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DIANA

Sábado, 06.06.15

Entrou na sala, pela primeira vez, já o ano letivo teria começado há uns bons quinze dias. Sem se dar conta do feito, armara-se em objetora de consciência ao ensino e, consequentemente, emperrara a sua própria entrada na escola. Contra a sua vontade e para que não se desperdiçasse o abono, uma furgoneta, enferrujada e a desfazer, despejara-a ao portão da escola sem amparo e sem contemplações. Os outros rodopiavam, corriam, saltavam como labregos. Ela com carra de pau, carrancuda e abrupta, enfiada num canto como bicho amedrontado depois de preso em jaula. Nem saco, nem pasta, nem o que quer que fosse trazia, para além daquele corpo esquelético, franzino encimado por um rosto triste e desconfiado, meio coberto por uns cabelos emaranhados, luchosos e desalinhavados. Hesitei aproximar-me. Preferi segui-la, de longe, sem perder de vista, aquele pacote de medo e de indefinição, aquele amontoado de abandono e tristeza. No meio de empurrões e sacudidelas, entrou na aula, apática, indiferente, como se estivesse noutro local, noutro espaço, noutro mundo, onde os seres que a rodeavam falavam uma linguagem diferente da sua. No rosto transparecia-lhe um alheamento perplexo, indefinido e castrador. Passou a aula, em silêncio a olhar para coisa nenhuma. No fim, enquanto os outros vinte e sete saíam aos tropelãos, radiantes e felizes, ávidos de uma coboiada de dez minutos, adiantei-me para que não saísse. Aproximei-me e meti conversa. Muda que nem um cepo. Carrancuda que nem uma tartaruga. Olhos bem cravados no chão, não tugia nem mugia. Insisti e sentei-me em frente, a fim de que nos pudéssemos entender melhor e que ela sentisse que o meu olhar era de respeito, de carinho, de vontade de libertá.la. Começo pelo que, de momento, me parece lhe será mais grato. Tento recorrer a uma linguagem que entenda. Responde com monossílabos, Insisto:

- Teu pai? Onde trabalha?

- Debaixo da terra!

Arrepiei-me. Numa frustrada tentativa de esclarecer percebi que trabalhava em Lisboa, no metro. Depois vieram a mãe, os sete irmãos mais novos, três mais velhos e uma sobrinha. Vida desgraçadas, estraçalhadas, desfeitas, entre escombros, sem recordações, entrelaçadas em percalços, fomes e consumições. Em pequena partira a cabeça contra uma parede, com repercussões na memória e na capacidade de entendimento, que já era frágil. O irmão mais pequeno partiu uma perna e a mãe parira um outro irmão já morto. A casa? Feita de lama e negrume, sem pão, sem alegria, cinzenta e feia. Era ela que cuidava dos irmãos…

- Não gosto da escola. Não gosto dos professores. Os professores são maus.

Na Primária levara porrada da meia-noite. Queria ir para casa. Preferia passar fome do que estar ali presa. Sim, passava muita fome, em casa. Trabalhava que nem uma burra… Mas em casa, agora que o pai se pirara para bem longe, já não levava porrada.

Eu nunca me senti tão impotente e incapaz! Pouco percebia do que ela narrava. Imaginava quase tudo. Entre nós havia uma inquebrável barreira que nos afastava fatalmente, mas que não fora eu, nem ela a construir. Pior! Do lado dela a barreira estava pintada de medo. Medo de tudo. Medo de mim! Medo do professor! Nunca tal me acontecera! Aquietei-me um pouco imaginando quanta dor, quanta angústia, quanto sofrimento lhe enchia o peito. Sorri e, ao de leve, com as costas da mão, acariciei-lhe o rosto negro, intumescido, lavrado de dor e debruado de infelicidade.

Veio mais um dia. Depois dois e três, em que ela alternava vindas com faltas. Quando chegava eu saudava-a com um sorriso meigo e carinhoso e deixava que navegasse no seu mundo de indiferença, onde o ódio que inicialmente imperava, agora parecia ir amolecendo. Diluindo numa esperança fictícia, inexistente.

Uma semana depois, decidi recomeçar, sem saber bem por onde:

- Brincadeiras?

 - Não tenho tempo para brincar. Televisão não tenho. Nunca vou ao café ver. A minha mãe é doente. Está sempre de cama. Não pode fazer nada. Há tempos deu-lhe um fanico. Eu não quero que ela morra. Eu é que limpo, lavo e faço o comer. Agora, meteram-me aqui e não posso ajudar a minha mãe.

- Teu pai? Não vem a casa, pelo menos ao fim de semana?

- Não. Não sei porquê, mas acho que ele anda com outra lá em Lisboa. Se eu pudesse, se me deixassem eu ia era trabalhar. Ganhava dinheiro para comprar café e remédios para a minha mãe. Quero que ela fique boa, não morra. Se ganhasse mais punha o dinheiro no banco para comprar uma casa… Não quero que meu pai venha para casa. Ele já me bateu três vezes com uma corda. Ainda tenho marcas nas costas. A minha irmã fugiu de casa e já teve um filho. Meu pai quase que a matou à pancadaria.

Interrompi aquele turbilhão, aquele mar de mágoas e dores. Apeteceu-me dar-lhe cem escudos, para café para a mãe e pão para ela e para os irmãos. Hesitei. Se alguém soubesse, corria riscos de ser mal interpretado ou até acusado do que quer que fosse.

Á minha frente instalava-se um ano letivo indefinido e indeterminado. Decidi que não me havia de preocupar com o que ela aprendesse ou não aprendesse, mas sim com a maneira como ela se havia de sentir. Para começar, tinha a certeza absoluta de que se ela, que até tinha nome de deusa, Diana, se sentia mal, muito mal.

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publicado por picodavigia2 às 08:01





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