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ENTONTECIDA

Quarta-feira, 22.04.15

Joana terminara uma relação muito difícil e dolorosa. Deixara-lhe marcas terríveis. Estigmas vivos. Vivera pouco mais de uma ano com Eduardo com quem casara. Desde cedo cuidava que havia descoberto que tinham varias coisas em comum. Que se amavam. Apesar de tudo, nunca se apaixonara verdadeiramente por ele, mas estava convencida de que era o homem da sua vida, o pai de seus futuros filhos e cuidava que ele também sentia o mesmo. Aparentemente, a felicidade seria plena e o amor puro, integro, perfeito. Anunciados os proclamas, preparado o enxoval e convidados os parentes e os amigos, agendou-se a boda. Simples, pequena e singela. A mãe é que nunca se aquietou com a escolha da filha. O mariola nunca a enganara. Levantara muitas suspeitas e receios. A opção da filha não lhe agradava rigorosamente nada. Alertou-a, aconselhou-a, avisou-a e, por fim, até a ameaçou. De nada serviu. A rapariga cismou que era com ele que havia de casar e casou mesmo. 

Não durou muito o himeneu. Começaram as suspeitas, propalaram-se os mexericos, instalaram-se as invejas, agigantaram-se os ciúmes, avolumaram-se as discussões. Impossível continuar aquela relação. A mãe que, na verdade, desde o início se opusera, radicalmente, a tal envolvimento, quando a filha, desolada, lhe bateu à porta, fechou-lha. Perante o desprezo e o abandono da progenitora e porque não estava disposta a ter que se cruzar com aquele sacripanta pelas ruas e vielas do povoado, Joana pisgou-se da Fajã, refugiando-se na Cuada, em casa duma tia que ali vivia sozinha. Para além de a ajudar e lhe fazer companhia, afastava-se do inexaurível cenário onde se havia gerado a sua própria infelicidade. Retirada naquele ermo, isolada entre o verde das ravinas e o sombreado dos arvoredos, muito raramente o havia de encontrar. Talvez o esquecesse mais facilmente.

Na Cuada Joana envolvia-se num silêncio perturbante, numa pasmaceira entontecedora, numa quietude impertinente. Poucos eram os habitantes daquele pequeno, mas idílico, lugar. Rondariam meia centena. Calmos, tranquilos, dóceis e trabalhadores, iniciavam as lides diárias dos campos muito antes de nascer o sol e nem o crepúsculo os obrigava a largar o trabalho. Regressavam a casa já noite escura. De manhã e de tarde as vielas do pequeno povoado eram um rio de isolamento, um fluxo de ausências inebriante. À noite, não se via viv’alma. Um deserto personalizado. Sozinha, sem amigas com quem partilhar mágoas, Joana imergia num abismo de nada, sem alegria e sem esperança, sentindo-se, apenas moralmente, obrigada a ajudar, nas simples e pobres tarefas diárias, a sua inesperada mas solícita paraninfa.

Corajoso e ávido de trabalho, vindo da Fajãzinha, o Porfírio apareceu, por esses dias, na Cuada, contratado pelo Pimentel. Olhos azulados, rosto risonho, salpicado de um misterioso encanto. Comunicativo e assombrado, emaranhava-se, com facilidade, nos mais estranhos e tétricos meandros da tristeza e da solidão, destruía, com facilidade e ousadia, bloqueios, desencantos e ensombramentos. Integrou-se facilmente, o rapaz, na pacatez monótona e rotineira da Cuada. Nada que estranhasse, por quanto a Fajãzinha que o vira nascer e que o criara, afinal não era uma grande e movimentada urbe. E tanto agradou e a ele tanto se afeiçoou o Pimentel que o fez seu fâmulo, hospedando-o em sua própria casa. Ainda nem um mês passara e o rapaz já era tratado como se fosse da família. Dócil, educado, respeitador e com uma vontade enorme de trabalhar. O que o Pimentel precisava.

Ora a casa do Pimentel, já no enfiamento da canada que dava para a Eira da Cuada e para a Fajãzinha, era paredes meias com a da senhora Gervásia, a tia de Joana, onde ela se hospedara. Cedo pois se apercebeu o Porfírio da presença de tão enigmática e deslumbrante personagem que divisava, vezes sem conta, quer por detrás das cortinas brancas das janelas da vizinha Gervásia, quer junto aos currais e pátios da casa, a limpar, a varrer, a lavar, a estender a roupa na corda e a tratar das galinhas. Sem grande ousadia e desejoso de acautelar a imagem que dele havia ter a rapariga, não se descuidou em exagerados olhares, em imprudentes atitudes. Encantado com tamanha beleza, galvanizado por tão solene elegância, tinha, contudo, uma vontade enorme de se aproximar, de lhe falar. Apetências e desejos, geralmente, cerceados, pelo medo, pela timidez, pelo receio de ser mal compreendido ou interpretado. Aquietou-se, pois, inicialmente, limitando-se a vê-la, a apreciá-la, de longe, cuidando que ela não desse por isso. Impossível! Logo de início, Joana apercebeu-se do alvoroço emocional que domava o moço, quando a via e, consequentemente, não se descuidava, nem muito menos se importava de se mostrar.

O dia de quebrar a timidez que de há muito bloqueava o rapaz, chegou numa tarde de abril em que uma abençoada galinha da senhora Gervásia decidiu saltar a parede do curral e pular para a courela do Pimentel, perante a aflição da rapariga que, na mira de apanhar a maldita, saltara atrás dela. Não podia o Porfírio ter melhor ensejo para iniciar as suas investidas. Uma corrida atrás da galinha havia de o aproximar da sobrinha da vizinha Gervásia que, de há muito, não lhe saía do pensamento. Aproveitava da melhor forma a oportunidade que a simples fuga de um galináceo lhe proporcionava. Pelos vistos, ela também o desejava. O intenso envolvimento que os unia ao correr atrás da galinha, também a denunciava-a. Seguiram-se dias de olhares mais intensos, de encontros mais frequentes, de aproximação mais emotiva. Sem galinha, sem medos, sem timidez e sem ressentimentos. Olhavam-se, viam-se, desejavam-se e conversavam, de forma, reciprocamente, denunciadora, pese embora o Pimentel, inicialmente, começasse a coçar as barbichas, preocupado com tal envolvimento. Mas pouco depois aquietou-se. No fundo, eram maiores e vacinados. E a paixoneta do garrano podia ser uma forma de o prender, de o fixar na Cuada. Talvez fosse a garantia de ele ficar por ali, ao seu serviço, durante mais algum tempo. Avançado em idade, os filhos há muito que haviam partido para a América, deixando-o só com terras e gado por cuidar. O rapaz dava-lhe um jeito do caraças. Se no início condenara aquela, aparente, investida amorosa, agora aplaudia-a incondicionalmente. A Gervásia muito agastada com achaques e maleitas, sempre metida em casa, a queixar-se de dores, é que não deu por nada.

O Porfírio cada vez mais enfeitiçado procurava encontros, junto à fonte onde ela ia encher os baldes de água, ao portão quando ela regressava com uma mão cheia de couves ou quando ela própria, atrevida e denunciadora, pedia licença para ir apanhar um raminho de salsa às bandas do senhor Pimentel. Um dia houve em que, de propósito, enxotou as galinhas da Gervásia para que depois viesse a correr atrás delas para as bandas do Pimentel e caísse nos braços dele, como louca, entontecida, a pedir muitas desculpas. Mesmo se uma galinha não lhe fugisse, havia sempre ensejo para se encontrarem, correrem os dois à porfia, cada vez mais envolvidos, cada vez mais emaranhados, cada vez mais apaixonados. Ela já adivinhava, o momento do dia em que ele se levantava e saía para os campos, de enxada ao ombro e foice na mão, assim como as horas a que regressava para a ceia. Postava-se, estrategicamente, aqui ou além, a fim de que ele a visse, que a olhasse, que lhe desse dois dedos de conversa, ou, se mais apressado, simplesmente lhe desse os bons dias. Ele também não se descuidava de a procurar, de arranjar motivos para dois dedos de conversa. Logo que chegava dos campos, embora cansado de ceifar, lavrar, cavar, sachar, vinha logo postar-se sobre o muro que separava as duas propriedades. O Pimentel bem lhe descobrira a marosca:

- Andas a espreitar as galinhas da Gervásia para veres onde põem ovo?!

O rapaz não se coibia e ela aceitava-lhe, de bom grado, com prazer, os devaneios idílicos e os atrevimentos amorosos. Sobretudo aos domingos, em que o Pimentel era mais tolerante para com o fâmulo, dispensando-o das tarefas agrícolas, passavam horas a conversar, a rir, a divertirem-se no meio daquele gigantesco e descomunal silêncio. Na verdade, a Cuada apresentava-se como cenário primordial e genuíno para a vivência de tão grande e inexorável paixão. Aos poucos Joana como que ia renascendo, emergindo da letargia que inicialmente a dominava. Estava mais alegre, mais comunicativa, mais desembaraçada e, sobretudo, mais feliz. Já nem a massacrava, como outrora, o dramático passado, a dolorosa experiência matrimonial que tanto a atormentara, em tempos idos. Mas verdade é que também não sonhava com nenhum futuro. O seu envolvimento iniciava-se e terminava ali. Preferia estar assim, entontecida por aquela quietude, embebida pelo perfume daquele silêncio, como que anestesiada, a saborear, gulosamente, o sabor adocicado de cada dia que a presença dele lhe proporcionava. Sentar-se à tardinha, nas escadas do pátio, à espera, enquanto ele plissava as belgas com o arado ou desfazia os torrões com a grade, ou se vergava ao peso da enxada, carregando molhos de erva e cestos de batatas, numa azáfama desconcertante, cansativa. Tinha pena dele e desejava, ardentemente, aliviar-lhe o peso dos trabalhos, dulcificar-lhe a azáfama diária. E ele? Chegava suado, cansado, ofegante, estoirado mas vinha sempre solícito, meigo e acolhedor, ter com ela, atirar-lhe uma saudação, dizer-lhe uma graça, contar-lhe uma vivência mais divertida. Ela ria, tresloucava, encantava-se, entontecia de delírio. Eram felizes, muito felizes.

Certo dia chegou uma carta da América para o Pimentel. Trazia novidade. Grande novidade. Para o verão havia de chegar à Cuada um dos filhos. Louco de comoção, o Pimentel deu ordens rigorosas que exigiam e impunham mais trabalho, maiores canseiras que cerceavam encontros e obstruíram os devaneios a que se haviam habituado. Os trabalhos eram muitos e o tempo até à chegada do americano pouco. Havia que cobrir inhames, plantar mais uma belga de batatas-doces, pôr galinhas a chocar, engordar um porco, criar um gueixo, caiar a casa, que, nas vésperas da chegada, havia ser lavada de ponta a ponta. Uma desconsolação de corpo e alma. O americano até era bem-vindo, mas o diabo é que estava a dar cabo do que tinham de melhor. E deu!

O verão não demorou muito e o Carvalho que trazia o Gabriel, o filho mais novo do Pimentel, também não. A Cuada em peso foi esperá-lo. Uns até aos Terreiros, outros até à Eira da Cuada. E a casa do Pimentel encheu-se, de gente, de alegria, de cheiro à América. Mas passado um mês ficou deserta. O rapaz, perante a velhice e o abandono a que o pai fora votado, decidiu-se por, vender as terras e levá-lo consigo para América. O Porfírio, em lágrimas, não tanto por ser abandonado pelo patrão, mas mais por saber que seria afastado dela, foi desterrado, definitivamente, para a Fajãzinha.

Por esses dias a mãe de Joana, não contendo as saudades, veio à Cuada. Como já esquecera e já perdoara, ao regressar, trouxe a filha consigo, para a Fajã. 

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