordo o dia inteiro. Comprei um pão com queijo, uma laranjada e um chocolate, o que me serviu de alimento durante todo aquele longo e enfadonho dia.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:51

DOMÍNIO DA DOR

Domingo, 19.04.15

“Todo mundo é capaz de dominar uma dor, exceto quem a sente.”

William Shakespeare

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publicado por picodavigia2 às 00:20

RURAL

Domingo, 19.04.15

MENU 59 – “RURAL”

 

ENTRADA

Salada de cebola, cenoura, pepino, pimentos e alface em molho de vinagrete.

 

PRATO

 

Creme de Salmão sobre crocante de fatias de pão acamado sobre grelos salteados e puré de batata-doce.

  

SOBREMESA

 

Pera e Gelatina de Pêssego.

 

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Preparação da Entrada: Para fazer o molho vinagrete juntar 3 colheres de azeite, 1 colher de mel e 1 colher de vinagre numa tigela e bater violentamente com um garfo, até se e envolverem bem. Picar finamente todos os elementos e envolvê-los no molho de vinagrete.

Preparação do Prato: - Cortar a cenoura em tiras e cozê-las juntamente com os grelos, a massa e o peixe. Separar e reservar Juntar o peixe, a massa e o creme de queijo com sabor a salmão. Temperar com ervas aromáticas e orégãos. Reduzir a creme com a varinha mágica. Escorrer os grelos. Alourar o alho finamente ficado no azeite e juntar os grelos, Acrescentar o mel e o vinagre e envolver muito bem. Juntar o creme de queijo fresco à batata-doce, temperar com ervas aromáticas e reduzir a puré. Colocar os grelos em forma redonda e prensá-los. Torrar a fatia de pão de forma a ficar crocante e colocá-la sobre os grelos. Cobrir este preparado com o creme. Decorar com as tiras de cenoura formando arcos. Colocar o puré, e, montículos, ao redor.

Preparação das Sobremesas – Confecção tradicional.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:16

A LENDA DOS TREMOÇOS

Sábado, 18.04.15

Consta que no início do povoamento da Fajã Grande e nos anos que se seguiram a população daquele lugar, encurralada entre o mar e a rocha, vivia num sobressalto permanente e sob um medo constante devido às frequentes ameaças de alguns barcos de piraras que, demandando a ilha na procura de água e víveres, por vezes, aproveitavam para assaltar, roubar, destruir, violar as mulheres e matar. A população indefesa e sem ter onde se refugiar, umas vezes fugia para o mato, outras recorria às mais diversificadas artimanhas para afastar os malditos. Destas espécies de luta em que o rato se escondia, habilmente, a fim de fugir às terríveis e mortais ameaças do gato, contavam muitas estórias. Naturalmente também nasceram muitas lendas, algumas das quais, muito provavelmente, se terão diluído e extraviado no tempo. A que se segue é uma destas. Consequentemente, se não aconteceu, poderia muito bem ter acontecido.

Consta-se que certa vez em que o povoado foi invadido pelos tiranos, um grupo de pessoas não teve tempo de fugir para o mato como fazia habitualmente. Assim refugiou-se, num lugar que julgava seguro, nas margens da Ribeira das Casas, entre os pedregulhos e rochedos que por ali abundavam. Como ficassem ali muitos dias, esgotaram-se os alimentos que haviam levado consigo e que eram poucos, Restavam apenas uns sacos de tremoços cozidos, mas muito amargos.

Ao perceber que os piratas estavam próximos e os iriam atacar, talvez até matar, depois de violarem as mulheres, afastaram-se para junto da rocha, para um lugar mais escondido, deixando as panelas cheias de tremoços amargos. Os piratas saltaram para terra e, ao aproximar-se, viram as panelas com os tremoços. Como vinham cheios de fome, começaram a comê-los. Porém, achando-os muito amargos cuidaram que o povo os tivesse envenenado. Cheios de medo e cuidando que iam morrer fugiram para o barco que, de imediato, abandonou a ilha, podendo o povo, finalmente, regressar às suas casas salvo e tranquilo.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:07

NO MOINHO DE TIO MANUEL LUÍS

Sexta-feira, 17.04.15

A Maria e o José foram incumbidos de ir levar a moenda ao moinho de Tio Manuel Luís enquanto os pais iam, como de costume, trabalhar os campos. Como a moenda fosse grande e pesada os pais dividiram-na por dois sacos mais pequenos, colocando um às costas do José e o outro à cabeça da Maria. De seguida avisaram-nos. Que tivessem muito cuidado, sobretudo ao subir a canada da Ribeira das Casas e ao atravessar a ponte e que esperassem que o Tio Manuel Luís lhes moesse o milho para trazerem os sacos de volta, cheios de farinha. É que a mãe precisava da farinha para a fornada da tarde. Ao chegar a casa haviam de ir buscar o António e o Carlos, à Fontinha, a casa da avó. Viriam com eles para casa e haviam de esperar que o pai e a mãe, regressassem da Cabaceira onde iam sachar e mondar duas belgas de inhames. Trariam dois cestos deles.

A distância entre a sua casa, na Assomada, e os moinhos, para lá da Ribeira das Casas era bastante longa e era preciso ir com cuidado, sobretudo para o José não tropeçar nalguma pedra e fazer mais uma tupada num dedo ou até cair. Além disso deviam ir bem agasalhados, pois era inverno e fazia muito frio. Além disso, junto à ribeira era sempre mais fresco.

Orgulhosos, pezinhos descalços, as duas crianças, o José de nove e a maria de oito, partiram. Para encurtar caminho, decidiram subir a Fontinha, até ao palheiro de Tio José Teodósio. Aí, entraram na canada que dava para o Mimoio, onde os pais tinham um cerrado de milho. Depois seguiram até à Ribeira das Casas. Era só atravessar a ponte e subir a canada paralela à ribeira, até ao Moinho de Baixo, como a mãe havia sugerido.

O Mimoio era um lugar muito bonito e da canada via-se muito bem a torre da igreja e as casas da Rua Direita, da Via d’Água e, sobretudo as da Tronqueira que ficavam bem mais perto. Uma bela vista que se estendia pelo rolo, até ao Ilhéu do Cão e à Ponta. Lá longe a Baixa Rasa, o Monchique e um outro navio, a atravessar o Atlântico, talvez vindo da América e que ia não se sabia para onde.

As duas crianças iam muito contentes, embora tremessem de frio. As moendas eram pesadas mas a Maria bem chamava o José, sempre muito lento e desejoso de olhar para todos os lados, para que se apressasse, a fim de que fossem dos primeiros a chegar ao moinho e tio Manuel Luís os despachasse bem cedo. Alem disso, andar de pressa era uma boa maneira de aquecer o corpo e sentir menos frio.

Depois de algum tempo de caminhada, muito cansaditos, chegaram ao moinho. A canada que lhe dava acesso também era muito bonita e a Maria adorava ouvir o correr da água por entre as pedras, ver os passarinhos a saltitar do ribeira para as relvas, a depenicar aqui e acolá cantarolando, e, sobretudo, apreciar o cair da água pela rocha abaixo até encher o Poço do Bacalhau. Mas deste tinha medo. Nunca se havia de aproximar dele. Diziam que, de noite, se ouviam gritos, de um homem mau que, antigamente, tinha sido atirado lá para dentro, precisamente por ter sido muito mau em vida.

Quando chegaram ao moinho, apareceu-lhes o tio Manuel Luiz. Parecia que tinha sido pintado de branco do cocuruto aos pés, pois estava com a cabeça, a cara, as mãos e a roupa toda salpicada de farinha. Mas era muito bondoso. E, ao vê-los, veio, de imediato, tirar-lhes os sacos de milho.

- Então meninos! Foram vocês que vieram hoje trazer a moenda? Podem ir embora e vir amanhã buscar as sacas. Logo de manhã estarão prontas.

- Mas a minha mãe precisava da farinha para cozer o pão hoje. – Disse a Maria um pouco tímida. - Já não temos nem pão nem bolo para a ceia.

- Nem farinha para fazer papas. – Acrescentou o José que se pelava por papas com leite.

- Bom, - disse tio Manuel Luís, limpando a farinha da face com as costas da mão. – Sendo assim, há aqui uma moenda que pode esperar para a manhã. Vou moer a vossa na vez dela. Enquanto a moer vocês podem aproveitar para ver o moinho e dar um passeio pelos campos. Mas se preferirem podem ficar aqui sentadinhos.

Sentaram-se os dois num banquinho que existia ao lado da porta, observando toda aquela geringonça e o barulho que fazia. Um barulho infernal. Tio Manuel Luís pegou nas duas moendas, cortou-lhes os cordões e despejou todo o milho numa enorme caixa, em forma de pirâmide invertida e que estava presa aos tirantes do moinho, descaída sobre uma grande mó que rodava sobre uma pedra redonda com bordos ao redor. Os grãos de milho, através dum leve movimento, saíam da caixa por uma calha que, estremecendo, os ia deixando cair, lentamente, num buraco redondo que existia no meio da grande mó. A farinha, branquinha como a neve, ia saindo debaixo da mó e era apanhada numa caixa, colocada no chão. De vez em quando tio Manuel Luís pegava num punhado de farinha, passava pelas mãos, a fim de saber se estava grossa. Neste caso, subia uns degraus ao lado da mó. Ia afiná-la, a fim de que a farinha saísse mais fina.

O moinho era um interessante mecanismo que aproveitava a força da água para se mover, permitindo moer grãos de milho. A água que caía da rocha e deslizava pela ribeira era desviada por uma levada, uma espécie de rego que havia sido construído e onde a água se projetava sobre uma enorme roda com rodízios e que a movimentava. Era o movimento desta roda que punha em ação toda a engrenagem do moinho. O José e a Maria observavam tudo isto, muito admirados. Tio Manuel Luís ainda os levou ao inferno do moinho, ou seja a uma loja que existia por baixo, a que se tinha acesso por uma porta exterior, e onde existiam uma série de rodas dentadas que com o impulso da roda exterior se iam movimentando umas às outras, fazendo um barulho infernal. Eram estas rodas que faziam mover a mó. No andar de cima existia uma velha cama onde tio Manuel Luís dormia. Tinha que ficar ali de noite e lá dormir porque quando acabava uma moenda eles tinha que encher a caixa com o milho d’outra.

Por fim tio Manuel Luís pegou-lhes nos sacos e encheu-os de farinha, depois de retirar a sua maquia, seja, meia quarta de farinha que tirava sempre de cada moenda para o pagamento de a moer. De seguida e sempre muito paciente amarrou-lhes os sacos colocando um às costas do José e outro à cabeça da Maria, dizendo-lhes:

- Estou a ficar velho, já quase não posso pegar numa moenda. Qualquer dia vou entregar o moinho ao meu filho Tobias. Ele é que vai ficar aqui no meu lugar. Ele inventou e está a construir uma engenhoca com a qual não é preciso dormir aqui, porque quando acabar uma moenda ele amarra uma corda à mó que está presa a uma prancha de madeira, la fora. A corda deita a prancha abaixo e a água é desviada e deixa de ir para cima da roda e o moinho para por si. Assim já podemos dormir em casa. Modernices! – Concluiu o tio Manuel Luís, limpando a farinha da cara e despedindo-se das duas crianças. – Vão com cuidado! Ouviram?

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publicado por picodavigia2 às 00:05

PERDIDOS NO MATO

Quinta-feira, 16.04.15

A noite era escura, muito escura. O céu estava de tal forma encoberto que nem se via uma única estrela. Álvaro e o pai caminhavam nos matos, atravessando a ilha, ora andando sobre a fresca alfombra das pastagens ora furando tapumes, saltando valados e grotões, trilhando veredas e atalhos sinuosos. Haviam partido de Ponta Delgada, à noitinha, com destino à Fajã Grande. A certa altura, Álvaro, muito a medo, quebrando silêncio, interrogou o pai:

- Ó pai, no fim da missa o senhor padre reza uma oração para afugentar os espíritos malignos que vagueiam pelo mundo para perdição das almas… É verdade que aparecem espíritos ou almas do outro mundo, durante a noite?

O pai, mais preocupado com as dificuldades de tão ignóbil caminhada, nem lhe respondeu. Mas uns momentos depois, ou porque o miúdo insistisse ou porque outro assunto o preocupasse, parou e disse-lhe:

- Espera! Olha Álvaro, perdidos estamos nós. Mas não te preocupes. Antes de chegarmos às relvas vínhamos por um atalho. Era fácil encontrá-lo. Agora entramos nas pastagens, andamos por carreiros formados pelos passos das pessoas, através da erva, separadas por cancelas, tapumes de hortênsias e por grotões e ribeiras. É difícil seguir pelo carreiro certo sem nos desviarmos. Mas vamos voltar a encontrá-lo. Não te preocupes.

- Ai, meu Deus! Tenho tanto medo, pai! E agora? Perdidos no mato! Vamos ficar aqui até de manhã?

- Não. Temos que seguir para nossa casa. Vamos procurar o caminho e vamos encontrá-lo. – Calou-se, por uns momentos. Pouco depois, prosseguiu: – Olha filho, há aqui um tapume de hortênsias. Perto deve haver a cancela que dá para a relva seguinte… Vamos procurá-la.

Calaram-se, novamente. Foi o miúdo, de novo, a quebrar o silêncio:

- Pai, encontrou alguma cancela?

- Não, Infelizmente, não. Estamos mesmo perdidos Mas acalma-te. Vamos resolver isto.

De novo reinou um silêncio temeroso entre eles, interrompido de vez em quando pelo bramido de uma ou outra onda mais afoita, lá ao longe, a desmoronar-se contra os rochedos. Pouco depois o pai, como se acordasse de um pesadelo, ordenou:

- Vamo-nos sentar um pouco.

- Pai, a erva está molhada!

- É do sereno. Senta-te em cima da minha froca.

- Ó pai, cada vez tenho mais medo. Vamos ficar aqui toda a noite?

- Não. Vamos resolver isto e já. Descalça os sapatos!

- Ó pai! Para quê? Tenho os pés quentes e a relva está toda molhada…

- Faz o que te digo. Descalça-te e dá-me os sapatos. Vou guardá-los na manga da minha froca, até ao Risco, onde acabam as relvas. Do Risco para lá já os podes calçar. Agora vais andando à minha frente, muito devagar, caminhando com cuidado de modo a sentires a relva debaixo dos teus pés, até encontrares o carreiro, onde ela está amachucada. Estás habituado a andar descalço. Passa muita gente por aqui. A erva está muito amachucada no sítio onde as pessoas passam. Assim, com os teus pés, vais conseguir encontrar o carreiro.

- Agora percebo. Dê-me a mão, que tenho tanto medo. Mas descanse, pai, que eu vou encontrar o carreiro.

- Vamos! Vai andando devagar, arrastando os pés… Assim…

Seguiu novo e prolongado silêncio. Até o marulhar das ondes parecia ter-se perdido. O pai insistia com Álvaro, animando-o, incutindo-lhe ânimo:

- Coragem, Álvaro. Não desistas! Segue devagarinho… Procurando bem…

De repente Álvaro emite um enorme grito de alegria:

- Pai! Encontrei! É aqui! Olhe, apalpe com as suas mãos e veja. É aqui, não é?

- É! É! Bravo! Estás a ver como foi fácil. Agora vai sempre direitinho, à minha frente, pelo carreiro adiante…

- Pai, mas eu queria ir ao seu lado, queria ir de mão dada consigo. Tenho medo. Olhe ali um vulto. É uma vaca deitada? Eu tenho tanto medo.

- Só deves ter medo de nos perdermos outra vez… E eu acho que continuamos perdidos. Estamos a andar na direção de Ponta Delgada e não na direção da Fajã.

- Ó pai! Outra vez perdidos! Nunca mais chegamos a casa. E agora? O que vamos fazer?

- Agora vamos ter que resolver outra vez. Mas a noite está muito escura e não se vê nem a Ursa Maior nem a Estrela Polar… Não sabemos para onde fica o norte e por isso não sabemos se vamos na direção da Fajã. Mas vamos continuar a andar e quando encontrares uma parede, paras.

- Está bem, pai.

Novo silêncio, até que uma pequena parede, de pedras toscas, cobertas de musgo lhes obstruiu a caminhada:

 – Olhe! Estamos com sorte. Há aqui uma parede.

- Então vamos parar.

Álvaro sentou-se. Era uma criança. Tinha pouco mais do que sete anos. Para além de cansado, começava a sentir sono. O pai, aproximando-se da parede, acariciou-a com as mãos de ambos os lados. Depois, com muita determinação e certeza, disse:

 - Íamos enganados, pois íamos. Nesta direção, regressávamos a Ponta Delgada. Vamos voltar para trás, porque a Fajã é na direção contrária.

- Como é que meu pai descobriu.

O pai, pacientemente, explicou:

- Eu nunca andei na escola, mal sei ler e escrever, mas durante a minha vida, aprendi muito, com o trabalho e com meu pai, teu avô, que já morreu há muitos anos. Ele ensinou-me que quando há nevoeiro ou andamos numa noite escura no mato e não se vê nada, nos podemos orientar pelas paredes, porque as paredes e os muros voltados para o norte recebem menos sol e, por isso, têm mais humidade e têm mais musgos e mais ervas. Foi isso que eu descobri, quando estive a apalpar a parede. Fiquei a saber para que lado fica o norte. Ora nós íamos a andar para o norte e como a Fajã fica para sul, foi só voltar ao contrário. Agora tenho a certeza que vamos na direção certa.

- Boa, pai! E agora? Demoramos muito, até chegar acima da Rocha da Ponta? Já deve ser muito tarde. Deve ser quase meia-noite.

- Ainda não. Mas se fosse, qual era o problema?

- É que toda a gente diz que a meia-noite é a hora má, é a hora do demónio, em que ele aparece e aparecem muitas outras coisas. Avó até sabe uma oração que reza para o afugentar para longe, quando está acordada à meia-noite. Tenho tanto medo pai e ainda falta tanto para chegarmos a casa.

- Já te disse para não acreditares em nada disso. Tudo são coisas que as pessoas inventam:

- E, depois de passar na Ponta, a ainda temos que descer a ladeira das Covas…

- E o que tem a ladeira das Covas?

- Pai não sabe? As pessoas quando passam lá ouvem gemidos. Acredite, pai! Toda a gente que passa lá ouve. Até o Senhor Padre Silvestre quando vai dizer missa à Ponta ouve. Ele ficou cheio de medo. Agora até leva sempre dois homens com ele e dizem que os três ouviram os gemidos. A tia Juliana diz que aquela ladeira tem coisas do outro mundo porque Tia Fraga contava que antigamente um homem viu lá uma mulher com pés e mãos de cabra.

- Isso são tudo tolices! Já foi descoberto o que eram os gemidos que toda a gente ouvia. Era a Ana do José Felício que andava por lá a gemer. Ontem um grupo de homens foi-lhe fazer uma espera, na relva do João Cristóvão. Esconderam-se toda a tarde na relva e à noitinha viram-na chegar e esconder-se numa furna. Eles calaram-se bem calados. Quando ela sentia alguém passar na ladeira, punha-se logo a gemer e a gritar. Eles pensavam que era apenas para assustar o senhor padre Silvestre. Mas depois apanharam-na e deram-lhe uma sova e ela lá explicou que só queria que as pessoas da Ponta tivessem medo de passar por ali, para não irem levar a moenda ao moinho do André e as deixassem no seu, que ficava para além da ribeira do Cão. Presta atenção ao carreiro e não penses mais nas tolices que te metem na cabeça.

- Fico mais descansado… Mas já deve ser tão tarde… E ainda falta tanto para chegarmos acima da Rocha da Ponta. E aquela rocha é muito difícil de descer… e assim às escuras…

- Ou eu me engano muito ou quando chegarmos acima da rocha já vamos ter Lua. Vai é com cuidado e atenção para não caíres e não nos perdermos outra vez. Tua irmã deve estar muito preocupada. Temos que andar mais depressa.

- Vamos, pai! – Disse Álvaro cada vez mais sonolento

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publicado por picodavigia2 às 10:10

MERENDA DE ABRIL

Quarta-feira, 15.04.15

Quem em Abril não merenda, ao cemitério se encomenda.”

Muitos e variados eram os provérbios utilizados, antigamente, com referência ao mês de abril. Talvez porque este fosse um dos mais interessantes meses do ano. Cuida-se que o nome abril derive da palavra latina aperire, um verbo que significa abrir. Na verdade este é o mês do início da primavera em que tudo na natureza se abre ou melhor refloresce. Mas também é neste mês que os campos são abertos, ou melhor, são cavados e lavrados para neles se colocarem variadas sementeiras. A maior e mais cansativa sementeira era a do milho que devia estar concluída nas primeiras semanas aguardando-se pela ocasião mais oportuna para se abrir o terreno, lavrá-lo e semeá-lo. Terras havia em que já era tempo de o sachar e mondar. Por isso o mês de abril é um mês de muitas lidas e canseiras e que exigia muito trabalho e grande esforço humano. Para isso era preciso força e, consequentemente ter uma boa e sólida alimentação. Esta será muito provavelmente a razão de ser deste adágio que, apesar da Fajã Grande não ser terra de lautas e frequentes merendas, ali era utilizado, como em muitas outras localidades, portuguesas, de onde terá sido trazido para os Açores, pelos primeiros povoadores.Pretendia-se alertar para a necessidade das pessoas estarem preparadas para os cansativos e pesados trabalhos agrícolas do quarto mês do ano.

Razão tinha Michelle Ramos quando escreveu: Trabalhar para comer e comer para trabalhar, a eterna filosofia da vida monótona que muitos possuem.

Na Fajã Grande, antigamente, muitos homens começavam a trabalhar de madrugada, antes do sol nascer, completamente em jejum, sem comer ou tomar uma boa tigela de café antes de suar as estopinhas. Quando se nega a energia do alimento ao nosso corpo, ele vai usando as suas reservas de gordura e, consequentemente, enfraquecendo. Isso para quem trabalhava de sol a sol, arduamente, a cavar, a sachar, a ceifar podia ser e era de facto muito prejudicial. Sem uma boa alimentação quem trabalha muito vai se sentir cansado e fraco. O trabalho não rende. Alem disso surgem as doenças, por vezes a morte prematura, como se pode depreender, consultando os registos de óbitos da Fajã, no final do século XIX. Os homens faleciam, regra geral, muito novos. Os trabalhos de abril exigiam, pois, uma sólida alimentação, incluindo uma boa merenda.

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publicado por picodavigia2 às 09:04

A EIRA DA CUADA

Terça-feira, 14.04.15

A Eira da Cuada era um dos mais interessantes e míticos lugares a Fajã Grande. Situava-se num planalto, junto ao mar, a sul da freguesia e, consequentemente, muito próximo da Fajãzinha. O acesso a este lugar, para quem morava na Fajã, fazia-se pelo antigo Caminho da Missa que tinha o seu iniciava no cimo da Assomada, à direita de quem a subia. Os habitantes da Cuada, no entanto, podiam deslocar-se para os campos e propriedades que ali possuíam através duma estreita e sinuosa canada que ligava os dois lugares, conhecida pela Canada da Eira da Cuada. Quem vinha dos lados da Fajãzinha chegava à Eira da Cuada atravessando a Ribeira Grande e subindo a ladeira do Biscoito, que fazia fronteira a sul com aquele interessante lugar. Os restantes confrontos eram a Cuada a leste, o Caminho da Missa a norte e o Oceano Atlântico a oeste. O nome advinha-lhe, provavelmente, de em tempos idos, ter existido ali uma eira onde os habitantes da Cuada debulhavam o seu trigo. Trata-se, no entanto, de uma mera hipótese, uma vez que na década de cinquenta do século passado já não existiam vestígios ou memórias de qualquer eira ali existente noutros tempos. Assim, o epíteto poder-lhe-á ter sido atribuído, simplesmente, pelo facto daquele lugar se situar sobre um amplo planalto, de tal maneira liso e circular, formando um grande eirado e que fazia lembrar uma espécie de eira gigante.

Mas o que mais caracterizava aquele lugar era o facto de apenas a parte leste do mesmo ser ocupada por terras de lavradio pertencentes, na maioria, aos habitantes da Cuada, enquanto a oeste e sobre uma enorme ravina lançada sobre o mar, existir uma espécie de largo, um espaço público ou de ninguém, relvado e povoado de variadíssimos calhaus. Entre estes existia um muito especial, designado por Pedra da Missa ou Calhau de Nossa Senhora. Acerca deste calhau, contava-se que antigamente, quando a Fajã Grande ainda não era paróquia e, consequentemente, não tinha igreja nem pároco, os seus habitantes deslocavam-se à Fajãzinha, todos os domingos, para assistirem à missa na igreja paroquial. Acontecia porém que a Ribeira Grande, que separa as duas localidades, como é bastante larga e com um caudal muito volumoso, não possuía ponte mas sim umas pequenas passadeiras ou alpondras que em dias de muita chuva ficavam submersas na água, o que, juntamente com a força do caudal, umas vezes dificultava e outras impedia por completo a sua travessia. Quanto tal acontecia os fiéis, impossibilitados de atravessar a ribeira, ficavam do lado de cá, no alto da Eira da Cuada, olhando para a igreja da Fajãzinha, que dali de se avistava, rezando e cantando durante a celebração da missa e apenas se dispersando e voltando às suas casas quando viam as pessoas saírem da igreja, sinal de que a missa terminara. Além disso faziam-se sempre acompanhar duma pequenina imagem de Nossa Senhora que colocavam em cima daquela pedra, durante a missa, ao redor da qual ajoelhavam e rezavam. Em paga da sua grande devoção, a imagem de Nossa Senhora, que fora ali colocada tantas e tantas vezes pelos crentes, deixou, para sempre, bem gravadas naquele calhau as marcas dos seus pés. Na verdade na pedra existiam duas pequenas cavidades na parte superior, semelhantes às marcas de dois minúsculos pés. Também se contava que no regresso os fiéis vinham carregados com pedras destinadas à construção de uma ermida, o que de facto aconteceu antes da construção da atual igreja, na década de cinquenta do século XIX.

Acrescente-se que sendo o Caminho da Missa, outrora, via obrigatória para quem se quisesse deslocar da Fajã Grande à Fajãzinha ou a qualquer outra localidade da ilha, exceto a Ponta Delgada e aos Cedros, este lugar era muito movimentado, sobretudo em dias de vapor ou seja nos dias em que o velhinho Carvalho de Araújo demandava a ilha das Flores. Por ali passavam, nesses dias, dezenas e pessoas, não apenas os que haviam embarcar ou desembarcar, mas também os familiares que os acompanhavam até aos Terreiros ou até a Santa Cruz ou às Lajes, assim como os comerciantes e os carros de bois que acarretavam as mercadorias que a Fajã produzia, nomeadamente manteiga, assim como os animais que embarcavam, mas sobretudo os que traziam ou acarretavam os produtos importados e que o navio transportava, nomeadamente, farinha, açúcar, café, sabão, petróleo e algumas bebidas.

Era também à Eira da Cuada que muitas pessoas se deslocavam, nesses dias em que o Carvalho chegava, para irem esperar os parentes e familiares que chegavam à ilha, de modo muito especial os americanos. Eram sobretudo as crianças e os velhos, porquanto os jovens e os adultos, mais afeitos e expeditos, seguiam até aos Terreiros onde os carros de praça vindos de Santa Cruz, terminavam o seu percurso.

Do alto da Eira da Cuada desfrutava-se de uma maravilhosa vista, sobre o mar, a Fajãzinha, a fajã que a ladeava, a rocha cheia de verde e de cascatas, as rochas da Figueira e dos Bredos, onde, em meados da década de cinquenta, começava a desenhar-se a nova estrada que ligaria os Terreiros à Fajã Grande. Deslumbrante, este lugar!

 

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publicado por picodavigia2 às 08:12

ENTRE DUAS LÁGRIMAS

Segunda-feira, 13.04.15

Foi na segunda aula. Não pudera comparecer à primeira. Quando o professor deu os trabalhos por terminados e ordenou que saíssem, ela veio, junto dele, desculpar-se. Embora revelasse um certo nervosismo, a cara acetinada, o rosto macio e os olhos muito esverdeados e brilhantes atordoaram o mestre. Tanta beleza consubstanciada num olhar perturbaria os menos sensíveis. Era nova, bonita, alegre e de sorriso comunicativo. Revelava uma doce sublimidade disfarçada de encanto. Emanava uma elegância discreta e natural, uma beleza rara, consubstanciada na sua essência. Um êxtase! Um arrebatamento! O mestre pasmou! Embeveceu-se. A sua íntima ternura, a exuberância do seu encanto, o deslumbramento das suas palavras atiçavam-no, pela primeira vez, para um trágico beco de inquietação e perplexidade. Quase perdia a respiração.

Havia acompanhado, anos após ano, dezenas, talvez centenas de alunas, belas, atraentes, sedutoras. Mas como aquela… Nunca. Havia qualquer coisa que medrava nela e que o destronava da sua fulgurante e presunçosa dignidade de mestre. Crescia-lhe na alma uma espécie de tempestade, uma indomável turbulência que lhe toldava a serenidade, lhe ameaçava ruir o decoro e o ornava de um suplício atroz mas dulcificado. Desconhecia, porém, a grandeza e a profundidade da paixão que, momentaneamente, se lhe cravara no peito e o arrasava, petrificava e projetava para um mundo a que era totalmente alheio. Nem consciência tinha do mal inequívoco que, muito provavelmente, se havia de atrelar a tamanha loucura, nem das trágicas consequências que o desabrochar de um envolvimento, embora ainda inexistente mas previsível, lhe havia de acarretar.

Anestesiado pelo quadro que se lhe deparara, aceitou as desculpas com palavras e gestos demasiadamente comprometedores dos sentimentos que o atordoavam, e que não podia ocultar. Ela, astuta e capciosa, percebeu, reservando, em redoma dourada, os trunfos que o destino, gratuitamente, lhe disponibilizavam. Mas ao sair voltou-se e, momentaneamente, como que se arrependeu dos seus vis e desleais devaneios. Nunca havia de jogar, em seu triunfo ou provento, os dons vantajosos que lhe eram oferecidos, sem nada ter feito ou muito menos lutado para os conseguir. Ele, na verdade, revelava-se bondoso, meigo e digno. Não merecia qualquer maléfico cometimento. Até lhe doía deixá-lo ali, sozinho, emaranhado em tão malévolo suplício. Tinha consciência perfeita de que, ao afastar-se, o deixaria amofinado de angústia, de inquietação, a rondar o desespero. O mestre que o acaso lhe disponibilizara, revirava-se, sozinho, sobre um reboliço de emoções contraditórias. Subtis modificações domavam a sua mais simples expressão. Mas era um homem de decisões fortes, de oposição a tentações, perito em dignidade. Havia de transfigurar, embora muito a custo, toda aquela enxurrada de emoções, desejos e vontades. Havia mesmo de obstruir uma paixão que, eventualmente, despontava. Mas naquele momento o confronto entre a iminência de uma tremenda paixão e a excelência do seu profissionalismo acossavam-lhe o destino. Lançava-o num drástico e pérfido paradigma. O que o coração sentia sem o domar, o que a paixão lhe ditava sem o servilizar estava ali tenebroso e incerto. Arrumou, muito a custo, a secretária, enfiou alguns livros e papéis na pasta, retirou a gabardina de um cabide que havia nas traseiras da porta e saiu. Pouco depois rumou a casa, confuso, perturbado, emerso em dúvidas e remorsos. Nem uma sombra de indignidade poderia macular a sua arrebatante, credora e austera reputação de mestre.

Na manhã seguinte bateram-lhe, levemente, à porta do gabinete. Era ela! Vinha mais bela, mais sublime, mais elegante e mais perfumada. O mestre tremeu! Não... Seriam apenas amigos, partilhariam aquela amizade possível, aceitável, entre discípula e mestre, obstruída a aventuras escaldantes. Seriam escravos de um amor impossível, duma intimidade limitada, de um envolvimento inexequível. O relacionamento que as exigências profissionais lhe impunham, bloqueavam-lhes os sentimentos. Fechavam-se as portas duma intimidade frenética, luxuriante, louca. Gostavam um do outro, não apenas como mestre e discípula. Como homem e mulher. Como companheiros de jornada, parceiros de destino. E ao despedir-se, ela nem hesitou por um momento. Cumprimentou-o de beijo. Ao sentir-lhe a pele macia, o rosto harmonioso, o perfume dulcíssimo, o mestre voltou a tremer. De imediato, romperam-se todas decisões, rasgaram-se todas as cortinas, ruíram todos os diques de resguardo, que insensivelmente havia, por momentos, construído, na mira de ir afastando, como coisa conspurca, imunda e contagiosa, a paixão que crescia avassaladoramente, dentro de si e que o denunciava. Os outros é que não se compadeceram nem descuidaram. Juntando em puzzle todos os tremeliques e salamaleques que o mestre descortinava sempre que via a moça e anexando as frequentes idas desta ao gabinete, acusaram, julgaram e condenaram sem complacência. Fizeram correr de ponta a ponta da escola que aquilo era suspeito. Ali havia gato. Era por mais evidente! Pérfido, corrupto, assediador, tarado! Haviam de cuidar-se as outras. E, abruptamente, da noite para o dia, o mestre defrontou-se com o seu prestígio beliscado, excomungado, olhado com reservas. Durante algum tempo, navegou em marés de cuidados e precauções. Nenhuma atitude, palavra, gesto ou olhar que o comprometesse. Por fim, decidiu libertar-se. Que se lixassem as suspeitas e quem as lançava. Que se tramassem as condenações e os linchamentos morais. Que se fodessem os deturpadores da honra alheia. A moça estava ali, a seu lado, todos os dias. Era impossível resistir-lhe. Tinha coração de homem. Afinal, as emoções, os afetos e os sentimentos iniciais nunca se haviam desfeito. Apenas os suspendera para evitar um previsível serrabulho. Não o conseguira. Não havia continuar a mortificar-se. Era por demais evidente o que sentia. Qualquer tentativa de o esconder sairia gorada. Os outros tinham razão. Mas nada fizera que merecesse ser julgado e condenado em praça pública.

Em vez de continuar a fingir, começou a navegar numa felicidade empolgada, delirante, plena de emoções. Nas aulas, nos encontros, nas reuniões, nas visitas que ela lhe fazia empolgava-se cada vez mais. Ou da força que a aproximação dela lhe transmitia, ou da condescendência das suas atitudes, por vezes, imaginava, sentia e cuidava de verdade que ela também o amava. Isso por um lado tranquilizava-o, mas por outro empolgava-o mais e concedia-lhe um misto de excitação, de tentativas de se entregar a ela. Florescia em deslumbramento, aliava-se à transcendentalidade, navegava uma alegria perene e dignificante. Aquele ano letivo havia de ser único e inolvidável. Seria consagrado como epílogo da doçura, do encanto, do enfeitiçamento. Havia de guardar em arca e marfim um papiro com o registo da suavidade daquela ternura, da sublimidade daquele estranho envolvimento. O ano do triunfo e da glória em que quebrara, corajosamente, as invisíveis amarras que o prendiam a um estúpido estatismo amoroso. Gafado, mostraria, aos que haviam espoliado a sua dignidade, a força de se encharcar numa avassaladora paixão. Ela seria inevitavelmente sua. Não abafaria mais os rugidos das suas delirantes emoções.

Despertou. Uma estranha mudança se operara nas atitudes e nos gestos dela. À medida que o tempo passava e que ano letivo se aproximava do fim, parecia aconchegar-se mais no empolgamento dos seus encantos. Tornava mais evidente, aquela estima que o mestre cuidava ser amor. Correspondência. Enlevava-se, cada vez mais, o mestre enquanto ela como que se anestesiou-se das exigências da excelência profissional. Alienou-se do rigor científico. Navegou num mar de superficialidade cuidando que o mestre, por embevecido, dormia.

No gabinete, sobre a secretária, caíram-lhe resmas de pastas, recheadas de tratados, de ensaios e de trabalhos de pesquisa, a maioria, roçando a superficialidade e a frivolidade. Relatórios sem fim! Uns melhores, outros piores. Tinha que os ler todos. Chegou ao dela. Arrepiou-se. Instintivamente, cuidou que estaria galvanizado pela sua dignidade, pela superioridade e pela excelência que, cego pela paixão, lhe empastara. Havia de o valorizar ao máximo. Ao primitivo delírio emocional sucedeu-se um grito de revolta pungente. Não tinha memória de semelhante miséria. Só poderia ser um descuido fatal, uma imprudência alheada, a réplica dum descuido involuntário. Ela valia mais, muito mais. Entre reprová-la e o deixar-se levar pelas ondas dos sonhos passados optou por chamá-la ao gabinete. Sem se importar com os comentários dos outros que, expectantes, também aguardavam veredicto.

Sentou-a a seu lado, tentando encher-se de coragem, resistindo a todas as forças que o atiçavam em estonteante devaneio. Nunca a tivera tão perto de si. Sentia-lhe o perfume, o arfar do peito, o bafejo do respirar o refolgar da sua excitação. Por entre o degote da blusa descortinava-lhe uma nesga dos seios. Ia começar. Mas não teve coragem. Pela primeira vez, sentia-se superior, dono, senhor. E ela? Uma escrava, uma serva, uma vítima indefesa. E os outros lá fora, cochichavam, murmuravam, recriminavam, teciam vis e malévolos comentários. Alheou-se e, por fim, despindo as vestes de apaixonado, de louco, encheu-se de coragem e desabou o veredicto da verdade real. Aquilo não tinha pés nem cabeça! Era uma vergonha! Uma miséria! Revelava uma incompetência total! Absoluta! Não lhe poderia dar aval. Decerto que aquilo não era ela. Não podia ser. Descuidara-se, distraíra-se, enveredara pela frivolidade, entrincheirara-se no corredor do facilitismo, nas veredas da superficialidade. Inacreditável! Inaceitável! Inconcebível! Ela, entre um misto de desânimo e aflição. Tão cruel relatório avaliativo doía! De repente, sem que o mestre contasse ou pudesse evitar, duas lágrimas amargas, petrificadas, dolentes correram-lhe pela face amolgada. Não podia crer. Nunca se havia de perdoar. Fora o causador de tão grande e terrível sofrimento. Num misto de aflição e arrependimento, colocou-lhe o braço sobre o ombro. Ela cada vez mais debulhada em lágrimas, soluçando, recostou-se a ele. Permaneceram abraçados, num terrível e brutal silêncio, apenas entrecortado pelos soluços dolorosos e compassados que lhe saíam do peito. Pouco depois o mestre, profundamente arrependido, beijou-a. Na fronte, na face. Pediu-lhe encarecidamente que se acalmasse. Não aguentava. Ia ajudá-la, se ela assim o pretendesse. Como insistisse, ela acabou por enxugar as lágrimas e aceitar. Foram tardes e tardes, na procura contínua daquilo de que afinal ela era capaz. Melhoras, muitas. Provava-se, assim, a sua excelência em detrimento de um descuido que a complacência do mestre, porque apaixonado, lhe perdoara.

Mas quanto acordou e percebeu que chegara ao fim, que via fugir a mulher que mais amara, por quem sentira a maior paixão, desejou voltar atrás. E duas lágrimas, amargas, pérfidas, terríveis, jorraram dos seus olhos. Sentia-se inundado por uma estranha luz, que lentamente se afastava, perdendo a luminosidade, deixando escorrer, em cascata, fios leves e ligeiros, que a tornavam cada vez mais frouxa, quase irreal.

E a luz foi-se desvanecendo, dissipando, extinguindo até se apagar e desaparecer por completo.

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publicado por picodavigia2 às 00:03

PARAMENTOS

Domingo, 12.04.15

A igreja da Fajã Grande, na década de cinquenta não era muito pobre. Seria talvez uma das mais ricas da ilha das Flores. Sabia-se que chegavam muitas ofertas oriundas da América, que a maioria das casas pagava o culto e que as festas, nomeadamente da Senhora da Saúde, São José e Santo Amaro, rendiam bem. No entanto, no que à paramentaria dizia respeito, as alfaias litúrgicas, nomeadamente as casulas ou seja as roupas que o pároco vestia para celebrar missa, eram poucas, velhas, gastas e algumas rotas outras remendadas.

As casulas eram as vestes que o pároco vestia por cima da alva, uma veste branca apertada à cintura com um cordão chamado cíngulo, e tinham como anexos, a estola, o manípulo e a cobertura do cálice, nomeadamente, a bolsa, o véu e a frechola. As casulas eram de cinco cores diferentes: branca, vermelha, verde, roxa e preta. De cada uma destas cores existiam duas casulas, com exceção da branca que, para além das duas usuais, tinha um jogo, composto por uma casula e duas dalmáticas, destinado aos dias de festa, nas chamadas missas de três padres. Pelo aspeto, formato e desgaste percebia-se que quase todas as casulas que a igreja possuía eram antiquíssimas. O pároco responsável pela paróquia desde de 1925, durante esses longos anos, possivelmente, teria comprado duas, talvez quatro. O pároco arrumava-as em dois compartimentos separados. As mais velhas usava-as durante a semana. As aparentemente mais novas ao domingo. No que às de cor branca dizia respeito, a melhor seria uma das adquiridas pelo pároco, pois tinha um formato mais moderno para a época. Era toda branca e debruada a amarelo, como aliás todas as outras. A de semana era muito antiga, sendo o tecido de damasco branco bordado com desenhos simétricos amarelas. No entanto estava bastante rota e remendada na parte da frente. A vermelha que estava destinada aos domingos era de formato igual à branca de domingo e devia ter sido comprada juntamente com ela. Como eram raros os domingos ou dias de festa em que era usada, liturgicamente, a cor vermelha, era a casula que estava em melhor estado. Pelo contrário e assim como a vermelha de usar à semana, as duas verdes eram velhíssimas, muito rotas e usadas. Pescoço redondo, com o debruado muito simples e linear deviam ser do tempo da capela primitiva e que antecedeu a igreja paroquial, o que aliás se verificava com algumas imagens, incluindo a do padroeiro, esta no entanto, substituída por uma imagem nova e maior, em meados da década de cinquenta. Estas casulas estavam em mau estado sobretudo a verde de semana, já nem usada pelo pároco, uma vez que nos dias de féria do tempo comum, em que se usava o verde, celebrava a missa quotidiana dos defuntos com casula preta. A roxa de semana também era muito velha e em mau estado. A roxa de domingo e a preta eram as melhores, mais novas e mais recentemente adquiridas. A preta de semana estava também em estado de tão grande degradação que o pároco já nem a usava.

Para os dias de festa, nomeadamente de São José e da Senhora da Saúde havia uma casula branca de festa, com as duas dalmáticas. Também eram muito antigas, muito gastas, rotas, mas lindíssimas. De damasco branco, ornadas com excelentes bordados amarelos. Deste conjunto fazia parte uma capa de asperges e um véu de ombros, embora houvesse também uma outra capa branca e um véu de ombros a condizer e que era usado todos os domingos, uma vez que naqueles a missa de domingo terminava sempre com a bênção do Santíssimo, durante a qual e, após se cantar o Tantum Ergo, o pároco o colocava sobre a casula, independentemente da cor desta.

 

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CASTANHOLA

Sábado, 11.04.15

Contava, com muita graça, um dos meus sábios e velhos mestres, quando nós, alunos, revelávamos não perceber lá muito bem o que se aprendia, embora o decorássemos, que os meninos das escolas do Minho, ao aprenderem as primeiras palavras, quando aprendiam a ler, soletravam assim a palavra batata:

- Bê-á bá, bá, tê-á tá, tá, tê-á tá, tá. Castanhola!

E acrescentava para os menos doutos:

- É que no Minho, entre o povo, a batata é designada por castanhola.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:13

ADELAIDE SODRÉ

Sábado, 11.04.15

A poetisa Adelaide Sodré nasceu em Angra do Heroísmo, em 17 de Maio de 1903 e faleceu em Paris, em 1982. Foi funcionária da Caixa Económica do Montepio Terceirense. Em 1928 foi para a Madeira, já com a intenção de ingressar na vida religiosa e começou por trabalhar no Hospício D. Maria Amélia, sob a direção das Irmãs Vicentinas. Daí partiu para Paris onde professou na Casa Mãe dedicando-se ao trabalho da enfermaria.

Era uma inspirada poetisa que publicou em diversos jornais, mas nunca reuniu em livro a sua poesia. Foi premiada nos Jogos Florais da Câmara de Angra de 1924. Em 1937, Elmiro Mendes, seu amigo da juventude, reuniu num opúsculo seis sonetos, em sua homenagem. Monsenhor Machado Lourenço incluiu uma recolha de poesia de Adelaide Sodré no seu trabalho Três poetisas angrenses.

Obras. Sonetos e Antologia in Três poetisas angrenses.

Dados retirados do CCA – Cultura Açores

 

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publicado por picodavigia2 às 00:32

OLHARES

Sexta-feira, 10.04.15

O Royal Queen nem sempre abarrotava de gente. Por vezes, clareiras de ponta a ponta, mesas desertas, cadeiras vazias e espaço, muito espaço livre. Henry sentava-se sempre em frente à janela. Geralmente a ler. Tardes inteiras havia em que percorria dezenas de jornais e revistas, informando e recreando-se. Apesar de ter ao seu dispor todas as revistas e jornais do café, no entanto, muitas vezes, optava por divagar, olhando para aqui e para além, para um ou outro cliente, alguns deles, também embebidos na leitura. Outras vezes, sobretudo nas tardes de chuva, entretinha-se, simplesmente, a olhar para rua. Tinha como divertimento pessoas e carros a chapinhar na calçada por entre as bátegas da chuva.

Certa tarde em que abdicara totalmente da leitura, deu de caras com uma mulher, sentada à sua frente, a duas ou três mesas de distância e que o fixava profundamente. Desviou o olhar. Mas pouco depois tornou a voltar-se na direção da enigmática personagem. Ela mantinha-se, simplesmente, a olhar para ele, a fixá-lo decisiva e avassaladoramente. Ele a simular desconhecimento de tão estranha persistência. Ela de olhar sempre fixo. Nem disfarçava. Não tirava os olhos dele. Um olhar terno, comunicativo e profundo. Penetrava-o. Entrava-lhe pelo corpo. Derretia-o. O mais sublime olhar com que alguma vez havia sido confrontado. Parecia anestesiá-lo. Que se lixassem os jornais, as revistas e até os clássicos da literatura mundial, divulgados em fascículos suplementares por um ou outro jornal. Abdicava por completo da leitura. Que nunca mais se fosse embora aquele olhar! Que nunca mais se afastassem dele aqueles olhos! Estava fascinado. E ali ficou enquanto houve olhar. Por fim, ela, elegantemente, levantou-se, dirigiu-se ao balcão, pagou o café e encaminhou-se para a porta de saída. Ao passar em frente de Henry, dirigiu-lhe um novo olhar a que misturou um leve e doce sorriso. Saiu, deixando atrás de si um rastro de petrificação e desalento. Ele ficou só, imerso num profundo e delirante alvoroço.

No dia seguinte lá estava. Ela também. O mesmo olhar ténue, limpo, doce e profundo. Reparando com mais atenção pode verificar que era uma mulher, bela, simpática, atraente e muito interessante. Casada? Bem casada ou mal casada? Isso pouco importava. Se lhe dirigia aquele penetrante e outorgado olhar era porque o queria, o desejava. Talvez até o amasse. Henry feliz, embevecido já a imaginava a entregar-se-lhe ávida, desejosa pura e virgem. Com as mãos trémulas afagava-a, percorria-lhe todo o corpo doce e meigo. Ela respondia-lhe com doces e sublimes convulsões. Vagia em delirante e disfarçada aflição. Por fim os corpos suados, cansados, intumescidos mas delirantes e vivificados voltavam a entrelaçar-se num reboliço empolgante e por jungiam-se lado a lado, quietos, repousantes a refastelarem-se nos enigmáticos meandros duma paixão acabada de consumar-se. Henry cobria-a de beijos, de carícias, de mimos.

Voltou-a vê-la, dias de pois. Várias vezes. No Royal Queen, na rua, no Parque, à entrada do local de trabalho. Sempre o mesmo olhar a simular desejos obstruídos. Sempre a mesma dúvida sobre uma paixão oculta. Um deserto de ignorância. Nunca lhe falara. Apenas lia as inebriantes mensagens estampadas no seu profundo e doce olhar. Nem sequer sabia o seu nome. Nem nunca o soube, Chamou-a de Queen em homenagem ao local onde a descobrira, onde lhe lançara o primeiro olhar e porque, na verdade ela era uma verdadeira rainha.

A sombra do silêncio ameaçou desfazer-se, numa tarde de Outono. Aproximava-se um fim-de-semana, fútil, desinteressante, igual a tantos outros. Nos corredores do velho solar corriam vultos transparentes, apressados, como ramos de árvores acossados pelo vento em noites de invernia. Um acomodou-se. Queen! Mas assim como apareceu depressa se sumiu, deixando a doçura do seu profundo olhar, o odor do seu sorriso transparente. Dias e dias se seguiram com ela a amordaçar-lhe o destino. Simplesmente com olhares. Olhares que falavam mais do que as palavras. Olhares eternos, infinitos e transcendentes.

Mas, infelizmente, eram diálogos derrelictos, gorados. Tudo se esvaneceu como o fumo lento que em cachões esbranquiçados se evola das chaminés e se perde, para sempre, nos ares.

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publicado por picodavigia2 às 00:27

A CANADA DA FONTE (NA ASSOMADA)

Quinta-feira, 09.04.15

A Canada da Fonte ficava perto da minha casa. Era uma viela exuberante, plena de magia. Haviam-na plantado logo a seguir à primeira curva de quem, partindo da Praça, subia a Assomada. O mais interessante para mim, nos meus tempos de criança é que a Canada da Fonte como que desenhava um semicírculo ao redor da minha casa, formando uma espécie de auréola, de que eu me sentia o centro

Na verdade, a Assomada, embora fosse uma rua retilínea, tinha, ao longo do seu extenso percurso, algumas minúsculas e típicas canadas a aumentar-lhe o casario. Umas com meia dúzia de casas outras com uma ou duas. Algumas desertas. Mas todas pequenas, estreitas e sinuosas. A Cana da Fonte era uma das mais extensas e com maior número de moradias. Iniciava-se num largo que existia em frente à casa das senhoras Mendonças e onde havia uma fonte que lhe daca o nome. Na década de cinquenta moravam nesta espécie de braço principal da Assomada apenas quatro famílias. Tio José Pureza, o António Augusto que durante muitos anos foi o regedor da freguesia, o João de Freitas e o José Fagundes, o que lhe dava uma densidade populacional relativamente baixa. Morariam ali umas umas quinze ou dezasseis pessoas. Em tempos idos, no entanto teriam sido mais, uma vez que havia ali mais alguns edifícios, nesta altura transformados. Uns serviam de casas de arrumos, outros de palheiros de gado. Mas todos, outrora teriam sido casas moradias, pelo que quase triplicaria o número de habitantes desta canada. A canada, desde o seu início até à casa do João de Freitas, possuía uma largura assinalável, pelo que mais se poderia considerar um caminho, por onde passava, à vontade, um carro ou um corsão puxado por uma junta de bois. Afunilando-se logo a seguir à fonte e prolongando-se de seguida numa pequena reta, a canada iniciava-se com a casa do Tio José Pureza, à esquerda de quem nela caminhava, partindo da própria rua da Assomada. Do outro lado duas casas de arrumos. Seguia-se uma curva, a formar um ângulo de noventa graus, prolongando-se, novamente em reta, na direção sul norte. Era em frente à casa do João de Freitas, precedida por uma outra, nessa altura já palheiro, que a canada da Fonte como que terminava, pese embora, de seguida, se prolongasse por uma vereda, atravessando uns terrenos agrícolas ali existentes. Ligava-se a uma outra vereda, esta sim, uma canada no sentido pleno da palavra, com início junto à casa do Catrina e a prolongar-se pelo Pico dentro, paralela às Courelas.

Quantas vezes atravessando a terra da porta de meu pai que separava o pátio traseiro da minha casa da velhinha Canada da Fonte, eu, a correr como um louco, ia postar-me num maroiço a brincar e a apreciar os que iam e vinham percorrendo aquela canada. E não eram poucos. Uns, os que ali moravam na sua faina diária de idas e vindas. Outros familiares que ali vinham de visita. Mas muitos eram também os que por ali passavam, ocasionalmente, na mira de encurtar caminho entre o fundo das Courelas e o Cimo da Assomada. Sobretudo as mulheres que, além disso evitavam passar à Praça e serem miradas pelos homens que ali se sentavam, a bisbilhotar, a falquejar e tecer comentários a quem por ali transitava. Sobretudo às mulheres. Hoje, muito provavelmente, a Canada da Fonte que ornava e dava mais graça à minha casa e que eu guardo na memória cheia de pessoas, de vida e de movimento, ter-se-á transformado num deserto mítico, abandonado.

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publicado por picodavigia2 às 00:18

AS TÂMARAS DO GIL

Quarta-feira, 08.04.15

O Gil morava na Rua Direita. No entanto, como a casa ficava um pouco afastada da rua, com a casa de Tio José Luís pela frente, a casa do Gil tinha dois acessos que a ligavam à rua Direita. Um deles era uma pequena canada em forma de L, com o vértice no curral do porco, paredes meias com o lado norte do adro da igreja. Era por aí que se tinha acesso à porta da cozinha e também era por aí que o Gil entrava e saía com as vacas uma vez que o palheiro e a casa de arrumos ficava ao lado da casa. Acresce dizer-se que as vacas do Gil usavam belas campainhas, com sons inconfundíveis e belíssimos, Era também por esta canada que se tinha acesso à cozinha do José Natal. De resto mais nada por ali. O outro acesso à casa do Gil, o principal e o mais importante, era feito através de um estreito e comprido pátio, contiguo a um chafariz que havia na empena sul da Casa do Espírito Santo de Baixo e que ligava a porta da sala da casa à Rua Direita. Era pois a entrada nobre, por onde entrava a Coroa do Espírito Santo ou saía um funeral. Junto ao portão desse pátio, à direita de quem entrava, havia uma enorme tamareira, árvore pouco vulgar e muito rara na Fajã Grande, uma vez que se trata de uma espécie com habitat em climas mais quentes. Era, no entanto, uma tamareira diferente das do deserto, assemelhando-se a ima árvore mediterrânea. Nesses tempos da década de cinquenta, a escola primária que já era mista, funcionava no edifício da Casa do Espírito Santo de Baixo. A tamareira era uma enorme árvore que dava uns belos frutos chamados tâmaras. Quando maduros eram muito saborosos, tinham uma cor amarelada e um cheiro delicioso. Mesmo apanhadas verdes elas amadureciam facilmente, sobretudo se colocadas no escuro.

Ora a tamareira do Gil para além de dar uma fresca sombra a quem ali se sentasse a descansar, na primavera enchia-se de pequenas flores, que pouco depois se transformavam em belos e apetitosos frutos. A ganapada da escola, durante os recreios é que não lhes dava tréguas. Uns atrás dos outros, por vezes dois a dois, mas sempre às escondidas do Gil ou da sua irmã, a zelosa Ricardina, os garotos mais triqueiros subiam a árvore, papavam todas as tâmaras maduras e enchiam tudo quanto eram bolsos das calças e mangas de froca amarradas na ponta com as verdes que depois guardavam em casa, geralmente, no escuro, entre roupa, até elas amadurecerem As caixas e os armários onde as guardavam cheiravam que era um consolo. O pobre do Gil é que ficava a ver navios, isto é, sem tâmaras maduras ou sequer verdes. O Gil, por altura dos recreios escolares, geralmente, não estava em casa. Era a irmã, a Ricardina que vinha enxotá-los. Como era um pouco lenta, quando chegava junto da árvore de garrancho na mão, xou xou como se estivesse a enxotar galinhas, já os monços haviam fugido a sete pés, de bolsos cheios de tâmaras. O Gil era mais rápido e em vez de garrancho trazia um forte bordão de nespereira. Bem mais perigoso. Muitas vezes nem havia garotada na árvore. Só para ver a Ricardina de garrancho ou Gil de bordão assomarem à porta, bem gritavam, do meio da rua:

- Ó Giiiiiiiiiiiiiiiiil! Olha os monços nas tâmaras.

O Gil ao aperceber-se do embuste ainda mais furioso ficava:

- Deixa estar que ainda te vou apanhar um dia e vou pegar-te pelo papel da barriga e dar contigo contra uma parede, grande sanababicha.

Então de longe para não serem apanhados, lá vinha a cantilena, uma espécie de “Hino do Gil” que a ganapada toda sabia de cor:

 

Gil da Costa,

Caga bosta,

Tem um cão

Que caga pão,

Tem uma gata

Que caga nata,

Tem uma velha

com um facão 

Que rapa merda

Todo verão.                     

 

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publicado por picodavigia2 às 05:00

SUBIR A ROCHA

Terça-feira, 07.04.15

Quando eu era criança adorava subir a Rocha da Fajã Grande. É verdade que era uma tarefa árdua, cansativa e desgastante. Eram trinta e duas voltas, cheias de degraus e pedregulhos. Sempre a subir. Mais de trezentos metros. Mas era gratificante, muito belo e adorável. À medida que se ia subindo, sobretudo a partir do Descansadouro ou da Furna da Caixa, começava a desfrutar-se de uma bela vista sobre a Fajã Grande. As relvas, as terras de mato, os cerrados lavradios, as casas, as ruas, o baixio, o cais, o Monchique e a Baixa Rasa. Tudo se via lá do alto como se fôssemos a bordo de um avião. Além disso as voltas da Rocha estavam plenas de fascínio e magia. Algumas tinham nome, outras destacavam-se por nelas existir uma furna. A primeira, a maior e a mais útil furna, era a do Peito. Situava-se logo no início da subida, na décima volta e tinha a forma de uma grande caverna encravada num sítio mais saliente e pedregoso da Rocha cuja forma se assemelhava a um gigantesco peito humano. Por isso se chamava “Furna do Peito”. Esta furna tinha uma dupla finalidade pois servia de abrigo da chuva, de proteção dos ventos e resguardo dos temporais, mas em dias de bom tempo também era útil, pois era lugar de descanso, de repouso e de retoma de fôlego. Mas era também uma espécie de templo rústico, onde entrava quem subia a Rocha, sobretudo quem sentia medo ou revelava maior cansaço e dificuldade durante tão íngreme escalada. A entrada na furna do Peito dava ânimo, fornecia calma, tranquilidade e, sobretudo, a esperança de chegar ao cimo, livres de qualquer perigo ou salvos duma eventual derrocada. Por isso havia sido colocada, numa das paredes interiores da furna, uma grande cruz de madeira. Ao redor de todo o seu interior havia-se construído uma espécie de bancada feita de pedras toscas, onde os transeuntes que ali entravam se sentavam a descansar e a retemperar forças. Muitos homens sentavam-se ali para fumar um cigarro e os que iam ao leite, por vezes, combinavam encontrar-se ali, a fim de subirem em conjunto. Por sua vez, a Furna da Caixa, situada a meio da Rocha, era bastante mais pequena, tinha muito pouca profundidade e situava-se, rigorosamente, a meio da subida. Quem ali chegava, pelo menos, tinha a certeza de que já galgara a primeira metade de tão escabrosa ascensão. Na volta onde se situava esta furna havia uma espécie de miradouro ou descansadouro, com um muro protetor e com uma banqueta em forma de semicírculo e que servia simultaneamente de local de descanso e de observação uma bela vista. Ao perto o verde das relvas da Figueira e das Águas e as terras de mato do Pocestinho e dos Paus Brancos; mais além as belgas da Bandeja e das Queimadas, os cerrados do Alagoeiro e do Mimoio e depois as casas com o vermelho escuro dos telhados a misturarem-se com o verde amarelado das courelas. Por fim e a delimitar a imensa fajã a mancha negra do baixio, recortada por caneiros e enseadas a entrelaçarem-se com o oceano imenso e infinito onde se haviam cravado desavergonhadamente, lá ao longe, a Baixa Rasa e o Monchique. Finalmente, logo a seguir à Fonte Vermelha, a mítica Furna dos Dez Réis, a última, a mais pequena e, provavelmente a mais profunda. Tão pequena que nem uma cabeça humana caberia na sua entrada, tão funda que não se lhe conhecia a profundeza. Era no entanto uma das mais importantes e mais almejada de atingir por todos os que subiam aquele inexaurível alcantil. Por um lado, chegar à Furna dos Dez Réis era ter a certeza de que faltavam apenas dez voltas para chegar à cancela do cimo da Rocha. Por outro lado aquela furna tinha um poder mágico e sobrenatural: quem metesse lá dentro uma mão bem fechada e formulasse um desejo que não fosse muito ambicioso, esse desejo ser-lhe-ia concedido. Mítica também era a Fonte Vermelha com a sua água fresquíssima e saborosa. Água puríssima e como que miraculosa, a daquela fonte, porque suavizava o cansaço, balsamizava o esgotamento físico de quantos por ali passavam quotidianamente e sobretudo dos que subiam aquele alcantil escarpado e abrupto apenas de vez em quando. A água era pura e fresca e servia para saciar a sede, descansar o corpo e aliviar a tormenta. Dizia-se que era a melhor água da ilha das Flores, A fonte era contínua, permanente e eterna. É que a água jorrava, incessantemente, de uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou de sanguinho, para ter acesso mais higiénico e eficiente ao consumo do cristalino e diáfano fiozinho. Parecia que quanto mais se bebia mais água brotava do tufo. Todos os que por ali passavam dela bebiam todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam e o mais curioso é que a fonte nunca secava. Corria sempre, dia e noite, jorrando um frágil mas contínuo veio, lá bem do interior da terra. Mesmo que ninguém a procurasse para beber, a água continuava a brotar e caía solitária mas sussurrante, formando, no chão, uma poça que, depois de cheia e de nela os animais também beberem, ainda escoava pelos degraus e encostas da Rocha, transformando-se num pequeno regato e enchendo com tons de verde, sons de suavidade e aromas de frescura todo aquele maravilhoso lugar – o lugar da Fonte Vermelha. Mas o que eu mais gostava era de chegar ao cimo da Rocha. Após o portal de entrada na primeira relva havia um largo, no cimo do qual existia uma enorme e bem desenhada bancada, protegida do vento norte por uma alta parede, Era aí que descansavam os homens que vinham dos lados do Queiroal, do Bracéu, ou do Curral das Ovelhas. Aproximando-me da beira da rocha observava o baixio com os seus recortes negros, começando na enorme baía da Ribeira das Casas e do Rolo, depois o Cais, a Ponta dos Pargos, onde se divisava perfeitamente a Poço do Cobre, uma espécie de piscina natural, com um calhau no meio. Era aí que a maioria da rapaziada aprendia a nadar, depois de fazer uma pequena iniciação na Poça do Farol. Quem conseguisse ir ao Corvo, isto é ao tal calhau do meio da poça tinha passaporte para ir nadar para o cais. Depois o Poceirão, com o Calhau da Barra espetado à entrada e já próximo da eira o Caneiro do Porto. Depois a baía da Via d’Água, o Rolinho das Ovelhas, Respingadouro, o Caneiro das Furnas, a Ponta da Coalheira, a Retorta, o Redondo e a Poça das Salemas, onde naufragou a Bidarta, já quase tapada pelo Pico da Vigia, A sul ainda era possível observar toda a zona da ampla Fajã, desde da Rocha até ao mar, incluindo a Cuada e a Fajãzinha. Uma adorável vista! Um belíssimo espetáculo!

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publicado por picodavigia2 às 08:02

MEMÓRIAS DE PAI CRISTIANO

Segunda-feira, 06.04.15

Tio José Cristiano e a mulher tia Margarida tinham um filho único e ele morreu na Rocha. Joaquina tinha dois anos quando a mãe Maria José ou de Jesus Teodósio morreu e eles adotaram-na, criando-a e educando-a como se duma filha se tratasse, por isso ela os tratava por pais. Depois de casar Joaquina ficou vivendo com eles. Uma filha de Joaquina, falecida há poucos anos ainda se lembrava dele. Consta que a mulher Margarida terá enlouquecido pouco tempo depois de Joaquina casar. Assim rerá vivido durante 7 anos antes de morrer, transformando a vida de Joaquina e tornando-a bastante difícil. Tratar dela exigia muito trabalho. Para além de tratar e olhar por ela dia e noite tinha muitos filhos para criar. Eram tempos difíceis, com muitas carências e sem terem nada. Pai Cristiano, como todos lhe chamavam, quando morreu já tinha mais de 80 anos. Joaquina estava à espera de um filho a quem pôs p nome de Cristiano em memória daquele que a criou e foi seu pai de peito. José Cristiano faleceu em 1922. Já há algum tempo que estava doente e de cama. Num dia levantou-se e foi à missa. Depois disse a Joaquina que estava um Álamo no Cabeço da Rocha, que precisava ser cortado, que o queria ir cortar. Joaquina opôs-se radicalmente. Não o queria deixar ir. Mas ele não lhe deu ouvidos e lá caminhou com o seu machado às costas, Fontinha acima, até à Laje da Silveirinha. Era aí que havia uma canada que dava para o Cabeço da Rocha. Passaram-se horas, o dia chegou ao fim e Pai Cristiano não chegava. Foi Ti’Antonho do Alagoeiro que estava numa terra das Queimadas que se apercebeu do que acontecera. Foi lá a. correr, apesar de ter uma hérnia e encontrando-o já morto, trouxe-o às costas até a casa. Mas Joaquina, sabendo onde ele estava, já mandara lá alguém. Diziam os que o encontraram que ele estava sentado numa pedra, mas morto e tinha dado apenas uma ou duas machadadas no álamo. Tinha tirado o chapéu da cabeça e começara a rezar, pois tinha um terço na mão. E assim se acabou a sua vida na Terra. Na década de cinquenta ainda lá estava e era bem visível a pedra onde ele tinha morrido.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:36

O COMPASSO PASCAL

Domingo, 05.04.15

Hoje, 5 de abril, domingo de Páscoa as ruas da cidade de Paredes, como aliás de quase todas as cidades, vilas e aldeias do norte do país enchem-se de alegria, de música, de sons, de flores de cores, de sabores, de convívio e de partilha. É o compasso pascal! Trata-se duma tradição cristã que consiste na visita à casa de cada família que, eventualmente, a queira receber, do crucifixo levado por e de um pequeno grupo de paroquianos, com ou sem o seu pároco, liderados pelo Juiz da Cruz. O cruxifixo representa a presença de Jesus ressuscitado. O grupo, anunciado pelo toque de campainhas e do ribombar de foguetes, nalguns casos acompanhado por uma banda de música, percorre as várias casas dos outros paroquianos que manifestem vontade de receber esta visita de Jesus Ressuscitado no dia de Páscoa. Em cada uma das casas, após uma bênção inicial, moradores e convidados, familiares, vizinhos e amigos beijam a cruz como demonstração de respeito, alegria, crença e adoração. À frente vem normalmente um ou dois jovens cada um com uma sineta, que toca com maior intensidade anunciando a chegada da Cruz. Ao entrar, a casa é aspergida com água benta e anuncia-se a ressurreição do Senhor Jesus Cristo. De seguida é dada a cruz a beijar, começando sempre pelo chefe da casa.

A esta tradição tem-se associado diferentes formas de receber essa visita, ocasionadas por fatores diversos, alterando-a num ou noutro aspeto. Mas a verdade á que ela continua a ser encarada como uma forma de confraternização dos membros da comunidade paroquial, com a partilha de alimentos, alguns específicos desta quadra pascal. É também comum ser aproveitada para oferta de donativos pecuniários à paróquia, através do tradicional envelope entregue ao Juiz da Cruz. Na cidade de Paredes, como nas maiores localidades do norte são várias as cruzes que percorrem as ruas entrando nas casas que manifestam a vontade de receber a visita. Este desejo é assinalado, colocando junto à entrada um pequeno tapete de flores e verduras. O encerramento e recolha das cruzes é anunciado pelo toque da sirene dos bombeiros, A Visita ou Compasso Pascal é, na verdade, uma tradição cristã que se continua viva e que parece ter as suas origens na Idade Média. Geralmente tem lugar no Domingo de Páscoa, podendo, no entanto, acontecer na segunda-feira ou no domingo seguinte, conhecido como domingo da Pascoela, no caso de freguesias maiores. O Compasso pascal continua pois a consubstanciar.se e a impor-se como um ritual que faz parte do património imaterial e das memórias de todos quantos o vivenciaram ao longo dos tempos. Para muitos cristãos do Norte de Portugal, a visita pascal representa um dos momentos mais esperados e festejados da celebração da Páscoa e até de todas as festas anuais, sendo, nos meios rurais, uma ocasião de arranjar, limpar e, por vezes, restaurar a própria moradia, uma vez que se trata de uma das festas mais marcantes de cada ano. Por volta da meia-noite, em cada aldeia estoiram foguetes. De manhã, após a missa, tocam os sinos e sai o compasso. Vizinhos, familiares e amigos visitam-se reciprocamente e apressam-se a desejar "Feliz Páscoa" uns aos outros. Em muitas localidades ainda se atapetam as ruas e os caminhos com flores. Grupos de pessoas correm de casa em casa, não esquecendo um vizinho, pobre ou rico, um amigo. É um reboliço! Há risadas e gritos. Beijos e abraços. Em cada casa põe-se uma farta mesa de iguarias, doces e salgadas, vinho do Porto, vinho corrente, e outras bebidas.(Net). O dono da casa ou a pessoa mais velha convida os visitantes a sentarem-se um bocadinho, oferecendo-lhe da "mesa" onde nada falta, desde o pão-de-ló até ao "sortido", doces passando pelo vinho do Porto, vinho da última colheita, geropiga ou algum licor ou aguardente. Quem quer abeira-se da mesa e come sem cerimónia. Por volta do meio-dia, recolhe o compasso a casa do Juiz da Cruz para os elementos que o compõem irem almoçar. O rei é o cabrito assado ou o borrego. No final, uma girândola de foguetes diz que o "almoço" já terminou e que o ritual vai continuar da parte de tarde, visitando os restantes lugares e casas da freguesia.

 

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publicado por picodavigia2 às 01:10

JUNCALINHOS

Sábado, 04.04.15

Juncalinhos era o nome de um lugar da freguesia da Fajã Grande. Situava-se no mato, na zona do Curral das Ovelhas e do Rochão, mas à beira da rocha, por cima da Rocha dos Paus Brancos. Era um lugar muito pequeno, cujo espaço era apenas ocupado por algumas relvas, onde era lançado gado alfeiro. A grande distância a que ficava do povoado impedia que se colocassem lá vacas leiteiras, uma vez que exigiam uma deslocação diária aquele local para, no mínimo, se proceder a uma ordenha diária.

O seu nome terá, naturalmente, a origem na palavra juncal, ou seja um terreno, geralmente húmido, onde crescem juncos. O uso do diminutivo depreende-se, muito provavelmente, do facto de os juncos que por ali cresciam serem de reduzido tamanho.

O junco, na verdade, pertence a um grupo de plantas que crescem, em geral, nos alagadiços. Aquele lugar, à beira da rocha, era muito húmido. Em toda aquela zona crescia o junco, havendo, inclusivamente, mais além, um lugar chamado Rochão do Junco. Aliás exista muito junco na Fajã Grande. Era utilizado, sobretudo, para cama do gado e para brincadeiras das crianças O junco possui um caule cilíndrico, com três fileiras de folhas, e as suas flores, quase minúsculas, são esverdeadas ou castanhas. A pequena vagem que produz, como fruto, contém muitas sementes escuras, que parecem poeira. O junco tem cor verde-escura e flexível, que cresce com frequência e facilidade nas bermas dos caminhos e nas relvas húmidas. Os juncos, antigamente, também eram utilizados para fazer cestas, esteiras e assentos de cadeira.

Em virtude da sua pequenez, das alterações de vegetação que deve ter sofrido e do inacessível acesso, o lugar dos Juncalinhos, muito provavelmente terá desaparecido do mapa fajãgrandense.

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publicado por picodavigia2 às 09:48

A IGREJA PAOQUIAL DE SÃO JOSÉ DA FAJÃ GRANDE

Sexta-feira, 03.04.15

Hoje sabe-se que a atual igreja paroquial de São José da Fajã Grande foi construída no local onde, anteriormente, existia uma pequena ermida edificada em 1755, também sob a invocação de São José. As obras da sua construção iniciaram-se em 1847, ficando a o templo concluído em 1849. A bênção da nova igreja, a que presidiu o ouvidor Francisco António da Silveira, realizou-se no dia 1 de Agosto de 1850. Apesar de tudo, alguns anos depois, a igreja já parecia revelar alguns problemas no que à sua construção dizia respeito, pelo que necessitava de melhoramentos. Coube a um emigrante natural da Fajã Grande, de nome José Luís da Silveira oferecer 14 águias que, juntamento com outros donativos e ajudas do povo contribuíram para o restauro e melhoramento do templo.

Até à década de cinquenta a igreja não tinha bancos. Cada família levava as respetivas cadeiras, onde se sentava enquanto aguardava ou acompanhava as celebrações litúrgicas. Por essa altura colocou-se uma bancada fixa e, com a ajuda do povo, procedeu-se à construção de um salão, por cima da sacristia.

O templo revela uma construção simples mas bela e atrativa, com a porta de entrada voltada a nascente. A fachada principal, a que se une, a sul, uma torre sineira, está dividida por uma estreita cimalha. A parte inferior é de formato retangular, elevando-se do chão até à própria cimalha, sendo apenas entrecortada por uma porta central e duas janelas. Quer a porta quer as janelas também são encimadas por pequenas cimalhas, sendo que sobre a da porta existe uma lápide com datas referentes à construção do edifício e o nome do benfeitor. A parte superior, ladeada por duas colunas com cornija que terminam em botaréus, prolonga a estrutura da parte baixa desde do telhado até ao meio da janela da torre sineira. Depois vai subindo, lentamente, de forma ligeiramente côncava até ao meio, terminando num pináculo central encimado por uma cruz. Centrada no meio uma janela octogonal, com vidros minúsculos. A torre sineira é retangular, encimada por uma cúpula octogonal e uma cobertura em forma de campânula de meia-laranja. Em cada um dos quatro lados existe uma janela sineira, embora a torre possua apenas dois sinos, uma maior, na fachada principal e um menor voltado a sul. Na pare inferior, onde, com acesso apenas pelo interior do templo, se situa o batistério existe uma janela em forma de losango, com vidros de pequena dimensão. As fachadas laterais são simples, quer a do norte quer a do sul, ambas rasgadas por uma porta e duas janelas. Do lado sul, une-se ao templo a sacristia, com duas divisões. A norte o templo comunica com o cemitério. Na parte oeste encastoa-se a capela-mor, atrás da qual se situa uma arrecadação com dois andares, com acesso ao camarim e com porta para o cemitério que lhe fica anexo.

O interior da igreja é de uma só nave, com três altares. Um na capela-mor e dois laterais. Na década de cinquenta, no altar-mor, para além da imagem do padroeiro, estavam colocadas mais duas: a Senhora da Saúde e Santa Teresinha, para além de duas mais pequenas em nichos laterais. O altar lateral do lado da sacristia era destinado à Senhora do Rosário e o outro ao Coração de Jesus.

O templo ainda possuía um púlpito, um coro, um batistério, dois confessionários laterais e no teto da capela-mor estavam pintados os símbolos da nacionalidade. Uma grade separava a capela do cruzeiro e uma outra, ao fundo do templo, separava a zona reservada às mulheres e crianças da zona destinada aos homens. Apenas esta possuía bancos próprios. O acesso ao coro era feito por uma escada, encastoada a norte, logo à entrada do templo. Do coro, através duma porta, tinha-se acesso à torre sineira. O acesso ao púlpito era feito pelo interior da sacristia. A entrada da porta principal estava protegido por um guarda-vento, cujas portas principais se abriam apenas nos dias de festa.

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publicado por picodavigia2 às 09:38


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