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A ESCOLA MASCULINA

Terça-feira, 09.06.15

Até aos finais da década de quarenta havia duas escolas primárias, na Fajã Grande. Uma masculina, outra feminina. A escola masculina funcionava na loja ou primeiro piso da casa do Senhor Padre Pimentel, sendo um dos seus mais prestigiados mestres, o professor Orlando. Já não frequentei esta escola, uma vez que me matriculei na primária em Abril de 1952, por condescendência da Dona Ana Freitas, professora na então escola mista, que funcionava na Casa do Espírito Santo de Baixo. O professor Orlando era, segundo rezam as crónicas de então, um professor muito exigente e rigoroso, não se abstendo de abonar umas valentes reguadas aos que se distraíam, davam erros ou não aprendiam, mas era um homem de grande cultura e sensibilidade artística. Ensaiou vários teatros na freguesia e compôs alguns poemas que, musicados, ainda hoje ecoam nos ouvidos dos mais velhos. Talvez o mais conhecido tenha sido uma espécie de hino da Rua Direita: Rua Direita, em que eu hoje moro/Ela que enfeita a Fajã que adoro/Novos e velhinhos têm que a passar/E até os parezinhos que vão a casar…

Nesta altura o ensino primário já era obrigatório em Portugal e os rapazes entravam para a escola aos sete anos, só se podendo matricular quem tivesse sete anos feitos no início de outubro de cada ano, data em que abria a escola. Mas a escolaridade obrigatória era apenas de três anos, divididos em três classes, para crianças com idade compreendida entre os 7 e os 12 anos. Quem não obtivesse aproveitamento e não conseguisse o primeiro exame, só podia sair da escola aos doze anos de idade, ficando com o estatuto de analfabeto. Era, pois, necessária a realização do exame do primeiro grau, exame este, extinto mais tarde. Os pais de cada criança eram responsáveis pelo cumprimento desta obrigação, pelo que sempre que ocorresse incumprimento, eram obrigados a pagar uma multa. Assim a maior parte das crianças saía após este 1º exame ou depois de completar com aproveitamento a terceira classe, uma vez que não era obrigatório o segundo exame, após a quarta, o qual só podia ser feito nas Lajes. Aquele exame, no entanto, já era bastante exigente, sendo constituído por uma prova escrita e outra oral. A prova escrita obrigava aluno a um ditado de 8 a 10 linhas, extraído do livro de leitura, uma redação muito simples com o mínimo de quatro linhas e a resolução de cinco problemas de aritmética de uso comum, não podendo envolver qualquer um deles mais de uma operação. As provas escritas tinham uma duração total de cento e vinte minutos, com um intervalo de quinze. Eram feitas numa folha de papel almaço, de trinta e cinco linhas, na qual era vincada, antes do início da prova, a margem de um quarto da largura do papel, na qual o aluno não podia escrever. A prova oral era constituídas pela leitura e interpretação de um texto do livro de leitura do aluno, escolhido pelo professor, por vezes abrindo à sorte, e pela resolução, no quadro preto, de problemas que não envolvessem mais de uma operação. A duração da prova era de quinze minutos por cada examinando e entre as provas escrita e oral havia um intervalo mínimo de sessenta minutos.

Alguns rapazes faltavam com alguma frequência à escola para poderem ajudar os pais, não havendo grande controle no pagamento das multas.

Nesses tempos, na escola, não se aprendia apenas a ler e escrever e a História de Portugal, Aritmética e as Ciências. Havia momentos em que se aprendia moral, religião e bons costumes. Aos sábados de manhã havia escola, geralmente com aulas de canto coral, educação cívica, jogos e brincadeiras. As crianças aprendiam a brincar e a cantar, nomeadamente o Hino Nacional, o Hino da Escola. Consta que aquele professor também ensaiou teatro com as crianças.

Nos intervalos os rapazes corriam para o pátio da Casa do Espírito Santo de Cima que ficava ali perto e jogavam ao peão, o Burro do Lamé, à Barra, ou com a navalha no monte de areia e, embora mais raramente, às pedrinhas.

Os livros e os cadernos eram levados num saco de serapilheira juntamente com a pedra, um retângulo de ardósia encaixilhado numas tiras de madeira, onde se escrevia com um lápis também de ardósia e se apagava com o bafo da boca. O lápis de ardósia que custava dez centavos ia-se amolando e desgastando, mas era preciso aproveitá-lo enquanto escrevesse. Por fim, quando já não se conseguia pegar bem com os dedos, metia-se num pequeno e fino canudo de cana que se ia apanhar à ladeira, onde elas abundavam.

A escola eram um amplo salão com porta e janelas para a Rua Direita e para as Courelas. As carteiras eram de maneira e postavam-se, em filas para a secretária do professor, ao lado da qual ficavam os quadros pretos e um mapa de Portugal e outro do mundo. Pregado na parede um cruxifixo e aos lados as fotografias de Salazar e de Carmona.

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publicado por picodavigia2 às 00:04





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