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EM VIAGEM

Segunda-feira, 20.04.15

Ainda mal tinha assomado ao portaló e o comandante, no cimo das escadas, já vociferava, berrava, barafustava e bufava por tudo, jurando a pés juntos que eu não sairia em mais nenhuma ilha. Que eu estivera quase a perder o barco… Que se eu tivesse ficado em S. Jorge como é que ia ser… Que tinha saído com obrigação de regressar antes do meio-dia e já eram aquelas horas… Não havia ter-me deixado ir a terra… Que isto e que aquilo… Eu bem argumentava ao contrário e atirava as culpas para os outros, mas que não os contrariara porque eles me tinham tratado muito bem. Além disso o senhor comandante não precisava de se ter preocupado absolutamente nada porque, afinal, eu chegara muito a tempo. Porém, não o demovia da sua relutante impertinência.

Para não o ouvir mais e porque o convés da primeira estava a abarrotar e os tripulantes não condescendiam com a minha presença ali, regressei à terceira classe, conforme indicava o meu bilhete. Por ali fiquei a tarde inteira, junto ao porão do gado, enquanto o navio ronceiro e tranquilo navegava lado a lado com a ilha, na direcção da Ponta dos Rosais, com destino à Graciosa, para na manhã do dia seguinte rumar à Terceira. Sentado em cima dum caixote olhava aquela ilha tão estreita e comprida, que me acolhera e que, aos poucos, se ia tornando mais distante e lembrava-me daquela inolvidável manhã, passada nas Velas, onde fora tratado com tanto carinho e, sobretudo, onde fruíra de amável companhia e granjear a estima e consideração. Não poderia nunca esquecer aquela manhã maravilhosa, pese embora a irritação que havia provocado no senhor comandante. E à medida que o navio se ia afastando de S. Jorge, mais eu recordava aquela manhã em terra firme, sem solavancos, sem balanços, sem enjoos, sem maus cheiros, sem fome e, sobretudo, sem a maldita exacerbação do comandante.

Na Graciosa o Carvalho fez serviço na Praia e ali esteve toda a tarde e grande parte da noite. Apenas de madrugada largou em direcção à Terceira, onde chegou na manhã seguinte, fundeando na baía de Angra e permanecendo ali ancorado durante um longo e enfadonho dia.

Grande parte dos passageiros que viajavam no Carvalho e tinham entrado nas outras ilhas, terminavam a sua viagem na Terceira. Por isso, depois do navio ancorar, a confusão no portaló e corredores anexos era grande. Para desespero meu, o senhor comandante ia terra mas voltava. Desde S. Jorge, nunca mais o vira nem ele me procurou ou dirigiu palavra. Revelando ainda algum ressentimento, veio, no entanto, antes de desembarcar, aconselhar-me o máximo cuidado durante o tempo que ainda me restava de viagem até São Miguel e proibindo-me, determinantemente, de ir a terra, para que não me acontecesse o mesmo que acontecera em São Jorge. Agradeci-lhe, mais uma vez a atenção e decidi ficar a bordo durante mais um longo e pesaroso dia, numa autêntica pasmaceira, sem fazer nada ou coisa nenhuma e, pior do que isso, sem me alimentar, pese embora já sentisse muita fome e uma enorme fraqueza. Na véspera à noite, enquanto o navio fazia serviço na Praia da Graciosa, quis armar-se em forte: entrei na terceira classe, com intenção de jantar. A ementa, afixada num placard, à entrada, era apetitosa e convidativa: bife com puré de batata. Ainda consegui o feito brilhante de me sentar à mesa e ser servido com um prato bem cheiinho do anunciado menu. Levei a primeira garfada à boca… Simplesmente intragável! Além disso comecei a ficar mal disposto devido ao ar sufocante da sala, aos maus cheiros que por ali abundavam, aos óleos fritos da cozinha e ainda porque alguém ao meu lado anunciava, em alto e bom, que aquilo era bife de cavalo. Zarpei dali, numa corrida louca, com uma enorme vontade de vomitar, sem comer uma única dentada, jurando nunca mais voltar àquela espelunca, impropriamente denominada sala de jantar, sobretudo, com o exclusivo intuito de matar a fome. De repente, comecei a sentir uma vasca terrificante e nauseativa. Parecia estar possuído de vibrações caliginosas, aflitivas e angustiantes. Muito a custo, consegui aproximar-me da borda do navio. Num ápice, perante o ricto malicioso dos que por ali passavam, entreguei aos peixinhos, gratuitamente e com uma enorme sensação de dor misturada com alívio, o pouco que no estômago ainda me sobrava do almoço nas Velas.

Passadas algumas horas depois de fundear na baía de Angra, o navio parecia quase deserto. No convés da primeira superabundavam espreguiçadeiras vazias. As pessoas que permaneciam a bordo resumiam-se à tripulação e pouco mais, dado que a maioria dos passageiros em trânsito saíra para terra, visitando a cidade e a ilha. Comecei, pois, a deambular, muito à vontade, para trás e para diante no convés da primeira, ora deitando-me nalguma espreguiçadeira ora assomando à amurada onde me entretinha a observar o Monte Brasil, a Memória, a Igreja da Misericórdia, o Canta-Galo, o Porto de Pipas, enfim, toda aquela maravilhosa cidade que eu apenas conhecia dos livros da escola primária, onde aprendera que tivera um papel preponderante nas lutas liberais, que D. Pedro IV, o Rei Soldado, a apelidara de “Mui nobre, leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo” e que guardava os restos mortais do irmão de Vasco da Gama, ali sepultado a quando do regresso a Portugal do descobridor do Caminho Marítimo para a Índia. Depois olhava a borda do navio e extasiava-me com aquele frenético vaivém de embarcações que ligavam o navio ao cais da Alfândega, numa árdua e contínua lufa-lufa de transporte de pessoas, animais e mercadorias e que aqui eram bem maiores e mais numerosas do que as chatas das Flores, de S. Jorge ou da Graciosa.

De tarde o navio ainda parecia mais deserto e comecei a sentir uma fome terrível. Desde o almoço em São Jorge, no dia anterior, que não tinha comido rigorosamente nada. Além disso, tinha vomitado uma boa parte dele. Optei, pois, por ficar a bordo. Bem vistas as coisas, indo a terra talvez gastasse nas viagens todo o dinheiro que me sobrava. Por isso decidi que seria preferível investir metade dele no bar da segunda, poupar o restante para se precisasse ao chegar a São Miguel e ficar a bordo o dia inteiro. Comprei um pão com queijo, uma laranjada e um chocolate, o que me serviu de alimento durante todo aquele longo e enfadonho dia.

 

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publicado por picodavigia2 às 08:51





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