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CHEGAR AO PICO

Terça-feira, 07.07.15

Chegar ao Pico, de avião, é atirar-se abruptamente sobre pedaços de lava, rebolar-se sobre o restolho do enxofre e emaranhar-se nos resquícios dos vulcões, para de seguida, se amenizar com a frescura das brumas que emergem do oceano, adornar-se com o perfume dos vinhedos a abarrotar de cachos imaturos, aspergir-se com os salpicos da maresia das ondas desfeitas e cerceadas pelos rochedos negros do baixio. Chegar ao Pico é ter a agradável sensação de se abraçar a natureza original, ter à sua espera o sussurrar das fontes secas, o suco adormecido das ribeiras silenciosas e vazias, o vicejar dos feijoais, o desabrochar dos vinhedos, a sombra dos laranjais ainda imberbes… Para trás fica um Porto histórico, encastoado a sul da província duriense, a abarrotar de calor, de pessoas, de fumos, de cansaço e de obras no aeroporto Sá Carneiro. Ressalve-se a praia da Memória assinalada com o monumento que lhe deu nome, gratinada por uma desmesurada calmaria. Lá em baixo é tudo minúsculo e a orla nortenha, de Aveiro a Viana, como que se vai diluindo, aos poucos, até desaparecer por completo, como que envergonhada com o seu estaticismo, mistificado e inseguro. Mas este pássaro gigante que fura os ares, rasga as nuvens e penetra no firmamento a uma velocidade estonteante e vertiginosa, caminha como um louco perdido em deserto, na procura das ilhas de bruma. Sobe e atravessa o firmamento como se quisesse agarrar as estrelas mais distantes. No seu interior um silêncio gigantesco, embrulhado no rom-rom da maquinaria, apenas quebrado pela lufa-lufa da tripulação a servir a tão almejada e anunciada refeição ligeira. Bem ligeira que esta é! Uma sande de fiambre enfeitada com folhinhas de alface e restos de tomate… E tanta comida que havia ontem na Quinta da Lavandeira!

Absorto a tudo isto, este pássaro, gigante enlouquecido, continua a sua correria. Umas vezes, parece enraivecido, e tremelica como um moribundo, mas logo depois se aquieta, como que arrependido. Em breve ultrapassará Santa Maria e chegará à ilha do Arcanjo, que Natália Correia descreveu como …Eterna em chão escasso. Fulva de gado ao dia. À noite morna. Embebida no verde. E o mar colaço. Primeiro a Ponta da Madrugada e o Nordeste a prolongar aquela espécie de torrão pintado de um verde tão verde que jorra por toda a parte, atulhando os campos, cobrindo as montanhas, ornando os caminhos, salpicando a orla das estradas, abalroando as casas e as igrejas, correndo pelo leito das ribeiras e até se refletindo enigmaticamente na pureza imensa e infinita do oceano. Ali tudo é verde! Apenas o céu permanece, na sua essência, azul, muito azul, como se fosse um enorme manto protetor de toda aquela aguarela monumental e sublime. Primeiro o Nordeste coroado pela serra da Tronqueira, enigmático paraíso do priolo. A Povoação com os seus gigantescos socalcos, com as cristas povoadas de Lombas. Vila Franca, orgulhosa do seu ilhéu, a espraiar-se sobre o mar e a Lagoa tranquila, sossegada e sonolenta. Finalmente Ponta Delgada, povoada de igrejas, castelos, palácios, monumentosa, a indicar que o princípio de tudo começa mesmo ali.

Depois de ir saltando de ilha para ilha, por vezes sem lhes tocar, emerge lá no alto, para além das nuvens, o cone vulcânico do Pico, o mais emblemático do arquipélago, quiçá de Portugal. Perde-se e volta a aparecer, num mágico convite como que a querer convidar-nos, como que a envolver-nos num terno abraço. Uma conversa com o reverendo ouvidor da Ilha Montanha, anestesia os sobressaltos de subidas e descidas. Lá ao longe a Graciosa. São Jorge atravessado a meio e, por fim, o Pico na sua imponente plenitude. Ter um carro no aeroporto é uma dádiva dos deuses. Voltinha à chave, depois outra chave e ainda mais uma chave. A terceira é da adega, que espera submissa e ansiosa, hoje como ontem a assumir um papel importante e de destaque no quotidiano da população, nos seus costumes, tradições e até na sua própria economia. Embora vocacionada desde sempre como local de fabrico do vinho e, sobretudo, da sua guarda, a adega transformou-se numa espécie de granja onde, juntamente com o vinho, o bagaço e a angelica e, misturados com barricas e garrafões, se guardavam murmúrios e sonhos ou num granel onde, aos odores opacos e perplexos do mosto a fermentar, se adicionavam e misturavam ressonâncias mágicas e ecos de memórias e tradições, ou seja, num local de sonhos, de fascinações extasiantes e de enlevos arrebatadores. Uma espécie de epicentro da sublimidade, do enlevo, das ausências impostas, das negações forçadas e de carências postuladas, tudo isto motivado por uma insularidade rural, assumida, rústica e mística. Uma coisa é certa: o objetivo primordial, primitivo, único, insubstituível da adega ainda se mantém, porquanto, hoje como ontem e apesar do seu estatuto de multi usus, a adega constitui-se num verdadeiro “santuário”, onde o vinho é deus e o bagaço e a angelica as primícias originais da sua omnipotente e todo-poderosa obra criadora.

Depois há o périplo inicial, obrigatório e tradicional. As primícias evadem-se e enchem-nos de esperança, outorgam rugosidade. Na Funda, nos Cabeços, na Ribeira e no Dilúvio, tudo viceja e floresce. Louvado sejais Senhor por Vos dignardes enriquecerer-nos com frutos da terra!

Por fim, a noite cai e com ela desce sobre a montanha uma bruma sonolenta e triste. A ousadia do barro parece abalroar uma deserta quietude! Pela Páscoa quero voltar a este Pico, pintado de lava, para saborear o Pão de ló que há-de emergir do barro, como o suco vermelho despontará destes cachos ainda verdes e imberbes. Agora há que aguardar que o silêncio da noite desfaça os enigmas deste primeiro dia de férias, senão atribulado pelo menos turbulento. Amanhã nascerá um novo dia, o segundo. Calem-se todas as vozes, para apenas se ouvir o cantarolar das cagarras!

 

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